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Paula Rego p/ Fátima S. Cabral

O que sempre me interessou vivamente como psicanalista no trabalho da Paula Rego, foi, não o desejo de a analisar ou às suas obras, mas a qualidade do seu funcionamento mental que, em determinada altura em que esteve deprimida, foi ainda mais desenvolvida pela psicoterapia que fez; diz ela que ficou “com menos medo e menos vergonha de ser ela própria. Libertava-me a imaginação. A liberdade que cria é totalmente inconsciente. As coisas que aparecem!”, exclama, referindo-se à psicoterapia.         

         Sempre me impressionou a sua facilidade em ir com ironia, com humor e, também, com horror ao mais recôndito da sua mente, aos mistérios do ser humano, aos sentimentos mais terríveis – facilidade pelo menos aparente pois, como diz, “é com muito esforço e muita coragem que chego lá”.

         Sempre me fascinou o modo como é capaz de mergulhar nas suas entranhas, encará-las, contê-las e expô-las transformadas em desenhos, recortes, bonecos, pinturas. É que, para mim, o trabalho dela representa o que é raro e, possivelmente, de génios: conseguir um funcionamento psíquico capaz de ligar o inconsciente e o consciente, a fantasia e a realidade, transformando a dor, dando nome ao inominável, dando forma ao desconhecido, sonhando, pensando, criando e expondo-se.       

         Numa das entrevistas que compõem o livro "Paula Rego por Paula Rego", de que parto para a construção deste texto, ela diz: “Interessa-me pintar aquilo que dói, que me magoa, que arranha, que não é confortável a fazer… borro tudo mal e é preciso apanhar aquilo outra vez, puxar o que desconheço e fazer daquilo uma entidade”.

         E noutra entrevista: “O que interessa é o quadro, o trabalho. Entram coisas no trabalho que nos vêm informar do que se trata o que estamos a fazer. É só fazendo que se descobre o que estamos a fazer. Sobre o que somos e mesmo fora de nós próprios. O que nós somos não tem grande importância. Há mistérios e enredos que se passam no mundo imaginário, que são muito mais interessantes do que nós”. E Anabela Mota Ribeiro, a autora do livro, pergunta: “Esses enredos também fazem parte de nós?”. “Muitas vezes não. Têm mistérios e contam histórias que não ouvimos nunca. E isso é fascinante”.

         Este trabalho – a que os psicanalistas chamam “trabalho de sonho” - é também o que a psicanálise pretende ajudar as pessoas a fazer. Falando do funcionamento mental de uma forma muito superficial e esquemática, as pessoas ou funcionem estando completamente perdidas na fantasia, não tendo em conta a realidade (em que a área psicótica da mente predomina); ou, ao contrário, estando completamente presas à “realidade” (não sonham, uma mesa é apenas uma mesa, um cão é apenas um cão, tendo pavor à metáfora, à incerteza). O trabalho na análise será então o de tentar flexibilizar, de permeabilizar essa espécie de “pele psíquica”, a que chamamos “barreira de contacto”, permitindo o trânsito entre inconsciente e consciente, a comunicação entre fantasia e realidade, a transformação, a criatividade, o sonho e a realização. O “trabalho de sonho” da análise vai permitir a reconstrução ou a optimização da área transicional da mente: um espaço de ligação/separação, de jogo, de simbolização, de criatividade, de possibilidade de dar novos sentidos e perspectivas. Ou seja, ter um funcionamento mental mais saudável.

         Paula Rego confidencia: "O quadro oferece uma liberdade total. A pessoa pode estar a fazer uma coisa pavorosa e de repente começar a gostar da pessoa que faz coisas más. Há uma atracção pelo grotesco e pela maldade. Não é só não ter medo para não virar a cara. Não. É preciso ter curiosidade”.

