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Anabela Mota Ribeiro

Ler escritoras-jornalistas

28.12.13

E em Janeiro, vamos Ler no Chiado com Ana Margarida de Carvalho ("Que importa a fúria do mar"), Ana Sofia Fonseca ("Como carne em pedra quente"), Raquel Ribeiro ("Este samba no escuro") e Susana Moreira Marques ("Agora e na hora da nossa morte").

Ou seja, com escritoras que vêm do jornalismo. 

Dia 9, às 18.30, na Bertrand do Chiado.
Eu modero. 
Ler no Chiado é uma iniciativa da revista Ler e da Bertrand, todos os meses, na loja do Chiado.

Maria José Morgado

19.12.13

Do que falámos? Dos mecanismos da corrupção, “velha como o mundo”. De Portugal ser “o campeão das Parcerias Público Privadas”. O que há nelas?, corrupção ou esbanjamento de dinheiro públicos?

Do “país de funcionários públicos” que somos, onde o dinheiro do Estado, o empregador, o animal perigoso, foi tratado “como se não fosse nosso”.

De obras públicas. “ Em Portugal têm uma regra: as derrapagens”.

De coisas absurdas. “O bater das asas de uma borboleta no tribunal pode provocar um atraso de 15 anos num processo. A simples falta de um toner pode provocar uma prisão preventiva.”

De a justiça ser o bombo da festa, de se assistir a uma tabloidização da justiça.

Falámos da existência de raters terroristas. Onde está a solução?

Não falámos do neto que está para nascer, nem do marido, o fiscalista José Luís Saldanha Sanches, falecido há um ano. Ainda que estes apareçam no discurso. Quando se fala do ciclo da vida. (Versos de Sérgio Godinho: “E o sol, como é costume, foi augúrio de mudança, sãos e salvos, felizmente…”)

Maria José Morgado foi considerada a mulher mais poderosa do país. É responsável pelo DIAP. Nessa manhã, como sempre, fizera uma hora e meia de ginástica. Mens sana in corpore sano. Fez 60 anos. 

 

 

Como é que isto se endireitava?

Essa é a pergunta pior de todas, porque não há um único remédio. Não há um elixir. Lugar comum: precisamos de um país empreendedor, de gente com garra, capaz de emergir do choradinho e do fatalismo. Temos de reconhecer que há dois países. O que vive sob a capa da protecção do Estado, que nunca quis fazer nada, e o país da luta, da inovação. Se esse país emergente conseguir rasgar caminho e impor-se sobre o país da lamúria, algum dia nos endireitaremos. Mas não vai ser tão cedo, há um caminho longo a percorrer.

 

Quando lemos textos antigos, de romancistas a historiadores, percebemos que isto que vivemos parece inscrito no ADN colectivo. Esta propensão para o fado, para o queixume, este estar à beira do precipício.

É ler o Portugal Contemporâneo do Oliveira Martins – está lá tudo. A dependência das famílias do Estado. Toda a gente querer arranjar emprego no Estado para ter segurança. Ninguém querer arriscar. Não haver empreendedorismo.

 

Porque é que lidamos mal com o risco?

Não gosto de falar sobre o país. É um tipo de retórica que não me pertence. Gosto de perceber o país naquilo que diz respeito à minha profissão. Pegando na sua pergunta, vou dar-lhe uma resposta de historiadora, que não sou: nunca fizemos a Revolução Industrial. Nunca tivemos um desenvolvimento tecnológico e industrial que desse força ao mercado. Como o mercado não tem força, a sociedade e as empresas habituaram-se a depender excessivamente do Estado. O Estado [converteu-se] num empregador. Temos um país de funcionários públicos. Essa é a verdadeira tragédia portuguesa. Agora que não há dinheiro, e chegou o FMI, e não tomámos mais cedo as medidas que o FMI nos obriga a tomar…

 

Mais cedo, quando?

Devíamos tê-las tomado voluntariamente, proactivamente, antecipadamente. Pelo menos dois ou três anos antes. Agora que a receita chega, percebe-se que o nosso problema é esse. Não há livre concorrência. Não há um culto do mérito. Da ética. Mesmo a ética na governação.

 

A confiança dos políticos está nas ruas da amargura.   

Foi preciso chegarmos a uma situação dramática, como a actual, para se começar a sentir a necessidade de um discurso da ética. Isto tudo foi enfraquecendo o país, enfraquecendo a vontade das pessoas, enfraquecendo a massa crítica. Funciona como um mecanismo corrosivo, a puxar-nos para trás. É como se tivéssemos umas argolas de ferro que não nos deixam avançar.

 

Estava a ouvi-la e a pensar que essa podia também ser a descrição para o fenómeno da corrupção.

A corrupção é uma faceta de um país pobre. A corrupção que vem da pobreza produz ainda mais pobreza. Amortece os mecanismos da livre concorrência, ou apaga-os completamente. Apaga o mérito. Apaga a capacidade de correr riscos. Cria dependência. Voltamos ao mesmo: ao Estado. O Estado como sector gigantesco – um animal perigoso, como já alguém lhe chamou.

 

Um exemplo dessa dependência.

Não se pode fazer nada, não se pode abrir um negócio, sem a assinatura de alguém na administração pública.

 

Ou uma palavrinha.

As duas coisas. A palavrinha antes da assinatura.

 

Sabemos que há as grandes negociatas e sabemos que há a pequena corrupção (“dê lá um jeitinho”, “meta lá o rapaz”). São próprias do país pobre que somos?

Uma questão prévia: a corrupção é sempre instrumental. Se as pessoas não são honestas, a corrupção medra. Mas ela vai instalar-se em todos os níveis da sociedade e do Estado. Temos corrupção aos mais variados níveis. Temos o chamado speed money – a pequena corrupção junto da administração pública.

 

Coisas como pôr a pasta no cimo de uma pilha de processos?

Apressar a decisão. É a corrupção directa, imediata, e que tem dois sujeitos. O passivo, que é quem decide, e o activo, que é o interessado, que vem de fora, e tem um problema para resolver. Isso é velho como o mundo. Nos países do terceiro mundo é endémica, viral. Quer porque os funcionários públicos ganham muito pouco, quer porque são pouco qualificados. Quer porque não há códigos deontológicos, quer porque não há fiscalização. Acontece por apodrecimento das próprias estruturas. As instituições ficam vulneráveis.

 

Depois, há a corrupção da grande golpada.

Uma corrupção fabulosa, multifacetada, que nunca acontece numa ligação directa. Acontece por contratações. Adjudicações. Contratações sem concurso. Grandes decisões a respeito de aquisições de bens e serviços para o Estado. São actividades que o Conselho de Prevenção contra a Corrupção considera de risco agravado. Decisões importantes que movimentam grandes lucros para determinadas empresas. Se não houver competência, transparência, respeito pelos dinheiros públicos, podem acontecer fenómenos de grande corrupção.

 

Acontecem, como sabemos. As parcerias público-privadas (PPP) são, potencialmente, um dos maiores cancros?

As PPP à portuguesa – elas existem em toda a Europa, mas Portugal é o campeão das PPP – são uma espécie de renúncia ao mercado da livre concorrência, em que o Estado dá determinados ganhos a determinadas empresas – acabam por ser sempre as mesmas – com todas as vantagens para o interesse privado e com todas as desvantagens para o interesse público. O que significa para nós milhões e milhões de prejuízo no futuro.

 

A expressão mais constante: hipotecar as gerações futuras.

Hipotecar a riqueza futura. Isso está explicado no livro do Conselheiro Carlos Moreno, que analisa muito bem os mecanismos perversos e nefastos para o erário público das PPP. São, em geral, más decisões, em que parece que o interesse do Estado não foi devidamente protegido. Não é que eu tenha alguma coisa contra o interesse particular. Mas quando há um contrato, tem de haver equidade. Muitas vezes, essas PPP traduzem-se numa desigualdade ilegítima em relação aos dinheiros dos contribuintes. Produziu-se obra, mas essa obra tem atrás de si prejuízos gravíssimos que vamos ter de pagar com sangue, suor e lágrimas.

Quando falamos de más PPP, não sei se houve corrupção no sentido típico do termo. Mas sei que houve esbanjamento do dinheiro público.

 

Isso é um outro crime?

Pode não ser crime. Mas pode envolver responsabilidade financeira. Temos é de ter a noção que todo o esbanjamento de dinheiro público, a incompetência ao nível das decisões (dos altos cargos políticos), a falta de prestação de contas públicas, cria um plano inclinado. Viscoso. Que nos empurra fatalmente para fenómenos de corrupção. Porque criam oportunidades! Se não há controlo, se há incompetência, se há esbanjamento… Se há alguém que vê a oportunidade de ganhar dez vezes mais do que seria justo… O que devemos exigir é que os negócios do Estado sejam escrutinados.

 

De que maneira?

Devia existir um portal onde fosse possível acompanhar todos os gastos com contratações do Estado. Um portal onde o Estado presta contas sobre a maneira como gasta o dinheiro do contribuinte. O mal é termos tido durante tantos anos – e falo do passado – governantes que tratavam o dinheiro do Estado como se não fosse nosso. Se fosse o dinheiro deles já tratariam de maneira diferente. Quando, ao nível da opinião pública, se levantavam vozes a esse respeito, isso era tratado como se fosse um justiceirismo radical. Estamos a ver agora que quem fazia denúncias há seis, sete anos, infelizmente teve razão antes do tempo.

 

Está a falar das derrapagens das obras públicas?

Casos emblemáticos: estádios do Euro 2004. O meu marido [Saldanha Sanches] e eu fomos crucificados por atitudes anti-patrióticas. Por denunciarmos o despesismo e o esbanjamento do dinheiro público com a construção daqueles estádios. Agora, até já há estádios à venda. Os estádios transformaram-se numa corda de enforcar das autarquias. E do contribuinte.

 

O mais difícil é encontrar uma obra cujo orçamento não tenha derrapado.

As obras públicas em Portugal têm uma regra: as derrapagens.

Não sei se é por incompetência dos gestores públicos se são outros fenómenos. A Casa da Música, que é uma obra belíssima, teve uma derrapagem de 300%. Mas o túnel do Terreiro do Paço…, e outras. 

 

Chegamos a uma encruzilhada. Há anos que as pessoas se queixam do despesismo. Há anos que se ouve dizer que a lei é boa, a aplicação é que falha. Há anos que as pessoas se sentem desmoralizadas porque, apesar dos rumores, todos os grandes processos parecem dar em nada.

Acho que não chegámos a uma encruzilhada. Estamos sempre a chegar a encruzilhadas. Na encruzilhada ainda há escolha. Agora é pior. Ou caímos no abismo ou conseguimos salvar-nos do abismo. Na Justiça temos um problema sério que nunca é agarrado, que é a gestão e organização dos tribunais. Trabalha-se muito, há gente muito dedicada, há condenações, há acusações, há até resultados (não são proporcionais aos desejáveis; quando são, não são conhecidos). Mas temos ao nível do funcionamento da máquina judiciária irracionalidades e aberrações que davam para fazer um museu do desperdício dos dinheiros públicos. O nosso grande problema é pensar que fazemos reformas com leis. Há leis boas e há leis más, e há uma grande sobreposição de leis. Acontece que não temos gestão e organização que nos permita funcionar de forma moderna. Nem sequer temos um sistema informático verdadeiro!

 

Tem computadores – esses são visíveis. Está a dizer que os processos daquele edifício em frente…

Os processos estão todos em papel.  

 

E não têm uma relação com os computadores deste edifício?

Com os computadores, não têm. Têm com os processos que saem deste edifício. Saem em papel daqui para o tribunal de julgamento. Cada tribunal é uma base de dados, que trabalha em sobreposição, e, como tal, não trabalha em rede. Um magistrado – não por razões supérfluas, mas de serviço – se precisar de aceder a dados de outros processos que estejam noutros tribunais, não pode fazê-lo. Não temos rede informática internamente. Mas também não temos entre Ministério Público e as polícias. Os processos transitam em papel com toda a morosidade que isso representa. Não há inter-operabilidade – que é uma palavra que os políticos adoram – entre os diversos sistemas. Toda a gente adjudicou a uma empresa a construção do seu sistema informático. O que é que isto representa?

 

Inoperabilidade? Desperdício?

Desperdício monstruoso dos dinheiros públicos. E maior morosidade, ainda. Ainda! Como não estão criados os interfaces, esta não é a tecnologia do automatismo do trabalho. O magistrado não tem culpa disto. A polícia também não tem culpa disto.

 

Alguém há-de ter a culpa disto.

São culpas políticas. Estas decisões foram tomadas ao nível governamental. E não estão previstas em nenhum código penal. Não temos um crime de gestão política danosa. Podíamos ter – tenho um colega que muito estimo que é defensor dessa incriminação.

 

Carlos Moreno defendeu que os políticos fossem responsabilizados…

Responsabilidade financeira. Essa está prevista. Acontece que as auditorias do Tribunal de Contas, que são muito competentes, não têm conduzido à condenação em julgamento dos responsáveis financeiros pelas más decisões. O TC faz as auditorias, detecta os problemas, mas depois tem de ser o Ministério Público a fazer a acusação e a apresentar o arguido a julgamento. Isso não tem acontecido as vezes necessárias.

 

Tudo o que descreve parece muito desengonçado. Como um corpo que não está articulado.

Ou um carro com rodas quadradas. É preciso empurrar muito, empurrar muito, de vez em quando anda um bocadinho, depois pára outra vez. Nunca desliza. É um corpo sem cabeça, sem braços, sem pernas. Como se fosse uma paramécia. Mas as paramécias ainda têm alguma unidade… [riso]

 

A Justiça em Portugal é isso?

Não. As pessoas gostam muito de atirar as culpas para os ombros dos magistrados e vão para casa muito felizes e dormem descansadas. Isso não é bom para ninguém, nem é correcto. Em matéria de gestão, organização e informatização, de arquitectura dos tribunais, os magistrados não têm uma palavra sequer.

 

Essa decisão é tomada pelo Ministério da Justiça. Em última instância, o responsável é o Ministro da Justiça.

