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Simonetta Luz Afonso

Há aquela cena das «Pontes de Madison County», da filha que desembrulha cuidadosamente as cartas dos pais e os conhece num tempo em que não os conhecia ainda. E depois, no filme, há a surpresa do que se encontra... Simonetta adiou anos e anos essa leitura. Viveu-os como um processo de maturação. A ganhar coragem para abrir a porta. E depois leu-os linha a linha, e descobriu-os coincidentes com aqueles que durante anos foram o seu pai e a sua mãe.

Há nesta entrevista uma irresistível evocação da memória. E há um veio de nostalgia acentuado. Parece que a sua vida se esgotou um pouco nesse momento fulminante em que a mãe lhe desapareceu, e mais tarde o pai... Mas ela não seria quem é se não seguisse em frente com uma força indómita. E foram eles, também, que a ensinaram a ser assim. Era ainda uma forma de lhes prestar tributo.

E há no relato de Simonetta a sensação de se folhear um álbum antigo, com todas as desventuras que se encontram num romance de muitas páginas lido nas férias de Verão. O Verão será a sua estação. Ruy Belo escreveu que “triste é perceber no Outono que o Verão era a única estação”. Mas ela viveu a sua estação intensamente, e esse brilho contagiou todos os outros meses do ano.

Simonetta? Logo aí se anuncia a garridice italiana. Um instante operático. Um desenho de uma personagem arrebatada. Uma personalidade vincada. Mas ela diz que apenas foi educada para ser uma pessoa decente. Já não é pouco.

Fez carreira como conservadora de museus, fez gestão cultural em momentos como a Europália ou a Expo 98. Preside ao Instituto Camões. É uma mulher inteligente, que se resguarda. Não é na entrevista. É dos outros. Tem o pudor de pesar...

 

Gostava de começar pela sua língua materna. Ou devo dizer línguas maternas? São o português, o italiano e o inglês?

O inglês não é língua materna. Aliás, é língua terceira. Aprendi-o quando fui para o Colégio do Bom Sucesso. A minha primeira língua foi o italiano, que a minha mãe e a minha avó falavam comigo. Ia falando português, claro. Mas não tão bem quanto o italiano. E quando fui para a escola, foi imediato.

 

O assunto da língua materna é fascinante. Convoca uma identidade, um modo de ser, pensar, sentir. A que é que corresponde em si a língua italiana?, e a portuguesa?

Uma língua tem atrás de si, sempre, uma cultura. Penso que o meu lado bem disposto, alegre, positivo vem do italiano. Um “dark side”, mais sério e introspectivo, vem do português.

 

Fale-me da sua mãe.

A minha mãe era uma mulher muito bonita, interessante e inteligente, formada em Económicas. Conheceu o meu pai em Itália. O meu pai era um jovem artista que foi viajar pela Europa antes da Segunda Guerra Mundial para contactar com a arte europeia. Esteve alguns meses em Florença onde conheceu a minha mãe. Apaixonaram-se. Entretanto, em 38 começaram os rumores da guerra e ele teve de regressar, de outro modo seria mobilizado. Continuaram a escrever-se. Durante cinco anos. Até que a minha mãe casou por procuração, que era a única maneira de poder vir para Portugal. Veio em 42.

 

Foi uma relação construída na escrita.

Foi. Tenho lá em casa caixas de cartas censuradas. De um lado e do outro liam-nas e cortavam coisas – achavam, talvez, que estavam a dar informações.

 

Quando é que as leu pela primeira vez?

Há muito pouco tempo. O meu pai morreu há dez anos, a minha mãe há 20 e eu nunca tive coragem de ler as cartas. Tive sempre dificuldade... Só há pouco tempo, talvez há uns seis meses, achei que devia lê-las. E... são quase história. Não se tratou, apenas, de ler as cartas daquelas duas pessoas, que conheci muito bem e por quem tinha muito afecto; era também a história de uma época, uma época difícil que a Europa viveu.

 

Consegue perceber porque demorou tanto tempo a ler as cartas?

Por uma questão de respeito e de pudor. Senti-me a entrar na intimidade de duas pessoas que já cá não estão. Mas por outro lado pensava assim: se não deitaram fora as cartas, as rasgaram ou queimaram, é porque não se importavam que outras pessoas as lessem.

 

Temeu, nalgum momento, que as cartas revelassem pessoas diferentes daquelas que conhecia? Isso contribuiu para o adiamento da leitura?

