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Violência Doméstica: o caso de Rosa

“A nossa relação caminhava para lado nenhum. Pior: caminhava para a minha destruição. Tínhamos uma dinâmica negativa, pesada, sofrida, louca. Era também assim que me sentia. Eu não era mulher para ele: não era obediente, nem carente, nem frustrada. Não me deixava dominar, controlar. Ele tem uma auto-estima gigantesca, que precisa de alimentar através do domínio que exerce sobre outras pessoas”.

Rosa é uma mulher de 41 anos, de estatura portuguesa. O cabelo é comprido, enrolado, cuidado. Fala pausadamente, expressa-se com rigor, trabalha num banco. Traz um livro de Sándor Márai. Encontramo-nos num centro comercial, num café onde se pode fumar. “Vou precisar de fumar”, tinha avisado. Mas fumou muito pouco. A única vez que a voz se alterou foi para dizer: “Foi um inferno”.

Nunca pensou que aquilo lhe pudesse acontecer. Apesar de a mãe ter sido batida pelo pai. Apesar de o ex-companheiro ter batido na ex-mulher e na sogra. Apesar de provir de um quadro onde as cenas de violência não são uma coisa que só acontece aos outros. Vem de uma infância sem livros, cresceu num bairro social. “Deu-me resistência. Não é boa. É resistência para o mal.”

Um mês depois de estarem juntos, já ele a ameaçava. Uma ameaça-castigo. “Não te portas bem, não caso contigo, vou-me embora. Se te portares bem, logo se vê.” Viviam em permanente confronto.

Porque é que Rosa ignorou os indicadores? Porque é que ficou quando se prenunciava uma tempestade? A investigadora do Dinâmica CET-ISCTE Glória Rebelo, que trabalha questões relacionadas com a igualdade de género, pensa que “continua a existir um ideal de relação amorosa estável. A educação sentimental baseia-se ainda muito num modelo romântico (assente na reciprocidade, compromisso e estabilidade). Existem dois tipos de situações: o das mulheres dependentes financeiramente dos homens, geralmente com filhos (e o número de filhos aumenta, naturalmente, a dependência), que suportam a violência por uma questão de sobrevivência económica; e por outro lado, as mulheres que – ainda que independentes economicamente – suportam a violência em segredo, ou por afecto ao agressor, ou receando o escândalo, ou na esperança de que um dia o agressor mude o seu comportamento”.

Rosa não dependia financeiramente do companheiro. Não alimentava o sonho de um casamento indissolúvel. Pertence a uma geração emancipada. De uma relação anterior, tinha uma filha. Responde com uma frase simples quando lhe perguntamos porque viveu cinco anos com um homem que a maltratava. “Porque gostava dele”.

Como compreender que, apesar das alterações dos últimos anos, da entrada em força da mulher no mercado de trabalho, da importância dada à sua realização profissional, ela continue a ser olhada, mais do que tudo, como mãe e mulher? Como se fosse mais “uma mulher” e menos “uma pessoa”. Glória Rebelo concorda que a questão é cultural e de mentalidades. “As mulheres, ainda hoje, são educadas (e, paradoxalmente, pelas próprias mães) para serem as “cuidadoras dos outros”, secundarizando muitas vezes o “cuidar de si”. Cuidar dos filhos, do marido/companheiro, cuidar dos pais, dos avós, genericamente da família. E, desde cedo, vão interiorizando a assunção dessa responsabilidade. Em caso de iminente ruptura de relação, as mulheres tenderão a ponderar, mais do que os homens, o fim da relação, sobretudo quando estão em causa filhos”.

A terapeuta familiar Conceição Oliveira Neves, que acompanha no consultório e no Hospital Júlio de Matos vítimas de situações de maus tratos, observa que estas mulheres “não conseguem desistir da relação. Acreditam que o sacrifício pelos outros é uma virtude.” Rosa diz taxativamente o que muitas parecem sentir: “Eu acreditava que o meu amor o iria mudar”.

Existe uma denegação da situação em que se encontram. Têm dificuldade em assumir que se mantêm numa relação de maus tratos. Não só socialmente – é normal esconderem, aparecerem pisadas no trabalho e dizerem que foram contra o armário da cozinha – como perante si próprias.

