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Anabela Mota Ribeiro

Joana Amaral Dias

30.06.13

Usa o verbo experimentar como motor. Faz do relacional a palavra essencial do seu glossário. Tudo se passa entre as pessoas e o falar. Na política, na psicologia, na comunicação social. Na vida dela, sempre foi assim.

Houve um tempo em que era a neta do Professor Nunes Vicente, a filha do Professor Carlos Amaral Dias. Houve um tempo em que ela era voluntária numa associação de apoio a pessoas com HIV. Ao mesmo tempo, era a Joana que transforma a sua vida numa narrativa que apetece ler. Que é dirigente associativa, que trabalha desde cedo, que tem um filho que é agora um rapaz lançado de 13 anos. Licenciou-se em Psicologia, Mestre em Psicologia Clínica do Desenvolvimento. É militante do Bloco de Esquerda, foi mandatária para a juventude de Mário Soares quando este se candidatou à presidência. Tem uma colaboração sistemática com SIC Notícias, a TSF, o Sexta, e escreve sobre cinema para o Correio da Manhã. Não é tudo. Depois da entrevista, ia dedicar-se a outra actividade: ver pacientes no consultório. Eis a vida intensa de uma mulher de 35 anos.

 

É psicóloga, política, mãe, colunista. Desde 2003, a sua vida tem conhecido uma exposição crescente. Em que é que isso alterou ao seu quotidiano?  

Muito pouco. Alterou a exposição mediática, que tem consequências na vida diária, social, familiar. Desde a faculdade, sempre balancei o meu tempo entre a actividade académica, e depois clínica, com a actividade associativa, e depois partidária. Nunca estive a jogar só num tabuleiro. Fiz coisas muito diferente, outras vezes complementares, ou com fronteiras porosas, com pontos de contacto que podem ser mais-valias. Como diz o outro, especialistas são os insectos. Eu tenho alguma aversão a essa hiper-especialização do ser humano, seja lá em que área for.

 

No seu tabuleiro sempre coexistiram a Psicologia e a intervenção cívica. Ainda hoje é assim. É professora universitária e faz clínica, além de ser dirigente do Bloco de Esquerda.

A matéria-prima, desde a política à clínica e à faculdade, é o trabalho com pessoas. A falar. Há uma base de trabalho que é comum, que envolve competências diferentes. A clínica é sempre um trabalho de uma gratificação gradual, construída na relação com o outro; são trabalhos de reengenharia profundos, não existem resultados imediatos. Faço psico-terapias individuais, a adultos, e faço psico-drama (uma técnica de que gosto bastante). A minha formação teórica é bastante eclética. Fiz várias formações, pós-graduações, mestrado, doutoramento. 

 

Como compreender essa pulverização, que é o que mais ressalta quando falamos de si e do seu percurso?

Se olhar para a minha infância e adolescência, nunca senti que fosse profundamente vocacionada para uma coisa. No liceu, na altura dos testes psicotécnicos, alguns colegas saíam de lá como se tivessem descoberto a pólvora; eu saí de lá na mesma. Provavelmente é uma questão de formação e personalidade. Escolher Psicologia foi uma formulação de compromisso com as letras e as ciências.

 

Teve mais que ver com isso do que com a influência dos seus pais?

Os meus pais são ambos médicos, psiquiatras e psicanalistas. Havia um contexto familiar, que é anterior à geração dos meus pais, mais próximo das ciências; o pai da minha mãe também era psiquiatra, e tenho vários tios psiquiatras e neurologistas.

 

Foi, por tudo isso, uma escolha pesada?

Nunca senti nenhuma pressão para escolher essa área ou qualquer outra. Os meus pais sempre deram bastante liberdade e autonomia para que os seus filhos fizessem as opções de vida que entendem – ainda hoje é assim. Na faculdade, fui sentindo aqui e ali o peso, não só por ser filha do meu pai e da minha mãe, mas também por ser neta do meu avô, professor catedrático da Universidade de Coimbra, com um nome naquela área. Com alguma ingenuidade da minha parte – confesso – nunca pensei que isso pudesse ser uma vantagem ou uma desvantagem.

 

Como é que foi uma vantagem e como é que foi uma desvantagem?

Se chegasse a casa e tivesse uma dúvida ou se precisasse de um livro, estava lá. Foi uma desvantagem porque é preciso provar perante os outros que não se é só isso. Que se tem uma identidade própria e um mérito seu.

 

Foi uma coisa especialmente importante em determinado momento? Ser reconhecida como ser individual, pelo seu valor.

É importante para todas as pessoas. Todas as pessoas que têm brio no seu trabalho e se empenham nas suas carreiras gostam disso, e não gostam de ser reduzidas a um golpe de sorte, ou a um nome de família, ou a outra circunstância.

 

Ser mãe aos 22 anos foi uma maneira de traçar o seu caminho contrariando uma certa previsibilidade familiar e social? Era improvável que uma menina oriunda daquele meio social decidisse ter uma criança tão cedo…

Sim e não. O meu pai é filho único, mas a minha mãe é a mais velha de nove irmãos; tenho 30 primos direitos e sempre existiram muitos bebés. Fui a primeira a ter filhos, a dar netos aos meus pais, bisnetos aos meus avós, mas logo depois os meus primos também tiveram. A verdade é que também há uma série de práticas sociais que sempre pus em causa, desde pequena – e isso é da minha personalidade. Não tive um filho, como é óbvio, para contestar estereótipos. Mas se olhar para trás não me fazia sentido aquela sequência: acabar o curso, ter um emprego, e uma casa, e uma vida profissional estabelecida e estável – já estamos nos 30 com isto tudo – e só depois é que se tem um filho.

 

Na sua família existia a flexibilidade social para acolher esse projecto? Qualquer projecto? Até o de nunca se doutorar.

Nunca tive esse problema. Quando tive um filho tinha uma grande dose de independência económica. Comecei a trabalhar com 15 anos. Fiz múltiplas coisas: fui guia-intérprete, dei explicações, fui dactilógrafa. Portanto, já havia um processo de autonomia feito, não vivia em casa dos meus pais. Não era o caso da adolescente que engravida a meio do liceu. E era uma excelente aluna. Mesmo que os meus pais quisessem ficar preocupados, seria difícil – preocupados porquê?

 

Porque é que foi importante desenvolver esse processo autonómico tão cedo? Não tinha grandes amarras…

Não, não tinha. Foi sempre uma procura de experiências diferentes. A escola nunca foi uma experiência total, totalmente satisfatória. Às vezes ficava aquém do que tinha em casa, ficava aquém do que eu esperava. A escola cumpria a tarefa da socialização; gostava de ir à escola, também, para ver os meus amigos. Os meus relatórios da escola, até muito tarde, diziam: “A Joana é muito esperta, mas muito faladora”. Os meus pais davam-me uma mesada, que era insuficiente.

 

Quais eram os seu luxos para os quais a mesada não chegava?

Vários. Por exemplo, na pré-puberdade tive dez aquários na cave onde fazia reprodução de peixes. Era um laboratório autêntico. Eu e o meu irmão gostávamos de fazer experiências científicas e tínhamos liberdade para isso. Vivíamos em Coimbra, numa rua calma, com árvores à volta, apanhávamos passarinhos, girinos e fazíamos antídotos para veneno! Fazíamos várias coisas paralelamente à escola. E levávamos tudo até ao fim.

 

Não era de paixões instantâneas por um projecto que depois abandona?

Não. Gostava de explorar, [e por isso levava até ao fim]. A aquariofilia absorveu-me imenso dinheiro!, eram fortunas. E precisava de dinheiro para outras coisas, como viajar com amigos (os meus pais deixaram-me viajar sozinha a partir dos 14, 15, fui para Inglaterra, fazer um périplo pela Europa), os livros e os discos, o tabaco e as saídas à noite.

 

Num certo sentido, foi uma adolescência normal.

Normalíssima, com os cafés. Não fumava às escondidas porque os meus pais eram fumadores e não tinham grande moralidade – achava eu e continuo a achar – para me proibir. Disse de chofre que fumava e fumo desde os 15 anos à frente deles.

 

Era segura de si própria. O exemplo do cigarro é elucidativo. Não temia discutir o que quer que fosse, esgrimir qualquer argumento. É um traço que fica.

Para além da educação liberal que me deram, houve uma coisa fundamental para a formação da minha personalidade. Uma coisa que na generalidade é pouco considerada, mas que é a relação mais longa que temos nas nossas vidas: a relação entre irmãos. O meu irmão foi, e é, muito importante na minha vida. É rapaz, mais velho, inteligente. Funcionava como todas as fratrias: rivalizava com ele, competia com ele, queria ser melhor do que ele, andávamos à batatada. Durante muito tempo ele foi melhor aluno do que eu, e eu tentava rivalizar noutras coisas.

 

Na atenção dos pais?

Noutras coisas, como ser mais despachada do que ele, ou ter mais amigos do que ele. Depois apanhei-o na escola. Não existia muito lá em casa, mas existia um bocadinho, essa coisa de ele ser mais velho e rapaz. Eu contestava essa regra implícita, acabava por disputar esse espaço também.

 

Tudo isso é ainda perceptível, hoje. A segurança com que disputa, com que discute. Sabe que se perder aquela contenda…

Não se perde a guerra. Eu ia sempre à luta. Mesmo fisicamente, se o meu irmão me desse um pontapé, dava-lhe também. Entre nós havia igualdade, eu lutava pela igualdade. Quando as coisas davam para o torto, ele vencia-as [risos], mas não era por isso que na próxima não retorquia.

 

O que é que lhe faz medo? O que é que pode inibi-la, tolher o seu impulso?

Tudo o que possa afectar o bem estar do meu filho, a integridade da minha família – eu e o Vicente. Isso seria uma coisa que, sim, me faria medo. Nesse domínio, sou uma leoa. É a área mais sensível, delicada.

 

É um medo diferente, mas em relação ao que está para trás, teve medo de não ser capaz, de não ser levada a sério, que não corresse bem?

Mas eu não sou levada a sério muitas vezes! Sou a “Barbie do Bloco” não sei quê, a loura-burra não sei quantos. Vá à net, está lá tudo. A essas coisas dou uma importância relativa. Sei bem que têm raízes, torvelinhos que combato no meu quotidiano – o machismo, o sexismo… É uma batalha diária. Tento perceber de onde vêm, e sobretudo o que posso fazer com elas.

 

O fantasma do falhanço, ainda mais numa família onde todos são expoentes, pode ser tremendo.

Nunca senti pressão para ser a melhor, para estar acima, para ser a ganhadora. Os meus pais deram-me bastante espaço para que me espalhasse – e espalhei-me algumas vezes. Pelo contrário, aqui e ali os meus pais foram sendo surpreendidos com os êxitos que eu tive. Para eles, foi relativamente súbita esta entrada na política e esta exposição mediática. Ainda estão a digeri-la. Já não sou a neta do Prof. Nunes Vicente, ou a filha da Prof. Teresa Vicente ou do Prof. Amaral Dias. É: “Ah, é a mãe, ou o pai, da Joana Amaral Dias”. Isto para os pais envolve alguma capacidade adaptativa. Estão a reagir cada um à sua maneira, os meus irmãos também.  

 

O relacional é a sua palavra nuclear? E isso é válido para a política, a clínica, a presença na comunicação social.

É. A actividade associativa, a política, foram coisas que me foram acontecendo. Aqui e ali, posso ter-me posto a jeito… [risos]. Mas não foi uma busca premeditada, consequente. Tenho a minha vida académica e clínica de base, estruturada. É uma coisa que gosto de fazer, que acho que faço competentemente, e que depende mais de mim do que doutras coisas. Acabou por tornar-se um porto seguro.  

 

 

Publicado originalmente na Revista Máxima em Dezembro de 2008

 

 

 

 

Lee Miller

29.06.13

Um puzzle de peças irregulares, que não encaixam umas nas outras. Nem na forma, nem no desenho. Era o que Lee Miller era. Era, pelo menos, assim que se definia. As peças: a modelo de vestido drapeado, que encarna a sofisticação das personagens de Fitzgerald. Antes disso, a adolescente que posa para a câmara do pai, nua, como uma escultura romana. A musa do movimento Surrealista de Paris. Amante e pupila de Man Ray. A americana que casa com um egípcio de boas famílias e regista o deserto numa roleiflex. A fotógrafa incansável da Vogue inglesa. A amiga de Picasso, e Éluard, e tudo o que é gente. A retratista de Marlene Dietricht, Fred Astaire, e tudo o que é gente. A correspondente de guerra que acompanha o Blitz, noite após noite, e que segue para a Normandia de uniforme americano. A provocadora que se faz fotografar na banheira de Hitler, no fim da guerra. A mulher alcoólica, a mãe disruptiva. A sobrevivente. A independente. Criação genial de si própria. Bela como uma estátua de Canova. Andrógina, quando ainda não se usava a palavra. Lee Miller foi um ser livre. Nasceu há cem anos, morreu há 30.

Quando, por fim, ela começou a escrever o seu tom era este: “E amaldiçoei os alemães pela sórdida e horrível destruição que fizeram nesta cidade, em tempos bela. Pergunto-me onde estão os meus amigos, quantos foram forçados à deslealdade, à degradação. Quantos foram fuzilados, morreram esfomeados, ou assim”. Ou assim. O mal, o horror, o que não tem nome. Coisas assim que acontecem em período de guerra. Coisas que ela via enquanto avançava por entre um mundo em decomposição. Cadáveres. Escombros. Prédios esventrados. Há uma fotografia que ilustra essa desolação: uma máquina de escrever esmagada – uma Remington “silenciada”. Expressão de um mundo onde não cabem as palavras, ou onde elas deixaram de fazer sentido. Neste caso, as palavras e as imagens são peças do mesmo puzzle. São exactas, sóbrias, cruas. Isentas de sentimentalismo. Como aquela outra, da filha do burgomestre de Leipzig, que se suicidou sobre o sofá de couro. Um couro bom. Um anjo, de cara branca e cabelo louro; e uma braçadeira nazi na manga do casaco. Um anjo que preferiu a morte no momento da derrota.

