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Vítor Pomar

Vítor Pomar é artista plástico. Vê o mundo como quem se vê ao espelho. Cria (pinta, fotografa, cria, enfim) a partir do seu mundo, isto é, do mundo. O uno é a mais essencial das suas premissas. Nas páginas seguintes, e sobretudo nas paredes revestidas pelas suas fotografias, é possível aceder ao seu universo. Àquilo que o compõe, vivifica, dá sentido. Para a decifração da sua obra, é forçoso conhecer o seu glossário privado, folhear a bibliografia que lhe é mais preciosa. No fim da entrevista, comemos melão biológico, falámos das propriedades do Aloe Vera, revisitámos as imagens que compõem esta exposição. «I love my photos» é uma expressão do seu mundo. E uma exortação à felicidade e à procura incessante. Nasceu em Lisboa em 1949. 

 

Há uma frase recorrente em si: «Ver o mundo como quem se vê ao espelho». O que quer dizer?

Todos os místicos, de todas as escolas, dizem: «I am Thou» (eu sou tu). A dualidade não existe. Sou a consciência não-dual do universo. Se olho para o mundo, estou a ver-me a mim. Há uma definição do ser humano que fui construindo: «O homem é um saco de pele mal cheiroso»; e a que acrescentei: «Com hipertrofia do sistema nervoso central, a um passo de se reconhecer como consciência (não-dual) do universo». Pode-se inferir daqui todo um modo de vida: aquilo que faço ao outro, estou a fazer a mim próprio. Fundamentalmente é essa a grande liberdade do ego: o ego esventrado.

 

Esventrado?

Denunciado e liberto do ego. Não por cortar braços nem pernas, mas por reconhecê-lo como ilusório, como inexistente. O ego é um ditador, está sempre a dizer: «Gosto disto, não gosto daquilo». Se conseguirmos virar a consciência sobre ela própria e confrontarmo-nos com os fantasmas, vemos que eles se desfazem, que não têm existência própria.


Qual é o lugar da consciência? E o que é a consciência, se nos queremos libertar desse ego omnipotente e omnipresente...

A definição de consciência que se dá é «clear ligth of bliss», luz clara de gozo. Libertamo-nos de uma coisa que não existe, de uma ilusão. É um peso que sai de cima, uma alegria a que se toma o gosto. É preciso ter cuidado com estas coisas, para não serem forçadas, para virem do interior, para serem uma libertação e não uma amputação. Se nos identificamos com o corpo estamos tramados! Não resolvemos os problemas fundamentais do sofrimento, ficamos sempre aquém da satisfação. Com o envelhecimento e a morte é a maior das angústias: então vamos acabar?

 

Não sei como situar esse desligamento do corpo. Sobretudo se penso que se envolve corporalmente com as telas, quando pinta. E as fotografias desta exposição redigem uma história de pessoas, contam com a sua presença física.

São manifestações, ornamentos. No ocidente perdemos uma ligação entre o físico e o espiritual porque recusámos a introspecção como método válido de investigação. Ficámos limitados à prisão da racionalidade. A linguagem e a razão são níveis muito grosseiros da mente. A mente um bocadinho mais subtil é não-verbal. A obra de arte tem origem num nível não-verbal, não-dual.

 

Num lugar de pura existência, e sensível?

Situemo-nos no intervalo entre pensamentos. Além de nos identificarmos com o corpo, identificamo-nos com o pensamento, as sensações, as emoções. A chave é reconhecer que isso não é ruído puro e simples, mas formas que a natureza profunda toma. A actividade mental é muito difícil de desmantelar, por isso é que se pratica meditação.

 

Pode ser entendida como um acesso a esse reduto onde o Eu está mais intimamente consigo?

Em que reconhecemos a natureza da mente, relativizamos a natureza dos fenómenos.

 

Mais do domínio do dionisíaco e menos do apolíneo, no sentido nietzscheano.

Por esses lados. O zen é uma percepção directa da realidade.

 

Sem intermediação da palavra, dos conceitos?

Voilá. Para isso é preciso fazer espaço, criar uma atitude mental que permite essa surpresa e necessariamente perplexidade. Esse tipo de percepção está presente no Pessoa.

 

Mas Pessoa está pejado de palavras e de angústias!

Sim, mas são anotações. É a sua maneira de procurar resolver os problemas existenciais. É por isso que há muitos literatos que não gostam do Pessoa, porque aquilo não é coisa que se apresente, não é obra. Ele não quis fazer obra. Ele tinha determinadas questões que se punha. Por que é que os melhores poetas e pintores japoneses são mestres do zen? Eles não estão centrados em fazer uma obra, estão centrados na vivência. Subitamente há a rãzinha que salta, e o estado mental em que se estava permite esse encantamento, que é tão raro na nossa vida.

