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Rui Nabeiro

Este homem demorou quarenta anos a construir um império. Rui Nabeiro é o patrão de Campo Maior, vila alentejana onde se entra e se sente o cheiro do café. A empresa que fundou em 61, a Delta, é líder de mercado e vende-se no mundo inteiro.

O senhor Rui, como todos lhe chamam, é rico, mas parece não se importar muito com o dinheiro. Cerca de 1600 pessoas trabalham para si; diz que as conhece, e à sua história, uma a uma. Começou a trabalhar ainda menino, empurrando carrinhos de café. Tem dois filhos, quatro netos, nasceu em 1931.   

  

Consegue explicar a razão do seu sucesso? Deve-se à sua capacidade de trabalho?

Penso que é a vertente número um. Homens que fizeram coisas muito grandes, muito grandes, tiveram uma atitude de vida diferente – um inconformismo. Mas ninguém fez nada sozinho. A forma como se vai ajuntando e amealhando amigos, que nos empurram, que, por acreditarem em nós, nos recomendam, é fundamental. O trabalho é a mola real de tudo, mas tem de ser ajudado. Vemos, nesta região, o cavador que trabalhava de sol a sol... Trabalhava muito, e não passava do trabalho.

 

O seu pai começou por trabalhar na terra e depois passou a motorista. O senhor, que poderia cumprir o mesmo destino, deu o salto para uma vida diferente.

O meu pai começou como cavador; depois teve a audácia, e a ajuda, na tropa, para tirar a carta de condução. Ficou de motorista de um lavrador e médico. Como tal, fez com que os filhos, nesse Alentejo dos anos 30, onde o analfabetismo era total, tirassem a quarta classe. O grande mérito do pai e da mãe foi o de se sacrificarem, trabalharem bastante para nos permitir que fôssemos à escola.

 

Os seus pais eram analfabetos?

A minha mãe era. O meu pai, na tropa, conseguiu fazer a segunda classe para poder tirar a carta. Lia umas coisas, sabia fazer a sua assinatura, e pouco mais.

 

Foi o contacto com esse médico que o fez perceber a importância da instrução?

Não há dúvida que tira partido dessa convivência. O meu pai trouxe algo da cultura que via nessa casa, a casa de uma pessoa formada que tinha uma lavoura razoável. O meu pai era uma pessoa querida, um trabalhador nato, e como tal, entrava na casa do patrão praticamente como se fosse na sua. De tal maneira que teve dificuldades em sair de lá. Sempre que queria sair, o patrão vinha buscá-lo, «Não te podes ir embora». Aconteceu duas, três, quatro vezes, e à última veio mesmo embora. Porque um irmão o desafiava a vir trabalhar com ele. Daí a nossa origem nos cafés.

 

Era o irmão Joaquim. Já lá vamos à história. Nessa altura fazia-se sentir uma estratificação social muito acentuada? As pessoas misturavam-se?

No Alentejo de um modo geral, não, na nossa terra, não mesmo. Os estratos sociais estavam completamente divididos. Caso curioso: em Campo Maior havia um café onde se juntavam à noite as pessoas; tinha a ala dos homens ricos, a ala dos remediados, (os pequenos e médios lavradores), e a ala da gente pobre, (que não eram trabalhadores do campo, mas o alfaiate, o barbeiro, o sapateiro). O trabalhador do campo não entrava sequer, tinha umas tabernas ao pé. Mais tarde, nos anos 70, um ou outro foi entrando.

 

O que é que recorda da escola primária?

A escola era bastante humilde, havia o masculino e o feminino, não havia cá mistas! O que posso recordar de útil é que fui mesmo útil na escola. Quando cheguei à terceira classe, apanhei um professor que tinha uma imaginação social desenvolvida e que quis fazer uma cantinazinha para os alunos mais carenciados. Fui um dos escolhidos para lhe dar apoio. Ia buscar a sopa à Santa Casa da Misericórdia. O professor escolhia-me para exemplificar muitas coisas. A escola deu-me uma certa vivacidade e um certo querer pela vida.

 

Disse que nunca teve tempo para ser criança. Não viveu a juventude nem a infância, sempre atento ao mundo dos adultos, e muito responsável.

É tal qual. Durante a instrução primária, a minha preocupação era ajudar os meus pais. Éramos quatro filhos, as carências eram bastantes. Por vezes os casais têm os seus desequilíbrios, e os desequilíbrios são quase sempre de ordem económica. Aos onze anos, apercebia-me de situações. No que pudesse laborar cá fora para levar para casa, laborava. Vocacionava a minha pequena ajuda para a minha mãe. Desde que a minha mãe não tivesse problemas, o casal também não os tinha. 

 

Entregava o dinheiro à sua mãe, era assim?

