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Sérgio Gonçalves - 40 anos do 25 de Abril

Sérgio é casado, tem dois filhos, vive em Lisboa. Nunca soube bem o que queria ser. Fez a escola pública, licenciou-se em Gestão na Universidade Católica. É sócio e trabalhador na Live Content, agência de MK Digital. Trabalha no que o faz sentir mais inteiro. “A web é incrível”, diz. A música, também. “A música sempre representou muito do que me faz vibrar.”

Adora viajar, interna e externamente, “dependo desse estabilizador para ser feliz”. No outro dia estava a atravessar a rua com um livro de Hermann Broch debaixo do braço.

 

Pode fazer um auto-retrato?

Sou um português, europeu, com um lado asiático, outro africano. Tenho pouca maldade. Sou um gajo mesmo fixe. Ter uma cara bonita ajudou. [riso] Sempre tive uma atracção grande pelos outros. Adoro ligar. Sou um comunicador. Se tenho um talento, é esse. Comprometo-me. Preciso de causas. Sou um idealista. Nasci em Lisboa no dia 25 de Novembro de 1974.

 

Um ano mais tarde, a 25 de Novembro, um golpe militar acabou com aquilo que muitos consideravam a deriva comunista da revolução.

Nasci num dia contra-revolucionário de pais comunistas. Um ano antes, mas vai dar ao mesmo. É um dia reaccionário! O que quer dizer que nasci zangado com a injustiça para sempre. Sempre fui filho de pais divorciados.

 

Deixou de ser assunto. A revolução reconfigurou as famílias.

Mas nos 70/80 ainda se dava importância. Eu era o coitadinho das vizinhas da minha avó. Sacava chupas grátis.

 

Depois da separação, os seus pais tiveram novos relacionamentos, novos filhos? Essa é também uma marca dos anos de democracia.

Sim. Via pai tenho dois irmãos. Somos dos 7 aos 40. A minha filha é mais velha que a minha irmã. Eu vivi sempre (e intensamente) com a minha mãe. Divorciaram-se quando eu tinha cinco. A minha mãe continua a cuidar da família. Do meu avô aos netos. Amor incondicional. Muitas vezes, a revolução e o período subsequente serviu de desculpa para o divórcio (quando as pessoas não queriam [estar casadas]). A revolução dos costumes e as primeiras viagens contribuíram para libertar muita coisa... Houve um ajuste de contas com o passado, com a sexualidade reprimida.

 

Herdou o lado comunista dos seus pais? Como lidaram eles com o 25 de Abril e os anos subsequentes?

O contacto com o marxismo formou-me. Durante a ditadura, a casa dos meus avós em Torres Novas foi albergue de clandestinos e máquinas de impressão. Entre outros, passou por lá o José Afonso. O meu pai já era membro do Partido Comunista Português quando nasci. A minha mãe era militante não-activa, embora com alguma participação na sua célula na AGA. Trabalhou muitos anos nesta ex-empresa pública. Foi lá que conheci o Jesus Correia que, depois de se reformar da carreira desportiva, trabalhava na tesouraria.

 

Foi com ele ao futebol?

Sim, levou-me à bola. Entrei em Alvalade pela mão de um dos sete violinos. Sou do Sporting!, claro. O meu pai entrou no marxismo por causa de um padre vermelho que conduzia um dois cavalos e vários jovens do Ribatejo. Era um aluno de quadro de honra. (Eu nunca fui um aluno brilhante. Procrastinei.) Formou-se em Medicina em Lisboa.

 

Teve uma formação marxista, já o disse. Mas é tão politizado como os seus pais eram com a sua idade?

Sou politizado. 

 

Vota?

Voto. Algumas vezes em branco. A minha intervenção política acontece essencialmente através da criação de emprego [na empresa de que sou sócio]. Na experiência que o real proporciona. Sem teorias. Tenho um sentido de justiça que me faz estar pelos mais fracos. Estou com a equipa que perde. Sou pelo bem. E sou céptico em relação a certezas. 

 

Quais são os desafios da sua geração?

Quando falamos de geração, acabamos a discutir generalizações. Há pessoas iguais dentro de uma geração?

