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Soraia Chaves

Cresceu na Trafaria. Fez o liceu. Quis fazer cinema. Fez moda (“Nunca foi um objectivo de carreira, simplesmente servia para ganhar dinheiro e viajar”). Apaixonou-se por Roma, trabalhou em Atenas, Londres, África do Sul, Holanda.

Saiu pela primeira vez quando representou Portugal num concurso de beleza. “Éramos 100 miúdas, de todo o mundo, fiquei fascinada com as diferenças culturais ali presentes. Fiquei surpreendida por existirem tantas mulheres bonitas”. Foi em Nice, tinha 15 anos.

Portugal ficou a conhecê-la como Amélia, em “O Crime do Padre Amaro”. Depois deu-se o encontro com António Pedro Vasconcelos, que não lhe poupa elogios, em “Call Girl”. Em Dezembro, estreia o novo filme do realizador, em que é novamente a protagonista. “A Bela e o Paparazzo” é uma comédia. No dia da entrevista, depois de meses em que foi uma loura desequilibrada, Soraia Chaves voltava à sua natureza morena. A ela mesma.     

  

Em “A Bela e o Paparazzo” é uma actriz de telenovela, cuja vida pessoal é vampirizada pela imprensa cor-de-rosa. A tentação é a de colar esta personagem à sua condição de figura mediática.

Eu não tenho a exposição pública de uma actriz de telenovela. Não entro em casa das pessoas todos os dia. Ando por Lisboa tranquilamente, faço a minha vida normalmente, vou aos cafés, a um quiosque comprar um jornal. Há uns cochichos, uns comentários, uns olhares indiscretos; mas são raras as vezes em que sou abordada. Sou muito diferente [de cara lavada]. Se eu usar saltos altos, uma roupa justa, um look apelativo, a associação é feita imediatamente.

 

Entrou no mundo da moda com 14 anos. Como é que descobriu que podia ser outra? Como é que descobriu em si a femme fatal que produz um impacto erótico nos outros?

Só me dei conta do impacto erótico mais tarde, não aos 14 anos. A transformação, percebi-a na primeira sessão fotográfica. Por instinto. Vestir um vestido glamoroso, usar uns saltos altos, ter uma câmara apontada, opera uma transformação, faz-me sentir diferente.  

 

É verdade que qualquer mulher, quando põe uns saltos, sente-se mais poderosa.

A atitude muda. Há qualquer coisa que muda. A reacção das pessoas muda, e não sou indiferente a isso. Houve uma fase em que gostava de causar esse efeito. Tinha cerca de 20 anos. Aos 27, estou mais preocupada com o facto de me sentir bem na minha pele.

 

A Maria, de “Call Girl”, e a Amélia, do “Crime do Padre Amaro”, colaram-lhe o rótulo de bomba sexy.

[Risos] É verdade que o meu início foi ligado à imagem de mulher sedutora. Mas o personagem de “Call Girl”, conforme estava escrito, era muito mais do que uma femme fatal, era uma mulher complexa e interessante. A nível pessoal e a nível profissional, precisei de me distanciar. De momento, faz sentido descobrir novos personagens. Mostrar alguma versatilidade, ou pelo menos tentar trabalhar essa versatilidade.

 

Ficou cansada de ser olhada apenas como um símbolo sexual? 

Fiquei. Eu tenho mais para mostrar. Seria fácil construir uma carreira baseada nessa imagem, seria mais óbvio… Não me interessa.

 

Como era aos 14 anos?

Cresci muito cedo. Saí à minha mãe, que é uma mulher grande. Aos 14 anos tinha corpo de mulher, mas era uma miúda muito tímida – e ainda sou. No trabalho, sempre houve essa transformação. Eu gostava de explorar esse outro lado… A moda permitiu-me isso.

 

Sem perceber completamente até onde é que isso ia? Aos 14 anos, vive-se uma fase de descoberta do próprio corpo, da sexualidade.

