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Paulo Pedroso

E se tudo isto tivesse sido um pesadelo? Não foi. E se o disfuncionamento do sistema de justiça o atingiu a ele como atinge dez, cem, mil pessoas todos os dias? E se o escândalo o atingiu a ele para decapitar a cúpula do PS? E se. Dúvidas, perplexidades, poucas certezas. Paulo Pedroso nas alegações finais sobre o processo Casa Pia. Depois disto, vira-se a página.  

Paulo Pedroso num retrato tirado pelo próprio: neto de camponeses, filho de pequenos comerciantes. Gente tenaz perante a adversidade. Viveu num bairro periférico da cidade de Aveiro. Leu livros das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que diz terem sido essenciais na sua formação. Teve contacto com uma bola de râguebi ou um jogo de xadrez num seminário que distava centenas de metros de casa. Frequentou as escolas públicas nas turmas dos melhores alunos. Foi delegado de turma, foi director do jornal da escola, entrou na vida política por via das associações de estudantes. Teve no irmão um modelo.

O resto é do domínio público. Estudou sociologia. Foi o delfim de Ferro Rodrigues. Foi Secretário de Estado, Ministro do Trabalho e da Solidariedade, porta-voz do PS. Tinha uma carreira promissora. Teve a vida interrompida. Foi envolvido num escândalo sexual que abalou o país. Esteve preso quatro meses e meio. Voltou ao parlamento. Deprimiu. Saiu de um país que então lhe era demasiado pesado.

Há cerca de dois meses, o Estado foi condenado a pagar-lhe uma indemnização de cem mil euros. Ganhou a acção que interpôs por prisão ilegal no âmbito do processo Casa Pia. Um erro grosseiro. Regressou da Roménia, retomou o lugar na Assembleia da República.

Nesta entrevista, fala pela última vez do processo Casa Pia.

Não mencionou uma única vez o nome do juiz Rui Teixeira, que foi buscá-lo ao parlamento no dia “fatídico” dia 22 de Maio de 2003.

Não pronunciou uma única vez a palavra pedofilia. Não são tabus. A discussão é outra. Para começar, quem é ele?

 

 

Fale-me do seu irmão.

O meu irmão é cinco anos mais velho. A presença dele na minha vida é forte, constante. Durante anos partilhámos o mesmo quarto. Absorvia tudo o que era dele. Li Os Maias com 12 anos porque ele estava a lê-lo. Jogávamos os mesmos jogos; eu perdia sempre e ficava muito irritado; ficava ainda mais irritado quando percebia que me deixava ganhar.

 

Os percursos de ambos são ascensionais, e revelam uma enorme tenacidade. Quem é que foi fundamental para vos fazer como são?

Uma grande energia familiar. Uma grande vontade. O meu pai – que não gostaria desta definição, e não gostará quando a ler – é uma vítima do salazarismo. No fim da quarta classe, o professor queria que ele fosse para o liceu, os pais tinham recursos que o permitiam, mas o liceu ficava a 30 km – implicava ir viver para fora. Ficou com a quarta classe a vida toda, mas aos 65 anos, quando finalmente teve tempo, inscreveu-se e foi fazer o ensino preparatório recorrente. Tenho muito orgulho neste seu gesto.

 

Fê-lo por ele ou pelos filhos? Para que os filhos tivessem orgulho nele.

Fê-lo pela sua vontade de aprender. Se o meu pai, ou a minha mãe, tivessem nascido num país democrático nos anos 30, teriam uma história de vida diferente. Quer eu, quer o João [irmão], tivemos muito cedo essa noção.

 

O vosso desígnio foi resolver esta injustiça? Essa promessa que ficou por cumprir.

De algum modo, sim. Quisemos ser bons filhos da democracia. A nossa educação foi severa. O catolicismo profundo dos meus pais, que não é beato, impunha a ética do trabalho e uma força moral muito funda – que me permitiu ter passado por tudo, e estar hoje aqui consigo. Se olhar para o que é a história desta família, penso que a atravessa uma enorme capacidade de resistência à adversidade.