         Falando da fase do Pillowman, um boneco muito grande que construiu com meias e um edredon, tudo cosido, e que mais tarde descobrirá que era o pai disfarçado de boneco, diz: “É uma história terrível. Estive muito doente – uma depressão – não é a solidão a que já me habituei porque sempre a tive. É o escuro. Medo do escuro como as crianças que querem a luz acesa. Mas nós estamos sempre no escuro e os medos chegam muito perto de nós; não é medo de morrer; é medo do medo, de uma coisa indefinida. Se eu pudesse dar cara ao medo, estava bem, não havia perigo. Mas quando não se pode, é uma chatice. Os bonecos são sair, sair... Desenrolar as ligaduras e sair. Fiz muitas figuras ligadas e depois desliga-se e já se pode a pessoa mexer melhor. Oxalá, nunca se sabe...”.

         A sabedoria de Paula Rego fá-la afirmar ainda que “pintar é uma forma de contar histórias, de dar uma forma, uma ordem à vida. A natureza humana é o que está dentro de nós – zangar-se, ter raiva –, não pode sair por outro lado, então sai pelos quadros”.

         Sobre a dificuldade em começar um quadro, e chega a pedir que lhe dêem ideias, diz: “Quando a gente está a olhar para dentro é muito mais difícil, não é como desenhar à vista; e muitas vezes não se vê, nem vem nada à cabeça. Mas o que importa é o que se vai fazer a seguir. O encher-me de medo. Pode ser que saia alguma coisa brutal, interessante”. Há também, depois de começar a obra, um grande prazer no lado grotesco, cómico, sexual e nas contradições: “A beleza e o grotesco vêm do amor [...]. Há uma atracção, uma curiosidade pelo grotesco e pela maldade”. E mais à frente: “Há coisas perversas – [o quadro] "Salazar a vomitar a Pátria": não há explicação para a pena que eu tive do Salazar! A contradição está sempre presente, a compensação de sentimentos está sempre presente. O sentimento engana as pessoas permanentemente. É muito importante a pessoa ser honesta consigo própria, com o que sente. Por exemplo, detestarem a mãe ou o pai. Têm a liberdade de sentir, como compensação para a falta de liberdade que existe noutros terrenos”.

         Com a habilidade, a sensibilidade e a curiosidade contida da Anabela Mota Ribeiro, com a sua capacidade de não se impor, de dar espaço para compreender, possibilitando uma abertura mútua para a com-versa (a fala em comunhão) enquanto olhavam os quadros, Paula Rego vai-se abrindo, aparentemente repetindo o que já tinha dito. “Não tenho nada de diferente a dizer”: assim começa a última entrevista. Mas na continuidade das entrevistas nota-se uma intimidade cada vez maior, um encontro com a mudança – a idade, os temas dos quadros -, “o reencontro com coisas passadas e infantis que falam com aquela voz, com urros das crianças: os últimos que fiz vão outra vez buscar coisas aos sítios onde elas já estiveram. [...] Agora há menos sexo. É o tempo, o passado. Pintar salva-me da depressão”. E também, diria eu, o humor que Paula Rego sempre conservou e que salta como quando fala da sua própria “maluqueira”, ou da beleza dos grotescos contos tradicionais portugueses, dizendo, com uma gargalhada, que “é uma tradição um bocado masoquista a mulher cortar os seios para os dar de comer ao marido mas, pelo menos nesses contos, os pais não matam os filhos”.

         João Fernandes escreve no prefácio do livro: “Uma cadeia de simpatia e de curiosidade é gerada no leitor a partir destas entrevistas”. Cadeia essa que repete o que aconteceu ao longo das entrevistas, qual jogo de revelação-ocultação. Eu agradeço a oportunidade única de tentar perceber melhor a riqueza humana, poética e artística de um processo criativo genial, como é o da Paula Rego.

 

 

Texto de Fátima Sarsfield Cabral (psicanalista), lido na apresentação do livro "Paula Rego por Paula Rego", na Bertrand do shopping Cidade do Porto, em Novembro de 2016, e publicado semanas depois no Jornal de Letras.

 

 

 

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