Lee Miller também fotografou as carcaças de judeus famintos, os destroços dos campos de Buchenwald e Dachau. Mas nenhuma fotografia ficou tão famosa quanto aquela que foi tirada no apartamento de Hitler. O autor é David Scherman, que acompanhava Lee. O cenário é o da “banalidade do Mal”, para usar a expressão da filósofa Hanna Arendt, citada no catálogo da exposição que o Victoria and Albert Museum lhe dedicou recentemente. António Barreto tem um print dessa imagem.   

“A compra da fotografia dela na banheira foi um “golpe de sorte”. Sou associado da “Photographers’ Gallery”, em Londres. Numa das muitas correspondências que mandam, vinha anunciada uma venda de meia dúzia de impressões dessa fotografia, feitas de propósito pelo filho (Antony Penrose), proprietário do seu “estate”. Não era muito cara. Mas é uma fotografia “maluca”, como a própria Lee. Já a tinha visto nos livros sobre ela.

O tema é muito estranho! Trazer a sua beleza e o banho para os aposentos privados do Hitler, nos momentos finais da guerra, só podia lembrar a um espírito livre, inconformista e iconoclasta. A fotografia do “monstro”, colocada à beira da banheira, está ali para “fazer prova” e acrescenta uma nota insólita e inesperada a esta cena aparentemente banal. A imagem não é, estética ou tecnicamente, nada de especial. Mas a rotina de um banho, a beleza da Lee e a sua nudez presumida combinam paradoxalmente com as botas e o uniforme do exército, assim como com a fotografia do “diabo”.

Dias antes de esta fotografia ter sido feita, Lee e Dave tinham visitado Dachau, fotografado e descoberto as valas comuns e os prisioneiros moribundos. Este banho tem qualquer coisa de purificador, mesmo se tomado na banheira do “bárbaro”.

Esta casa de banho não é a do “bunker” de Berlim, como tantas vezes se diz. É da casa “oficial” de Hitler em Munique”.

Quando regressou a Inglaterra, depois da Guerra, Lee vinha exaurida. A cara sulcada, o corpo fatigado. Engravidou no ano seguinte, perto dos 40 anos. Retirou-se para o country side, viveu numa quinta onde se esmerou na culinária e recebeu amigos – deste período, destacam-se duas imagens: uma do pintor surrealista Max Ernst a remexer na terra e outra de Picasso com o pequeno Penrose no colo.

Não era a mesma. E se é verdade que todos mudaram nesses anos lancinantes da Segunda Guerra, no caso de Lee Miller a diferença é abissal. Seria a mesma, a do auto-retrato para a Vogue americana, aveludado e sedutor, e a que fotografa St. Malo? Seria a mesma aquela que descobre o efeito “solarized picture”, com Man Ray, e aquela que enquadra a sombra opressiva da pirâmide do Egipto? Lee Miller viveu uma vida que hoje não seria possível. Viveu, na verdade, várias vidas. E como ela diz, as peças do puzzle nem sempre encaixam. Não?

Vamos ao essencial da história: Lee nasceu numa pequena cidade do estado de Nova Iorque em 1907. Tinha dois irmãos com os quais brincou aos rapazes. A sua androginia talvez radique aí. Ou mesmo o nome. Elizabeth começou por ser Li-Li, e só depois adoptou o Lee. Uma história marcou-lhe a infância e, pela sua força, toda a vida: um abuso sexual por alguém próximo da família. Era uma criança como as outras, aquela que aparece na fotografia dos sete anos. E contudo, já calava um acontecimento brutal. A cicatriz acompanhou-a sempre. Primeiro, sob a forma de gonorreia. Depois, no modo como lidou com o masculino/feminino e como viveu o amor e o sexo – coisas separadas, peças soltas.

Familiarizou-se com a fotografia em casa – o pai era um amateur apaixonado. Impudicamente posou para ele, nua, semi nua, bela. Aprendeu a revelar e a manipular as imagens no quarto escuro. Tinha um interesse inesperado pela mecânica das coisas. Como um engenheiro que se interessa pelo funcionamento de um carro. Ao mesmo tempo, moldou-se no cinema e no teatro, instalou-se em Nova Iorque, foi literalmente apanhada na rua por Condé Nast com quem esbarrou num cruzamento e que reconheceu nela “o look do momento”.

Começou por ser modelo, mudou-se para Paris. Apresentou-se a Man Ray dizendo que era “a sua nova assistente”. Foi. Foram amantes. Houve entre os dois aquilo a que se chama uma colaboração profícua. Ela descobriu acidentalmente o efeito da solarização das imagens, ele investiu nesse artifício e legou algumas das fotografias mais marcantes da história do século XX. O perfil de Lee, com esse efeito “saturado”, próprio das solarized pictures, é um dos exemplos. 

Nesses anos de Paris, deu-se com os Surrealistas, foi uma igual. Fotografou. Também fotografou para revistas de moda. Vestidos e chapéus. Chaplin sem bigode. Criou imagens que inspiraram Dali, Buñuel ou Magritte. Fotografou as costas de uma mulher como se fossem um falo. Fotografou uma cena macabra: um seio mastectomizado num prato, pronto a comer. Quando regressou a Nova Iorque, findo o romance com Man Ray, levou consigo uma escola, um pedaço da Europa, um mundo novo.

Abriu um atelier com o irmão, fotografou frascos de perfume à la surrealista. Casou com um egípcio e foi viver com ele para o Cairo. Viajou. Sentiu claustrofobia. Voltou à Europa por uma temporada, apaixonou-se pelo pintor e galerista Roland Penrose. Viveu com ele até ao fim dos seus dias. Pelo meio, Scherman, que a fotografou na banheira de Hitler, viveu com o casal, num saudável ménage à trois.  

Conquistou um lugar na Vogue impondo a sua presença. Ou seja, plantou-se na revista para fazer o que fosse preciso. Até que perceberam que não podiam viver sem ela. Transformou-se na mais empenhada colaboradora da edição inglesa. Quando outros (como Cecil Beaton, seu rival…) publicavam quatro imagens por número, ela publicava 14! Lembrou-se de que era cidadã americana e que podia seguir com “as suas tropas” para a França ocupada. Fez relatos únicos do que lá viu. Fotográficos, e depois também escritos. Regressou a casa. Morreu em Sussex em 1977. Viveu intensamente cada uma das suas vidas.

As peças do puzzle: na forma e no desenho não encaixam umas nas outras. Mas são feitas da mesma matéria: talento, força, beleza, crueza. E liberdade.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

Ler Jorge de Sena

28.06.13
No próximo Ler no Chiado vamos evocar Jorge de Sena

Com três senianos: Jorge Fazenda Lourenço, que se tem ocupado da coordenação da obra, Jorge Vaz de Carvalho, o barítono que fez uma tese de doutoramento sobre Sinais de Fogo, e o poeta Gastão Cruz, que, como os outros, é leitor apaixonado de Sena e trocou com este correspondência.

Vamos falar da diversidade da obra, da relação com a Pátria, das obras seminais... 

Dia 4 de Julho às 18.30, na Bertrand do Chiado.

Eu faço a moderação.

Organização da revista Ler e da Bertrand.

Apareçam e divulguem, pf.

Carlos do Carmo

27.06.13

 

Fale-me desse triângulo, que diz ser fundamental: peito, garganta e cabeça.

Eu diria coração, garganta e cabeça. Para cantar tenho que ter coração, senão seria um mero exercício de exibição. A garganta, como sou crente, [digo que] foi a que Deus nos deu, não escolhemos propriamente a voz que temos. Depois, a cabeça comanda a vida. Temos que perceber o que estamos a cantar, para quem estamos a cantar. Através da cabeça há públicos que nos arrepiam e outros não. A cabeça funciona numa área, o coração noutra e a garganta noutra.


Tenho a impressão de que, durante muito tempo, afirmou-se contra o seu passado, andou à procura de si. Quando é que se reconciliou consigo e uniu os vértices do triângulo?

Tudo isso se resolveu na morte do meu pai, porque fui, à força, obrigado a optar. Andava ali, menino protegido, de mãe e pai. Eu tinha 22 anos e estava convencidíssimo de que ia ser um engenheiro hidráulico de olhos azuis, director de uma unidade hoteleira no estrangeiro…


Foi educado para ser um príncipe.

Sim. E os meus pais trataram-me sempre como tal. Príncipe, mas muito ligado às questões populares. Vivi com muita honra no bairro da Bica. Se há uma frustração que tenho, não são muitas, é não ter podido viver lá o resto da minha vida – mudei quando me casei. Não havia condições, queríamos ter filhos e a casa era muito pequena. A minha raiz de bairro está muito viva ainda. Vivo nesta casa, de que gosto muito, há 35 anos, mas sinto isto como um dormitório, nunca consegui sentir isto como o bairro que amo.

 

O sentimento de pertença é o que tem em relação à Bica. Em que é que isso se traduz?

A Bica foi uma aldeia, onde aprendi valores, a fraternidade entre pessoas. Uma vida de porta aberta, sem chave na porta. Uma vida de comunicação entre as pessoas: faltam os legumes em casa e a vizinha empresta. Retomando a questão da resolução dos problemas: a morte do meu pai foi uma coisa brutal. Tínhamos uma excelente relação. Era criança, nove, dez anos, e ele lia-me o jornal, ao meu lado. E discutia as coisas que lia comigo; isso ajudou-me a construir um edifício mental, a olhar para a sociedade, para os ricos, para os pobres, a ser sensíveis às diferenças.

 

Com a morte dele, súbita, arcou com todas as responsabilidades.

Foi. Demorei anos a solucionar o desgosto da morte do meu pai. Não verti uma lágrima, não fui capaz de chorar. Foi um desgosto profundo, profundo. Depois fui-me reencontrando. O meu pai morreu e eu, 24 horas depois, era patrão de 23 pessoas. A partir daqui há uma responsabilidade assumida, há uma mãe ao nosso lado.

 

A sua mãe era a fadista Lucília do Carmo.

O gestor do trabalho era o meu pai e a minha mãe era a vedeta, a artista, a bilheteira. E pronto, está ali o miúdo. Só que o miúdo tinha um curso técnico de hotelaria, tirado na Suíça. Se estava preparado para gerir um hotel, mais preparado estava para gerir um pequeno restaurante. Foi uma luta. Foi dizer: «Não vou destruir o que os meus pais construíram, vou tornar isto melhor do que recebi em mãos». 

 

O sentimento de gratidão, só o sentiu profundamente nesse momento, ou já o tinha antes, mercê da expectativa que tinham em relação a si?

É muito interessante que pergunte isso, porque um dos meus sonhos, que nunca se concretizou, era dar uma velhice maravilhosa aos meus pais. Não pude fazer isso, magoou-me essa interrupção. Quando estou a falar desta gratidão, é preciso situarmo-nos no tempo. Os meus pais, depois de eu ter feito aqui a escola primária e o liceu, mandaram-me para um colégio de milionários na Suíça.

 

Eram ricos?

Não tinham dinheiro para isso, endividaram-se loucamente. Mas não se lamentavam: era uma meta, o filho era um grande investimento. Para além do mais, magoou-me que o meu pai não conhecesse o artista... Ele seria muito exigente comigo, de certeza absoluta. Foi fundamental na carreira da minha mãe. Toda a gente enaltecia a dicção da minha mãe: o meu pai dava-lhe lições de dicção em casa.

 

E o Carlos ouvia-as e aprendia também…

Claramente. Determinei-me com objectivos muito concretos: esta tem que ser a melhor casa de fados de Lisboa, e foi. Quando comecei a cantar disse: tenho que ter uma carreira sóbria, foi, e é. Tenho que cuidar da mãe, e fi-lo. Se houve coisa que me magoou, foi, algum tempo depois do 25 de Abril, por razões políticas, caluniarem-me dizendo que tratava mal a minha mãe, que a tinha saneado, que a deixava na miséria. Foi uma seta atirada ao meu coração. Quem o fez, fê-lo com muita maldade.

 

O devaneio do menino que está à procura de si acaba na contingência de ter que se fazer à vida. O que é interessante é que, por linhas tortas, se tenha encontrado com o melhor de si, com aquilo que fez de si um homem feliz.

Com um elemento chave que considero um factor de sorte na minha vida: ter encontrado a Maria Judite [a mulher].

 

Que idade tinha quando a conheceu?

Tínhamos os dois 24 anos. Casámo-nos seis meses depois. Ficámos os dois praticamente sem família, a família da Maria Judite quase toda morreu, a minha família quase toda morreu; reconstruímos, fizemos uma nova família com filhos. O modo como ela gere esta situação do marido ausente durante anos... Não lhe passa pela cabeça o que trabalhei! Cheguei a tê-la à minha espera no aeroporto com uma mala com roupa para o frio, porque vinha do Brasil e ia para o Canadá. Dois beijinhos, as crianças, a correr, e lá ia para outro avião. A vida toda, também ela se foi construindo, em simultâneo: o empresário, o marido, e o cantor.

 

Como é que começa a cantar?

Aos 23 anos comecei a cantar por brincadeira, e não me deixaram que fosse brincadeira. Gravei um primeiro fado com um amigo, o Mário Simões, e aquilo passava na rádio de manhã à noite. Nunca mais pude controlar a situação, tive mesmo que começar a aprender fados.

