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Poder (definições)

Há anos que entrevisto para o Negócios pessoas que têm poder. Poder empresarial, financeiro, social, mediático. Se o modo como usam o poder não é o foco principal da entrevista (antes, a história que fez deles as pessoas na situação de poder em que os encontrei), o tema do poder, recorrentemente, aflora a entrevista.

Entre as várias dezenas de entrevistados, seleccionei quarenta, procurando que a escolha fosse abrangente, e cujo discurso, a propósito deste tema, fosse especialmente eloquente. Quando a situação pessoal e profissional dos que constam desta selecção se alterou substancialmente, e se isso importa para a leitura do excerto, isso é assinalado.

Procurei que a descontextualização não ferisse o tom do que foi dito (conto com essa confiança e benevolência por parte dos entrevistados). Em alguns casos, foi feita uma justaposição de frases, provenientes de diferentes momentos da entrevista, para melhor sistematizar o testemunho de cada uma das pessoas.

 

ANTÓNIO LOBO XAVIER

Não quero parecer um falso modesto, mas não sinto isso que diz [que tenho muito poder]. A ideia de poder associada a Serralves até me repugna. A Quadratura, sim. As pessoas que têm um espaço televisivo, um tempo de antena onde podem dizer o que querem, têm um certo poder. Posso criticar ou dizer bem de pessoas – esse poder é inegável.

Se é um assunto de obras públicas, digo: “Atenção, sou administrador não-executivo da Mota Engil”. Se é um assunto de bancos, digo: “Atenção, sou administrador não-executivo do BPI”. Realmente não posso contar segredos. E tenho alguns. Que seriam importantes para a política ou economia. Nesse sentido não tenho a liberdade de dizer tudo o que me passa pela cabeça. Não conto tudo quanto sei. Nessa medida, não sou tão livre quanto o Pacheco Pereira. Mas tenho uma enorme liberdade. Nunca aconteceu o Paulo Azevedo ou o Eng. Belmiro dizerem-me: “Você não pode dizer isto”, ou “Disse isto e não devia”. Nunca na vida! Tirando o momento da OPA nunca suei na Quadratura.

 

ALMERINDO MARQUES (então Presidente das Estradas de Portugal)

Quando me demiti do Governo [a relação com Mário Soares] ficou tensa. “Você quer mesmo ir embora? Então tem que fazer uma carta a dizer isso mesmo”. “Uma carta? Com quantas páginas?”. “Você é maluco, faça aí uma coisa com três linhas”. Muito tensa. Hoje damo-nos bem. Até acho que ele, como não é tonto, sabe que muitas vezes eu é que tinha razão. Relacionei-me muito com ele e ele percebeu que sou um homem absolutamente leal. Mas leal é dizer não quando é não, e sim quando é sim, mais nada. Não sou homem de côrte, não ando a lisonjear ninguém, não tenho o culto do poder, não tenho a subserviência perante o poder, essas coisas que eles gostam de ter (gostam de ter, não tenho dúvida). Um dirigente político que se preze faz à sua volta o deserto, faz a “ermação” [de ermo]. É por isso que não há nenhum dirigente político, nem aquém nem além fronteiras, que alguma vez deixe um delfim com conta, peso e medida. Querem o deserto. Ou eu ou a desgraça, ou eu ou o caos – todos.

 

ANDRÉ GONÇALVES PEREIRA

[Tinha 32 anos e recusou ser ministro de Marcelo Caetano.]

As razões essenciais – para ser honesto, e com toda esta distância – foram duas: primeiro, já em 1968 ninguém podia acreditar numa política ultramarina; e aceitar esse lugar significava ter um patrão. Que nunca tive na vida. E agora já é tarde e nunca virei a ter. Quando, dez anos depois, fui Ministro dos Negócios Estrangeiros – já tinha sido convidado para outros governos – só aceitei por causa das relações fraternas que ainda hoje duram com Francisco Balsemão. Sabia que ele seria um companheiro e não um patrão – embora não questionasse a autoridade do Primeiro Ministro.

Tive sorte: as circunstâncias permitiram toda a vida que nunca tivesse patrão. Na universidade, a partir do momento em que se chega a professor catedrático, não há patrão. E na profissão liberal, a gente depende dos clientes, mas se, em 50, há um de que não se gosta, podemos mandá-lo passear.

