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Viriato Soromenho Marques

É um filósofo que considera Portugal um país excepcional. “No campeonato dos países com dez milhões de habitantes, não estamos atrás de ninguém.” É um estudioso da Filosofia Política que analisa o país numa Europa em perigo de implosão. Que diz que Sarkozy é dez por cento de De Gaulle. Ou que seria bom que Merkel ocupasse parte da energia que usa para defender o interesse alemão na defesa de uma Europa depauperada. Acusa o governo de Passos Coelho de não ter um plano B e de apostar num plano A altamente irrealista. O plano A corresponde a uma austeridade cega. A estratégia não é o nosso forte – não é novidade para ninguém. Os temas estratégicos, filosóficos e ambientais são aqueles de que se ocupa. Viriato Soromenho Marques é professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem editada uma obra vasta. Nasceu em 1957. Foi na sede do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, de que é membro, um magnífico palácio na Lapa, que nos encontrámos.  

  

Somos um povo que gosta de obedecer ou de mandar?

Nós, portugueses, temos sobretudo uma grande dificuldade em construir um projecto colectivo. Para obedecer ou para mandar é preciso existir um plano intermédio – o plano do poder. O plano do poder não tem a ver com o exercício de funções governativas, tem a ver com o contrato social que transforma um grupo de pessoas num povo organizado. A questão de mandar ou de obedecer depende da questão prévia do poder. Tem sido o nosso grande problema permanentemente adiado.

 

Funcionamos com o estereótipo de que os alemães são um povo que manda; nós somos um país que, pelo menos durante 48 anos, uma ditadura longa, obedeceu. Estas coisas entranham-se.

O contraste com a Alemanha não se pode aplicar nessa perspectiva. Não esqueçamos esse milagre europeu que é a nossa existência como Estado há quase 900 anos, com as fronteiras mais consolidadas, mais estáveis, com características de grande homogeneidade. Não que seja contra a pluralidade, mas a homogeneidade, politicamente, é um factor importante. E um país que, ao contrário da Alemanha, foi capaz de construir três impérios. A Alemanha não conseguiu construir nenhum que não tivesse terminado numa rápida tragédia para si e para o resto do mundo.

 

Essa nossa excepcionalidade tem que ver com o exercício do poder?

A razão pela qual somos um Estado muito antigo, nascido na Idade Média, consolidado a partir de D. João II na Idade Moderna, é porque houve gente que soube exercer o poder. A Segunda Dinastia, a mais gloriosa que Portugal teve, começa com uma revolução popular mas com uma liderança firme do Mestre de Avis, com um projecto nacional extraordinário. Portugal começou a globalização. A partida de Vasco da Gama para a Índia marca uma separação da história – “antes de Gama e depois de Gama”, Voltaire dixit.

 

Para esse desígnio, o do Mestre de Aviz ou de qualquer outro, são precisas duas coisas: a primeira é um projecto e a segunda é a capacidade de o implementar.

Exactamente. O facto de a Alemanha só ter conseguido unificar-se em 1871, quando é declarado o Segundo Reich na Sala dos Espelhos do Palácio de Versailles, em território francês (uma atitude bastante agressiva, declarar a fundação do império alemão em território ocupado); o facto de a unificação alemã ter sido a solução da kleine Deutschland, da pequena Alemanha, e não da grande Alemanha, que envolveria também a Áustria e os outros territórios de língua alemã, mostra que os alemães, embora tenham de si próprios a imagem de uma nação organizada, disciplinada, têm todavia uma pulsão interna descentralizada e centrífuga. Tiveram um império em África e um império no Pacífico e não ficou nada. Não ficou língua, não ficou memória.

 

A organização ficou como traço dominante do ser alemão. E isso é inegável.

Mas uma coisa é ter organização, outra coisa é ter capacidade de mandar e de exercer o poder. No que diz respeito ao exercício do poder, num quadro que não seja o doméstico, não temos nada a aprender com os alemães. Tivemos três impérios; um que terminou quando eu tinha 16 anos, em 1974, e construímos administrações, faculdades, fábricas, estradas, na Ásia, em África, no Brasil. Estivemos lá durante séculos de forma constante. Nessa capacidade de incluir os outros, diferentes de nós, não há qualquer comparação entre a capacidade portuguesa e a alemã. Esta crise europeia só está a ser agravada porque a Alemanha não tem um projecto para a Europa.