Podia acontecer que não reconhecesse aquelas pessoas jovens. Jovens apaixonados, que depois conheci como meus pais. Mas não. Eram as mesmas pessoas. Com as mesmas conversas que conheci enquanto filha deles. E contando um ao outro as coisas que aconteciam nos respectivos países.

 

O momento em que decidiu ler foi como se dissesse a si mesma que já era completamente crescida, que já podia ler as cartas dos pais?

Senti isso mesmo que diz.

 

No seu imaginário infantil, que lugar ocupava a Itália? Nunca viveu em Itália em permanência?

Vivi temporadas, meses, Verões, com a família da minha mãe. Tenho com a Itália uma grande afinidade. Sinto a mesma paixão que tenho por Portugal, o meu país. Mas é mais distante. É como alguém que amámos e de quem ficou uma boa recordação. Vou lá uma, duas vezes por ano. Já não tenho familiares em Florença; o tempo passa e as famílias desaparecem. Neste momento tenho mais familiares em Roma e por isso vou mais a Roma. A minha avó veio quando nasci. Foi uma alegria tão grande que veio. Acabou por ficar. Morreu cá, já eu tinha 16 anos.

 

Sentiu-se o centro da família? Foi filha única até aos 14 anos.

Não era tratada assim. O meu pai e a minha mãe eram pessoas muito racionais e, sendo filha única, não iam encher-me de mimo.

 

O francês, que aprendeu antes do inglês, e depois do italiano e do português, aprendeu-o com quem? Teve uma preceptora?

Não, era o meu pai que falava comigo. Depois tive uma professora para ficar com o “accent” devido. Mas não tive preceptora, não tínhamos dinheiro para isso. Foi uma aprendizagem em casa. Os meus pais ensinavam-me brincando. Eu ia aos museus com eles, aos concertos. A minha avó cantava muito bem e cantava-me árias. Dizia-me: «Olha, esta é da Aída, de Verdi», e contava-me a história da Aída.

 

Os pontos cardeais eram o pai, a mãe e a avó?

Claro. A minha avó nunca falou português. E eu fazia uma coisa engraçada: quando ela queria ir a uma loja fazer uma compra – nós vivíamos em Mafra –, umas agulhas de crochet, uma lã para fazer um bordado, uma fruta, pedia-me: «Vem comigo e dizes ao senhor que quero isto assim, assim». Eu ia com ela e fazia de tradutora! «A minha avó diz que quer isto assim, assim». As pessoas achavam muita graça, porque era muito pequena.

 

Era um ambiente extra-ordinário num meio pequeno como Mafra... Aos sete anos, foi para a escola. Que recordações tem da escola?

Adorava ir. Brincava sempre com muitos meninos. De qualquer modo, como não tinha irmãos, a minha mãe convidada sempre crianças a ir lá a casa. Tinha um teatrinho muito engraçado, com marionetas, que uma tia tinha mandado de Itália. A minha mãe manipulava as marionetas e punha-nos a fazer, também. Nesse tempo, as mães não brincavam assim com as crianças e os miúdos adoravam ir para minha casa. E andávamos de bicicleta, íamos para a Tapada de Mafra, andávamos a cavalo. Tive uma infância muito feliz, muito divertida.

 

Em todas as entrevistas suas que li, há sempre uma referência à família, mas não à escola. Como se ela não fosse tão importante.

A escola foi um episódio importante, mas não tão fundante quanto a família. Eu já sabia ler.

 

Como é que aprendeu?

Nesse tempo, os meninos não incomodavam as pessoas. E como eu dormia pouco, (e durmo), quando acordava, acendia a luz e folheava livrinhos. Juntava as letras. De manhã perguntava: «Que é isto?». E foi assim que aprendi a ler, aos 4 anos. Por isso, não foi uma grande novidade quando cheguei à escola. E em casa contavam-me coisas mais interessantes do que aquelas que na escola me contavam.

 

Essa diferença (no ambiente familiar, na preparação cultural) não lhe trouxe dificuldades de integração?

Às vezes, faziam pouco de mim por causa do meu nome. Mas não me ralava nada. E se calhar desatava à chapada! Luz Afonso é adoptado, é do meu marido. Sou Aires de Carvalho de solteira. Simonetta, há 60 anos, em Mafra, era um nome complicado... Mas depois passou. Foi ao princípio, quando fui para escola.

