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Teresa Paiva

“Em Portugal temos uma cultura do desassossego. Um noticiário provoca imensa ansiedade. Se se lembra, tínhamos o Vitinho, a história, a cantiga; e para os adultos a emissão acabava com o hino nacional. Agora acaba? Não!, continua noite dentro. Esses Zeitgeber (como internacionalmente são chamados), os dadores de tempo (ou seja, as horas dos noticiários, as horas do trabalho, as horas das refeições), deixaram de existir”.

E as pessoas, como dormem?

Teresa Paiva explica.

E fala de si, pela primeira vez. Quem é a médica que reconhecemos como sendo a especialista do sono?

Entrevista em dois movimentos.

 

O que é dormir bem?

Dormir bem é uma sensação subjectiva. Uma pessoa dorme bem se no dia a seguir se sente com energia, bem disposta e capaz de viver um novo dia. Mas esta noção da avaliação subjectiva do sono é relativa. Se perguntar a um pessoa que dorme mal quantas horas dormiu, essa pessoa diz que dormiu menos do que aquilo que dormiu. Se perguntar a uma pessoa que dormiu bem, ela diz que dormiu mais horas do que aquelas que dormiu. Se perguntar a uma pessoa que tem apneia do sono, ela diz que dormiu muito bem, porque tem grande facilidade em dormir; mas a maneira como dorme assusta qualquer um!, tem paragens respiratórias durante o sono… As pessoas com apneia do sono dizem: “Eu durmo muito bem, ela é que se queixa que eu ressono”. Mas têm um problema sério.

 

Ou seja, as pessoas não têm uma percepção exacta de como dormem. Apesar da subjectividade e da relatividade da definição do que é dormir bem, quais são as balizas?

Não haver repercussões cognitivas (erros de desempenho, lapsos, etc.) durante o dia. Não ter sonolência. Se a pessoa diz que dormiu bem, mas depois está cansada, adormece a ver televisão, adormece quando está sem fazer nada, não é verdade que tenha dormido bem.

 

Situa-se entre as cinco e as oito horas? Quando se ouve o Prof. Marcelo dizer que dorme cinco horas, todos os demais sentem-se dorminhocos.  

Cinco, nunca! Cinco é patológico. Há 5 a 8% da população que precisa de dormir menos de seis horas, e outros 5 a 8% que precisam de dormir mais de nove horas por dia. A maior parte da população precisa de dormir entre seis horas e meia e oito horas e meia. O sono de um short-sleeper tem características especiais. Temos duas partes nucleares no nosso sono. Uma é o sono lento profundo. A outra é o sono-REM.

 

Como é que se caracterizam?

O sono lento profundo é um sono no qual o nosso cérebro fica com uma actividade muito lenta (um ciclo por segundo). Nesse período estamos a fazer coisas essenciais para a memória, e nele é produzida a hormona do crescimento, tanto em crianças como em adultos. A tensão baixa, a respiração fica muito pausada, a frequência cardíaca baixa, a temperatura do corpo também. Essa é a fase mais importante de todas do nosso sono e acontece no primeiro terço da noite. A fase do sono REM, ou paradoxal, é chamada assim porque nessa fase sonhamos mais, temos uns sonhos mais mirabolantes e o nosso coração bate descompassado, a respiração é irregular, os olhos andam de um lado para o outro (por isso se chama REM: rapid eye movement).

 

Voltando ao ponto da partida: o que é que aconteceaos short-sleepers?

Quando temos uma privação do sono, a primeira coisa que recuperamos é o sono profundo e logo a seguir é o sono REM. Os short-sleepers têm a mesma duração de sono profundo e de sono REM do que um dormidor normal. O que têm menos é a primeira e a segunda fase do sono. Têm um sono mais eficaz. Há cientistas e pessoas muito inteligentes com o sono curto (como o Prof. Marcelo ou a Madonna), mas também há pessoas muito inteligentes que precisam de dormir mais (uma deles era o Einstein).

 

Segundo um estudo recentemente feito na Europa, cerca de 32% das pessoas entrevistadas dizem que têm problemas de sono; e destas, 60% são mulheres. Porquê é que é assim?

Há estatísticas ainda mais exuberantes. Do ponto de vista biológico, em termos hormonais, a vida das mulheres é mais complicada do que a dos homens. Um homem tem duas fases: entra na puberdade e pronto. Na vida da mulher não é assim: ela entra na puberdade, depois tem menstruação todos os meses, o síndrome pré-menstrual, a fase da ovulação, as gravidezes, a menopausa. Do ponto de vista social, as mulheres trabalham bastante mais; trabalham no seu trabalho e a seguir fazem o trabalho doméstico. Ontem, numa consulta, fiz as contas a quanto é que trabalha uma paciente; trabalha 71 horas por semana! Uma violência. Este excesso de trabalho é certamente uma das razões para que elas durmam pior. Depois, parece que tudo é culpa da mulher… Se os filhos não estão bons, é culpa da mulher. Se o marido tem uma amante, a culpa é da mulher.

