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Quest. Natal - António Jorge Gonçalves

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

O livro “Astérix nos Jogos Olímpicos”, devia ter uns 8 anos. Ficaram-me para sempre na memória os mentirosos de língua azul.

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: “Quero que saias da frente porque me tapas o sol…”. Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

Fraldas nos cães da minha rua.

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

Já passei um Natal numa praia surfista australiana e outro em areias da Bahia. Agora só faltava mesmo uma ilha, tipo-Gauguin, algures na Polinésia.

 

Um Natal celebrado em Família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

Ainda receber como presente um par de meias brancas com raquetes.

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

Várias garrafas de Água das Pedras e uma caixa de sais ENO.

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

Desde há vários anos que manufacturo todas as minhas prendas. O ano passado foram desenhos animados feitos em blocos de Post-it.

 

“Do céu caiu uma estrela”, de Capra, ou “Fanny e Alexander”, de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

“Eduardo Mãos de Tesoura”, de Tim Burton, depois de ter acabado a maratona familiar.

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

É difícil lembrar, mas acho que incluía um carro dos bombeiros de folha.

 

“Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida”, canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

Em minha casa aquilo que coincide com as Festas são: depressões familiares, divórcios, solidariedadezinhas, e também muitos telefonemas, sms e correio de gente que nunca me liga durante o ano.

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

O pior de começar o ano é ter de gramar o Inverno antes de começar a Primavera.

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

“Planos são aquilo que faz Deus rir”, alguém disse.

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Uma história nova para contar a meias com o Rui Zink, agora que o nosso menino-livro deixou a casa dos pais…

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

 

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