 

Por causa das coisas, pôs à sua filha um nome muito simples...

Ana é um nome que ninguém pode gozar. É preciso ter cuidado quando se põe o nome às pessoas. Podia não ter aguentado... Hoje, não gostaria de ter tido outro nome, mas quando se é pequenino ninguém se chama assim.

 

Quer dizer que a sua auto-estima foi desde sempre boa.

Mais do que auto-estima, tenho desde sempre a capacidade de comunicar. Mas isso vem da minha mãe. Ela mesma: quando chegou a Portugal havia muitas coisas que eram diferentes. Por exemplo, as senhoras não iam à praça; as empregadas é que iam. E diziam: «É estrangeira e não sabe, mas as senhoras não devem ir ao mercado». E a minha mãe: «Ah, não, divirto-me imenso, na minha terra também ia». E ia, claro. Portanto, fui percebendo que havia diferenças. E fui vivendo com elas, sem afrontar os outros, mas também sem me deixar pisar.

 

O que é que era susposto que fosse a sua vida depois dessa infância de felicidade?

O que quisesse. Em minha casa não me impuseram nada. A não ser hábitos de trabalho, de honestidade, deontologia, um modo de proceder. Princípios. Não fui criada para ser isto ou aquilo. Fui criada para ser uma pessoa decente.

 

Outra aprendizagem essencial aconteceu quando foi viajar sozinha...

Foi uma coisa que a minha mãe me incentivou a fazer. Entrei para a faculdade e gostei muito de Cultura Clássica, que aprendi com o padre Manuel Antunes. Um professor fantástico! Ele fazia história ao vivo. Contava episódios da antiga Roma teatralizando num grande anfiteatro da Universidade de Letras. Disse que gostava de ir à Grécia; e a minha mãe: «Porque não vais?».

 

Que idade tinha?

Dezassete, dezoito. Era muito pouco usual. As pessoas que a minha mãe conhecia, portuguesas, perguntavam: «Então, deixa ir assim a sua filha, sozinha?», «Claro, ela tem de aprender a ser auto-suficiente». Gosto muito de viajar. (Agora menos, porque viajo muito a trabalhar e torna-se mais pesado). A viagem foi sempre um complemento importante na minha formação.

 

Imagino que tenha aprendido tanto, tanto...

Foi o primeiro período em que estive completamente sozinha. Não podia contar com ninguém. Não conhecia ninguém – a não ser conhecimentos ocasionais que fiz nas ruínas, no barco que deu a volta às ilhas, no autocarro que apanhei para Éfeso. Percebi que era capaz de me auto-governar. Foi extremamente importante para mim. Ainda estive uns 20 dias ou um mês.

 

Quando voltou, era outra?

Talvez mais auto-determinada, mas não foi nada que alterasse a minha vida.

 

Na minha pergunta está subjacente uma ideia que Goethe desenvolve na «Viagem a Itália»: a de a viagem ser uma interpelação constante daquilo que somos. No sentido de nos mudar e questionar tudo. Entre Mafra e a Grécia aconteceu muita coisa?

Está a imaginar uma menina, há 40 anos, pegar no avião, chegar sozinha ao aeroporto, decidir para onde ia... Confesso que fui com um bocadinho de receio.

 

De quê?

De não ser capaz. Ou de ter saudades de casa. De me sentir demasiado só. Era um grande desafio para mim própria. A minha mãe propunha-me muitos desafios e eu participava neles. «Porque é que não vais? Vais sozinha, fazes o que queres, vês o que queres, à hora que queres.»

 

Nos primeiros dias teve essa vertigem da liberdade, de poder fazer o que queria, à hora que queria?

Não especialmente frenética. Estava tão empenhada em ver o que queria ver...

 

Abraçou-se ao Parténon?

Sim! Nessa altura ainda se podia subir, mexer. Nunca mais voltei. Não me apetece voltar. Ficou uma imagem tão fantástica, e agora há tantas restrições... Foi o meu primeiro encontro com a Europa. Como adulta.

 

Saltámos o colégio das freiras irlandesas.

Eram muitos duras.

 

A sua têmpera rebelde resulta do contacto com as freiras?