 

Como é que a sua mãe, na infância, aos 14 anos, pela vida fora, o mimou e lhe foi dizendo que gostava de si?

Se há algo que é socialmente distribuído de modo desigual, é o mimo para com as crianças [riso]. Estamos num domínio privado. Preferia que isso ficasse entre mim e os meus pais.

 

Entenda a minha pergunta como um exercício de extrapolação. Quando o processo Casa Pia começa diz que não tem dúvida que aqueles que lhe importam acreditam na sua inocência. Isto faz-me perguntar como é que esta gente se aprendeu a amar. Como é que esta gente aprendeu a conhecer no outro os sinais da confiança.

É uma boa pergunta para a qual não tenho resposta racionalizada. Ninguém aprende a amar. Talvez as pessoas aprendam a odiar. Os media têm um poder terrível de configuração do que as pessoas pensam. Você não me conhece; se me disser: “Houve um momento em que tive dúvidas”, tenho de lhe responder: “Quando isto começou, houve um momento em que todos tivemos dúvidas sobre toda a gente”. Se as pessoas que têm comigo uma relação através dos media se deixam envenenar, se têm dúvidas, é o que tenho que aceitar como um facto da vida. Se os media tivessem capacidade de penetrar na rede de amigos, na rede familiar, na rede de vizinhos, seria uma machadada enorme. Destruiria o meu optimismo antropológico, que é parte do ser de esquerda. Ninguém, sublinho: ninguém, das pessoas com quem me tenha cruzado consistentemente ao longo da vida se deixou atravessar pela dúvida.

 

Na máxima perturbação e desatino, nunca chegou a perguntar-se: “Será que eles desconfiam de mim”?

Não. Esta é uma página que preciso de virar. Estou aqui, falo consigo, mas garanto-lhe que não vou continuar a falar disto. Houve um momento em que pensei algo tão trágico quanto: basta uma pessoa destas duvidar e a vida não faz sentido. Com todas as consequências – que não precisa que explicite – que isso implicaria. Esse foi o reservatório de energia de onde a possibilidade de continuar veio. Quando comecei a perceber que ia sobreviver a esta tentativa de homicídio moral, comecei a racionalizar as coisas. Lutar pela verdade era um dever ético. “Como é que é possível isto acontecer?”.

 

Essa é a questão central? Como é foi possível? Porque é que isto aconteceu? Com que intenção? Porque é que lhe aconteceu a si?

Há uma pergunta que me acompanha até hoje, e que infelizmente me acompanhará por muito tempo: isto aconteceu-me a mim, no contexto de uma urdidura que visava o PS e a sua liderança; ou geraram-se as circunstâncias para que um disfuncionamento da investigação criminal, estrutural, por qualquer motivo, tenha chegado a mim.

 

Está a dizer que, ou é o sistema que está sempre à beira do colapso e rebentou em si, ou então foi um atentado focalizado.

Exactamente. Se foi uma coisa focalizada, foi trágico para mim. Mas mais tarde ou mais cedo aparecerão as raízes, a origem. Se foi um disfuncionamento que deriva de uma cultura de investigação criminal inquisitorial, uma cultura que diz: “há denúncia, há crime”, mesmo que todas as circunstâncias apontem no sentido contrário, então temos de nos perguntar quantos cidadãos inocentes estarão a passar por isto hoje, terão passado por isto ao longo da vida. E, no fundo, [temos de nos perguntar] que país é este. A minha maior indignação – não digo a gritar porque não vale a pena, mas digo como se fosse um grito – tem que ver com o facto de se ter construído um muro que impede a investigação das causas destas denúncias falsas.