 

A culpa, mais que tudo, é de Angela Merkel?

É uma culpa partilhada. Todos somos responsáveis, inclusivamente os europeístas e os federalistas, nos quais me situo. Somos responsáveis porque deixámos um projecto amadurecer ao ponto do apodrecimento. As tendências patológicas da União Europeia já eram visíveis há dez anos, quando entrámos na moeda comum.

 

Avançou-se com a moeda antes das outras coisas que podiam solidificar esse projecto?

O chanceler Kohl, enquanto se estava a discutir Maastricht, que é o embrião de tudo isto, fez uma intervenção no Bundestag em que dizia: “É perigoso avançarmos para uma união económica e monetária sem termos uma união política garantida”. Ele próprio acabou por rever a sua posição e aceitar o que veio a seguir. Hoje queixamo-nos da falta de liderança, mas foi um compromisso entre Mitterrand e Kohl que nos levou a entrar nesta aventura da união económica e monetária (UEM) sem termos as condições básicas para isso. Há desculpas, há atenuantes? Há. A perspectiva é a mesma que encontramos nos pais fundadores da nossa união logo a seguir à Segunda Guerra, no Robert Schuman, no Jean Monnet. É a ideia de que podemos criar uma dinâmica funcional que acabe por alargar e aprofundar um projecto de natureza federal a médio, longo prazo.

 

A expressão que usou foi “deixámos amadurecer o fruto até ele apodrecer”. À medida que tudo se alicerçou na moeda, e ficaram para trás aspectos importantes, nomeadamente o político, a crise passou a ser inevitável? Deixou de ser surpresa para si?

Talvez valha a pena sintetizar o que falhou. Uma das coisas de que mais sofremos (não só em Portugal, na Europa) é a crença de que só hiper-especialistas são capazes de perceber estes assuntos europeus. Sofremos de um mal de que não sabemos sequer o nome.

 

Esse nome e esse mal, até há relativamente pouco tempo, em Portugal, era o de Sócrates. Funcionava como bode expiatório da crise.

Também tem as suas responsabilidades, mas não são as principais.

 

Neste momento, um pouco desse ódio, que estava fulanizado em Sócrates, está a ser transferido para Cavaco. A expressão que Marcelo Rebelo de Sousa usou – o tiro ao Cavaco – sintetiza isso. É como se o comum dos mortais achasse que não é capaz de compreender as grandes crises e então….

… domesticamente encontra o bode expiatório. Inteiramente de acordo. Claro que podemos e devemos, também, pedir responsabilidades aos nossos governantes, e a nós próprios como cidadãos, que também fomos coniventes. A nossa dívida pública é importante, mas a nossa dívida privada ainda é maior. Fomos irresponsáveis quando fomos no canto da sereia das entidades bancárias, que agora nos vêm pedir disciplina. Basta fazer um estudo sobre os anúncios publicitários no início da década de 2000: foram um convite à mais cega das irresponsabilidades por parte do consumidor.

 

Quem é que viu os perigos do euro? Quem é que percebeu que uma moeda comum não era suficiente?

Temos uma série de economistas que viram isto com bastante nitidez. O Krugman, o Stieglitz. Mas quem viu melhor foi Martin Feldstein, um economista conservador norte-americano, que escreveu um artigo na Foreign Affairs, em 1997, notável e premonitório. Fala de uma linha de clivagem entre países credores e países devedores – como agora. Não sendo uma união económica perfeita, com países que têm níveis de competitividade diferentes, mais tarde ou mais cedo o que iria acontecer era uma situação destas. Temos que fazer o diagnóstico do que falhou para tentar corrigir, se queremos continuar juntos, se não queremos que a Europa se torne apenas num sítio geográfico onde as pessoas sofrem.

 

O que é que falhou, o que é que correu mal?

Faltaram três coisas fundamentais. Temos uma união no que diz respeito à emissão da moeda e à desvalorização da moeda, mas não temos uma união fiscal, não temos políticas fiscais coordenadas.

 

Por isso há empresas, como há pouco aconteceu com a Jerónimo Martins, que deslocam as suas sedes para a Holanda, nomeadamente.