 

Não se sentiu inseguro? Deve ser uma coisa terrível para os filhos de pais famosos: deixar de ser o filho da Lucília do Carmo e passar a ser o Carlos do Carmo.

Nos primeiros anos, muita gente, com muita naturalidade e muita ternura, dizia-me assim: «O menino canta muito bem, mas sua mãe é que era». Não me sentia magoado, mas isto implicava ir buscar um caminho. Conseguimos, depois, naquela casa de fados, ter dois públicos que se iam conhecer um ao outro. Eram os mais velhos que ficavam fascinados a ouvir o miúdo e eram os mais novos que se fascinavam a ouvir a mais velha. E não havia competição.

 

A sua afirmação enquanto cantor, a escolha do repertório, até o modo de cantar, foi feito para vincar essa diferença?

Não. A minha mãe pertence a uma geração de fadistas, com algumas honrosas excepções, com uma exigência de repertório limitada. Eu pertenço a uma geração a quem os pais facultaram tudo. A minha inquietação estética começou cedo. Não era por acaso que me apareciam na casa de fados o Zé Cardoso Pires, o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira... A minha primeira abordagem ao Alexandre O’Neill foi uma coisa sensacional! O Ary dos Santos, quando chega, é a cereja em cima do bolo. Tudo isto foi acontecendo com ligações humanas, partindo dos poetas tradicionais. O autor das «Canoas do Tejo» e do «Por morrer uma andorinha», o Frederico de Brito, era um homem muito antigo.

 

Protagonizou essa mudança. Há um país que emerge e a sua música é expressão disso, dá expressão a isso.

Todas estas pessoas de quem falei tinham muito respeito pelo que estava para trás. Não gostavam esteticamente daquele fado, mas consideravam aqueles intérpretes grandes artistas. A isto tudo não era alheio o facto de ouvirmos outras músicas: Sinatra, Brell, Elis Regina, Ray Charles...

 

Quando é que se olhou ao espelho e disse: «Sou fadista, sou cantor antes de qualquer outra coisa»?

Essa questão não se me pôs assim. Considerei sempre as três frentes fundamentais. Quando a minha mãe começou a apresentar alguns sinais de fadiga, (mal eu sabia que ia culminar numa tragédia que é Alzeihmer), combinei com ela que a minha missão estava cumprida: tinha honrado o trabalho dela, tinha honrado a memória do meu pai, quando ela quisesse parar, eu saía ao mesmo tempo, acabava o empresário. Assim foi. Isto para lhe dizer uma coisa que, talvez por antecipação, seja interessante desabafar consigo: estou preparado para deixar de cantar porque tenho um outro lado de que gosto muito, o da família.

 

Acha que pode ser feliz sem cantar?

Isto [a família] é para durar até ao fim. O palco não pode durar até ao fim. O palco tem uma coisa perigosa, a decadência, e eu não a queria. Quero ver se Deus me dá essa lucidez. Porque a partilha que temos tido, as pessoas e eu, tem sido sempre superior. Gosto muito que as pessoas gostem de mim, gosto muito de gostar das pessoas. Mas não sou muito talhado para ídolo, sou mais talhado para afectos. Tenho cenas incríveis de afectividade. A primeira vez que saí à rua depois de ter vindo das operações de Houston, uma senhora muito bem posta estancou na minha frente e disse-me assim: «Não sonha o quanto rezei por si». Aquilo era genuíno, era do plano dos afectos. Eu jogo mais nisso.

 

Em fazer parte da família.

É. A maioria dos ídolos acaba mal, já reparou? Nos sítios mais variados aparece-me gente de 30 e poucos anos; foram massacrados porque os pais ouviam-me de manhã, à tarde e à noite; depois de os pais morrerem vêm ouvir-me para se reconciliar e contam-me isto cheios de ternura. Ou então os que me seguiram: «Habituei-me a ouvi-lo, desde pequenino, apesar de a minha música ser outra». E levam as crianças. É muito interessante porque passa para a terceira geração.

 

O disco que gravou depois de ter sobrevivido à doença, foi diferente? É evidente que a vida de um homem muda quando passa por uma provação tão grande. Mas, como é que isso se reflecte naquilo que ele faz, no modo como ele canta?

Pois, sabe que não foi a primeira vez, foi a segunda. Eu já tinha tido há 16 anos uma queda de um palco em Bordéus… Há um homem com uma saúde de ferro que aguenta estas coisas todas, as malas que se trocam, a vida mais desregrada de horários, boémio, cigarros, uísques (mas nunca fui bêbedo!). Esse homem, aos 50 anos, cai de um palco e parte o lado esquerdo do tórax, parte sete costelas, fura um pulmão, fica sem baço. Fica um homem diminuído, só que não aceita. O médico teve comigo uma conversa interessantíssima, «Agora, nada é como antes, atenção». Entrou por aqui e saiu por ali.

 

Como é que ignorou avisos tão sérios?

Eu tinha uma ambição do ponto de vista económico, que era dar um tecto a cada filho. Nunca quis ser milionário, mas sabe o que é? Continuei a trabalhar como se nada a fosse. Aos 60, o aneurisma foi tão violento... Mas entretanto, as metas estavam atingidas. O médico diz-me: «Nem pensar em fumar, nem pensar em álcool, vinho à refeição e ponto final. Muita água e uma vida mais higiénica». Tem sido esse o meu projecto de vida e sinto-me como nunca me senti, até a cantar tenho mais força. Depois disto, em que a morte foi muito clara, mais do que da outra vez, disse: «Bom, é giro ficar mais uns tempos».

 

A equação era viver ou deixar-se morrer.

É natural que esse homem tenha sido tocado pela finitude, pela insignificância, pela fragilidade. Esse homem reapareceu a cantar, gravou um disco. Tenho a impressão de que as pessoas não o terão percebido muito bem. Levei anos a dar entrevistas onde a última pergunta era sempre a mesma: «Acha que o fado vai acabar?». E eu respondia: «Enquanto houver quem toque e quem cante, o fado não morre.»

 

Hoje ninguém se lembraria de fazer uma pergunta dessas, tal o vigor do fado.

Foi muito natural querer fazer um disco de inéditos. Foi uma forma de dizer: «O velhinho está de volta, mas desculpem lá: sou inquieto, não estejam à espera que vá cantar outra vez a mesma coisa». Coisa que já não tem a ver com o projecto que tenho agora e que vou talvez executá-lo este ano: é com uma grande orquestra sinfónica, músicas tradicionais de grande peso e trabalhar nisso com poemas novos.

 

 

Publicado originalmente na revista Selecções do Reader’s Digest em 2005

 

 

 

 

Michelle Brito

26.06.13

“Gosto de pensar que sou uma miúda normal. Ao mesmo tempo é difícil pensar que sou uma miúda normal por causa da vida que tenho”.

Que vida é que ela tem?

A de uma tenista profissional. A primeira portuguesa a estar entre as cem melhores do mundo. A primeira a estar na terceira ronda de Rolland Garros e na segunda de Wimbledon.

Tem apenas 16 anos. Encontramo-nos em num hotel de Lisboa, quando ela está de férias. Está sentada com os ombros ligeiramente curvados. Responde com um fio de voz, quase infantil. É surpreendente que não exibe o corpo possante que vemos nos courts. Que do outro lado da mesa ela seja o que na verdade é: uma miúda.  

A partir de uma conversa com Michelle Larcher de Brito, elaborei um glossário essencial. Para a conhecer e compreender o seu sucesso.

 

 

IDENTIDADE

Quem sou eu? Sou divertida. Gosto de fazer as coisas que as raparigas da minha idade fazem, de estar com pessoas, com o meu cão. E posso ser faladora!

 

FAMÍLIA

Tenho dois irmãos gémeos, quatro anos mais velhos do que eu. O meu pai nasceu em Angola e a minha mãe é sul-africana. Na minha família, se tomamos uma decisão, todos são envolvidos nela. Mudar de casa, mudar de cidade – vamos todos. Quando se falou da minha ida para os Estados Unidos, os meus pais disseram: somos uma família, vamos para os Estados Unidos como uma família.

 

INFÂNCIA

Do que mais me lembro é de ter ido para os Estados Unidos quando tinha nove anos. Do fazer as malas. Da despedida da minha família (tenho muitos tios e primos) em Portugal. Foi o acontecimento mais marcante da minha vida. Implicou começar de novo. Entrei numa escola americana, não sabia escrever nem ler inglês. Mas fiz amigos logo nos primeiros dias.

Eu precisava de patrocínios. Finalmente encontrámo-los; o meu tio, que trabalha numa empresa de químicos, ajudou-nos. Mudámos-mos de Portugal para os EUA por causa do meu ténis. Recebi uma bolsa para a Academia Bollettieri, que é uma das melhores do mundo. Lá há mais competição.

 

PAI

O meu pai acreditou muito em mim. Não eram tanto as conversas, o que dizia. Era mais a maneira como trabalhava comigo no campo. Nunca disse: “Paramos, que isto não nos leva a nenhum lado”.

Sempre foi o meu treinador. Desde as primeiras bolas que bati.

Esteve num colégio interno, na África do Sul, onde o desporto era obrigatório: correr, natação, râguebi, ténis. O ténis foi sempre o desporto preferido.

Transferiu para mim o sonho que não conseguiu concretizar.

Ser profissional era o sonho dele, mas nunca teve o apoio que eu tenho. Tenho sorte! Os pais dele não o apoiaram assim. Viajar e jogar torneiros não era tão fácil como é hoje. E era preciso dinheiro para viajar, hotéis, comer fora, raquetes…

 

MÃE

Não sei a história do meu pai e da minha mãe. Conheceram-se na escola. Casaram. A minha mãe trabalhava numa companhia aérea. Quando os meus irmãos nasceram, ainda na África do Sul, parou de trabalhar. Eu já nasci em Portugal.

Em casa falamos inglês porque o português dela não é famoso.

 

ATLETA

Aprendi a andar e a apanhar bolas ao mesmo tempo! Com dois, três, quatro anos, andava pelo campo a apanhar bolas dos meus irmãos. E queria jogar. Comecei aos cinco anos. O meu primeiro torneiro foi aos sete. O meu pai decidiu fazer de mim uma atleta. Melhorei bastante rápido. E aos oito já ganhei o primeiro torneiro.

 

DERROTA.

No meu primeiro torneio, perdi nas meias-finais. Foi a primeira vez que perdi. Corri do campo a chorar e fui esconder-me. Estava mesmo zangada! A minha mãe veio à minha procura, e gritei: “Nunca mais quero perder!

No torneio seguinte, ganhei.

 

PERDER

É duro, sobretudo nos grandes torneios. Mas pode-se aprender mais do que se se ganhar. Quando perdemos, visionamos o que fizemos num DVD e no dia seguinte vamos para o campo melhorar. Por exemplo: se perdi por causa do serviço, vou para o campo trabalhar o serviço, trabalhar o serviço, trabalhar o serviço. Na vez seguinte não perco por causa do serviço.

É difícil ver o que fiz, especialmente quando perdi por um ponto… E é duro psicologicamente lidar com a derrota. Mas sou jovem. Estou a aprender. Sei que não é a última derrota, que vou sofrer muitas mais.

 

LUTADORA

Acredito que sou uma pessoa forte. Sou naturalmente forte porque cresci com dois irmãos mais velhos. São queridos, adoro-os, mas às vezes são brutos comigo. Isso ajudou-me a crescer e ensinou-me a defender-me a mim própria. Sou forte porque sei defender-me. Se tenho uma opinião, luto por ela. Não deixo as pessoas dizerem-me tudo sem levarem na volta. Não deixo que me pisem.

Não sei onde arranjei isto, isto de ser tão forte. É a minha personalidade. Isso é ser eu: lutar pelo que acho que está certo.

Sou lutadora.

 

QUARTO

Se os meus pais me mandam fazer alguma coisa, faço. Mas se é limpar o meu quarto, posso demorar uns dias até o fazer… [risos] O meu quarto pode ficar numa confusão! A minha cor preferida é azul bebé e o edredon é às riscas azuis. As paredes são brancas; mas já foram azuis. Pintámo-las, a minha mãe e eu, e foi divertido. Tenho muitos peluches, ursos, tigres, cães. Tenho um armário com os meus bonecos e uma caixa extra de bonecos no sótão. As mesinhas de cabeceira são de madeira e é lá que tenho as colunas do ipod. Tenho um armário muito grande porque gosto muito de sapatos e vestidos.

O meu pai não entende o fascínio das senhoras com os sapatos! Vou às compras com a minha mãe. É um mundo à parte onde não entram os homens.

 

VONTADE

Os meus irmãos estavam no mesmo ponto de partida do que eu. Ainda jogam, treinam comigo, e jogam bem. Mas não tinham a mesma vontade. Preferiram estudar a estar horas e horas no campo. Desde o princípio, dei 110% no treino.

O que define um grande tenista é o trabalho nos treinos, a determinação e os sacrifícios. Sou jovem e não posso sair, não posso ir para a cama tarde… Sabia que os sacrifícios faziam parte da escolha.

 

FAMÍLIA E TRABALHO MISTURADOS

Pode ser uma confusão! Mas ao mesmo tempo ajuda. Muitas raparigas viajam apenas com os treinadores. Os meus pais e os meus irmãos vão sempre comigo. (Agora vai mudar, porque os meus irmão vão para a universidade). É como estar em casa, mas no hotel. Estamos juntos, almoçamos juntos, treinamos juntos.

Em Wimbledon (Londres) alugámos uma casa, em Rolland Garros (Paris) um apartamento. Nos torneiros mais pequenos ficamos num hotel. Tenho o meu quarto e a minha casa de banho. Tenho que estar sozinha um bocado.