Não ia a lado nenhum, ficava na sessão fotográfica. Era um momento de libertação, de jogo, de prazer. Sabia que era uma pessoa em frente à câmara e fora do estúdio era outra. Comecei a trabalhar em Maio e descobri os saltos altos. Foi isso que fiz quando recebi o primeiro cachet: comprar uns sapatos de salto alto.

 

Descreva os sapatos.

Eram umas sandálias, que hoje acho muito feias! Com um tacão grosso, enorme. Adorava andar nos saltos altos. Com aqueles sapatos e roupa justa, comecei a chamar demasiado a atenção, comecei a sentir demasiados olhares sobre mim. Fartei-me disso, quis passar despercebida. Aos 16 voltei a usar ténis e calças de ganga com remendos. Não tenho esse desejo de atenção. Não é natural em mim. Se acontece pelo meu trabalho, aceito, mas não na minha vida. Portanto, voltei a cobrir-me.

 

Como é que foi parar à moda?

Fiquei impressionada com algumas reportagens fotográficas, com editoriais que vi em revistas. Numa delas, as leitoras podiam concorrer e fazer uma sessão fotográfica profissional. Resolvi inscrever-me. Lembro-me de brincar com as minhas irmãs, de calçarmos sapatos, de pôr maquilhagem nas festinhas da escola. Tínhamos um espelho enorme e fazíamos isso em frente ao espelho. Nós somos cinco, eu sou a quarta.

 

Sentiu que tinha atenção ou teve que lutar por ela?

Durante seis anos fui a mais nova da família. Tinha atenção, gostava dessa atenção, trabalhava para ter essa atenção. Sempre tive uma personalidade muito forte. A minha mãe dizia que eu tinha tanto de carinhosa como de arisca. Não gostava de ser contrariada, gostava das coisas à minha maneira. Para conseguir isso, era doce e dava beijinhos.

 

Qual era a sua táctica infalível para manipular os mais velhos?

Era, no final do dia, deitar-me na cama da minha mãe e abraçá-la. Não era para manipular, só. Era sincero. Depois havia momentos de rebeldia. Fui crescendo, aprendi a controlar o meu temperamento. Aprendi que há limites, aprendi que há um sentido de igualdade, de respeito e de justiça. Há o equilíbrio, onde ainda não cheguei. Ainda estou a trabalhar para isso.

 

Não sente qualquer inibição pela exposição física que lhe é pedida nos filmes?

Os actores despem-se, não literalmente, no palco, no plateau. É admirável e às vezes assustador. É assustador, se for sincero. E isso implica uma exposição emocional muito forte. É bem mais complicado do que tirar a roupa. Um corpo é apenas um corpo, ao qual não dou assim tanta importância; é superficial.

 

Como é que os seus pais assistem à personagem pública em que se tornou? Foi embaraçoso tê-los na sala de cinema a ver cenas íntimas, como a da masturbação, no “Call Girl”?

Eles não fazem comentários. São incríveis! Se fosse uma exposição da minha intimidade, provavelmente ficariam chocados; mas entendem que aquilo é ficção, é um personagem que interpreto. O lado físico: trabalho com a minha imagem desde miúda, já fiz algumas transparências, e eles sempre conseguiram fazer um distanciamento. Admirável. Não sei se o conseguiria fazer se tivesse filhos. Na estreia d’ “O Crime do Padre Amaro”, o meu pai disse que lhe tinha custado bastante mais ver uma cena em que um homem me dá um estalo do que as cenas de nudez. Depois, sinto que têm orgulho por eu ter conseguido alcançar o que queria.

 

O que é que queria exactamente? O sucesso, ser conhecida, ganhar dinheiro, sair da Margem Sul?

[Pausa] A vontade de sair da Margem Sul aconteceu aos 15 anos. São vinte minutos de distância de Lisboa, mas há uma grande diferença. Viver onde cresci é como viver numa aldeia. As pessoas são muito puras, a simplicidade das coisas está ali. O que foi bom para a minha infância. Aos 15 anos quis viver mais, conhecer, descobrir. Lisboa foi o primeiro passo. Depois comecei a viajar. No fundo, quis criar um mundo que fosse o meu. O meu objectivo principal era representar, trabalhar em cinema.