Sinto que tenho um dever de testemunho. As pessoas não têm noção de quanto a prisão preventiva pode ser destrutiva de vidas. Eu não tenho nenhum elemento para me pronunciar sobre [a inocência ou culpabilidade] das 22 pessoas com quem convivi quotidianamente durante quatro meses e meio. Mas aquelas que, no meu íntimo, e estou a falar doutros processos, fiquei convencido de que eram inocentes, eram pessoas a quem tinham desgraçado a vida. Porque é o estigma, é o ficar afastado dos familiares, é a vergonha, é não poder mexer no património. As pessoas inocentes que são presas – para além de correram risco de vida, no sentido de risco de suicídio – ficam com sequelas longuíssimas.

 

Aqueles quatro meses e meio foram o mais duro, o mais insuportável, ou foi a suspeita que se derramou sobre a sua vida durante anos?

Quer dizer, nada é suportável! Não me peça para fazer essa hierarquia, que é impossível. São coisas distintas. Os quatro meses e meio, em si, são uma situação de privação de liberdade, de percepção do que é o risco de vida, são uma experiência pessoal única à qual pude sobreviver por três coisas. Um forte apoio familiar (da Ana, hoje minha mulher, do meu irmão e dos meus pais). Por causa da minha formação de sociólogo…

 

Dois dos três livros que pediu que lhe levassem são de Sociologia. Um representava um olhar para o passado, o outro um olhar para o futuro. O Passado de uma Ilusão, de François Furet, e Life in Fragments, de Bauman. E pediu o livro de um sobrevivente: Jorge Semprum. É o sociólogo a segurar o indivíduo.

Sem dúvida. Tinha estudado com alguma profundidade o sociólogo

Ervin Goffman, que escreveu sobre o estigma e sobre o efeito das instituições totais sobre o indivíduo, e isso permitiu-me colocar em perspectiva coisas intoleráveis de perda de dignidade. Senti-me a fazer uma observação de campo sobre a minha própria experiência! A formação sociológica foi fundamental para perceber como se produzem mecanismos de humilhação, ou como as pessoas têm de ter regras sociais adaptadas a contextos – naquele contexto as regras alteram-se totalmente. O terceiro elemento foi muito afectivo, teve várias manifestações, que eu sintetizaria numa. Uma pessoa, preso político mais de uma década, que começou a trocar correspondência política comigo via Jornal de Notícias, assim que tudo isto aconteceu, mandou-me uma carta. Para além de por à disposição a sua biblioteca, deu-me um manual de sobrevivência na prisão.

 

O que, de essencial, constava na carta e que pode revelar?

É preciso construir um quotidiano autónomo das regras que nos são impostas. É preciso sentir que somos nós que mandamos no nosso quotidiano.

 

Isso traduzia-se em quê?

Por exemplo, é preciso trabalhar todos os dias. Eu dizia que abria o escritório às nove e meia – como se estivesse em casa a trabalhar.

 

No livro Se Isto é um Homem, Primo Levi conta que, acabado de chegar a Auschwitz, foi aconselhado por um homem que estava no campo há mais tempo a arranjar-se todos os dias. Como modo de devolver a dignidade e impor uma rotina quotidiana.

É disso que estamos a falar. Essa situação é extrema. O primeiro poder que você perde é nunca mais abrir e fechar a sua porta. Em circunstância nenhuma. Isto é de uma violência… Como diria o Goffman, fica sem bastidores. A nossa vida é à boca de cena, e ali não há bastidores. Nem quando está a tomar banho, nem em momento nenhum. A qualquer momento pode entrar-lhe uma pessoa pela porta dentro.

 

A qualquer momento pode ser surpreendido – é isso?

O próprio conceito de se ser surpreendido perde o sentido. A surpresa corresponde a algo que não é rotina. Se é rotina, algures entre as duas e as quatro da manhã, apontarem-lhe um foco aos olhos, [isto] deixa de ser uma surpresa.

 

O diário que escreveu, e que foi parcialmente publicado no Expresso depois de ter sido libertado: tinha a ideia de que seria lido por outros?