Com certeza. E Governo. E verbas para o efeito… No DIAP de Lisboa trabalham 200 e tal pessoas. Interagimos com os órgãos de polícia criminal. A contabilidade que permite o nosso funcionamento não é da nossa responsabilidade. Não temos autonomia financeira. O Ministério da Justiça é que define qual a fatia de verbas que nos afecta. Tenho de manifestar as necessidades, fundamentá-las e quase implorar [que nos dêem meios]. Tenho uma autonomia com mão estendida. Evidentemente tenho que fazer muito com pouco. Os funcionários não dependem da disciplina nem da hierarquia dos magistrados; dependem do conselho dos oficiais de justiça, que decide a sua colocação e medidas disciplinares. Ou seja, eu nunca sei com que funcionários posso contar. Dentro do próprio ministério da Justiça há sobreposição de organismos com funções semelhantes para a administração da máquina judiciária. Tudo isto produz um fenómeno de desculpabilização mútua.

 

A culpa morre solteira.

Mas é que morre mesmo. Porque está diluída por um aracnídeo de responsáveis. E cada um tem apenas um bocadinho dessa responsabilidade. Nunca responde pelo resultado final. O bater das asas de uma borboleta no tribunal pode provocar um atraso de 15 anos num processo. A simples falta de um toner pode provocar uma prisão preventiva. De quem é a responsabilidade deste preso preventivo? A falta do toner implicou que a fotocopiadora não funcionou naquelas 48 horas. O secretário teve de pedir o toner à direcção geral da administração da justiça, esta teve de pedir a verba a não sei quem, depois não sei quem a mais não sei quem... Ninguém teve culpa.

 

E ficamos completamente enredados na teia.

Isto é uma teia muito latina em que não se pede contas a ninguém, ninguém responde por nada. Eu respondo por aquilo que faço. Um juiz, quando assina um despacho, responde por aquilo que assinou. Estamos metidos numa máquina em que há muitas pessoas a responder por partículas de decisões, e não pela decisão na sua totalidade.

 

Imagine que explicava isto à troika…

Eles devem ter sabido.

 

Li um artigo no qual se dizia que quiseram saber como funcionava a Justiça em Portugal. Responderam-lhes que não era possível explicar e açambarcar tudo isto, tal a complexidade. Então afunilaram e quiseram saber como se fazem as insolvências.

Tiveram razão, porque é importante para a economia. É preciso começar por algum lado. Quando vai descer uma escada, não desce os degraus todos de uma vez, senão fica politraumatizada. Temos de descer os degraus um a um.

 

Depois da sua explicação, que me deixa aterrada…

Não devia deixar. Se entrar no portal do Ministério da Justiça perceberá a variedade de organismos e a variedade de competências para tratar da variedade de assuntos. As pessoas gostam mais de se aterrarem do que de se informarem. Tornou-se fácil no país transformar os juízes e o Ministério Público no bombo da festa. Também é verdade que temos culpas. Podíamos ter feito coisas de maneira diferente. Mas começou-se a reforma pelo telhado. Começar pelo mapa judiciário é começar a reforma pelo telhado. Vai ser uma tragédia, porque não há funcionários, nem magistrados, nem dinheiro. O mapa judiciário é uma bandeira a brilhar no horizonte. Uma bandeira que não alcançamos.

 

Repito a minha primeira pergunta: como é que isto se endireitava?

Estamos melhor agora do que estávamos há dez anos. Tenho 30 e tal anos de magistratura, e estamos melhor. Mas há coisas que não mudaram. Passámos a ter computadores – para substituir a máquina de escrever e para ter uma base de dados em casa sítio de trabalho. Como é que isto se endireita? Não vai encontrar uma resposta. Ou encontra, e será uma resposta pouco séria. Só nos resta lutar e trabalhar. Endireita-se lutando e trabalhando.

 

Precisamos de uma estratégia, para pôr a máquina a funcionar num determinado sentido, para lutar e trabalhar num determinado sentido.

Na justiça cível é ultra-prioritário o controlo da acção executiva, alguma velocidade, capacidade de fazer execuções e ressarcir os credores. Na justiça penal os problemas são diferentes. No sistema anglo-saxónico há uma gestão por objectivos no combate ao crime. No sistema continental, até há pouco tempo não havia prioridades de investigação de política criminal. É uma política com um fosso enorme em relação à prática.

 

Na prática, é preciso escolher.

Na prática, uma comarca que recebe mais de 65 mil inquéritos por ano, como é o caso do DIAP Lisboa, não pode despachar tudo. Na panóplia de ameaças criminais, quais são as que devem ser atacadas primeiro? Se ler a lei, vai ver que são prioritários praticamente todos os crimes do índice do Código Penal.

 

Se são todos…

… não é nenhum. Objectivos? Findar mais processos do que aqueles que entram. Princípio vital para não acumular e haver produtividade. Sabe como é que se estabelecem as prioridades? Por força da natureza das coisas, os presos e os processos em risco de prescrição. Politicamente, alguém responde por este sistema de prioridades? Na prática, nós, que estamos aqui, no terreno, como é que podemos responder? 

 

Vivemos num clima de impunidade.

Há uma percepção de impunidade na opinião pública, que é diferente dos resultados. Porque há condenações.

 

A opinião pública é bombardeada com casos mediáticos. 

É bombardeada de forma irregular. Conhece os casos sonantes que não são a radiografia do dia-a-dia dos tribunais.   

 

Nesses casos, normalmente, ninguém acaba preso. A montanha pariu um rato. Fica-se num perigoso sentimento de desconfiança em relação à justiça.

Pode haver um défice de prisões em relação a certo tipo de ameaças criminosas graves. Se quisermos falar de forma quantitativa, não há uma proporcionalidade entre as acusações e as condenações. Mas reajo mal quando me falam de “quem é que está preso, quem é que não está?”. Entramos em concepções totalitárias. Deixámos de fazer as condenações necessárias para repor os valores sociais que foram violados com os crimes? E é isso que mantém o ensinamento às pessoas do que é certo e errado. Na corrupção essa é uma falha sistemática. Para dizer o seguinte: as pessoas usam a análise crítica estatística para não fazerem a análise crítica. A estatística é o fim das ideias. A estatística é o mundo a preto e branco. Se deixámos de fazer a justiça possível e exigível? Em alguns momentos, talvez. Mas aí a discussão é substantiva. É uma discussão a doer.

 

O que é que quer dizer com isso?

A sociedade portuguesa não tem o hábito de lidar com estes conceitos. E a comunicação social ainda menos. Assistimos a uma tabloidização da justiça. Uma tabloidização que nós permitimos (nós, magistrados). Interiorizámos que não devíamos falar. Acho que o magistrado não deve falar por protagonismo. Isso é um desvio grave e censurável. Mas deve falar por humildade e para explicar porque é que falhámos, ou o que é que estamos a fazer, ou uma certa forma de prestar contas. Sair da redoma para voltar à redoma. Porventura nunca aprendemos a fazer isso – o que constitui um problema. Depois é a pasta fora do tubo. E quando falamos, já ninguém ouve o que dizemos. A missão do magistrado é resolver os problemas das pessoas, com a maior isenção que conseguir. Fazemo-lo processo a processo, e não de uma vez só. Porque um magistrado não é um revolucionário. E não pode instrumentalizar a justiça com o fim de transformar a sociedade.

 

Frequentemente é isso que a opinião pública espera dos magistrados: que se transformem em justiceiros. Que sejam aqueles que corrigem os desvios.

Não pode esperar. Isso é produto da crise de valores. Da crise da ética na política, na vida em sociedade. Concentrou-se no mundo judiciário toda a exigência de ética, confundindo ética com legalidade. Se todos os dias despacharmos os processos que temos de despachar, estamos a mudar o mundo. Mas é de uma maneira não-espectacular.

 

Vivemos a crise de valores, as pessoas sentem-se perdidas, o país está numa fase agónica. Procura-se no outro um grande gesto, que salve.

Espera-se um milagre e a redenção. Mas essa não é a função da justiça. A função da justiça é reparar o mal feito. E já não é pouco. Não sei se as pessoas estão perdidas. Têm de ter a ideia de que elas é que são o país. O país não é uma abstracção. O país é o que cada um de nós faz. Por isso falei do país emergente e do país que está sempre à espera de umas migalhas do Estado. Mas isso vai acabar. Já acabou.

 

É o anunciado fim do Estado social?

Não chamemos nomes ao Estado social. Eu estava a falar do Estado parasitário. Empregar a família inteira na Câmara é Estado parasitário. O Estado social tem de ser defendido. Ainda mais na miséria e no desemprego, que é uma angústia social imensa. Todos nós temos de estar dispostos a fazer sacrifícios para isso. Com a falência, esse Estado que conhecíamos, próspero, que dava protecção a toda a gente, acabou. E quem vivia à custa dele vai ter de lutar pela vida. Mas isso é uma coisa boa. Uma boa parte das famílias portuguesas depende do Estado. E uma boa parte das empresas também depende de contratos do Estado. Como é que isto pode ser? É a subsídio-dependência. E não temos um pensamento de interesse público.

 

O entendimento é o de o Estado não somos nós.

Mas somos, somos.

 

Vox populi: isto está mau, e vai piorar. Partilha desta opinião? Há quem tema assistir à mendicidade, à explosão da raiva social.

O aumento do desemprego causa-me um sofrimento grande. É um estigma terrível. Famílias inteiras desempregadas, pais sem ter que dar aos filhos, sem a menor dignidade social. A desigualdade geracional é enorme. A minha geração ainda conseguiu comprar casa, pagar a casa. (Tivemos uma política que fez de todo o português um proprietário de imóvel… Não era meu desejo, sequer, mas não havia mercado de arrendamento). A minha geração ainda pôde ter sonhos. As novas gerações, os que têm 15 anos ou menos, não sei se vão poder sonhar. Ou se vão conseguir lutar e ter resultados dessa luta.  

 

Os que têm 25 anos e acabaram o curso e se dizem à rasca manifestaram-se na avenida. Esses já diziam que não podem sonhar. Uma das bandeiras da manifestação era a luta contra a precariedade. Como se continuassem a desejar o que, para os seus pais, era um dado adquirido.

Era um paradigma com o qual é justo sonhar. Estive nessa manifestação para ver bem quem lá estava. Estavam muitas pessoas da minha idade. E estive com a minha mãe, que tem 87 anos. Não arredámos pé, até ao fim. É um mundo em mudança. Sabe quando olhamos para uma água turva e não se vê nenhum reflexo? É como estamos agora. É melhor perceber que há mudanças grandes, que há sofrimento que vai acompanhar estas mudanças. Mas quero acreditar que da mudança e do sofrimento vai sair alguma coisa boa. Costuma ser assim – na química, na física, na natureza. O pior de tudo é querermos ter uma visão límpida das coisas. Não vamos conseguir.

Esses jovens: percebo-os, sem saber explicar porquê. Gostava imenso que conseguissem vencer. Nos meus dias de trabalho, esse pensamento acompanha-me. Gostava de lhes ter deixado um mundo melhor. Se calhar não conseguimos. Lutar contra a precariedade não é lutar por acomodação na vida, mas por ter um lugar ao sol. Vencer, ter sucesso. Custa-me imenso o futuro sem futuro.

 

Em 1982/83 quando o FMI esteve cá, já tinha esta profissão – perseguir o crime. Antes disso, e mais colado a isso, há a sua actividade política e o desejo de construir um futuro com futuro. O ânimo era muito diferente do que encontra hoje, novamente com o FMI?

Muita coisa mudou. A globalização, as redes sociais, as tecnologias de informação. Mudaram os factores de socialização. Agora, eu facebooko, logo existo. 

 

Está no Facebook?

Não. Não tenho tempo.

 

Eu também não.

Não facebookamos, logo não existimos! [riso] As pessoas têm maneiras diferentes de pensar, reagir, concepções diferentes do mundo. Nos anos 80 havia grandes dificuldades. Mas o país não estava na União Europeia. Havia a chamada ilusão monetária, que funcionava como varinha mágica de solução para as crises financeiras. Essa varinha mágica agora não existe. Temos de pensar global. Num sistema fiscal europeu comum, num sistema financeiro europeu comum. As fronteiras acabaram. 

 

Esta semana falava-se da necessidade de criar um Ministério das Finanças europeu. E da urgência de criar agências de notação europeias. 

Acho que sim. E reforçar os mecanismos de supervisão. Sem isso…

 

À escala, pelo menos, europeia?

Devia ser à escala global. Toda a crise financeira que vivemos começou com um capitalismo selvagem e com a desregulação completa do mercado financeiro. Tem de haver entidades supervisoras fortes. Essa é que é a questão. Não é se as raters são boas ou más. Toda a crise do subprime, a falência Lehman Brothers, o rebentar do mercado financeiro como o conhecíamos são uma consequência de se pensar que havia uma mão invisível que regulava o mercado. Que o mercado se auto-regulava. Nada mais falso.

 

Mas uma vez que isso não existe, quem manda agora são as agências de rating? Os bancos? Os políticos?

Se calhar não manda ninguém. Há rater terrorista. Resulta do amolecimento dos factores e das entidades de supervisão. Em Portugal, julgo que a CMVM e o Banco de Portugal terão noção disso e defenderão políticas de reforço dessa supervisão. Mas isto é uma fase. Não sei quando passaremos à fase seguinte. Nem qual é a fase seguinte.

 

O país está mais deprimido agora do que nos anos 80? António Jorge Gonçalves fez um cartoon para o Inimigo Público. A Grécia aparecia à pedrada, a chumbar as medidas que lhe queriam impor. Portugal aparecia famélico, roto, de chapéu na mão, a pedir boleia para o Algarve.

É que nós temos sol de Abril a Novembro. As pessoas estão sempre muito deprimidas. Mas assim que vem o bom tempo, vai tudo para a praia, fica tudo contente. O desemprego é que não desaparece com a praia.

 

Há um ano foi considerada pelo Expresso a mulher mais poderosa do país.

Foi uma partida, para as pessoas fazerem troça de mim. [riso] Mas como tenho sentido de humor, não levo a sério. O que revela alguma saúde mental.

 

Não sente que tem muito poder?

Não tenho nenhum. Nem quero ter.

 

Está a fazer género?

