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Teodora Cardoso

Quando, por fim, vi os binóculos pousados junto às orquídeas, e estas junto ao cacto, interroguei-me sobre o objecto. Pedi-lhe que simulasse que via os veleiros, de que ela gosta muito, porque são muito bonitos. O que aconteceu a seguir foi uma revelação que talvez as fotografias confirmem: Teodora mostrou uma desenvoltura, uma relação com os sentidos que até aí não lhe conhecera. Pegou neles com uma facilidade tal que inventei que a vi de mangas arregaçadas, como num filme americano de outros tempos.

Não havia vestígios do corpo acanhado, dos pés juntos, das mãos que se contorcem quando falam de assuntos de que talvez nunca tenham falado em público. Há nela uma pudicícia em vias de extinção. E há zero de auto-complacência. A vida é o que é, e nós só sabemos dela mais tarde, quando a olhamos com distância.

Outra surpresa foi ver parte dos filmes arrumados no corredor. Os meus olhos pousaram instantaneamente na comédia mais delirante da história das comédias: «Não o levarás contigo», de Capra. Logo depois, «A corda», um exercício de inteligência e bom cinema de Hitchcock. E por fim, «O pecado mora ao lado», com uma insuperável Marylin, de um insuperável Billy Wilder.

Teodora gosta de filmes, e foi-me fácil imaginá-la a rir com as comédias que constam na prateleira. Ela é a mulher que fica bem entre orquídeas e cactos, entre Dom Quixote e Sancho Pança. É uma mulher que estudou Economia como podia ter estudado História. Teve esta vida como podia ter tido outra. Desde que fosse uma vida independente.

Durante uma manhã, traçou a sua biografia. Foi de uma amabilidade extrema, respondeu a tudo quanto perguntei, numa voz fina e cantante, quase infantil, cheia de risos, risos nervosos. Falou na primeira pessoa e falou através de Goethe, Jane Austen, através da música. O Félix, peça central do xadrez, assistiu discreto à entrevista, e foi, como a dona disse que era, um cão independente. Foi por isso que foi escolhido.

Teodora Cardoso tem 65 anos. Foi a primeira mulher a usar calças no Banco de Portugal. É uma reputada economista. E, como a seguir se verá, é muito mais do que isso. Bate nela um coração independente.

 

 

Quando fiz a pesquisa para esta entrevista, constatei que na net não há referências à sua biografia. Tudo diz respeito à produção académica, aos comentários que faz.

Também não há nada de especial para dizer em matéria biográfica! A história da minha vida é banalíssima. Estudei Economia, não por vocação especial. Devíamos escolher entre Letras e Ciências no quinto ano do liceu. Nunca consegui situar-me num lado ou no outro. Fiz o quinto ano no Liceu Filipa de Lencastre, um liceu feminino. Tinha um ambiente que detestei! Ainda hoje detesto passar pelo Filipa, que não tem culpa nenhuma! Foi um ambiente hostil. Nesses cinco anos, nunca tive um comportamento regular. Eu embirrava com a professora de Moral.

 

Era freira?

Era laica, mas beata. Era religião vendida de uma maneira que sempre abominei. Muito dogmática. A gente tinha que aceitar e não podia discutir. E não era pensada. Eu, que em geral era uma sujeita pacífica, tinha ali um desaguisado total!

 

O que se percebe daí, sendo uma “sujeita pacífica”, é que não se deixava intimidar. Presumo que, naquele tempo, para uma rapariga, afrontar o outro, e um outro hierarquicamente superior, fosse raro.

Não era muito de afrontar. Era de resistência passiva. Mas no quinto ano tive sorte porque fui parar ao Pedro Nunes, que era um liceu mais aberto, misto, com um outro tipo de abordagem. Apanhei no sexto ano em História o Augusto Abelaira. Foi uma experiência inesquecível. 

 

Porque é que foi tão fascinante?