Talvez resulte desse combate. Não aceitavam a minha indisciplina, que tinha a ver com a rigidez do colégio. Dizia-se que era assim e não havia flexibilidade para fazer mais isto e aquilo. As pessoas maçavam-se e estavam sempre a inventar coisas para furar o sistema. Era doloroso: os meus pais vinham ver-me e não podia ir com eles passar o fim de semana porque estava de castigo. Lembro-me que uma vez o almoço era uma porcaria e decidi fazer um levantamento de rancho! [riso] Pus o refeitório todo a recusar-se a almoçar e a levantar a mesa, um dois três, uuhhh!

 

Era uma menina especialmente bonita?

Acho que não. Era bem disposta. Tinha as pernas muito magrinhas.

 

As pernas magras e os olhos claros contrastam com a portuguesa média...

Era mais notada pela boa disposição e por rir à gargalhada. O meu riso incomodava muito: «Uma senhora não ri assim». Ainda dou gargalhadas! E na faculdade, colegas minhas também diziam: «Não te rias assim que parece mal». Eu queria lá saber! Tinha vontade de me rir, ria-me! Havia um excesso de religião que também me incomodava. Levantávamo-nos, e rezávamos logo. Começávamos as aulas, rezávamos. Antes do almoço, rezava-se, depois do almoço, rezava-se. À tarde, ia-se ao terço. Depois, ia-se à missa.

 

Em que é que pensava nessas horas intermináveis de reza?

Ah, olhava. A igreja era muito bonita. Lindíssima. Acho que conheço todos os pormenores do tecto, das imagens, dos altares. Se calhar teve alguma influência na escolha das artes.

 

Mas aí, o seu pai, que trabalhava na área, também teve influência...

Teve, sem ter. Comecei por querer ser médica. Depois pensei em História. Cheguei a pensar em Diplomacia, mas estava fechada às mulheres. De maneira que fiz a minha carreira como conservadora de museu, e gostei muito. Diplomacia cultural: foi o que fiz a vida toda.

 

Diz que é uma funcionária pública militante.

Porque é que digo isso? Porque os funcionários públicos são considerados a causa dos males neste país: trabalham pouco, rendem pouco, são ignorantes, não têm brio. Não é verdade, não se pode generalizar. Conheci ao longo dos anos pessoas excelentes, em diferentes níveis, e acho maldade dizer isso. O que acho é que na administração pública se têm colocado chefias que não estão à altura da coordenação das equipas. É muito fácil pôr uma pessoa na prateleira, não lhe dar trabalho, não ver o que ela tem para dar. O que não acontece numa empresa privada. Por isso, o novo sistema que vem aí, se for bem implementado, pode ter as suas vantagens.

 

A passagem pelas freiras e o seu temperamento indómito.

Ficou mais indómito. Elas mexiam com aquilo que era mais sagrado: a minha liberdade. Ali, a liberdade era coarctada por regras rígidas, não havia espaço para pensar, para ler... Era um dormitório comprido, para umas 20 pessoas. Mas isso não bulia muito comigo. O que me incomodava mais era a formatação do quotidiano: levantar, rezar, lavar vestir, estudar. Eram dias sempre iguais. O recreio era fantástico. Tinha árvores de fruto, íamos apanhar cerejas, ameixas, tudo o que era proibido se fazia. Fazíamos piqueniques nos telhados! Hoje até me arrepio – tenho vertigens: se rebolássemos por ali abaixo, morríamos.

 

A imagem consensual que se tem de si é a de uma força da natureza, uma mulher bem disposta, mas rigorosa no trabalho. Estas duas vertentes encaixam na vida que está para trás, do colégio e de casa. Escrevia cartas?

Escrevia, escrevia. Até ao gato, que viveu muitos anos e de quem gostei muito. No outro dia encontrei algumas dessas cartas que a minha mãe tinha guardado, entre papéis. Que engraçado, a letrinha muito certinha! Como se pode ter sido assim... Pequenino! Perdemos a noção do tempo que passa. Se não olhar ao espelho, não me lembro dos anos que tenho. Como tenho boa saúde, só me lembro quando olho para o espelho.

 

Nunca teve medo de não ser capaz?

Claro quem sim!

 

Não ser capaz de ser feliz?

Não, nunca pensei nisso. A felicidade constroi-se no dia a dia e a felicidade é aquilo que queremos que seja. Mas tive medo de não ser capaz de muitos desafios que me apareceram pela vida, então não tive... Não é bem não ser capaz... É a noção da dificuldade.

 

Não encontro as suas inseguranças.

