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Vasco Vieira de Almeida (2012)

É um socialista que se preocupa ante o desmoronamento de uma Europa solidária. Que considera que não pode cair ninguém, sob pena de cairmos todos. Que recupera a História e nos mostra os alicerces mais fundo da crise em que estamos submergidos. Porque “o conhecimento da História permite ter uma visão mais segura da realidade e das alternativas de que dispomos”. Vasco Vieira de Almeida sustenta as razões – não-líricas – porque é um velhote marxista. Afirma com segurança que o povo foi sempre melhor do que as elites. Ele que é elite e que sempre esteve do lado do povo. Que gosta de tudo em Portugal. Tem um dos maiores e mais importes escritórios de advogados do país. Uma entrevista com ele é um acontecimento raro.  

  

Tenho ideia que o melhor de si emergiu em tempos de luta e de instabilidade. Estamos novamente num momento da história do país, e não só, em que tudo parece prestes a desmoronar. Queria ouvi-lo sobre este período, e perceber onde procurar o melhor de nós, e como lidar com situações de instabilidade como esta que vivemos.

As crises têm um lado positivo. Em História geram sempre um caminho em frente. O meu Pai costumava dizer que viver e morrer não faz grande diferença, o pior é a transição [riso]. Estamos nessa transição. Importante para percebermos o que se passa hoje é compreender como chegámos aqui. Fala-se na crise do Euro como se fosse puramente financeira e orçamental e na crise da União Europeia como transitória e não estrutural. É um processo muito mais complicado.

 

O que é que nos trouxe a esta crise?

Três causas. A primeira tem que ver com o carácter ideológico do projecto neo-liberal. A Sra. Thatcher dizia nos anos 80 que não há uma coisa chamada sociedade, só há homens e mulheres individualmente. “There is no such thing as society, there are only individual men and women”. E acrescentava que “a economia é o método, mas o objectivo é mudar a alma”.

 

É uma surpresa que comece por citar Thatcher.

São frases reveladoras de uma concepção da sociedade e de um plano político. Friedrich Hayek afirmava que a ideia de justiça social é uma ameaça para a eficiência dos mercados e para o individualismo liberal, porque justifica a imposição de um sistema de redistribuição de rendimentos.

Na base deste sistema ideológico está o Consenso de Washington, onde se estabeleceu o que seria o modelo da estrutura da sociedade global futura, e definiu o método da defesa dos interesses das potências hegemónicas do Ocidente.

 

Que consequências é que deixou esse plano?

Entre outras a mundialização do investimento, a financiarização da economia, a ortodoxia orçamental e o ataque ao Estado social. Politicamente pretendeu-se a privatização de serviços públicos, como forma de enfraquecimento do Estado. O Estado passa a instituições não-democráticas muitas das suas próprias funções. E uma das consequências mais graves foi a completa desregulação dos mercados financeiros.

 

Reagan e Thatcher podiam prever, há 30 anos, os efeitos a longo prazo dessas opções?

Eles obtiveram o que queriam, mas já havia todas as razões para desconfiar nessa altura. Entre os anos 1980 e 2000 o plano Brady estabeleceu o perdão de dívidas a Estados que não as podiam pagar. Pelo menos dezoito Estados foram abrangidos, e a própria Inglaterra teve de recorrer ao FMI em 1976. O projecto político neo-liberal teve o objectivo de criar uma classe dirigente adaptada ao novo ideário. No caso inglês, Thatcher destruiu os sindicatos, desestruturou a sociedade e desindustrializou o país.

 

De qualquer modo, as praças mais poderosas estavam nos EUA e em Inglaterra.

Sim. Levar a bom porto este projecto só foi possível porque os dois centros financeiros fundamentais eram em Nova York e Londres. E os Estados Unidos tinham a única moeda de reserva que havia na altura. A isto juntava-se o controlo do desenvolvimento tecnológico, a supremacia no comércio mundial, a força militar, e o poder geoestratégico. Esse plano não constitui a origem imediata do que se está a passar mas é um quadro sem o qual é impossível uma interpretação clara dos acontecimentos actuais.