 

ANTÓNIO BARRETO (então não presidia à Fundação Francisco Manuel dos Santos)

Às vezes doura-se um bocadinho... O poder de quem tem opinião ou de quem publica a sua opinião é menos do que se pensa. O exercício do poder resumo-o numa frase: concordo e autorizo. Que é o que Ministros e Secretários de Estado mais escrevem por dia_ é o despachinho. É uma parte do exercício do poder. A glória conferida pela capacidade de alterar a vida das pessoas, de mudar os comportamentos, mudar as mentalidades, tudo isso é mitológico e é falso.

 

ANTONIO COSTA

[Se me apetece o poder?] Não. O poder é interessante se for um instrumento útil. Houve coisas em que tive poder e de que não gostei. Detestei ser líder parlamentar. As pessoas ficam surpreendidas, porque acham que tenho jeito. Gostei da experiência, aliás muito curta, como deputado europeu. Também não gostei de ser Ministro dos Assuntos Parlamentares, salvo no período em que acumulei com as funções [de tutela] da Expo; e dessas, gostei muito.

 

ANTÓNIO DE ALMEIDA

De uma maneira geral, é aquilo que marca as pessoas que têm sucesso: a vaidade, o gosto pelo poder, alguma ambição e um sentimento de superioridade em relação aos outros. Esta mistura é explosiva e no relacionamento com amigos, subordinados e colegas conduz-nos a práticas que nos envergonham. Faz parte da natureza humana. Se fizer esta entrevista a outras pessoas, se tiverem coragem, provavelmente a resposta não será diferente da minha.

 

ANTÓNIO DE SOUSA

[Não gosto desse jogo de poderes e de política.] Ainda por cima não acho que isso seja compatível com o estilo de vida que quero ter. As pessoas passam a vida em reuniões à noite e em jantares, e depois não podem ler.

 

ANTÓNIO MOTA

[Se me sinto poderoso?] Nãaao. Mas sei que tenho capacidade de influência. O meu poder baseia-se na capacidade que esta empresa tem de fazer coisas boas e novas. Quando nos metemos nas coisas, normalmente elas correm bem. Esse é o poder. Tenho alguma tristeza de viver num país que não reconhece os méritos das empresas. A Mota Engil é capaz de ultrapassar este ano os dois mil milhões [de facturação], temos 17 mil empregados por esse mundo fora, seis mil em Portugal, mil colaboradores portugueses a trabalhar lá fora. Temos uma rentabilidade razoável. 

 

ANTÓNIO RAMALHO (então presidente da UNICRE)

[Nunca perseverou no catolicismo o suficiente para ser cobiçado pela Opus Dei?] Não lhe respondo a essa pergunta. O meu modelo é o de uma profunda independência de espírito. Não sou da Opus Dei. Não gosto de falar da minha religiosidade; é mais fraca do que eu gostaria. Vivo esse conflito comigo próprio.

 

ANTÓNIO SARAIVA

Gosto [do exercício do poder]. Tenho sentido ao longo da vida, e digo isto sem falsa modéstia, e também sem excessiva vaidade, que tenho facilidade de agregar vontades, de convencer as pessoas e de as trazer aos projectos. Nos grupos há sempre conflitos e questiúnculas, e eu reúno e estabeleço consensos, faço pontes, concilio o inconciliável. Tento perceber os pontos de vista de um e outro, a razão não está sempre num de nós. Há que convencer aquele que não tem razão, de que naquele aspecto não tem razão de facto; e há que demonstrar isso sem o envergonhar, sem o expor demasiado ao ridículo, respeitando as pessoas e fazendo com que percebam que o seu ponto de vista é errado.

 

ANTÓNIO VITORINO

O poder só se justifica se for para transformar a vida das pessoas em função de um conjunto de valores. Todo o meu perfil é de sensibilidade à autoridade mas de rejeição absoluta ao autoritarismo. Não vai com o meu feitio, não vai com o meu percurso, não vai sequer com a minha formação intelectual – não acredito nos argumentos de autoridade porque sim, ponto. A experiência chinesa é interessante: os chineses dizem que “Não há verdadeira vitória que não seja aquela em que o adversário sai com face.” Sou um chinês nesse aspecto!