 

De acordo, acabamos nas generalidades e no retrato homogéneo. Mas o homem é quem é e a sua circunstância, diz Ortega Y Gasset.

Se há uma revolução que marca a nossa geração é a da tecnologia. A internet e o digital. O nosso Yin Yang. Mas, em termos absolutos, as desigualdades, a capacidade de fazer mal, a barbárie mantém-se. Ao longo dos tempos e cruzando gerações. A democracia, para além da tecnologia, marca-nos. Não conhecemos outra realidade. O que vemos, no entanto, é a falência da participação cívica. Ninguém quer saber.

 

Competitividade global?, grau de exigência? Precariedade: são agora mais prementes?

Hum. Não estávamos, já nos descobrimentos, a competir globalmente? Não estivemos sempre em competição global? Hoje Portugal compete a nível mundial através das “cabeças” dos nossos, na cultura, ciência, engenharia, arquitectura, desporto, indústria. Ocorre-me que existe um desafio para a nossa geração, dificilmente cumprido: vencer o medo. 

 

O que sabe sobre o 25 de Abril foi contado pela família, aprendido na escola, nos livros?

O que sei é um misto de escola, história e testemunhos vivos. Difícil ser mais completo.

 

Viaja. Tem bom conhecimento da realidade internacional. Que coisas funcionam melhor aqui do que lá fora? Que coisas funcionam mal aqui e que o exasperam?

O que mais me exaspera: a dificuldade que temos em nos governar a nós próprios. Custa a entender que uma área tão pequena seja tão difícil de gerir. Podia ser uma coisa de agora, mas não. Repete-se. Exaspera-me também a relação com a rua. Somos mesmo selvagens. Beatas, pastilhas para o chão, urinar em qualquer lado, indiferença para com os outros, os passeios imundos com dejectos de animais... Primitivo. Ainda assim, Portugal é um sítio incrível para viver. Amo Lisboa. Amo. 

 

O que é que é específico nosso?

O que nos dá alguma especificidade é a língua, que é a nossa grande herança e responsabilidade. Queremos ser especiais, quase todos os povos se sentem escolhidos. Mas somos muito iguais a todos os outros. Crianças são incrivelmente idênticas em qualquer lugar. Depois vem o medo, a identidade, a pátria. Dividimo-nos artificialmente. Criamos fronteiras e egos. Fazemos guerras. 

 

Uma das coisas inegáveis da democracia é a implementação do Estado Social, acessível a todos – sobretudo educação e saúde. Também se diz que o Estado Social é insustentável. Pensa que no futuro vamos ter um sistema à americana, em que todos os serviços são privatizados, e quem não tem dinheiro fica de fora?

Temos um longo historial de previsões e falhanços. De tal forma que os místicos acertam tanto como os economistas. Não acredito que não seja viável assegurar com os nossos impostos assistência para todos. Os EUA estão a recuar...

 

Nomeadamente com a criação do Obama Care.

... e aqui, todos a correr para a primitivação dos serviços públicos. Vai ser um desastre, porque parte de um princípio errado: o de que somos “homo economicus”.

 

Neste anos recentes, por causa da crise, estamos globalmente zangados com o país e em especial com os políticos. Também está zangado?

Não, não estou zangado com o país. Em relação aos políticos: quais? Serão os nossos piores? Viajando chegamos à conclusão de que o problema é global. Mas a promiscuidade entre poder político e financeiro, ver o Estado ao serviço dos partidos e de interesses privados pouco preocupados com o bem comum, enoja-me. Temos um dos maiores escândalos de sempre, envolvendo até o Presidente da República [BPN], e apenas um condenado. Isto deixa-me desesperado.

 

Consegue fazer um retrato, a traço grosso, de Portugal e dos portugueses?

Será que alguém consegue classificar os portugueses? Seja eu ou o [José] Gil do “Medo de Existir”, vamos sempre ter uma visão enviesada e contaminada pelos nossos preconceitos. Conscientes e inconscientes. O português do Algarve é igual ao da Beira?, o de Lisboa é igual ao de Setúbal?, é igual ao de Newark? A representação de quem somos é feita pela nossa cultura e produção artística. São os artistas que nos mostram aquilo que não vemos, não será?

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Abril de 2014

 

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