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Paula Rego p/ Manuela Correia

É tão difícil entrevistar como falar sobre Paula Rego. Falar sobre Paula Rego é falar da pintura de Paula Rego, que por sua vez é a vida de Paula Rego, que é a Paula Rego.

Deve-se à inteligência, sensibilidade e intuição de Anabela Mota Ribeiro, a originalidade do dispositivo para construir este livro - cinco entrevistas contínuas ao longo de oito anos, que possibilitam pouco, algum, ou muito conhecimento, e ambicionam uma Revelação. Quem é Paula Rego?

O método para alcançar este fim, foi ouvir e deixar-se conduzir pelas múltiplas vozes de Paula Rego, para chegar à Voz de Paula Rego, num jogo de ocultação e revelação. A Voz está no seu território - o mundo da infância e a infância do mundo. A Voz fala e as histórias contam-se e recontam-se ao longo de oito anos e a entrevistadora deixa-se levar, escuta, habita esse lugar primordial - o espaço doméstico e a liberdade para sentir.

É aqui que o psicodrama se joga e revela - põe e tira, magoa e cuida, mostra e esconde, mata e ressuscita, salva ou condena. Salva-se!

Paula Rego coloca no palco os mesmos temas, recorrentemente - escuro, medo, dor, destruição, violência, vingança, morte, curiosidade, confiança, coragem, ambição, poder. Transgredir para prosseguir - sexo, família, infância, velhice, homem, mulher, amor. Trabalho, trabalho, trabalho. Fazer, fazer, fazer. “Fazer uma coisa que não se consegue fazer”, na fala de Paula Rego.

A persona são figuras, bonecos pintados, cozidos, ligados; imagens e papéis cortados, recortados, colados; bichos, hortícolas e seres biformes; são riscos, traços, posições, acções congeladas no tempo, estátuas emocionais. Tudo eu posso fazer e destruir, tudo eu posso matar. Tudo menos a Angústia.

O caminho das pedras é brutal, de “uma brutalidade sem filtro”, como refere Anabela Mota Ribeiro, pois ele emerge do pensamento mágico e concreto, onde o poder é total e absoluta é a Angústia. Não há filtros, não há pensamento abstracto, não há mentalização. Está sempre escuro, dentro e fora e há sempre uma saída de emergência - um cadeirão dourado para quando está ou se sente ameaçada. Aqui, a escatologia emerge, na forma falada, de uma transgressão total, como podemos ler na página 71 do livro, quando Anabela Mota Ribeiro fala do quadro “A Filha do Polícia”, que tem uma menina com o braço enfiado na bota do pai.

AMR - A aconchegar, seria uma posição mais amorosa. Assim, com a mão lá dentro, é mais uma penetração.

PR - Ok. Há um quadro do Mapplethorpe que mostra uma fist fucking, que é uma coisa homossexual com a mão dentro do rabo. Vem daí.

Um trovão, para continuar viva, para se defender do medo de ter medo, para se proteger da Angústia. Esta é Paula Rego - o mundo mágico, das coisas concretas, tenebroso, onde não há paz. Uma fala concreta para dizer quem é. “Não há nada de diferente para dizer para além dos seus desenhos e dos seus quadros”, diz João Fernandes no prefácio ao livro. E é verdade.

Não conheço todos os determinismos, acasos e circunstâncias que levaram ao seu nascimento. Mas conheço muito bem o lugar que Paula Rego habitou depois do seu Big Bang - um lugar escuro, onde está só, abandonada, possuída por um medo físico. Uma máquina biológica que comia, dormia, desejava e também riscava. A metamorfose do corpo pré-programado para explodir e romper para fora, atravessar o buraco negro “para o mundo, um lugar também escuro mas ainda maior”, sussurra Paula Rego.

Há duas Paula Rego - a que pinta para viver e a que vive para pintar. E para viver tem que pintar e para pintar tem que estar viva. A que vive para pintar, teve uma vida relativamente fácil até às primeiras mortes e à chegada da velhice. Agora tem um obstáculo intransponível que não pode controlar.Tem medo de não ter forças para continuar, para desenhar, desenhar, pintar. Fazer, fazer, fazer. A que pinta para viver, teve sempre uma vida difícil, dolorosa, transgressiva, impetuosa. Trabalho, trabalho, muito trabalho. “No quarto escuro é onde estou. E abrir a porta para ver lá para fora? Está outro escuro. Nem pensar nisso. Desde os três anos começaram a aparecer coisas desagradáveis - o abandono. A solidão. O porco que anda com o rabo de cá para lá a mexer a cabeça”, vai contando Paula Rego.

