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Tomás Cunha Ferreira

E aí, é fundamental usar uma raiz brasileira para falar da sua identidade e do seu percurso?

É isso aí, fundamental. Fui criado entre Lisboa e Rio e São Paulo, confundindo lá e cá e vice-versa, e ainda ando nisto.

 

Você é mais músico mais poeta ou mais artista plástico? Um é pensável sem o outro? Como é que dialogam uns com os outros?

Tento não gaguejar ao dizer o que sou, mas, de verdade, falta-me a convicção e a lata para dizer que sou artista, ou músico, ou não sei quê. Arrisco e tropeço, hesito, mas quando faço não caibo em mim.

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 Pode apontar poemas e canções e obras e fragmentos de mundo que o digam bem?

Agora estou a pensar nos Popcretos do Augusto de Campos, poemas feitos com recortes de revistas e jornais, nos anos 60. São colagens pop e concretas, políticas, para ver, ler, dizer, remixar. Estou a pensar também no Rap Popcreto que Caetano Veloso e Gilberto Gil gravaram no disco Tropicália 2, um recorte sonoro da palavra “quem”, a partir de outras canções de outros cantores. Enquanto soa a pergunta “quem?”, vamos reconhecendo (ou não) as vozes recortadas, como imagens de um retrato abstracto. Todos e ninguém. Olho por olho, boca a boca.

Também estava aqui a pensar no Paul Celan dizendo que quando se fala de arte “há sempre alguém que está presente e... não presta atenção ao que se diz”. Gosto disso e talvez isso tenha a ver com o Jasper Johns dizendo “as minhas pinturas são um convite para olharem para outro lado”. Afinal, que me importa? 

Também penso no mistério das vogais de Rimbaud: “A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul”.

E neste poema do Maiakóvski:

Eu

à poesia 

só permito uma forma:

concisão,

precisão das fórmulas

matemáticas.

Às parlengas poéticas estou acostumado,

eu ainda falo versos e não fatos.

Porém 

se eu falo

"A"

este "a"

é uma trombeta-alarma para a Humanidade.

Se eu falo

"B"

é uma nova bomba na batalha do homem.”

Mas mais que tudo isto, minha alegria vem muito das coisas que os meus amigos fazem, esses sim, poetas, músicos, pintores.

 

O que é que quer dizer a palavra ontemporâneo, que inventou/a que chegou recentemente? Estou também a perguntar pelo que lhe é intrínseco e concomitante (queira desculpar os palavrões!).

Chegar a um poema de uma palavra só, ou de um letra só, ou um poema em branco, vazio. Não dizer nada, acho que seria o poema ideal, tudo condensado. Se cortarmos o C da palavra contemporâneo, destaca-se o “ontem” que está escondido na palavra. De repente tudo aqui ao mesmo tempo agora. É isso. Numa palavra.

 

Conte do encontro com Moreno Veloso ou Domenico Lancellotti. Conte de como eles o fizeram sentir um deles. Conte porque é importante a irmandade. Ou não é?

É daqueles encontros em que há o antes e o depois, na vida, e ao mesmo tempo o encontro é que faz o antes e o depois serem só um. Sempre que estou com o Domenico alguma coisa muito especial nos acontece, é estranho. O Domenico tem qualquer coisa que mais ninguém tem no mundo inteiro, uma electricidade calma. Com o Moreno também é muito especial; uma vez combinámos ir até Assis, encontrar São Francisco, e fomos. Uma viagem e tanto. O Moreno tem uma calma eléctrica.

 

Conte do encontro com Jacinto Lucas Pires. Como é que funcionam Os Quais?

Quando cheguei do Brasil, na adolescência, conheci o Jacinto. Foi o que me safou. O Jacinto é o meu amigo. Somos uma dupla. Começámos logo a fazer canções juntos, imediatamente. Tinha que ser. Nunca pára. É assim que funcionam Os Quais. Não há outros! É mais uma oficina que uma banda.

  

Viveu no Japão seis meses, na Suíça um ano, no Brasil em diferentes períodos. O que é que mais aprendeu em cada um destes lugares?

Caramba, não sei! Tentei encontrar-me nesses lugares, chegar à rua da minha casa, seja qual for. Às vezes consigo desenhar uma linha que liga isso tudo. Ainda quero inventar mais lugares pra viver. Como diz o Rodrigo Amarante, uma ida à padaria já é se aventurar.

 

É também professor numa universidade. Pode falar da aprendizagem com os alunos?

Aprendo muito dando aulas de pintura, desenho e comunicação visual. Conheci pessoas incríveis, alunos extraordinários, acho que temos feito coisas boas juntos. É uma troca. Tento dar o máximo, mas acho que saio sempre a ganhar.

 

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Entrevista feita propositadamente para este blog em Fevereiro de 2015

http://tomas-cunha-ferreira.blogspot.pt

 

 

 

 

 

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