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Quest. Natal - Nuno Markl

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

Nos anos 70, um kit com o armamento de Vickie, o Viking: capacete e espada. Adorava andar com o capacete até começarem a gozar comigo por causa dos cornos. Nos anos 80, um daqueles “ghettoblasters” que misturavam rádio com leitor de cassetes. Juntamente com o aparelho, vinha a cassete dupla “Jackpot 85”. Abria com o “A View to a Kill” dos Duran Duran. Um espectáculo. Para momentos mais contemplativos, tinha lá o “Lavender” dos Marillion, que julguei que iria facilitar o meu sucesso com o sexo oposto; mas não me lembro de ter ouvido o “Lavender” sem estar sozinho.

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: “Quero que saias da frente porque me tapas o sol…”. Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

Escolhia, em 2008, finalmente, conseguir escrever uma ficção cómica para televisão. Com meios, tempo e um cuidado de produção que me deixasse a pensar que depois daquilo podia não fazer mais nada. Portugal precisava de uma série tipo “Extras” e adorava escrever uma coisa dessas. Mas desconfio que não vou ter sorte nenhuma, embora a esperança seja a última a morrer.

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

Sempre celebrei os meus Natais dentro da família. Eventualmente, um dia, farei uma loucura dessas. Mas a celebrar o Natal fora, nunca seguiria os passos do tuga ávido por climas tropicais. Não, ia à procura de ainda mais frio. Ou ia para o “countryside” inglês. Ou então partia à descoberta da Islândia – desde que vi o “Heima” dos Sigur Rós senti uma empatia incrível com essas terras gélidas e fantásticas.

 

Um Natal celebrado em Família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

Gostava de ter uma dessas histórias, mas os meus Natais familiares sempre foram pacatos e harmoniosos. O mais próximo de um horror que me ocorre são as malditas fatias paridas. Não posso com elas.

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

A casa da minha mãe é um lar natalício. Foi o cenário de toneladas de Natais cheios dessas pequenas e saborosas vulgaridades. Rever o “Do Céu Caiu Uma Estrela”, do Capra, dá-me uma sensação de lar, mesmo que o apanhe num qualquer canal num hotel no estrangeiro.

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

Gostava de fazer uma incrível sinopse de um programa cómico e enviá-la ao Jerry Seinfeld. É claro que é um presente um bocado interesseiro, mas no fundo todos o são, não é? Quando não queremos que um grande ídolo da comédia nos compre uma ideia, queremos que a pessoa a quem damos o presente, no fundo, goste de nós. Oferecer uma coisa a alguém tem sempre um lado de compra de afecto, o que, dito assim, parece um bocado sinistro… Mas é bonito. Acreditem.

 

“Do céu caiu uma estrela”, de Capra, ou “Fanny e Alexander”, de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

Sem hesitar: o Capra; o Dickens; o Pai Natal. E abrir os presentes, depois da Ceia. Em criança, haver uma noite em que nos é permitido estar acordados até horas impróprias e, ainda por cima, receber brinquedos, é uma experiência em cujas doses de magia pouca gente pensa. Quando tiver filhos, é este o método que vou seguir. As manhãs são para investigar com cuidado e critério os brinquedos com cujo potencial se passou a noite a sonhar.

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

Paz no mundo. Não, estava a gozar. Não tenho escrito listas dignas desse nome nos últimos anos, mas se me permitirem dar uma saltada à minha última lista de jovem moço, creio que estava lá o Castelo Grayskull dos Masters do Universo. Não o recebi. Paciência!

 

“Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida”, canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

O casamento pode ser considerado uma mudança de vida e o meu coincidiu com as festas, foi no dia 23 de Dezembro. Mas foi planeado, por isso suponho que não conte. Eu, no que toca a mudanças de vida de meia-hora, faço por que não coincidam com as Festas. Chego ao fim de cada ano tão avassaladoramente cansado que só quero enterrar-me no sofá mais próximo a rever “Do Céu Caiu Uma Estrela”.

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

O pior de começar o ano é, quando se é anfitrião de um reveillon, como já fui alguns anos, constatar que a casa está num estado lastimoso e que há estalactites de champanhe no tecto, entre outras coisas demasiado embaraçosas para aqui serem narradas. De resto, vejo sempre os princípios de ano com um inabalável optimismo, mesmo que, eventualmente, 99% dos planos me saiam furados. Mas tudo bem.

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

Já fui cumprindo várias, ao longo dos tempos. Em 2008 vou mesmo ter de assumir a resolução “ficar mais magro”. Estou pançudo e não particularmente em forma. E sei que há personal trainers em certos e determinados ginásios para quem a ideia de me porem mais magro e bem disposto é um desafio épico e aliciante! Desta vez, acho que não escapo.

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Tenho 36 anos de idade, 12 a viver do humor e sinto a falta de criar aquela série. A mais pessoal, a que fique para a História. Ao mesmo tempo, quero trabalhar menos e ter mais vida. Estou a ficar cansado de criar comédia às pazadas. É tão frágil, o humor, tão passível de não funcionar só porque uma das rodas dentadas do mecanismo se avaria, que é preciso, de facto, trabalhá-la de outra maneira. Não há nada melhor que trabalhar a comédia com tempo. Sei que o Jel me vai chamar betinho por isto, mas que se lixe. Ainda acredito muito no texto e não tanto na gritaria.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

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