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Tatiana Salem Levy

Tatiana Salem Levy é escritora. Brasileira, vive entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Define-se como uma pessoa que não gosta de fazer auto-retratos.     

 

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa. Pode falar-me de alguns dos sonhos do seu mundo?

Tentar entender o seu humano, a existência de forma geral. E claro que essa busca significa querer uma vida melhor. Acho que continuo com os mesmos sonhos das crianças: um mundo mais justo, paz, amor – coisas que depois de adultos passamos a considerar bregas ou básicas demais. Mas talvez seja justamente isso o que me faz seguir um caminho: a simplicidade.  

 

Oficialmente saímos da crise. Disse-se que Portugal tinha vivido acima das suas possibilidades e que era preciso aprender a viver de outra maneira. Aprendeu?

A meu ver, o discurso oficial é muito diferente da realidade. Tirando o centro de Lisboa, onde, por conta do turismo, tudo parece abundar, continuo vendo a crise na vida das pessoas. Continuo tendo inúmeros amigos sem trabalho ou ganhando um quarto do que ganhavam antes para trabalhar mais. Isso, para o discurso oficial, talvez seja sair da crise. E essa história de aprender com a crise me parece um discurso apologético. Parece que o Governo quer que as pessoas aprendam a viver sem trabalho, sem comida, enquanto eles sentam em cima e cortam ainda mais dos portugueses...

 

Quando José Saramago recebeu o prémio Nobel da literatura, isso coincidiu com os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O discurso do escritor português reflectiu essa coincidência. Que direito lhe parece mais ameaçado, posto em causa, que urge fazer cumprir?

São muitos os direitos ameaçados ou que nunca se fizeram cumprir integralmente. No Brasil, mas não só, ainda há trabalho escravo, há pessoas presas aleatoriamente, há desigualdade entre pessoas de diferentes raças... Saramago foi um dos escritores que mais bem retrataram o vínculo entre literatura e política. Ele disse em seu discurso do Nobel que neste tempo se chega mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante. Tem toda razão.

 

Como escritora, pensa que literatura tem muito que ver com política?

Diria que sim. Escolher um assunto, determinados personagens é sempre uma escolha política. Por isso, tenho abordado o direito das mulheres: a serem donas de seu próprio corpo, a terem a mesma liberdade e o mesmo valor social que os homens.

 

Portugal vai ter duas eleições nos próximos meses. Discute política?

Eu vivo dividida entre dois países. Meus amigos portugueses são bastante engajados politicamente. Quando vim morar em Lisboa, essa foi uma das coisas que me chamaram a atenção: a diferença de engajamento entre Brasil e Portugal. Mas dessa vez no Rio me deparei com um novo cenário: amigos que nunca se importaram com política fazendo reuniões semanais, criando partidos, dando seus nomes como possíveis candidatos.

 

Porque acha que é assim?

Um dos pontos positivos da crise (e não são muitos) é nos tirar de um certo comodismo político. O Brasil agora vive uma crise não apenas financeira, mas moral: gente fazendo passeata para pedir intervenção militar, diminuição da menoridade penal. Com um homem como Eduardo Cunha como presidente da Câmara dos Deputados, como permanecer calado?

 

Como é que explicaria a um jovem que vai votar pela primeira vez as diferenças entre a esquerda e a direita?

Eu diria que a esquerda se baseia na ideia de um mundo mais igualitário e justo, que tem ideias menos conservadoras do que a direita. Mas se esse jovem for brasileiro e tiver vivido quase toda a sua vida sob governo do PT, ele vai me questionar. E eu vou dizer que o PT errou em muitas coisas – priorizou o consumo da classe C, no lugar de uma boa educação pública; continuou com a política corrupta que existe desde a fundação do país – mas ainda assim, pela primeira vez na nossa história, tirou o foco da elite. Se ele me perguntasse se eu votaria no PT de novo, diria que não. Embora não ache que o eixo que divide direita e esquerda tenha acabado, acredito que a esquerda precisa se reinventar urgentemente.

 

“Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, no sol de quase Dezembro, eu vou...”, canta Caetano Veloso. Já não vamos sem lenço, sem documento. Levamos atrás o quê?

Acho que a alternativa a esse capitalismo cada vez mais voraz é justamente essa: andar sem lenço nem documento. Não estamos conseguindo mudar do alto a ideologia de um mundo globalizado que gira em torno apenas do dinheiro – porque é isso, né? O que importa é só o lucro. Não existe um Governo realmente interessado na preservação do mundo, da natureza, dos seres humanos, dos valores morais, a não ser que isso também traga retorno financeiro. Então, temos que mudar de baixo, no nosso dia a dia. Praticar aquilo que Deleuze e Guattari chamavam de micropolítica, uma transformação que venha não do alto escalão do poder, mas da nossa capacidade de transformar pequenas coisas.

 

O futuro passou a ser uma ameaça, evitar o perigo uma divisa. Quando foi a última vez que usou a palavra esperança?

Se o futuro for uma ameaça, estamos fodidos. Acho que, apesar da situação actual mostrar o contrário, temos que acreditar no mundo. Não temos alternativa. A última vez que usei a palavra esperança foi um mês atrás, no fim de uma coluna para o jornal Valor Econômico (no Brasil). Criticava os cortes das compras de livros literários para bibliotecas nacionais, sob a alegação do Governo de que a literatura é menos prioritária. Eu terminava o texto assim: “Não sei se estou sendo otimista além da conta, mas faz parte da personalidade de quem lê literatura ter esperança, mesmo diante dos cenários mais tenebrosos”.

 

Matilde Campilho disse que a poesia não salva a vida, mas que pode salvar o instante. O que é que salva o seu instante?

Muitas coisas: um mergulho no mar, uma água de coco gelada, uma sardinha assada, um show da Bethânia. Nesse momento concordo com a Matilde. Todas as noites, antes de dormir, leio alguns poemas para o bebé que está na minha barriga e ele me dá imensos chutes em troca. Não há instante do dia mais feliz do que esse.

 

Férias de Verão: dê-me uma recordação das férias de quando era criança. São um dos seus maiores tesouros?

A infância é meu maior tesouro. Não sei se é porque escrevo, mas estou sempre voltando a ela, às minhas origens. Posso morar em qualquer canto do mundo, falar qualquer língua, mas na hora de escrever sou uma criança do Rio de Janeiro. No meu segundo romance, “Dois Rios”, trabalhei muito com as férias de Verão. Búzios, Angra, Itacoatiara, Bahia, mar, picolé, piscina, roupa rasgada, essa é minha maior recordação.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

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