Não. Tenho a gestão do DIAP, que é bater com a cabeça nas paredes todos os dias. Mas tenho o dinamismo das pessoas que trabalham comigo, que é gente com garra e que quer findar mais processos do que aqueles que entram. A minha força é a força deles, e da polícia.

 

Vêem-na como a justiceira, aquela que enfrenta poderosos. 

Não é verdade. Intriga-me o retrato que as pessoas fazem de mim. Sou estupidamente disciplinada. Se me atrasar cinco minutos num almoço é uma tragédia – não é bom. O que faço não tem nada de especial. O meu marido era igual. Sempre fizemos os dois a mesma coisa. Vim para o Ministério Público para tentar ajudar a resolver os problemas das pessoas. Mas nem sempre se consegue. Como os médicos nem sempre conseguem salvar as pessoas.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011

 

 

 

 

Copenhaga

19.12.13

Karen Blixen

É verdade que a primeira associação a Karen Blixen é o início de Out of Africa, e a voz de Meryl Streep a dizer: “I had a farm in Africa…”. Mas antes de ser queniana, Karen Blixen é dinamarquesa, e tem uma casa no campo, a 20 km de Copenhaga. Foi aliás nesta casa que viveu até morrer, em 1962, e a que regressou depois de passar 17 anos em África. O que é possível ver? A casa museu deixa entrever o espírito da escritora, o seu local de trabalho (onde escreveu todos os seus livros famosos), o rasto da paixão e da passagem pelo Quénia. Os jardins circundantes são encantadores. 

www.karen-blixen.dk

 

Arne Jacobsen

Talvez não conheça o nome de Arne Jacobsen, mas é provável que já tenha visto, pelo menos, uma das suas cadeiras famosas. A mais estilizada parece um ovo – chama-se, justamente, egg chair. A outra chama-se ant porque parece uma formiga, e é confortabilíssima (e uma das cadeiras mais vendidas do mundo). Jacobsen nasceu no início do século XX e morreu em 1971. É considerado um dos pais do design escandinavo, foi também arquitecto e desenhou têxteis. Assinou peças de linhas irrepreensíveis, com preocupações ergonómicas, que se tornaram clássicos do mobiliário.

 

Museu Louisiana

Os mais fanáticos consideram o Louisiana o mais bonito museu do mundo. É uma peça de arquitectura soberba, a um palmo do mar, com árvores frondosas do outro lado da rua. Madeira e vidro são os elementos dominantes do edifício, que acolhe maravilhosas exposições de arte moderna e que tem uma colecção permanente respeitável. Picasso ou Louise Bourgeois fazem parte. Há esculturas de Giacometti ou de Henry Moore a confundir-se com as árvores e os visitantes no jardim. Para chegar lá: o mais fácil é alugar um carro, sair de Copenhaga, avançar pela estrada secundária, espreitar as casas de fins de semana. É muito perto.

www.louisiana.dk

 

 

Malene Birger

A mais reputada criadora de moda dinamarquesa dá pelo nome de Malene Birger. Peças essenciais: vestidos glamourosos, tecidos esvoaçantes, românticos, materiais confortáveis, apontamentos étnicos. Roupa para usar todos os dias, com um toque de sofisticação e feminilidade. Boa proporção qualidade preço. A flagship store, em Copenhaga, é especialmente bonita.

www.bymalenebirger.com

 

Christiania

Uma experiência social, um estado independente, e livre de constrangimentos morais e convenções burguesas, Christiania é um bairro que quis ser um mundo à parte. A história começou nos anos 70, com o movimento hippie e inspiração em slogans como peace and love. Mas também drugs and rock and roll. Não foi preciso muito para que a zona de experimentação e o excesso anarquista ficassem associados ao consumo de drogas e a uma certa marginalidade. A recuperação do bairro é relativamente recente. Há cafés, restaurantes e galerias e um ambiente que não se respira em mais nenhum ponto de Copenhaga.

 

10 tópicos imperdíveis em Copenhaga:

1-  Comer peixes fumados com mostarda, em especial arenque. Têm um sabor intenso, por vezes avinagrado, e são excelentes. As almôndegas são uma espécie de prato nacional. Acompanhar com cerveja, claro. A sede da Carlsberg vê-se de todo o lado.

2-  Italiano para Principiantes é um divertido filme que confirma que os dinamarqueses são os italianos do norte (ou seja, mais expansivos, afectuosos, sociáveis que os seus vizinhos suecos, finlandeses ou noruegueses). Rodado em 2000, é uma boa introdução ao mundo dinamarquês.  

3-  Atravessar a Öresund, a ponte que mergulha no mar, e que liga Copenhaga a Malmö, na Suécia. É uma fabulosa obra de engenharia, que tem via para automóveis e para comboio. É a maior da Europa, e um túnel como qualquer outro (não, não se sente que se está debaixo de água). http://uk.oresundsbron.com

4-  Comer brunch ao fim de semana num dos muitos cafés da cidade. Entre no Café Stelling, desenhado por Arne Jacobsen nos anos 30. Experimente também o Café Norden, um café de esquina, com sofás e mesas corridas no primeiro andar. Como todos os cafés dinamarqueses, tem espaço, jornais e revistas para ler, mesas com grupos de amigos. Óptimo ambiente.

5-  Se se olhar para a história do cinema, aparece nas listas dos melhores filmes de sempre Ordet, do realizador dinamarquês Carl Dreyer. É um filme a preto e branco, sonoro, que trata de um milagre. Encontra-se à venda facilmente. A crentes e não crentes, A Palavra (título português) comove até às lágrimas. 

6-  Circule de bicicleta. Alugam-se por toda a cidade (é só depositar a moeda e andar). É uma cidade plana, ideal para pedalar e andar a pé. O número de ruas pedonais é considerável, e anda-se mais de bicicleta do que de carro.

7-  Hamlet, o príncipe da Dinamarca, imortalizado por Shakespeare na peça homónima, tinha o seu castelo em Elsinore. O castelo é visitável e vale a pena. Fica a norte de Copenhaga. O que se avista das ameias do castelo é deslumbrante.   

8-  Ir a Copenhaga e não ver a Pequena Sereia é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. É normal que sinta um certo desapontamento – é especialmente pequena, reclinada sobre um rochedo. Há até quem passe e siga sem dar por ela. Mas outros consideram que a delicadeza da estátua é consentânea com o carácter desamparado da heroína do conto de Hans Christian Andersen.

9-  Peter Hoeg e Lars Saabye Christensen são dois dos autores dinamarqueses mais celebrados da sua geração. Peter Hoeg é um fenómeno desde que lançou nos anos 90 Smilla e os Mistérios da Neve (que vendeu mais de dois milhões de exemplares e foi considerado pela Time livro do ano; Billie August levou-o ao cinema). Ambos estão traduzidos em português.

10-      O Rei Cristiano X, reconhecido pela resistência feita aos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, é um dos elementos mais estimados (e memoráveis) da família real dinamarquesa. Ao contrário de membros de outras famílias reais, não se exilou durante a guerra, e ficou com o seu povo até ao fim dos seus dias, em 1947. Terá comentado com o seu secretário: “Se os nazis obrigarem os judeus dinamarqueses a usar a estrela de David, todos nós teremos de a usar”. Uma forma de solidariedade com aqueles que seguiam em massa para as câmaras de gás.  

 

 

Publicado originalmente na revista Máxima. 

 

 

 

Madrid

18.12.13

Tudo, ou quase tudo sobre Madrid, está nos filmes de Pedro Almodovar. Estão lá prostitutas de nome “Agrado”, freiras toxicodependentes, escritoras de romances cor de rosa que são trocadas pela melhor amiga, mães que se julgam mortas e que afinal não estão, António Banderas antes do salto para Hollywood, Penélope Cruz antes e depois do Óscar da Academia, uma mulher que toureia e que é membro da famosa família Flores (o Quique que passou pelo Benfica é primo). Tudo a “cores de Almodovar”, como lhes chama Adriana Calcanhotto.

Estão lá mulheres, à beira de um ataque de nervos e outras, muitas mulheres, estão travestis, estão homens ausentes e canalhas. Está uma certa movida madrileña, pelo menos desde os anos 80.

Almodovar faz o retrato do país contemporâneo, do país que delira com flamenco, touradas, tortilhas, do país das mulheres que passam o domingo a limpar a campa dos antepassados.

Indispensável para perceber a cidade e o país. 

 

Há quem vá a Madrid de propósito para ver As Meninas, de Velásquez. A tela, gigante, está disposta no museu do Prado e não é raro ver pessoas comovidas até às lágrimas perante a intensidade dramática da obra maior de Velásquez. Mas As Meninas são apenas uma entre muitas e poderosas razões para visitar esta jóia da coroa. A colecção permanente integra uma série imbatível de obras dos grandes mestres espanhóis. Ver uma reprodução de Goya não se assemelha a ver uma tela ao vivo – o impacto é imenso. Ou as já citadas Meninas. Ou os quadros magníficos de Ribera, Murillo ou El Greco. Como é que tamanha concentração de talento aconteceu em Espanha? São séculos de ouro da pintura num museu que Paula Rego disse estar entre os seus preferidos.

 

Quase tudo se passa entre as calles Serrano (onde está a YSL e a Prada), Ortega y Gasset (Chanel, Dior, Bottega), a Claudio Coelho (Miu Miu e Louboutin) ou o callejon Jorge Juan (onde está, por exemplo, a nova coqueluche da moda francesa, Isabel Marant).

O bairro de Salamanca é um bairro de luxo, per supuesto, por onde apetece passear sem pressas. Não se espante se se cruzar com Matilde Mourinho ou com Isabel Presley. Dress code: bailarinas, Birkin ou Chanel no braço, cabelo bem tratado e maquilhagem qb. Não se esqueça que fecham para a siesta, entre as duas e as quatro. Aproveite também para descansar. Vai precisar de energia para continuar…

 

O Mercado de San Miguel é uma espécie de monumento nacional, onde se compram vitualhas para o jantar, fruta e legumes viçosos, bares onde se come tapas e bebe cerveja, bancas com produtos gourmet, vendedores que dão sábios conselhos, e cantos onde uma dona de casa desesperada de nome Eva Longoria dá entrevistas junto a uma marca de frigoríficos (aconteceu recentemente). A dois passos da Plaza Mayor. Diz-me o que comes (e o que compras), dir-te-ei quem és: o mercado é uma maneira fantástica de vislumbrar o quotidiano dos madrilenos.

www.mercadodesanmiguel.es

 

 

As Pretty Ballerinas não podem estar mais na moda. Foi aberta recentemente a primeira loja em NY. Vendem-se também, por exemplo, no elegante bairro de Belgravia, em Londres. A marca é desenhada pelo espanhol Jaime Mascaró, que assina também uma linha com o seu nome. Um dos modelos mais famosos tem uma espécie de flor de camurça à frente; também as há de verniz ou leopardo. E outras, menos bem comportadas, com uma boca desenhada a baton ou o pequeno bolso onde cabe um preservativo (que é que lhes passou pela cabeça?)! São confortáveis e mais resistente do que parecem.

A Castañer é uma velha marca espanhola (a empresa foi fundada em 1927, ainda que as primeiras alpergatas com o nome Castañer datem de 1776). Foi reeditada à conta das plataformas de corda, tão em voga nas últimas estações. Também é verdade que o facto de Letizia Ortiz as usar no verão de Marbella ajudou à festa… O estilo é artesanal, os materiais são de boa qualidade. As velhas alpercatas transformaram-se num produto sofisticado. A loja do bairro de Salamanca tem uma diversidade enorme de produtos, mesmo de Inverno.

www.castaner.com/

www.prettyballerinas.com/

 

 

 

Imperdíveis de Madrid:

1 – O melhor chocolate quente da cidade está na Chocolateria de San Ginés. Espesso, óptimo. Uma bomba, mas uma vez não são vezes.

2 – Tortilhas há muitas, mas a da La Penela é a mais famosa. Experimente a tortilha betanzos. www.lapenela.com

3 – Leia Javier Marías, um dos grandes escritores da actualidade. Comece pelo belíssimo romance Coração tão Branco. Ou então pelos contos. Pode ainda lê-lo todos os domingos na revista do El País.

4 – Veja, fotografe, perca-se, confunda, ande de olhos no céu para ver os magníficos balcones de Madrid. Um mais bonito do que o outro. Não espere ver, como noutros tempos, meninas à janela.

5 – Visite o Grand Café de Gijón, espaço mítico da cidade. Centro de acesa discussão política, frequentado por opositores de Franco e literatos de várias gerações. O perfume de outros tempos continua no ar. Experimente ler o jornal.

6 – A Isolée é uma loja que tem perfumes Acqua di Parma, casacos Comme des Garçon, bules da Bodum, massas da De Cecco, livros da Taschen. Uma selecção primorosa. Há várias na cidade, mas a maior fica na calle Claudio Coelho. www.isolee.com

7 – Coma as tapas no Restaurante Teatriz (numa pausa entre compras), um antigo teatro transformado em restaurante por Philippe Starck. Fica na Calle Hermosilla.

8 – Uma loja que na verdade são duas: a Eks e a Ekseption têm uma oferta de cortar a respiração na calle Velasquez. Dries van Noten, Lanvin, Proenza Scholder ou Marc Jacobs estão entre as marcas disponíveis. Uma ao lado da outra, uma com as primeiras linhas, a outra com as linhas mais acessíveis.

www.ekseption.es

9 – O Museu Thyssen-Bornemisza, a dois passos do Prado, bem como o Centro de Arte Reina Sofía, são dois museus imperdíveis. No primeiro, está um dos quadros mais belos de Hopper (a menina sobre a cama, a ler); o segundo tem uma poderosa colecção de arte contemporânea. A não perder, também, a colecção da Telefoníca. Compre o Guia del Ócio para ficar a par das exposições temporárias e horários.

 10 – Felipe Varela é um dos criadores mais usados por Letizia. Mas se falamos da princesa das Astúrias, é preciso ainda falar dos “letízios”: sapatos de cunha, altíssimo, de criadores espanhóis (como Sara Navarro ou Pura Lopez) e não só. 