 

BAGÃO FELIX (já depois de ter sido ministro das Finanças)

Às vezes sinto a falta de tomar decisões. Tomei as melhores decisões em situações mais apertadas, complexas. Na minha vida profissional e política encarei a decisão como um jogo. A pessoa tem três ou quatro caminhos e decide um. Isso é um elixir, e é aditivo. A ideia de que se decide e que isso influencia a vida das pessoas é muito forte. De resto, não sinto falta de mais nada. A minha vida pessoal é semelhante à que tinha quando era ministro.

[Não estou a ficar misantropo] Estou a ficar eu, cada vez mais. Talvez quando exercia o poder não estivesse tanto eu. Andava no trivial.

 

CAMPOS E CUNHA

Tenho uma relação com o poder estranha. Acho que tenho imaginação para dissecar um problema e propor uma solução diferente. Há outras coisas em que sou inapto: não sou capaz de cantar, nunca soube jogar futebol. Uma pessoa com este espírito precisa de poder. Para poder resolver. Mas o poder em si é uma coisa que limita a minha liberdade. Saber que há pessoas dependentes de mim, além dos meus filhos, é uma coisa de que não gosto. Ser livre é não ter ninguém dependente.

 

CARLOS MONJARDINO

No fim de uma negociação que corra bem tenho sempre respeito pelo outro. Uma das piores coisas que há é menosprezar o adversário. Mesmo quando se julga que se ganhou, muitas vezes não se ganhou. Ganhámos nós a negociação, mas eles também ganharam do lado deles. Acabamos num empate técnico, porque cada um levou a água ao seu moinho: tínhamos um objectivo que foi atingido.

[O que respeito num negociador?] Para já, a firmeza. E a argumentação que utiliza, que deve ser estruturada. A imaginação. A surpresa – quando aparece em cima da mesa algo em que nunca tinha pensado e que me pode desequilibrar.

 

DANIEL BESSA

Nunca sei quem são as pessoas que têm mais poder na política. O poder maior não é necessariamente o poder formal. Quando alguém telefonava – e acontecia quase todos os dias: “O primeiro-ministro disse que era preciso resolver aquela situação não sei onde…”. Resolver aquela situação não sei onde era sempre meter lá umas coroas. Quando se está num cargo político, essas solicitações saem de todo o lado. No dia 5 de Outubro de 1995 o engenheiro Guterres anunciou os seus primeiros quatro ministros; no dia 6 comecei a receber informações: quem era por nós, quem era contra nós. Não era preciso virem de cartão… Estão ligados, são amigos… E caem à nossa frente listas: quem são os idiotas úteis e os idiotas inúteis, quem deve ser mantido e quem deve ser mandado embora.

Um dia, tinha de nomear uma pessoa para dirigir um organismo público. Aparece-me alguém que era o mais jovem e o menos qualificado do corpo profissional que ali estava. Começou por dizer que queria ser presidente. “Mas você, com 20 e poucos anos, é o menos qualificado, porque é que há-de ser presidente?” E invocou a autoridade não sei de quem que lhe tinha dito que ele ia ser presidente. [Disse-lhe]: tenha paciência, vamos tratá-lo bem. Mas não me ponha na posição de assinar um diploma onde, com a minha assinatura, o último passa para primeiro. Esse preço, nunca paguei.

 

DIAS LOUREIRO

Sei distinguir, sei quem é meu amigo e quem procurou servir-se de mim. Os amigos que tinha quando era ministro, tenho-os hoje. Não deixaram de me convidar para aquilo que me convidavam. Há uma outra gente que se distanciou quando saí do poder, mas sem surpresa para mim. Sabia ao que essa gente andava.

[Qual é a minha definição de “homem de poder”?] É alguém que tem um projecto, que tem a possibilidade de ordenar os meios, e que sabe ordenar os meios, para atingir o objectivo. Naturalmente, têm que ser objectivos nobres, relacionados com o bem comum, o desenvolvimento, o progresso. Neste momento não sou um homem do poder político.

 

EDUARDO CATROGA

A minha relação com a política era uma relação em que, às tantas, apetecia-me responder a esse desafio. Tinha uma pessoa amiga que dizia que o cavalo do poder não passa duas vezes. E eu já tinha recusado duas vezes.