Ele ensinava a História com uma visão cultural alargada. Não havia propriamente um livro, e, juntamente com a História, falava de viagens, escritores, artistas. Foi uma abertura ao mundo e à cultura muito importante. Na altura gostei, mas foi a posteriori que percebi como ele tinha sido importante. No fundo, abriu-nos os caminhos. Portanto, essa foi a [minha] história até acabar o liceu. Em Económicas tive um professor muito importante, o de matemática. Aprendi o que era a matemática pura.

 

Os dois professores apontados personificam o seu interesse pela História e pela Ciência...

É verdade. Outra coisa que desenvolvi, e que, em termos profissionais foi muito importante, foi a aprendizagem do Inglês.

 

Quando estudou Inglês, a cultura dominante era a francófona. Porque é que o estudou?

As grandes decisões que uma pessoa toma na vida, normalmente não tem consciência da importância que elas têm. Só mais tarde é que sabe. Foi uma questão de gosto. Sabia pouco de Inglês e fui para o Britânico ainda durante Económicas. Dediquei-me mais à Matemática e ao Inglês do que às cadeiras de Economia. Quando acabei o curso, continuava sem saber para que é que aquilo me servia!

 

Iniciou a sua vida profissional na Gulbenkian.

A Gulbenkian tinha um instituto de investigação de Economia, e uma área de métodos quantitativos – sempre fugi para as coisas da Matemática. Estive lá cinco anos e tal.

 

Antes de prosseguir no curso da sua biografia, gostava de deter-me no momento da escolha.

Uma pessoa tem que fazer as suas escolhas. Eu sempre tive jeito para estudar, gostava de estudar.

 

O estudo marca a sua vida. Começou pela escola, e não pela infância, quando lhe pedi que contasse a história da sua vida...

Pois. A infância não tem muito que contar. Nasci em Estremoz, mas vim para Lisboa muito pequena, com três anos. Não chegou a marcar-me, o Alentejo. Filha única. Os meus pais eram bastante mais velhos do que a média. Não foi consciente, mas tive a noção, desde pequena, que tinha de tratar da minha vida. Sempre tive um grande desejo de independência. Se houve um factor que marcou as minhas escolhas, por exemplo o da Economia, foi o de este curso ter um emprego garantido. Não queria depender de ninguém.

 

Porque é que isso era tão importante para si?

Não sei. É daquelas coisas que fazem parte da nossa estrutura mental.

 

A sua mãe trabalhava?

Não. O meu pai é que trabalhava, no comércio. Não tinham dinheiro para me deixar. Eu sabia que tinha de singrar pelos meus meios. Fiz as escolhas certas: escolhi coisas que me permitiam ter independência, e, por outro lado, escolhi coisas de que gostava.

 

Tinha também a preocupação de se distinguir, ou essa ideia foi-lhe incutida pelos seus pais?

Não, de todo. O que sobretudo devo à minha educação familiar é o não me terem incutido nenhuma obrigação. Começando por uma coisa esquisita em Portugal: não ter educação religiosa. Talvez tivesse um pouco a ver com o lado alentejano... Mas nunca foram comunistas, nem lá perto. Não tive nenhuma educação ideológica. A minha mãe tinha interesses culturais, gostava muito de música. Mais que tudo, da família aos professores, tive pessoas que me abriram pistas. O que fiz foi escolher entre elas e recusar que me obrigassem a qualquer coisa.

 

Onde radica esse carácter indómito? Puro acidente: reparei agora que tem sobre a mesa uma pequena estátua do Dom Quixote.

Tenho-a há muitos anos. Um colega meu na Gulbenkian trouxe-mo de Espanha; de certo modo, associava-o a mim. [risos]

 

Quem é que era o seu Sancho Pança? Teve companhia no percurso?

Não. Sempre fui isolada e continuo a ser um bicho-do-mato.

 

Di-lo com orgulho?

Não. Também não sou capaz de explicar porquê. As únicas associações afectivas constantes que tive foi com cães. Sempre tive um cão.

 

O que é que aprecia nos cães?