Não se nota, mas claro que tenho! Sou de carne e osso, toda a gente tem. Não partilho a minha insegurança. Não devo transpor para os outros as minhas dificuldades, as pessoas já têm as suas. Tento dar-lhes segurança. As pessoas metem conversa comigo na rua, contam-me das suas dificuldades. E tento dar-lhes uma voz de esperança, força, capacidade, «vai ver que tudo se resolve». Não é dar-lhes conselhos. É ânimo.

 

A quem é que revela as suas vulnerabilidades?

A mim própria. [riso]

 

Super mulher Simonetta...

Não sou!

 

Mas se não revela a ninguém as vulnerabilidades, se só partilha a força...

Às vezes, com o meu marido, sim. Mas não gosto. Tenho este pudor de pesar, de fazer pesar as minhas coisas sobre os outros. Há um espaço que é só meu, e outro que partilho. A minha mãe? Percebia bem as dificuldades. As pessoas que gostam de si sabem quando está a passar um momento difícil, profissional ou pessoal.

 

Quando a sua mãe morreu...

Ah, custou-me muito.

 

Foi um espaço de partilha e identificação que se esgotou quando a sua mãe desapareceu?

Foi um livro que se fechou. Tínhamos estado na véspera a falar ao telefone, a rir, a contar coisas do quotidiano. Ela morreu nessa noite. De repente, senti-me na fila da frente. Sabe o que é estar na fila da frente? Já não tinha ninguém a quem recorrer. O ombro da mãe é diferente do ombro do marido, do ombro dos filhos. Foi um choque terrível. Um telefonema às quatro da manhã, do meu pai, metemo-nos no carro, mas não havia nada a fazer. Tinha sido um aneurisma fulminante na aorta. Com o meu pai foi mais fácil. Ele morreu com 93 anos. A minha mãe ainda não tinha 70.

 

Estar na fila da frente é...

Fica-se responsável. Aquilo que a minha mãe fazia pela família, juntar, tudo isso, foi o que achei que tinha de fazer em vez dela. Continuar a fazer os Natais lá em casa, todos esses sinais que agregam. A família é o meu recuo. Super mulher: não é bem assim. Tenho as minhas fraquezas, não ando é a dizê-las no jornal – seria ridículo. E o ridículo mata.

 

Teve medo de envelhecer e de cair no ridículo?

Tenho a noção do ridículo e pavor do ridículo. Sou auto-crítica e por vezes sarcástica. Não tive medo de envelhecer. Sou muito cuidadosa, mas deixei ficar o cabelo branco. É mais natural... Neste mundo em que tudo é jovem, há pessoas que assumem que estão activas, que trabalham, e que já não têm 20 anos. Quando se chega aos 50 anos já se é idoso! Se fosse atropelada, diriam: «Uma idosa foi atropelada!» [gargalhada]. Não é assim que nos tratam? Sou idosa, não sou é jarreta!

 

Não consigo imaginá-la reformada...

Então não? Vai ver! Tenho imensas coisas para fazer.

 

Precisa de objectivos. Na sua vida há os grandes momentos: Hanôver, a Europália, o Pavilhão de Portugal na Expo.

A Europália foi um dos momentos em que tive medo. Pelo meu país. Já viu a figura que faríamos? Foi a primeira grande exposição em que aparecemos ao lado dos outros países europeus como um inter pares. Eu era só um instrumento, e não queria que o meu país se saísse mal. Fui responsável pelas exposições. Não havia transportadores de obras de arte à altura, não havia papel de embrulho, nem película de máquina fotográfica, não havia pessoal que tivesse feito uma exposição daquelas. Teve de se fazer tudo da estaca zero. A tradução, imprimir, fazer fotografias, um país que não estava habituado ao empréstimo de obras de arte...

 

Tratava-se de construir uma nova gramática. E as palavras que cá se praticavam são pouco abonatórias: desenrascar, cunha, dar uma palavrinha...

Tudo coisas que odeio!!

 

Também são parte do que somos.

O desenrascanço, para cobrir a preguiça e a falta de pontualidade, é odioso. Tem a ver com o não fazer a tempo, e à última da hora arranjar uma treta qualquer, colar com cuspo, está a andar. Mas tem outro lado: o lado inventivo. Se for bem trabalhado, permite encontrar uma solução para uma dificuldade que deixa meio mundo sem saber o que fazer.

 

Isto vinha a propósito da sua necessidade de ter desafios.