Quando escrevi, não. Sejamos claros: são excertos que escolhi daqueles que achava que fazia sentido serem lidos por outros. Esse diário faz parte dos exercícios de construção de uma narrativa…

 

Uma narrativa paralela?

De uma narrativa própria. Qual é a outra?

 

A que lhe impõem.

É uma narrativa que lhe permite continuar a ter um discurso sobre si. Ter uma razão para fazer coisas. Esses gestos que faz sem reflectir – como à noite apagar a luz e fechar a porta… [A cadeia] é um mundo essencialmente disciplinador, de regras hetero-definidas. O Foucault apanhou isto muito bem. A sua personalidade tende a ser dissolvida num sistema de obediência. Para sobreviver como ser autónomo, com psicologia própria, tem de construir a sua rotina. Como se a rotina que lhe é imposta fosse um mero constrangimento exterior. Portanto, levanta-se antes de ser obrigado a levantar-se. Faz a barba todos os dias, para não ir a lado nenhum, mas faz. Trata-se de encontrar os seus bastidores dentro de si, uma vez que não podem estar no espaço.

 

Mas como encontrar um sentido? E que sentido?

Trata-se de encontrar um sentido útil para o quotidiano. O sonho de um preso, altamente qualificado: ser o escolhido para varrer o corredor. É a possibilidade de ter uma actividade exterior. As hierarquias sociais baralham-se e constroem-se de novo. Quem é a pessoa mais forte? O director da prisão? Não, é o guarda. O seu bem estar ou mal estar dependem muito das relações que estabelece com o guarda.

 

Como foi no seu caso?

O meu caso foi excepcional. Mas do que pude testemunhar, o sistema de poderes está essencialmente dependente do guarda.

 

Disse numa entrevista que um dos momentos mais difíceis para si foi aquele em que a sua filha foi vê-lo à cadeia. E disse também que a sua ex-mulher a tinha preparado. Mas como é que se prepara uma criança para uma violência destas?

É difícil dizer. Quando a minha filha mais velha fizer 18 anos, só ela poderá responder à pergunta com propriedade. É preciso contar à criança a situação de um modo que ela perceba. E fui eu, ajudado por toda a gente à volta, que fiz isso. Não dramatizar nem desdramatizar. E não se mostrar numa posição derrotada ou humilhada. Mas não olho para isso [receber a visita da filha na cadeia] como um drama excepcional. É um drama que acontece a milhares de pessoas todos os dias. Ainda não fiz nada porque estou a curar as mazelas, mas, como cidadão, [este tema] motiva-me para causas nos próximos anos. Esqueçamos o meu caso: que necessidade há em fazer passar uma criança de três anos, quatro anos, seis anos, por um dispositivo de guardas fardados, detector de metais, sacos abertos… Temos um discurso extremamente moral sobre a reintegração social, mas não estão montados mecanismos para manter a coesão familiar naquelas circunstâncias.

 

Está a dizer que os filhos são um elo essencial na reconstrução da vida de um indivíduo. Ter tido mais uma filha, e outro que vem a caminho, foi para si fundamental para se agarrar à vida?

Ter filhos é sempre celebrar a vida. A Ana e eu, ao decidirmos ter estes filhos, estamos a dar mais um elemento de festa e felicidade à nossa vida. E diria que estamos a dizer a nós próprios da nossa confiança no futuro. Sem dúvida que escolher ter mais um, mais dois filhos é parte do instinto, da pulsão de vida. Voltando ao velho Freud, é o Eros sobre Tanatos. É uma aliança com o futuro. Dar vida é seguramente uma manifestação da vontade de viver.

 

Quanto tempo demorou a ter vontade de dar vida?

Pouco. [riso] Uma característica da minha personalidade é que não sou derrotista. Também se fosse, não estava aqui. Houve uns meses de perturbação profunda. De depressão. As pessoas não gostam de dar os nomes às coisas, mas quem passa por isto precisa de ajuda clínica. Seria tonto se procurasse fazer de conta que não é assim.

