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Plácido Domingo

“Sou um apaixonado por Portugal. Há uma classe, uma elegância no português... E na cidade, Lisboa antiga, senhorial. Sente-se. Como terá lido noutras entrevistas, sou um apaixonado do fado. Tenho tanto respeito pelo fado que nunca gravei nenhum. Mas num concerto cantei o Foi Deus, um fado maravilhoso. Um dia espero ter o valor para poder gravar uns fados.”

Este é Plácido Domingo. Um sedutor.

Começam por explicar-nos que Plácido Domingo chegara às cinco da manhã, vindo de Berlim, num voo privado. Era quase hora de almoço. Na Gulbenkian era visível uma azáfama de pessoas. Decorria um congresso europeu sobre património. Nessa tarde, nos Jerónimos, seria atribuído o Grande Prémio Património União Europeia Europa Nostra, com a presença de Cavaco Silva e dos Príncipes das Astúrias, a Espanha. Foi na qualidade de presidente da organização que Plácido Domingo veio a Portugal. 

Combináramos sessenta minutos para a entrevista e as fotografias. Nessa madrugada, a assistente de Mr. Domingo mandara um email com o discurso que iria ser lido, para o caso de querer inteirar-me do seu conteúdo. Entretanto já lhe tinha chegado o meu currículo. Minutos antes de a entrevista começar, foi escolhida a sala, assegurado o recato. Já havia garrafas de água sobre a mesa. Cumprimentos formais.

Entretanto Mr. Domingo começa a descer a escada que dá acesso ao auditório 2 da Gulbenkian. Minutos antes, alguém informara que Mr. Domingo já deixara o hotel. Vem acompanhado de uma pequena corte, liderada por Guilherme d’Oliveira Martins, o presidente do Centro Nacional de Cultura. Mais cumprimentos, nada formais.

Mr. Domingo é um charme.   

“Voei esta noite de Berlim. Quando se chega a Lisboa, para aterrar, sobrevoamos o Atlântico. Damo-nos conta de que estamos no sítio mais ocidental da Europa. Lembro-me de uma ocasião em que estive aqui a cantar. Sou adepto da Fórmula 1 e vim ver os treinos que estavam a decorrer no Estoril, quando o Alain Prost corria pela Ferrari. Fui desde o Estoril até Cascais a ver as ondas do Atlântico. São tão grandes que por vezes chegam à estrada.”

Este é o começo da conversa. Mr. Domingo é sempre Plácido Domingo. E Plácido Domingo, um dos mais famosos tenores do século XX, é o oposto de uma diva, caprichosa e inacessível. Folheou a 2 durante uns segundos e fechou-a com o ar resoluto de quem percebe ao que vai. Respondeu a todas as perguntas, com enorme disponibilidade. Não quis saber antes o que lhe iam perguntar. Olhou para si próprio. Cantou. Cantou! Quando a entrevista terminou, riu-se imenso quando lhe disse que no dia seguinte ia ver Stevie Wonder, e que por isso não ia a Mafra, onde ele ia estar. Gracejou: I just called to say I love you.

No final, alguém comentava que é raro um artista como Placido ser tão simpático. De facto.

Nasceu em Madrid há 71 anos. Mudou-se para o México quando tinha oito anos. Os pais cantavam zarzuelas.

 

Percebe-se pelas fotografias antigas que, fisicamente, é muito parecido com o seu pai...

Sim.

 

É uma coisa que lhe dá prazer?

Dá-me prazer. Sobretudo, quanto mais passam os anos, mais me pareço com ele. A vida passa, os anos acumulam-se. Que os anos passem e não fiquem. Quando era jovem, era jovem, mas agora sou muito mais jovem porque tenho juventude acumulada! Há que afirmá-lo, ser optimista.

 

Isso quer dizer que tem vontade de viver e de fazer coisas.

Claro que sim. Com a minha idade, quase todos os cantores estão reformados. A maioria reforma-se quinze, dez anos antes... E eu continuo, com uma vontade...

 

Continua a cantar Wagner, exigentíssimo.

Um pouco de tudo.

 

Já falamos sobre isso. Para já: tal como o seu pai, o seu primeiro instrumento não foi a voz. O primeiro instrumento do seu pai foi o violino e o seu o piano.

