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Rui Reininho

Rui Reininho, o Reinito, como ele se chama, fez um disco a solo. “Companhia das Índias” conta com velhos parceiros, como Zé Pedro e Rodrigo Leão, e músicos da nova geração, como Armando Teixeira, que o conheceram quando ele já era um performer que enche estádios.

Passou dos 50. Gosta de vestir bem. Trata bem palavras como Equilíbrio. Adepto da quiroprática ou da comida macrobiótica. Tem um filho cujo crescimento acompanha. Vive entre Porto e Lisboa.

A entrevista, que teve o disco novo como ponto de partida, foi o pretexto para falar do estado das coisas. Para falar da mãe e das mulheresem geral. De uns sapatos de crocodilo a que não resiste. De envelhecer e de gostarem de nós. Das conversas com pessoas da rua, das coisas de todos os dias.

Começou por dizer que estava de luto…

   

Este fim de semana foi a dois funerais. Está a chegar aquela idade em que se começam a perder pessoas…

Com a minha provecta idade, já enterrei muita gente.  

 

Gostava que a idade e o tempo fossem um dos vectores da entrevista. Até porque o disco a solo marca um novo tempo.

Houve um renascimento. Estou habituado [a perder pessoas]. Sou do género voluntário. Tenho a sensação que sou daqueles que se atiram à água para salvar pessoas. Sempre me dei com comportamentos borderline, desde novo começámos a perder gente no nosso exército. Os meus amigos morreram porque apanharam doenças, de overdose, porque tinham práticas arriscadíssimas. Aos 19 anos, já estava a fazer salvamentos na casa de banho. Começava logo a fazer boca a boca, chamem a ambulância… Sempre combati do lado da vida. Tive muita sorte.

 

A artista plástica Nan Goldin dizia, justamente, que teve sorte: porque teve o mesmo comportamento dos amigos, e salvou-se. E que sentia até uma culpa por ser ter salvo.

Nos anos 80, sex was a hand-shake between friends [o sexo era um aperto de mão entre amigos]. Eu estava em Lisboa nos anos 80, no Bairro Alto; trocava-se de namorado, de parceiro. De um modo completamente desprotegido. O único medo que tínhamos era do herpes. [risos] Era um comportamento desabrido. Ainda hoje se exige aos artistas que morram cedo, que desamparem a loja.

 

Isso é para podermos continuar a mitificá-los?

A gostar deles, sem os ver envelhecer.

 

Não assistimos às rugas do James Dean. É disso que as pessoas têm horror: de verem também as suas rugas?

“Este gajo está a ficar velhote, e eu também estou, que chatice”. Isso é o contrário do amor – que é querer envelhecer com alguém. É uma relação muito egoísta. O que é giro é o Kurt Cobain? Não, o que é giro é o Carlos do Carmo. Comecei a perceber as coisas de outra maneira. É como no rock and roll: “When is too loud you’re too old” [quando está demasiado alto, tu estás demasiado velho]; já não há paciência para ficar à porta, e não ter bilhete. Esta vida exigia uma prática, uma militância muito grande. Vir cá abaixo, ficar a dormir debaixo das pontes, em casa de amigos… Conheci o Zé Pedro nessa altura, antes de ele ser Xutos e eu GNR. Eles diziam: “Lá vem o Rock Clube do Porto!”

 

Hoje, estão uns músicos burgueses, e encontramo-nos num hotel chique da cidade.

Mas isso não é culpa minha! Podíamos estar numa tasca qualquer.

 

Gostava de cruzar a ideia de envelhecimento com a sua hipocondria. Estava a dizer que é voluntarioso desde sempre, que vai lá salvar… 

Comigo sou mais aflitinho. Continuo a ter muitos nervos antes dos espectáculos. Acordo e o meu pânico é estar afónico. E meia hora antes, saber se vou conseguir fazer aquilo a que me proponho. Aquele nervoso que sinto é o do primeiro encontro – a que os americanos chamam date. Será que ela vai estar? Vou levar flores? Antes dos espectáculos é como estar pré-apaixonado: vai correr bem?, vamos jantar fora?

 

Ainda existe esse medo da rejeição antes de todos os concertos?