Uma união fiscal funciona de uma forma simples: temos que ter um acordo mínimo em relação aos grandes impostos, o IRS e o IRC. Nos Estados Unidos existem um IRS e um IRC federais que são progressivos, variam entre dez e os 35 por cento, dependendo do rendimento das empresas e dos particulares; e depois os estados acrescentam uma taxa estadual onde existe margem para competição fiscal. O que está a acontecer na Europa é que existe uma total autonomia. A política fiscal é uma competência totalmente soberana.

 

Vamos voltar às coisas que falharam.

Falhou um verdadeiro orçamento. Como é possível, com um por cento do PIB da União, financiar políticas comuns? Financiar uma política de energia europeia, de segurança alimentar, uma rede de transportes que permita o equilíbrio. Se em vez de uma Comissão Europeia tivéssemos um governo europeu, um presidente eleito por sufrágio universal (não há outra maneira de termos a quem chamar nomes senão elegê-lo), com um orçamento de cinco ou seis por cento do PIB, faria toda a diferença. Um governo europeu que não hostiliza os governos estaduais, que vão continuar a ter o quinhão principal das responsabilidades.

 

Outro aspecto importante: o comprometimento e o empenhamento dos países membros com o projecto europeu. A resposta foi desigual.  

O pacto de estabilidade e crescimento, que foi o dispositivo que a Alemanha impôs para se avançar com a moeda comum, tem critérios (a dívida pública não pode ser superior a 60 por cento do PIB, ou o défice orçamental que não deve ser superior a três por cento) que os franceses e alemães violaram logo em 2003, logo após a entrada em vigor da moeda comum.

 

Ou seja, foram criados mecanismos que nem os países de moeda mais forte respeitaram.

No Tratado de Lisboa (TFUE), nos artigos 121, 126 e 136, está inscrito o pacto de estabilidade e crescimento, e estão os limites do BCE, nos artigos 123 e 127. O 125, que já foi mais que violado, é o artigo que diz que não há resgate para os países que não cumpram o pacto de estabilidade e crescimento. Então por que é que os mercados emprestaram a Portugal e à Grécia com uma taxa de juro semelhante à alemã durante estes anos todos? Porque os mercados também acreditaram que se houvesse uma crise haveria uma resposta solidária da Europa.

 

O que falhou foi a solidariedade e a coesão europeia?

Foi um propósito. Para mandar é preciso uma máquina, um músculo, mas é preciso ter um projecto.

 

É a falência do federalismo que, no fundo, acaba por conduzir a esta falência do projecto europeu?

Não quero ir tão longe. Estamos numa situação em que existem mais probabilidades de isto terminar muito mal do que de terminar bem. Mas não estamos ainda numa situação em que se possa dizer que estamos condenados. Estamos na luta, há pessoas que se estão a mexer. O Mario Monti, na Itália, só tem feito coisas positivas. Não é um tecnocrata fechado, é um homem que tem uma cultura política baseada no rigor. E é uma pessoa com coragem, que diz à senhora Merkel que quer Eurobonds, que faz um discurso no Parlamento Europeu que deixa toda a gente encantada porque tem um projecto europeu, que assinou a carta com Cameron e mais dez países para o crescimento económico.

 

Apesar de Monti, de Cameron, destas movimentações alternativas, coisas como o encontro do ministro Vítor Gaspar com Schäuble fazem-nos perceber que na prática quem manda é a Alemanha.

O projecto europeu, até à moeda única, tinha uma dinâmica federal dominante, com componentes inter-governamentais. O que é que era a Europa para o general De Gaulle? Eram os chefes de Estado e do governo reunidos à mesa. O que é hoje o conselho europeu [reproduz] esta ideia. Sarkozy, que vale dez por cento do De Gaulle, em relação a isso tem a mesma ideia. Nesse aspecto os alemães são muito mais institucionais, têm um sistema federal. O problema dos alemães é que querem o federalismo só para eles.

 

Querem mandar eles… Voltamos ao estereótipo.

Não são os alemães, é este governo. Os Verdes e o SPD têm defendido publicamente a mutualização da dívida, os Eurobonds. A questão é que não temos tempo para esperar até 2013, e vai ser penoso esperar tanto tempo.