Em todas as famílias onde se tem um amor pela música, ou, simplesmente, onde exista a vontade de transmitir algo aos filhos, escolhe-se um instrumento. Um cantor, não se sabe se vai cantar.

 

Como assim?

Em pequeno, pode cantar, mas não se sabe se vai ser cantor. Então escolhe-se um instrumento. A família do meu pai escolheu o violino para ele, e a mim puseram-me a estudar piano. Os meus pais cantavam zarzuelas espanholas e desejavam que eu viesse a ser pianista.

 

É um bom pianista? Até onde prosseguiu o estudo?

Efectivamente estudei, gosto e continuo a tocar piano. Mas sou um pianista normal. A voz surge depois, da inspiração de ouvir os meus pais. Era algo que tinha que ser.

 

Tinha que ser?

Tinha que ser! Há certas coisas na vida que sabemos que têm que acontecer. Porque era demasiado forte, dentro de mim, o amor e a paixão pelo canto – por ouvi-los cantar. E sem nos darmos conta, começamos. Um dia, de repente, eu estava a cantar, e vi que saltaram lágrimas dos olhos da minha mãe. “Essa nota que fizeste é lindíssima. Faz de novo”, disse-me. E eu fiz. Foi quando comecei a pensar que talvez pudesse cantar.

 

 

Há um documentário, de 1981, em que o vemos com um traje de folclore mexicano, a cantar canções rancheras. E a sua mãe aparece a ajustar-me o traje, a tratá-lo como se fosse um menino, e não um homem de 40 anos. Foi um menino da sua mãe até tarde?

O que eu vejo agora com os meus filhos é que os filhos, para nós, nunca crescem. Tenho filhos de quarenta e tal anos e continuo a tratá-los como crianças. São todos homens casados, tenho netos; quando não estamos juntos, eles vivem a vida deles, está tudo bem. Mas se estamos juntos, todos debaixo do mesmo tecto, se numa noite saem até tarde, se foram a uma festa, fico preocupado. A que horas vão chegar? Isto e aquilo. Temos sempre o sentido de protecção.

A minha mãe sentia isso, que o seu filho tinha começado a cantar, as coisas corriam bem; e aos quarenta anos continuava a ser o seu menino.

 

Ela não duvidava nem um pouco do seu talento e do seu sucesso? Imaginava que um dia viria a ser o Plácido Domingo?

Acho que ninguém podia imaginar. Não o imaginava eu nem ela, nem sequer a Marta, a minha mulher, que foi crescendo ao meu lado, ajudando-me. Podemos perceber que vamos fazer algo, mas onde vamos chegar, isso nunca se sabe. São tantos, tantos anos de preparação, tantos anos de dedicação... Não se saber como vai resultar. Felizmente resultou!

 

Estou a perguntar também se tinha ambição, e confiança em si mesmo. Estes dois elementos são fundamentais para a estruturação de uma carreira.

Sim, temos que querer, e também há um momento em que a confiança é indispensável. Mas isso é verdadeiro para um cantor ou para qualquer outro profissional. É o instrumento mais delicado que há, as cordas vocais. Vivem connosco, são afectadas por alegrias, são afectadas por tristezas.

 

Realmente?

Sim. São afectadas por dores de estômago, uma tosse, uma gripe. Tudo se reflecte, tudo.  Às vezes, a raiva também pode ajudar. Num momento em que nos sentimos decepcionados com qualquer coisa, descontentes. Vamos para o palco e dizemos: “Este é o meu momento, aqui ninguém me pára, aqui faço o que quero!” Mesmo que saibamos que temos algo que pode ser débil, manter a confiança na técnica que fomos adquirindo é também importante. Uma técnica que, aliada à paixão e àquilo que representa a responsabilidade de subir ao palco, certamente dá uma certa segurança em nós mesmos.

 

E os nervos, ao subir ao palco?

Mesmo que suba sempre nervoso, depois passa. Quando me perguntam, em dia de espectáculo: “Plácido, como estás?” Respondo sempre: “Pergunta-me depois!” Porque posso dizer que estou bem, mas o que interessa que esteja bem é isto. [aponta para garganta] A voz! É a mulher mais ciumenta do mundo! A voz... é feminino, não, em português?