 

Publicado originalmente na revista Máxima

 

 

 

 

 

Daniel Proença de Carvalho

17.12.13

Uma secretária meticulosamente arrumada, papéis alinhados, pontualidade exemplar. Há outro Daniel Proença de Carvalho? “Todas as pessoas são duas pessoas. Melhor, todas as pessoas públicas têm um lado público, às vezes mitificado, e depois são as pessoas reais. Quando se tem uma vida pública, as pessoas são actores que desempenham uma função, e vestem a pele dessa função. Nos cargos que desempenhei procurei a pele mais adequada ao cargo e exercer esse cargo da forma mais eficiente. Despindo-me muito, muitas vezes, dos meus sentimentos, da minha vida pessoal. Chego a casa, dispo este fato relativamente formal, ponho uns jeans, vou tocar guitarra, fazer jardinagem, lavar a louça quando é preciso. Tenho o cuidado e o hábito de não transportar a vida profissional para casa. Embora a minha mulher seja licenciada Direito, muito raramente troco com ela uma palavra que seja sobre a minha vida profissional.”

E na entrevista? Está Daniel Proença de Carvalho profissional, que fala de Mota Pinto e Soares, Sócrates e Cavaco, Champalimaud. E está o homem que nasceu na Soalheira, uma aldeia pobre da Beira, e que faz este ano 70 anos. Esse continua a surpreender-se com o rumo que a vida levou. O outro, sabe que à entrada do edifício pode ler-se Uría Menendez-Proença de Carvalho – e que aquele é um dos maiores escritórios de advogados do país.

Conversámos terça feira de manhã. Todos estávamos ainda dominados pelos resultados eleitorais do domingo anterior.

 

Comecemos por olhar para as presidenciais. Um dos vencedores da noite eleitoral foi Fernando Nobre, um candidato exterior aos partidos. Isto é revelador do ciclo agónico em que estamos, em que as pessoas se distanciam da política?

As pessoas votaram, não num político, não em alguém que tivesse qualquer projecto político, nem sequer em alguém que tivesse revelado especiais aptidões para aquela função. Votaram em alguém que é um homem bom, que se dedica a causas humanitárias. Estas características não fariam um bom presidente. Mas é [sintomático] de um desencanto pelos políticos em geral.

 

Cavaco Silva teve um resultado que, sendo uma vitória, e uma vitória à primeira volta, é apesar de tudo uma vitória com menos 500 mil votos do que conseguiu há cinco anos atrás.

Não me surpreendeu. Não havia dúvidas de que ia ser reeleito. É tradição portuguesa, a reeleição. Reconheço que não houve um grande entusiasmo, mesmo da parte de pessoas que votaram nele com grande entusiasmo na primeira eleição. Uns porque se sentiram defraudados, mais conservadores…

 

A promulgação do casamento homossexual.

Exactamente. Outros porque esperavam dele uma posição mais intervencionista, para dar um contributo mais positivo para a estabilidade do país – nos quais me incluo, em parte.

 

Ter já exercido a tal magistratura mais activa de que falou na campanha.

Há momentos em que é preciso criar convergências políticas. Não podemos ter um governo minoritário com toda a oposição aos gritos a tentar enfrentar a crise. O presidente podia ter tido uma maior influência. Podia ter tido uma influência maior na justiça, que é um problema que preocupa todos os portugueses.

 

É o grande problema?

Um dos grandes problemas. Afecta a confiança dos investidores. É muito grave. Num recente estudo feito pelo Projecto Farol, 75% dos portugueses disse que não confia nos tribunais. Gravíssimo. O presidente devia ter-se empenhado mais nessa área, ter assumido mais responsabilidades. Houve aquele momento pouco feliz na história das escutas. Espero que este segundo mandato seja melhor.

 

Surpreendeu-o o tom de vendetta no discurso de vitória?

Surpreendeu. Os vencedores devem ser sempre magnânimos. [Cavaco] devia chamar à atenção dos portugueses para que deve haver maior respeito por quem exerce funções de grande responsabilidade. A descredibilização não é apenas das pessoas, é das instituições. Não se pode de ânimo leve levantar suspeitas, fazer insinuações quanto ao carácter das pessoas. Devia ter feito referência às calúnias que lhe lançaram nesta forma didáctica e não na forma agastada com que o fez.

 

Persecutória?

Um pouco. O presidente, enquanto presidente, já devia ter feito esse alerta quando outras figuras do Estado foram vítimas de campanhas muito mais graves, e também sem fundamento. Se não tivermos respeito pelos direitos, que estão na Constituição, ao bom nome e à reputação, estamos a cavar a nossa própria sepultura. Não podemos querer ter políticos prestigiados, e pessoas que estejam disponíveis a intervir na política se não nos respeitarmos minimamente.

 

O politólogo António Costa Pinto disse no Público, ainda antes das eleições, que Cavaco estava a experimentar, numa dose diferente, um pouco daquilo que Sócrates foi experimentando ao longo destes anos. E que não deve ter gostado.  

O Eng. Sócrates foi o político, desde que temos democracia, mais causticado. Injustamente. As campanhas, quer quanto à orientação sexual, quer quanto à interpretação de actos administrativos – nada de menos correcto se apurou quanto à sua actividade política. Nada de factual e de concreto se apurou que pusesse em causa o seu carácter.

 

Não é um político. Embora pudesse tê-lo sido. Vamos perceber o percurso e as escolhas. Qual é o momento de viragem na sua vida? Que encontro é decisivo, que precipita outros encontros, e que o põe a jogar noutros tabuleiros?

Acabei o meu curso e, como não tinha nenhuns recursos, e já tinha uma família para sustentar…

 

Casou tão cedo assim? Pensei que fosse muito mais programado.

Nada programado. Casei aos 20 anos. Fui para o primeiro emprego possível. Era o Ministério Público. Fui colocado em Santiago do Cacém como delegado do Procurador da República interino. Depois diz o concurso. Fica-me mal dizê-lo, mas fiquei em primeiro lugar. Era regra que os primeiros classificados fossem convidados para a Polícia Judiciária.

 

O que é que fazia um inspector da Judiciária nesse tempo? O facto de ser um regime político diferente condicionava o exercício da actividade?

O que fazem hoje. A polícia Judiciária não intervinha em nenhum processo político. Era uma polícia civil, ocupava-se de crimes comuns. Estava numa secção a que hoje se chamaria Crime Económico. Burlas, abuso de confiança… A PIDE ocupava-se dos, “crimes políticos” [as aspas são de DPC].

 

Tentacularmente, a PIDE tentava intervir, condicionar, controlar?

Não. Pode ter havido um ou outro caso de crimes que tivessem uma natureza política. Suspeitas de que o PC pudesse ter assassinado alguns militantes… Casos raríssimos. Eram mundos à parte. Mas eu não tinha como vocação ser funcionário público. Respondi a uns anúncios. Simultaneamente abri um pequeno escritório ao lado do tribunal de Oeiras, sítio mais fácil para se começar a vida. Em resposta a um anúncio, fui para a Cimentos de Leiria, que era uma empresa do grupo Champalimaud.

 

Como se deu o encontro com António Champalimaud?

O primeiro encontro foi a propósito de um contrato em Moçambique. A empresa de que eu era advogado estava a fazer um contrato de aquisição de umas pedreiras. Quis falar comigo sobre este contrato. Falámos do contrato, nada mais.

 

Imagino a sua surpresa. Ele era o Champalimaud.

O grande empresário. Poderosíssimo. Uma pessoa por quem se tinha um certo temor reverencial. Uma das suas características era que não gostava nada de yes, man. Fazia às vezes o teste de dizer uma coisa e ver a reacção do interlocutor. Se alguém dissesse: “Isso não é bem assim”, ele ainda era capaz de manter a discussão durante um tempo, ver até que ponto a pessoa resistia.

Penso que percebeu que, se eu tinha uma opinião própria, lha transmitia, independentemente de isso ir ao encontro do gosto dele ou não. Mais tarde, no decurso do célebre processo da herança Sommer, o António Champalimaud teve de se refugiar no México e fui encarregado de fazer uma espécie de investigação aos regimes dos países da América Latina. Para verificar onde é que ele poderia estar mais a salvo de um mandado de captura internacional. Fiz esse périplo. Chegámos à conclusão de que o México era o país onde poderia estar mais tranquilo. A última fase desse périplo foi ir ter com ele. Não sabia onde é que ele estava. Não me tinha sido dito. Recebi só muito sobre a hora a instrução para ter um encontro com ele. Passámos algum tempo. Falou comigo sobre o processo no qual estava envolvido, e que eu não conhecia sequer, porque não tinha tido nenhuma intervenção.

 

Esse périplo pelos países da América Latina: estamos em pleno romance de Graham Greene.

Falei com professores de Direito Criminal desses vários países. Levei daqui uma lista de pessoas que devia consultar. Depois apresentei esse trabalho. Isto passa-se em 1968, tinha 27 anos.

 

Era um jovem. Que características é que tinha que acha que impressionaram positivamente Champalimaud? Podia ter os advogados que quisesse, mas escolheu-o a si.

Quis-me a mim, mas também quis Sidónio Rito, Manuel João da Palma Carlos, Salgado Zenha (mais tarde), Francisco Sousa Tavares. Advogados dos mais ilustres do país, e com os quais colaborei.

 

Todos os outros eram de uma geração diferente da sua.

De facto, Champalimaud quis que eu fosse uma espécie de secretário-geral da defesa. E que depois, em colaboração com esses colegas já consagrados, a levasse a cabo. Fui o único advogado que permaneceu desde o início da defesa até ao fim.

Suponho que terá achado que tinha inteligência suficiente para entender as coisas. Que tinha voluntarismo, capacidade de trabalho, que era capaz de organizar os dossiês e uma defesa. Que tinha coragem. Para se ser advogado de barra e neste tipo de processos a coragem física e moral é importante. Muitas vezes temos que afrontar situações de grande agressividade, onde tudo parece estar contra nós.

 

Plus: se não se deixava intimidar por ele, talvez não se deixasse intimidar por outros.

Naturalmente.

 

Se percebemos que ele gostasse de pessoas que lhe faziam frente, ainda não percebemos como é que não se deixa intimidar por aquele homem, que tinha tanto poder, tanto dinheiro.

Talvez seja uma coisa sistémica, da natureza das pessoas: medo, nunca tive. Nem medo físico. Nunca me senti atemorizado em nenhuma circunstância. Se entro numa sala de audiências e vejo um juiz autoritário e advogados a bajularem esse juiz, fico com a pele eriçada. Devemos dizer aquilo que pensamos com frontalidade. Um advogado que defenda o interesse dos seus clientes, se há coisa que não pode é deixar-se intimidar pelo que quer que seja.

O processo da herança Sommer marcou-me nesse aspecto. Fomos confrontados com um juiz que era um déspota. Era também juiz do Tribunal de Plenário. Expulsou-me da sala uma vez, retirou patrocínio ao João da Palma Carlos, dirigia as audiências de forma arbitrária. E estava disposto a condenar António Champalimaud fosse de que maneira fosse. O que tivemos foi de o enfrentar a sério. Tive o exemplo do João da Palma Carlos, que foi um dos advogados mais corajosos da história. Foi advogado do Cunhal. Suponho que foi o único caso de um advogado que em plena sala de audiências passou da bancada de advogado para o banco dos réus e foi ali condenado. O que levou à alteração da lei. Tínhamos que enfrentar uma batalha dura, não só no tribunal como também na opinião pública.

 

Há processos onde a opinião pública faz o seu próprio julgamento.

Há. E às vezes a força desse julgamento é enorme. Eu escrevi dois livros em co-autoria com o Francisco Sousa Tavares sobre o caso; o Manuel João da Palma Carlos escreveu um, o Salgado Zenha publicou outro. No fundo tivemos que desmontar, não só no tribunal mas também perante a opinião pública, as convicções generalizadas que existiam acerca do caso, e que eram falsas, erradas.

 

Fê-lo mais tarde novamente, com Rui Nabeiro ou Leonor Beleza, que defendeu.

Justamente porque também nesses casos se gerou uma convicção generalizada da culpabilidade de pessoas que estavam inocentes. Sem que haja também esse combate na opinião pública as coisas são difíceis. Há pessoas mais imunes, outras menos, mas o normal nas pessoas é acreditarem naquilo que ouvem, naquilo que lhes é transmitido pela comunicação social.

 

Voltando a esse período no final dos anos 60 e começo da década de 70 em que se movimenta no universo Champalimaud. Conhece aí os actores políticos, as pessoas de poder com quem se vai dar no pós-revolução?

Conheço aí, em geral, os políticos mais representativos da oposição, não do regime. O Salgado Zenha, de quem fiquei amigo e com quem tive uma convivência diária durante bastante tempo. O Mário Soares, logo que regressou a Portugal conheci-o bastante bem.

 

É pela mão de Zenha que vai para o PS logo depois do 25 de Abril?

Diria que sim, embora isso fosse natural.

 

Natural? Quase me esqueci que em tempos foi PS. Não sei se isto é um insulto para si, espero que não seja. Mas todo o seu percurso, posteriormente, é feito num espaço de direita ou centro-direita.

Os meus amigos eram da oposição. Já não tinha nenhuma espécie de ilusões quanto ao comunismo. O que era normal era que, a ter qualquer participação política, a tivesse num partido de oposição ao Antigo Regime, moderado. Para mim isso era o PS, o PS social democrático. Trabalho desde há muitos anos com um colega que foi um dos fundadores do Partido Socialista, o Nuno Godinho de Matos.

 

Porque é que saiu do PS?

Não foi dissidência com o partido. Foi pelo facto de entretanto ter assumido a direcção de um jornal. Era incompatível ser director de um jornal e militante de um partido. Nesse mesmo dia escrevi uma cartinha ao Dr. Mário Soares a explicar que me afastava do partido. O Partido Socialista teve um percurso ambíguo. Por um lado, a vertente social democrática, Mário Soares. Por outro lado, o Secretariado, e até Salgado Zenha. Recordo conversas nessa época em que tomaram posições próximas do eanismo, daquela visão militarista de tutela da democracia. Com esse PS, cortei.

 

Já era demasiado radical para si.