A segunda causa da actual crise é a da construção antidemocrática da estrutura da União Europeia.

 

Anti-democrática? Como assim?

Na origem da União esteve não só um projecto de integração através da criação de instituições de natureza técnica, como na sua estrutura constitucional prevaleceu o poder intergovernamental. A Europa hoje não constitui um projecto de sociedade comum, pela inexistência dos factores de solidariedade social e cultural que permitem espaços de identificação alargados.

A zona Euro surge num quadro de enormes diferenças de competitividade entre o Norte e o Sul e a promoção da convergência está a fazer-se apenas à custa de uma austeridade iníqua, ineficaz e destrutiva, que recai sobre os mais fracos.

 

A Alemanha é um caso particular quando olhamos para a União. Para entender esta Europa, é preciso atender à culpa da Alemanha, resultado ainda da Segunda Guerra Mundial? Subliminarmente isso está lá?

Só subliminarmente. Há uma constante na política alemã que resulta da fragilidade da sua situação geográfica e vem desde o século XIX. A Alemanha, com a doutrina da mittel Europa, necessitava de liberdade de acção, pelo que sempre se opôs à política inglesa de equilíbrio de poderes no continente, que resultava do congresso de Viena de 1815. Daí a união aduaneira, imposta por Bismarck em 1870, que criou o Império unindo os estados germânicos. Em 1914, o primeiro-ministro Bethmann-Hollweg defende a necessidade de criar um grande espaço económico alemão. Depois da Primeira Guerra Mundial, em 1919, o chanceler austríaco Coudenhouve-Kalergi lança a ideia de uma União Pan-Europeia, apoiado pelo plano de Heidelberg do SPD. E já nessa altura se viu que isso só era possível com um elo de ligação à França. É assim que alemães e franceses propõem à Sociedade das Nações, em 1929, a União Federal Europeia. Com o nazismo, Karl Haushofer, doutrinário da posição geoestratégica da Alemanha, escreve que o país tem de constituir um grande espaço económico, com exclusão das “nações periféricas”. Sabe quais eram?

 

Quais?

A Inglaterra, a Holanda, Portugal e Espanha, países que se tinham projectado para fora do continente. A política alemã foi sempre a de que os interesses da Europa devem coincidir com os seus. É o presidente do Bundesbank, no mandato de Helmut Kohl, que estabelece a doutrina da construção europeia de geometria variável e de círculos concêntricos. Era já a ideia de uma hegemonia alemã. Aquilo que faz hoje a Alemanha…

 

... É pôr em prática um plano que foi sendo delineado, de diferentes maneiras, ao longo de século e meio.

É. Mas foi a conjugação das três causas de que falei que levou à situação actual. E que é necessário alterar radicalmente.

 

Alteração política?

Não apenas política. Criar um federalismo institucional e formal não resolve o problema. É necessário aplicar políticas de convergência fiscal, regulação bancária e de coesão que não resultem da imposição autoritária de qualquer directório e possam ser absorvidas pelos Estados em condições diferentes. Ou há uma Europa solidária, com uma visão estratégica assente na justiça social ou teremos a prazo o desaparecimento gradual do Estado de Direito e poremos em risco o sistema democrático. Mas para já tem de resolver-se esta crise, sem destruir o tecido interno da sociedade e sem comprometer soluções futuras assentes na livre escolha democrática.

 

No imediato, a expressão mais clara da crise é a saída eventual da Grécia, é a explosão do Euro.

Estou convencido de que a Grécia não sairá e o Euro não implodirá. Mas a contradição é que com a actual política nenhum poderá ficar ou subsistir. É a política que terá, quanto a mim inevitavelmente, de mudar.