 

Sim.

Há que tratá-la com um carinho enorme.

 

É caprichosa?

É caprichosa também.

 

A técnica é apenas uma parte. Para si, não é a parte mais importante.

Bem, a técnica é algo que se tem, mas as pessoas não têm que a ver. O importante é a entrega. O importante é que quando canto, o som da voz juntamente com o texto que estou a interpretar, cheguem às pessoas. Às vezes, o que é realmente palpável e fácil de identificar é a falta de técnica. Quando um cantor tem uma boa técnica e faz as coisas correctamente, as pessoas nem pensam nisso; e certamente a técnica está lá.

Se estamos bem fisicamente, surge dentro de nós uma coisa que é indomável. Todavia, as pessoas perguntam-se: “Como consegue fazer isto?” Se nos deixamos levar, podemos ficar sem voz. Portanto, há uma técnica.

 

Disse uma vez que o mais importante não é a vocalização mas sim a expressão. Entendi que falava sobre o domínio da técnica, por um lado, e por outro sobre a entrega.

Estão unidos. Há, no entanto, um ponto determinante. As pessoas, cada vez mais, estão habituadas a ver grandes espectáculos, a toda a tecnologia moderna. Vêem o que querem na internet, teatro, filmes. E querem acreditar nos personagens. Ou seja, tenho que estar envolvido, dramaticamente, no papel que estou a representar. Para dar um exemplo que será familiar: cantei uma ópera em que fazia de Vasco da Gama. Mas posso ser um rei, um poeta, um bêbedo, um pintor, um conde. Os personagens são tão variados. Ontem cantei o doge de Génova, Simone Boccanegra, há dez dias cantei o Cyrano de Bergerac em Madrid, o Athanaël de Thaïs, fiz de Neptuno... Tantos, tantos papéis. E as pessoas têm que acreditar.

 

É importante conhecê-lo, a si, saber quem é, para compreender melhor por que interpreta desta maneira? A sua maneira particular de interpretar está enriquecida, encorpada, pela sua vida, pela sua natureza, pelo que sente.

Claro que sim.

 

Então, apresente-se. 

Como os personagens são tão diferentes, às vezes é necessário interpretar alguns sentimentos, coisas que não temos em nós. Sobretudo se são personagens históricos, uma pessoa tem que adaptar-se e tentar ser esse personagem. Se estou a interpretar uma canção, o importante é o que estou a dizer. Cantar é como falar.

 

Cantar é como falar?

É. É preciso ter uma naturalidade e chegar às pessoas. Se me quiser convencer de alguma coisa, tem que pensar muito bem no que me vai dizer – como expressar. Não só com a voz, mas com os olhos, as mãos. E então vai convencer-me. Desde a mais simples canção, que é o mais difícil, talvez, de interpretar...

 

Porquê?

Porque quando uma pessoa canta uma ária de ópera, não há muita gente que oiça o disco em casa que saiba cantar uma ária de ópera. Mas se canta um fado, qualquer pessoa pode dizer: “Eu também canto assim”. O mais difícil, para o público em geral, é a expressão do mais simples, do aparentemente simples. O fado é tremendamente difícil. Como terá lido noutras entrevistas, sou um apaixonado do fado. Tenho tanto respeito pelo fado que nunca gravei nenhum. Mas num concerto cantei o Foi Deus, um fado maravilhoso. Um dia espero ter o valor para poder gravar uns fados.

Em qualquer caso, o sentimento tem que estar de acordo com os personagens e com as situações em que estes se encontram.

 

E a sua vida, entra na composição dos personagens?

Tem que entrar. Há muitos personagens sobre os quais penso: “Se eu estivesse no seu lugar, os seus sentimentos seriam os meus, exactamente. Identifico-me com ele.” E uns sim, outros não. Tento não interpretar muitos personagens com quem não me identifico. Mas há que fazer excepções.

 

O personagem que mais vezes interpretou foi Cavaradossi, da Tosca, de Puccini. Porquê? É um artista, um apaixonado, como você?