 

É uma penalização ancestral da mulher?

As mulheres continuam a queixar-se muito disso, é um facto. Para tentar resolver essa culpa, fazem muito mais do que são capazes ou deviam fazer. E têm muito mais queixas de coisas que são crónicas, coisas que não matam mas moem; como as dores de cabeça, as insónias, as queixas psico-somáticas. Apesar disto, as mulheres vivem bastante mais do que os homens, têm uma esperança de vida maior. Mas actualmente tenho muitos homens com insónias.

 

Temos a ideia que quem dorme mal tem mau humor e envelhece pior; tem mais cabelos brancos e mais rugas. É uma conclusão empírica ou cientificamente está provado que é assim?

Relativamente aos estados de humor, está provado. Nos primeiros estudos que foram feitos, a primeira coisa que se fez foi privação de sono. Logo se viu que dava problemas de cognição, lapsos, dificuldades de desempenho, propensão para dormirem sono REM; chega a dar alucinações e defeitos de compreensão. As rugas: não está provado cientificamente, mas pensa-se que sim. O que foi estudado e tem comprovação científica é que a privação de sono aumenta o risco de obesidade, a hipertensão e a diabetes. Isso é para todas as idades (crianças, adolescentes, adultos). O sono tem uma enorme importância na regulação metabólica. Portanto, as pessoas engordam se não dormem.

 

Apesar de termos consciência da importância do sono – um pouco como com o cigarro – não dormimos como devíamos, não fazemos disso uma coisa central na nossa disciplina diária.

Não estou tão confiante nem de acordo com isso que diz. O homem convenceu-se de que podia fazer o que lhe dava na gana ao seu corpo e ao planeta, e que não havia barreiras. A diferença entre o dia e a noite deixou de existir. A separação casa/trabalho também. As pessoas continuam a trabalhar em casa e há uma intrusão a todo o momento, com os telefonemas, as mensagens. O mesmo para o divertimento: não há limites para o divertimento. Dantes, as pessoas dormiam várias no mesmo quarto. Agora, apesar de terem um quarto só para si, o quarto tem várias funções. Serve para dormir, para ver televisão, de escritório (porque continuam a trabalhar), ler, dar voltas na cama. Esta contaminação delimita mal os espaços. Mas sob o ponto de vista biológico, a separação entre sono e vigília existe.

 

Temos a ideia de que as crises de ansiedade são mortíferas para a qualidade do sono. É assim?

Ninguém morre por ter uma, duas, três noites sem dormir, e há fases da vida em que isso é uma resposta normal ao stress. Desde que seja transitório, não tem problema nenhum. Se durar mais de um mês, começa a haver perigo. É normal que uma pessoa que se vai divorciar nessa noite não durma bem. Ou se uma pessoa querida faleceu. Quem tem um sono robusto, aguenta isto melhor. É comum que seja a seguir a um divórcio ou a seguir a ter filhos que não dormem que se desenvolvam as insónias crónicas. Isto que estou a dizer tem algumas tintas, não é igual para todos.

 

As crianças são um caso à parte?

Ando muito preocupada com as crianças. É essencial que uma criança pequena, assim como aprende a andar e a comer, aprenda a dormir. A dormir sozinha.

 

E isso ensina-se?

Seria uma coisa normal se os pais não desensinassem. Não é preciso ensinar ninguém a dormir, como não é preciso ensinar ninguém a andar. Há milhões de anos que é assim. Os andarilhos não fazem nada de especial e a criança aprende a andar na idade respectiva. Quando a criança está desensinada, é importante ensiná-la a dormir sozinha, na sua cama, pelos seus meios. Isso vai torná-la uma pessoa robusta quando for adulta, porque adquiriu essa autonomia. Uma criança que dorme na cama dos pais, que não é capaz de adormecer sozinha, tem um risco aumentado de ter ansiedade, depressão e insónia em adulta. É o que eu vejo aqui todos os dias.

 

Insónias: o que são? São todas iguais?