Casei em 53, em Outubro, e em Setembro ainda entreguei o ordenado à minha mãe. Tudo o que conseguia... Vendia peixe, fui pregoeiro, (de novidades, coisas que se arrendavam ou vendiam, anúncios da câmara). Quantas vezes fui substituir o pregoeiro porque aquilo dava uns escudos. E não era para gastar num doce qualquer, era para a mãe ficar menos carente.

 

Nesse tempo, os miúdos só comiam doces nas festas.

Comprar qualquer coisa doce, nunca fiz. Bolos, na nossa casa, só num dia de festa, num dia transcendente. Estava muito carente disso, e quando as pessoas têm carência, olham, olham com interesse... Lembro-me de entrar na casa de um senhor, «Dá um doce aí ao moço, que o moço está desejoso». E eu disse, «Não, não», mas até estava. Acontecia comigo e com a maior parte das pessoas.

 

Entregava o dinheiro à sua mãe e depois à sua mulher?

Sim, acontece ainda hoje. A minha mulher tem a sua mensalidade, gere a sua mensalidade. Quando vivia só do ordenado e não tinha o negócio, o ordenado ia para as mãos da minha mulher, ela é que o geria.

 

Quanto era o seu primeiro ordenado?

Nunca tive um ordenado fixo. Tive sempre a preocupação de levar quatro e não levar dois. O tio tinha já um negócio razoável na fronteira, e convidava-me sempre. Dava-me sempre em conformidade com as suas disponibilidades. Gostava muito de mim, sentia que eu tinha um futuro grande à frente.

 

O que é que o distinguia dos seus irmãos para que o seu tio Joaquim acreditasse em si?

Cada pessoa tem o seu estilo. Eu sou uma pessoa que acarinha. Não há nada melhor na vida que as pessoas saberem acarinhar. Aos meus tios, ele e a esposa, que faleceram há poucos anos, não os larguei nunca. Não saíram para lares, e quando ficaram gravemente doentes, criei um mini-hospital para que aquilo funcionasse em pleno. Com um médico em prestação de serviço e uma enfermagem que inventariei dentro da fábrica, «Tu fazes isto, tu fazes aquilo».

 

Havia uma disputa familiar entre o seu Tio Joaquim e o seu Tio João. Da relação tensa que viviam, surgiu o negócio do café.

O meu tio Joaquim foi um homem que aos 13 anos já estava fora da casa dos pais. E porquê? Porque queria para ele uma vida diferente, lá ser cavador, não. E como tínhamos o problema de Espanha aqui ao lado... Levava daqui algum café verde, (café cru para ser transformado), e viu lá uma torrefacção de cafés. Fez a sua própria fabriqueta, totalmente artesanal. O tio João era também uma pessoa de muito trabalho, um lutador. Até era funcionário do Estado.

 

Conta-se que um era contrabandista e outro lguarda-fiscal.

É verdade. Na guarda fiscal fazia o seu serviço, e a seguir ficava a fazer mais coisas. Até na arte da escovaria, que se usava para esfregar o chão, com aquelas escovas de piaçá. E vendo que o irmão estava a fazer alguma coisa, tentou igualar o irmão. Montou também uma fabriqueta de café e saiu da guarda fiscal.

 

Nunca se deram bem?

Mal não se davam. Mas as famílias, linha geral, têm sempre as suas coisas. Havia um pique... O Tio Joaquim tinha criado uma marca de café, a Cubana, e o Tio João respondeu com uma marca, a Cubano...

 

A avaliar por um pormenor desses, amigos também não eram... Quando começou aos 12 anos a empurrar os carrinhos de café, a fabriqueta já existia há muito?

A fabriqueta é mais ou menos do ano em que nasci. O seu desenvolvimento liga-se à Guerra de Espanha, no ano 36. A exportação de produtos para Espanha possibilitou um comércio diferente.

 

Falava com o seu tio das questões políticas da Guerra Civil de Espanha?

Sim. Esse meu tio tinha algo para contar, ele e outro tio, casado com uma irmã, o tio Silveira. Os dois levavam café para Espanha, foram presos pela guarda, levados para Madrid e dali para a frente de combate. A sua vida perigava, a família estava em sobressalto permanente. De maneira que passaram muitas privações até que os ministérios respectivos e o governo intercedessem para que os portugueses pudessem regressar. Regressaram a Lisboa, por via marítima. Eu era muito jovem, mas lembro-me, lembro.

 

Esteve de algum modo envolvido na guerra civil espanhola?

Não. Mas trabalhei bastante. Nestas coisas de guerra há sempre quem tire partido de ir e vir, ir e vir. Produtos alimentares, eram todos carentes em Espanha. Desde arroz, açúcar, massas, sabões, azeites.