A minha intervenção foi sempre no centro-esquerda, centro-direita. Um pouco centro-esquerda em matéria de costumes, um pouco centro-direita em matéria de economia. Se há coisa em que não mudei é nisso. Se ler os meus artigos no Jornal Novo está lá o que pensava, que é o que penso hoje. Com uma diferença: naquela época um pensamento liberal era considerado extrema-direita, hoje um pensamento liberal é de centro-esquerda, centro-direita.

 

Assumir a direcção do jornal era também uma forma de fazer política, de fazer intervenção? Estávamos numa década em que toda a gente acreditava que era possível mudar o mundo, reconstruir tudo.

Não tive essa ilusão. No 25 de Abril tive uma enorme alegria e festejei isso de todas as formas, com os meus amigos, com a minha família…

 

Quem eram os amigos com quem festejava o 25 de Abril?
Festejei com o José Niza, que ainda é militante do Partido Socialista. Com uma pessoa que já morreu, o António Rolo Duarte. O Manuel João Palma Carlos, o Salgado Zenha. Com muitas pessoas, com quem convivia, que iam a minha casa.

 

Como é que se desencanta em relação a esse fulgor inicial?

Pouquíssimo tempo depois percebi que o Partido Comunista tinha tomado conta do processo revolucionário. Dominaram os media, o aparelho de Estado. Passei imediatamente a ser contra-revolucionário. Entendia e esperava que o 25 de Abril fosse uma transição para a democracia política e para uma economia mais liberalizada. Tivemos uma revolução comunista que andou entre o 1º de Maio e o 25 de Novembro de 75. Sendo que depois do 25 de Novembro de 75 também não se voltou atrás. Um dos maiores erros de Portugal foi o 11 de Março de 75. Foi catastrófico. Ainda hoje estamos a pagar essa enorme factura que foram as nacionalizações e a chamada Reforma Agrária. Destruímos o que havia de melhor, empresarialmente, no país. O que era desejável era que fizéssemos uma transição, como a Espanha, para a democracia política, mantendo o sistema económico e liberalizando.

O Jornal Novo foi o único que durante esse período combateu essa tendência. Foi criado por empresários.

 

Presumo que fosse olhado como um perigoso direitista.

Quando fui nomeado director do jornal fiz uma reunião com a redacção e fizeram-me perguntas muito embaraçosas. Eu tinha sido advogado do Champalimaud, como é que era possível ser director de um jornal? [riso] Saí do Jornal Novo porque tinha outras tarefas a desempenhar. Tive um jantar de despedida, e salvo um jornalista, todos estiveram, todos reconheceram que afinal não seria um perigoso direitista autoritário que ia criar um regime ditatorial dentro da redacção.

 

Porque é que nessa altura não quis ser um político frontline? Já sabia o suficiente para ser um dos actores políticos.

A política só me interessou enquanto missão momentânea, em momentos difíceis, para cumprir uma missão. A política como carreira, nunca me interessou.

 

Era o comprometimento com um partido que o impedia de dar esse passo?

Tudo isso. Não estou a criticar as carreiras políticas, são absolutamente necessárias. Nunca senti vocação para isso. Ser advogado e ter liberdade de pensar, de falar e de agir…, habituamo-nos a isso.

 

Insisto. A seguir, quando foi ministro de Mota Pinto, talvez tenha pensado: “Quero ou não quero ir para ali?”, e depois não foi. “Para ali” significava não ser só um ministro, poder ser primeiro-ministro.

Aquilo era um Governo de combate e travei esse combate. Depois fui convidado por vários partidos para ser militante, mas não quis mesmo. Depois da minha experiência governativa recusei sempre.

 

Conte-me mais desta experiência governativa. Não deixa de ser extraordinário que antes dos 30 anos fosse ministro.

Suponho que fui o ministro mais novo daquele Governo. O Prof. Mota Pinto era uma pessoa por quem tinha bastante admiração. Convidou-me directamente. A comunicação social estava ainda dominada pelas forças revolucionárias. A televisão era do Estado, a rádio, idem aspas. Havia ali um grande desafio: “desgonçalvizar“ a tomada dos meios de comunicação social. O Mota Pinto disse-me: “Há aqui um problema grave na comunicação social, preciso de alguém que tenha coragem, que tenha as suas características, que conheça a lei”. Achei que era uma missão indispensável naquela época.

 

O que é que o desgostou profundamente nestes dois anos? Nunca mais foi ministro e constantemente se falou do seu nome sempre que havia formação de novos governos.

Não foi essa a questão. Estava a prejudicar bastante a minha vida profissional.

 

Estava a deixar de ganhar dinheiro? Também era essa a questão?

Pude exercer essas funções políticas porque tinha tido uma carreira com algum sucesso que me permitiu ter algumas economias. Pude dar-me ao luxo de sacrificar a carreira por isso. Mas se continuasse a carreira política não podia continuar a ser advogado. E tinha bastantes encargos familiares nessa época. Tinha quatro filhos. Quando foi o Bloco Central, com o Dr. Mário Soares e o Dr. Mota Pinto, ambos insistiram muito para ir para esse Governo. Disse-lhes francamente que a razão principal era essa, que não tinha condições para poder continuar na política.

 

É como se a vida pessoal acabasse por marcar as decisões da vida profissional.

Claro.

 

Foi director da campanha de Freitas do Amaral em 1986. É talvez um dos últimos momentos em que politicamente está tão metido no ninho. Porque é que depois disso nunca esteve tão próximo dos partidos?

Recordando um pouco a história. Foi na minha casa que o Dr. Mário Soares e o Dr. Mota Pinto combinaram o Governo...

 

Conte lá isso. Porquê na sua casa?

Nunca revelaria esta situação não fosse o Dr. Mário Soares tê-lo feito. Antes da campanha eleitoral, o Dr. Mário Soares perguntou-me se estaria disponível para organizar um jantar em minha casa com o Dr. Mota Pinto, um jantar secreto. Tiveram algumas reuniões em minha casa onde combinaram a estratégia para o futuro. Ambos preocupados. A situação do país estava dificílima, à beira da intervenção do FMI.

 

Não me diga que agora está a organizar jantares entre Sócrates e Passos Coelho…

[riso] Ambos também preocupados com o intervencionismo previsível do General Eanes, no sentido de voltar ao sonho de um partido ligado ao militarismo. Combinaram que fosse qual fosse o resultado eleitoral iriam fazer uma coligação. Que seria primeiro-ministro quem ganhasse as eleições, que seria vice primeiro-ministro quem as perdesse, e que fariam essa coligação, não para distribuir lugares mas para fazer as reformas que eram necessárias para tirar o país da situação em que estava.

 

Até por causa disso é mais extraordinário ter recusado fazer parte. É a pessoa que faz a ponte entre os dois, que acolhe estas conversas, e que depois se retira.

Pelas razões que expliquei. Mais tarde, quando se colocou a questão presidencial, de 85-86, o bloco de direita não tinha candidato. Falava-se no general Firmino Miguel, no general Soares Carneiro, várias hipóteses. Eu próprio fui referido por muitas pessoas, PSD, CDS, tive vários contactos. Confesso que fiquei logo cheio de receio, comecei a pensar muito na minha vida.

 

Receio de quê?

De me meter numa coisa dessas. Para se ser político também é preciso ter vontade.

 

Ao mesmo tempo é lisonjeador pensarem em nós para uma candidatura à Presidência da República. Esse elemento não é despiciente, somos humanos.

Claro que não. Entretanto o Prof. Freitas do Amaral convida-me para almoçar no Sheraton. Havia dúvidas sobre se o Prof. Freitas do Amaral seria o candidato possível apoiado por um partido como o PSD; ainda havia aquela coisa do CDS, muito à direita. Quando ele me disse que estaria disponível para encarar essa hipótese, disse-lhe que o apoiaria se ele avançasse. Depois perguntou-me se estaria disponível para gerir a campanha. Era mais uma missão, que acabava no dia das eleições.

Essa campanha foi marcante para a democracia.

 

Foi marcante porque aquele que parecia o vencedor à partida, o Prof. Freitas do Amaral, acabou por perder na segunda volta. Foi também marcante pela recuperação do Dr. Mário Soares que partiu de 7%.

Extraordinário. Ambos eram adeptos da democracia política, ambos eram contra qualquer experiência tipo terceiro-mundista, protagonizada pela Maria de Lourdes Pintasilgo, ou próximo da visão de uma tutela meio militar protagonizada por Salgado Zenha. O facto de a segunda volta se ter disputado entre estas duas personalidades foi de certo modo fundador da democracia. É curioso que Manuel Alegre, nestas eleições, tenha tido um resultado tão fraco. Fundamentalmente porque apoiado pelo Bloco de Esquerda. O país, na sua estrutura psicológica e política, é no centro, ou centro-direita ou centro-esquerda, que reconhece as alternativas.

 

Mais por ser apoiado pelo Bloco do que por ser apoiado pelo Governo, com os níveis de popularidade em baixa?

Penso que sim. Apesar de tudo, se houvesse eleições legislativas o Partido Socialista tinha mais do que [Alegre teve] nesta votação. Aquela soma subtraiu.

 

Foi presidente da RTP entre 1980 e 1983. Nem nessa altura sentiu que era um homem poderoso?

Talvez não acredite, mas tenho sempre a noção da transitoriedade de todas as situações. De um segundo para o outro a nossa vida pode alterar-se radicalmente, ou porque contraímos uma doença, ou porque perdemos um grande amigo, porque a situação profissional em que estamos pode alterar-se.

 

Como é que nunca se deixou iludir?

Nunca me senti poderoso. Sou presidente da RTP hoje, será que amanhã continuarei a ser? Será que não me acontece qualquer coisa, um erro qualquer que cometa? Tantas interrogações.

 

Então, verdadeiramente, quem tem poder é quem tem dinheiro? Porque isso no dia seguinte não desaparece.

O dinheiro dá uma grande segurança. Não dá felicidade mas dá segurança. Se dá poder? Depende da forma como se utiliza. Nunca fui empresário, por isso não tenho o sabor do poder como empresário.

 

Houve um tempo em que era “o advogado do Champalimaud”. Agora diz-se que José Sócrates tem como advogado o Daniel Proença de Carvalho. É uma diferença de estatuto aos olhos da opinião pública. Não estou a dizer que tenha mais poder do que o primeiro-ministro.

Tenho muita honra em ser advogado de José Sócrates. Sou advogado dele em processos em que defendo os pontos de vista dele, mas onde temos uma posição de acusação de outro. Ele nunca precisou de mim para se defender do que quer que seja.

 

É advogado de pessoas de diferentes quadrantes políticos. O facto de ter um passado político e uma posição ideológica que é mais ou menos conhecida, marca as suas relações com os seus potenciais clientes?

Absolutamente nada. O advogado despe-se, enquanto advogado, de qualquer posição política própria. Posso defender pessoas que pensam o oposto de mim. Represento os seus interesses, não tem que haver uma identificação. A marca do advogado é essa: para exercer a sua profissão não se liga aos clientes. Isso é regra na generalidade dos advogados.

 

Quando vamos progredindo na carreira há tarefas consideradas menores que deixamos de fazer. Mas às vezes é também nessas coisas que sentimos um gosto especial. Como é no seu caso?

Às vezes tenho dificuldade em coordenar trabalhos de advocacia, tenho tendência a ser eu próprio a fazer tudo. Erro organizativo. Tenho muita dificuldade em satisfazer-me com aquilo que é feito por outros. Mas isso é erro meu, seguramente. O Direito é um instrumento que temos que dominar, mas onde os advogados se distinguem não é no conhecimento do Direito, é no conhecimento da vida, das situações, na forma como convencem das suas teses.

 

O que fez de si um excepcional advogado foi aliar as bases jurídicas ao conhecimento da alma humana?

Tenho essa preocupação.

 

Sei que tem sempre a preocupação de ser modesto e de não se deixar tomar pela vaidade, mas estamos num 7º andar, no centro de Lisboa, num dos maiores escritórios de advogados do país. Por uma vez não se sinta embaraçado com o sucesso que conquistou.

Sinto, sinto. Não sou capaz de me auto-elogiar. Não é excesso de humildade, é a natureza. Não me deslumbro.

 

Conheçamos um pouco da sua natureza e da sua história.

Tudo o que aconteceu na minha vida foi inesperado. Nasci numa pequena aldeia da Beira Baixa, em plena Guerra, num ambiente extremamente difícil, pobre, sem esperança. O estarmos aqui sentados, na posição em que estou, do ponto de vista profissional, foi uma surpresa. Sim, tenho algum orgulho nisso.

 

Como é que a Segunda Guerra, ou as dificuldades que decorriam da Guerra, chegaram à Soalheira?

Havia o racionamento. Os carros funcionavam a gasogénio, que já nem eu próprio sei bem o que é. Era uma espécie de fornalha, com carvão, e aquilo produzia um gás que servia para substituir a gasolina, que era escassa nessa altura.

 

Quem é que tinha carro na aldeia?

Duas ou três pessoas. O meu pai sempre teve carro. Recordo-me de o ver, e de eu próprio o ajudar, numa fossa, debaixo do motor, a fazer reparações. Um Citroën, em quinta mão, mas que funcionava. A minha mãe era professora primária, o meu pai era um pequeno comerciante. Embora tivéssemos uma vida muito modesta, comparada com vidas de outras pessoas, de grande penúria, era uma situação de privilégio. A maior parte dos meus colegas de escola acabou por emigrar. A minha mãe, com grande sacrifício, ajudou os irmãos a obterem um curso superior. Nomeadamente um irmão que era professor no liceu no Porto. Tinha a ideia que era fundamental valorizar as pessoas, e que os seus filhos (tenho um irmão) deviam continuar os estudos. Continuei os estudos num liceu em Castelo Branco, onde tinha uma tia, irmã da minha mãe, telefonista, e para casa de quem fui.

 

O que é que a sua mãe e o seu pai esperavam que fosse?

Que eu tivesse uma licenciatura. A minha mãe não gostou que tivesse ido para Direito. Tinha dos advogados uma imagem negativa. O meu tio, que, no fundo, era um funcionário público achava que o sobrinho, em quem depositava esperança, devia ir para Direito. Não tinha na família ninguém nessa área. Não conhecia sequer nenhum advogado ou juiz.