O Professor Cavaco Silva, quando vai para o governo, a partir de 1985: passámos a ter relações mais próximas. Ele gostava de vez em quando de me chamar a S. Bento. Eu era um indivíduo que tinha feito uma carreira de gestão e era altamente considerado entre os pares. O meu pai continuava a dizer: “Não te metas na política.” Em Julho de 1993 ele telefona-me: “Vais ao Algarve? Aparece lá por casa”. Eu disse assim: “Ganhei o hábito das férias repartidas. Estou a pensar ter agora poucos dias e ter umas férias tropicais no final do ano”. Passados dois ou três dias, recebo um cartão dele: “Economista não faz férias em Dezembro, e muito menos em sítios tropicais. Um abraço, Aníbal”.

 

FILIPE PINHAL (sobre Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto)

Sim, sim, um poder incontestado. Há o savoir faire, o carisma. Onde está, marca. Mas não vamos imaginar que no banco 20 mil pessoas tinham medo do Eng. Jardim. Nem o Eng. Jardim teve alguma vez tiques de autoritarismo na condução das coisas. Era uma autoridade natural, e que as pessoas aceitavam como natural. Por força da sua superioridade intelectual. Por força do modo como apresentava uma ideia – já muito trabalhada.

Não vi nunca o Dr. Paulo Teixeira Pinto interessado em ter poder. Tinha era as suas próprias ideias sobre o que era o melhor caminho para a instituição. E aí entram influências de consultores, colegas de administração, accionistas. A pessoa, por muito forte que seja, por mais que pense que não é influenciada, acaba por ser influenciada.

 

OLIVEIRA MARTINS

O poder atrai sempre muito. É a capacidade de influenciar e marcar a História. Mais do que a importância de uma lógica de poder, que não tenho, a minha atracção pela política passa pela ligação entre as ideias e a acção. Procurar que as ideias não fiquem apenas no domínio etéreo da sua formulação. Mas não me vejo como homem de poder.

Todos os dias, quando entro no meu gabinete, onde tenho a fotografia de Sousa Franco, me lembro de tudo o que me ensinou, do que falámos. Lembro-me da última conversa que tive com ele, foi no meio da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. Falámos longamente do Infante D. Pedro, que é uma figura maldita da História, uma vez que morre numa estúpida guerra civil em Alfarrobeira. A reflexão que fizemos, a propósito do poder, foi a dessa contradição que acontece muitas vezes com figuras marcantes. Às vezes, momentos fugazes do exercício da vida política podem ser mais influentes do que momentos mais longos. Tudo está nessa capacidade de transformar as ideias e os ideais em factos e em acção.

 

HENRIQUE GRANADEIRO

A decisão é um exercício de poder e esse exercício é solitário. Mas o processo de decisão deve ser um processo democrático. Deve ouvir-se não como um ritual a cumprir, como muitas vezes se faz, mas com o espírito aberto. Ainda que depois se possa decidir o contrário do que se ouviu.

Fui cavaleiro. Num campo de obstáculos, o cavalo pontua se não derruba o obstáculo. Se o derruba, é penalizado. Aquilo a que damos maior importância é ao salto, porque é aí que se faz a pontuação, mas para se chegar ao obstáculo é preciso fazer-se um caminho. O caminho para chegar àquilo que é mais atractivo é muito desvalorizado. Ninguém consegue saltar um obstáculo se não tiver feito um bom caminho para lá chegar. Se deixarmos o cavalo descompensar, se ele não tiver o passo certo, se não medir bem a distância para depois lhe dar o impulso total, ele não salta.

De vez em quando há um episódio que é necessário ultrapassar, que dá mais nas vistas. E é aí que as coisas se decidem: ou se salta ou não se salta. Se não tenho saltado a OPA, o que é que se seguiria na minha vida? Era a vida de um loser.

 

JOSÉ MARIA RICCIARDI

Antes do 25 de Abril, uma das boites mais em moda era o Stones. Eu ia muito e, como era um Espírito Santo, era muito bem tratado. Se queria mesa, arranjavam mesa, se chegava à porta e estava gente, eu entrava e outros não entravam. A seguir ao 11 de Março de 1975, o meu pai foi preso, a minha família estava toda em Caxias. E eu, na minha ingenuidade, achei que ia ao Stones e que estava tudo na mesma. A maioria das pessoas não me falava, começou a virar-me as costas. Pessoas que passavam a vida lá em casa, amigos dos meus irmãos mais velhos que fingiam que não me conheciam. Outros, comportaram-se exactamente da mesma maneira. Foi aí que tive o maior ensinamento da minha vida: nós valemos é por aquilo que somos, pelas pessoas que gostam verdadeiramente de nós e se dão genuinamente connosco e não por aquilo que representamos.