 

Era isso que o senhor levava?

Arranjava para as pessoas levarem. Eu não era portador.

 

Foi portador algumas vezes?

Não. Não é porque não quisesse fazer aquilo, mas porque era muito jovem. A minha atitude era ajudar quem fosse comprar produtos a Elvas ou Estremoz para abastecer uma linha da frente, aqui na povoação, onde vinham os espanhóis; a autoridade tinha ordem para facilitar. Daí, cingi-me ao café, mais nada.

 

Nesse tempo, tinha a ambição de enriquecer?

Coisa que nunca me passou pela cabeça foi a ambição de enriquecer.

 

Nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ter tanto dinheiro como tem hoje?

É que eu não tenho dinheiro, sabe? [riso] O dinheiro do homem do comércio, que cresce e faz coisas grandes, tem de estar sempre envolvido. Tive a ambição de fazer bastante, nunca hesitei em trabalhar.

 

Queria transcender a sua condição de homem do povo?

Quero continuar a situar-me na minha origem. Aconselho a toda a gente nunca esquecer a sua origem. Falo dela com muita satisfação, ou, pelo menos, com muito respeito. Pensei sempre, isso sim, em ter uma vida diferente, tanto eu como as pessoas que pudessem depender de mim. Pensei sempre no plural. A minha riqueza, aquela por que luto, é a que dá estabilidade.

 

Gosta de ser o patriarca da região?

Não faço alarde de sê-lo, mas qualquer ser humano gosta que seja conhecida a sua atitude.

 

Uma coisa é ser considerado pelo desenvolvimento que trouxe à região. Outra coisa é a estima desinteressada. As pessoas dependem de si.

Compreendo. Há inimigos nas terras, aqui também não deixará de haver. As pessoas reconhecem e são amigas porque estive uma vida ao serviço, não é por dar mais emprego, menos emprego. Emprego dou, porque quando chega para mim, chega para os outros. E tem muita gente que sabe que penso assim. O número de pessoas que trabalham na nossa empresa é de tal forma elevado que tudo o resto se movimentou à volta disto. Mesmo quando aparece uma pessoa descrente, aparecem dois que dizem «Estás enganado, é desta forma ou doutra».

 

Quer dizer que à partida não desconfia dos que vêm ter consigo?

Logicamente já tive situações de pensar que uma pessoa vem com determinada intenção... Mas digo-lhe uma coisa que já disse hoje numa sessão de trabalho: há que saber esperar. Aguardo pelo dia seguinte e tiro a prova dos nove. Até mesmo a pessoas a quem podia dizer «Vais para o lugar, vais para o emprego», digo «Vais, e depois se vê se deves continuar ou não».

 

Só o futuro pode tirar a prova dos nove?

Para mim é assim.

 

Imagine que à volta desta mesa está um adulador, que faz vénias sucessivas. E também alguém que diz as coisas que têm de ser ditas e não se curva. Em quem confiaria?

O bajulador, cá em casa, não entrava. O rigoroso, desde que esse rigor transporte seriedade, objectivade, é aquilo que eu também faço. Isso é trabalho. Prefiro comprar por mais um décimo a uma pessoa que é sensata do que a uma pessoa que hoje me traz algo doce a amanhã amargo.

 

Sabe com o que conta.

Claro. O bajulador... Às vezes fazemos cara de parvos, mas depois não passa! [riso]

 

Disse uma vez que esta estátua, erguida pelo povo, no centro de Campo Maior é mais significativa que a comenda que lhe foi entregue por Mário Soares.

A comenda, guardo-a em casa. E a estátua, está ali. Tenho de ser mais ponderado comigo mesmo e com as pessoas que me seguem. O fardo da responsabilidade fica sobre as costas.

 

Essa responsabilidade em relação ao povo traduz também uma forma de gratidão? Quando regressou a Portugal, depois de ter estado anos em Badajoz, foi recebido de forma carinhosa pelas pessoas da terra.

O povo testemunha todos os dias a minha gratidão. O que os preocupava com a minha não-presença era de tal forma grande, que foi mostrado pelo conjunto. Com aquela estátua, uma estátua em vida, é uma vida que está ali patenteada. Uma pessoa não pode desviar-se de uma conduta equilibrada, se bem que mesmo sem estátua a deva usar.

 

O que sentiu quando regressou?

São dias que não podem esquecer. Foi em Julho ou em Maio, se fizer um bocadinho de esforço sei o dia... As pessoas de Campo Maior, e não só, mostraram como gostam de nós. Isso dá, de facto, uma força interior que nos empurra, nos faz lutar cada vez mais. 

 

Quando foi para Badajoz havia acusações de dívidas de impostos de cerca de 500 mil contos. O que sente uma pessoa face a uma notícia deste tipo, quando tem um mandado?