Habituei-me desde pequena. Uma das coisas de que gosto neles é que são bastante independentes. Escolho cães que o sejam. Não gosto do cão lamechas. Gosto do cão que tem a sua individualidade. Dão-nos a sua companhia e afecto. Muito mais do que os gatos, que são interesseiros, que querem comer e uma boa cama para dormir.

 

O Félix, o seu cão, parece compreender que estamos a falar dele: levanta as orelhas!

Para ouvir a conversa! É uma companhia que não interfere, mas é uma companhia.

 

É bem tratado, tem um sofá para ele, há fotografias suas espalhadas pela casa. É um centro de vida, também.

Sim, sim. É o primeiro cão pequeno que tenho. Fiz um estudo sistemático para escolher uma raça de cão pequeno que se adaptasse àquilo a que estava habituada.

 

Qual é o perigo de sentir demais e escorregar para a lamechice?

Não tenho nada contra sentir... Entre sentir e ser lamechas há uma grande diferença. Nunca gostei do sentimentalismo. Mantenho muito as distâncias.

 

Recusa qualquer coisa que ameaça a sua independência.

Exacto. [Félix vem pedir atenção] O que é que tu queres, Félix? [Novamente para mim] Este é um traço inconsciente. Nunca procurei psicanalizar o assunto. Não tem uma origem que eu consiga atribuir, nunca me conheci de outra maneira. E nunca procurei fazer questão sobre isso. Sou bastante prática: há coisas que reconheço como condicionantes, e dentro dessas procuro gerir-me o melhor possível.

 

Investiu numa inteligência mais pura e nunca deu a mesma atenção a uma inteligência emocional.

Sem dúvida. Além dos cães, a música contribui para o meu equilíbrio. Clássica, e dentro desta não me interessa toda. A música consegue fazer algo que não sei explicar.

 

Sabe porque é que Freud não gostava de música?

Não sabia que ele não gostava.

 

Porque a música provocava uma comoção cuja origem não conseguia identificar. Controlar, portanto. Daí a recusa.

Pois. Como não me interesso por identificar as comoções, aprecio na música precisamente isso. Dá-nos um equilíbrio afectivo sem envolver afectos. É estranho, mas é o que se passa. Gosto da música que tem uma componente intelectual importante, que exige o cérebro, que exige concentração.

 

Gostava de ir daqui directamente para o Goethe, que está na mesa entre nós. Tinha um romantismo particular. No “Werther”...

É um romantismo exacerbado!

 

É o sentimento na sua máxima expressão! Como é que lê um livro como esse?

Foi o primeiro livro do Goethe que li, e não me interessou particularmente. Há um livro relacionado com o «Werther», «Carlota em Weimar», que achei muito mais interessante. É o lado da Carlota e da dificuldade de ajustamento que ela teve àquele problema.

 

Ela resiste, e está sempre dilacerada entre o dever e o que sente. Consigo perceber que se identifique com a Carlota, e que essa personagem lhe interesse mais.

[Essa dilaceração], eu percebo. Interessa-me como tema.

 

Alguém como Werther, que sucumbe ao que sente...

Não me convence.

 

O suicídio por amor, a recusa da vida por não ser possível a plenitude do amor, isso não a toca?

Entender intelectualmente, entendo, porque é um facto. Mas não me toca.

 

Jane Austen usa no «Orgulho e Preconceito» uma expressão que deixou de se usar, ou que se usa com um sentido estereotipado. «Amo-o loucamente». O elemento da loucura é o que me interessa. O que está para lá da racionalidade, do que a pessoa pode controlar. Se posso ser indiscreta, é um sentimento que nunca experimentou e que sempre recusou?

Nem sequer recusei. Não era capaz de o sentir. Penso que a Jane Austen também não. Ela descreve, sobretudo, uma sociedade. Gosto muito da forma como o faz. Ninguém se mata por amor na Jane Austen. O amor consegue é ultrapassar as barreiras sociais.

 

Esse era o seu tema, mais que tudo. Mas Lizzy, a personagem central, vivia dilacerada entre...