Temos uma dinâmica dupla. Temos uma componente federal que aponta no sentido de aprofundar o processo da união e fazer da Europa um lugar político onde há poder, há instituições, um estado de direito, uma democracia federal à escala europeia. E temos uma dinâmica que contraria esta, dos velhos poderes estaduais, da prudência. Neste momento temos uma Europa espectral, um holograma da Europa, um Tratado de Lisboa que já ninguém cumpre. E temos uma Europa real, de relações de forças, em que quem manda é a Alemanha.

 

Face a esta Europa em desagregação, os mais fracos estão naturalmente mais vulneráveis. Se pensarmos nas pessoas individualmente, e não em frases de tratados ou em números, são vidas que estão a ser coarctadas quotidianamente nos seus aspectos essenciais.

Neelie Kroes, uma vice-presidente da comissão do Durão Barroso, disse que se a Grécia sair do Euro ninguém morre. É falso! Estão a morrer pessoas por causa desta crise. E não é só na Grécia. Estão a morrer pessoas em Portugal. A taxa de suicídio está a aumentar. Só quem não percebe o impacto psicológico de uma crise económica, de perder o emprego, [pode dizer uma frase daquelas]. Já temos seis mil casais em Portugal em que ninguém trabalha naquela casa.

 

Temos pobres cada vez mais pobres, e uma classe média que empobrece a olhos vistos.

O aspecto patológico principal da sociedade portuguesa é o facto de termos uma grande desigualdade social. A diferença entre o rendimento dos mais ricos e dos mais pobres é das maiores da OCDE, não é só da UE. Na austeridade todas as camadas sociais estão a perder rendimento, mas quem está a perder mais são aqueles que já têm pouco. Estamos a aumentar as assimetrias sociais numa política que nos é imposta; o que significa que temos de negociar a forma como ela é aplicada.

 

Isso tem sido feito?

Não. O discurso oficial é o de ir mais longe do que o programa da Troika. É um discurso que tem uma dinâmica que pode ser suportada durante alguns meses, mas quando for confrontado com os resultados desastrosos vai voltar-se contra quem o profere; e vai prejudicar o país porque vai criar tensão social. Numa altura de dificuldade o pior que pode acontecer a um país é ele fragmentar-se socialmente.

 

Encontramo-nos na segunda-feira de manhã, a Troika está cá. Podemos dizer que “passámos” no exame trimestral, antes mesmo de ouvir a conferência de imprensa do ministro das Finanças.

A verdade é que o actual Governo só realizou metade das tarefas que deveria realizar a partir do momento em que entrámos no programa de austeridade da Troika. Temos uma margem de manobra altamente limitada, temos inspecções, temos pessoas da Troika a viver cá, há um fel que é preciso engolir.

 

Qual é a outra metade?

Negociar. Em vez de ir para além da Troika, há uma margem de manobra que tem a ver com aquilo que só nós portugueses conhecemos sobre Portugal, e que poderia ser negociada com a Troika e com os outros países da União Europeia. É inadmissível que o governo português não tenha assinado aquela cartinha do Cameron. É uma cartinha que não é inocente, mas que não tem nenhuma palavra mágica, daquelas subversivas – não tem Eurobonds.  

 

Essa carta desafia o poder da Alemanha e não estamos em situação de afrontar aquele a quem devemos, e de quem estamos mais dependentes.

É um erro político e estratégico perigosíssimo.

 

Estratégia é outra coisa de que somos altamente deficitários.

Sem dúvida. A estratégia está associada à questão do poder. O contrato social implica uma visão de futuro. Um contrato implica um projecto, o projecto implica tempo, implica uma promessa. Um dos estados básicos da política é a imprevisibilidade. As coisas nunca acontecem como são planeadas, por isso é que temos que prever.

 

Ter um plano B?

Neste momento apenas temos um plano A altamente irrealista, que é o plano de que isto vai resultar quando tudo indica que não vai resultar. A austeridade não vai resultar. Quando temos um ciclo de regressão e de depressão económica, temos que ter políticas que promovam o crescimento, mais emprego, mais riqueza. Só uma visão intelectualmente medíocre pode pensar que um país que tem que estabilizar as suas contas públicas, que tem que pagar a credores, pode fazê-lo não produzindo riqueza mas destruindo o seu tecido económico. Isto é elementar, os técnicos da Troika sabem isto. Se estivessem a cumprir outra coisa que não um programa de credores, e se fosse um programa no interesse da Europa e no interesse nacional...