 

LER

Gosto de ler. Gosto da série Twilight da Stephenie Meyer e gosto muito do Dan Brown. Nesses momentos desligo completamente e só penso no livro que estou a ler.

 

ESCOLA

Aos 13 anos, quando comecei a viajar, ficou difícil frequentar a escola normal. Faltava duas e três semanas. Arranjei um professor que me desse aulas privadas. Temos duas, três horas por dia. Um dia Matemática, outro Inglês, História, Geografia. Essa é a minha outra vida: a escola e os exames. Para a semana, quando voltar aos EUA, vou fazer exames.

 

FUTURO

Não penso no meu futuro. Gosto de viver o dia a dia, não gosto de olhar tão para a frente. Nunca sei se me vou lesionar…

O que pretendo fazer depois do ténis? Gosto muito de animais. Não quero ser veterinária, mas gostava de fazer alguma coisa com os bichos. Talvez um refúgio, dar-lhes uma casa onde viver.

 

CORPO

Não penso no meu corpo. Felizmente não ganho peso, sou do tipo magrinho. Dieta? Não! Outras jogadoras, sim, e têm dieta prescrita pelo médico. Claro que não posso comer MacDonalds todos os dias. Basta-me fazer uma alimentação saudável. Quando estou de férias posso comer chocolate!

No meu corpo, tudo tem de estar em forma. Senão a máquina fica enferrujada. Todos os anos faço exames. Tiro sangue e fazem um mapa, com imagens de todas as partes do corpo, de todos os músculos.

 

DIÁRIO

Quando era pequenina, tinha sete ou oito anos, tive um diário oferecido por uma tia. Foi no primeiro torneio fora de Lisboa, em França. Reli-o agora, antes de vir para Portugal, porque o encontrei no sótão. A minha letra era tão engraçada. Escrevi coisas assim: “Acordei às oito e comi um croissant. A seguir fui jogar o meu ténis”.

Não escrevi sobre o que senti. A minha tia disse-me: “Quero saber tudo o que fizeste”.

 

ARAVANE REZAI

No jogo em Rolland Garros, fiquei irritada com o que a Rezai fez: queixar-se ao árbitro dos meus gritos. Não porque eu a estivesse a distrair, mas porque queria distrair-me a mim. A verdadeira razão foi essa.

Eu estava a jogar bem, mas quando fui falar com o árbitro distraí-me e o meu jogo foi ao ar, completamente. Era a táctica dela.

Já tinha feito isso em Miami. Foi a segunda vez que joguei com ela. I hate her, actually I do. [risos] Nem posso olhar para ela.

Tenho de arranjar uma maneira de não ficar distraída e zangada por causa disto. Tenho de relaxar e continuar a jogar como antes.

A próxima vez que a encontrar vou fazer tudo e tudo para lhe ganhar! Perder duas vezes com ela, já chega!

 

RAIVA

A raiva e a zanga são um capital importante. Fico emocional em campo. Mostro as minhas emoções. Jogo com raiva. Estou ali para ganhar. Tenho essa vontade e essa determinação: de avançar para a próxima ronda.

 

ROTINA

Acordo às cinco, cinco e 15. Estou na escola das seis às oito. Treino três horas de manhã e mais três horas à tarde. É um full time job. Vou para cama, e no outro dia é igual.

 

DINHEIRO

Não costumo pensar em dinheiro. Não cresci numa família rica.

 

RECOMPENSA

Se faço um bom torneio, vou a uma loja comprar coisas para mim. Um reward. Mas é claro que não gasto fortunas. Compro um fato, uns sapatos, um vestido. Em Rolland Garros, correu muito bem e fui à Louis Vuitton.

Cresci a ter de merecer, trabalhar, fazer bem. Os meus pais nunca me compraram uma coisa só porque a pedi. Tinha de a merecer.

Acho isso bem. Ter as coisas facilmente, sem ter de lutar por elas, é aborrecido. Se assim for, nada tem significado.

Como o wild card [convite para estar presente] que recebi em Wimbledon. Tive de mostrar que o mereci.

 

SERENA WILLIAMS

As pessoas perguntam-se se fiquei com medo dela! Eu sou pequenina e ela é mesmo grande. Grandes músculos. Mas olhei para ela como uma jogadora. Como eu. Isso é o que ela faz: jogar ténis. Foi um jogo incrível! Os pontos eram tão compridos.

O estádio estava completamente cheio e o no fim levantou-se em peso para aplaudir.

Ela disse-me: “Muito bom jogo. Bem jogado. Boa sorte para a tua carreira”.

 

ZANGA

O meu pai zanga-se comigo por eu ter perdido. É claro que não diz: “Pára de jogar ténis, que não sabes jogar!” Não se pode chatear por eu não ter tentado. Dou sempre o meu melhor. O que acontece é que a minha concentração não está ali. E estou mais lenta.

Zanga-se, grita um pouco. Mas no dia seguinte estamos a treinar outra vez e a melhorar.

 

SONHO

Às vezes, antes de dormir, imagino que estou no campo principal de um torneio e que ganho. É bom. Mas não quero sonhar tanto. Quero fazer coisas na vida real.

 

SOZINHA

Quando estou a jogar sou só eu. Mesmo que a família esteja a apoiar, ninguém me pode ajudar no campo. Posso não me sentir sozinha, mas estou mesmo sozinha.

 

GRITAR

Não é uma coisa que se aprende, é uma coisa que se faz. É parte do jogo. As pessoas dizem que nos ensinam a gritar na Academia Bollettieri. Mas eu grito desde pequena, antes de saber o que era a Academia Bollettieri. Se o meu corpo sente necessidade de gritar, grito”.

 

SORTE

Quando o vice-presidente da Bollettieri veio a Portugal ver miúdos, em Monsanto, eu não fui convidada. Os meus irmãos, sim. A pessoa que organizou o evento disse: “Tenho esta rapariga, que joga muito bem. Gostavas de a ver?”

Viu-me a jogar, gostou e convidou-me para ir aos Estados Unidos. Se não fosse esta pessoa, não estaria no lugar onde estou. Não me lembro do nome dele, mas os meus pais sabem.

Foi sorte.

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em Julho de 2009

 

 

 

 

 

 

 

Luís Portela

26.06.13

“Os meus grandes prazeres são, por exemplo, o contacto com a natureza. O enorme prazer que tenho em andar a pé descontraidamente, em fazer os meus passeios de bicicleta com os meus amigos, ao sábado de manhã. Ir do Porto a Espinho e regressar, junto ao litoral, a ver o mar, a areia. Fazer isto de Verão e de Inverno, quer esteja sol, quer faça chuva. A chuva não trinca ninguém…”.

Luís Portela é, portanto, o tipo de homem que diz coisas como “a chuva não trinca”.  

É um pacifista. “Sou incapaz de fazer mal a uma mosca. Se ela me incomodar apanho-a com a mão (20 anos de karaté permitem-me a concentração para apanhar a mosca com a mão), abro a janela e ponho-a lá fora. Eu não mato uma mosca, como não mato uma centopeia. Sou um pacifista que alarga o pacifismo ao universo”.

É o senhor Bial. Pegou numa empresa familiar e fez dela um caso de sucesso exemplar.

Desta vez, não se fala da produção do anti-epiléptico nem da facturação da maior farmacêutica portuguesa. Nem das minudências do meio, ou dos genéricos, a relação com os hospitais, as farmácias, as viagens e os médicos.

Desta vez foi a vez dele. Ele, Luís Portela. Muito mais do que o pacifista que diz que a chuva não trinca. Ele e um percurso absolutamente invulgar. Ele, que é um homem ímpar.

Há coisas que são ditas pela primeira vez, há coisas que já foram ditas, mas não desta maneira, com a devida contextualização. Nunca o livro se abriu desta maneira. Nunca se pôde ler nele, assim, Luís Portela.

 

 

Conte-me a sua história.

É a história de um jovem a quem não passava pela cabeça meter-se no mundo dos negócios. Um jovem que queria sobretudo ser útil ao outro, e que pensou em formas diferentes de ser útil ao outro. Pensou ser frade, monge tibetano e médico. Neto do fundador da Bial. Pressionado pelo pai para fazer um curso que fosse compatível com a vida da empresa, Farmácia ou Economia. Fiz Medicina. Quando estava a meio do curso, o meu pai faleceu. Portanto, o jovem que queria ser médico ficou com a carreira um bocadinho abalada, de estudante-trabalhador, trabalhador-estudante.

 

De onde vem essa ideia, desde tão cedo, de querer ser útil ao outro? E com a convicção de querer fazer disso vida.

De onde vem, não sei. Mas quando olho para trás, enquanto os meus colegas liam literatura policial, eu lia coisas de ioga, espiritismo, excertos da Bíblia. Tinha muita curiosidade sobre o que é o Homem, o que estamos a fazer na Terra, para onde vamos, o que é isto. Nunca achei muita graça a aliar-me a um grupo, a ser um “ismo” qualquer. Eu levantava questões e gostava de ler de tudo um pouco, procurando perspectivar onde é que estava a verdade, onde é que estava a mentira, encontrando bocados de verdade e de mentira em tudo. Era uma pessoa existencialmente incomodada, desde os 12, 13 anos. Só bastante mais tarde é que realizei que isso não era vulgar.

 

E antes disso, era uma criança alegre?

Não, tristonha. Foi uma infância tristonha.

 

Sabe que ainda tem um ar triste? Há sempre um veio de melancolia na maneira como olha.

Era disciplinado, bem comportado, curioso; tinha prazer de conhecer, estudar, saber mais. [Frequentei] uma escola primária muito exigente, que não tinha recreio.

 

Porquê?

Era assim que estava organizada. Acho que isso me deu uma endurance fantástica para a vida, hábitos de trabalho, disciplina.

 

Pensei que essa obstinação pelo trabalho e essa procura de conhecimento tinham chegado por via do seu pai e da educação que teve em casa.

Não veio pelo meu pai, seguramente. Pode ter vindo mais pela minha mãe e pela escola primária. A minha mãe sempre acreditou em mim. Achava-me um miúdo com grande capacidade e interiorizou-me isso. O meu pai tinha uma perspectiva de vida diferente da minha.

 

Como é que ele era?

Era conhecido como um homem conquistador, mas também trabalhador, sério, honesto, com a cultura dos verdadeiros valores. Começa a estudar Farmácia, para seguir as pegadas do pai que tinha criado a companhia; mas não passa do primeiro, segundo ano. Gostava de namorar, da noite. Gostava de automóveis, fazia corridas, tinha carros fantásticos. Com cerca de 40 anos, quando o pai morreu, assumiu os destinos da empresa. Talvez o pai, (o meu avô), com uma personalidade muito forte, não o tenha deixado esvoaçar mais. Só então se impõe como um homem de trabalho, dedicado, racionalizando a produção, mecanizando a empresa, procurando soluções a nível internacional. Mas tínhamos uma concepção de vida diferente. O meu pai teve quatro filhos de três mulheres. Naquela época, era invulgar. Eu sou homem de uma mulher só.

 

É o primeiro filho dele?

Sou o segundo.

 

Da segunda mulher?

Que não foi casada com ele.

 

Isso importou, marcou a sua história?

Marcou, porque era uma sociedade difícil. Uma sociedade que era dura para com um miúdo que tivesse no bilhete de identidade algo como “filho de pai incógnito”. Por lei, o meu pai não me podia perfilhar, porque era casado com outra mulher.

 

Sentiu isso como um estigma?

Eu achava que as pessoas distanciavam-se ou faziam chacota de mim, marcavam-me de uma forma que eu considerava injusta. O que é que eu tinha a ver com aquilo? Havia pessoas, desde vizinhos a conhecidos, que me diferenciavam. E até professores, e professores de Religião e Moral, que me diferenciavam na turma por causa disso. Talvez tenha gerado em mim alguma tristeza, mas, ao mesmo tempo, um desejo interior muito forte de procurar mostrar à sociedade que eu não era de segunda, não era fraco. E aí, o papel da minha mãe, do meu pai e da escola primária são muito importantes.

 

São estruturadores.

Sim. A minha mãe entendia que eu era brilhante, achava-me um menino de ouro; fez-me sentir que era capaz de fazer coisas. Com três ou quatro anos, ensinava-me as primeiras palavras, ensinava-me a ler e a escrever, e eu ia respondendo. Quando entro na primeira classe já sabia ler e escrever.

 

Era um menino bem comportado. Olhando agora: alimentava sobretudo um desejo de harmonia?

Universal?

 

Familiar e universal. O desejo de uma paz que reinasse no seu mundo, no seu ambiente.

Não acho isso. Nunca me incomodei que no meu ambiente não houvesse paz. Procurei construir a paz de dentro para fora, dentro de mim próprio e à minha volta. Percebi cedo que o mundo não é o paraíso: é uma escola. Estamos aqui para aprender.

 

E que funciona, e que rola, apesar da convulsão; é isso?

Sim, e que rola. Sinto-me, eu próprio, uma partícula de uma harmonia universal, de uma inteligência universal que respeito imenso. Hoje raciocino isto de uma forma mais consolidada; em miúdo, não seria assim. Vejo-me a desenvolver-me assim, a pensar-me assim. Pacifista. Bom, sem querer ser bonzinho. Algumas vezes percebendo que estava a passar por lorpa. Mas preferindo ser lorpa a ser velhaco, optando claramente. E não me importando que os outros me achem lorpa, se estou com a consciência tranquila.

 

Não se importar com aquilo que os outros pensam, dizem, a maneira como nos apontam, exige que dentro de si esteja bem.

Exige confiança em si próprio.