O amor e o preconceito. Na Lizzy era uma dilaceração racional. O Goethe está muito mais interessado no aspecto introspectivo.

 

Ainda hoje, o modelo social assenta na família e numa ideia de felicidade amorosa – conjugal, sobretudo. Apesar das novas famílias e da reconstrução deste tecido. Quando era jovem era pouco comum não procurar essa “normalidade social”. Porque é que recusou isso? Porque é que nunca casou, nunca teve filhos?

Nunca me interessou. Nunca fiz a análise do assunto. Para mim, a vida foi sempre vista no plano profissional – precisava de ter a tal independência – , e de uma maneira que fosse intelectualmente...

 

Protegida? Estou a provocá-la, insinuando que procurava proteger-se.

Não, nunca procuro proteger-me. Nunca fugi a meter-me em situações difíceis, profissionalmente, coisas complicadas que podia ganhar ou perder.

 

Mas isso eram desafios que punha a si mesma.

Exactamente. Mas não estava à procura da protecção. Pelo contrário: quem se abriga no seio da família é que procura aí uma protecção.

 

Ou seja, sente que foi sempre afoita por contar consigo, exclusivamente?

Sem dúvida. Percebo que é diferente do normal, mas nunca andei preocupada com isso, para mim é natural.

 

Foi, simultaneamente, o Sancho Pança, no sentido de prendimento à terra?

Exactamente. As duas coisas jogam. É um equilíbrio que é necessário estabelecer. Por natureza, o que me interessa são as coisas intelectuais. Mas teria de as adaptar à prática. É o meu modelo de vida.

 

Sendo um ser eminentemente intelectual, que relação tem com os sentidos?

A música, como disse, é importante. Gosto de animais, das plantas.

 

Fala com as plantas?

Não, não! Não consigo mesmo!

 

Mas com o cão fala.

Falo, mas não ando numa grande conversa com ele. Ele percebe-me bem, e quero um cão inteligente. Pôr-me aí a conversar com o cão, não é o meu género. Mas aprecio a natureza. Viver com vista para o mar, é importante. Sofro de claustrofobia em sentido estrito. Provavelmente tem a ver com a tal independência.

 

A viagem, o amor, o encontro são agentes da mudança. O que é que, na sua vida, mais intelectualizada que imersa nos sentidos, provoca a mudança? O que é que faz mudar uma pessoa?

A viagem intelectual é para mim mais importante. A cultura alemã teve uma grande influência em mim. Senti-me em casa, [quando a encontrei]. Interessou-me muito a França do século XVII e XVIII, Pascal, Montaigne. Os ingleses e os americanos, em termos gerais, de cultura, de vivência, interessam-me muito. Se tenho uma tendência de viagem, é do enraizamento nessas culturas, mais do que na portuguesa.

 

Porquê é que se sentiu em casa nessas culturas, nessas línguas? Ou seja, fora de casa.

Em parte, tem a ver com o nosso ensino, que não soube inculcar esse gosto. Costumo dizer que aprendi a escrever em inglês, porque no Britânico sabiam ensinar. Tinha para aí 18 anos quando fui. Aderi ao estilo e, de certa maneira, transpu-lo para o português. Quando estava na Gulbenkian, traduzi um livro do francês para o português, e o senhor que tratava dessa área perguntou-me se tinha traduzido do inglês! Ele dizia, e tinha razão, que eu tinha tiques de estilo que vinham do inglês.

 

Esses tiques podem caracterizar-se, sobretudo, por uma clareza na exposição?

Em parte, sim. Mas não só. É uma maneira de trabalhar as ideias e o texto. São culturas diferentes. Têm um lado pragmático, (então na cultura americana...) que vai ao encontro do que procuro. Fernando Pessoa dizia que a pátria dele era a língua portuguesa; a minha pátria intelectual tem muito a ver com o inglês. Normalmente tenho mais facilidade em expor em inglês, porque a língua adapta-se melhor à minha maneira de ser.