 

Fale-me da relação com ele. Para saber o que é que ele tentava realizar em si e porque é que tinha tanto ascendente sobre si.

Amigo de grandes figuras da cultura portuguesa, como António José Saraiva, Óscar Lopes, Ferreira de Castro. Era militante do Partido Comunista. Isso não era conversado. Nem julgo que alguma vez tivesse levado ao conhecimento dos irmãos a sua actividade clandestina. Era a pessoa que eu conhecia que mais me seduzia, pelo conhecimento, pela cultura. Convivíamos apenas nas férias, quando passava um mês na nossa casa, na Soalheira. Em minha casa havia livros, não muitos, mas havia. Passei a ser um frequentador habitual da biblioteca municipal.

 

Quando é que soube da ligação política do seu tio?

Muito mais tarde, quando estava na universidade, e depois do 25 de Abril tornou-se possível que ela fosse conhecida de todos. Inclusivamente quando morreu foi posta uma bandeira do PC sobre a urna, coisa que horrorizou a minha mãe e a minha tia. Era uma família enraizadamente católica. Sem ele, provavelmente, nunca teria feito a vida que fiz. Teria tido menos aspiração. Teria ido para Letras e hoje estaria reformado de professor. Senti uma grande perda quando morreu.

 

O seu pai era um defensor do regime salazarista? Um defensor acrítico?

Não se falava de política em minha casa. O meu pai recordava-se do tempo da Primeira República, e tinha as histórias que ouvia ao pai. A visão que tinham dela era de caos, indisciplina, insegurança, a que Salazar pôs cobro. Salazar era uma pessoa respeitada, fiável, quer pelo meu avô paterno quer pelo meu pai. Este era o ambiente em que eu vivia. Não discutia sequer com o meu pai. Desgostava-o que o filho tivesse posições de agressividade em relação ao regime.

 

A relação era próxima? Ou era, como muitas vezes são na juventude, combativa?

Reconheço hoje que eu era muito crítico do meu pai. E acabei por ser sempre. Embora tivesse com ele uma relação afectuosa. A relação com a minha mãe, ao contrário, foi sempre muito próxima, cúmplice. Era uma pessoa extraordinária que eu respeitava imenso, admirava imenso [diz com ênfase “imenso”]. Mesmo mais tarde, quando veio para Lisboa, e os tempos mudaram, e os costumes mudaram, e eu tive um divórcio, coisas que poderiam desgostá-la, compreendeu tudo muito bem.

Foi sempre muito solidária comigo. Na altura em que tive intervenção política e se dizia muito mal de mim, e se faziam caricaturas a meu respeito, e me chamavam nomes pouco recomendáveis, ficava bastante preocupada. “Daniel, cuidado. Será que não te estás a expor demasiado?” 

 

Foi ela, sobretudo, que lhe infundiu confiança? E a convicção de que podia ser quem quisesse, podia chegar onde quisesse.

Não. A minha mãe queria que eu fosse um bom cidadão e uma pessoa que soubesse governar a minha vida. Dizia muitas vezes que tinha sido uma surpresa ver que eu tinha atingido lugares de destaque na vida pública. Sentia-se orgulhosa. Mas era uma coisa inesperada. Nunca pensou que pudesse acontecer. 

 

Em que momento da sua carreira estava quando ela faleceu? Até onde é que ela o viu subir?

A minha mãe faleceu há meia dúzia de anos, com 94 anos. Foi uma vida longa, muito bonita, e esteve sempre bem.

 

Uma última pergunta: vamos imaginar que tem um problema qualquer; que advogado é que contrataria? A quem é que se confiaria?

É a pergunta mais provocatória que me fez. Tenho imensos amigos advogados, muitas pessoas em quem confio. Não sou capaz de lhe dar um nome.  

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011

 

 

 

 

São Paulo

17.12.13

Sampa

Transformada em canção de São Paulo, Sampa, de Caetano Veloso, diz quase tudo o que é preciso saber da cidade. Fala dela como grande metrópole, contraditória, lugar frágil, de betão. “Quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi, da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas (…) És o avesso do avesso do avesso do avesso”. Estão disponíveis no youtube incontáveis versões. Além do original de Caetano, ouça a de João Gilberto. Minimal, urbana, exacta. Aprenda a cantar “Alguma coisa acontece no meu coração…”.

 

Fasano

É o mais cosmopolita dos hotéis brasileiros. O Fasano é o tipo de hotel onde se pode encontrar Maria Sharapova no lobby a dar uma entrevista, homens de negócios de diferentes proveniências, estrangeiros dos quatro cantos do mundo (endinheirado), mulheres que chegam com um vestido Valentino para jantar.

A fachada é discreta, de tijolo inglês, e o número de quartos é escasso. A sala de pequeno-almoço parece exígua, se pensarmos no tamanho habitual das salas de pequeno-almoço dos hotéis. Tudo é refinado, de bom gosto. Nada é possidónio.

Os lençóis são do melhor algodão egípcio. Os chinelos de quarto são do criador Osklen. A casa de banho é de mármore, espaçosa, com uma janela imensa – como deviam ser todas as casas de banho. Os móveis são de época e evocam os anos 30. Das suites dos últimos andares obtém-se uma bela vista sobre a cidade. (Espaço médio das suites: 115 m2).

A localização não podia ser melhor: no coração dos Jardins, a dois passos da Bvlgari e da Louis Vuitton. O bar tem uma óptima cantora de jazz americana.

Madonna ficou no Fasano do Rio no último Carnaval.

www.fasano.com.br

 

Lina Bo Bardi

A arquitecta Lina Bo Bardi nasceu em Itália em 1914 e morreu em São Paulo em 1992. Refugiou-se no Brasil do rasto de destruição deixado pela Segunda Guerra Mundial (durante a qual participou na Resistência e militou no Partido Comunista).

Fez do diálogo entre o moderno e o popular uma trave mestra do seu trabalho. Considerava que a “a arquitectura é o espelho da personalidade. Quando você entra na casa de alguém, percebe logo a qual categoria pertence, independente, está claro, de ser rico ou de ser pobre”. A sua casa era de vidro.

A Casa de Vidro, construída em 1951, é um objecto arquitectónico surreal que espreita por entre a mata atlântica. As paredes são de vidro, assentes sobre colunas de betão, e a estrutura parece periclitante. Nela funciona hoje o centro de estudos Lina Bo Bardi. É visitável, se não estiver fechada para obras (o que acontece desde 2006).

Se a Casa de Vidro é a obra singular, quase auto-biográfica, o MASP - Museu de Arte de São Paulo é considerado a sua obra-prima. Em plena Avenida Paulista é uma ode ao modernismo. Data de 1947 e não envelheceu um dia.

www.institutobardi.com.br

  

 

Jardins

Os Jardins é um conjunto de ruas, de arrumação geométrica, onde se concentram algumas das grandes fortunas da América do Sul. Corre a lenda que nos Jardins há mais heliportos do que paragens de autocarro (o que faz sentido, olhando à volta).

As ruas parecem revestidas a passadeira vermelha, as mulheres deslizam sobre Louboutins para tomar um suco detox na loja da esquina. Têm uma sofisticação que está muito para lá da das nova-iorquinas; talvez só em Beverly Hills as mulheres possam vestir assim. As paulistas têm um charme diferente das cariocas. Estão sempre irrepreensíveis. A concentração de malas Louis Vuitton, Chanel, Hermès e de jóias impressiona. Por uma vez, o novo-riquismo assume uma distinção que não tem em mais lado nenhum. As lojas são exclusivíssimas. Há seguranças de fato preto a “patrulharem” as ruas.

Sendo o bairro mais bonito de S. Paulo, nada tem que ver com São Paulo. É um mundo próprio.

 

Céu

Cantora e compositora, é uma certa encarnação de S. Paulo, na sua urbanidade, cosmopolitismo e relação com as raízes. Um exemplo: tem como influências Nina Simone ou Dorival Caymmi, cruza o samba com o hip hop ou o jazz, está entre Sampa e NY. Tudo nela é síntese, e não perde nessa mistura os elementos originais. Considera que o rótulo MPB é insuficiente para resumir o que faz. Fora do Brasil, é considerada uma cantora de jazz. Aos 18 anos estava nos Estados Unidos a arrumar casacos e a servir à mesa. Foi lá que encontrou o produtor do seu primeiro disco, Beto Villares. O disco de estreia, “CéU”, foi um sucesso. O segundo disco, “Vagarosa”, começou por ser lançado nos EUA. Em 2009, a revista Veja considerou-a um dos 100 brasileiros mais influentes. 

www.ceumusic.com

 

 

DASLU

Mais do que uma loja, a Daslu pretende ser (e vender) um “way of life”. Sobre ela, escreveu o jornal francês Figaro: “Vendo de fora, ninguém imagina que se trata da maior boutique sul-americana. Mas o ballet incessante de limusinas e as fileiras de seguranças plantados na entrada lembram ao visitante que ele está chegando ao paraíso”.

É um templo onde é possível comprar uma ilha, um Ferrari, uma viagem à volta do mundo (faz parte do mito…). Também uma mala Chanel, um perfume italiano, o melhor de cada colecção e de cada criador. Ou seja, a Daslu é um sítio onde é possível comprar tudo e ter à mão uma amostra do mundo. Haja dinheiro.

A Daslu transformou-se numa instituição, e nem a prisão da dona (por contrafacção, entre outras irregularidades) diminuiu a sua aura de espaço obrigatório em São Paulo (e no mundo).

www.daslu.com.br

 

 

 

 O que é que São Paulo tem? 10 Coisas que deve fazer

 

- Experimentar os vestidos de noite do criador paulista Carlos Miele. Beyoncé e Eva Longoria são fãs. (www.carlosmiele.com.br)

 

- Conhecer a obra do artista plástico Vik Muniz (nascido em Sampa, vive em NY). A capa do disco dos Tribalistas, feita a chocolate, é dele. A imagem de Monica Vitti delineada por centenas de pequenos diamantes, também. (www.vikmuniz.net)

 

- Frequentar a Livraria Cultura, um espaço imenso, onde pode encontrar literalmente tudo, a dois passos da Avenida Paulista.

 

- Ouvir a revelação da música brasileira, nascida em São Paulo, Maria Gadú. Tem 22 anos, é cantora e compositora, e inseparável do violão. (www.mariagadu.com.br)

 

- Visitar o Museu da Língua Portuguesa. Fica na Estação da Luz, um espaço atravessado diariamente por milhares de pessoas. O seu acervo é o idioma. A partir dele, fazem-se exposições que propõem viagens ao universo de autores de língua portuguesa, como Clarice Lispector ou Machado de Assis. (www.museulinguaportuguesa.org.br)

 

- Ficar “antenado” na S. Paulo Fashion Week. Ninguém falta (Gisele, Isabeli Fontana, Adriana Lima). Sobretudo, é uma amostra do fulgor da moda brasileira. Alguns nomes a reter: Isabella Capeto, Glória Coelho, Maria Bonita, Osklen.

 

- Comer no Figueira, apontado como um dos melhores restaurantes de São Paulo. Deve o seu nome a uma árvore imensa em torno da qual estão dispostas as mesas e cadeiras, na zona exterior do restaurante. Tem uma cobertura de vidro que é removível em dias de bom tempo. A comida tem inspiração mediterrânica. (www.rubaiyat.com.br)

 

- O que é nacional é bom. Vista os jeans de Tufi Duek (www.forum.com.br) e de Ellus (www.ellus.com.br)

 

- Não perca o Museu de Arte Moderna de Oscar Niemeyer. Qualquer exposição que lá esteja será sempre menos interessante do que a obra arquitectónica em si. Que é um modo excessivo de dizer que é uma das obras maiores do arquitecto brasileiro.

 

- Raspar cartão e fazer window shopping no Iguatemi e no Ibirapuera. São centros comerciais onde encontra lojas como Gucci, Louboutin, Santa Maria Novella. Só em São Paulo se imaginam espaços assim. Conte com preços exorbitantes para tudo o que é importação. Se a sua bolsa é menos abonada, espreite a Farm, o Cantão e tudo aquilo que é brasileiro. (www.iguatemisaopaulo.com.br e www.ibirapuera.com.br)

 

 

Publicado originalmente na revista Máxima em 2010  

 

 

 

Eduardo Serra

15.12.13

O que faz um director de fotografia? Interpreta um texto com a luz. Produz sentido com imagens. Eduardo Serra está no lote dos melhores do mundo. No começo, ele era um menino triste do bairro da Picheleira.

Ele é aquele com quem Helena Bonham Carter pratica o francês, quando estão a filmar. É o escolhido por Kevin Spacey para o filme em que o actor se estreia na realização, Beyond the Sea. O que ri com as piadas de Robin Williams. O que deixa o telemóvel à entrada da festa de Demi Moore, como todos (“No pictures, please!”). É aquele que tem um relógio em cujo verso se pode ler: “Com admiração e gratidão, M. Night Shyamalan”. O que filma o par romântico Juliette Binoche/ Emir Kusturica no pólo norte.

É o único português duas vezes nomeado para o Óscar. A primeira com The Wings of the Dove, no ano em que tudo foi ganho por Titanic. A segunda com Rapariga de Brinco de Pérola (quando fez uma luz tão mágica quanto a de Vermeer e colou o rosto de Scarlett Johansson ao da rapariga do quadro do mestre holandês). Ele é também o que todos os anos faz um Chabrol e um Leconte com o conforto de quem está em casa – os franceses consideram-no um dos seus. E é aquele que filma em Lisboa, sobretudo, pelo prazer de ver a luz de Lisboa.

O seu primeiro filme, enquanto director de fotografia, foi, justamente, o de um português: Sem Sombra de Pecado, de José Fonseca e Costa. Estava-se em 1982. Gostou tanto do que fez – ainda hoje o considera um dos seus melhores trabalhos – que organizou um visionamento em Paris, para o qual convidou todas as pessoas que conhecia; também apareceram outras que não conhecia. Nunca mais parou.

Quis ser realizador. Mas a escola que o admitiu, a École Nationale de Photographie et Cinématographie, “em princípio é feita para directores de fotografia e engenheiros de som”. Foi director de fotografia.