Antes de tudo é um artista. É um homem muito decidido nas suas ideias políticas. É um homem apaixonado por uma mulher que intelectualmente é inferior. Ele é um cavalheiro e ela é uma cantora de ópera, com uma voz muito boa; uma mulher jovem e impetuosa, que não está preparada para a vida, que se apaixonou por ele e tem uns ciúmes tremendos; sobretudo quando vê o quadro da [marquesa] Attavanti, quando ele está a pintar a Maria Madalena na igreja de Sant’Andrea della Valle... Cavaradossi é um personagem muito positivo, heróico, e vemo-lo num momento em que está numa situação de perda. Perde pela maldade, pela crueldade de um vilão, Scarpi, que tem poder para matá-lo. É um personagem estupendo.

 

Mas porquê a predilecção por este personagem?

Cantei-o muitas vezes, tal como o Otelo. Foram, mais ou menos, as mesmas vezes, 225 e 223. Mas é um personagem cheio de paixão, que arrebata. Era muito adequado, no início da minha carreira. Eu chegava a um teatro e perguntavam-me o que queria cantar. Invariavelmente respondia: Cavaradossi, da Tosca. Eu sabia que tinha uma parte feita à minha medida. Taylor made, como se diz [nos Estados Unidos]. Sabia que as pessoas iam gostar. E a mim, enlouquecia-me, cantá-lo. Não havia dúvidas.

 

Utiliza palavras que traduzem sentimentos fortes constantemente. Como: enlouquecia, impetuosa, ciumenta...

Sim.

 

É porque a sua natureza é assim? O seu México é assim?

Creio que, simplesmente, a minha vida é assim. Eu vivo, cada três ou quatro dias, um personagem diferente. Todos são apaixonantes, são trágicos, são heróicos. Todas estas expressões chegam através deles. Na vida real sou bastante tranquilo.

 

O Plácido Domingo pode engolir o José?

José?

 

É o seu nome, José Plácido Domingo. A estrela conquista o espaço do homem?

É uma pergunta interessante. Muitas pessoas me dizem: “Plácido, tu não tens vida privada.” E têm razão. Felizmente tenho uma família maravilhosa que o soube entender. A minha mulher, como também foi cantora – é directora de cena, tem conhecimentos profundíssimos e uma cultura extraordinária de música, pintura, todas as artes –, fez grandes sacrifícios no princípio. Tinha que escolher entre estar com os nossos filhos ou ir comigo.

 

Como era a vossa vida?

Os nossos filhos também fizeram grandes sacrifícios. Vivíamos, quando estavam a crescer, em Barcelona. Eu passava a maior parte do tempo a cantar nos Estados Unidos ou na Europa. E ela estava duas semanas com os nossos filhos, depois vinha ver-me ou eu ia, de qualquer maneira, a Barcelona. Mas havia alturas em que não podia ir e ela levava os nossos filhos, para que estivéssemos juntos. Fosse a Hamburgo, a Viena, a Londres, a Milão, a qualquer um dos teatros onde estivesse a cantar. Essa é a vida que toda a minha família viveu. Uma vida de família normal, nunca tive.

Eu não fui o pai que se levanta e leva os filhos à escola e que depois de um dia árduo de trabalho se senta a jantar com eles, todos os dias. Mas tive a sorte de ter uma mulher que assumia que, não estando eu casa, estava sempre. Estava sempre. Tudo sempre girou em torno de mim.

 

Em torno de si e da sua carreira.

Comecei a vida como patriarca, desde muito jovem, e continuo a ser o patriarca, no sentido em que todos se voltam para mim, e toda vida é organizada em função daquilo que continuo a fazer. Nesta idade, já devia estar reformado. Mas não estou. O que quero dizer é que a minha vida continua a ser pública, completamente. Ontem estava a cantar em Berlim, hoje estou aqui, amanhã estou em Verona, porque se inicia a temporada e tenho que cantar e dirigir, depois de amanhã vou para Pequim, onde decorre o meu concurso, o Operalia. Os meus filhos já estão em Pequim, a minha mulher está em Frankfurt, de partida para Pequim. A vida é como um puzzle, um quebra-cabeças, onde todos se movem ao redor da minha vida pública.

 

Isso é pesado para si?