 

Tinha 22 anos quando fez o casting para “O Crime do Padre Amaro”, e a sua vida mudou depois disso. Só agora está a investir em cursos de representação. Porquê?

Foi algo que não fiz na altura certa e não sei dizer porquê. Talvez tivesse falta de confiança. Pensei que não seria suficientemente boa para entrar numa escola. Havia uma insegurança, que continua a existir em mim. É o medo de falhar, o medo de não conseguir ser o melhor que posso ser. Estou constantemente à procura dessa evolução. Exijo muito de mim. E daí querer fazer formação.

 

Nesse sentido, o encontro com António Pedro Vasconcelos foi fundamental?

Absolutamente fundamental. E antes, o encontro com o João Canijo, com quem tive as minhas primeiras aulas de representação. O António Pedro gosta muito de actores, é notória a preocupação com a história e os personagens. Passou-me algumas referências do cinema clássico. Os filmes de Billy Wilder.  “Anjo Azul”, com a Marlene Dietrich. “A Caixa de Pandora”, de Pabst. Adoro John Cassavetes, que descobri pela mão de Canijo.

 

Quais foram as referências para esta personagem – uma actriz de telenovela?

Vi filmes em que as personagens têm uma energia mais louca, mais raivosa, mais impulsiva. A minha personagem está perdida no início do filme, porque quer realmente ser actriz e quer levar o seu trabalho a sério. É um pouco bipolar. Está numa fase em que explode, é capaz de bater, gritar, insultar, bater com a porta. Eu sou o oposto: sou calma, tranquila, ponderada.

 

Aparecer loura, mexeu consigo? Distanciou-a de si mesma?

No início, senti um desconforto muito grande! Olhava-me ao espelho e ficava frustrada. Acho que consegui usar isso para a personagem – porque a Mariana está desconfortável naquele momento da vida dela. Acabei por achar divertido: sou eu, não sou eu. Estar loura ajudou-me a distanciar a personagem de mim.

 

Consegue perceber porque é que não se reviu? Quase todas as femme fatal são louras.

Excepto a “Gilda” [interpretada por Rita Hayworth]. Não é a minha natureza, e eu gosto da naturalidade das coisas. Senti que o cabelo louro não encaixava com a minha personalidade ou comigo. (Mas passados quatro meses já me estava a habituar. É incrível a capacidade de adaptação do homem!)

 

O seu corpo é uma ferramenta de trabalho. É inesperado perceber que tem o cabelo ondulado e umas borbulhas na cara. Não coincidem com a imagem das revistas e dos filmes. Cuida de si?

Não consigo passar o meu tempo preocupada com o meu físico, com o meu corpo, com a minha pele. Não quero ser refém do meu corpo nem da imagem. Não me considero magra. Sou naturalmente assim.

 

Curvilínea.

Uma gordurinha, uma ruga: são naturais. Cada vez mais aprecio a imperfeição. O que é um corpo perfeito? É um corpo seco, sem gordura? São os abdominais trabalhados? Não concordo. Não acho feminino. O grande ícone sexual do século XX, Marilyn Monroe, estava longe de ter um corpo (hoje) considerado perfeito. Identifico-me mais com esses padrões, da beleza natural, do que com a beleza que implica horas de ginásio e operações plásticas. Acho que não vou por aí.

 

É fácil dizer isso porque não precisa de pôr silicone no peito. É fácil dizer isso quando se tem uma boa matéria-prima.

Não sei se o meu corpo está de acordo com a norma vigente. Há imensas actrizes que são forçadas a emagrecer para estar na moda. Não estou a queixar-me do corpo que tenho, e não estou a censurar quem o faça. Simplesmente não quero isso para mim. Se isto é fácil de dizer? Já senti essa pressão: “Estás com dois quilos a mais, tens de emagrecer”. Mesmo depois de ter este reconhecimento público. Mas não pretendo tentar ser aquilo que não sou.

 

 

Publicado originalmente na Máxima em 2010

 

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