 

Nas entrevistas de Outubro de 2003, ou seja, aquelas que se seguem à sua libertação…

As perturbadas.

 

Nessas entrevistas havia um desejo de escamotear a perturbação e a violência de tudo aquilo. E uma urgência em voltar a uma normalidade. Estou a ler bem?

Está. Eram as entrevistas de um optimista impenitente. Nesse período, tinha três urgências: comunicar, dizer “estes absurdos são possíveis”. Uma convicção de que se perceberia tudo o que aconteceu muito rapidamente – e nesse plano estou menos optimista. E uma vontade de retomar a normalidade possível. Essas entrevistas a quente – olhando para trás, se calhar excessivas, no sentido de serem muitas – são muito despidas, sem defesa. Não acreditava, face ao que já se sabia e estava no acórdão, num dos absurdos que veio a acontecer: que houvesse acusação.

 

Porque é que decidiu, depois, ir para fora do país?

Portugal era um país muito pesado para mim. Houve um momento em que até as manifestações de carinho eram pesadas. Ninguém gosta de sentir-se uma espécie de óvni. Todos precisamos, de vez em quando, de atravessar a rua e ver rostos neutros. Se tudo é carregado de sentido, de tristeza ou alegria, de solidariedade ou de hostilidade, o quotidiano torna-se impossível. Concorri, e felizmente ganhei, um contrato [de trabalho]. Fui para a Roménia e depois para a Bulgária. Esses anos ajudaram-me muito a viver com o anonimato.

 

Como foram os primeiros dias de um quotidiano tranquilo?

É uma sensação indescritível.

 

De algum modo, foi a liberdade?

Nunca tinha teorizado dessa maneira, mas sim. Estamos no aeroporto de Lisboa, a despedir-nos em família, e a ver que há 50 pessoas que olham, que invadem a nossa intimidade… E chegamos ao aeroporto de Bucareste e ninguém nos conhece!

 

Essas 50 pessoas a olhar: no fundo era a interrogação sobre quais delas acreditavam em si, quais desconfiavam?

Sim. E persiste. Mas hoje há outro olhar. As pessoas que duvidam são vítimas de manipulação. Confesso que me perturba hoje menos do que numa fase anterior, mas tenho a nítida noção que a vitória sobre a calúnia só é total no dia em que for absolutamente claro como é que as coisas aconteceram.

 

Acredita que esse dia vai chegar? Tinha esse discurso optimista há uns anos. Dizia que gostaria que tudo fosse investigado até às últimas consequências, inclusive crimes envolvendo alunos da Casa Pia que já tivessem prescrito. Hoje parece mais céptico. E o que se pensa, genericamente, é que nunca se vai saber tudo o que aconteceu.

Não sou determinista nem num sentido nem noutro. Não se andou mais depressa na descoberta da verdade porque foram tomadas decisões deliberadas pelas autoridades responsáveis pela investigação criminal para criar uma barreira protectora que impediu investigar as causas da difamação. Sem essa barreira ser removida, essa componente nunca será conhecida. O que não aconteceu no caso de Elio di Rupo.

 

Elio di Rupo é o dirigente do PS belga que foi envolvido num escândalo de pedofilia. Foi ilibado.

Investigados os denunciadores, descobriu-se quem eram, o que os motivava, e porquê. Em Portugal, a investigação criminal pára sempre à porta dessa barreira. Um único exemplo: um difamador chegou a ponto de, num dos depoimentos, inventar um nome de uma pessoa, dar-lhe uma morada, atribuir-lhe a prática de crimes, e vários meses depois dizer que essa pessoa tinha sido apenas inventada. Uma pessoa que é capaz de fazer disto e que depois não se deixa investigar, que causas terá tido para inventar ou atribuir um nome a A, B ou C?