Eduardo Serra nasceu em Lisboa em 1943. Quando saiu de Portugal, contou-me um dia, a ponte ainda não existia. A ponte era a 25 de Abril, na altura Ponte Salazar. Foi há muito tempo, portanto. Saiu para Paris, e Paris é a base. Mas cada vez mais, a sua casa é o mundo.

Nos próximos dois anos, vive em Londres para trabalhar nos dois últimos filmes da saga Harry Potter.

É casado e tem um filho. Foi pai depois dos 50 anos. Em 2004, Jorge Sampaio atribui-lhe a Ordem do Infante Dom Henrique, por serviços prestados à cultura portuguesa.

 

 

Podemos começar pela sua obsessão com o tema da memória ou pela descrição que fez da Scarlett Johansson.

O que é que eu disse? Não me lembro!

 

Disse que era redondinha, pequenina, com um beiço saído e a pele translúcida! Provavelmente só um artista notaria que a pele é translúcida.

Uma pele translúcida é uma extraordinária matéria-prima. A relação luz-pele é fundamental para o meu trabalho. Entramos já na zona da fotogenia? A fotogenia é uma parte daquela coisa impossível de definir e que se resume nisto: ter 50 pessoas no campo de imagem, e toda a gente ver uma, e não ver as outras 49. Os americanos dizem: “The camera loves her”.

 

Pode ser a intensidade do olhar, a cor da pele, a maneira como se está? A primeira vez que me falou de fotogenia foi a propósito da Isabelle Adjani.

Ficou-me para sempre. Deve ter sido em 1970, em Faustine et le bel été. Era um filme bonito, um look David Hamilton, mas vestido. Havia um coro de meninas, umas seis ou sete, vestidas de branco, com rendas. Visionávamos os rushes e comentávamos entre nós: “Já viste?, aquela está-se sempre a ver”. Num ecrã cheio de gente, era a primeira coisa que se via! Era a Isabelle Adjani. 

 

A Scarlett Johansson é, sobretudo, voluptuosa. Não fez um comentário lúbrico…, que era o que milhões de pessoas fariam.

É raro um director de fotografia ter um filme sobre um rosto, uma imagem – aquele quadro do Vermeer. Se ela não tivesse uma pele tão transparente, o filme podia não ter ficado tão bem. As outras coisas não eram essenciais para mim. A Scarlett era muito nova, tinha 17 ou 18 anos. Só uma vez, num jantar, apareceu como a conhecemos hoje: com um decote, maquilhada. A maior parte das vezes, vi-a já no set ou como se fosse fazer jogging. Entra por uma porta isso e sai por outra uma vedeta!

 

As pessoas têm Rapariga com Brinco de Pérola muito presente. A partir dele, pode explicar o que faz?

É presunçoso dizê-lo, mas o que tento é criar sentido com as imagens. É importante compreender quais são os elementos dramáticos. O que vou iluminar, as imagens que vou criar (sobre o trabalho de outros), devem levar o público a entender o argumento. Não me interessa fazer uma coisa que seja bonita. Posso fazer uma coisa austera, feia, se me parece que é necessário. De um modo subtil, não manifesto.

 

Dando intensidade? Provocando um sentimento, com o efeito da luz?

Sim. E que seja o sentimento certo. O que é que leio no argumento? E como é que eu posso traduzir isso, apoiar isso, explicar isso?

 

Como se interpretasse um texto com a luz?

É uma boa definição.

 

Para fazer o filme, foi ver os quadros do Vermeer, um a um.

Fui. Evidentemente já os conhecia. O que me interessava era ver aquela camada de transparência que há nos quadros do Vermeer. A reprodução, quando é boa, anda lá muito perto; mas há uma parte que é própria da matéria, e isso não vem nos livros. Queria ter um contacto físico com o objecto. Na edição em DVD perdeu-se uma coisa que fiz: um efeito amarelo no epílogo.

 

Um efeito amarelo?

O verniz, nos quadros, vive melhor ou pior, e às vezes amarelece. Na película, dei esse efeito do tempo que passou, do verniz que muda de cor… É uma brincadeira!

 

Só você sabe que está lá.

Mas, quando é possível, é a minha marca. O quadro: uma coisa que eu não sabia e que praticamente ninguém sabe sem ver o original. O brinco não é uma pérola. É um brinco de metal, uma bola metálica. E o brilho, é o reflexo da janela. Não há pérola nenhuma.

 

Isto é importante por convocar a sua relação com a pintura e a sua formação. Depois de estudar cinema, foi para a Sorbonne estudar Arqueologia e História de Arte.

A minha formação foi caótica. Comecei pela matemática. Não era a minha vocação, mas não era uma coisa que odiasse – pelo contrário. Até reunir o que era importante para mim levou um certo tempo.

 

Matriculou-se em Engenharia por causa do interesse pela matemática?

Não. Não foi uma escolha racional… Temos de ir mais atrás. Quem é de Lisboa sabe que na Alameda Afonso Henriques há, de um lado, o Instituto Superior Técnico, e do outro, a Fonte Luminosa. Depois da Fonte Luminosa, há um bairro criado no fim dos anos 30: a Picheleira. Foi aí que nasci, que vivi, de pais muito modestos. Há esta imagem: quando se chega da Picheleira à Alameda, desce-se a Fonte Luminosa, e depois sobe-se para uma coisa imensa, um sangri-lá! O Técnico. Era o símbolo da ascensão social.

 

Nunca me tinha contado isso.

Não? Era simbólico. Era para ali que eu devia ir. E Engenharia era lá.

 

Ver o Técnico ao fundo e querer fazer parte desse mundo: tem memória disso desde quando?

Desde sempre. Quando entrei para o Técnico já tinha as maiores dúvidas que isso fosse a minha vida. Tentei. Andei lá três anos. No primeiro ano, não correu muito bem; só fiz uma cadeira. Já estava mergulhado nos cineclubes. No segundo, foi a crise académica de 62. E no terceiro, não fiz nada, já só estava lá.

 

Estava lá? O que predominava era um desejo de pertença e integração?

Eu era outra pessoa. Era um facto que o que me interessava, já, era o cinema, e não a Engenharia. Mas, a par disso, havia a questão política. Que, para mim, não era um prazer. Era um dever. Muita gente tinha uma certa exaltação nas manifestações, nas discussões. Eu nunca tive. A participação nas lutas académicas e políticas não me excitava. Mas, como se sabe, não havia escolhas quanto a partidos. Era ou tudo ou nada.

 

Era-se de esquerda ou era-se fascista.

Era-se comunista ou era-se fascista.

 

Quem é que o levou para o PC?

Tinha uns conhecimentos, dos cineclubes, do Diário de Lisboa Juvenil, da associação de estudantes. Cada vez se fica mais ligado. Não vimos do nada. Ao fim de meses ou anos de participação, vem uma proposta. Mas nunca fui um bom militante. Só mergulhei na política porque me parecia indispensável.

 

Ensombrava-o o fantasma da Guerra Colonial?

Sim. A minha célula caiu quatro ou cinco meses depois de eu sair. Foram presos, todos os outros. A PIDE não estava interessada em prender gente como eu – de base, o peixe pequeno. Só quando a base da pirâmide os levasse a um líder do Comité Central. Não me admirava nada que estivesse queimado. Evidentemente estávamos queimados. Oficialmente eu só conhecia cinco pessoas que sabia que eram membros. Sempre calculei que muitos outros fossem, mas não era permitido fazer perguntas. O problema era: quando fôssemos presos, o que é que acontecia?

 

Até onde resistimos? Quando é que soçobramos e falamos?

Fico contente por não ter que saber como é que me teria comportado.

 

No seu grupo, sobressaiu? Hoje, sobressai porque é extraordinário no que faz, mas, ao mesmo tempo, é o elemento mais discreto no plateau. Não tenta captar a atenção do Leonardo Di Caprio quando filma com ele.

Há um ditado francês que diz: não se podem mudar as riscas da zebra. Eu sou assim. É vital ter o meu espaço. Todas as pessoas têm a sua zona intransponível. A minha é talvez maior do que a média. Mas não tenho problemas relacionais e não sofro com isto. É de nascença: não sou capaz de ir bater à porta de uma pessoa para falar com ela.

 

Quer dizer que quando você e o Di Caprio falaram na rodagem de Blood Diamond [2006], foi ele que falou consigo?

Estávamos em conjunto, falámos. Já tinham passado uns meses desde o arranque da filmagem. Calhou termos uma conversa. Ele também fala pouco. Entre um plano e outro, ficava sozinho, pedia para ver o que tinha feito. Ele e eu podíamos ficar muito tempo, lado a lado, sem falar.

 

Com a Scarlett Johansson, como foi?

Falámos. Ela falava mais.

 

Falavam do seu trabalho sobre o rosto dela? O ano passado, já consagrada, convidou-o para fazer a fotografia de uma curta-metragem que realizou (ainda que a proposta não se tenha concretizado).

No caso dela, havia a mãe, que é produtora. Como estava sempre por perto, falávamos muito. Estava por perto para proteger a imagem e os interesses da Scarlett. Mas não interferia.

 

Contou-me que a Kate Winslet, com quem filmou, e o Sam Mendes, com quem quase filmou, foram ao estúdio do Harry Potter. Estava contente com o reconhecimento profissional e a afectividade dela.

São casos particulares. Com a Kate, trabalhei num dos filmes mais importantes para mim [Jude, 1996]. Fico contente que ela não tenha apagado esse filme. Ela é muito…, como é que se diz?, não é extemporânea; é expansiva.

 

Faltam-lhe as palavras em português porque está cansado?

Se calhar. É mais difícil saltitar entre as três línguas.

 

Vai fazer 66 anos em Outubro. Sente que está a envelhecer?

Capaz disso. Mas o cinema conserva.

 

Quando o vi, depois da morte da sua mãe, pareceu-me acentuadamente mais velho. Ou então, era tristeza.

Não tenho essa percepção. Não que dizer que não seja pertinente. É sempre difícil, mas nos últimos dois anos de vida dela, estávamos à espera que acontecesse. Para ela, foi uma libertação.

 

A sua mãe foi a pessoa que mais o fez? É certo que o seu pai morreu cedo e que a marca da sua mãe é mais prolongada.

A última vez que vi o meu pai foi quando me fui embora, em 63. A minha mãe vinha a Paris, mas ele não podia. O objectivo da vida deles foi passar-me para uma secção superior. Não faziam despesas, não tinham mais filhos. Tudo para eu fazer estudos superiores. O que me isolava de todos os rapazes do bairro. Os meus pais não me deixavam brincar na rua.

 

Não queriam que fosse um gandulo? – que era a expressão que se usava.

Não queriam que eu me perdesse. Era um bairro de pobres. Os meus pais eram muito pobres de origem, mas quando nasci já viviam melhor. Tanto um como outro, trabalharam muito. É uma coisa linear: como é que se arranja dinheiro para viver decentemente? Trabalhando mais e melhor do que os outros. Tinha também uns padrinhos que ajudavam, não financeiramente mas materialmente. Toda a minha vida, até ir embora para Paris, almocei nos dias de semana em casa dos meus padrinhos, na Praça do Chile.

 

Não tinham filhos?

Não. Fui um filho adoptivo. E aos domingos íamos os cinco passear. O meu padrinho tinha um carro lindíssimo, um Riley. Os dois homens eram malucos pelo futebol, as mulheres seguiam, e eu também me interessava. Até Coimbra, íamos ver jogos de futebol. Era ir, almoçar, ver o jogo e voltar.

 

Conversavam? Perguntavam-lhe coisas? Ou as crianças eram “a canalha” – como há pouco recordava?

Eu era o reizinho. Filho único, com dois pais e dois padrinhos, não passava despercebido!

 

Como é que era tratado?

Eduardo. Os meus padrinhos chamavam-me Eduardito.

 

Ainda que tudo fosse em função do Eduardo, não lhe eram permitidas coisas de que gostava muito. Iam ao futebol até Coimbra, mas não o deixavam jogar futebol na rua.

Um dia consegui ir um bocadinho. Ainda me lembro desse dia! Já não me lembro porque tive direito a isso. Os “rapazes da rua” era uma imagem terrível, a evitar a todo o preço.

 

Foi a única vez que jogou futebol?

Acho que sim. Ia sempre à ginástica na sede do Sporting.

 

Porque era mais fino? Era por isso que o deixavam ir?

Levavam-me! Quase de rastos. Mas, como se dizia, o menino não tem quereres. Aos três anos, dado o meu volume, acharam que eu precisava de fazer ginástica. Até ao terceiro ano do liceu, o meu pai levava-me, três vezes por semana. E ficava a ver.

 

Porque é que menciona o facto de o seu pai ficar a ver?

Porque era o único! Coisa que me embaraçava bastante. Depois dizia-me que não tinha feito bem, que não tinha vontade nenhuma de fazer aquilo… Tinham medo que eu chegasse atrasado, tinham medo que eu fosse sozinho…  

 

Uma flor de estufa.

Completamente. Essas cenas, essas cenas do Sporting…

 

Teve uma infância triste?

Francamente triste. Completamente fechado. 

 

Dê-me uma recordação boa da sua infância.

[pausa] Procuro, procuro… [nova pausa] Há-de haver. Ah, quando era muito pequeno: no Natal levaram-me pela mão para outra sala, abriu-se a luz, e estava lá um comboio a andar. Tinha três, quatro anos. E também havia as idas ao cinema. A minha madrinha levava-me ao S. Luiz.

 

Tinha um combate dentro de si entre o amor pelos seus pais e pelos padrinhos?

Não. Estava bem definido, regulado. Entendiam-se bem. A minha madrinha não podia ter filhos. Conhecia a minha mãe da praça; era cliente. Tudo se passava naquele quarteirão. O meu pai e a minha mãe vendiam no mercado de Arroios e os padrinhos eram comerciantes.

 

Era um furo social acima. Era diferente ter uma loja ou vender carne e peixe no mercado.