 

Porque os danos são imprevisíveis?

Quando se desregulou o mercado internacional de capitais criou-se uma enorme massa monetária que foi aplicada em financiamentos a Estados, empresas e famílias a juros muito baixos durante muito tempo. Houve países que não tinham condições para contrair esses empréstimos e geriram irresponsavelmente a sua dívida. Mas o facto é que lhes foram criadas condições nesse sentido.

 

Não só criadas como incentivadas.

Por isso a ideia de que somos os únicos ou mesmo principais culpados é inaceitável.

 

Os Eurobonds são inevitáveis na solução deste problema?

Creio que serão inevitáveis. Mas há várias hipóteses. Existe uma proposta interessante segundo a qual só se aplicariam à dívida actual acima de 60 por cento do PIB e até que ela regressasse a esse nível, com um prazo de pagamento de 25 anos.

Fazer um ajustamento meramente orçamental, em dois anos, com sacrifícios incomportáveis dos mais fracos, e que implica aumentar impostos, baixar ordenados, reduzir despesas sociais, reduzir o consumo, com um sistema bancário paralisado, e querer a partir daí “adicionar” medidas de crescimento, é simplesmente inviável.

 

É preciso tempo?

O problema da dívida exige um período muito mais longo. Estes tratados e pactos, ou são renegociados, ou levam à necessidade de perdoar dívidas, ou desaba todo o edifício. Já agora, é mau que se fale de crescimento e não de desenvolvimento, que é uma coisa totalmente diferente.

Temos de perceber que Europa é que queremos. As crises não duram eternamente. O que me preocupa ainda mais é o mundo que pode seguir-se. Se é aquele em que, como diz Hayek, a ideia básica de justiça social é uma ameaça. Para já sucedem-se ataques ao Estado de Direito. Algumas das medidas que estão a ser tomadas em Portugal são anti-constitucionais.

 

Porquê?

Os ataques aos direitos laborais, por exemplo. A forma como foi feito o corte dos subsídios e pensões. Uma das propostas do Tratado de 30 de Janeiro é a inclusão de um limite constitucional para o deficit e para o prazo de pagamento da dívida superior a 60% do PIB. Ora, justamente do ponto de vista neo-liberal o funcionamento do sistema capitalista implica a existência de condicionantes endógenas e exógenas não domináveis pelos governos. Ou seja, quem propõe a necessidade dessa constitucionalização, cria por outro lado as condições para a violação dos princípios constitucionais. Além disso, aquela disposição significa a imposição permanente do mesmo sistema. Seria instaurar sem hipótese de escolha um neo-liberalismo constitucional e portanto destruir a essência das instituições democráticas.

O risco que corremos, e já o vimos na Grécia, é o do condicionamento do sistema democrático e da promoção de forças que querem o seu desmoronamento.

 

Significa o regresso a sistemas totalitários, tantas vezes prenúncio de guerras? Voltámos àquele momento entre as duas Guerras e ao crescendo de crise, agitação social, emergência de partidos totalitários?

Uma guerra europeia, não acredito. Mas há um perigo crescente de sistemas autoritários. Em Portugal receio isso porque temos uma sociedade civil muito fraca. O facto é que as pessoas por enquanto não têm reagido de forma enérgica.

 

Visto de fora, e olhando para a Grécia, o que parece é que os portugueses são um povo brando e de espinha curvada, que não se manifesta com a violência com que os gregos dizem: “Isto, não aceitamos”.

Não podemos fazer uma ligação directa, mas 48 anos de ditadura e a actual descredibilização da classe política levam muita gente à ideia de que não temos força, a pensar que é inútil reagir.

 

É uma grande diferença, essa. Acreditar no sistema, ou não. Acreditar que reagir leva a algum lado, ou não.