Há muitos tipos de insónia. Há pessoas que levam muito tempo a adormecer e acordam muitas vezes durante a noite; há pessoas que adormecem rápido, acordam e não conseguem readormecer; há pessoas que acordam cedo de mais. É um problema sério, não é uma coisa psicológica. Mas trata-se. Reeduca-se. E com pouca coisa. A taxa de sucesso é muito elevada na maior parte das pessoas, desde que façam o que lhes é prescrito. Uma das características das pessoas que dormem menos do que precisam é ficarem irritáveis. No trânsito: “eu passo primeiro!”, insulta-se logo o parceiro, fica-se desabrido a falar, grita-se com os filhos, lá vai uma chapada. Nas crianças isto dá hiper-actividade (em vez de ficarem sonolentas). O maior risco da insónia não é a ansiedade (embora haja insónias por ansiedade), mas a depressão.

 

E esses que cita, somos todos? Ouvimo-la e pensamos nos casos que conhecemos e que encaixam nesse retrato que faz.

Estou a falar e a pensar em doentes que vi ontem, anteontem… São casos reais.

 

Toma-se demasiados comprimidos para dormir?, banalizou-se essa toma?

O excesso de medicamentos para dormir é outra das causas das insónias. O Michael Jackson morreu porque não dormia e porque pediu medicamentos em excesso para dormir. O Elvis Presley morreu pela mesma coisa. A Carmen Miranda também. As pessoas têm de perceber que o excesso de remédios não é bom para dormir. “Dê-me um remédio que garantidamente me faça dormir”. Não há ninguém que possa dar um remédio que garantidamente a faça dormir.

 

O que fazer nessas circunstâncias? Como é que a pessoa pode dormir?

Retirar remédios – é exactamente o contrário –, e com terapias comportamentais. Fazem uma escalada de medicação, desenvolvem uma dependência química, e a dada altura os medicamentos deixam de fazer efeito. O cérebro habitua-se. Quanto mais remédios toma, menos dorme.

 

Do ponto de vista simbólico, associa-se um bom sono a uma consciência tranquila. Como se os inocentes pusessem a cabeça na almofada e dormissem tranquilamente.

É uma ideia que vem do Ricardo III, de Shakespeare. Não sei se as pessoas más não dormem tranquilamente… [risos] Não conheço nenhum estudo científico que associe a moralidade ao dormir bem. Mas no senso comum, concordo que haja essa ideia. “Dormir de consciência tranquila” pode querer dizer que não há motivos de preocupação, que não há nada que cause ansiedade. Mas há muitos “maus” que dormem bem. E “bonzinhos” que dormem mal. 

 

Também se fala do sono como antecâmara da morte.

No sono profundo, o nosso cérebro funciona de modo parecido com o do estado de coma. As ondas cerebrais são relativamente parecidas. Há a noção de que se arrefece… E efectivamente há um maior número de mortes de madrugada.

 

Diz-se: “Teve uma morte santa, morreu a dormir”.  

Sim. Não sentiu a transição, não sentiu o medo da morte. Se é que isso causa medo. Pessoalmente, gostaria de sentir que estava a morrer. Porque é uma parte fundamental da vida.

 

Quando é que teve medo de morrer?

Tive uma experiência daquelas em que se está mais para lá do que para cá. Estive perto de morrer e senti-me muito bem, senti uma grande paz. Eu era relativamente nova. Determinou o resto da minha vida, pela enorme tranquilidade que senti. Acho que não tenho medo de morrer. Encaro isso como uma coisa natural. Estamos a fugir do sono…

 

Podemos? Ouvimo-la sobre o sono. Mas não sabemos que pessoa é, nem porque é que este é o seu tema.

Este é o meu tema por uma circunstância específica. Eu tinha estado na Holanda a estudar neurofisiologia e interessei-me pelos comas. Nessa altura fizemos um equipamento, no hospital: uma mesa enorme, com rodas, uma parafernália em cima, os computadores tinham 64 k de memória. Pesadíssimo. E era preciso levá-lo do piso sete para o nove. Eu sofria imenso de ciática. À primeira vez que carreguei a máquina tive uma crise de ciática, à segunda também; percebi que não podia ficar imobilizada de cada vez que fazia aquilo. Como o sono e o coma são parecidos do ponto de vista tecnológico – as monitorizações são parecidas –, virei-me para o sono. Isto foi em 1983/84. Em 87 fez-se o primeiro laboratório com todos os efes e erres no Hospital de Santa Maria. Foi uma paixão, como se viu.

 

Um auto-retrato, pode fazer?