 

Qual é a sua opinião?

Eu acho que isto demonstra uma atitude. Se eu acho que as autoridades de investigação criminal em Portugal estão dispostas a fazer esta investigação? Posso testemunhar que houve um primeiro momento em que apareceram pessoas que estiveram. Desde que essas pessoas foram afastadas, a barreira tornou-se irremovível. Mesmo que a investigação criminal não investigue, mesmo que mantenha essa barreira, há uma coisa sobre a qual estou mais optimista. Hoje, um jornalista, ou daqui a 10, 20 30, 50 anos um historiador, lendo as peças escritas, e com um olhar independente, e usando um método crítico, tem todas as condições para perceber, no que me diz respeito, como nada do que acabou por acontecer tinha qualquer base e sustentação.

 

Por outras palavras, está a dizer que foi “um erro grosseiro”.

Tanto quanto sei, [a sentença] não está em segredo de justiça. Há uma vasta documentação que pode ser consultada. Cheguei a ponderar escrever um livro sobre isto; mas sou parte. Entrego [este projecto] a uma avaliação independente. Pode perceber como é que a narrativa que intoxicou as pessoas foi construída no tempo.

 

Sabe realmente por que é que foi preso?

Sei: foi por um erro grosseiro.

 

O que quero saber é se sabe porque é que lhe aconteceu a si, ou se pensa que por acaso lhe aconteceu a si.

A minha convicção profunda mantém duas hipóteses.

 

Mantém as duas? Ou intimamente acha que é uma delas?

Diria que as duas não têm o mesmo grau de probabilidade. Mas coexistem. Não é um processo puro, há elementos das duas. Aquilo de que estou intimamente convencido? Indo aos dados que são públicos: o Ministério Público insistiu durante anos que um acontecimento noticiado pelas televisões mundiais – o bombardeamento a uma coluna diplomática russa pelos americanos no Iraque – e que tinha acontecido no dia em que eu disse que tinha acontecido, não tinha existido! Esta negação da realidade revela uma atitude de desvalorização, de afastamento de tudo o que seja contrário à tese construída.

 

Esse raciocínio conduz-nos à teoria da conspiração.

Há uma pergunta originária: porque é que foram os nomes de várias pessoas com altas responsabilidades no PS que apareceram? Porquê esses e não outros? É uma pergunta à qual não é possível responder sem investigar para além de um muro. Que foi erguido pelo Ministério Público.

 

Está implícito na sua questão o facto de ser tão promissor politicamente? Se não fosse tão ameaçador não seria envolvido nesta teia?

Não. Não me considero o alvo central. Sou o alvo intermédio para os alvos centrais, que acabaram por não ser atingidos – ou não ser tão atingidos. Como é que desta calúnia se chega à situação de haver uma prisão preventiva e uma acusação? Podemos ter respostas sem nunca ter respostas à primeira pergunta. São [respostas] extremamente perturbadoras em qualquer dos cenários. A tese da decapitação política do PS é perturbadora porque implicaria uma conjugação de agentes da investigação, com diferentes níveis de responsabilidade, para produzir esse efeito. Há outro cenário: em que nada disso tenha acontecido, embora tenha produzido o mesmo efeito objectivo, [por causa de] uma cultura de investigação criminal que é inquisitorial.

 

Esta hipótese é muito mais perturbadora.

Para o país. Faço a pergunta com clareza e os magistrados responder-me-ão: é possível em Portugal pegar num testemunho, que não é corroborado por nenhum elemento prático, que seja negado por uma série de elementos, e ainda assim fazer acusação? E prender? Eu fui caso único ou há dez, cem, mil pessoas nessas circunstâncias? E podemos viver bem com esta questão?

 

Mesmo que a sua formação não seja o Direito, como é que pôde não ter percebido antes que o sistema funciona assim? Que pode originar erros grosseiros como o seu.