O desemprego e a crise fragilizaram o movimento sindical e por isso os sindicatos também têm de perceber que a sua acção não pode ser apenas corporativa. Temos hoje direitos, mas sentimos menos obrigações do que devíamos para justificar os direitos que temos. A nossa concepção de democracia é mais a do exercício de direitos do que a do cumprimento de deveres.

 

No fundo está a dizer que os sindicatos não podem viver à margem do seu tempo e do país.

Estou.

 

A Alemanha é a grande potência europeia. No quadro mundial, a China será a primeira potência? E daqui a quanto tempo?

Provavelmente daqui a 20 anos. Uma das razões porque a Alemanha vai ter de ceder é porque 40 por cento do que exporta é para a Europa. E aquilo que exporta para a China, estarão os chineses a produzir dentro de 10 a 15 anos. Essa fonte vai reduzir-se. E se secar a Europa, a indústria de exportação alemã será a primeira a sofrer.

 

Vou usar uma metáfora: têm de proteger o seu rebanho, mesmo contando com as ovelhas tresmalhadas.

Claro. Se Portugal, Grécia, Espanha e Itália não puderem pagar as suas dívidas, uma boa parte das quais está em bancos alemães e franceses, tal significa uma perda impossível para o sistema bancário dos países credores que tiveram liquidez para emprestar. Como esses prejuízos têm um seguro, os Credit Default Swaps, o efeito multiplicador para o sistema financeiro é incomportável.

 

É uma coisa tentacular. Muitas vezes os bancos têm uma grande participação nas companhias de seguros. Tudo acaba por ser uma espécie de património comum.

Ninguém pode deixar cair ninguém. É por isso que a criação de um novo modelo, de uma Europa de solidariedade, não é uma questão moral ou uma forma de ajuda, mas uma inevitabilidade a prazo para a sobrevivência da União. É preciso não esquecer que a concepção dos direitos humanos constou inicialmente de uma declaração universal abstracta, mas entrou na consciência colectiva, e está ligada à própria dignidade individual. Esses direitos concretizaram-se. Hoje há os direitos da criança, na Convenção de Viena, os direitos da mulher, na Declaração de Pequim, o direito de lutar contra a prepotência económica, o direito à autodeterminação.

 

É uma narrativa que está enraizada na mentalidade destes dias.

Sim. E esse caminho, com derrotas e vitórias é imparável.

 

Bill Rhodes disse em Portugal a semana passada que a austeridade só pode conduzir ao desânimo e à falência se não for acompanhada de medidas de crescimento.

Estou de acordo quanto ao desânimo e à falência. Mas juntar crescimento (repito, desenvolvimento) a esta austeridade é uma falácia. Como é que pode haver medidas de desenvolvimento com um sistema fiscal que aumenta os impostos de forma incomportável, com reduções de salários, com miséria que começa a alargar, com um sistema bancário que não pode financiar a economia real?

 

Os bancos estão descapitalizados. E agora é o Estado que vai lá meter o dinheiro.

É necessário renegociar a forma de restabelecer um equilíbrio financeiro, mas que não pode ser considerado um dogma estático. O prazo tem de ser prolongado para que quaisquer medidas que venham a impor-se sejam eficazes.

 

Enquanto isso, a taxa de desemprego dispara...

É inaceitável, sob o ponto de vista económico e social e ético, termos o nível de desemprego actual. As consequências não são só não poder ganhar a vida. Constituem um ataque à dignidade e levam à perda do respeito por si próprio.

 

A crise está a penalizar os do costume? Não só os pobres, mas também a classe média. Também são os do costume os que estão a ser poupados?

As consequências são diferentes para uns e para outros. Para as empresas, que podem ir (e muitas estão a ir) para a falência e gerar o desemprego dos seus trabalhadores. Para as pessoas que não ganham a sua vida, que não podem mandar um filho para a escola ou pagar as despesas de saúde. Sofre neste momento a classe média e sofrem aqueles que já sofriam. E há consequências no próprio sistema. Demos um nó cego nesta crise quanto às soluções. As pessoas perderam a possibilidade de imaginar o seu futuro. Estão apenas a tentar evitar o seu presente.

