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Tiago Cavaco

Tiago Cavaco, 1977, um rapaz do seu tempo. E pastor baptista de andar com o botão do colarinho apertado. Músico punk rock (ou panque-roque, como ele escreve no blog). O blog Voz do Deserto onde disponibiliza os sermões e publica textos como “As razões porque precisamos mais de Cristo e nem assim tanto de Jesus”. Casado com a Rute, pais de quatro crianças.

É um cromo pós-moderno irritado por ser um cromo pós-moderno. É muito mais do que um cromo. Escreve no livro Felizes Para Sempre (e outros equívocos acerca do casamento): “Dei por mim a pensar: ‘Querias ser o Tolentino em versão protestante, querias!’ Se conseguir ser apenas o Tiago Cavaco já vai ser bom mas mencionar o Tolentino torna-se um gesto de necessária justiça.”

Então ele é o Tiago Cavaco, que chega a (quase) tantas pessoas quanto o Tolentino, o padre e poeta. A soma improvável do Tiago: a religião e o panque-roque. Os canais mais usados para comunicar: o blog e a editora Flor Caveira. Foi Tiago Guillul, abandonou o pseudónimo musical. Continua a compor e a gravar.  

Encontra-se com o seu rebanho na Lapa. Uma igreja linda, grande, para onde mudaram recentemente. Antes era Benfica. E antes Queluz. Geografia suburbana. Isso importa, como se verá.

A entrevista foi por cima da igreja, num espaço onde trabalham com as crianças da comunidade. Quando Tiago Cavaco era pequeno, aprendia o mundo em salas assim. As fotografias foram noutro dia. A família aparece nas fotografias porque, apesar de a voz e o percurso ser o dele, o nós está sempre lá. Ele não é só uma pessoa. É sempre, também, um projecto e uma vivência religiosa. E nisso, está acompanhado. E também porque são muito giros todos juntos.

 

 

Mesmo numa família de pastores baptistas, uma criança de oito anos não quer ser pastor. Rocker, ainda vá. Pastor/rocker é uma impossibilidade.

Aos oito anos dizia que queria ser actor. É uma coisa que não se deseja, ser pastor. Não é chamativa. É uma coisa que é acerca de se ser mais velho.

 

Que personagens imaginava que ia encarnar? Ser actor é viver outras vidas, muitas vidas.

Via o cinema que o meu pai via, e o meu pai via filmes americanos de acção. Ainda hoje, acabo sempre a falar no Sylvester Stallone. Mais tarde vou para o curso de Ciências da Comunicação e o meu gosto pelo cinema não coincidia com o dos meus colegas. Vinham de meios mais beneficiados a nível de cultura. Eu gostava pelos tiros, pela afirmação heróica.

 

Stallone era uma afirmação não só heróica e de tiros, mas também da força bruta, da coisa boçal do músculo.

Tenho que reconhecer que quando visito alguns dos filmes de que gostei há filmes terríveis. E notáveis. O First Blood, o primeiro do Rambo, é bom em qualquer época. O primeiro Rocky ganhou o Óscar de melhor filme. Comove-me sempre quando ele faz o Rocky Balboa.

 

Não o vou apanhar a citar um filme da Nouvelle Vague.

Vi-os na faculdade. Ontem vi um filme, pela primeira vez, do António de Macedo, Um Domingo à Tarde. Quando descobri este outro tipo de cinema apercebi-me de que havia vida além daquela que conhecia. Mas [dessa primeira fase] lembro-me de dois filmes que me marcaram, O Homem Elefante (nem sabia quem era o David Lynch) e As Asas do Desejo, do Wim Wenders.

 

Outra loiça.

Imagine, miúdos do liceu de Queluz, explosão do punk, rock, e de repente… Saí d’ As Asas do Desejo a pensar que em todos os poros da minha pele houve dor. Para um cristão de tradição protestante estes momentos em que nos sentimos quase agredidos tendem a ser muito promissores.

 

O miúdo que queria ser actor, estava sobretudo animado por essa ideia de heroísmo? Todas as crianças querem ser salvadores.