Sim. Eles tinham automóvel, a vidraria na esquina. O meu padrinho era um republicano feroz. Numa tentativa de derrubar a República, lá foi, como voluntário, para o combate. Era maçon. Mostrou-me uma vez o aventalzinho. Era anti-clerical e anti-Salazar. Personagem estranho. Tinha piada. Todos os dias tinha em casa o Diário Notícias e semanalmente a Vida Mundial.

 

A sua mania dos jornais vem daí? É capaz de fazer desvios consideráveis para comprar jornais.

Aqui em Londres, todos os dias faço um desvio para comprar o Guardian, o Libération e o Monde. O Público, já não encontro no estrangeiro, mas tenho assinatura online. Em minha casa, o meu pai tinha o Diário de Notícias ao domingo. Eles matavam-se a trabalhar. Levantavam-se às cinco da manhã – a minha mãe, mais tarde.

 

Para o vestir e mandar para a escola?

Sim. Fiz a primária numa escola privada, em frente do cinema Império. Como nasci a dois de Outubro, obrigavam-me a começar um ano mais tarde. O truque foi fazer a primeira classe em casa dos padrinhos. Fi-la sozinho. A professora era a menina Carlota. Depois, entrei para essa escola, directamente para a segunda classe. 

 

Os outros meninos da escola privada tinham mais dinheiro? Estamos sempre a falar de ascensão social, dessa mola.

Sim, tinham mais dinheiro. Mas havia alguma mistura. As duas irmãs, proprietárias, instalavam uma igualdade. E pronto, levavam-me a pé, Alameda para baixo e para cima. No terceiro ano, já andava mais à solta, ia sozinho para o Liceu Camões. Nunca me rebelei. Nunca apanhei bebedeiras. Quando comecei a sair foi para as coisas políticas, e por via do cinema. A Maria Teresa Horta lembrava-me que eu era da direcção, mas que não podia ser porque não tinha idade para isso. Tenho de ver, na minha papelada, quando foi isso. Depois das cartas que trocava com o Adelino Amaro da Costa?

 

Que cartas eram essas?

Estava mergulhado na leitura. Líamos um livro por dia durante as férias e comunicávamos por carta, trocávamos opiniões. Uma carta por dia. Os meus pais não me deixavam ler durante o período escolar. Tinha direito a algumas coisas, ao Cavaleiro Andante, ao sábado… Já era imprensa, de certo modo. O resto, lia nas férias. Devo ter começado aos 12, 13 anos a ler coisas sérias. E li tudo. A primeira foi a famosa colecção do [Emilio] Salgari. O Prado Coelho também era cliente disso.

 

Porque é que fala nisso? 

Falou numa crónica no Sandokan. Pouco depois encontrei-o na [livraria] Barata e falámos; fiquei contente de não ser o único. Antes do quinto ano, li todos os Livros do Brasil. O [Cesare] Pavese, que me marcou, deve ter sido pelo quarto ano. Todos os livros desse tempo estão agora do corredor da minha casa de Lisboa.

 

Cartas de amor, escreveu? Além das cartas em que expunha o que pensava dos livros, era capaz de expressar os seus sentimentos?

Tudo o que expressava era do domínio do racional. É preciso lembrar que nada era misto; só no sexto e sétimo ano uma dezena de raparigas tiveram uma sala especial no primeiro andar. Quando é que comecei a ver raparigas de perto? Muito tarde. Ah, tive uma paixão por uma sobrinha dos meus padrinhos. Ela vinha como explicadora. E era muito mais velha, claro. Comecei a ver raparigas nos cineclubes e nas acções políticas. Teria 13, 14 anos. 

 

Ainda fala como um tímido que leu muito. Para dentro. Como se as palavras ficassem dentro de si.

Diziam-me isso: que eu falava para dentro. Em casa, coisa assim. Foi, se não uma perseguição, uma insistência.

 

Porque é que nunca conseguiu falar para fora? Que é também uma manifestação de confiança em si mesmo.

Se calhar levei muito tempo a… como é que disse? Confiança em mim mesmo? Não tinha. A pouco e pouco, acabei por ter, em certas coisas. Conquistei terreno após terreno.

 

Tem as cartas trocadas com Amaro da Costa. Já nessa altura guardava tudo.

Ah, sim! Tenho uma colecção dos comunicados do dia da crise académica de 62. As folhas dos cineclubes. Cadernos da infância, praticamente não tenho. Os meus pais tiveram a excelente ideia de me obrigar a escrever um diário! Tinha medo que vissem, e limitava-me a fazer um relatório do dia. Nunca exprimi nada de pessoal. Desistiram.

 

Desde pequeno tem um mundo próprio, onde ninguém entra. Era uma maneira de escapar ao controlo?

Sim. Tenho uma grande capacidade de resistência passiva. Aprendi-a aí. Ou por natureza, não sei.

 

Ou seja, faz o que lhe mandam, mas na verdade faz o que quer.

É isso. Guardar? Sempre! Lembro-me da minha mãe a rasgar-me coisas. Do liceu, da escola. Por vontade dela, deitava-se tudo fora. A casa era pequenina, pequeníssima.   

 

Acumular e catalogar são traços fundamentais em si. Como se tivesse que existir uma prova material de tudo. 

Não sinto isso como uma coisa ilógica. É como na arqueologia: não se deita nada fora, fazem-se escavações. É poder ir, reconstituir tudo. Está integrado, faz parte, existiu. Não gosto de apagar as coisas. E a memória apaga.

 

A memória apaga-se?

Ela apaga. A ausência das memórias é um dos mitos da memória. Gosto de saber ao certo. Saber como eram as pessoas, como era a relação, o que fiz, o que não fiz. 

 

Quando está entre filmes, ou em dias de folga, está invariavelmente a arrumar coisas. É uma tarefa ciclópica, e sem fim. 

[risos] Estou sempre atrasado em relação a isso. Tenho sempre fotografias para digitalizar, filmes para passar de um suporte para outro, cartas para catalogar. Faz-me estar ocupado. Não sei se é possível existir de outra maneira. Há sempre tanta coisa para fazer… Tenho dificuldade em não me interessar. Há pouca coisa que não me interesse.

 

Em 1962, passou o Agosto em Paris, antes de se mudar no ano seguinte. Nesse mês viu quantos filmes?

Na minha memória eram 103, mas tenho a lista e não coincide. São 80 e tal.

 

Onde eu queria chegar era ao registo disso.

Tenho a lista dos filmes que vi e o guia semanal com a programação. Não guardei os bilhetes. Não sou capaz de deitar fora um livro. Parece-me uma coisa odienta – odienta?, odiosa? Preciso de tempo para perceber se as coisas me interessam ou não.

 

Essa lista dos filmes vistos em Paris: guarda para, mais tarde, saber o impacto que lhe causaram?, que pessoa era então?

A lista é uma curiosidade. Fui a Paris ver cinema; foi por causa desse mês que mudei a minha vida. Passei pela lista há pouco tempo. É curioso ver o que se podia ver em Paris nessa altura. Como se guardam “traços” de passaportes e viagens.

 

Por traços quer dizer vestígios?

Sim. Tenho um calendário, de há 20, 30 anos, que me diz onde é que eu estava naquele dia. É útil, para não estar perdido nas coisas.

 

Há nisso uma pulsão narcísica? Está à espera que alguém possa reconstituir o seu caminho a partir dos vestígios que deixa?

Não! É-me indiferente. Quando acabar, acabou. A minha tendência seria a contrária: a de apagar tudo. [pausa] Também seria excessivo, apagar tudo. Mas não é por isso. É uma obsessão por saber o que fiz, o que poderia ter feito. Depois há as coisas em relação às quais tenho afecto – é uma segunda categoria. E há as que acumulo porque ainda não tive tempo de as ler – terceira categoria.

 

Quando fotografou e filmou a casa da sua mãe depois da morte dela, era um desejo de cristalizar aquilo? Annie Leibovitz fotografou Susan Sontag no leito da morte.

São apenas auxiliares de memórias. De coisas que viveram comigo, gosto de ter registo. 

 

Esse gesto, fotografar as gavetas, ver o que estava nelas, resulta também de a máquina fotográfica fazer uma intermediação?

Parece-me evidente que tinha de fazer isso. Não o fazer, deixar as coisas desaparecerem? É o momento em que qualquer coisa acabou. O sítio onde nasci. Deixá-lo sem nenhuma confirmação?, sabendo que tudo na memória é apagado e transformado? Não. Não sei se conseguiria fazê-lo antes [da morte da minha mãe].

 

Voltemos ao cinema. Como começou a trabalhar?

Tive a sorte de a minha classe ser excepcional. Como nos vinhos, que têm anos excepcionais. Um tem um Óscar e outra tem uma nomeação. Alguns alunos começaram rapidamente a trabalhar. Comecei substituindo alguns deles, ou recomendado por outros. Comecei como segundo assistente, depois primeiro assistente… O normal. Até trabalhar, vivia da mesada dos meus pais.

 

Como é que foi para Paris?

Tinha a sorte de ter um passaporte – talvez da ida em Agosto no ano anterior – ao contrário de muitos outros, que foram a salto. Fui por Madrid, para não dar nas vistas. Saí com bilhete de avião, ida e volta. De Madrid fui para Paris. Estava documentado, matriculei-me sem dificuldade, e fiquei em Paris, legalmente.

 

No primeiro ano em Paris, perdeu 30 kg. E há o dado poético de os seus olhos terem mudado de cor…

[risos] Ter perdido 30 kg mudou a minha vida. Eu não nadava, não andava de bicicleta, não ia a bailes, não fazia nada que fosse físico. Passei à normalidade – e foi exactamente assim que o senti. Em miúdo, tinha as humilhações de ser “o gordo”. Passei a comer no restaurante universitário. Fui emagrecendo.

 

De que cor eram os seus olhos?

Castanhos. Desde essa altura são entre o verde e o cinzento, o verde e castanho. E têm aquele círculo branco, típico de quem tem colesterol. Ora, eu não tinha, e praticamente não tenho, colesterol. 

 

A sua formação foi muito completa. Mas o que é que fez de si o grande director de fotografia que é hoje?

Trabalhei com operadores clássicos e bons. Fui assistente de um colega de escola, e fora do plateau, quando voltávamos a casa, falávamos muito do que ele tinha feito. Outro, de quem fui assistente muito tempo, era muito original e fazia coisas arriscadas; também falava muito com ele. Foram uns 30 filmes enquanto assistente, ao longo de dez anos. Aprendi muito.

 

Quando passa a director de fotografia, procura criar uma marca que seja sua. Como?

Quando estava a preparar um dos meus primeiros filmes, a Hélène [a mulher] foi muito importante. Os directores de fotografia modernos tinham tendência a desprezar a fotogenia. O importante era o ambiente. Tratar da cara dos actores e das actrizes, pôr tudo bonito, sem pregas nem rugas, era degradante!, era uma coisa americana, insuportável. A Hélène dizia-me que isso era um grande disparate!, que era preciso trabalhar os rostos como os espaços. Algumas pessoas com quem tinha trabalhado faziam de propósito para a imagem não parecer bonita…

 

Uma vez, disse-me que a fotografia do Morte em Veneza do Visconti era horrível, que era tudo “uma grande borra”!

A fotografia é péssima, caras, ambientes, tudo! [risos] A Hélène convenceu-me. Como é lógico comigo, fui a correr à livraria e regressei com cinco livros sobre o assunto. Comecei a analisar como é que se iluminavam os rostos. Com o material que temos actualmente, é fácil fazer uma luz simples. A minha luz, normalmente, é de uma enorme simplicidade. Há 50 anos, fazer isso não era evidente. Ainda hoje, muitos livros sobre “como iluminar”, utilizam uma receita dos anos 30 e 40, e contestada já nessa altura.

 

No Rapariga com Brinco de Pérola, disse nas entrevistas que fez tudo com luz natural.

Era, em estúdio, o equivalente à luz natural. Era a luz indirecta, do norte, que vem pela janela. Não é luz natural, mas é igual à luz natural. Perguntam-me muitas vezes como fiz aquilo. É do mais fácil que fiz até hoje. É evidente que a facilidade e a simplicidade dão muito trabalho. É importante saber o que queremos atingir e conhecer os instrumentos. Os instrumentos evoluíram imenso, entre os anos 70, quando comecei, e o material que se usa agora. Projectores, por exemplo, já não uso.

 

Tem a reputação de ser um clássico. Com arrojo, deixando a sua marca – o seu verniz – mas um clássico. Harry Potter parece uma contradição com o que construiu para trás.

Há também o Blood Diamond e o Defiance [com Daniel Craig, 2008], que não são filmes clássicos. Ou Unbreakable, de Shyamalan [2000].

 

Mesmo quando é Hollywood, não é uma Hollywood qualquer. Harry Potter: porquê?

Porque era irresistível. Porque queria assegurar a reforma. Porque não queria ficar com o epíteto do director de fotografia que só brilha em filmes de época. Todas estas razões e mais algumas. Ter uma máquina à disposição que é diferente daquilo a que estava habituado. Como explicar? Se eu tivesse uma paixão por automóveis e alguém me propusesse um Ferrari por três meses, não ia dizer que não. 

 

O que é que significa ter uma máquina à disposição?

Tudo é possível. Não se esbanja, mas para tudo o que é preciso, não há limites.   

 

Quando fez o Blood Diamond, que era um filme orçamentado em 120 milhões de dólares, foi preciso fazer uma estrada para filmar de determinado ângulo, e fez-se a estrada.

Ah, não tem nada a ver! É muito mais do que isso! É outro nível, outra escala. Da qualidade técnica à loucura artística. É um trabalho em que todos os materiais, todas as competências, estão disponíveis. Tudo se experimenta e tudo se faz. Por exemplo, chego lá de manhã e tenho uma sala de cinema para corrigir imediatamente os rushes que vão ser vistos na hora de almoço.

 

Foi nomeado duas vezes para o Óscar com filmes clássicos. Mais dificilmente será nomeado com um filme como o Harry Potter. Já não é isso que lhe importa?

Importa. A saga Harry Potter não teve muitos prémios, mas o Senhor do Anéis teve. Até me roubou um! [risos].

 

Qual?

O Óscar pela melhor fotografia no Rapariga com Brinco de Pérola.

 

 

Publicada originalmente no Público em 2011

 

 

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