 

As soluções têm que existir a nível europeu? Sobretudo porque estamos presos numa teia.

Só há uma solução no plano da Europa. Mas estamos também perante uma crise mundial que começou com o subprime nos Estados Unidos e que terá influência na evolução do problema.

 

A verdade é que os EUA recuperaram mais rapidamente. A queda do gigante Lehman Brothers foi em 2008, e a recuperação já começou.

Mas o ponto de partida é diferente. Na Europa houve uma situação política e social em que havia algumas defesas. Na América isso nunca sucedeu. Os Estados Unidos vivem o individualismo puro. O programa do presidente Obama de dar assistência médica a cinco milhões de crianças que a não tinham, de criar um seguro de saúde, tem sido lá considerado um ataque à liberdade individual e uma perigosa deriva socialista.

 

Na Europa, sobretudo nos últimos anos, têm-se falado da falência do sistema que emergiu no pós-Segunda Guerra, envolvendo a Alemanha. Um estado-social erguido sobre os escombros da guerra e cujo fim, dizem, é inexorável. Concorda que assim seja?

Isso é outro problema. Houve 30 anos de crescimento, fez-se a reconstrução europeia, e não vivíamos a crise demográfica que hoje existe. A Europa representa apenas sete por cento da população mundial o que significa ser necessária uma verdadeira política de imigração. Com as actuais alterações geoestratégicas, com os mesmos recursos da Terra para uma população mundial que, em termos de consumo, é dupla da que havia há 20 anos, justifica-se que tenhamos que repensar a política social a uma escala europeia.

 

O quadro é especialmente preocupante numa sociedade envelhecida como a nossa e com uma esperança de vida prolongada.

A solução não pode assentar no actual modelo. A redistribuição de recursos deixará cada vez mais de ser uma tarefa interna dos Estados nacionais para se alargar ao espaço europeu. E isto implicará novas formas de equilíbrio com responsabilidades partilhadas.

 

Para isso são precisos líderes, visão estratégica, e um entendimento. Antes do pragmatismo, tem de haver um entendimento quanto ao que se quer para a Europa.

Quem leia um pouco de história tem algum sossego nesta constatação banal: nenhum sistema se mantém sempre. Hitler acabou, Mussolini acabou, Salazar acabou. Passei a minha vida convencido de que o Salazar nunca mais morria, mas morreu [riso]. Este sistema vai falir. A posição ultraliberal é insustentável quando vemos que em todo o lado a consciência colectiva dos direitos do Homem cresceu. É ver o que se está a passar com os países árabes, embora os resultados sejam uma incógnita. Na Birmânia, Aung Suu Kyi, ao fim de 20, anos está no parlamento.

 

E grandes líderes para o implementar, não estamos falhos disso?

Em casos anteriores apareceram grandes líderes quando havia crises. Roosevelt, Churchill, De Gaulle, Staline, na Segunda Guerra Mundial. Esta crise, – estou a falar da Europa – não produziu grandes líderes. Isso tem a ver com a natureza da construção europeia, que não foi democrática. Não escolhemos os líderes europeus. A nossa participação é feita nominalmente através de eleições para um Parlamento longínquo. Na prática, faz-se através de governos que elegemos, mas cuja acção é dirigida por razões que são deles próprios, governos, e de defesa da sua posição político-partidária.

 

Quando olhamos para o sonho de Jacques Delors parece que foi ontem. E entretanto tudo ficou em pantanas.

As raízes disto eram previsíveis na construção da Europa, concebida para evitar uma nova guerra entre a França e a Alemanha. Fez-se à volta da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e depois foi-se alargando. O problema é saber se se consegue modificar a situação no quadro político actual, ou se tal se vai dar em resultado de uma agitação social grave que obrigue a mudar.