 

A Troika poderia argumentar dizendo que não tem mandato político para fazer isso, mas apenas para obrigar à implementação de políticas que garantam o cumprimento do contrato de que são parte. Na sua opinião, podia ir mais longe?

Nós é que temos que ir mais longe. É muito fácil co-responsabilizar os outros. Por isso é que disse que este Governo é hemiplégico, só funciona metade do cérebro. Uma coisa é ter uma atitude de cumprimento em relação a metas (há um conjunto de coisas que lá estão previstas que são sensatas: as reformas da justiça, mais eficiência nos serviços, racionalização da administração pública); mas temos a obrigação, na margem de manobra que de que dispomos – talvez de cinco por cento – de avançar para o plano B a dois níveis. Chamar à atenção para o facto de que o grande problema que nos levou até aqui, independentemente de muitas culpas do Sócrates e do Guterres, é uma situação de défice crónico da nossa balança comercial. O último ano em que tivemos um saldo positivo foi em 1953. Somos um país que exporta menos do que importa.

 

Como resolver essa equação?

Fortalecendo o nosso mercado interno, aumentando a capacidade de produção de bens para o mercado interno, e aumentando a produtividade das nossas empresas no exterior. Há um economista da Universidade da Madeira, o Ricardo Cabral, um jovem que aprecio muito, que fez um estudo [que identifica este como] o calcanhar de Aquiles da nossa economia.

Tendo nós um aparelho que tem dificuldade de produzir bens e serviços para o mercado interno e para o mercado externo, esse aparelho produtivo não pode sofrer o que está a acontecer neste momento: um défice de financiamento. Temos empresas viáveis, com empregados, que estão a ir à falência porque não têm recursos.

 

A Alemanha é um dos vértices principais do seu discurso. O futuro da Europa depende essencialmente dela?

O que digo é que temos que ter um plano B para o caso de haver uma ruptura com a União Europeia – que não desejo. Quero uma Europa federal, com a Alemanha bem dentro da Europa. Os alemães estão a meter-se num buraco absoluto. Daqui a cinco anos, se a Europa rebentar, é mais seguro estar em Portugal do que na Alemanha. Vão ficar entre uma Rússia com armas nucleares, e uma França que não lhes vai perdoar o facto de eles já se estarem a demarcar. E militarmente são um zero, não têm nada. Se voltarmos a uma lógica de política de força, a Alemanha não tem trunfos.

 

Está a falar de um cenário belicista.

Um cenário de regresso ao equilíbrio do poder. Se saímos de uma Europa protofederal, multilateral, baseada no império das leis, para uma Europa estado-nação, de equilíbrio do poder baseado na força, aí a força nua é que manda. Uma das coisas que estão a acontecer na nossa democracia é que estamos a ser governados por pessoas muito levianas, muito superficiais, com pouco conhecimento da história.

 

Não deixa de ser irónico que Merkel venha de Leste.

Merkel tinha 35 anos quando caiu o muro. Na sua biografia não se conhece nenhum gesto de oposição. Fez a carreira normal de uma cidadã obediente a duas disciplinas, a luterana (é de uma família de pastores luteranos) e à disciplina do Estado da RDA. A grande diferença entre a RDA e a RFA é que na RFA havia uma coisa chamada “culpa alemã”. Os miúdos nasciam e eram educados na ideia de que a Alemanha tinha sido responsável pela Segunda Guerra Mundial, como foi, e pelo Holocausto, e que a democracia alemã tinha que ser capaz de compensar esse prejuízo à boa imagem da Alemanha, como país importantíssimo. Na RDA mergulhavam numa pia baptismal onde eram absolvidos de todos os crimes. Os alemães maus tinham sido ou mortos ou expurgados. Não há em Merkel uma dimensão de responsabilidade alemã que encontramos noutros líderes. É uma espécie de novo começo, como se o que aconteceu tivesse sido rasurado. Mas isso tem limites. A Europa tem que escolher entre ser os Estados Unidos da Europa ou ser uma hiper-Jugoslávia. Se entramos numa fragmentação, quais são as regras do jogo?

 

É a lei do mais forte? Na fragmentação é o salve-se quem puder.