 

Mas olhe que a falar de si, também se expõe muito bem em português! Imaginei que tivesse maior dificuldade em falar de si na primeira pessoa, da sua biografia – para voltar ao ponto de partida.

Não me é nada impossível falar de mim, e em português! Acabei por me fazer bilingue. O que é engraçado é que me fiz do inglês para o português. Nenhuma professora de português me conseguiu despertar para a língua. Aprendi a gramática, dividi as orações nos Lusíadas, gosto de autores portugueses, mas isso não foi incutido pelo ensino. O gosto pela língua e por tudo o que vem com isso foi-me incutido através do inglês.

 

Voltando à biografia: consegue identificar quais foram as grandes escolhas da sua vida? Cinco momentos.

Cinco? É capaz de ser demais! [risos] Não sei, nunca contei.

 

Momentos que a definam e que ajudam a compreender quem é hoje.

O primeiro foi a decisão do curso. É o que determina a vida pessoal e profissional – e estão muito ligadas. Depois, o inglês, que tem um impacto grande no lado cultural, como já disse, mas também no profissional. Eu tinha pouca consciência do que podia fazer como economista. Fui parar ao Banco de Portugal por acidente, em 73. O BP não queria mulheres. Só havia mulheres como funcionárias subalternas.

 

Isso incomodava-a muito? Impôs-se a si mesma o desafio de ser a primeira mulher a fazer parte da administração do Banco de Portugal?

Não tinha sequer pensado nisso! Mais uma vez, fui passiva. Estava lá um colega de curso, o Ernâni Rodrigues Lopes. Tínhamos sido muito amigos e ele tinha a ideia de que gostaria de trabalhar comigo. Em 73, o interdito no Banco de Portugal em graus já técnicos foi terminado porque os economistas nessa altura, das duas uma, ou estavam na tropa em Angola, ou em Angola sem ser na tropa, porque iam para evitar o curso de capitães. O BP precisou de substituir dois técnicos e não tinha homens! Foi a única razão que deu ao Ernâni uma oportunidade de me chamar.

 

Como é que se tratam um ao outro? Ernâni, Teodora?

Claro, por tu. Conhecemo-nos desde o primeiro ano da faculdade. Foi uma experiência que, ao princípio, não me agradou nada.

 

Porquê?

A Gulbenkian era, em termos técnicos, avançada para a época. Já havia até um computador. Do outro mundo! E discutiam-se as ideias recentes na área da Economia. Nas Construções Escolares [para onde fui a seguir], era o lado aplicado, mas também com gente muito progressista. O BP, não só era um marasmo como era século XIX no seu pior! Quase inimaginável o que era o ambiente, desde logo reflectido nessa história das mulheres. Que usavam bata! Ao nível da administração nunca me falaram nessas coisas...

 

Seria vexatório ter de usar bata...

Houve um colega que me disse, com ar assustado: «Tu sabes que as mulheres não podem usar calças?». As mulheres, quando chegavam da rua, se usavam calças, tinham que mudar para a bata, e andavam de uniforme.

 

Usava calças por uma questão de gosto, porque era prático? Era também um secreto desafio àquele mundo dos homens?

Nunca fui desse género, de pensar no desafio dos homens. Em relação a essas coisas, sou muito retardada: só começo a pensar nelas mais tarde. Fui meter-me num sector onde não havia mulheres. Ainda hoje, as mulheres na banca são poucas. Durante muitos anos, fui a única mulher nas reuniões onde estava.

 

Tenho de lhe fazer uma pergunta muito delicada. Não parece cultivar uma feminilidade transbordante...

Não, de maneira nenhuma.

 

Parece haver uma recusa disso. Porquê? Isso aconteceu por estar num meio de homens? Um meio machista que a excluiria se fosse mais vaidosa?

Não acuso nada os homens nesse aspecto.

 

Respeitá-la-iam da mesma maneira se usasse maquilhagem e saltos altos?

Sim. Vemos que as mulheres se afirmaram muito por esse lado, por conseguirem conciliar as duas coisas. Não vejo nenhuma incompatibilidade.