Sem dúvida. Deixe-me usar uma ilustração lá de casa, do Joaquim [filho], que já usei em sermões. A Rute [mulher] comprou uma camisola do Batman na Primark (gira e barata). Até determinada idade eles preferem as roupas dos heróis. E acham que estão a ser despromovidos quando vão de bata para a escola. A roupa que faz justiça ao Joaquim é a camisola do Batman. Aplico isto à questão da santidade. Com a santidade, temos que vestir a roupa ainda antes de sentirmos que a roupa nos serve. No fundo, achamos que nascemos para ser heróis. Mas esse é o lado bonito de colocar as coisas. O lado menos bonito é que eu queria aparecer e ser amado.

 

Todas as crianças são recebidas como Messias. Até quando é que sentiu que era esse Messias para os seus pais, no seio da sua família?

É uma coisa em que nunca pensei. Quando se cresce numa família como a minha – os meus pais são baptistas como eu –, cresce-se com esse vocabulário da fé. Com a ideia de vida, com a ideia de morte. Com a ideia de as pessoas se salvarem ou se perderem.

 

Pecado, culpa, eram palavras do vosso léxico?
Pecado, necessariamente. O meu receio é que a culpa seja uma espécie de atenuação da palavra pecado. E num mundo pós-freudiano, é mais fácil falar de culpa do que de pecado. Para um miúdo [baptista], não seria fácil pensar na palavra salvação, ou salvador, em relação a si. Sabe que o salvador é o Senhor Jesus. Seria mais fácil colocar assim: que tipo de intervenção vou ter na vida dos outros que possa colaborar para a sua salvação?

 

Usou a expressão Senhor Jesus. Habitualmente dizemos Menino Jesus. O Menino Jesus aponta para uma criança, o Senhor, para um adulto.

O risco, quando falo de diferenças que são substanciais entre o cristianismo evangélico e o cristianismo católico romano, é cair em simplificações que podem não ser justas. Sim, há uma maneira de retratar Jesus na cultura católica que é demasiado emotiva. (Os evangélicos são todos a favor das emoções, não se pode ser um cristão evangélico se se não tiver o momento absolutamente emotivo da conversão.) Jesus como menino é um Jesus – deixe-me ser bruto – que não tem capacidade para salvar. Quanto muito vai-se lá, pega-se ao colo, beija-se.

 

Jesus foi esse menino?

Acredito que Jesus ao encarnar foi um bebé, mas quando nos referimos a Ele, e quando usamos a palavra Senhor, é no sentido de senhorio.

 

Um senhor que se serve?

Sim. Quando se ouve a expressão Lord Jesus, por alguma razão ela parece menos difícil do que Senhor Jesus. Ouve-se o George Harrison a cantar My Sweet Lord, e se se ouvisse a cantar Nosso Senhor… My Sweet Lord parece que assenta bem. A ideia de se servir alguém não é necessariamente má.

 

Voltemos ao início da conversa. Fale-me dos pastores à sua volta. Influenciaram-no na sua escolha?

O meu avô materno. O nome dele era Joaquim (razão pela qual temos um [filho] Joaquim). Partiu em 1989. Eu tinha 11, 12 anos. Velhinho, calvo, já encurvado. Nunca tive um convívio directo com o pastorado do meu avô – estava já aposentado. Converteu-se em Viseu nos anos 30. Foi pastor em Viseu, na Guarda, em Gouveia e Guimarães num tempo em que ser-se protestante ainda era difícil.

 

Difícil até que ponto?

A minha mãe chega à escola e só uma colega não tinha sido proibida pelos pais de falar com ela.

Depois destaco os pastores Jorge Leal, João Rosa de Oliveira, Jónatas Figueiredo. O pastor Jónatas é o primeiro que me leva a pensar: “Não me importava de ser pastor”. Que ser pastor podia ser uma cena fixe. E um pastor que é meu tio e me chama para trabalhar em Moscavide. “Preciso de ajuda com os jovens e a música, és um obreiro auxiliar”. Os meus primeiros dez anos de serviço cristão de ministério são dez anos a trabalhar ao lado do meu tio Teo.

 

Nunca ouviu os sermões como quem ouve um grande “secão”? A olhar para todos os lados e à espera de se ver livre daquilo.

Claro que sim.