Não é da rejeição. É de não conseguir. É por isso que não concordo que isto seja uma coisa tão burguesa. No nosso mister, somos sempre postos em causa. “Ah, o gajo não se mexe, ah, este disco é pior, ah, ah, vendeu 40 bilhetes, coitado, foi um flop”. No caso português, é muito bom e não enche, ou já não é bom porque vende muito e enche.

 

Como é que foi vivendo com os ups and downs nestes 30 anos de carreira? Tudo começou quando?

[Tudo começou] em 77. Um ano fulcral para mim. Não vou à tropa e faço o primeiro disco. Decido optar por estas vidas. Já tinha desistido de ir para advogado. Houve essa decisão com os meus capangas GNR: desistimos dos cursinhos, vamos fazer isto. Éramos uma middle class, com tendência a upper – Boavista e Marechal Gomes da Costa, no Porto. Ups and downs? Há pessoas que lidam muito mal com isso, com a falta de atenção. Comecei a ausentar-me quando posso: desligo o telemóvel; se me convidam a ir à televisão, a não ser que tenha alguma coisa para mostrar, recuso; não quero estar sempre a opinar, a aparecer. Toda a gente já apareceu na televisão e em programas para acamados.

 

Ao cabo de 30 anos, está por sua conta. Tinha receio quanto ao que pudesse resultar do disco?

Não. Fi-lo muito à vontade, de maneira muito descontraída. Gravei em casa de várias pessoas. Vamos falando sobre coisas, sobre a vida. “Então agora, ‘bora lá gravar?”. E com um pouco de auto-confiança que tenho, e como não estou xexé e senil, não ia sair uma grande porcaria. Eu vinha de eléctrico para o ensaio – agora vivo em Belém. Achei muita graça: “É o gajo?, e anda de transportes públicos? Isto está mau para todos”. E está! E na minha indústria está muito mau. Há pessoas que me dizem: “Estás a fazer um formato que já acabou”. Mas também o vinil já tinha terminado…

 

Várias pontas soltas: porquê o disco a solo agora? Porquê a insistência neste formato?

Por preguiça e tempo. Não estou na fase, como estivemos nos anos 90, de fazer 100 espectáculos por ano. Tenho mais tempo, estou mais comigo. Tenho mais tempo para acompanhar o meu pré-adolescente [o filho, António Sancho]. É um disco diurno. Desenvolvi um conceito meio esotericozinho, meio qualquer coisa.

 

Na capa parece que virou alquimista! Mas aí, já estou a juntar o que sei de si: o seu interesse pelas medicinas alternativas, e o seu humor.

É uma atitude bem disposta. Não posso ir para o Nepal um ano – era o que eu gostava de fazer. Vivemos disto, não posso parar meio ano. Uma vez estava com o meu miúdo, de férias, na Legoland, e ligaram-me: “Eh pá apareceu uma coisa no Funchal, daqui a quatro dias consegues estar aqui?”. Fomos a Londres. Levei-o a uma cidade que aprendi a amar por causa da pop rock. E vejo-a com outros olhos.

 

Como é que ele olha para si?  

Vê a persona pública e o pai. O único business em que se mete: quando lhe apetece vai ver espectáculos. Relaciona-se com a equipa de montagem, dá uns toques na bola à tarde, já aprendeu que na mesa de som é onde se ouve melhor. É um miúdo tranquilo. (Eh pá, falharam no tomate. [Tinha pedido uma sanduíche sem tomate]. Não me dou bem. E naqueles livrinhos [de alimentação segundo] o grupo sanguíneo, percebi que não tenho grande tolerância. Não se importa que vá comendo e que vá falando?)

 

Nada. Ainda gosta muito de palco?

Faz-me muita falta quando não o tenho. É um grande prazer estar no palco com aquelas criaturas (GNR). Começámos num sítio pequeno. A certa altura já não cabíamos nesse e estávamos no [Teatro] Carlos Alberto, a abanar, a cair. Depois, no Coliseu. E quando damos por nós estamos num estádio, porque já não cabíamos em lado nenhum. Sempre com inseguranças, dúvidas existenciais. Não tínhamos a coisa esgotada à partida.