A sabedoria para sobreviver foi sendo construída, passo a passo, através da pintura, das histórias, das metamorfoses, do mundo mágico que convoca o irracional com um sentido e um devir.

Na vida lá fora estão os objectos de Adoração e Admiração. Os adorados, os do amor incondicional - O avô José e o Vic, seu marido. Já todos morreram. Mesmo, mesmo. Os admirados, os do amor condicional - o bisavô, a avó Gertrudes, a tia, a tia-madrinha, o pai, a mãe. Morreram também, mesmo, mesmo. Só lhe resta os transitivos - a Lila e por vezes outros objectos afectivos, como alguns familiares.

O enigma Paula Rego - “Eu se tivesse de morrer, levava o Anjo comigo. Se eu morresse, morria com ele”. Se, condição de Paula Rego. O Anjo mensageiro, divino e incorpóreo que não está sujeito à dissolução. Nunca morre, é eterno. O Anjo com duas faces - vingador e protector. A espada, a esponja e a ausência de desejo animal.

“Tenho medo da morte tenho.Tenho desde pequenina, não é só de agora. Tinha medo da morte quando entrava pelo meu quarto dentro, aquela morte tradicional”

Eu não sei o que vejo quando estou a olhar para a minha imagem. Só vejo as máscaras. Não sei quem sou. Preciso de atravessar o espelho. Preciso de uma idéia para me salvar. É isso que me dá a vontade de viver, diz a Voz - o que posso fazer a seguir. “Toda a gente precisa, não sou só eu. Toda a gente precisa de encorajamento para conseguir fazer aquilo que gostava de fazer”

Paula Rego necessita hoje, mais do que nunca, de ser surpreendida, ter uma Visão, uma Aparição, de ser salva e cuidada pelo Anjo, precisa de acender a luz - já não há ninguém para o fazer. Necessita urgentemente de uma ideia, de uma outra Voz, de se ver sem máscara, não esconder os verdadeiros pensamentos e sentimentos e de olhar para a Angústia mortal. Dor, medo, muito medo. É preciso muita curiosidade, imaginação e ímpeto. É preciso superar-se. Riscar, riscar, desenhar, desenhar, desenhar. Ver-se, reconhecer-se e suspirar - voar e regressar para dentro dos porcos e coelhos, para dentro do escuro imortal.

T. S. Eliot, “Burnt Norton” - 1º Quarteto

O tempo presente e o tempo passado, estão ambos talvez no tempo futuro. E o tempo futuro contido no tempo passado. Se todo o tempo é eternamente presente todo o tempo é irredimível.

Memória, tempo, passado. Conflitos do futuro. O corpo-máquina gasto, vai um dia parar. Apoptose - morte celular. Agora enrola-se para dentro, fundo, mais e mais fundo. É preciso reconstruir, reparar, refazer, reinvestir. É preciso ter uma ideia, uma liberdade, ter um nome, um coração, uma história para contar. É preciso ter assunto. Tem que ser uma surpresa, pode ser um conto de fadas, uma aparição, uma visão, uma revelação. “É importante ter uma história, pois a parte final é suspiro”, diz Paula Rego. Este quadro ainda está por fazer. Riscar, desenhar, magoar. Ter esperança, ímpeto e continuar sem paz. Quando não pintar a Voz acaba e a vida também. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Agora espera o seu último milagre. A linha invisível de tensão no céu azul, que vai do seu rosto ao do Anjo. A bela e brutal catarse da tragédia da condição humana.

 

PINTO LOGO EXISTO - O MILAGRE PAULA REGO, de Manuela Correia (psiquiatra), foi lido na apresentação de "Paula Rego por Paula Rego", na Casa das Histórias, em Novembro de 2016, e publicado semanas mais tarde na revista digital Blimunda, da Fundação Saramago. 

 

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