 

É a experiência que os miúdos têm quando são obrigados pelos pais, domingo após domingo, a ir à missa, seja evangélica ou católica.

E que há nesta igreja. Noto isso nos meus filhos. A nossa mais velha, a Maria, tem dez anos. Durante o culto deixamo-la fazer aquilo que os nossos pais também deixavam, ficar a desenhar. Com dez anos já não damos autorização de se virar ao contrário e desenhar no banco. Numa igreja evangélica o centro não é a eucaristia, é a palavra; logo, o sermão tende a levar mais tempo. E eu prego muito. Posso pregar mais de uma hora.

 

Fica em transe, esquece-se do tempo?

Não. Prego sempre com um texto. Se me limitar ao texto demoro cerca de 20 minutos, só que não me consigo limitar ao texto.

 

Põe a gravação dos sermões no seu blog Voz do Deserto.

Ponho. No último sermão falei no Phineas e no Ferb. Nessa altura os miúdos acordam e ficam a ouvir. Interessa-lhes mais do que ouvir falar de justificação e santificação.

 

Os miúdos sabem que o centro da vossa vida é Jesus e não eles? Nas famílias modernas, as crianças estão no centro.

Espero que sintam isso. Faço uma coisa com eles que a geração dos meus pais, dando também uma formação religiosa, não fez tanto. Fazemos o culto doméstico, um período de devoção em casa, em família. Passámos a ter um momento em que lemos a Bíblia (e isso não é difícil) e cantamos. Se alguém vir de fora é um bocado ridículo.

 

Está concentrado no culto doméstico, sem dispersões, noite após noite?

É óbvio que uma boa parte das vezes a minha cabeça está em querer despachar aquilo rápido e meter os miúdos na cama e ter o momento de tranquilidade que eu e a Rute conseguimos ter depois de os meter na cama. Mas há um ciclo doméstico. E este ano tem sido especialmente saboroso porque a Marta, que está a aprender a ler, começa a ler versículos do início ao fim. Uma das coisas que os nossos miúdos aprendem é o catecismo. São 52 perguntas e 52 respostas sobre questões de fé.

 

Por exemplo.

“Qual é a nossa única esperança na vida e na morte?” É a primeira pergunta. “Que não somos nossos mas pertencemos, corpo e alma, na vida e na morte, a Deus e ao nosso salvador Jesus Cristo.” O Caleb [filho mais novo] vai fazer quatro anos, ainda não fala bem, mas no outro dia estava a fazer as perguntas a cada um deles e o Caleb terminava todas.

 

Doutrinar é o verbo...

A palavra doutrinar ganhou uma carga pejorativa. As pessoas podem olhar para aquilo que é mais maravilhoso no meu lar e dizer que é uma grande lavagem cerebral. Mas as crianças devem perceber que o mais importante da vida delas, não são elas nem são os pais, mas é Deus.

 

Porque é que foi estudar Ciências da Comunicação? Que planos é que tinha?

A minha [filha] Maria escreve e desenha muito bem. Eram duas coisas que eu gostava de fazer. A publicidade parecia que misturava essas duas coisas, o desenho e o texto. Acabei em Ciências da Comunicação. Os miúdos ficavam desiludidos porque queriam fazer reportagens e levavam com Semiótica e Hermenêutica. Tive uma cadeira de produção jornalística; era péssimo nas notícias, na objectividade, safava-me na crónica. Então saltei para cinema. Fiquei um bocado desencorajado porque os complexos de inferioridade começaram a vir ao de cima. Aquilo era tudo pessoal bem-nascido, viam o Godard desde pequenos. Eu sou o miúdo que viu o Stallone.

 

Luta de classes camuflada na Universidade Nova?

Sim. Agora faço um percurso ideológico diferente, mas tinha a mania que era comunista. A esquerda parecia-me, no 12º ano, o sítio da tolerância e do bom pensamento. Quatro anos depois [de ter entrado na Nova], sentia que estava perante a esquerda mais autêntica do nosso país: a das boas famílias, a do torcer o nariz aos miúdos que vinham dos subúrbios, a dos miúdos que são eruditos por osmose. O lado reaccionário foi subindo em mim, subindo, até que explode – esta expressão não é muito cristã –, num “sair do armário”, quando aparecem os blogues e há um advento da nova direita.