Tenho a consciência de que o poder é transitório e fugaz. Na situação em que eu ou outros estamos, muita da relação que se cria não é genuína. Não é uma coisa que hoje me impressione muito – ao princípio, sim.

 

JOÃO RENDEIRO (então presidente do BPP)

Não há almoços grátis, sem dúvida. Essa noção do “poderoso” diverte-me um bocado. Já não é a primeira pessoa que me diz que sou um homem poderoso. O poder hierárquico certamente é um poder. O presidente manda no vice-presidente, o vice-presidente manda no não sei quantos. Outras fontes de poder: a influência. Uma jornalista é uma pessoa que tem o seu poder. A fonte de poder mais interessante, e aquela de que gosto mais, é a do poder das ideias. O poder dos conceitos.

[O que é que isso quer dizer?] Tudo passa, a única coisa que fica são as ideias. Os presidentes passam, os presidentes das empresas passam, e o que é fica? Fica um quadro. O modelo de negócio numa empresa é algo que não passa.

 

JOÃO TALONE

Digamos em bom português: quando fui para o BCP era um teso. Contava o dinheiro ao fim do mês como 99% dos portugueses, e depois de ir para o BCP deixei de ser um teso. Digo isto com à vontade, que na EDP publiquei o meu ordenado. O grande impacto: ajuda imenso a ser independente. O mérito de ser independente com dinheiro é muito menor do que o mérito de ser independente sem dinheiro. Grande parte dos espaços importantes que tenho na vida, têm a ver com a obcecação com a independência. Não sei se teria tomado da mesma maneira as decisões que tomei nos últimos 20 anos se não tivesse a independência financeira que tenho.

Mas, sabe, isto são círculos que se interceptam. Acabamos por romper com algumas ligações, mas não rompemos com outras. Criamos novos círculos. Vamos percorrendo – como se fosse o emblema dos Jogos Olímpicos. Há pessoas que abandonam tudo. Há um empresário português que abandonou tudo e se dedicou ao budismo. Há outras que largam tudo e vão para África. As pessoas ficam sempre na dúvida se o grau de ruptura foi suficiente. No meu caso, nunca foi completo.

 

JOE BERARDO (na véspera de inaugurar o Museu Berardo)

O dinheiro pode comprar uma percentagem muito pequena do que queremos. A nossa alegria, a nossa maneira de ser – que é o mais importante – não é o dinheiro que vai alcançar. Quando vivia com muito pouco dinheiro, na África dos Sul, era a happy person.

Não sou um american dream. Sou um portuguese dream. O meu estilo é: as pessoas gostam de trabalhar para mim. Seja de dia ou de noite, basta chamar, they all come. Eles sabem que não abuso. Não me sentiria bem se abusasse, compreende?

Sempre gostei de me juntar a pessoas que sabiam mais do que eu, mais bonitas do que eu, mais ricas do que eu. Nunca gostei de me juntar a yes people. Os negros das minas: às vezes ia visitá-los e comia com eles um pedaço de bife. They love me! Se eu cheguei aqui, vocês também podem chegar – é para isso. Ninguém pode dizer que é impossível atingir...

 

JUDITE DE SOUSA (então na RTP)

Sei que tenho em antena, há 13 anos, um programa com grande notoriedade e influência social. Um programa que marca a opinião, que é citado pelos outros media e que condiciona muitas vezes o exercício do poder. Se pensar nisto tudo só poderei dizer que não fiquei surpreendida. Ser considerada a segunda mulher mais poderosa do país, a seguir à Maria José Morgado, tem a ver com o facto de fazer a Grande Entrevista. Tenho consciência disto, mas não me deslumbro. Sempre estive na vida, nesta profissão e na televisão de uma forma muito distendida e desassombrada.