Que veio da minha mãe, quando me dizia: “Tu tens capacidade, tu vai, tu luta, tu faz”. Eu tinha 14 ou 15 anos e sentia-me capaz. Se quisesse fazer uma coisa que estava correcta e direita, podiam vir 500 pessoas contra a minha opinião. Não era conflituoso, mas sentia-me estruturalmente capaz de ficar na minha posição. E num Portugal salazarista. Nunca me meti na política, nunca andei a levantar a voz, a lutar contra fosse o que fosse, mas se um dia me obrigassem a ir para África, não ia. Não queria matar nem dar tiros a ninguém.

 

E a relação com o seu pai?

O meu pai, apesar de ter uma concepção de vida muito diferente da minha, sempre me respeitou. É um valor extraordinário. Os pais muitas vezes têm tendência de impor aos filhos aquilo que acham que é melhor. Tive a felicidade de ter um pai, que era um homem rico, que podia impor as soluções, e que não me impôs nada. Mais do que isso: que me admirou. Era um homem que gostava da noite e que tinha um filho que não gostava da noite. Um homem que era um liberal e que tinha um filho que era mais conservador. Foi muito importante perceber que o meu pai gostava de mim como eu era. Procurava dar-me condições para eu brilhar.

 

Ainda viveu com ele todos os dias?

Vivi. Sobretudo na adolescência e na parte final da vida dele. Ele faleceu quando eu tinha 21 anos, e ganhámos um compadrio muito grande. Nalgumas coisas ele tinha dificuldade em me entender.

 

Quais? Onde é que o seu mundo era para ele uma porta fechada?

Disse-lhe que sou homem de uma mulher só, tenho o maior respeito pela relação entre um homem e uma mulher. O que provavelmente não era o caso do meu pai. Quando era jovem percebi que o meu pai tinha receio que eu fosse homossexual.

 

Mas tinham, então, uma relação íntima. Só é possível falar disso quando há uma relação de verdadeira intimidade.

Sim, sim. Sobretudo a partir dos meus 14 anos, o meu pai construiu comigo, (não fui eu que construí com ele), uma relação muito bonita. A determinada altura percebi que ele tinha esse receio. Vivi momentos em que ele quase me punha à prova. Penso que se convenceu de que não era.

 

Ele pressionou-o quanto ao seu futuro?

Queria forçosamente que eu fizesse Farmácia ou Economia para me dedicar à empresa. Até porque o meu irmão mais velho quis fazer Engenharia Mecânica. Eu dizia que não, que queria fazer Medicina. Mas fui pensando naquilo, e tinha tanto respeito por ele, gostava tanto dele, tinha também respeito pela obra do meu avô, que ele estava a continuar…

 

E que também tinha morrido cedo. Há ciclos na família que de alguma maneira se reproduzem.

O meu avô faleceu com 61 anos, salvo erro, o meu pai com 50.

Ele pressionava-me. Quando terminei o curso do liceu – fui aluno do quadro de honra –, dois dias antes de me inscrever, pedi para falar com ele, muito formalmente. Para lhe dizer que tinha decidido ir para Farmácia. Há momentos que marcam a vida de um homem, e esse foi um deles. Quando digo que decidi fazer-lhe a vontade, ele levanta-se e dá-me um abraço, daqueles abraços apertados, beija-me e diz: “Não vais fazer Farmácia coisa nenhuma, tens de dar sequência àquilo que achas que é a tua vocação”. Desatámos os dois a chorar nos braços do outro.

 

É bonita a sua relação com o seu pai. E com os seus avós?

Só comecei a conviver com a minha avó quando tinha cerca de dez anos, e depois de uma forma mais assídua quando tinha 12, 13, 14. Entretanto o meu avô faleceu e não tenho memórias dele.

 

O seu avô era uma figura dominadora na família?

Sim. Era um grande patrão, um self made man. É filho de um merceeiro que começa a carreira como funcionário de uma farmácia. Tem ideias brilhantes, como abrir a porta às cinco e meia ou seis da manhã, para poder recolher as receitas das pessoas que vinham dos subúrbios do Porto. Padeiras, leiteiras, vendedoras do Bolhão. Receitas que ele ficava a aviar, de maneira a que as pudessem levar [nesse dia], (nas outras farmácias só no dia seguinte é que as entregavam). O patrão procurou recompensá-lo dando-lhe oportunidades.

 

A Bial nasce aí?

Ele é que teve a ideia de construir um laboratório por cima da farmácia para aumentar o negócio, e, depois disso, de construir um laboratório industrial. Quando arrancou com a ideia, em 1919, ainda estava com o patrão, o senhor Almeida; ele era o Álvaro. “Bial” é os dois “al“, do senhor Almeida e do Álvaro Portela. Quando em 1924 arranca com o negócio do laboratório industrial, já é ele sozinho.

 

Foi ele a fazer fortuna?

Sim. Era um homem que sabia encontrar soluções expeditas para ganhar dinheiro, mas também sabia gastar dinheiro. Nos anos 30 passeava-se num Cadillac descapotável de cor amarela.

 

Imaginava isso no seu pai, não no seu avô.

O meu avô era um homem narcisista, um novo-rico, que deixou imensas fotografias, que tinha uma atitude exuberante perante a vida. O meu pai, talvez pelos excessos do meu avô, era um homem discreto, simples, tranquilo. Coisa que eu terei herdado. O meu pai assumiu a postura da minha avó, que era uma grande senhora, serena, filha de um coronel açoriano de família tradicional. Embora tivesse o vício do tabaco. Nos anos 50, 60 não era vulgar uma senhora fumar um maço ou dois por dia, e a minha avó fumava. Não era vulgar uma senhora conduzir, e embora tivesse motorista, gostava de conduzir o seu automóvel.

 

E a sua mãe, como é que era?

Era interiormente muito forte, mas foi uma mulher que abdicou da vida.

 

Por causa do filho?

Por causa do filho. A minha mãe terá amado profundamente o meu pai e dedicou-se-lhe totalmente na pessoa do filho. Recusou várias propostas de casamento porque não queria dar outro pai ao filho que tinha, do amor da vida dela.

 

Ela falava consigo sobre essas coisas?

Algumas vezes. O meu pai e a minha mãe cortaram completamente a relação entre eles quando eu tinha três anos; mas a minha mãe entendeu manter-se fiel. Dedicou-se a ajudar o filho a crescer e a desenvolver-se.

 

Nunca teve uma relação com os seus meios-irmãos?

No princípio, não, só a partir da adolescência.

 

A Bíblia, que lê desde os 12, 13 anos, pode ser lida como um romance onde a família e as vicissitudes da família são narradas de uma forma empolgante. Já conhecia aquela conflitualidade, aquela pulsão… Mas ao mesmo tempo tinha o desejo de procura da verdade e de harmonia.

Acho que não seria isso. Lia a Bíblia na busca do que é que nós estamos aqui a fazer, tentando perceber a mensagem que Jesus deixou. E para mim, Jesus não tem de ser forçosamente Deus…

 

É um cristão sem ser católico?

Sou, pode dizer assim. Não me considero religioso, não sigo nem faço parte de nenhuma religião.

 

Cortou com os ritos da igreja católica?

Sim. Quando tinha 12 anos, pedi autorização da minha mãe para não ir à missa. Não me considero religioso, mas sou um fã incondicional de Jesus. Acho que é uma partícula de Deus, como todos somos. Se calhar é um dos melhores. Não me parece muito lógica a coisa de ele ser um privilegiado, de estar sentado à direita de Deus Pai. Há enormes figuras na história da Humanidade, como Buda, Krishna, ou, nos nossos dias, Nelson Mandela, Ghandi, Martin Luther King. Se Jesus é mais filho de Deus do que todos os outros, provavelmente será pela sua capacidade de fazer coisas bonitas, pela sua capacidade de amar os outros, e não por ser o filho dilecto.

 

Mas isso entronca na sua história, não? Isso de não haver filhos dilectos.

Pode ser, se quiser ver assim. O que me parece é que a justiça universal implica que cada um seja melhor por aquilo que faz, por aquilo que é, e não por aquilo que os outros dizem que é.

 

As pessoas procuram resposta para as grandes questões na religião e na ciência. Na sua vida, ainda que num modo indirecto, as duas coisas estão presentes. Digo indirecto porque a sua ligação à ciência não tem que ver com isto.

Tem, tem. É verdade o que está a dizer, mas quando resolvo ir para Medicina, faço-o para ajudar o outro. Havia duas maneiras: uma era apoiar, como médico, quem sofre. Outra era através da busca de esclarecimento. Noventa e tal por cento da Humanidade acredita que, para além do corpo físico, existe mais alguma coisa. Uns chamam-lhe alma, outros espírito. A ciência, há séculos que se divorciou de um estudo de fundo da actividade espiritual. Divorciou-se de uma série de fenómenos apontados, de escritos historicamente demonstrados, que não quis aprofundar.

 

É por isso que a Fundação Bial tem um espaço e uma bolsa para essa pesquisa?

É. Quando acabei o meu curso procurei especializar-me em Psicofisiologia, e ganhei uma bolsa para ir fazer o doutoramento na Universidade de Cambridge. Descobri lá um professor que também tinha interesse pelo tema; ele aceitou-me como estudante, e durante aqueles três anos eu não diria uma palavra de Parapsicologia! Senão, chumbavam-me!

 

Porquê?

Era uma universidade muito tradicional. Ainda hoje estes temas não são bem vistos, mas naquela época eram muito mal vistos. O que me interessava era dar algum contributo para o esclarecimento espiritual da Humanidade. Cada militante de uma religião acha que a sua é que é a religião da verdade; eu acho que todas as religiões são verdade, e que essa verdade será total quando todas as religiões confluírem nela. A nível científico é a mesma coisa. Infelizmente, quando a ciência não investiga, isso dá azo a muita exploração mercantil, misticismo, fantasia.

 

Receou que não o levassem a sério, ou pelo menos que o considerassem menos, academicamente, por causa da preferência por este assuntos?

Não, venham 500 ou 5000. Quando criámos a Fundação Bial, sabia que corríamos alguns riscos. Gostaria que a ciência pudesse demonstrar o que é verdade e o que é mentira, independentemente do que seja.

 

Gostava que fôssemos ao momento, definitivo na sua vida, subsequente à morte do seu pai.

Quando o meu pai faleceu ficou um farmacêutico, um homem da sua confiança, a liderar a empresa durante meia dúzia de anos. Havia a ideia de que o meu irmão, que é mais velho do que eu, pudesse ser o sucessor. Eu acalentava a ideia de ir para Cambridge, fazer a vida académica. O país vivia um período difícil; o meu pai faleceu em 72, veio a revolução de 74. Em 77, 78 tentava vender a minha posição na companhia.

 

Nesses anos, tinha dinheiro?

O período em que tive menos dinheiro foi até aos 10 anos, em que vivi com a minha mãe e os meus avós maternos. Eram pessoas de classe média, média-inferior, e os recursos da família eram menores. Quando aconteceu a revolução eu vivia do meu trabalho. Já estava a trabalhar na empresa desde 72. Durante esses anos, a empresa não distribuiu lucros, não estava numa fase ascendente, vivia num vermelho ligeiro. A empresa esteve para ser nacionalizada, tivemos comissões de trabalhadores que deram alguns problemas. Quem assumiu primeiro [a liderança] foi o meu irmão. O meu irmão dizia que o melhor era ficar só um (os nossos outros dois irmãos são bastante mais novos que nós). Que éramos dois galos para um poleiro.

 

Porque é que desistiu de ir para Inglaterra fazer o doutoramento?

Não me agradava ir sem conseguir vender a minha quota. Agradava-me mais a ideia de apostar na empresa, comprar a posição dos pequenos accionistas, adquirir a maioria e liderar. Ou então que o meu irmão me comprasse a mim e assumisse ele a liderança. Ele não quis comprar, achava que os tempos eram de grande desconforto político, económico, social. Terminei eu por comprar aos outros accionistas e a ele próprio [as suas participações].

 

É verdade que se endividou até à ponta dos cabelos para conseguir comprar 51 por cento?

Até à ponta dos cabelos. Vou-lhe falar a si pela primeira vez disto. O valor da amizade… Um amigo de família disse-me: “Você tem o dinheiro que quiser, empresto-lhe o dinheiro que precisar e não lhe cobro um tostão de juros”. Eu tinha algumas economias próprias, porque desde miúdo me habituei a aforrar. Tinha economias de família da parte da minha mãe, que me foram postas à disposição. E ainda a disponibilidade de alguns amigos e depois do banco. De maneira que me empenhei até à ponta dos cabelos. Desenhei um plano para pagar em seis ou sete anos, mas ao fim de uns três tinha tudo pago.

 

Era uma cartada em que toda a sua vida ficava em questão, empenhada naquela opção.

Não receei. Se calhar foi uma loucura, mas era um jovem de 27 que achava que se trabalhasse, se desse o melhor de mim, as coisas podiam resultar. Não tinha uma formação de base que me ajudasse, não era economista nem gestor, mas conhecia a empresa relativamente bem. Desde os 16 anos que o meu pai me obrigava a ir à empresa uma hora ou duas por dia para me pagar uma boa mesada. Entre os 27 e os 31 anos não tirei um dia de férias, não tirei um sábado nem um domingo para descansar. Foram quatro anos sempre a trabalhar. E muitas vezes estava no escritório até à meia-noite, e algumas vezes estava às cinco ou seis da manhã. As pessoas apostaram em mim, acreditaram em mim, perceberam que estava honestamente a dar tudo por tudo.

 

A sua personalidade e a sua entrega ao trabalho eram o seu capital próprio.