 

O que é que faziam os seus pais?

O meu pai foi contabilista. Teve uma pequena empresa, nunca lhe correram bem as empresas. Foi uma lição que aprendi. O meu pai é mais trabalhador. As melhores características dele, ainda não as consigo evidenciar. A minha mãe é professora de liceu, de inglês e alemão. Cresço na Amadora.

 

Suburbano orgulhoso?

Alguns suburbanos que escrevem têm tido alguma notabilidade. O [Henrique] Raposo, o [Pedro] Lomba, o Bruno Vieira Amaral. Topa-se uma certa consciência de classe, faz-se um certo caminho. Não vêm de famílias conhecidas, não cresceram em Lisboa, na elite. É aquela coisa saloia, quase americana: tentamos provar pelo nosso trabalho.

 

Na música, ouvia o quê?

Na faculdade já estava no punk. O punk tem um lado de rebeldia cultural de que a esquerda gosta, mas a elite não ouve punk.

 

Nunca foi da brasileirada e da francesada? Porque os meninos bem que cresceram a ver os filmes certos, também ouviram o Charles Aznavour e o Tom Jobim em casa dos pais.

Chego lá depois. O meu pai tinha alguns autores que me influenciam muito, Leonard Cohen, Bob Dylan. Ao mesmo tempo, ouvia os êxitos todos, comprava os Polystar.

 

Isso influencia a sua música?

Se a minha música tem um ar muito fácil, é disso, é de gostar de uma boa melodia. Cresci a ouvir os Beatles das colectâneas.

 

Em que momento é que a Rute apareceu na sua vida?

Em rigor, a primeira vez que estive perto da Rute ainda era intra-uterino. A minha mãe encontrou os meus sogros na praia. Já a Rute existia extra-uterinamente. Estava a minha mãe grávida. Ser baptista em Portugal: a probabilidade de se conhecer a maior parte dos baptistas é grande, porque somos poucos.

 

Quantos são?

Talvez cinco mil. Reencontrei-a anos mais tarde. Ela é de Benfica e tinha um ar de beta. Lá estou eu com a luta de classes [risos]. Tinha um ar altivo. E depois ela acaba por ir para a igreja onde eu estava, em Queluz.

 

No livro Felizes para Sempre (e outros equívocos acerca do casamento) fala do difícil que foi casar virgem.

Essa é uma vantagem que os protestantes têm: são mais despudorados. Por isso é que também se prestam mais ao ridículo de falar de coisas como a virgindade e isso não lhes custa tanto.

 

A probabilidade, hoje, de um rapaz e uma rapariga terminarem a faculdade virgens é reduzida. Muito do seu comportamento é moldado pela religião.

Em Portugal, se se é evangélico, é-se diferente da maior parte.

A primeira vez que noto que sou um bocado diferente é em criança. Não via os desenhos animados que davam ao domingo de manhã.

 

Porque ia para a igreja?

Sim. Depois vem a questão das asneiras; eles dizem asneiras e eu não. Para mim dizer asneiras era sinal de que se ia para o Inferno. Quando a sexualidade começa a ser um assunto não é uma coisa que se esbarra no caminho e que se sente que é mais difícil que todas as outras. A vida já era um percurso em que tinha que me esforçar para não fazer coisas que a maior parte das pessoas faz.

 

Na faculdade, falava de sexo com os colegas?

As pessoas sabiam que eu era evangélico. Falava disso. Ainda por cima estava numa fase muito punk, dava nas vistas.

 

Usava crista?

Crista nunca consegui usar, tenho pena. Os meus pais também nunca me deram espaço para isso. Usava uma franja muito comprida, o resto tudo rapado. T-shirts onde se leva a fé ao peito.

 

O que é que estava escrito?

Tinha o logótipo da Hugo Boss e em cima tinha Jesus is my Boss [risos]. Quando o ridículo diz tanto de uma pessoa, sai-se mais protegido. Ele vai abrindo caminho à nossa frente. Havia aquele lado de estranheza, “o Tiago é um tipo…”

 

Forex?

Sim. Eu enchia o peito. Toda a gente sabia que eu era virgem e que queria ser virgem até casar.

 

Dizia isso para se afirmar, para provocar?