Às vezes, sim. Há vezes em que um dia extra de descanso...  Minha nossa senhora! Mas foi o que escolhi. E sinto-me recompensado quando interpreto o Simone, o Cyrano, ou a Thaïs, em dois meses e meio, e penso: “Como é possível, com 71 anos, que possa realizar tudo isto?” Percebi que só com a colaboração de todos [o posso fazer]. Dos meus ajudantes, que são amigos de verdade e que fazem tanto por mim. É toda uma cumplicidade.

 

O que disse liga com uma pergunta que trazia: num momento em que muitos cantores param, canta Wagner, que é uma coisa audaciosa, exigente. Porque é que não quis parar? Abrandar, pelo menos.  

A história de Wagner não é nova. Há vinte anos que canto Wagner, ou mais. Comecei a cantar o Parsifal e as Valquírias.

 

Começou a cantá-los quando outros estão numa curva descendente, com cinquenta anos. Fez um movimento contrário.

Ajustei o meu repertório, e tive a sorte de ter sucesso, cantando esse repertório alemão, tal como cantei A Dama de Espadas [de Tchaikovski], ou o Tamerlano [de Handel], um repertório barroco, ou um repertório desconhecido. Algumas estreias mundiais, como Il Postino [de Daniel Catán] ou A Ilha Encantada [obra de Jeremy Sams que combina música de Handel e Vivaldi, entre outros; interpretou Neptuno].

 

Voltou a fazer papéis de barítono, que foi o que começou por ser.

Sim. Como o Simone Boccanegra, como o Rigoletto [de Verdi], que filmei, como na Thaïs. Sempre segui um percurso que estava diante de mim, mas sempre soube adaptar-me, desde que iniciei [a minha carreira]. E em Setembro vou chegar às 140 óperas de repertório. É muito, muito amplo. A época wagneriana, podemos dizer que já passou. Agora estou a cantar algo de Wagner; mas pode ser que cante um barítono wagneriano.

 

Não é muito comum a transição, e a oscilação, entre os dois registos. É uma prova de versatilidade, mais que tudo?

A minha voz, especialmente nos últimos anos, cantando Wagner, adquiriu uma cor... E creio que se cantar cada vez mais um repertório baritonal vou estar muito confortável. Já estou muito confortável. Não quero dizer que seja um barítono, mas sei que estou a interpretar esses papéis correctamente. Algumas pessoas podem argumentar que não tenho uma voz tão escura como um barítono; mas se estiver a interpretar um personagem e o público estiver comigo, compenetrado no que estou a fazer, num teatro cheio, com as pessoas felizes, então faço-o. Quem sabe se não terminarei a minha carreira como barítono...

 

Como num círculo que se fecha?

Sim, sim.

 

E a cor da voz, própria da idade, também é mais escura?

Eu, para cantar como barítono, preciso de acordar a sentir-me tenor!

 

Explique isso.

Porque um tenor tem uma voz mais leve e pode escurecê-la. Mas se já tenho uma voz escura é muito mais difícil poder interpretar [essa mudança]. Posso colorir [a voz]. Não há um tom único. Pode-se procurar dentro da própria voz as várias cores. É como uma paleta e eu sou o pintor. Podem-se misturar as cores para alcançar diferentes resultados.

 

Como aprendeu a lidar com as pressões do mercado, das editoras, de estar hoje aqui, amanhã em Verona, ontem em Berlim, depois Pequim? Quando iniciou o seu percurso, há 50 anos, era normal um cantor fazer uma viagem de transatlântico para interpretar uma ópera nos Estados Unidos. Tudo era mais lento.

Sim. Mas protejo-me bastante. Estas coisas são excepções...

 

Esta entrevista?

Sim.

 

Obrigada.

Depois de um dia como o de ontem, no dia seguinte tento estar tranquilo. É uma alegria ser presidente do Europa Nostra; venho para dar prémios e para estar com as pessoas. Propõem-me entrevistas, conferências de imprensa... Uso a voz para falar nesta entrevista, em todos os locais onde tenho que falar. Uso mais a voz do que se fizesse dois espectáculos. Acho que sei cantar, mas não falar.

 

Sabe, sabe!

Não, tecnicamente, não sei falar. Cansa-me mais falar do que cantar. Mas faz parte de tudo o que faço.