Não sabia se tinha talento mas dedicação tinha, e isso as pessoas perceberam. E perceberam que estava a fazer coisas que faziam sentido. Naquela altura, as empresas portuguesas apresentavam cópias; eu procurei licenciar novas tecnologias, novos medicamentos com empresas multinacionais para trazer para Portugal. A empresa nunca apostou nas cópias, como não está agora a apostar nos genéricos. E quando as coisas correram bem em Portugal, lançámo-nos para África, América Latina, Espanha. A empresa começou a crescer, e a rapaziada foi aderindo, foi sendo conquistada.

 

Esse sucesso é também um tributo ao seu pai?

Ao meu pai e ao meu avô. Mas não só: a toda a equipa Bial. Sempre tive uma postura de grande admiração, de grande carinho pela obra do meu avô, do meu pai, de todos aqueles que ao longo de 85 anos se dedicaram à Bial. A melhor forma de honrar o trabalho deles é procurar dar-lhe continuidade, melhorando aquilo que foi feito.

 

Nunca se pôs a questão: “E se isto corre mal, o que é que vou fazer”?

Ah, isso pôs, várias vezes ao longo dos anos, com certeza.

 

Podia sempre ser médico.

Quando me afastei da carreira clínica meti uma licença sem vencimento. Se as coisas corressem mal podia voltar a ser médico.

 

Chegou a exercer?

Cheguei, durante 3 anos, no hospital de São João, com muito gosto. E cheguei a dar aulas, de Psicofisiologia, também com muito gosto.

 

É um homem que gere um montante anual extraordinário, sobretudo agora, com a produção do anti-epiléptico. E é um homem que escreve um livro cujo título é “O prazer de ser”. Gostava de perceber melhor como é que vive esta dicotomia, Ser/Ter, e o papel do dinheiro na sua vida.

Quando era jovem sentia que o dinheiro era uma coisa que me importava pouco.

 

Tinha quase desprezo pelo dinheiro?

Não digo desprezo: fazia parte da vida. Lidar com dinheiro, não me interessava. Assim era e assim tem continuado a ser. Quer dizer: nunca na minha vida profissional fiquei importunado por ganhar muito ou pouco dinheiro. A minha vida profissional tem sido feita por objectivos. Quando na Bial procuramos lançar novos medicamentos à escala global, estamos a servir na área da saúde com o melhor que os portugueses podem oferecer e que nunca antes tinham oferecido. Isso é que é a força que profissionalmente me move.

 

Portanto, ser rico nunca foi um objectivo.

Nunca. Acho que a riqueza das pessoas é saberem estar na vida, saberem encontrar-se a si próprias, saberem aperfeiçoar-se, saberem acima de tudo conquistar outros, nomeadamente aqueles que são seus filhos ou amigos. Termos conta no banco, maior ou menor, para mim é absolutamente secundário.

 

Dá uma certa tranquilidade.

Dá muito jeito, com certeza.

 

O que é que deixa aos seus filhos? Foi uma escolha ter cinco filhos?

Quando casei, o meu ideal era ter entre seis a dez. Gosto muito de crianças. A mãe dos meus primeiros três filhos, dos meus filhos de sangue, teve um aborto, perdeu o quarto filho e optou por não ter mais. Quando, por força das circunstâncias que infelizmente nos bateram à porta, não fomos capazes de gerir a nossa relação, fazendo-a perdurar no tempo, e a interrompemos, surgiu-me outra pessoa na vida, que hoje é minha mulher, e que já tinha duas filhas. Procurei tratar essas duas meninas como se minhas filhas fossem, e tenho por elas um carinho como tenho pelos meus filhos, e também sinto que elas o têm por mim, como os meus filhos têm.

 

Ter uma relação cúmplice com eles é uma coisa de que se orgulha?

Não sei se é orgulho – não gosto muito da palavra; mas é uma coisa que me faz sentir interiormente feliz e realizado.

 

Parece uma pessoa solitária…

Nunca fui um indivíduo muito social, num tive um grande prazer em coisas mundanas. Sempre tive gosto em partilhar as minhas ideias com os meus amigos, meia dúzia de pessoas. Festas: foi coisa que nunca me atraiu. Poucas vezes fui a um baile. [Sorriso] Não sei dançar.

 

A sua cara muda quando sorri.

Obrigada.

 

Não é para agradecer. Mas fica muito diferente.

Digamos que fiz um percurso exigente. Quando as coisas começaram a melhorar, aproximei-me um bocadinho mais da sociedade.

 

A sua mãe ainda vive?

Ainda. Vive comigo, em minha casa. Vai fazer agora 88 anos. Ela entregou-se muito ao filho, e hoje sinto necessidade de a apoiar e minimizar o desconforto da velhice.

 

Quando recebeu a notícia de que iam produzir o anti-epiléptico, em quem é que pensou?

O anti-epiléptico não é uma notícia. Quer dizer, não se recebe como notícia, construiu-se ao longo de 14, 15 anos.

 

Mas há um momento que é detonador...

Quando uma empresa norte-americana – e os norte-americanos são muito objectivos e frios nestas coisas – se disponibilizou a pagar 175 milhões de dólares por entrar no negócio, (nem sequer era para vender ou comprar, era para adquirir o direito, durante dez anos, de comercializar em exclusivo nos Estados Unidos e no Canadá), percebemos que era um negócio em grande! Pensei sobretudo no meu avô e no meu pai. Pensei naquelas centenas de milhar de pessoas que ao longo de 85 anos trabalharam em torno daquele projecto. E pensei que tem sido bom partilhar a vida com a minha mãe, com o meu pai, com os tais professores mais exigentes, com os meus filhos, com a minha mulher.

 

Está casado há quanto tempo?

Há uma dúzia de anos. Posso parecer solitário, mas tenho uma companheira fantástica, uma mulher que é capaz de fazer despertar em mim aquilo que às vezes deixo apagar. Às vezes tenho uma postura um bocado humilde, talvez pela minha infância. A minha mulher fez-me despertar.

 

Um bocadinho como a sua mãe.

De uma forma diferente, mas talvez sim.

 

Fazendo-o acreditar em si, estimulando-o.

Fazendo-me acreditar em mim, estimulando-me.

 

Que idade é que tem?

57, quase 58.

 

Às vezes parece mais velho. Deve ser por ser sério.

Mas se vir fotografias minhas de miúdo e de adolescente, é uma cara tristonha.

 

Nunca se escangalhou? Já sei que nunca se irritou – li numa entrevista.

Não disse que nunca me irritei, mas são 30 anos em que nunca berrei para ninguém. Se calhar nunca me escangalhei.

 

Escangalhar quer dizer “sair de si”, “descontrolar-se”, “perder a cabeça”.

Apenas na minha vida particular. De criança gostava de ser assim: sereno, tranquilo, mais do que controlado. Não me interessa muito ser controlado, interessa-me ser intrinsecamente sereno. Uma pessoa que é serena não precisa de se controlar. Os 20 anos de karaté ajudaram a isso, a uma auto-confiança, a uma postura a que se chama controlada.

 

Escreveu abundantemente. É uma forma de se arrumar?

Talvez seja. Acho que a vida é um aprendizado permanente. Sempre gostei muito da comunicação. Tinha 14 anos e subi as escadas (o elevador estava avariado) até ao 7º andar na Rádio Renascença, no Porto, para perguntar o que é que era preciso fazer para ter um programa na rádio. Quando tinha 20, 21 deram-me essa oportunidade; desenhei, com um amigo, um programa que se chamaria “Simbiose”, entre música e palavras, que não chegou a ir para o ar porque exigiam que arranjássemos cobertura publicitária; não conseguimos arranjá-la. O meu pai nunca acarinhou isso: “Se queres fazer, faz por ti”,

 

Que outras coisas é que podia fazer ao domingo, se não escrevesse?

Dedicar-me à família, ler. Gosto muito de ler, de aprender, lendo, e depois conversar, partilhar com a família e com os amigos.

 

Quem é que lhe comprou essa gravata? É uma gravata Louis Vuitton.

Esta, já não me lembro. Normalmente sou eu ou a minha mulher. Uma vez ou outra os filhos oferecem uma gravata. Quando compro um fato de melhor qualidade, faço-o porque tenho gosto em me apresentar bem, limpo, e não de qualquer maneira.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Agosto de 2009

 

 

 

 

 

Alicia Gallotti

25.06.13

Do que se fala a seguir? De tudo o que sempre se quis saber sobre sexo e nunca se ousou perguntar. Da importância da penetração. Do orgasmo clitoriano. De relações sexuais imperfeitas e ainda assim satisfatórias, como os hambúrgueres. De repressão, vergonha, medo. Do sermos todos potencialmente bissexuais. Dos orgasmos impossíveis de Kim Bassinger no «Nove semanas e meia». Na confusão que frequentemente se faz entre sexo e sentimento. Do conservadorismo da nova geração. Do tamanho. Do encaixe perfeito dos animais. Da olhar para os outros e tirar-lhes o retrato sexual.

De isto se fala com Alicia Gallotti, autora de livros como «Kamasutra ilustrado» ou «Prazer sem limites» – só em Portugal, o conjunto dos seus livros foram comprados por centenas de milhar de pessoas. Nasceu na Argentina, vive em Barcelona. É jornalista, escreveu mais de dez anos para a Playboy, dedica-se, desde há sete, à edição de livros cujo assunto são as relações entre casal e as «melhores técnicas sexuais».

É uma mulher muito viva, que gosta de Edward Hopper e assume uma veia hedonista. Conversámos em sua casa, debaixo de uma ventoinha gigante, suspensa, no tecto. 

 

O que é uma relação sexual óptima? O que é ser bom na cama?

Esse tipo de afirmação causa bastantes danos. Se uma pessoa procura ser a melhor amante, que cada vez seja a melhor..., é como se a relação sexual fosse um exame em que é preciso passar! É o problema que a maioria das pessoas tem com a sexualidade. Quando se pergunta, por exemplo, quantas vezes se deve ter relações sexuais por semana, em lado nenhum se diz que deve ser três vezes, duas vezes, ou nenhuma. O que é bom na sexualidade é não procurar pontuações.

 

As pessoas vivem muito obcecadas com o desempenho.

Sim. E nós, mulheres, também. Os homens porque têm que demonstrar que são fantásticos, que têm todas as dimensões...

 

Dimensão e potência, é isso?

Dimensão e potência, as duas coisas. Como se isso fosse importante... E nós consideramos que temos de ser as meninas bem, divinas, sem pneus, e, além disso, amantes de fogo para que ele diga “não tive outra igual”. É uma obsessão! As mulheres não costumam perguntar, mas os homens, é frequente que perguntem se foi a melhor relação sexual. Imagine se foi pobre, o que é que vai dizer? “Sim, maravilhoso”?!

 

Radica em que a obsessão em querer ser o melhor, o inultrapassável?

Suponho que remonta à necessidade de ser querido. Procura-se que o outro diga que lhe deixou uma memória indelével. E nesse momento pode ser maravilhoso. O sexo é uma coisa natural, como comer, como dormir, é uma necessidade fisiológica. Quando come uma comida refinada, recorda-a toda a vida; mas às vezes come hambúrguer e também é bom.

 

É uma analogia interessante!

Se somos demasiado livres a comer, o pior que pode acontecer é engordarmos. Se somos muito livres na vivência da sexualidade, seremos mais livre como indivíduos, mas não é politicamente correcto na sociedade em que vivemos. A sexualidade foi cada vez mais controlada para se poder controlar também o indivíduo, através da reprodução...

 

O núcleo da questão é a liberdade, quer num sentido mais estrito e sexual, quer num sentido mais abrangente, que diz respeito ao indivíduo e à vida que leva?

Socialmente, há uma valorização negativa. Em 2004, no século XXI, se uma mulher vê um homem que lhe agrada e vão para a cama, quer tenha 20 anos, quer tenha 60, não é de todo bem visto. Se uma mulher vai para cama só por amor, tem muito poucas relações sexuais na vida! Está socialmente embutido: na mulher misturam-se os sentimentos e a sexualidade. Ás vezes coincidem, mas nem sempre têm que coincidir. E reprime-se a sexualidade.

 

O amor e o sexo são coisas separadas, mas quase sempre confundidas. Nos seus livros ou nas revistas, há uma linguagem cada vez mais explícita e uma detalhação do que podem ser as relações sexuais. Mas depois, no dia a dia, as pessoas são bastante mais reprimidas.

Nos meus livros nunca falo de amor. Nem tão pouco faço juízos de valor. Passou-se uma coisa curiosa: sexta-feira estive num casamento de uma amiga e apresentaram-me uma rapariga que era mulher de um amigo, (que conheci num jantar em casa da noiva e que no dia seguinte comprou os meus livros e os deu à mulher). Ela olhou-me como se eu fosse uma santa! Era jovem, tinha 32 anos, e dizia: “Obrigada, obrigada!, tínhamos umas relações sexuais muito más, e lendo o teu livro, descobri uma sexualidade que reprimia. Tenho uma amiga que tinha o mesmo problema e emprestei-lhe o livro”. É forte, que uma mulher com nível cultural elevado, 32 anos, precise de um livro para deixar-se ir... Há não muito tempo, uma rapariga de 20 e poucos anos agradecia-me porque graças ao meu livro tinha-se atrevido a masturbar-se e descoberto que era muito agradável – antes nunca se havia permitido fazê-lo.

 

Como é que se faz cair a repressão? Os fantasmas, os medos, todo o que corta a liberdade do indivíduo, é também aquilo que inibe a libido?