É. E quem é que paga a dívida? Ninguém paga a ninguém. O principal economista alemão já disse que é preciso pagar à Grécia para sair do Euro.

 

O problema é a Grécia? O problema são os países que incumprem?

É um bocadinho a ideia de que o problema é da Grécia… Como não conseguem ver a dimensão sistémica da crise, como não conseguem ver que esta crise tem a ver com o mau desenho da UEM, com o péssimo software da sua construção, e como não querem consertar o software, o que fazem é ir retirando os abcessos. Há quem diga que somos a seguir.

 

Se o abcesso Grécia sair, inevitavelmente vão querer retirar o abcesso Portugal? Ou aí terá feito sentido a estratégia do bom aluno que se demarcou da Grécia?

É um jogo diabólico. Deixar a Grécia entregue a si própria significa que vamos ter um default de 100 por cento. Os privados e as instituições públicas, o BCE, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira vão ficar com zero. Significa que a Grécia vai passar muitos anos antes de ter recurso aos mercados, e vai orientalizar-se, vai agarrar-se aos vizinhos que estão ali ao lado. A Turquia, que é o inimigo figadal, vai ajudar a Grécia.

 

E a Grécia aceita porque está dependente.

Não tem outra hipótese. O que é que vai acontecer à NATO no meio disto tudo? Qual é o interesse da Grécia em ficar na NATO depois de ter sido tão maltratada pelos seus parceiros europeus? Como estamos a falar de meninos a dirigir países, estas consequências complexas não são medidas. O que é que os mercados, que em grande parte não são europeus, mas que têm investimento na Europa, vão pensar?

 

Mas existe ou não uma ligação entre os dois países? Se um cair, o outro cai? E quando?

Se a Grécia cair, Portugal cai logo. Não cai naquele dia, mas tudo o que é activo de dívida pública portuguesa fica infectado. Ficamos em coma assistido. A única coisa de que tenho quase certeza é de que a Grécia não vai cair antes de 20 de Março, que é quando têm que pagar 14,4 mil milhões de euros aos credores. A Alemanha tem que garantir que as eleições francesas se fazem em ordem, e as eleições são em Maio. Até aí a Grécia vai flutuar. O nosso plano B, verdadeiramente, é saber a que jangada de pedra vamos pertencer. É tolo pensar que podemos fazer uma jangada de pedra com os alemães. Temos que a fazer com aqueles que estão perto de nós.

 

Além da geografia, há questões de identidade. Com quem poderíamos ficar?

A haver uma ruptura, temos que ficar com o maior número possível de países europeus. Com a Espanha, com a França (quando a França tiver um estadista, alguém que pense), com a Itália.

 

Esperava mais do Governo Passos Coelho?

É uma política de sobrevivência, de decisões muito difíceis. O que vejo é um Governo que em relação aos ministérios fundamentais, que são o das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros, juntamente com a coordenação do primeiro-ministro, não tem sido capaz de fazer os tais 50 por cento que faltam.

 

Que se traduz em quê?

Garantir a protecção do tecido económico e garantir que o empréstimo da Troika vai financiar o tecido económico onde é preciso (para criação de emprego). É extraordinário que Paulo Portas, que tinha a ideia que seria a pessoa mais capacitada deste Governo, em termos intelectuais e de experiência, se tenha tornado numa espécie de ministro da Economia para os assuntos externos. Que tenha feito viagens para promoção da indústria portuguesa numa altura em que o fundamental era alicerçar as nossas alianças no quadro de uma possível recomposição da União Europeia (após fractura).

 

Se olharmos para o equilíbrio de forças no Governo, não por acaso, esse dois ministérios são ocupados por pessoas de diferentes partidos. Paulo Portas, mesmo sendo o mais experiente membro do Governo, representa a parte minoritária da coligação.

Na análise em que me situo, o que está aqui em causa é a sobrevivência de um projecto estratégico nacional. É preciso não esquecer que a Europa é o nosso desígnio estratégico. E não podemos ter uma visão partidária das coisas. Cada membro do Governo, cada partido da oposição deve dar ao país o contributo que é necessário. O que está em causa é também a nossa terceira república. Se o projecto europeu falhar, e se não encontrarmos uma resposta doméstica para permitir a viabilidade do país, para permitir que os portugueses tenham com que se alimentar, e que tenham um tecido económico que permita a sua subsistência, a terceira república cai.

