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Retratos da Vanity Fair

Primeiro não se estranha, depois já estamos entranhados. Vislumbramos ao fundo Hollywood em 2001 (a esfíngica Kidman, a voluptuosa Loren, a eterna Deneuve, a subversiva Chloë Sevigny…). Reconhecemos Demi Moore, numa nudez orgulhosa, a segurar a barriga de sete meses. Uma madonna de Botticelli. A actriz diria: “Neste país, as pessoas não conjugam a maternidade e a sexualidade. Durante a gravidez, não é suposto ser bonita ou sexualmente apelativa. Ou se é sexy, ou se é mãe”. Estava-se em 1991 e Annie Leibovitz, fotógrafa de celebridades, criadora de mitos, legava uma imagem para a posteridade.

Noutra parede, Madonna encarna Evita Péron. Um fundo verde do qual ela emerge, envolva em peles. Uma leve comiseração no olhar, uma mão no peito pelos pobres e descamisados. Fotografada pelo amigo Mario Testino. A material girl detém um recorde de capas da Vanity Fair: nove. Testino registou também a desenvoltura de Diana, a outra mulher mais famosa do mundo, a par de Madonna, meses antes do acidente de carro que vitimou a princesa. Ele pediu-lhe que imaginasse que chegava a casa depois de uma festa; e mostrou-a como nunca. Confiante, sexy, moderna.

Diana consta desta galeria de famosos. Entramos na sala de exposições e é como se folheássemos um álbum de família. Não se estranha, já estamos entranhados. A haver um apelido para esta família, é Celebridade.

“Vanity Fair Portraits” é a exposição que celebra os 95 anos da publicação, e o quarto de século desde a sua reedição – o interregno foi de quase 50 anos. Cento e cinquenta retratos a partir dos quais se conta a história do último século. Os protagonistas estão lá todos. Gloria Swanson, felina, pupilas dilatadas, por detrás de uma rede de flores delicadas. Jean Harlow, carnuda, apoiada sobre a fera no chão da sala – a bela e o monstro. James Joyce com a pala sob os óculos. Virginia Woolf com um vestido da mãe. Isadora Duncan no Partenon. Chaplin sem bigode. Picasso por Man Ray, Jean Cocteau por Cecil Beaton. Também Einstein, também Monet, também Jesse Owens.  

Em 1914, Frank Crowninshield, o primeiro director da revista, apresentou-a da seguinte maneira: “Peguem numa dúzia de homens e mulheres cultos, vistam-nos convenientemente, sentem-nos a jantar. O que dizem essas pessoas? A Vanity Fair é esse jantar”. A crónica do jantar não dispensaria a sátira, a ironia, a elegância. O estilo. A Vanity Fair seria a revista de figuras de romances de Fitzgerald. Condé Nast, o fundador, visionário, queria uma revista que acompanhasse um mundo em convulsão. Que cortasse com uma tradição edwardiana. Como diria mais tarde o poeta W. H. Auden, no advento da Segunda Guerra, “as luzes nunca se podem desligar, a música tem de continuar a tocar”. Show must go on.

Viviam-se os anos do Jazz, dançava-se até ao amanhecer, o borbulhar do champanhe confundia-se com a espuma dos dias. Celebrava-se o individual sobre o colectivo, a beleza, a pujança, a promessa da juventude. Viajar passou a ser um tema, ganhar dinheiro deixou de ser imoral. Em Paris ouvia-se a “Sagração da Primavera” de Stravinsky. A arte moderna era introduzida na América. A prosa era assinada por gente como Aldous Huxley, Gertrude Stein, e.e. cummings. A divisa era cruzar os reconhecidos e as promessas, o chique e a sofisticação.

Mas foi na imagem que a Vanity Fair se afirmou como publicação ímpar. Foram os anos em que Baron de Meyer, Hoppé ou Steichen seguiram à linha o que lhes tinham pedido: que fossem audazes e modernos. Que no retrato revelassem mais do que a pessoa retratada. Que nele se adivinhasse um tempo, uma teia de relações, um mundo.

Quando a fenix renasceu das cinzas, em 1983, a originalidade da Vanity Fair passava ainda por combinar “os talentosos, os ricos e os belos das esferas da literatura, das artes, desporto, política, cinema e high society” (lê-se no catálogo da exposição). Como nos primórdios do século XX, o mundo estava também em mutação. Os 80 foram os anos de Silicon Valley e de Wall Street, da explosão do mercado da arte, da ameaça da Sida. Foram os anos dos consultores de imagem – políticos ou empresários não passam sem eles desde então. “Os consumidores de jornais passaram a viver mais e mais fascinados com as narrativas privadas das figuras que ocupavam os seus dias” – de Robert De Niro a García Márquez (escreve-se ainda no catálogo). Tina Brown, a primeira grande directora desta segunda vida (o outro é o canadiano Graydon Carter, o actual) deu a cartada decisiva quando pôs o casal Reagan a dançar na capa da edição de Junho de 85. Estava inaugurada uma nova era.

É-se célebre quando se aparece na Vanity Fair, fica-se celebre quando se aparece na Vanity Fair. Aquela a quem chamam a maior fotógrafa do mundo, Annie Leibovitz, imortalizou os membros desta família, produziu as grandes peças desta iconografia. Assinou um total de 130 capas! A cultura popular dos últimos 30 anos não se traça sem as suas imagens. Uma esteta.

Os seus retratos são mais do que retratos. São performances, são encenações. Mais alguém se lembraria de fotografar Scarlett Johansson e Keira Knightley nuas, recriando um quadro de Manet? Ou Jack Nicholson de roupão a jogar golf no telhado? Ou Schwarzenegger a esquiar na sua Áustria natal?

O mundo que conhecemos, está naquela sala. Uma grande sala da National Portrait Gallery, em Londres. A exposição fica até 26 de Maio.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008

 

 

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