O principal órgão sexual é a mente. Começa em casa, na escola, as crianças pequenas tocam-se nos genitais com frequência. Se é rapaz, os pais comentam ao jantar: “o menino passa todo o dia... , vai ser um macho”; se é uma menina dizem-lhe: “não te toques, não faças isso, é sujo”. Tudo isto vai marcando. Se procura o oposto, rebela-se tendo muitas relações sexuais, que nem sequer serão boas, porque o fará para rebelar-se. Se não, reprime-se, fechará as perninhas... Porque é que há tanto tabu com o sexo oral, sexo anal? Na realidade, o único que é permitido é o sexo reprodutivo, dá-se uns beijinhos, há penetração e adeus. De vez em quando admite-se o jogo sexual, um pouco, mas é sempre com o compromisso de chegar à penetração. Quando não é absolutamente necessário.

 

Não?

Às vezes sim, às vezes não, não há que chegar a nenhum lado. Isso é o que as pessoas têm mais dificuldade em aceitar.

 

Que não há que chegar a algum lado?

Se não tem um orgasmo, pode ser bom na mesma. Noutro dia, tê-lo-á. Se ele nesse dia não chega a ejacular ou a ser super-fantástico, não é grave, porque desfrutou das sensações e das carícias.

 

Mas nos seus livros fala-se da importância do orgasmo. Não é muito sobrevalorizada? Quando se fala no «prazer sem limites» ou quando se fala no «caminho até ao clímax», fala-se como se houvesse um objectivo firme, e se esse não for conquistado há um defraudamento, uma sensação de incapacidade.

Claro... “Tenho qualquer coisa de mal que me impediu de atingir um orgasmo”. A mim deixa-me muito furiosa, o orgasmo. Nos anos 70, era a história se era vaginal ou clitoriano. Nós, as mulheres, sentíamo-nos desesperadas!, porque... vaginal, não havia maneira de ter um orgasmo.

 

Há ou não um orgasmo vaginal?

Não. A origem do orgasmo é o clítoris. O clítoris é muito pequeno, mas por dentro tem até seis centímetros, e aí produzem-se sensações que contribuem para esse estado orgástico. A vagina recebe todas as sensações que são transmitidas do clítoris. Se o parceiro, aproveitando esse momento, a penetra quando está em plena orgasmo, a mulher mexe-se como se estivesse a ter um [outro] orgasmo. Mas o orgasmo é clitoriano.

 

Ou seja, o orgasmo que pode envolver toda a zona, é desencadeado pelo clítoris.

Além do mais, a vagina não tem assim tantas terminações nervosas. É sensível às sensações, nada mais.

 

Essa era a questão nos anos 70. Estamos em quê, agora?

No multi-orgasmo, no ponto G e na ejaculação feminina. Ejaculação feminina, não existe, mas aparece em todas as revistas que há mulheres que no momento do orgasmo têm mais secreções que outras. Então, claro está, se não tem uma ejaculação, estará mal!, se não tem 27 orgasmos continuados...

 

Mas sabe que continua a haver pessoas que pensam que orgasmo múltiplo é um orgasmo que acontece, ao mesmo tempo, no clítoris, na vagina, no ânus...

E nas orelhas, não? O homem convence-se de que, se é bom, a mulher terá um orgasmo múltiplo. Tem então que trabalhar, como um operário na construção, e ela chega um momento em que se farta, acabará fingindo um orgasmo interminável, gritando como uma louca para que a história se acabe, ele não se frustre e ela não se sinta mal.

 

Há pessoas que não chegam a sentir nada, de tal modo inibidas. Ficam fixadas na ideia do desempenho e não chegam a relaxar, a desfrutar, a sentir.

Se se vai para a cama assim, completamente tensa, é certo que não poderá sentir nada. Entrevisto mulheres perguntando sobre fantasias sexuais e há um amplo sector que diz que nunca teve. Coisa completamente impossível: um sonho é uma fantasia sexual e tem que o ter, pelo menos um ou dois. A fantasia é mais desbocada e desmedida que a realidade. O atractivo das fantasias é esse: são ilimitadas, não chegam a nada nem a ninguém, pode-se fantasiar o que se quiser. Então, é tal o pânico, a repressão que negam.

 

Acha que têm vergonha em confessar?

Não é a mim que estão a enganar quando lhes pergunto. Creio que têm sonhos e fantasias, mas que o negam a tal ponto que não o recordam.

 

Li num dos seus livros que a fantasia mais comum entre as mulheres é fazer sexo com desconhecidos. Porquê? Porque os desconhecidos não conhecem a sua história anterior, não vão fazer juízos? Porque aí o afecto não entra e trata-se de sexo puro e duro?

Que é aquele sexo que a mulher tem tanta dificuldade em permitir-se.

 

Existe sexo puro e duro, na sua opinião?

Sim. Sexo, atracção física. Costumamos dizer: uma relação sexual com amor é muito melhor do que sem amor. Às vezes, o que é melhor, é justamente o amor e a vontade de demonstrar ao outro quanto o quer, quanto a atrai. Mas é também isso que faz que a relação sexual seja mais complicada do que com alguém a quem se diz: “aqui te agarro, aqui te mato”...

 

«Aqui que te agarro...»?

Aqui diz-se: “aqui te agarro, aqui te mato”. Quer dizer que é rápido. Na fantasia da relação com um desconhecido, ela deixa-se levar, ele deixa-se levar, desfrutam como loucos e adeus, cada um para seu lado e ninguém perguntará nem saberá nada. É o prazer proibido, também.

 

No cinema as poses são muito artísticas, as pessoas parecem ter um prazer intensíssimo; mas, olhando bem, são situações impossíveis. Anatomicamente, ninguém pode ter um prazer intensíssimo naquela posição...

Repito isto muitas vezes: parte da má educação sexual que temos, advém do cinema, tanto o comercial como o pornográfico. Kim Bassinger no “Nove Semanas e Meia”: não pode ter nenhum orgasmo. É tudo muito passional: ele agarra-a, empurra-a contra a parede, penetra-a... Bom, uma mulher que não tem lubrificação não pode ter um orgasmo. Nos filmes pornográficos, é o mesmo, os corpos e as posições parecem divinos, os pénis são descomunais, sempre rígidos... A senhora faz-lhe sexo oral e 12 segundos depois é penetrada? Não há orgasmo, nem por acaso! Passa-se o mesmo na publicidade, onde não há um bocadinho de gordura, celulite... Se esse é o corpo ideal, podemos suicidar-nos em massa.

 

O complexo de inferioridade por causa do tamanho do pénis pode comprovar-se, por exemplo, em muitos homens que quando vão a mictórios públicos, não fazem à frente de outros porque não ousam olhar para o lado e constatar que o outro é maior.  

Seguramente.

 

Os homens são mais inseguros em relação à importância do tamanho que as mulheres? Elas valorizam menos a questão do tamanho?

Inseguríssimos! Mas como é que vão fazer? Se houver reencarnação, não quero vir a ser homem. Toda a responsabilidade que pesa sobre eles na sexualidade, é imensa.

 

É verdade que os homens que têm um sexo muito grande são amantes menos dedicados? Porque não têm, ao contrário dos menos abonados, que se empenhar tanto nos jogos preliminares?

Eu acho que ter um pénis muito grande é um problema. É como ter um pé demasiado grande: se não houver um sapato grande, não entra, não é?

 

Mas a vagina não é suficientemente elástica para acolher qualquer tipo de pénis?

Sim, mas se há tamanhos de pénis, também há tamanhos de vaginas. É verdade que são elásticas, mas há vaginas que são mais curtas, ou um pouco inclinadas e o pénis ao entrar provoca uma dor imensa e não há prazer. A vagina é elástica a ponto de deixar passar uma cabeça de bebé, mas quanto tempo está uma mulher a dilatar até que passe uma cabeça de bebé? Outra coisa que parece importante em relação aos pénis grandes: até que ponto nós, as mulheres, somos cúmplices dessa sexualidade que não nos convém. “Estive com um fulano que tem um pénis...”, como se fosse fantástico. Esta mulher está a mentir, como os homens que contam aos outros que deram sete numa noite.

 

Então, anatomicamente, o que é que conveniente?

Importa ter uma boa boca ou uma boa posição. A posição sexual mais utilizada no mundo inteiro é a do missionário: um em baixo, outro em cima, de modo a que haja uma impossibilidade humana de a mulher se mexer durante a penetração! O melhor é uma posição sexual que permite que a púbis ou o pénis do homem rocem o clítoris da mulher. Senão, há as mãozinhas de ambos para ajudar, ou a boca, ou outra parte do corpo.

 

Assim sendo, qual é a importância da penetração?

Cultural. Além de dar prazer, não lhe tiro o valor no prazer. A importância, creio, nasce da procriação. O comer, respirar, dormir, caminhar, não têm que ver com a reprodução; a sexualidade, sim. Actualmente há as inseminações artificiais, mas até aqui a procriação dava-se com a penetração. Portanto, havia que fomentá-la, torná-la importante.

 

Há quem pense que as lésbicas recorrem sempre a vibradores e a outro tipo de objectos de penetração, e que encontram nisso uma maneira de substituir a presença masculina.

Evidentemente que em termos de constituição estamos feitos para combinar: um tem uma coisa que sai e outro tem algo em que se pode entrar. Mas acho que não é uma questão constitutiva, mas uma questão de procurar prazer. Uma mulher heterossexual também usa vibradores e não necessariamente vaginalmente. É uma visão muito heterossexual imaginar que é substitutivo. Em geral, os homens lidam muito mal ou com muita atracção o lesbianismo.

 

Escreveu que é a fantasia mais recorrente dos homens é ver duas mulheres a fazer amor.

Consideram sempre que uma mulher é lésbica porque não encontrou um macho que a satisfaça ou porque teve uma má experiência. O problema é atribuir sempre valorações. Na realidade devíamos viver como os animais. Se vir a sexualidade, por exemplo, de um cão e de uma cadela, fica fascinada. Fazem-no muito bem, e ninguém lhes disse que o sexo é sujo ou que têm de gostar um do outro. Há todo um jogo de sedução muito atractivo: ele aproxima-se da vulva dela e quando parece que a vai penetrar, afasta-se. É como um baile de prazer, pode demorar todo o dia. Como a sexualidade tântrica, voltam ao jogo erótico, voltam, voltam, até que num momento há penetração.

 

O jogo sexual trata da relação de poder entre duas pessoas?

Na sociedade competitiva em que vivemos, em que tudo é para ganhar, então sim, é ver quem pode mais, quem é mais passional. Senão, o jogo sexual é o jogo em si mesmo, é a busca do prazer pelo prazer. E que termina como termina.

 

Quando as pessoas vão para os bares numa atitude de caça, o que procuram é esse prazer sexual que tem que ver apenas com o corpo ou procuram sentir-se poderosas, conquistadoras? Como se fosse tão estimulante o processo que conduz à conquista, como depois, mais especificamente, o prazer sexual que têm.

Sim, pomos na sexualidade todas as nossas afirmações como indivíduos. Alguém que se sinta afirmado como caçador põe muito mais empenho em caçar que na relação sexual. No dia daquele casamento, saiu-se para uma rua cheia de prostitutas de alto nível. Havia uma nua, com um corpo espectacular, sapatos de salto alto e uma bolsinha. Um amigo dizia que não entendia a prostituição porque o que lhe dava mais prazer, em qualquer relação sexual, era a conquista; se pagasse, a sedução seria falsa.

 

A prostituição pode ser lida como uma luta e afirmação de poder? Há um que compra outro, que tem posse dele, que pode fazer dele o que quiser.

Isso é o reflexo da sociedade. Que cada vez haja mais prostituição, é a necessidade do “eu quero, eu pago e tu fazes o que eu quero”, coisa que, evidentemente, agrada a mais pessoas do que as que o admitem. Porque economicamente move uma quantidade de dinheiro brutal. Essa é outra coisa, pergunta a qualquer mulher ou homem se pagam por uma relação sexual...

 

E todos dizem que não...

Em troca, pense nos cifrões, na quantidade de dinheiro que se movimenta na prostituição.

 

Sobretudo a prostituição, mas também o uso da pornografia não são coisas assumidas. São consumidas de modo vicioso, com uma aura de proibição, de pecado – que é uma palavra de que ainda não falámos. A matriz religiosa condiciona muito o nosso comportamento sexual?

Claro.

 

Porque é que as pessoas não dizem “eu consumo pornografia”, “eu consumo prostitutas”? Porque é um atestado de menoridade, de inferioridade? Significa que não se conseguiu conquistar uma pessoa, que foi preciso pagar para a ter?

É isso. Aqui está muito em moda, nos reality shows, a prostituta. A menina modelo que na realidade é prostituta de luxo. Então explicam técnicas: como vão a uma discoteca ou jantar, como olham para um carro...

 

E para eles, qual é o ganho?

O valor para o grande empresário ou político é que são modelos, actrizes de segunda, tem um pouco de nome. É uma prostituta um pouco mais adornada, é uma cortesã. A prostituta fina sai nas revistas do coração, é um valor acrescentado ao seu poder. E isso mostra aos outros homens que querem deitar-se com ela: «quem paga sou eu, e tenho-a».

 

Fala disto quase com repugnância...

Não por uma questão moral. Que cada um siga a sua vida como quer e escolha a profissão que lhe dê na gana. O que é tremendo é que se continue a utilizar o sexo para segurar paredes que se estão a derrubar na vida de cada um.

 

Como é que será essa relação sexual? Será um assunto coital?