 

Foram o primeiro grupo a encher um estádio. E o disco vendia muito. Não tinham nenhuma certeza quanto à afluência do público?

Nessa semana, o agente disse: “Break a leg, parte uma perna, que temos três bilhetes vendidos”. Só no sábado à tarde soubemos que tínhamos lotação esgotada, quatro ou cinco horas antes do início do espectáculo. As pessoas entraram na leva: “Quero ir ver”. Também podiam dizer: “Não vou, não vou”.  

 

A sua mãe continua a seguir de perto a sua carreira. Vai ver os concertos? O que é que ela achou da aventura a solo?

Talvez desnaturadamente, não a levei à Casa da Música, que era o melhor sítio em termos de comodidade. Mas era uma questão de horas; coitadinha, não está em condições a partir de determinada hora.

 

E as girls? Isto é uma revista feminina: é suposto que saibamos que relação tem com as mulheres…

Muito boa. Devo muito ao eterno feminino. Não tenho queixas.

 

Quando era um moço muito jovem, era um sex symbol, um ícone do glamour rock para as raparigas.

Não olho para o espelho dessa maneira. Tenho o mínimo de preocupação estética – para não ser desagradável. Mas tenho os meus desleixos, e gosto. No outro dia, uma senhora disse: “Gosto muito das suas músicas. Se você pintasse o cabelo, as raparigas novas gostavam mais de si!”. “E quem é que lhe disse que eu quero raparigas novas?” [risos]. “Não me diga que é desses…”. Tenho conversas muito engraçadas com o pessoal da rua. O meu paizinho, quando comecei a vestir umas coisas unissexo…

 

Temeu que “fosse um desses”…

Imensamente. Ameaçou-me que não íamos de férias se eu usasse umas bermudas às flores. Eu tinha o cabelo pelos ombros, brinco, socas… Era excêntrico, agent provocateur. Continuo. Não resisto a uns bons sapatos de crocodilo! O Dalai Lama usa Dock Martens. Ninguém é santo. O público feminino: não o confundo com as minhas amigas e as minhas amantes – agora faço de Zezé Camarinha, mas estas coisas não se contam em números. 

 

Que constante há nessas amantes? Apaixona-se sempre pela mesma mulher?

O que me faz apaixonar? Com o máximo de franqueza: era um espírito narcísico, era gostarem muito de mim. Tolerarem-me com os meus desvios, maluqueiras, sintomas. Ainda é. A estima, a paciência que têm comigo deixa-me derretido. A cumplicidade. Sou uma criatura um bocado ciumenta, terrivelmente. Se entro num processo de desconfiança, é mesmo patológico. Por conhecer a volubilidade das mulheres, receio que façam isso comigo… Ando a curar-me nesse aspecto.

 

Inseguro?

Há dois tipos de homens. Os que, quando entra uma moça espampanante, olham para ela; e os que olham para os outros homens. Sou dos que olham para os outros. Quem é que está aqui na área?…

 

Voltamos ao disco? Porque fez uma versão das Doce e outra do Cazuza?

Quando me foram feitas as primeiras propostas [para uma aventura a solo], não tinha repertório. Fiz a música revolucionária: Sex Pistols (o “Anarchy” em versão cha-cha-cha), Doors, Hendrix. Este disco tem 40 e tal minutos, e estou a fazer espectáculos de uma hora. Também faço o “Space Oddity” do David Bowie. O “Ciao Amore”, da Dalila. O Cazuza é uma coisa afectiva, e a música é perversa, tem que ver comigo…

 

Cazuza não envelheceu. Morreu com sida, jovem. E com os temas do envelhecimento e da morte voltamos ao princípio da entrevista.

Cazuza era um pouco um Mick Jagger brasileiro, bissexual. “Faz parte do meu show” é uma canção lindíssima. No álbum há mais duas ou três que têm condições de chegar às pessoas. Não quis que fosse pretensioso. Dizem que é pouco ousado… Achei estranho. Aquilo não é preguiçoso: é relaxado. Quem me conhece sabe que sou assim. E é bom para espicaçar os meus capangas GNR, para chegarmos aos 30 anos. Isto é para subir.

 

 

Publicado originalmente na revista Máxima em 2009

 

 

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