 

Mas isto levanta duas questões: qual deve ser a predisposição da mente para que seja permeável à surpresa; e que coisas são susceptíveis de provocar surpresa.

O estado mental é do tipo introspectivo, em que a mente, sem se fechar ao exterior, está atenta a ela própria. Qual é a importância do espaço entre os pensamentos? Primeiro há a tal iniciação que permite ao discípulo o acesso a essa brecha. Depois a brecha alarga e percebe-se que os pensamentos são uma espécie de bolhas na água que vêm à superfície e se auto-resolvem. A consciência equipara-se a um espaço luminoso, sem perímetro, sem centro.

 

O que é que lhe causa sofrimento?

Uma postura incorrecta em relação à existência.

 

O sofrimento é uma incorrecção? É sintomático de um desequilíbrio.

Todos os problemas são falsos, toda a dor é uma informação que chega ao cérebro, pensa noutra coisa e não dói.

 

Ocorre-me a palavra leveza.

Tem a ver com um não-esforço. Essas coisas têm de vir ter connosco, não se podem agarrar. Tem de haver mais uma receptividade do que uma vontade de possuir.

 

Mercê da experiência mística, a noção de tempo é em si muito particular. João Fernandes, num texto a propósito da sua obra, falava da busca da permanência numa mudança constante.

O tempo é um dado da dualidade.

 

A sua vida é errática. Mas é, também, de permanência, e de procura do elemento.

Sinto-me um maratonista, especialista da corrida de longa distância. Penso muito na imagem do fio e das pérolas: cada momento tem o seu brilho, o seu encanto, mas se não há fio condutor, o colar não se forma. Não podemos estar encantados com cada momento se não houver uma visão mais ampla da existência. Anda à volta disso, do conceito de vacuidade, que não é vacuidade, mas uma plenitude.

 

Plenitude porque conseguiu libertar-se de toda a tralha e permanecer no essencial?

Interessa-me referir-me aos conceitos que reconheço como úteis.

 

Fale-me ainda do tempo.

Para sair disso tem que se perceber que há o sistema dual que se nos impõe. Por exemplo, custou-me imenso integrar todos os compromissos que existem desde o momento em que se utiliza um automóvel. A quantidade de cascas de cebolas, de identidades, que transportamos connosco é incrível! Somos utentes, atravessamos uma passadeira e somos peões, somos homens ou mulheres, temos esta idade ou aquela... Tudo isso é ruído, é lixo.

 

O que é o essencial?

O essencial é o conhecimento de si próprio.

 

É um enunciado socrático.

No ocidente essa frase é socrática e é aceite. Fica-se muitas vezes por aí, não se sabe o que fazer com isso, nem onde é que isso vai dar. De facto, «somos um saco de pele malcheiroso»! Se nos esfregamos um bocadinho começamos a sangrar, se não nos esfregamos suficientemente começamos a criar bicho e a cheirar mal por todos os lados. É muito estreita esta margem.

 

As premissas são a errância e o tempo. O que é que resulta desse percurso errático, o que é que vai sendo assimilado e o que é que vai sendo estirpado? A série «I love my photos», que compõe esta exposição, tem uma aparência “não-cronológica”: ou seja, o ambiente das fotografias de há vinte anos não difere substancialmente do destes dias.

Aos vinte e um anos saí de Portugal, na altura em que me calhou a mim ir fazer uma guerra, e cheguei à Holanda. E demorei mais vinte e um anos a chegar a Bodhgaya, o local da iluminação do Buda, na Índia. Eu digo para os meus botões: e se tivesse chegado aos vinte e um anos a Bodhgaya? Tinha-me deixado fascinar por todo aquele aparato, mas não tinha relação com a cultura ocidental, com as artes e o processo criativo, como tenho hoje. Estou sentado, aparentemente, nestas duas cadeiras, e reconheço que o processo criativo tem uma qualidade que é corroborada pelos ensinamentos a que tive acesso.

 

A fotografia, a pintura, os filmes são anotações diarísticas? A sua obra corresponde ao seu olhar interior transportado para a realidade exterior?

Tenho dificuldade em ouvir isso. Uma antologia é como se fosse uma contabilização dos acontecimentos. Não é nada disso que se trata. O que me inspira hoje é, por exemplo, relacionar a prática da fotografia com o haiku japonês. O haiku não é uma coisa muito elaborada...

 

É a máxima depuração.

Não é no aspecto da depuração, é espontâneo. Temos a tendência, no ocidente, de depurar as coisas, polir. A descoberta da simplicidade é muito delicada, rara, e evolui nesse sentido com a idade. Em vez de a mente se tornar mais opaca, evolui-se nesse sentido. Não se pode desejar muito mais.

 

Aspirar à máxima simplicidade...

É um indicador. É aquela técnica do palito a ver se o bolo está cozido. Precisamos de indicadores indirectos, não podemos observar directamente.