Está tudo junto. Está junto com a convicção que se tem naquilo que se está a viver. Está junto com: “Fiquem já a saber que sou diferente”.

 

Quando perguntei isto estava também a perguntar pelo seu lado animal. Quando somos adolescentes, umas tais de hormonas impõem-se.

Os anos da adolescência, faz parte da sua natureza pensar neles com algum embaraço, sobretudo no que diz respeito a lidar com miúdas. Tenho uma irmã gémea, o que ajudou e desajudou. Por um lado há uma presunção: eu compreendia muito bem as miúdas. Falávamos de tudo, fomos os maiores companheiros até eu casar. Por outro lado, quando via as crises da minha irmã Sara, mais rapidamente chegava à conclusão de que não dava para perceber as mulheres. Uma coisa que me ajudou precocemente: as pessoas tendiam a achar que era um miúdo responsável. Isto às vezes ajuda porque nem sempre se é o miúdo responsável que se transmite ser.

 

Apesar do punk, era tido por responsável?

Falava muito. “O Tiago fala muito e diz coisas que a gente não percebe”. Em Portugal se se disserem três ou quatro frases que ninguém percebe, é-se um intelectual. Aconteceu comigo. Quanto mais me embrulhava, mais era um intelectual.

 

Quem é que achava gracinha às suas tiradas?

Fez-me falta um irmão, era o único rapaz. Tenho uma irmã mais velha, a Rute, e a Sara. Sempre foram mais corajosas do que eu. Não fui um menino mimado. Mas fez-me falta uma figura contra a qual tivesse que combater. Se tivesse tido um irmão com quem tivesse aquelas relações bíblicas de irmãos, difíceis...

 

Um Caim?

Sim. Talvez me tivesse ajudado a não ser tão preguiçoso.

 

O seu lado narcísico foi muito afagado na infância.

Não pelos meus pais. Na Amadora, dos miúdos com quem brincava na rua, a minha mãe era a única com curso superior. Os outros miúdos percebiam que tínhamos livros em casa. Com alguma facilidade chegava a sítios e arranjava um lugar meu, que era diferente de todos os outros.

 

É visivelmente espirituoso, na adolescência é punk, e é evangélico praticante. Há aí uma soma de singularidades improvável. Mas tudo seria diferente se não fosse tão inteligente. A inteligência é sobrevalorizada?

Há uma história na Bíblia, quando Deus pergunta a Salomão: “O que é que queres?”. E Salomão pede-lhe sabedoria. Em miúdo pedi a Deus sabedoria, nas minhas orações. A inteligência é sobrevalorizada porque não é necessariamente sabedoria. Categorias essenciais da nossa cultura, não se ouve falar delas – como a prudência. Algumas das pessoas mais desinteressantes que tenho conhecido são de uma erudição fantástica. Mas parece que aquilo é um vaso de acumulação de informação. Não têm uma capacidade real de sabedoria, de construir sobre aquilo que sabem.

[A soma de singularidades]: o pastor-rocker, há um lado que é ok, de surpresa, mas depois há um lado “é mais um bicho numa jaula pós-moderna”. É uma coisa que sei que me ajuda mas contra a qual tenho que lutar.

 

Inventou uma grande criatura e a criatura pode voltar-se contra si.

Volta. Houve um tempo difícil de procurar maturação, em 2010. Houve uma inesperada atenção por causa da música, da editora Flor Caveira, em 2008. Um dos discos que gravei [IV] criou “sururu” na crítica. Eu achava que alguém ia descobrir a Flor Caveira depois de termos morrido. E de repente, um disco que tinha feito nas catacumbas das igrejas, onde gravava tudo, estava a ser louvado como a nova música portuguesa.

 

Antes de IV, tinha editado títulos como A Isabel é intelectual (porque perdeu a virgindade na Feira do Livro), Ó Judas, aperta o laço, Tu tens o coração do tamanho do Salmo 119. Foi um ponto de viragem na sua vida.

Foi. E com o crescimento de trabalho na igreja tinha que definir o que era central para mim. Nunca deixei de fazer música, e não sei estar sem gravar algum disco. Nessa altura deixei de usar o nome Gillul.