Sei lá quem sou! Não sei explicar bem quem sou. Sei o que gosto de fazer e algumas das minhas características. Gosto muito de ver doentes e acho que os vejo bem, com dedicação. Acho que gosto muito de ensinar, tenho uma paciência enorme, e tenho imensos alunos de mestrado e doutoramento. Gostaria de ter mais tempo para a minha parte imaginativa. Nunca pensei que escreveria e estou a escrever. Há dois anos saiu o livro Viva Bem, durma melhor; este ano vão sair três livros e uma ópera para a qual escrevi o libreto (escritos com a Prof. Helena Rebelo Pinto). O primeiro é para adolescentes (Os mistérios do sono), o segundo é para crianças que ainda não sabem ler e o outro para crianças que já sabem ler. 

 

Que criança foi? Já é a segunda vez que fala da sua preocupação com as crianças.

Fui uma criança triste. Uma menina com muito boas notas, bem comportada. Sou a mais nova de três irmãos, dois rapazes muito mais velhos do que eu. Sou muito diferente da família, o que talvez me tenha dado alguma solidão. Não há médicos na família. O meu pai era militar, general. Fui para a faculdade em 1962, um ano depois da crise académica de 61. No fim da faculdade fui um dos elementos essenciais de uma greve de médicos. Foi a primeira greve de médicos que se fez a nível nacional. Curioso: organizei essa greve, e depois do 25 de Abril nunca aderi a uma greve.

 

Uma rebeldia que vinha da filha de um militar?

Sim, uma rebelião em relação ao meu pai, completamente assumida. Depois tive as crianças, três raparigas. (E tenho uma neta e outro que está para vir. A neta é de uma ternura enorme). Pensei que fosse estéril, coisas assim, e depois provou-se que tinha uma fertilidade indiscutível. [riso] Não foi fácil para mim. Tenho toda a experiência das mulheres que vejo. Sei o que é fazer trabalho doméstico depois de fazer o trabalho profissional, ter os filhos e não ter ajuda, ter pouco dinheiro. Tive doenças graves, das quais estou bem, graças a Deus, que também me ensinaram imenso sobre os doentes. Sobre o que é estar doente.

 

Conte mais.

Já contei imenso! Ser possível estar tranquila, ou ter aprendido a estar tranquila, é de uma grande ajuda e é um privilégio. Como não me fiz a mim própria, como não me escolhi, não tenho uma particular vaidade de dizer que sou assim ou assado. Não sei se devemos ficar muito orgulhosos por ter feito uma coisa; no fundo, temos essa potencialidade. Esta humildade, é importante tê-la. Os sofrimentos têm sido sempre usados para fazer outras coisas. Estes três livros foram escritos numa altura de grande sofrimento.

 

Têm alguma relação com a experiência que viveu na agência do BES que foi assaltada, e onde ficou refém?

Não. Essa experiência foi-me muito útil para perceber o que é o stress pós-traumático. Como tenho doentes nessas condições, percebo com mais facilidade o que podem estar a sentir. Fiquei muito sensível à ameaça. Percebo rapidamente que as pessoas foram sujeitas a violência, quer física quer psicológica. O tipo de violência mais comum é entre marido e mulher ou as agressões sexuais na infância.

 

Apercebe-se no diagnóstico?

Muitas vezes, antes de as pessoas o verbalizarem. Induzo isso. As pessoas normalmente não falam, não querem contar esses problemas. Aquilo é tão desagradável… Uma vez tive aqui um velho de 80 e tal anos que chorou como uma criança por causa de uma coisa que tinha acontecido quando ele tinha 10. Muitas vezes, aqui, é a primeira vez que contam.

 

O que é que a levou a escrever estes livros?

Foi um outro problema, de que não quero falar, que surgiu no Verão passado. Escrevi um romance meu, em 15 dias, de que sou a única leitora, e que não é para publicar. O que eu gostaria de ter feito era investigação. Tive sempre esta dualidade entre a clínica e a investigação.

 

Conte-me um sonho seu.

Nunca tive sonhos recorrentes. O meu sono tem resistido a imensas coisas (a seguir ao assalto ao BES tive umas noites de insónia). [pausa] O sonho mais magnífico que tive é um sonho que tem que ver com a morte. Eu estava num barco com uma irmã minha (que não tenho), e vinha uma onda gigante (como se fosse um tsunami), que estava parada no tempo, que ia cair sobre nós, mas que não caía. As cores eram de uma beleza extraordinária. Ainda hoje vejo esse sonho, parado no tempo, como se fosse uma imagem cristalizada. Foi extremamente importante para mim: a partir desse sonho passei a gostar de viver. [sorriso] Antes, provavelmente, não gostava muito de viver. Era muito nova quando aconteceu, mas ainda tenho uma memória dele muito visual e ternurenta. Esta foi a sua última pergunta!

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2010

 

 

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