 

Mesmo assim, uma mulher que se produz demasiado (vamos dizer assim) não é respeitada da mesma maneira. Como se esse fosse um subterfúgio ao qual ela tem de recorrer...

Aí, diria que é uma questão de bom senso. Uma pessoa em determinado tipo de actividades se aparecer produzida como se fosse uma actriz de cinema, realmente está a dizer qualquer coisa, está a dar uma imagem que não condiz... Mas não pensei nisso, nem liguei ao que me tinham dito. Há coisas tão estúpidas, tão ilógicas que a única maneira é passar à frente. Nunca me passou pela cabeça que usar calças tivesse que ver com a administração do BP! Não teve. E não me ressenti nada disso. Fui buscar isto para mostrar o ambiente.

 

Foi a melhor aluna do curso?

Não. Eu tinha “handicaps” desgraçados, como o Direito. Fui muito boa aluna nas cadeiras de Matemática, fui uma aluna média em tudo o resto, e no Direito fui abaixo da média.

 

O que pretendo saber é se tinha uma vaidade intelectual em si. Procurava esse tipo de reconhecimento?

Nunca tive, pelo contrário. Nunca estou satisfeita com o que faço, independentemente do que os outros pensam.

 

A aprovação dos outros...

Nunca a procurei.

 

Há-de concordar que é preciso ter uma auto-estima sólida para não procurar isso...

Sim, e um sentido de auto-crítica muito forte. Se me satisfizer a mim mesma, razoavelmente, isso tapa o buraco. Voltando à questão das decisões: entrei em Março de 73 para o BP, dei aulas em Económicas (foi uma maneira de passar o tempo e de fazer qualquer coisa interessante). A verdade é que não tinha conseguido aguentar-me ali [BP].

 

Sentia-se ostracizada?

Não era por causa da maneira como tratavam as mulheres, era porque aquilo não me interessava.

 

Pouco depois, aconteceu a revolução de Abril.

Que, não tendo que ver comigo, mudou radicalmente o BP e o que eu podia fazer. Aí é que entra o inglês. Nessa altura, a maioria das pessoas não dominava o inglês. Fomos atirados para negociações internacionais e quem não dominasse o inglês ficava muito, muito limitado. Eu tinha esse instrumento, que tinha ido buscar por razões totalmente diferentes!

 

Mudou a sua vida, de certo modo.

Profissionalmente promoveu-me e deu-me acesso à literatura de Economia. Só então comecei a estudar Economia a sério. Foi um marco fundamental na minha vida, foi o início de uma carreira. Estive 20 anos no BP.

 

Nunca se interessou por uma carreira política, que estaria ao seu alcance?

Não está. Gosto de filosofia política, mas não gosto da prática política, nem seria capaz. Não é desagradável: não sou eu! Sou do género que precisa pensar antes de reagir, e na política uma condição básica é a pessoa perceber qual é o ponto e reagir depressa.

 

Não sei se alguma vez foi convidada para ser ministra, mas é fácil pensar que sim...

Ah, não fui. Nem sequer dei oportunidades para isso.

 

Ia perguntar porque é que nunca aceitou, mas afinal diz-me que nunca foi convidada...

Era absolutamente claro para os políticos com os quais lidava. O Ernâni, o Vítor Constâncio, (sempre nos acompanhámos), todos os que me conheciam sabiam que eu não dava a menor abertura. Isso terá a ver com a minha independência, mas seria incapaz de viver dentro de um partido político. A disciplina, o compromisso partidário, são como a religião: não têm nada a ver comigo. Por outro lado, encontrei nesse trabalho no BP oportunidade para mudar, fazer coisas importantes, que não me obrigava a estar na política.

 

Em relação a que é que é vaidosa? Parece, de facto, muito pouco vaidosa.

Eu acho que não sou... Como digo, e não é um auto-elogio, não ligo muito ao que pensam de mim. Respeito a minha opinião sobre mim mesma, mais do que a dos outros – e isto é genuino.