Porque, e se calhar irresponsavelmente, estava distraído em relação a essa realidade. Nunca tinha feito esta reflexão. Eu e as pessoas com quem discutia isto vivíamos no discurso de que em Portugal o principal obstáculo à justiça era o excesso de garantia aos arguidos – discurso que a esquerda teve durante décadas. Vamos afastar o primeiro cenário e concentrar-nos no segundo. Pode o segundo ser excepcional?

 

Ou seja, pode ter acontecido apenas consigo?

Pode. Porque raros são os casos em que há uma pressão tão violenta como a que os media fizeram sobre esta investigação. Os casos hiper-mediatizados, ainda mais se jogam com receios profundos da opinião pública – legítimos – podem provocar menos cuidado, mais precipitação. Os media precisaram fazer durante meses o papel que a Inquisição fazia.

 

Quem foram as fontes dos media?

Não sei. Se as fontes dos media foram a investigação há aqui um conflito que deontologicamente deve ser reflectido. Não sei se foram. Os media tinham agenda própria ou reflectiam a agenda das fontes? E as fontes quem eram? Eram investigadores, eram políticos, eram cidadãos? Os jornais portugueses podem ser veículos das mais brutais difamações sem que isso tenha grandes consequências sobre os próprios. Toda a campanha mediática é agitada por fontes anónimas. Com toda a franqueza, o seu primeiro entrevistado desta série [José Eduardo Moniz], em relação a esta matéria foi extremamente cínico. O lavar as mãos, a desresponsabilização total de quem comunica sobre o conteúdo que comunica e sobre a qualidade da sua fonte, é uma atitude cínica, mas tolerada em Portugal.

 

O mundo no qual existia, para o qual contribuía, quer na política, quer na sociologia, desabou. É o que se pode inferir de tudo o que diz sobre a perversão do sistema.

Sempre disse e mantenho: acredito no nosso sistema de justiça. O que acho é que o nosso sistema de justiça funciona em última instância. Isto é: acredito que o nosso sistema produz decisões justas. Dez anos depois, sete anos depois, cinco anos depois. O que eu acho que o que me aconteceu a mim nos ajuda a questionar é a cultura de investigação criminal. Não é a componente deliberativa do sistema de justiça. O que me perturba, como cidadão, é: porque é que a investigação criminal construiu um caso, o meu caso, sem que houvesse quaisquer elementos que o justificassem; porque é que o manteve; e porque é que impediu que se investigassem as origens. Não acho que seja uma fragilidade do sistema de justiça. Acho que é uma fragilidade do sistema de investigação criminal. Que é preguiçoso e negligente – e isso tem consequências sobre a vida das pessoas.

 

Considera que não beneficiou da presunção de inocência?

Presunção de inocência em relação a mim, da parte da investigação criminal, é coisa que nunca existiu. Nem sequer presunção de culpa: houve uma atribuição de culpa prévia a qualquer presunção. Fui colocado na posição que podemos resumir nesta imagem: assaltam-lhe a casa, faz queixa, dizem que talvez tenha sido você a assaltar a casa, e se disser que não foi, pedem-lhe que diga quem é que a assaltou. O que me aconteceu é desta família. Várias vezes me perguntaram: “Se o senhor acha que…, diga quem foi!”. Era o que mais faltava: a investigação criminal é que tem que apurar.

 

Esta sentença fê-lo acreditar na distância que o sistema pode fazer em relação às suas más práticas.

Não vi nos media uma distância em relação às más práticas que vi no sistema de justiça.

 

Não há um equivalente ao pedido de desculpa dos jornais ingleses em relação ao caso McCann, por exemplo.

Pelo contrário. E mesmo os jornais que publicam o que se está a passar agora, fazem-no como se nunca tivessem dito nada, como se no passado não tivessem tido responsabilidade.

 

Esteve na Roménia, que funcionou para si como um país de abrigo, de Agosto de 2005 até há poucas semanas. O que é que o fez decidir voltar? Foi uma decisão súbita.

