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Quest. Natal - Camané

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

Um comboio, quando tinha sete anos.

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: "Quero que saias da frente porque me tapas o sol…".

Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

Conseguir ser mais organizado e lidar melhor com o stress.

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

Poderia, mas penso que escolheria  passá-lo com a família. Pelo menos nesta altura da minha vida, por não poder estar com eles muitas vezes durante o ano.

 

Um Natal celebrado em Família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

Não houve nenhum específico, mas acontece quase sempre ter de ir à bomba de gasolina tomar café por já não ter paciência para ouvir os meus irmãos e a família toda a falar ao mesmo tempo. Mas, no fundo, acho piada.

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

É um lar quando me sinto em casa, seja em casa do meu irmão Hélder ou em casa dos meus pais. Ou quando passava o Natal em casa dos meus avós.

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

Escrever um poema, para oferecer à família. Mas como não sou capaz, fico-me por tentar encontrar o presente certo para cada um.

 

"Do céu caiu uma estrela", de Capra, ou "Fanny e Alexander", de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

"Do céu caiu uma estrela"; as personagens de Dickens; Pai Natal; depois da Ceia.

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

Uma viagem, que acabei mesmo por fazer.

 

"Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida", canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

Já quis mudar muitas vezes a minha vida em cinco minutos. Muitas dessas vezes, coincidiu com as Festas.

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

O pior de começar o ano talvez seja perceber que ficou tudo na mesma. Ao mesmo tempo, há um lado bom, que é ter esperança e fé de que se vai melhorar e construir qualquer coisa de novo e diferente.

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

Já cumpri algumas. Em 2008 quero fazer exercício físico, tentar deixar de fumar e ser mais organizado.

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Acabar de gravar o meu disco, no princípio do ano que vem. Para acabar com esta angústia.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

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