 

A implosão da zona Euro e do projecto europeu, de que tanto se fala e que todos temem, é evitável?

Evitável é. Sou optimista a prazo. As coisas estão a mudar lentamente. A própria Alemanha está a começar a perceber. Além disso pode vir a estar em causa a política interna da Sra. Merkel, que tem eleições para ganhar, mas que já perdeu cinco...

 

... A última das quais no maior estado da Alemanha. Acha que é um sinal?

Acho. Os dirigentes europeus começam a entender que a implosão do sistema afectará todos. A estratégia de conquista de uma posição hegemónica alemã vai manter-se até se perceber, à beira do abismo, que não pode ir mais além. Mas sair da situação actual não é o mesmo que resolver o nosso futuro, o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos. Esse será um novo combate e mais duro ainda.

 

Esta manhã estava a reler a entrevista que lhe fiz vai para seis anos. Dizia que na sua juventude o marxismo era uma forma de dar sentido ao futuro. O que é que ocupou esse lugar na sociedade contemporânea?, o neo-liberalismo?

A situação é diferente. Vivíamos numa ditadura. Éramos oprimidos e tínhamos a esperança que vinha de uma visão ideológica integrada. O neo-liberalismo é, pelo contrário, o resultado de uma política de classes dirigentes para manter o poder. A nossa, era uma visão de futuro, o neo-liberalismo é uma forma de preservação do presente. Mas a História não tem fim, ao contrário da afirmação estúpida do Fukuyama.

 

Mas aquele paradigma acabou com a queda do muro. Qualquer coisa radicalmente nova começou na sequência disso.

O que Fukuyama escreveu foi que o modelo democrático se tinha estabilizado com o desaparecimento do socialismo real na União Soviética. É verdade que, com o fim da União Soviética e da experiência do socialismo real, desapareceu um quadro de referência, que falhou completamente. Hoje o que não há é uma ideologia estruturada e perdemos ilusões utópicas quanto ao futuro e quanto a nós próprios. Mas ganhámos um conjunto de valores que interiorizámos e se vão globalizando. O que andamos a tactear é a melhor forma de, nas circunstâncias que temos, os traduzir num discurso coerente e numa aplicação política concreta.

 

Retomo uma linha que vem de trás: como é que se convoca a sociedade civil em Portugal? Nem há duas semanas, o Banco Alimentar reuniu um valor recorde de alimentos, e num período de crise como este que atravessamos. Por outro lado temos a taxa de abstenção eleitoral que se sabe, e uma participação na res publica diminuta.

A falta de participação traduz a perda de confiança na classe política. A adesão à campanha do Banco Alimentar significa que as pessoas têm um grande espírito de solidariedade e que são mobilizáveis quando percebem que outros estão numa situação difícil. Mas não reagem de forma cívica contra o que gera essa situação.

 

O medo é uma das razões para compreender essa não-intervenção? Medo do futuro, de perder o emprego.

Não é por acaso, voltando à Thatcher, que ela atacou os sindicatos. Uma parte dessa política consistiu em reduzir a capacidade de intervenção destes, destruindo o emprego, baixando os salários, admitindo alterações à lei do trabalho com despedimentos facilitados. O medo é do futuro e do presente. E isso, ou se mantém assim se as pessoas não reagirem, procurando cada um resolver o seu problema, ou então a agitação social é um risco crescente.

 

Comecei por falar de si num contexto de luta e instabilidade. Como é que não se tem medo, como é que se encontra o caminho?   

As reacções não são as mesmas em toda a gente. Não se pode exigir de todos o mesmo espírito de luta. Mas a acção comum potencia a força. O conhecimento da História permite ter uma visão mais segura da realidade e das alternativas de que dispomos.

 

Esta série de entrevistas, genericamente intitulada Ampola Miraculosa, discute Portugal, a sua identidade e o momento que vivemos. Como olha para quem somos?