 

A exposição obedece a três vectores...

A espontaneidade, a intuição, a simplicidade. Podem-se pôr num altar. Muita calma porque não são coisas que se fabriquem. O nosso olhar é perscrutante, inquiridor. Não sabemos o que é um olhar receptivo, e olhar é uma coisa que vem de fora para dentro.

 

Como é que organizou aqueles três vectores: interior/exterior, as mulheres e os homens.

O título actual é «I love my photos».

 

Quer dizer «I love my world»? As fotos são uma expressão do seu mundo.

É a tal inclusão da vida como prática. O profissionalismo de produzir uma obra tem o valor que tem, mas a mim, muito obrigado, não me apetece profissionalizar-me. Quero guardar uma frescura que não passa por aí, cada um come do que gosta! O central é a maneira de estar, (embora possa ser muito desajeitado!), o que me motiva e me orienta é isso, mais do que a produção da obra. A obra é o corolário.

 

A arte é aquela que revela a vida como arte?

É a tal visão que integra tudo, não fica nada fora e não é no sentido de espartilhar, mas no sentido holístico.

 

Holístico é um termo essencial em si.

É capaz de ser. Os termos no Ocidente são muito limitados. Há que não nos agarrarmos às palavras, procurar entender qual é o sentido que se lhes procura dar. Uma vez praticado isso, naturalmente há obra, há anotações.

 

A concepção é holística. Mas há coisas mais importantes que outras, há umas que emergem.

Opções, prioridades extremamente rigorosas, claro.

 

Então, como é que aquelas três foram apontadas, fixadas?

É uma maneira de estruturar aquela massa de trabalho. O nível a que chamo “inner-outer” (olhar para o exterior como uma visão interior, olhar para o interior como uma manifestação ou ornamento da natureza da mente), é o que se passa numa grande quantidade de fotografias que tenho feito. Depois há «the godess»; que é o arquétipo que tem na mulher manifestações particulares, inúmeras, constantes. E depois há os senhores, «the gents»; há muitos retratos meus, muitos retratos de grupos, coisas que vão acontecendo.

 

É uma peça interminável, pode ser sempre continuada.

Sim, mas agora interessa-me fazer este trabalho, concluir este body of work. Estou a pensar fazer uma versão vídeo, tanto pode ser num ecrã só, como em três ecrãs. É um sonho, uma estrutura que tenho vontade de utilizar: conseguir fazer uma série de pinturas que se podem ver em qualquer ordem.

 

Parafraseando Godard, há um princípio, meio e fim, mas não forçosamente por esta ordem... Existe a primeira fotografia, a última fotografia ou a ordem pode ser completamente baralhada?

É mais circular, é um tempo circular, que não conhecemos muito bem, mas que é mais real do que o tempo linear. Não há pontos de partida nem pontos de chegada.

 

Cada fracção condensa todas as outras?

No zen, o objectivo é cada passo, cada momento. O momento é uma pura plenitude, e tudo o resto são fabricações, são perda de rumo. Não há um percurso, mas há uma sucessão de momentos. É como a projecção de um filme: não vemos as imagens separadas, temos a ilusão do movimento. A percepção da existência é um bocado assim.

 

Se cada instante é uma pérola, o fio que une todas as pérolas é a sua vida?

Penso que seria mais esta visão holística. Habito um quadro de referências que é mais amplo do que arte. O mundo da arte é muito limitado.

 

Podemos sempre perguntar-nos para que serve a arte.

Serve como reflexo desta prática. O que é que diferencia o artista do místico? É que o místico não precisa de produzir objectos.

 

A sua produção artística foi interrompida durante catorze anos. Não teve necessidade de produzir?

Tive necessidade de parar.

 

Quando retoma a sua produção, intensifica o uso da cor, que era praticamente inexistente na pintura, e integra as pessoas nas fotografias, por oposição ao período em que assistíamos à intimidade do seu olhar depositado sobre a paisagem.

Sim, há esse gozo, esse conhecimento, esse reflexo também das pessoas.

 

O gozo é todo o processo, toda a trepidação que se desenrola no seu campo de batalha?

O campo de batalha é a própria existência. É ter uma postura correcta, em vez de me deixar encurralar em infernos mentais -  são os piores. Essencialmente nós somos o grande gozo, «clear ligth of bliss». Bliss não é traduzido por gozo, mas acho que fica muito bem assim. É uma coisa que nos constitui e que não perdemos. A chave é o reconhecer. Ou se está lá ou andamos às aranhas.

 

Em resposta a um questionário, apontou como lema de vida «no fear, no hope».

É uma definição de iluminação. Olhamos para as coisas e vemo-las como elas são. É pura fé. Não há dúvidas, não há medos, não há esperança. É a plenitude.

 

 

 

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