 

A gratificação que vem dos outros não é fundamental. O que é que a faz feliz, mais que tudo?

O que me faz feliz é pensar as coisas, aprender mais, encontrar soluções. Na música, ouvir a música de que mais gosto.

 

Foi ver a Cecilia Bartoli à Gulbenkian?

Fui, fui.

 

Pode ser um momento de êxtase, para si? Algo por que espera semanas, meses?

Sem dúvida. Embora não precise de ir à Gulbenkian. Gosto de música intimista, de câmara, de “lied”. 

 

Se pensarmos em sentimentos que são os mais constantes na genealogia do humano, aparecem o Medo e o Desejo como força motriz; e não os encontro em si. Estou sempre à procura da sua biografia... Não acredito que a sua vida se esgote no percurso profissional.

No fundo, talvez. Porque eu a fiz assim. A vida é muito aquilo que a gente faz. Não sou capaz de explicar completamente porque é que adoptei esse caminho, mas é esse. E como não tenho muitas relações...

 

São poucas ou nenhumas as pessoas de quem é íntima?

Tenho algumas, isso tenho, mas são poucas.

 

Teve uma relação íntima com os seus pais?

Os meus pais morreram cedo, porque eram muito mais velhos do que o normal. Quando eu nasci o meu pai tinha 57 anos, já, e a minha mãe 42. Casaram pouco antes, para o meu pai era um segundo casamento.

 

Que idade tinham quando eles morreram?

Estava no final da adolescência, foi antes dos 20. A minha mãe morreu mais tarde, mas ainda eu era bastante nova, e não criei outras relações dessa natureza. Digamos que esses fenómenos não são muito marcantes para mim.

 

Mas o desaparecimento deles foi.

Claro, é para toda a gente.

 

Foram as pessoas que mais amou na vida?

Naturalmente foram as únicas... Nesse sentido estrito, foram as únicas. Em matéria familiar fiquei isolada rapidamente e não fiz nada para não ficar. A família nunca foi um conceito que me convencesse. Fiquei entregue a mim, que era o que queria. Era a sequência natural: tratar eu de mim mesma.

 

Nos nossos dias, poucas pessoas dedicam a sua vida ao estudo. Parece um espécime raro.

Não é muito normal, mas nunca foi. Houve sempre um número pequeno de pessoas a fazer isso. Os que o fazem são muito comprometidos com isso.

 

É como um sacerdócio?

É, mas até sem a gente querer. É a nossa forma de vida. E não conseguimos ser outra coisa.

 

O que justifica a sua vida é aprender, estudar, ensinar?

Quer dizer, uma vez que estou cá, quero fazer qualquer coisa que me interesse. E é isto. No estudo, a questão é se é um sacrifício ou uma coisa que nos dá gozo. E quando dá, é um grande prazer.

 

Teodora é um nome raro. Traz uma história?

Levei muito tempo a antipatizar com ele. Tem a vantagem de a pessoa ficar imediatamente conhecida. Foi um professor de alemão que me explicou o que o meu nome quer dizer: “presente dos deuses”. É um nome simpático para os pais darem aos filhos! Não sei se os pais pensaram nisso, mas talvez tenham.

 

Como é que a maior parte das pessoas se lhe dirige: a senhora, senhora doutora, professora?

Professora, não sou, e nunca tive grande vocação para o ser. Começaram a chamar-me professora porque talvez seja professoral! Mas não é intencional. A maior parte das pessoas trata-me por Teodora. Depende do grau de intimidade.

 

Porque é que o cão se chama Félix?

A senhora que mo vendeu tinha pensado chamar-lhe Félix, e ele ainda não dava por nome nenhuma. Achei que o nome tinha piada. Tem-se dado bem com ele. Convém que seja um nome com um som fixável por eles. E é um cãozinho feliz. É muito bem tratado, tem todas as comodidades. Mas não é mimado, porque não é o meu género.

 

E fica feliz por fazer alguém feliz...

Com certeza.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

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