 

MANUEL PINHO (entrevistado quando era Ministro da Economia)

É uma questão que levantei muito quando fui director do Tesouro e quando estive no Fundo Monetário Internacional. E sendo eu um bocadinho desconfiado, sempre pensei: «Estão a tratar-me assim porque estou nesta posição». Aos 40 anos eu era administrador de um dos maiores bancos que existem no país. Aos 35 anos, [estava] no Tesouro. Aos 29 anos, tinha muitas deferências quando andava pelo mundo fora. Quando vou na rua não me dou conta que as pessoas me conhecem. No outro dia estava a passear com a minha mulher nas docas [em Lisboa] e veio uma criança perguntar: «Ouve lá, tu és o ministro da Economia?», «Sou!». Pronto. 

 

MARIA DE BELÉM

Percebi cedo que, no âmbito da política e dos lugares de poder, as pessoas se relacionam connosco enquanto titular do lugar. Vi algumas pessoas fazerem muito tristes figuras quando tomavam posse… Transmutavam-se. Não percebiam que os rapapés que lhes faziam eram dirigidos não a si mas ao lugar. Pensei sempre que os subservientes são pessoas de quem devemos fugir e que estarmos com determinada farda é efémero e passageiro. Quando tomei posse como Ministra da Saúde houve algumas regras que imprimi a mim própria e às pessoas que trabalhavam comigo: ninguém me tratava por Ministra, a não ser que estivesse numa situação oficial. E tanto quanto possível continuaria a fazer a minha vida, ia às compras ao supermercado; para não sentir nenhuma diferença entre o exercício do lugar e a saída dele. Fui vacinada cedo contra o ridículo.

 

MARQUES MENDES

Estive dez anos no poder, no chamado cavaquismo, e passei à oposição. Sei muito bem quem são as pessoas que estão ao nosso lado porque temos poder ou aquelas que o estão com sinceridade, lealdade, independentemente das circunstâncias. Já passei por isso. Tenho muitos e bons amigos. Se vivesse uma hecatombe de natureza pessoal, não tenho dúvidas de que teria amigos a ajudarem-me, daqueles verdadeiros.  

 

MIGUEL BELEZA

Apesar do que se possa dizer, nunca me senti com grande vontade de estar nas primeiras páginas dos jornais ou nas aberturas dos noticiários. Tenho dificuldade em considerar-me muito importante. Uma pessoa que se considere muito importante é deselegante. Se a pessoa em causa for estúpida, não é tão grave. Se não for, se for auto-importante, tenho dificuldade em levá-la muito a sério.

Nunca fiquei maravilhado por passar revista às tropas. Passei uma vez, diverti-me imenso. Foi num aniversário da guarda-fiscal, que era o exército privativo do ministro das Finanças. E dei umas facas, perdão, umas espadas a uns cavalheiros.

 

MIGUEL VEIGA

Estou neste partido que fundei, e a que dei alguma coisa de meu, sem pedir nada em troca. Isto são medalhas que ponho ao pescoço. Nunca tive nenhum cargo, recusei cinco vezes ser ministro. Nunca quis perder a minha independência e a minha autonomia. Nunca quis deixar de ser advogado. Não gosto do exercício do poder. Não me apetece. E como só faço bem as coisas que desejo, recusei sempre. Habituei-me sempre a pensar, bem ou mal, pela minha própria cabeça. Os aparelhos dos partidos são uniformizadores e fui sempre considerado uma carta fora do baralho.

Uma das vezes fui convidado para ministro da Justiça. Pensei nisso. Era a época mais forte da minha advocacia, estava nos 40 e tal, 50 anos. Nessa altura não havia sociedades de advogados, se fosse para o Governo fechava o escritório. Os clientes não esperam.

Não gosto de comandar. Duvidei sempre das minhas competências para isto. Ao contrário do que muita gente pensa, não sou vaidoso, sou orgulhoso…

 

MIRA AMARAL

Como dizem os meus amigos, nunca passei da Infantaria, nunca cheguei ao Estado Maior no cavaquismo. Andei sempre a fazer o trabalho de sapa, a carregar o piano. Quando chegava a altura dos louros e do poder, era sempre para os outros, nunca para mim. Era ingénuo, vi o Prof. Cavaco Silva como uma alternativa ao meu líder, que era o Dr. Sá Carneiro. Entrei para o Governo com grande entusiasmo, mas percebi ao fim de algum tempo que estava farto daquilo. [Mas decidi]: “Vou ser o carregador de pianos do cavaquismo até ao fim”.