 

Não é apenas cantor. É director da Ópera de Los Angeles e Washington, é condutor, fundou a Operalia, preside à Europa Nostra. Porquê esta multiplicação de actividades? Podia, simplesmente, tranquilamente, confortavelmente, cantar.

Essa é uma pergunta que me faço a mim mesmo todos os dias. Pergunto-me: “O que é que te dá mais gozo?” É o momento de estar em palco a cantar ou a conduzir – é a resposta. Mas depois pergunto-me se não é importante, também, preservar a nossa cultura, a herança de séculos e séculos, neste continente maravilhoso. Não é importante ter um concurso onde, desde há 20 anos, têm vindo a surgir as vozes mais maravilhosas da nossa época, os vencedores da Operalia? Tudo isto é importante. Se me dá mais trabalho? Claro que sim, não é nada fácil.

 

Quando começou, só cantava. O resto vem com o sucesso, com a responsabilidade?

Quando comecei, cantava, viajava, descansava, e era apenas isso. Hoje, o descanso é a parte mais difícil de encontrar. Mas no geral durmo bem. A minha garganta é excelente, recupera facilmente. Depois de um dia como o de hoje, sei que estarei mais cansado; mais do que fisicamente, vocalmente. Eu fazia assim: quando cantava o Otelo, quando cantava óperas tão complexas como Um Baile de Máscaras [Verdi], Aida [Verdi], Turandot [Puccini], passava um dia ou mais em silêncio. Estudava, via televisão, ouvia discos, passeava – calado. É um luxo que já não posso ter.

 

Que escolheu não ter.

Exactamente. Mas terei que deixar coisas, a pouco e pouco. Estou pelo segundo ano na Europa Nostra; é algo que espero encaminhar, virão outras pessoas, será necessário eleger outro presidente quando eu sair. Tenho que ser exigente, há certas óperas que não permitem viver uma vida assim. Por exemplo, se depois de amanhã tivesse que cantar um Simone Boccanegra, o dia de amanhã teria que ser um dia de silêncio absoluto, ou quase. Essa é a regra.

 

Queria saber se o cancro, em 2010, alterou a sua vida. De uma maneira muito directa, viu que o seu corpo lhe impunha limites?

Foi uma surpresa, como normalmente acontece com estas coisas. Quando ouvi a palavra, surpreendeu-me o facto de não sentir aquilo que era tabu para mim. Era uma palavra que era tabu. A pessoa não quer pensar. Sabe que é frequente, que infelizmente existe, que é uma das doenças mais terríveis e comuns. Mas tive fé. Foi identificado e localizado [cedo], os médicos disseram-me: “Plácido, se não se alastrou, tudo vai correr normalmente”. E o que aconteceu foi que, depois de cinco semanas, já estava a cantar novamente.

A idade, por si só, faz-nos pensar que resta muito menos tempo para viver do que aquele que já vivemos. Mas quando temos uma coisa assim, enfrentamo-nos com a realidade.

 

É como saber que já não é invencível.

Sim. Que estamos de passagem. No outro dia estava a falar com o meu querido amigo, o maestro [e pianista Daniel] Barenboim, que me dirigiu nessa noite, e ele dizia: Se eu pudesse falar com Deus dizia-lhe: Deus, eu, na minha vida, toquei piano tantas, tantas vezes, toquei notas falsas, esqueci-me de passagens; quando dirijo faço muitas coisas mal. A verdade é que passo mal porque não sou um músico como gostaria de ser. Mas peço-Te, de qualquer maneira, que me deixes ficar aqui muitos mais anos para que possa melhorar!” [risos] É uma frase muito Daniel, mas acompanha-me, absolutamente. “Deixa-me fazer as coisas melhor, deixa-me ficar aqui mais tempo!”

 

Você tem muita consciência dos seus fracassos, teme os seus fracassos?

Penso que é parte de tudo. Felizmente, tive uma carreira bastante estável.

 

Está a ser modesto ao dizer isso.