Fala-se muito do que é ser português. Há uma frase do Eric Hobsbawm que diz que é a nação política, são as classes dirigentes que formulam o vocabulário político da consciência nacional. E também do que são os projectos nacionais, a sua execução e a imagem com que ficamos desses projectos. A ideia que a elite do tempo teve do que foram as Descobertas, realizadas por toda a espécie de razões (políticas, religiosas, económicas), não era a mesma dos marinheiros apanhados nas tabernas do Cais do Sodré e que iam à força tripular as caravelas. Não há uma visão unitária do que é ser português. Nem há a mesma visão em todos nós sobre o que é a nossa participação na História. Claro que temos traços distintivos próprios: a forma como nasceu o Estado, características geográficas e culturais; tudo isso criou homogeneidade, mas não uma imagem comum de nós próprios.

 

No Discurso sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Antero de Quental escreve coisas que hoje poderiam ser ditas sobre Portugal. Parece que há uma constância no modo como nos vemos.

Repito, mas não em todos nós por igual. O Eça de Queirós dizia que a marcha da civilização para a justiça é feita pelos que riem. O Ramalho Ortigão escreveu que o dever da crítica perante um acontecimento ou uma personagem importantes é o desprezo e a zombaria. A Geração de 70 representou um cosmopolitismo estéril. Por isso Antero respondeu que o riso é um dissolvente, não é um remédio. A elite fez as Descobertas mas depois expulsou os judeus. Foi a elite que fez de nós proprietários absentistas de um Império que nunca desenvolvemos. E isso explica a indiferença com que o povo português recebeu a perda das colónias. Sabiamente, compreendeu que a paz era o objectivo vital para o derrube da ditadura. [Viveu] alheio ao desaparecimento de um Império de que a maioria nunca beneficiou. Não houve um projecto português integrado ligado a uma acção cultural, económica, social. E depois tivemos os 48 anos de ditadura.

Em Portugal pertencer a uma elite nunca representou, como devia, uma fonte extra de obrigações, antes uma atribuição anormal de privilégios. O povo foi sempre melhor do que as elites.

 

Antero falava de decadência. É uma palavra que pode ser facilmente aplicada aos portugueses?

Falar de decadência implica estabelecer uma referência em relação a um padrão histórico, o que não faz sentido. Aquilo que se fez depois do 25 de Abril – dignificar as pessoas, que passaram a ter liberdade, a poder ir à escola, a ter direito à saúde – isso sim constituiu um projecto, um valor e uma verdadeira reforma da sociedade.

 

Queria pedir-lhe que falasse da esquerda e dos valores de esquerda que sempre defendeu. Nos últimos anos, os países europeus têm virado à direita de um modo geral (e já vamos a Hollande).  

A esquerda ficou órfã com o desaparecimento da União Soviética e foi batida em função do tipo de globalização que tivemos e da influência do neo-liberalismo. Quando há uma globalização que nos torna a todos interdependentes, ao mesmo tempo que os centros de poder financeiro, económico, político, geoestratégico e militar impõem um determinado modelo, é difícil combatê-lo de forma estruturada.

Aquilo que hoje são os valores da Esquerda e de crescentes sectores da sociedade portuguesa são aqueles de que temos estado a falar. Valores ligados à dignidade da pessoa, aos direitos e às obrigações que fazem parte da nossa consciência colectiva. Esses valores devem ser defendidos e efectivamente aplicados.

 

Com a vitória de Hollande nas presidenciais francesas, acredita que alguma coisa de significativo vai mudar nessa redefinição do que é a Europa, que, disse, urge fazer?

Não sei bem até onde é que Hollande quer ou pode ir. Aquilo que ele significa não é tanto o que consiga fazer, mas a possibilidade que criou de esperança e mudança de perspectiva dos povos europeus. A falência do sistema neo-liberal é de tal maneira patente, e as consequências concretas são de tal forma graves, que vamos ter que mudar.

