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Pedro Vieira

Pedro Vieira é escritor, ilustrador, trabalha na empresa de consultores editoriais Booktaylors e no Canal Q. O seu segundo romance, “O que não pode ser salvo”, tem poucos meses.

  

Um verso de Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. O problema é que viver é preciso. Quais são as dificuldades concretas do viver que acha mais preocupantes em Portugal?

O problema com esta questão é o manancial de escolhas à disposição. Como se fôssemos miúdos numa geladaria nova, incapazes de escolher o sabor (amargo) a que temos direito. Viver é preciso e é preciso, passe a redundância, fazê-lo com dignidade. Tocam-me os que estão desmoralizados ao ponto de já não contarem para os números do desemprego. Os que já perderam as forças para se manterem de pé. Os que envelheceram com a esperança de um final de vida descansado e que rapam do que não têm para voltarem a amparar os filhos.

 

O que se aprende nos livros, no cinema, na arte é muito diferente do que se aprende na vida?

São planos distintos embora ficção e realidade se contaminem sem pudor, e ainda bem. Os livros têm a vantagem de oferecer-nos perguntas em que nunca tínhamos pensado, independentemente dos contextos de onde vimos. Ou apesar deles. A leitura de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” numa fase crucial da minha vida foi muito importante. Jesus homem, depois do Jesus Filho de Deus a quem fui ensinado a orar por entre o medo e a culpa. Com o Jesus de Saramago é possível ir beber uns copos, comer uns petiscos e dizer mal da vida, deixando a salvação para depois.

 

Há 40 anos tivemos um Verão Quente, com o país a rasgar-se. Os seus falaram especificamente sobre este Verão? Falaram sobretudo da revolução e menos do tempo que se lhe seguiu?

Nasci em Agosto de 1975, uma semana antes do famoso comício de Vasco Gonçalves em Almada. Os meus pais, nada politizados, contaram sempre a narrativa da esperança, como se esperaria de alguém que teve filhos nessa época. Do PREC falava-se menos. Do que se lhe seguiu, também. Falávamos sobre o 25 de Abril. A liberdade. Os anacronismos da ditadura, que impunha licenças de isqueiro e de pensar. O alívio que foi o fim da guerra colonial. Isso era o mais importante.

 

Vamos aos gregos: diz o guerreiro Aquiles ao rei Agamémnon, na “Ilíada”: “Ah, como te vestes de vergonha, zeloso do teu proveito”. Os portugueses estão divorciados dos políticos? Que parte ocupa neste divórcio a acusação ou suspeição de que são corruptos (demasiado zelosos do seu proveito...)?

Os portugueses estão divorciados de si mesmos, confiam em muito pouca coisa. Eu diria que boa parte do problema passa pelas nossas elites, que infelizmente espelham o que de pior tem o país. Todos nós temos responsabilidades de cidadania, mas a nossa “nomenklatura”, como se dizia no de lá do muro, é muito canhestra, auto-centrada, poucochinha. Preocupa-se muito com o eduquês, mas foi a sua suposta educação superior que nos trouxe aqui. Gosta de brincar aos pobrezinhos, mas não tem a noção do ridículo.

 

Acha o discurso: “Eles são todos iguais!” uma consequência banal do estado a que isto chegou? Ou considera que é grave e abre espaço a populismos?

Considero que é uma consequência expectável, sem deixar de ser grave. E é tudo menos um exclusivo português. Vive-se um cansaço em relação à coisa pública, também porque a democracia deixou de dar respostas e os ayatollahs dos mercados e da economia conseguiram provocar o horror à política. A democracia deixou de atender o telefone. As instituições deixam muito a desejar e a legitimidade foi chão que deu uvas. Quem respeita os tribunais? Quem respeita o parlamento? O que é isso do Eurogrupo?

 

Oficialmente saímos da crise. À esquerda e sobretudo à direita, disse-se que Portugal tinha vivido acima das possibilidades e que era preciso aprender a viver de outra maneira. O que é que significa este aprender?

As sondagens continuam a dar 70% das intenções de voto aos partidos do centrão, que nos trouxeram até aqui. Não aprendemos nada.

 

Continuemos o diagnóstico/retrato dos portugueses e do país: o que é que não fizemos nestes quatro anos e devíamos ter feito?

Devíamos ter aproveitado para abrir os olhos e embora haja poucos músculos envolvidos nessa operação, parece mais difícil do que correr a Maratona. Com maiúscula, para saudar os gregos sem lhes cobrar mais juros por isso. Depois do famoso ajustamento e de um processo de novilíngua durante o qual, por exemplo, “despedimento” passou a ser chamado de “requalificação”, olhamos para as próximas legislativas com a desconfiança de sempre e sem capacidade de fazer uma espécie de corte epistemológico. Ou de partir uma janela, porque agora vamos sempre temer que os representantes nacionais do senhor Schauble nos venham exigir o pagamento irrevogável do vidro quebrado.

 

Quando José Saramago recebeu o prémio Nobel da literatura, isso coincidiu com os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O discurso do escritor português reflectiu essa coincidência. Que direito lhe parece mais ameaçado, posto em causa, que urge fazer cumprir?

O discurso de José Saramago continua desgraçadamente actual. É mais fácil chegar a Plutão, que é mais longe e até já deixou de ser um planeta, do que chegar a quem partilha o mínimo de ADN connosco. A única vantagem que vejo nisto é que não há mercados financeiros, nem papel comercial, nem dívidas à Segurança Social, nem sequer swaps. Para já só há calhaus e um coração gelado. Infelizmente, é o que basta para fundar um banco.

 

“Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, no sol de quase Dezembro, eu vou...”, canta Caetano Veloso. Já não vamos sem lenço, sem documento. Levamos atrás o quê?

Neste momento levamos dívida. Pública e privada. De todas as cores e feitios. Dívida a dois anos, dívida a dez anos, dívida que não se pode pagar, mas, cantando e rindo, continuamos a fingir que sim. Até ao dia em que não haverá quem possa comprar automóveis Audi, electrodomésticos Siemens, ovinhos Kinder. Aí sim, os alarmes vão disparar e poderemos dar graças por não sermos a Polónia.

 

Férias de Verão: dê-me uma recordação das férias de quando era criança. São um dos seus maiores tesouros?

Considero a memória um tesouro, mesmo que o seu brilho seja baço. Sem querer dramatizar, que criança pode apreciar nevoeiros até ao meio-dia, areias negras, água gelada do mar e procissões na praia, feitas de andores que metem respeito e temor a grandes e pequenos banhistas? Das férias passadas entre Braga e a Apúlia, retiro como fogacho de felicidade as canções do Nel Monteiro ao sabor da camioneta. Cada um tem a sofisticação e a Terra do Nunca que merece.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

 

 

 

 

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