Não, bastante estável, porque as coisas correram bem. Não houve momentos demasiado difíceis, ainda que tenham existido alguns. Mas faz parte. Estamos na corda bamba, somos equilibristas. Especialmente o tenor. Ao cantor pode falhar uma nota, tal como uma bailarina pode cair. Somos humanos, acontece e há que aceitá-lo. É um acto de humildade saber aceitá-lo. Examinar o que se passou, esperar que não aconteça [novamente].

 

Mais uma pergunta, pode ser? Sei que passámos a hora combinada.

Sim, claro.

 

Na sua infância, os seus pais cantavam-lhe zarzuelas. Gostaria que me falasse dessa memória.  

A zarzuela foi a primeira música que ouvi na minha vida. Eram grandes cantores de zarzuela, inspiraram-me muito. Aprendemos sem querer. Não me apercebi [de que estava a aprender]. Tenho um filho que é cantor, música crossover, e que é compositor.

 

Que peso. Ser o filho do Plácido Domingo.

Não! Começou tarde. Tem agora 45 anos e está a começar. Mas muito bem, o disco está muito bem. Também os meus outros filhos, que não são músicos, sem querer, assimilaram todo o repertório. Sabem de memória as óperas. Ou seja, eu senti-o desde pequeno.

 

Se cantasse uma canção para a sua mãe ou para o seu pai, que canção seria?

Os meus pais conheceram-se numa obra que se chamava Sor Navarra, do maestro Frederico Moreno Torroba, que é o compositor de Luísa Fernanda, uma das zarzuelas mais famosas que sucede entre Madrid e Extremadura. (Estamos perto de Portugal!) Nesta obra, a minha mãe pedia ao meu pai... Ela estava apaixonada pelo meu pai na obra, e o meu pai disse: “Insistiu tanto comigo que depois de três meses disse-lhe que sim, e casámos.”

Havia uma canção que cantava [Plácido canta]: “No me abandones Navarra... ai ai ai... no me abandones Navarra, lucerico, palomica”. Ele dizia-lhe a ela: “Eu, uma vez, falhei, caí, tive uma queda, e não te esqueças que Jesus, no monte ao calvário, caiu três vezes, e Ele é Deus e eu sou homem, nada mais. Então perdoa-me”. Esta canção tem um sentido, tem um sentido na vida. Que todos nos enganamos e que temos que saber pedir perdão, e ser generosos também, ao dá-lo.

 

Cantava para a sua mãe?

Cantava.

 

Porque uma coisa é cantar, profissionalmente. Outra coisa é cantar pelo prazer de cantar.

Cantávamos. A minha mãe nasceu no País Basco, em Guetaria, onde nasceu Juan Sebastian Elcano, que foi quem terminou a viagem à volta do mundo, em que Magalhães morreu; e também Balenciaga, o grande designer de moda. Elcano, Balenciaga e a minha mãe [risos], nasceram no mesmo lugar. Para mim, claro, muito importante. Punham-me a dormir, a minha mãe e o meu pai, com uma canção em basco, que me tranquilizava muito. E depois, cantávamo-la os três.

 

Esta é provavelmente a entrevista 5438 da sua carreira. Todas as perguntas já lhe foram feitas. Pergunto-me sempre se há alguma coisa que o entrevistado quer dizer e que o entrevistador não perguntou.

Não. Penso que foi uma entrevista que me fez pensar acerca da minha vida, da combinação da vida pública que tenho com a vida privada.

 

Não estava a pedir elogios, mas obrigada.

Agradeço-lhe. Vai estar esta noite [na cerimónia de entrega dos prémios nos Jerónimos] e amanhã [em Mafra]?

 

Infelizmente não.

Há uma coisa que quero dizer. Estou muito feliz que um dos prémios que se vai dar é pelo restauro dos  [seis] órgãos [da Basílica] de Mafra. Por coincidência, ofereceram-me, já faz quase dois anos, [a possibilidade de fazer] um concerto com eles; e, na verdade, entusiasma-me muito. Será apenas uma questão de procurar o momento. Espero aproveitar muitíssimo amanhã em Mafra, e esta visita a Portugal que foi – tem que ser –  curta, mas muito intensa. Espero poder voltar muito em breve para cantar em algum concerto e cantar em Mafra. Tenho muita pena de não cantar lá, mas tenho que cantar em Verona amanhã à noite.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2012

 

 

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