 

Disse que o povo português foi sempre melhor que as suas elites. Outra linha constante na imagem que temos de nós mesmos: somos individualmente extraordinários – no futebol, Ronaldo ou Mourinho são exemplos – e na interligação com o colectivo falhamos.

Há um problema perene em Portugal: o do corporativismo em que Salazar nunca acreditou e apenas utilizou como mais um meio de domínio político. Há hoje outro tipo de corporativismo em todos os extractos – médicos, farmacêuticos,  juízes, advogados. O meio é muito pequeno e de muitos interesses instalados. Estou de acordo consigo quando diz que os líderes têm influência; com líderes diferentes tudo poderia ter outro caminho. A participação política é cada vez mais necessária, mas a acção da sociedade civil, sem um apoio político, não pode ir longe.

 

A resistência à mudança é uma característica de velhos. Este país é um país de velhos? Em princípio, os novos têm menos medo da mudança. Como olha para os mais novos?

A geração mais nova é em geral de grande qualidade. Num exemplo caseiro, vejo isso no escritório. São todos para mim  miúdos, na casa dos 30, 40. São muito melhores tecnicamente do que nós éramos. São impecáveis do ponto de vista deontológico. E são civicamente interessados e generosos. Não são é politicamente motivados. Não acreditam no funcionamento do sistema. É gente que está a mudar a forma de estar na vida. Não está é a traduzi-la em participação política. Digamos que sou o velhote esquerdista [riso]. O escritório tem de ter algum.

 

O que é que lhe agrada em Portugal?

Tudo. Por tudo aquilo que vivi antes. Gosto das pessoas. Têm qualidades que muitas vezes não vêm ao de cima por circunstâncias que lhes são alheias. Os problemas dos portugueses não resultam da sua falta de qualidade, decorrem da estrutura que temos, dos corporativismos, da luta pela sobrevivência. Gosto do clima, gosto do sol. Gosto de sardinhas, de carapau. Adoro o Alentejo. Fizemos muita asneira na História, como todos os povos, mas fizemos muita coisa boa. Mas não temos o sentido de que a mudança se obtém através de um combate constante, não de forma imediata. As revoluções põem termo ao que está mas não definem por si o que há-de vir. No 25 de Abril a pseudo-Esquerda...

 

Pseudo-esquerda?

Nessa altura muita gente me ultrapassava pela Esquerda [diz com tom irónico] e está agora na Direita pura e dura. Antes do 25 de Abril (custa dizer isto, mas é verdade), estou convencido de que se o Salazar fizesse eleições livres era capaz de as ganhar. Tirando o Partido Comunista que fez uma resistência organizada, houve um grupo relativamente pequeno que combateu o regime. Quanto ao resto, predominava uma espécie de suave cobardia generalizada. Hoje tudo mudou, mas há traços de acomodação.

 

De acanhamento?

E falta de confiança própria, falta de convicções. E são as convicções que guiam a acção.

 

Isso foi outra coisa que disse na entrevista: “Ter coragem não é uma qualidade, é uma consequência de ter convicções”.

Se uma pessoa acredita numa ideia tem coragem. É a prova de fogo. Durante a ditadura caímos numa apatia a que pouca gente resistiu. Veio o 25 de Abril e também se supôs que era possível fazer alterações rápidas na sociedade portuguesa, que é conservadora como todas as sociedades. Houve um grande irrealismo. A ideia de que a luta pela liberdade, pela dignidade das pessoas deve ser permanente e contínua, que não é algo que se ganhe de repente, é um factor básico de vida.

 

Não foi sempre?

Foi. E a verdade é que, com recuos e avanços, o Homem tem-se libertado de muitos arbítrios e violências, tem ganho consciência de si próprio e do seu poder para transformar o futuro. Isto parece lírico, mas é verdade. Por estas razões sou incorrigivelmente optimista a prazo.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2012

 

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