Aos 65 anos não tenho as ambições que tinha aos 50. As ambições que tive: podia ter sido ministro das Finanças, podia ter sido presidente da Caixa, da EDP, da PT, da GALP, podia ter sido isso tudo, não tinha menos competência que os que lá têm andado. O bloco central político-financeiro que manda no país nunca me quis dar essas oportunidades. Porque não sou um yes man.

Tive a sorte de os meus accionistas do BIC me convidarem para formar um novo banco. Foi uma tarefa apaixonante, coisa que nunca tinha feito. Em 11 de Janeiro de 2008 deram-me os cheques para a mão e disseram: “Faça o banco”.

 

NOGUEIRA LEITE (quando era administrador do Grupo Mello)

[O que me faz correr?] Acho que é reconhecimento. Às vezes faço umas introspecções, e dinheiro não é, porque não tenho um estilo de vida muito caro. Não estou a dizer que desprezo o dinheiro. Gosto de dinheiro. Mas nunca me faltou para ter uma vida confortável. Poder político: gosto de poder. Toda a gente gosta. Mas em Portugal exercer o poder tem um custo demasiado elevado. As áreas onde poderia ser útil são áreas onde mexemos com interesses, e rapidamente há não sei quantas pessoas a dizer mal de nós. Uma pessoa como o Bagão Félix, que tentou imenso e só disseram mal dele… Um aspecto que me parece muito relevante: há um custo sobre a nossa intimidade. Não a financeira – já passei por isso e não tenho nenhum problema. Não tenho nenhum tio com offshores que não sei explicar, ou primos.

O que é emocionante é deixar uma marca. Em alguns círculos sou conhecido, faço o que quero, digo o que quero. Se fosse multi-milionário tinha muito mais poder, mas não é a isso que aspiro.

 

PASSOS COELHO (quando corria à liderança do PSD)

Há gente que me considera demasiado jovem para poder ser candidato a primeiro-ministro. Houve gente que me considerou demasiado velho quando aos 23 anos fui eleito pela primeira vez presidente da JSD. Já era pai de família.

Quando saí, em 1999, achei que dificilmente regressaria [à política]. Durante anos fui um líder na minha geração. Achei natural que muitas das pessoas que fizeram o trajecto político comigo quisessem que eu fizesse alguma coisa no PSD, e sabiam que eu não era indiferente ao que se passava no PSD e devia fazer em Portugal. A geração que vai ao poder com o Dr. Durão Barroso era a minha geração. Não tinham precisado de mim para desempenhar um papel relevante na sociedade portuguesa. Quer dizer, a minha época tinha passado. Poderia ter vindo a ser útil, mas não fui. A minha geração tinha lá chegado. Por que razão, passados dez anos, doze anos, alguém havia de se lembrar do Pedro Passos Coelho e achar que ele tinha alguma coisa a acrescentar à política?

 

PAULA TEIXEIRA DA CRUZ (muito antes de ser Ministra da Justiça)

O exercício de poder que amo loucamente e de que não abdicarei em nenhuma circunstância é o de ser eu mesma. Todos os outros são pequenos géneros circunstanciais de poderes. Se me perguntar: “O poder é para si um desafio?”, qual poder? O poder de me libertar interiormente, é. O poder de melhorar, é.

A ideia do poder para mandar... mandar é um exercício de sofrimento. Quando tem que escolher, quando tem que mandar, há sempre uma dose sacrificial. Há sempre uma escolha em prejuízo de alguma coisa. Isso é um exercício de sofrimento.

[O poder de fazer vingar aquilo em que se acredita?] Isso não é poder. O fazer vingar aquilo em que se acredita é o objectivo, o poder é o meio.

 

PAULO TEIXEIRA PINTO (era então presidente do Millenium BCP)

Não penso estar toda a vida no banco. Há cargos que pela sua natureza não devem ser exercidos eternamente. Se há quem se sinta anestesiado pela tentação da eternidade, são os titulares do poder. Acrescido de um outro problema: uma necessidade quase doentia de serem amados. Qualquer político precisa que gostem de si. Um político gosta que a massa goste de si. Uma reflexão que os titulares do poder político deviam fazer é que cada dia que passa é menos um que falta para sair.