Tudo isto foi desencadeado por um passo que considerava fundamental: que um tribunal dissesse que isto foi um erro grosseiro. O ciclo de vida que se abriu em 2003, posso considerá-lo fechado. Por isso lhe digo que você é a minha última interlocutora sobre este assunto. Lutei cinco anos por essa demonstração, que aconteceu graças ao trabalho do chefe da minha equipa de defesa, e depois de acusação, Celso Cruzeiro (um excelente advogado e um grande amigo). Por coincidência, um deputado do meu círculo eleitoral saiu na semana seguinte [ao anúncio]. Houve um outro factor decisivo: o acolhimento, a abertura, a simpatia que senti da parte da direcção do partido e da direcção do grupo parlamentar.

 

Já se sente em casa? Na sua casa, nesta cidade, no país, no PS?

Na minha família, nunca deixei de me sentir em casa. Sinto-me, em relação aos espaços públicos, um pouco de regresso a casa. Na vida pública e no PS, regressei a uma casa que já não é a mesma. Estou convencido de que é a minha casa. Estou convencido de que faço parte da casa. Mas se até 2003 me fazia tão parte da casa quanto era natural respirar, já dei por mim a pensar, nesta breve experiência, sobre o que mudou nesta casa e que lugar é o meu. Senti-me durante anos como o Romeiro do Frei Luís de Sousa. Aquele que quando volta, não sendo ninguém, causa problemas.

 

Acha que causa problemas ao PS por causa da carga que o seu nome tem?

Não direi que causei problemas. Mas a carga que o meu nome tem, teve, exigiu decisões corajosas de dois secretários-gerais, e em particular do secretário-geral José Sócrates. Há uma coisa que não esqueço: sou deputado porque José Sócrates decidiu incluir-me nas listas numa altura em que a minha própria federação distrital não o tinha feito. Era o momento do Romeiro. Hoje, já não me sinto assim. Vamos fazer uma imagem doméstica: é a mesma casa, mas algumas divisões mudaram de função, os móveis não são os mesmos. Exige um esforço de reabituação.

 

Que é que quer para a sua vida?

O que é que eu quero para a minha vida? A resposta espontânea, que saiu e eu retraí, é ser feliz. Quero ser feliz, sentir-me bem a fazer o que faço e sentir que faço coisas que são úteis.

 

Daria essa resposta há cinco anos? Tinha o rótulo de ser extraordinariamente ambicioso. Nessa altura, a resposta poderia ser: quero liderar o PS, quero ser Primeiro Ministro?

Tinha objectivos mais concretos. Esse rótulo foi-me colocado por pessoas que não me conheciam fora da actividade política. Olhavam para mim como alguém que chega à actividade pública já no governo do engenheiro Guterres e vai por aí acima. Isso não tem nada a ver com o meu percurso. Entrei para a JS com 14 anos, militei em movimentos de solidariedade com a América Latina, não me profissionalizei na política até ao processo do Rendimento Mínimo. Só passei a ser político a tempo inteiro em 1997. Acho que [o facto de as pessoas não me conhecerem] funcionou contra mim naquela tragédia. É muito fácil atribuirmos coisas a pessoas que não conhecemos. Quem me conhece sabe que não está em mim essa pulsão de vitória. Para mim, vencer não é um valor e subir não é um resultado.

 

Não tem qualquer ambição política?

Olho para a política como uma intervenção cidadã e sem ambição de nenhum género. Sou hoje da terceira, quarta linha partidária.

 

Quer voltar a ser da primeira? Ouvindo-o, parece que se desistisse da política isso não seria surpreendente.

Não seria. Sabe aquele poema do Eugénio de Andrade sobre o que é urgente? Hoje, eu sou mais “Urgente é o amor, urgente é um barco no mar”. Isto mudou dramaticamente a minha atitude perante a vida.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2008

 

 

 

 

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