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Wilson das Neves

Quem é Wilson das Neves?

Consulte as fichas técnicas dos discos de Michel Legrand, Sarah Vaughan, Sylvia Telles. Pergunte a Ed Motta ou a Roberto Carlos. Pergunte a Paul Simon. Mister Wilson, (como lhe chamava Tom Jobim) é o maior baterista brasileiro do século XX.

Provavelmente, estas páginas são seriam suficientes para incluir a lista de gravações em que participou. «Fala aí um cara... Toquei». Os caras foram mais de 500, e aquele que é para ele “o cara”, Chico Buarque, apresenta-o em palco como “o melhor baterista de sempre” ou “o baterista do meu coração”. Tocam juntos há 27 anos.

Dia 4 regressa a Lisboa com a Orquestra Imperial, uma big band que reúne nomes como Moreno Veloso, Rodrigo Amarante (dos Los Hermanos) ou a actriz da Globo e também cantora Thalma de Freitas. Domenico Lancellotti, um dos fundadores da Orquestra, fala de Wilson como “um sábio que esbanja humildade e talento.”

O baile é na Fonte Luminosa, na véspera da implantação da República, com o colectivo português Real Combo Lisbonense. O negócio é dançar!

 

Como é que descobriu o samba?

Eu não descobri não, o samba é que me descobriu. As coisas é que escolhem a gente. A bateria sempre me fascinou. Nas escolas de música aprendia-se tudo em método americano. A bateria, o americano inventou para tocar a música dele, não para tocar samba. O brasileiro adaptou. Os instrumentos do samba são o pandeiro, o tamborim, o surdo. Fui criado vendo desfile de escola de samba. Minha mãe era baiana, desfilava na escola. A gente já vem naquilo... Meu pai, Flamengo, eu tinha que ser Flamengo. Minha mãe, Império Serrano, eu tinha que ser Império. Você muda de roupa, de mulher, de automóvel, mas de escola de samba, não, é até morrer.

 

Império Serrano é a escola de samba do bairro Madureira. É o bairro da sua infância?

Não é preciso morar no bairro para ser da escola, é só ser aficcionado. Eu nasci no bairro da Glória, no centro do Rio. Depois mudei-me para S. Cristovão, um bairro de subúrbio. O meu pai trabalhava na [companhia] telefónica, e a minha mãe era doméstica. Tenho três irmãos: dois são bateristas, a minha irmã não é musicista.Eu era obstinado. Queria tocar bateria e fui atrás. Fui estudando, fui indo, não cheguei a lugar nenhum, mas ‘tou tentando. Sou profissional há 56 anos. Tenho 74, não parece, não?

 

Não! Um dos seus professores foi Moacir Santos.

Moacir Santos não tem que falar: ele é o tudo. Era um músico extraordinário, professor e amigo, me chamou para tocar com ele. É uma honra, a gente tocar com o professor. Conhece o [álbum] «Coisas»?

 

Claro.

Fui eu que gravei, tocando bateria. No Brasil todo o mundo tem ele como ídolo. Tanto como instrumentista, como arranjador, como saber música... Sabia tudo. Jobim, também. Gravei muito com ele, toquei com ele em show. Gravei com qualquer um que você fale aí... Fala!

 

Chico Buarque, claro. Vinícius, Caetano...

Gil, Bethania, Gal, Elis Regina, Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Paul Simon, Sarah Vaughan, Paul Mauriat. Chico é um caso à parte, não tem comparação. Ele é “o cara”! O show dele emociona. Outros estão querendo ser, e ele é. É, mas não se acha. Ele acha que é igual a todo o mundo. Aí é que ‘tá a diferença. E segundo o samba, “quem acha vive-se perdendo”. Não ache nada, deixe os outros achar... Eu não me acho nada. Sou mais um.

 

Tem-se em tão pouca conta? Toda gente diz que é o melhor baterista do Brasil do século XX.

Sei que tem tanta gente boa, que eu conheço... Vejo nos outros qualidades que não tenho. Não inventei nada, apanhei no ar. Não é falsa modéstia, é assim mesmo: a importância que me dão a mim, não é a mim, é ao que faço. A gente está sempre seguindo o caminho dos bons, imitando os bons.