Conceição Oliveira Neves diz que “as relações oscilam entre o fusional e o conflito. As vítimas aceitam agressões que consideram “menores”, têm um sentimento de dependência em relação ao agressor, que pode não ser real, mas que é sentida como tal. Os agressores, que têm uma baixíssima auto-estima, embora aparentemente tenham uma auto-estima muito elevada, responsabilizam as vítimas pela própria situação de maus tratos que lhes infligem! É frequente ouvi-los dizer: “Tu já viste o que me fazes fazer?”. Manipulam emocionalmente. Têm ciúmes desmedidos. Têm necessidade de sentir que têm o controlo, exercem a autoridade despoticamente.”

Todavia, fora do contexto doméstico, os agressores podem ser pessoas encantadoras. Não raro são afáveis, amigo do seu amigo, daqueles de quem se diz que não fazem mal a uma mosca. Só as que dormem com aquele inimigo lhe conhecem o lado negro, irascível, explosivo, assistem à transmutação. Vivem um segredo, que não partilham. Diminuídas na sua auto-estima, sentem uma vergonha social que as isola da família, dos amigos, que as enclausura na redoma em que vivem com o agressor. Levam e calam.

Rosa levou uma vez, apenas. Olhando retrospectivamente, não é estranho que “aquilo” tenha acontecido. A escalada da relação apontava para este desfecho. Se tivesse ficado, provavelmente o destino seria levar mais, cada vez mais, em ciclos cada vez mais curtos, cada vez mais intensos. Ora de seis em seis meses, ora de três em três meses, ora uma vez por mês, ora porque o Benfica perde, ora porque o prato não está devidamente limpo, ora porque o outro bebeu. Ora porque sim, ora porque não. “Descarregam a tensão sobre a vítima, independentemente da atitude que ela tenha”, diz de forma lapidar a terapeuta familiar.

Rosa recorda que o companheiro nunca lhe dizia que a amava. Mas repetia que a adorava. Que tinha encontrado nela um substituto para a heroína, em que fora viciado. “Os ciúmes fizeram-no partir um aspirador, amolgar um aquecedor. Costumava dizer: “Qualquer dia mato-te e a seguir mato-me, já não tenho nada a perder.” Eu fui rude, parti um comando da televisão, um copo, um prato. Violência gera violência. Também me estava a transformar num monstro. Era uma luta de igual para igual, num ringue de ofensas. Um dia apertou-me os braços, empurrou-me, agrediu-me. Nessa amanhã eu tinha-lhe dito que estava grávida. Estava grávida dele e ele bateu-me. Odiei-o mais do que nunca. Fiquei desfeita, desnorteada. Peguei no copo de whisky, atirei-lho à cara, parti-o contra a parede. Ele imobilizou-me, mordeu-me, apertou-me o pescoço. Bateu-me. No dia seguinte fui trabalhar, disfarcei as nódoas negras com um corrector de olheiras. Nunca houve remorsos, pedidos de desculpa, promessas de amor eterno. “Tu não me mereces”, dizia-me. Eu é que causava todo o mal na nossa relação. Abortei. Sozinha”. Nessa altura, escreveu para não esquecer. “Doeu tanto que ainda dói.”

O companheiro de Rosa saiu de casa há quase um ano. Mas no café onde se pode fumar, Rosa lê alto as mensagens de telemóvel que ele continua a enviar-lhe. Sedutoras, amorosas, convites para jantar. “Fui mesmo deixando de gostar dele”, diz. Não vacila. “Não deixei que me roubasse toda a minha auto-estima. Nos últimos meses que passámos juntos, deixei de reagir. Ignorá-lo era ofendê-lo. E não me via a chorar pelos cantos. Tentava seduzir-me. Como agora. Mas se cedesse, se voltasse, sei que tudo seria como dantes”.

Deixou de acreditar que o amor redime. Compreendeu que aquele amor lhe fazia mal, que alimentava uma estranha adrenalina, que era um caminho sem escolha. Deixou-o esticar a corda. “Dá-me lá mais motivos para eu não gostar de ti… Um jogo perverso. Eu queria que ele me desse um motivo forte, que eu pudesse repetir a mim mesma, para vir embora”.

Hematomas, lesões, insultos, gritos, ameaças, humilhações, uma desvalorização constante – são algumas das situações mais comuns num quadro de violência doméstica. Conceição Oliveira Neves aponta frases recorrentes: Porque é que estás sempre a chorar? Será que não sabes fazer nada bem? Porque é que causas mau ambiente em casa?

