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Quest. Natal - Mafalda Arnauth

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

A nossa Fifi, por volta dos meus cinco anos. Uma pincher anã que marcou os seguintes 17 anos da minha família.

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: “Quero que saias da frente porque me tapas o sol…”. Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

Um Sol tão grande que Alexandre nenhum pudesse tapar... Sol astro, mesmo, todos os dias, em Portugal; Sol nos sorrisos, no civismo, na boa-onda; Sol nas Almas e nos Corações... Paz, Amor e Saúde, SEMPRE, mas em versão veranil!

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

Revejo-me nestas possibilidades e em tantas outras... Principalmente porque acredito que celebrar cada instante é essencial.

 

Um Natal celebrado em Família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

Presentes! É um verdadeiro filme de terror ter de submeter-me nas vésperas, (como invariavelmente acabo por fazer), a centros comerciais, lojas, decisões precipitadas e nem sempre certas... Outro horror, só mesmo a noção calórica e irresistível das iguarias desta época.

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

A memória de todos os Natais da minha vida: os tradicionais, os singelos, os distantes, os que têm profundo significado religioso, os desleixados, os recuperados. Os Natais são um espelho da evolução e do crescimento da minha família. A vontade que mantemos de estar juntos é o lar mais acolhedor que conheço.

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

Sempre bordados ou puzzles... Talvez com um disco meu lá dentro. Este Natal escolheria oferecê-lo ao Raul Solnado. Simplesmente por que o adoro e faz-me sorrir só de pensar nele...

 

“Do céu caiu uma estrela”, de Capra, ou “Fanny e Alexander”, de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

Sou sempre pelas estrelas cadentes..., não desperdiço oportunidades de fazer desejos. A Menina dos Fósforos. Sagrada Família. Abrir os presentes depois da ceia. (Talvez só o meu irmão seja “Menino Jesus” o suficiente para fazer de “Pai Natal” decentemente...)

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

Nem me lembro de ter feito lista... Mas fiquei com uma óptima ideia para resolver problemas de quem não sabe nunca o que me oferecer!

 

“Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida”, canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

Certas decisões cruciais da minha vida demoraram poucos minutos. Mas não me recordo de terem sido em Festas...

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

Não perco tempo a pensar no pior... É uma das melhores decisões que tomei numa das últimas passagens de ano.

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

A de deixar de fumar, de forma incrível, cruel, sofrida mas vitoriosa, em 2001! E para 2008, além da promessa de uma disciplina mais séria no yoga, a resolução principal é a de insistir em dizer-me “coisas boas”. Chamam-lhe meditar; eu chamo-lhe dedicação pessoal. Garanto que dá bons frutos!

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Depois de ver Chico Buarque escrito já não há concentração que resista... Para mim, a vida não precisa de ser nova, basta que continue boa!

  

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

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