 

Os músicos que fazem a síntese entre a velha e a jovem guarda apontam-no como o melhor baterista. Toca com a Orquestra Imperial.

Mas não é tudo isso não... Os meninos da Orquestra me põem numa “vitrine” – que nem “vitrine” de armazém de roupa. Eles estão me mostrando, me vendendo, estão me colocando na frente do palco. Sou um baterista essencialmente brasileiro. Toco ritmo dos outros por necessidade.

 

Qual é o seu ritmo?

É o samba. Como explicar? Criei a minha maneira de tocar ouvindo os outros. É que nem na hora do tempero da comida: bota salsa, bota mangericão, já ficou diferente. Meu negócio é esse: ouvindo os outros, para achar a minha [maneira de tocar].

 

Que coisas ouvia quando era pequeno e o fizeram querer ser músico?

Ouvia tudo, na rádio. Tango, canções francesas, música portuguesa... Amália Rodrigues, maravilhosa, infelizmente não toquei com ela, que ela não usava bateria! Quando uma pessoa aprende música sabe que a música se compõe de ritmo, harmonia e melodia. Se não tem as três, não é música. Bem tocado, direito, afinado, bonito, gosto de qualquer instrumento. Música é a voz da alma. É a alma da gente que fala.

 

Chico Buarque nota que, muitas vezes, o teor da letra e o ritmo da música não coincidem. Por exemplo, num samba da Mangueira, muito festivo, a letra diz: «Não saio do miserê, ai, ai meu Deus, tenha pena de mim»...

É a maneira de cada um cantar o seu sofrimento, a sua desdita. Cartola [ídolo da Mangueira]: um poeta daqueles lavava carro na rua! Até descobrirem ele. Um sujeito que morava no morro. Canta aí tua musiquinha... Ninguém acreditava [no talente dele]. Depois, não é bem assim. Cartola é um dos caras.

 

No início da carreira, fez parte da Orquestra Nacional e de outras orquestras, que acompanhavam os grandes cantores, como Elizete Cardoso. Que memórias tem desse tempo?

Quando fui para a escola de música já era para tocar em orquestras. Toquei em orquestra de rádio, de baile, fiz concurso para a sinfónica do teatro municipal. Fiquei três meses lá. Não me pagavam e larguei. Não podia tocar a “Tosca” do Puccini duro!, que me perdoe o Puccini.

 

Lamenta não ter prosseguido essa via?

Não me arrependi. Se estivesse lá, estava neurasténico, é sempre a mesma coisa; e eu sou cigano, gosto de tocar por aí. O mundo que eu conheço... Já toquei em Moscovo, Japão, na Europa quase toda, Estados Unidos, Cuba. Ouvia tudo o que possa imaginar, mesmo sem entender o idioma. O que me importava era a música, queria descobrir os ritmos. Ouvia no rádio, não tinha vitrola [gira-discos].

 

Ouvia sozinho? Era um rapaz solitário?

Não, não. Ia muito a bailes. Anos 50, bailes de terno e gravata. Aí, conheci um baterista chamado Bituca, que era o meu ídolo. Como eu não tinha dinheiro para entrar no baile, ajudava-o a levar o instrumento e ficava lá dentro. Dançando. Quando acabava o baile ajudava a desmontar e ia embora. Até que um dia ele perguntou: «Você não gosta de bateria?». Me levou para a escola. Então, eu ia no baile, fazia na mesma, só que, em vez de dançar, ficava sentado no pé dele, acompanhando a partitura, «Onde é que está?». Foi assim que aprendi.

 

Como é que deu o salto para a prática?

Na hora em que a orquestra ia descansar, no lanche, eu ficava tocando um sambinha-canção. Depois, ele saiu da orquestra, e eu fiquei. Bituca é que me inventou! Tudo a que não podia ir, mandava me chamar. Quando ele tinha dois trabalhos, «Chama o Wilson». «Vê lá se eu posso tocar...», «Pode, senão não mandava chamar». Fui indo, indo, indo, até agora, em que estou aqui com você falando de bateria.

 

Nas orquestras da rádio tocava o quê?

Samba-canção, bolero, tango, fox-trot, dependendo do cantor. Elizete, trabalhei 20 anos com ela.

 

Elizete era uma espécie de Amália do Brasil.