No subconsciente dos decisores, muitas vezes está o contrário_ é mais um dia em que se exerceu o poder. Todos vão ter que sair. Se alguém entrar para o exercício do poder político contando os dias ao contrário, tem uma humildade maior, e tem um sentido de urgência e de gestão diferente.

 

PEDRO NORTON (recém nomeado número 2 da Impresa)

Não descuro a importância dos símbolos, dos ritos, mas, no meu caso, não é isso que prevalece. O exercício do poder não tem que ser feito afirmando o poder.

 

PROENÇA DE CARVALHO

Nunca me senti poderoso. Sou presidente da RTP hoje, será que amanhã continuarei a ser? Será que não me acontece qualquer coisa, um erro qualquer que cometa? Tantas interrogações. O dinheiro dá uma grande segurança. Não dá felicidade mas dá segurança. Se dá poder? Depende da forma como se utiliza. Nunca fui empresário, por isso não tenho o sabor do poder como empresário.

 

RODRIGO COSTA

Sonhar e Visão têm mais que ver comigo do que Poder e Ambição. O Poder não me move. Não faz parte das coisas que me fazem mexer. Gosto de [ter] influência. Sou teimoso, sou uma pessoa de projectos. Não tenho fortuna, nem nada que me faça dizer: sou fantástico. Sou regular, gosto de trabalhar, tento fazer as coisas bem feitas. Gosto de desafios complicados. Quanto menos chances tenho de vencer, mais motivado estou. Gosto de competir.  

[Sou] completamente normal one! Sou um fraco conjugador do “eu”, sou um melhor conjugador do “nós”. A vida é mais divertida quando temos com quem partilhar e celebrar. É mais divertido do que o pedestal. Isso também deve ter que ver com o tamanho do ego. Eu tenho algum, mas não é tão grande quanto isso.

 

RUI VILAR

Viver é escolher e, quando não se escolhe, a vida torna-se uma nebulosa. Mesmo numa perspectiva unicamente lúdica, há que fazer escolhas. A sofreguidão de ter tudo e tudo conseguir é viver em angústia permanente.

Acho que nunca me deixei inebriar pelo poder. E sempre tive consciência que o poder que exerci, exerci-o em nome de... Em nome de um grupo, de um accionista, em nome do Estado, em nome da vontade implícita do fundador desta casa.

No princípio da minha carreira fui funcionário público e empregado bancário, o meu poder era reduzido. Depois, fui-o conquistando. Já experimentei situações em que era uma peça num conjunto, em que a maior parte das decisões não eram apenas minhas. Sei, por experiência vivida, o que é executar. Executando também se pode ter um contributo positivo, e ter reconhecimento e auto-satisfação executando bem.

Não sou outro [por ter poder]. Mas sou certamente alguém com muito mais capacidade de conhecer e de julgar. O mais importante é a capacidade que adquirimos de compreender melhor as diferentes realidades, de saber escolher melhor os instrumentos para agir.

 

VITOR BENTO  (não era então Conselheiro de Estado nem se falava do seu nome para o governo de Passos)

Partilho da visão do Hegel: o que move o homem é o reconhecimento. A procura do conhecimento, que é a procura da glória, é a procura da imortalidade. O homem procura imortalidade através da glória. Não conseguindo imortalidade física, procura assegurar a imortalidade na memória dos outros homens.

Já tive a oportunidade de ter sido [ministro]. Nestas coisas, é preciso ser-se realista. Há duas formas dessa ambição: uma é ter o título e outra é fazer obra. O título: ter isso no currículo ter-me-ia satisfeito. Na altura em que se concretizou, [a possibilidade] de ter apenas o título já não era o objectivo. Era necessário concretizar obra. No fundo, fazer a diferença. Achei que não tinha condições para isso. Tenho a ideia, e cada vez mais, de que a política não é para técnicos. E sobretudo, alguns cargos importantes têm de ser desempenhados por pessoas que têm poder político. O lugar de Ministro das Finanças é um daqueles em que é importante ter peso político. Um técnico é facilmente descartável se não tiver peso político, nem conseguirá que as suas ideias vão avante.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011

 

 

 

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