 

Tiago Gillul era o alter-ego musical. Porque é que o deixou?

Tenho uma comunidade para tratar e as pessoas não têm de levar com a persona artística. Quando falo consigo hoje, também está a falar a minha família e a minha Igreja. Imagine que mando uma grande patacoada..., quem é da minha Igreja sente-se mal representado.

 

Há um momento em que se pergunta quem é?, pergunta-se pelo caminho dominante?

Isso foi acontecendo. No segundo ano da faculdade decido ir para o seminário. Estou ao mesmo tempo no Seminário Teológico Baptista – não acabei a licenciatura em Teologia –, e a fazer a licenciatura, que acabei, em Ciências da Comunicação.

 

Foi para o seminário já com a intenção de ser pastor?

“Pode ser que venha a ser pastor”, sim. Nessa altura tive um sonho.

 

Como se fosse uma revelação?

Passava um bocado por isso. A figura do meu avô aparecia no sonho. (Não faço teoria disto, estas experiências pessoais, quando se tem uma responsabilidade espiritual, devem ser cautelosas.

 

Está sempre a tentar não parecer leviano, tem noção?

É bom que sinta isso. Alguém tratar-nos por pastor é uma cena brutal. Acredito que a minha vida deve ser um reflexo do pastor último que as pessoas encontram em Deus. E que através do meu exercício, que é humano, de ajudá-las, elas digam: “Este é o meu pastor humano, o Tiago, porque o nosso verdadeiro Pastor é Deus”. Isto é uma coisa séria, não se pode ser leviano. O que é mais fácil é usar o pretexto da religião para manipular as pessoas. Esse é um lugar onde não quero estar. A Bíblia é o meu escrutínio, a Bíblia é que manda. É uma das frases mais repetida na minha igreja: “No dia em que deixar de pregar a palavra, despedem-me e arranjam um pastor que seja fiel à palavra”.)

 

Estava a contar que teve um sonho e que isso foi determinante.

Foi. Antes disso: quando acabo a licenciatura em Ciências da Comunicação já estava a namorar a Rute (começámos em 99). Era um namorado miserável, queria o que todos os namorados querem.

 

Ou seja?

Se desse para não casar logo, tanto melhor [risos]. A Rute tinha estado em Comunicação na Católica, depois Relações Internacionais. Mas o que ela queria era ser educadora de infância. É uma selfmade woman, já tinha carro, tinha casa. Eu estava a começar nuns programas do canal 2 que eram dados às diversas confissões religiosas. Pensei que podia ficar na boa mais algum tempo. A Rute queria fazer de mim um homem.

 

Que engraçado, não querer casar logo para iniciar a vida sexual.

Há uma maneira um bocado relaxada, hoje, de se namorar, mesmo entre evangélicos. Não têm relações sexuais, mas vão tendo outras coisas. Vai-se fazendo uma vida de namoro, do melhor que o namoro pode ter.

 

Ainda não têm o que dói no casamento, é isso?

Sim. Não estou a dizer que isto era consciente na minha cabeça, mas era um estado de passividade. Hoje teria pedido a minha mulher em casamento, teria ido falar com o meu sogro, e cumprido umas coisas que me pareciam formalidades mas que têm importância simbólica para mim.

 

Está mais “reaça” agora do que há 20 anos?

Estou a descobrir que vamos encontrando em alguns símbolos uma correspondência razoável para as coisas em que acreditamos. Também sou eu a ajustar contas com as coisas que não percebia sobre o casamento.

 

Já leva 12 anos de casamento. Foi na mesma altura que começou a trabalhar a tempo inteiro na igreja?

Tenho percebido que o caminho – e acredito hoje que foi para isso que Deus me chamou – é um caminho de dedicação ao pastorado. A determinada altura tornou-se um objectivo para mim estar exclusivamente dedicado a pastorear pessoas na igreja.

 

Li algures que o Tiago e a Rute podiam ganhar muito mais dinheiro se as opções profissionais fossem outras. A Rute deixou de trabalhar quando estava grávida do vosso segundo filho. Como é que o dinheiro apareceu e interferiu nas suas escolhas?