Rosa ouviu o companheiro dizer à sua filha de seis anos: “És uma merda igual à tua mãe”. Uma frase destas dói menos do que um murro? A terapeuta chama a atenção para um aspecto gritante: os maus tratos físicos são apenas a ponta do iceberg. São incontáveis os casos de mulheres que continuamente são violentadas, humilhadas, desvalorizadas – sem que lhes levantem a mão. Mulheres que ficam.

Outras ficam e são espancadas selvaticamente. Outras ainda sofrem até à morte. O que é que as faz interromper o ciclo? “Muitas vezes são os filhos. Saem quando os maus tratos são em frente aos filhos. Dizem: “Por mim, até aguentava. Mas não vou sujeitar os meus filhos a isto”.

Este ano e o ano passado, anormalmente, morreram em Portugal dezenas de mulheres vítimas de violência doméstica. A estatística parece confirmar o ditado “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. A situação de crise agudiza muitos destes conflitos, assegura Conceição Oliveira Neves. A tolerância à frustração do agressor, já de si baixa, acusa a vulnerabilidade, a adversidade social. O agressor descarrega sobre o elo mais fraco da cadeia – a mulher que têm à mão.

“Há muito a fazer na área da prevenção primária (junto das famílias, escolas e associações culturais) no sentido da mudança de comportamentos e atitudes e, sobretudo, educando contra a violência”, defende Glória Rebelo. “É urgente minorar este drama”.

Um drama que se perpetua. Rosa faz terapia desde o início deste ano. “Sabe porquê? Porque sei que potencialmente isto me pode acontecer de novo. Faço terapia para prevenir. Pode pôr o meu nome, Rosa. Não gosto de me exibir, mas gosto menos de me esconder. E não sou eu que tenho de sentir vergonha pelo que passei”.

 

 

A violência doméstica não escolhe géneros nem orientação sexual: “Existe ainda o mito de que duas pessoas do mesmo sexo têm a mesma força física, pelo que não se justifica falar em desigualdade neste tipo de relações. Contudo, nem duas pessoas do mesmo sexo têm necessariamente a mesma força física nem a violência doméstica se baseia sempre na superioridade física de um dos elementos do casal”, esclarece a ILGA.

Há uma vulnerabilidade acrescida para homossexuais, que decorre do seu isolamento, da inexistência de uma rede social de apoio, e também do facto de “muitas pessoas LGBT viverem as suas relações amorosas e familiares sem o conhecimento das suas famílias de origem”. O outing é uma ameaça que pende sobre elas. “Se um/a dos parceiro/as não fez ainda o coming out, o/a agressor/a pode utilizar a ameaça de o/a denunciar como gay ou lésbica como um poderoso instrumento de controlo e de intimidação”.

 

A brutalidade dos números:

Uma cifra negra: 43 mulheres morreram em 2010 vítimas de violência doméstica. Vinte e nove destas mulheres mantinham uma relação amorosa com o agressor. Uma parte diminuta (oito) tinha terminado a relação, e pelo menos nove haviam apresentado queixa por maus tratos.

Os números não são significativamente diferentes dos de anos anteriores. Em média, registam-se por ano quarenta óbitos resultantes de situações de violência doméstica. É uma realidade que não escolhe classes sociais ou faixas etárias. Segundo um estudo recente efectuado pela Universidade do Minho, os casais mais jovens agridem-se tanto quanto os mais velhos.

A APAV disponibiliza no site www.apav.pt informação sobre o tipo de apoio prestado.

 

Quando os maltratados são eles:

Os dados disponíveis são referentes a 2009: 705 homens pediram ajuda por processos de violência doméstica. Para se ter uma ideia: no mesmo ano, o número de mulheres que pediu ajuda foi de 5857.

Se é verdade que quando se pensa em quadros de violência doméstica se pensa na figura da mulher, também é verdade que, por vezes, as vítimas são eles. A APAV considera que o número de queixas pode ser “uma ponta do iceberg”. Para partilhar o assunto, os homens têm de superar outro obstáculo: o da vergonha. “É incompreensível para muitas pessoas como é que o homem, que normalmente tem mais força, e muitas vezes detém o poder económico, tolera situações de violência doméstica; mas elas acontecem. Ao apresentar uma queixa, numa esquadra, numa instituição, ele tem de ultrapassar um estereótipo: o do papel de género que socialmente lhe é atribuído”.

 

 

Publicado originalmente na revista Máxima em 2011

 

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