Eram amigas. Era “a divina”, “a iluminada”, “a enluarada” – tinha esses títulos todos. Ela ia para minha casa cozinhar para mim, se você quer saber...

 

E porquê?

Porque era minha amiga, porque gostava de mim! Você ia na minha casa e ela estava de pano na cabeça, de “shorts”, fazendo comida. A gente contava anedota, falava da vida. O Chico, o Buarque, vai na minha casa. De vez em quando, se faz um almoço lá.

 

Quando João Gilberto apareceu com “Chega de Saudade”, em 1958, foi uma grande revolução. Sentiu isso?

Era uma nova maneira de cantar, mais moderna... Mas, no fundo, revolução nada! Isso é rótulo para vender. Cerveja: cada um bota o rótulo que quer, mas não é tudo cerveja? Não tinha nada de mais: é samba! Gravei com João Gilberto, com Tom Jobim. Mas eu tocava do mesmo jeito.

 

Nunca pensou ir para os Estados Unidos e fazer carreira lá, como Sérgio Mendes, Moacir Santos ou Tom Jobim?

Não sou comunista, sou brasileiro. Mas não gosto do sistema deles [americanos]. Vou lá, já cantei, já toquei, mas não é minha praia. São muito prepotentes. São donos do mundo, menos do Wilson das Neves! Jobim ficou lá, mas com saudades da cerveja brasileira. «Ó Mister Wilson – ele me chamava de Mister Wilson –, nos Estados Unidos é muito bom, mas não tem uísque falsificado! Ninguém põe água no leite!». É uma forma de dizer as falcatruas que se fazem...

 

Quando tocou com Eumir Deodato (que depois foi produtor da Björk) ou Michel Legrand, foi no Brasil, e não em temporadas nos Estados Unidos?

O Eumir, foi no Brasil, com Os Catedráticos e Os Gatos, antes de ele ir para os Estados Unidos. O Michel Legrand fez uma temporada com a orquestra brasileira, e levou os arranjos para música de filmes. Era para o Bituca, esse meu ídolo, fazer; ele não quis, «Chama o Wilson». Moacir vivia nos Estados Unidos, mas estava sempre indo para o Brasil tomar a cachacinha dele...

 

Bebia-se muito e fumava-se muita maconha...

Quando comecei, não tinha. Nem ouvia falar. O charme do músico era beber uísque, fumar cigarro americano, de terno e gravata. Maconha era a droga da favela e a cocaína era do asfalto.

 

Gravou discos instrumentais em 68, 69, «Wilson das Neves e o seu conjunto – Juventude 2000» e «Som Quente é o das Neves». Mais recentemente gravou composições suas e tem um disco novo: “P’ra gente fazer mais um samba”.

Em 1997 me convidaram para gravar um disco instrumental. Não quis. Já gravei e não acontece nada! Vivo no Brasil e ninguém conhece os meus discos. Vou no Japão e todo o mundo tem o meu disco.

 

Os seus vinis, de prensagem original, custam uma fortuna.

Eu sei, e nunca recebi um tostão! Mas deixa na mão na Deus. Não corro atrás de dinheiro. Tenho tudo o que quero. Ninguém dá atenção a disco instrumental, só músico. O povão, não toma conhecimento.

 

O que é que o fez gravar um disco com músicas suas, onde também canta?

Tinha as minhas músicas, inclusive com Chico, com João Bosco. A minha ideia não era cantar. Mas eles falaram: «Vamos gravar, que músicas boas!». Foi assim que cantei. Com 60 anos fui revelação de sambista! Incoerência. Ganhei Prémio Sharp, fui indicado para o Grammy Latino. No disco novo, são composições minhas e tudo é cantado. Vamos tocar no concerto de Lisboa.

 

Falamos a uns dias das eleições no Brasil. Vai votar?

Se puder, voto na embaixada do Brasil em Lisboa. Tomara que as pessoas escolham a pessoa certa para continuar o trabalho, o progresso. Há oito anos que a gente vem crescendo. O país está rico, está emprestando dinheiro! Mas o povo, uma parte do povo, continua pobre. Outra parte, ‘tá classe média. Todo o mundo tem geladeira, automóvel. Vou votar no candidato do Lula, lógico. Quem chegou antes, sabe como era e vê como está. Se me decepcionar, é outra história.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2010

 

 

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