Não houve heroísmo nenhum. A posteriori apercebemo-nos de que essa era uma decisão que nos edificava melhor como família. Mas não foi tomada com clarividência. Hoje achamos preferível, e tendo em conta que sou pastor, que a Rute, de preferência, não tenha uma ocupação que a retire de dentro de casa. Não só pela educação dos miúdos como pela disponibilidade que temos que ter para as pessoas.

 

Existem regras sobre a família do pastor evangélico?

O padrão bíblico da família do pastor é que a família abraça essa vocação do marido como uma vocação de toda a família.

 

No livro usa quase sempre a primeira pessoa do plural, diz: “Eu e a Rute” ou “a minha família pastoral”. Outra diferença: funde o projecto familiar com o projecto da vida em comunidade.

Sem dúvida. Quando a missão começa somos meia dúzia de famílias. O casamento e o divórcio tornam-se por excelência um assunto do meu pastorado. O primeiro casal que tentámos ajudar divorciou-se na nossa sala de estar, essa decisão é tomada lá.

Um dos princípios que se encontram na Carta de Paulo a Timóteo: se não se tem capacidade de pastorear bem a nossa casa, não se é capaz de pastorear a nossa igreja. Isto não quer dizer que os pastores tenham famílias perfeitas, mas quer dizer que a Bíblia nos dá uma área prioritária de intervenção antes de querermos intervir na igreja – a nossa casa.

 

Alguma vez se apaixonou por uma mulher não-baptista, antes da Rute?

Sim. Graças a Deus ela desinteressou-se de mim. Poupou-me de um sarilho. Ela sabia que nunca casaria com ela se ela não tivesse a minha fé.

 

Porquê?

Quando se acredita que o casamento é uma união física que simboliza uma união espiritual, não faz qualquer sentido unirmo-nos espiritualmente a alguém que não acredita nisto. Sei que a metáfora é dura, mas é quase um casamento entre uma pessoa viva e uma pessoa morta.

 

E se um crente estiver apaixonado por um não-crente?

Circunstâncias destas acontecem na nossa igreja e trabalhamos a favor da fé das pessoas que ainda não a têm. Esta miúda na faculdade: sou calvinista, acredito mesmo que estas coisas estão gloriosamente pré-determinadas. Deus quis ensinar-me algumas coisas e fez com que ela se desinteressasse e eu pudesse ficar com o caminho claro. Alguns dos momentos mais preciosos da minha vida são momentos em que Deus me ajudou porque os planos que tinha foram frustrados.

 

Isso obriga a lidar com o fracasso.

E [obriga] a lidar com uma ideia que é muito cristã, a de que alguma coisa tem que morrer para que alguma coisa nasça. Às vezes o maior património da vida são os fracassos. Nesses fracassos temos que abandonar coisas acerca de nós e confiar em Deus para ser alguma coisa que está além do fracasso que acabámos de viver.

 

Quer citar um versículo que seja especialmente inspirador para si? Toda a sua vida é leitura e interpretação do texto sagrado.

Há um [versículo] que ensinamos lá em casa: “Servi ao Senhor com temor, alegrai-vos Nele com tremor”. Se acredito em Deus tenho que ter medo Dele na medida em que Ele é perfeito, e vai ter problemas com o facto de nós não sermos perfeitos. É bom que isso nos arrepie.

 

Na iconografia clássica, o encontro com Deus, o Céu, têm cores suaves, transpiram felicidade. Nada de arrepios.

Há um lado presunçoso de as pessoas quererem encontrar-se com Deus e quererem que esse encontro seja maravilhoso. Há um elemento de luta na Escritura. Há momentos em que obedecemos porque não compreendemos bem. Obedecemos porque estamos com medo. Isto hoje é pouco charmoso.

 

“Servi ao Senhor com temor, alegrai-vos Nele com tremor”. Sobretudo medo?

Não. Há [nesse versículo] um elemento de alegria. A Bíblia não separa coisas que a nossa cultura se habituou a separar – o temor, o amor, a alegria. O Deus da Bíblia é um Deus que manda as pessoas abaixo e isso é o melhor que faz por elas, porque depois dá-lhes uma vida nova. Um versículo como este ajuda-me a perceber aquilo que Jesus fez por mim, e é por isso que olho para ele como o Salvador.

 

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014

 

 

 

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