Se ela descobrir que quanto mais grita, mais dinheiro ele lhe dá, pois gritará como uma louca. Enquanto isso estará a pensar: “amanhã, com o que ele me pagar, compro uns sapatos ou uma mala”. Ele pensará que a faz chegar ao céu e, ao chegar a sua casa, recebê-lo-á a mulher... Sigo todos os documentários e entrevistas sobre sexo e até hoje as prostitutas continuam a dizer que o que lhes pedem é o que não podem ter ou não têm com as suas mulheres: sexo oral, sexo anal, aquela fantasia em que ela se disfarça de anjo ou de médica e o revista. Tudo o que é mais lúdico é o que vão pedir à prostituta. Gente jovem, não só gerações de 60, 70 anos. Conheço um rapaz de 40 anos, solteiro, de uma classe económica alta, vai à missa ao domingo; às quintas-feiras sai com os amigos, em grupos de quatro ou cinco; jantam e depois, um pouco tocados, vão a bares que em cima têm quartos. Por fim, voltam a casa, “olá querida”... A história repete-se, continua tudo igual. A única coisa que mudou é que agora se verbaliza mais e há uma aparência de liberdade.

 

O que é que mudou com o aparecimento da sida? Continuamos a ouvir prostitutas dizer que muitos clientes se recusam a usar preservativo. É claro que depois vão para casa infectar as mulheres.

O preservativo é também uma questão geracional. Trabalho bastante com um rapaz amigo que tem 38 anos e falamos sobretudo sobre os gays; pergunto-lhe: “então uma relação sexual com ou sem preservativo...?”, “não tenho ideia como é sem, a minha geração não concebe ter uma relação sexual, homossexual ou não, sem preservativo”. Outro dos problemas é que o heterossexual acredita que é o rei do mundo, tanto o homem como a mulher, que todos os males e todos os horrores são para os homossexuais e bissexuais.

 

Pensa que somos todos potencialmente bissexuais?

Sim.

 

Mas até que idade somos potencialmente bissexuais e quando é que escolhemos um caminho? Como é que se faz essa definição da orientação sexual?

Nisso estou de acordo com o que diz [o relatório] Kensey: que a sexualidade é um vasto leque que vai da heterossexualidade à homossexualidade e que uma percentagem muito reduzida fica num ou noutro extremo – se não houver pressão cultural. Por outro lado, a maior percentagem oscila entre a homossexualidade e heterossexualidade. Desde muito pequenos, recebemos uma educação tão marcada pela necessidade de definição que custa muito ser livre. Os bissexuais, agora está um pouco melhor, mas foram excluídos por ambos os grupos. Desgraçadamente, parece que esta sociedade necessita de delimitar. Tudo o que não se pode delimitar cria conflito, porque dá medo. Isto passa-se com tudo.

 

Numa cidade como Lisboa é cada vez mais evidente a assunção da homossexualidade, sobretudo masculina. Como vivi numa cidade mais fechada e provinciana do norte, o Porto, esta diferença foi para mim flagrante quando me mudei. Era visível nos supermercados, nas ruas, nos restaurantes.

É certo que a homossexualidade é mais aceite do que há trinta anos. Também é certo que é aceite uma homossexualidade estereotipada, estigmatizada, o gay que usa plumas. Mas o gay que tem um look como os outros, que fala como os outros e que não pode ser isolado, esse não está integrado. Da mesma maneira que a lésbica mais aceite é a camionista. Se há miúdas que não têm nenhum traço masculino, super-arranjadas, essas causam muito mais conflito.

 

O que é tão ameaçador que faz que sejam olhados com desdém ou indiferença?

O que provoca medo é o contágio, no fundo.

 

Que o outro nos faça ser como ele é?

Sim. Qual é o grande terror dos heterossexuais homens ou mulheres? O que é que acontece se tiver uma relação com outra mulher e gostar? Muda a minha vida ou não? Imagine que se trata de uma senhora que tem uma relação sexual má com o parceiro, mas que gosta muito dele, e um dia surge uma oportunidade... Porque é que muitas vezes não se deixam levar nessa relação? A sexualidade é de tal modo que se se liberta, abrem-se comportas brutais que obrigam a reorganizar a vida. Creio que esta é a sensação que as pessoas têm. Por isso se reprimem, por isso há tanto medo do contágio do bissexual, do homossexual ou da pessoa muito liberal.

 

Ou seja: reconheço-me nestas características, isto é o que eu sou. E se agora descubro que sou outra coisa, o que fazer com isso?

Acho que é isso. Mas acho também que se vivêssemos numa sociedade mais aberta, não teria que ser assim. Em países onde a Igreja não tem o peso que tem em Espanha ou Portugal, as pessoas vivem a sexualidade com uma naturalidade e uma liberdade que é francamente ideal.

 

Mas podem os que têm herança católica prescindir do prazer do pecado?

Estamos estão educados nisto que, claro, temos que ir por aí. Mas não faz sentido para quem não foi educado assim.

 

Ouvimos histórias de pessoas que têm uma vida familiar organizada, heterossexual, e que depois têm relações homossexuais, com prostitutos ou não. Isto é o quê? Bissexualidade? São homossexuais que nunca chegaram a viver plenamente a sua orientação e se organizaram na heterossexualidade?

Creio, pelo que conheço, que são mais, muitos mais, estes últimos – homossexuais que para serem admitidos pela sociedade têm uma vida dupla – do que bissexuais.

 

Há fórmulas para bom sexo?

Não há fórmulas. Isso é que é tremendo e maravilhoso no ser humano, ainda que se procurem continuamente fórmulas. O ideal não existe, mas buscamos uma relação com uma pessoa com quem nos entendamos, nos sintamos bem e, além disso, com quem comuniquemos bem, tanto verbal, como sexualmente.

 

Fala muito do «cume do prazer»? Que definição é que tem para isso?

É parecido com a morte. Há um filme chamado “Matador” que tem uma mistura contínua de morte e sexo. Acho que quando a pessoa se deixa levar de verdade, são uns segundos em que está como se não estivesse, não sabe onde está, perde a noção do espaço, do lugar do seu corpo, de tudo. É morte, inconsciência, êxtase. No fundo, na religião cristã foram os primeiros a descobrir o prazer, com os êxtases que tinham os santos do passado.

 

No «Guia dos Adolescentes» faz uma divisão por fases. Apesar dessa gradação, a aprendizagem e a vivência da sexualidade obedecem a um padrão constante? Uns serão sempre mais desajeitados que outros? Uns terão sempre mais vocação e apetência que outros?

Se vive num lugar onde as pessoas se tocam, a mãe faz mimos, o teu pai tem uma relação fluída com o afecto, se quando a apanham a masturbar na casa de banho não lhe chamam suja, seguramente terá muitos pontos ganhos na aprendizagem da sexualidade. Se, por outro lado, o ambiente é mais repressor e subtil, terá que fazer um trabalho pessoal mais forte. Mas eu acredito que as pessoas podem introduzir mudanças na sua vida sempre. Basta que o desejem realmente. Por exemplo, falo muito no «Guia dos Adolescentes» sobre a primeira vez; toda a gente conta que foi maravilhoso, como a lua-de-mel que foi maravilhosa, e são coisas horríveis! O que digo é que o mais provável é ser horrível, mas que não se preocupem, que depois vai melhorar à medida que se vai tomando atenção ao que acontece.

 

Lançou recentemente em Espanha um guia para os gays e para lésbicas. Como é que constrói estes livros? Que tipo de pesquisa faz?

Tenho uma mentalidade muito jornalística, (fui jornalista até 99), trabalho sempre com investigação, entrevisto grupos de pessoas, faço entrevistas individuais, entro em fóruns O que funciona melhor são os mails. Envio e-mails, tenho uma agenda grande e peço que o reenviem, aquelas pessoas que não conheço são as que me contactam com o que realmente interessa.

 

O que é interessante é que as respostas mais verdadeiras vêm de pessoas que estão completamente livres para responder. São mais verdadeiras porque as pessoas se libertam de todos os arquétipos sociais.

Não há empecilhos. Antes de começar a fazer estes livros, há sete anos, mais ou menos, fiz uma investigação sobre as relações sexuais em Espanha. Estive três meses a investigar e entrevistar. E aí, com os meus amigos – só consigo fazer estas coisas com o apoio dos meus amigos –, descobri que o que me respondiam não tinha nada a ver com a realidade daquelas pessoas. Fulano que tinha muitos problemas com a sua mulher, que nunca tinha relações sexuais, a mim tinha-me dito que tinha uma vida sexual fantástica, três ou quatro vezes por semana! Percebe-se.

 

Quando olha para as pessoas, tira-lhes o retrato sexual? Pensa: esta talvez seja homossexual, mas ainda não sabe; esta de certeza que gosta de relações de dominação...

Fiz isso a vida toda. Não sei quando comecei, mas já na adolescência, quando conhecia alguém, pensava que atitude teriam nas relações sexuais. Depois de terminar o secundário, sentia coisas e quando perguntava às minhas amigas se sentiam o mesmo, elas diziam sempre que não. Eu pensava: “sou uma coisa raríssima, sou do pior, vou para o Purgatório”. Depois, quando as minhas amigas se casaram, falámos disso: “quando me perguntaste se já tinha começado jogos sexuais, já me estava a meter na cama!”. Penso sempre, sempre quando vejo uma imagem, como é essa imagem quando se despe. Não posso falar com alguém sem pensar como será a sua vida sexual.

 

Está corada! Acha que a pessoa revela mais intimamente a sua essência na relação sexual?

As que sentem, sim. Os que são reprimidos, também. Acho que é um dos momentos em que sai mais autenticamente como cada um é. Às vezes saem coisas que não controla ou que antes não conhecia ou não sabia. Isso provoca muito medo. Então é mais fácil ir pelo que dita a sociedade do que deixar-se levar.

 

Como é que isto se transformou no centro da sua vida? Como é que aprendeu tanto sobre o sexo?

Tive uma educação invulgar. Somos três irmãs, sou a mais velha. A minha mãe casou-se muito jovem e teve-me de seguida. Como vinha de uma família de muita repressão, eu fui educada como se educa agora as crianças, não como se educava há 55 anos. Não dormia a sesta, não tinha horas para tomar banho... Em minha casa, não sei porque estranho motivo, sempre se falou muito de sexo, com muita naturalidade. Além do mais sempre tive uma sexualidade muito activa, evidentemente,

 

Posso perguntar que idade tinha quando iniciou a sua vida sexual?

Sozinha ou acompanhada?

 

Das duas maneiras.

O meu descobrimento da sexualidade aconteceu pelos cinco anos e meio, seis. Recordo a minha descoberta das sensações, porque foi quando nasceu a minha irmã. Mudámos de casa e lembro-me de jogos eróticos com os irmãos das minhas amigas, com as minhas amigas. Quando tinha 17 anos a minha mãe separou-se do meu pai e voltou a casar-se com um médico. A este médico interessava muito o tema da sexualidade. Sentava-me no meio da sala, como um guru, e as minhas amigas à volta perguntavam: “a mulher frígida, é o quê?”, e eu explicava-lhes casos. Já havia perguntado ao meu padrasto, uma vez que ele percebia do assunto, e deixavam-me ler todos os livros da biblioteca.

 

Era estigmatizada?

Era e horrorizou-me muito. Hoje não sou, trato de me proteger. O que mais impressiona quando olho ao redor é que há miúdas, de 16, 18 anos, filhas de pais muito liberais, que dizem prontamente: “fulanita é uma puta, mete-se na cama com um qualquer...”. Como podem ser pessoas abertas se continuam a utilizar este rótulo? E são jovens, muito jovens.

 

Os rapazes olhavam para si como uma rapariga fácil?

Creio que sim, creio que sim. O que me horroriza. Horroriza-me que no século XXI se pense assim. Há dois anos, 90% dos jovens responderam num inquérito que preferiam que a sua noiva fosse virgem! O mito da virgindade está muito valorizado e não há nada que pareça fazê-lo mudar. Nos anos 60, imaginava uma mudança muito profunda, agora penso que morro antes que haja uma mudança realmente profunda.

 

Começou a dar aulas às suas amigas explicando o que é a frigidez, e depois? Como é que a sua vida profissional se focou no sexo?

Nunca quis ser sexóloga. Podia ter estudado psicologia porque, isso sim, interessava-me. Comecei a fazer jornalismo, a escrever numa revista com algum destaque na Argentina. Falava disto de que estamos a falar agora, do comportamento de conquista, da importância da intimidade, das relações entre homens e mulheres, e tive muito êxito Quando vim para cá, fui à Playboy; o director editorial era argentino, “Alicia Gallotti, eu lia-a na Argentina”.

 

Como é que veio para Barcelona?

Com a ditadura militar. A revista fechou e passou a sair com outro nome. Eu escrevia sobre a relação entre casais mas também sobre política, era um pot-pourri de temas, nada convencional. Sequestraram o director, o irmão do meu parceiro da altura tinha desaparecido, comecei a ser proibida na televisão estatal e na rádio estatal. Era um momento político muito complicado...


A sua mãe, o seu pai, o seu padrasto sentiam embaraço junto de outras famílias porque escrevia sobre sexo?

O meu pai era um homem moralista, rígido, de direita. Quando me tornei conhecida, um dia disse-me: “porque é que não sujas o apelido do teu marido em vez do meu?”. Já não me dava bem com ele, era mais um elemento... Passados uns meses, dei ao meu pai um cheque assinado por mim, tinha-me emprestado dinheiro e devolvi-lho. Ele foi à drogaria da esquina, pagou com o cheque e o senhor disse: “Alicia Gallotti? É a sua filha?”, e o meu pai disse: “Sim!”. A partir daí ficou encantado!, todo o bairro dizia: “ah, é o pai de Alicia Gallotti”.

 

Gosta muito de sexo?

Sim. Gosto muito dos prazeres da vida: gosto muito de comer bem, gosto muito de dormir bem e gosto muito de ter relações sexuais. Sou muito hedonista.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2004

 

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