 

E então, que aconteceria? Que perigos?

Nada garante que caia para o lado correcto, que caia para uma quarta república democrática. O que está em cima da mesa é de tal maneira momentoso que não podemos ter uma visão paroquial. Não estou a olhar para os ministros como sendo do partido B ou C, estou a olhar para os ministros como pessoas que têm competências específicas.

 

Que apreciação faz de Vítor Gaspar?

Conhece a situação europeia, os meios financeiros. É uma pessoa muito competente e está a fazer um trabalho muito difícil. Não foi a primeira escolha. As primeiras escolhas não tiveram a coragem de assumir o desafio – é um homem corajoso. E não pode fazer tudo. Há uma falta de visão estratégica. Um Governo tem um primeiro-ministro para alguma coisa. Há um défice estratégico ao nível do plano B, e isso é uma coisa que tem que ser feita em colaboração com a oposição. Este governo não pode ser de trincheira, do PSD e do CDS. Tem que ser um governo nacional.

 

Tem recebido apoio do PS? A oposição não tem sido musculada. É como que uma participação tácita?

O PS tem uma situação ambígua. Para todos os efeitos foram os seis anos de governação PS que conduziram o país a esta situação. Não quer dizer que não tenha havido também uma participação, na parte final, do Presidente da República e do PSD, que precipitaram a queda do Governo. O Governo anterior estava esgotado. Há limites para a falta de credibilidade de um dirigente.

 

Esse era o principal problema de Sócrates, a falta de credibilidade?

Era. Não é possível ter uma liderança sem confiança. Um dos défices principais que temos hoje em Portugal e na União Europeia é a desconfiança. No final do anterior Governo essa desconfiança estava a atingir valores insuportáveis. A política é sempre baseada na confiança, numa promessa que se faz ao outro.

 

Gostava de voltar ao início da conversa, ao mandar e ao obedecer. Imediatamente na sua resposta derivou para a existência (ou não) de um pensamento estratégico. Por que é que somos assim? Como é que damos a volta a isto?

Há uma longuíssima tradição de reflexão nacional sobre a nossa crise. Eu seria o primeiro a apoiar a senhora Merkel se ela se quisesse candidatar a presidente de uma Comissão Europeia fortalecida. Se usasse 70 por cento da energia que usa para defender aquilo que considera ser o interesse alemão para defender o interesse europeu, saíamos da crise. Não há qualquer sombra de ressentimento ou de hostilidade contra o povo alemão; é um povo que estimo, uma história que conheço, uma língua que acarinho. O Antero de Quental, em 1871, quando fez a sua reflexão sobre a nossa decadência…

 

Num célebre texto sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares…

… que é um documento muito interessante. Antero era um general, sem exército, mas um general. Chamava à atenção para aspectos que permitiriam uma renovação do projecto nacional numa perspectiva crítica. Tínhamos uma elite intelectual que tinha a noção de que o projecto nacional tinha que ser baseado, não em forças ambíguas da raça, do sangue, da comunidade, mas em projectos racionais. Oliveira Martins defende a tese de que o nosso império foi importante porque foi baseado em ideias – como o império romano. Faz uma comparação. O atractivo de Roma era um ideal abstracto de igualdade perante a lei. É o que nos falta hoje. Os portugueses, quando entram em sociedades em que a questão do poder está resolvida, onde há um pacto social, onde há uma constituição…

 

São trabalhadores exemplares. E individualmente somos extraordinários, todos o dizem.

Exactamente. Os portugueses são muito individualistas. O nosso analfabetismo é também a resistência à escola, a nossa fuga ao fisco é a resistência aos impostos. São aspectos perversos do individualismo. Esta crise, se não trouxer mais nada, vai certamente trazer a questão do poder. Temos que encontrar uma medida para o nosso contrato que permita que os portugueses façam em Portugal aquilo que são capazes de fazer no exterior. Que sejam capazes de entender quando é tempo de mandar e quando é tempo de obedecer. Quem é que manda, como é que manda, quem é que obedece, como é que obedece, e por que é que obedece. Estas questões continuam confusas na realidade nacional. Vão ter que ser clarificadas.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2012

 

 

 

 

 

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