Sente-se triste, com certeza. Sente-se traído, no nosso caso, sente-se traído. Tenta reagir. Procurar os meios da sua razão, que coloca. Ser forte, sensato, usar a filosofia do equilíbrio. Quando fui daqui, foi para vencer. Para demonstrar com tranquilidade como as coisas eram e não eram. Se estivesse aqui, teria menos hipóteses de me defender. E seria inactivo. Em Espanha, com a protecção de ter passado de um lado para o outro, trabalhei todos os dias, geri de longe a minha empresa, dei trabalho da mesma forma, crescemos da mesma forma. As coisas levaram o seu tempo, chegámos às conclusões finais. É isto que lhe posso dizer. São casos que nos tocam e nos sentem, mas ter falado nisto não prejudica nada.

 

Continua a trabalhar em média 18 horas por dia, diz que leva o dia a correr. O que faz um homem que tem este império trabalhar tanto? Acaba por não ter tempo para gozar aquilo que conquistou.

Cada pessoa goza à sua maneira. Uns gozam indo à praia, indo ao cinema, visitando o estrangeiro. Eu gozo na minha luta. Gozo olhando para a minha fábrica, para o meu pessoal. Trabalho as horas que disse, mas sempre juntei o útil ao agradável, o trabalho ao privilégio. Viajei muito na Europa, viajei muito pelo mundo. Procurando negócio, instalava-me bem.

 

Se não trabalhasse tanto, envelhecia mais aceleradamente?

Por acaso, preciso de descansar, e hei-de arranjar forma de descansar. Prometo-me, e prometo à minha mulher, que vamos fazer uma pausa ao meio da semana. Vemos exemplos de gente que pára, falta qualquer coisa, e a pessoa cai. Eu não caía. Parando, era parar com uma actividade directa, mas tinha tantas coisas em que ocupar o tempo, tantas coisas onde podia continuar a ser útil... Não me levantava às seis, levantava-me às nove, já era uma hora decente, que muita gente não usa...

 

A preguiça faz-lhe impressão?

Impressão e mal-estar. Reajo muito negativamente. Ás vezes é também uma doença, incontrolável, e quando é assim, não há nada a fazer. Se uma pessoa estiver doente, ligada à droga ou a qualquer outra coisa, dou a minha ajuda, dou trabalho. Nessa situação, incomoda-me sobremaneira. É um estilo de parasita, não é? Mas temos de aceitar, a sociedade é assim.

 

Em 1961 nasce a Delta. Tinha anos de trabalho com o seu tio, com o qual aprendeu os meandros do negócio. Em que momento percebeu que a sua vida era já diferente da dos seus pais, que tinha dinheiro?

Quando criámos a Delta, o meu pai já não existia. Trabalhava com os tios, o Tio Joaquim e o Tio Silveira. Eu queria uma coisa que crescesse, andasse, tivesse meios. O meu trabalho e as parcas economias que tinha, pu-las ao serviço e criei a empresa. Criei neste mesmo espaço onde estamos hoje um escritoriozinho, e lá ao fundo a fábrica. E não deixei de trabalhar na outra fábrica, de onde vinha o rendimento para mim e para a família. Levei muitos anos sem ser capaz de vender um quilo de café, muitos anos. As marcas estavam de tal forma fidelizadas no mercado que entrar outro qualquer era impossível. O que é que eu resolvi? Especializei-me nas misturas populares, a cevada moída, que se vendia muito no centro e no norte. Foi assim. 

 

Lembra-se do seu primeiro milhão?

Não. Ouço essas expressões, «O meu milhão, os meus milhões»; os meus estão agrupados na força da empresa. Uma coisa que uso é não ter dois bolsos. A empresa só tem um bolso. Portanto, nunca seleccionei um milhão nem meio milhão. Os nossos milhões estão envolvidos no nosso trabalho, nas nossas fábricas.

 

Nunca sentiu a felicidade de pensar que é rico, que pode fazer e comprar o que lhe apetecer?

Não. Nunca foi a minha preocupação, nem o é. Essa mensagem levo-a também a quem anda junto de mim, sobretudo aos filhos. A nossa preocupação é ter uma casa forte, boa, ter um património de amigos excelente, um património de clientes a quem somos dedicados e que são dedicados a nós.

 

De que é que se orgulha especialmente?

Não pensei ainda muito nisso. Mas tenho uma coisa que me dá muita satisfação: na rua de Campo Maior, e mesmo na rua de qualquer cidade do país, as pessoas conhecem-me e fazem referência, «É fulano». Isso dá-nos uma felicidade grande. É porque não passamos anónimos, é porque passamos com admiração e carinho.          

 

 

Publicado originalmente na revista Selecções do Reader’s Digest em 2002

 

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