É verdade, preciso de objectivos. Mas na reforma também os posso criar. Gostava de trabalhar com crianças – aprender a brincar, brincar aprendendo –, transmitir o que tive na infância. Faço-o com a minha neta, e ela gosta muito. E gostava de ter tempo. Até lá, é um tempo para os outros.

 

Quase sempre na sua vida teve poder.

Deram-mo. Nunca pugnei por ele. Sou uma pessoa de muita sorte.

 

Pugnar é uma palavra de uma italiana...

É, é. Foram-me dadas tarefas que fui realizando. Ou seja, as pessoas foram confiando em mim. Mas nunca fui carreirista. Nunca meti uma cunha. Detesto cunhas. As pessoas sabem, e sabem que não ouço, e não metem cunhas. As cunhas são compadrios, que é outra palavra detestável. Há gente fantástica que me tem aparecido em concursos que nunca conheceria, porque não fazem parte do meu mundo, e fico muito contente por lhes dar uma oportunidade.

 

Meter uma cunha é um atestado de menoridade daquele para quem se pede...

Se alguém metesse uma cunha por mim, ficava furibunda! Exactamente por causa disso: era um atestado de menoridade. As pessoas valem por si e são julgadas pelo que valem. Sou apologista da meritocracia.

 

Mas, pugnando por ele ou não, teve sempre poder...

Um poder relativo. Todos temos poder. Você, ao fazer esta entrevista, também tem poder. O poder de escolher, entre aquilo que ouve, o que lhe parece mais interessante.

 

Olhe que conduzo muito pouco... Se eu não apontar caminhos, vai por onde?

Um assunto de que gosto? Do meu trabalho. Passo 12 horas por dia a trabalhar.

 

O seu trabalho tem a ver com gestão. De pessoas, ideias, meios. Com organização. Este instituto é o braço cultural da política externa, que passa pela língua. Estamos em mais de 200 universidades do mundo inteiro e vejo com grande entusiasmo o interesse pela língua. É uma língua com valor económico, com a qual se podem fazer negócios. Neste momento pedem-nos apoio universidades ligadas à Economia, à Ciência Política, ao Direito, à Medicina.

 

Temos peças de diferentes proveniências para formar um puzzle, que é o da sua identidade e da sua vida. Se olharmos de fora, qual é a imagem dominante? O que é que lhe faz mais sentido?

Não sei bem... O que me vem da infância: o desejo de ser recto, decente em várias frentes. É isso que me torna até desagradável. Às vezes não gostam de mim porque sou muito directa. Também é muito português não dizer o que se pensa. Fica-se nestas águas mornas e é um mundo de enganos... Não devo usar o tal poder para adiar soluções da vida das pessoa. Gosto muito de pessoas.

 

Isso é evidente.

É? Fico contente, porque não sabia que é evidente. Gosto de pessoas, de ouvir pessoas. Se você mostrar um ar disponível, a dada altura já lhe estão a contar a vida...

 

Mas isso não acontece consigo, como já falámos. Se descrevesse o seu mundo privado, sob a forma de diário ou coisa parecida, pergunto-me se a sua filha, ao lê-lo, 20 anos após a sua morte, o iria reconhecer plenamente...

Talvez sim, ela conhece-me bem. Há uma proximidade muito grande, há uma transparência. Não tenho máscaras, filtros.

 

Já reparou que quase não falámos de homens?

Ah, mas tive um pai que adorei. Íamos apanhar borboletas com um camaroeiro nos meses que passávamos na praia. Uma vez apanhámos uma febre da carraça os dois... Ensinou-me a nadar. Andávamos a pé. Apanhávamos mexilhões nas rochas das Azenhas do Mar. Andávamos de burro. Íamos às feiras. Era um lado muito físico, sim, só mais tarde foi intelectual. Fazia-me o baloiço. Fazia-me imensos retratos, em várias épocas da minha vida.

 

A boa palavra, para si, é ânimo?

É a palavra certa no momento certo. Pode ser ânimo, pode ser uma festa, pode ser um ombro, pode ser só o ouvir.

 

E essa palavra será em português? Dá consigo a falar em português e a pensar em italiano...

Até a sonhar... Se sonho com a minha mãe, sonho em italiano. Mas muitas vezes sonho que estou a trabalhar e a pensar em italiano. Mas os sonhos, só o Freud os pode explicar!

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

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