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Anabela Mota Ribeiro

João Pereira Coutinho

07.01.14

É professor universitário. É colunista da Folha de S.Paulo e do Correio da Manhã. A sua testa é suficiente conhecida para que ele mesmo faça troça e fale dela num vídeo disponível na net. Carismático, embirrante, brilhante? A escolha do adjectivo não é consensual. Quem é o gajo?

João Pereira Coutinho é um daqueles casos. Vamos pôr isto em brasileiro, que o cara é uma figura lá em Sampa. Não tanto no Rio. Imaginam JPC de sunga tomando água de côco? Não dá, né. Imaginam, como uma leitora, JPC de fato de três peças e cartola? É mais provável, né. Vamos pôr isto em brasileiro: “Quem é o gajo?”. Pergunta de um brasileiro que pretende “falar” português e saber quem é João Pereira Coutinho, cronista há anos da Folha de S.Paulo. Não lhe interessa que também seja cronista, há menos anos, do Correio da Manhã. (O vídeo está disponível na net.) Ahs e Ohs no Brasil. Menos ahs e mais “é um fascista do piorio” em Portugal. (Adianta-se desde já que ele discorda desta parte).

Nasceu em 1976. Não representa uma certa direita, porque é demasiado particular para representar seja quem for. É um daqueles casos de pessoa amada e odiada, adulada e vilipendiada no espaço público.

Millôr Fernandes escreveu: “Não é segredo: somos feitos de pó e vaidade. E muito medo.” A entrevista pretendia saber do pó, da vaidade e do medo de JPC. A entrevista não é comovente quando lhe é perguntado o que o magoa. É comovente quando fala das mulheres da sua vida. Ou de coragem e consciência tranquila. A entrevista mete Marisa Cruz (muito lateralmente), Evelyn Waugh, uma gata, Rousseau, Zeus... Passa por Oxford, Manhattan, Chiado, Avenida Paulista...

A viagem nem sempre é confortável. O bilhete é de adulto.

 

 

Quando pôs a condição de dar a entrevista por escrito, citou Nabokov: “Penso como um génio, escrevo como um vulgar homem de letras e falo como um idiota”. É mesmo assim?

Não, Anabela, não é assim. Para começar, não sei se foi Nabokov quem disse isso. Podia ir confirmar, mas para quê? Provavelmente, a frase até é minha e eu pus na boca de Nabokov. Acontece muitas vezes. Só citei Nabokov para que pudéssemos fazer isto por escrito. E é mais fácil convencer uma segunda pessoa se citarmos uma terceira de peso.

 

A sua recusa em dar a entrevista pessoalmente passa, também, por um desejo de não defraudar expectativas? De quem?

Não, passa pela preguiça. Se a entrevista fosse pessoalmente, teria que estar a falar duas ou três horas. Assim, posso responder a uma pergunta, dormir a sesta, depois regressar e responder a outra, tomar uma bebida ao final da tarde, ver o Telejornal, responder a mais uma. No dia seguinte, acordar, reler, mudar uma vírgula. É mais literário. Sobre as expectativas, as únicas que eu normalmente defraudo são as minhas. Com as expectativas dos outros posso eu bem: quando chegamos à idade adulta, aprendemos que não tem grande importância o que os outros pensam a nosso respeito. Até porque os outros, ou a grande maioria deles, não pensam.  

 

Em público, não anda em mangas de camisa, é isso?

Essa história lembra-me uma outra: aqui há uns tempos uma leitora escreveu-me, desiludida, porque me tinha visto no Chiado de jeans e ténis. Dizia ela que sempre me imaginara com fato de três peças, bengala e cartola. Como é evidente, respondi-lhe que não era eu. Até porque eu nunca vou ao Chiado a pé; só de coche.

 

Então vamos lá. Um bocadinho a armar ao carapau de corrida, comecemos por um poema da Szymborska: “Escreve como se nunca tivesses falado a ti próprio/ E sempre mantendo-te à distância/ Não menciones os teus cães, gatos, pássaros/ As ninharias, os amigos e os sonhos”. Isto não é grande incentivo…, mas o que é pode dizer das suas ninharias, amigos, sonhos?

Das ninharias, dos amigos, dos sonhos, pouca coisa. Mas, se me permite, falarei do gato. Ou da gata, para ser mais preciso. É talvez o membro da família que eu mais inveje: será possível passar pela existência de uma forma tão serena, tão ociosa, tão elegante? Lia há tempos uma reportagem no Telegraph sobre uma inglesa que, num acto de loucura, viu um gato na rua e resolveu atirá-lo para dentro de um latão do lixo. Isto foi filmado e, claro, indignou o público. Mas o autor do artigo formulava a questão fundamental: quantos de nós já não pensámos em atirar os gatos para dentro de um latão do lixo? Tudo nos gatos é insultuoso para nós e para as nossas vidas. A começar pela relação que eles mantêm com o tempo.

 

A relação dos gatos com o tempo?

Nós somos seres temporais por definição: vivemos sempre carregados de passado ou de futuro; do que fomos ou seremos; entre as memórias e as aspirações; e com a certeza da morte à nossa espera. Somos, numa palavra, patéticos. Esta específica temporalidade descentra-nos do presente, atira-nos para fora dele. Mas os gatos, pelo contrário, vivem cada momento de uma forma completa, total. E sabe porquê? O Mark Rowlands explica isso num livro notável sobre lobos: porque para os gatos, como para os lobos, a felicidade não se faz por adição – adição de novas experiências; novos lugares; novos objectos; novos projectos; novos amores. Essa dança macabra é só nossa. A felicidade dos gatos faz-se por repetição. Eles repetem o que lhes é significativo. Passo horas a olhar para a minha gata. Aprendi mais com ela do que em anos e anos de leituras filosóficas.

 

Escreve como se nunca tivesse falado a si próprio? Às vezes, parece uma daquelas pessoas que sabem tudo acerca da Muralha da China e nada sobre elas mesmas. Que põem um biombo entre elas e elas.

Lamento discordar. Comecei a escrever publicamente em 1998. Há 13 anos ininterruptos que ando nisto. E não tenho feito outra coisa que não seja falar de mim. Mesmo quando falo dos outros, falo de mim. Porque o que existe “lá fora” só tem interesse se me despertar interesse; e o importante é cartografar o impacto que as coisas têm em mim. Há tempos, por razões editoriais, mergulhei nos mais de dois mil textos que escrevi desde 1998, aqui ou no Brasil. E 90% deles, para dizer o mínimo, começavam sempre na primeira pessoa do singular. Há quem não goste deste abjecto culto do eu. Eu não concebo opinião sem ele: a minha formação literária fez-se com terríveis narcisistas, que me infectaram para toda a vida.

 

Recorrentemente fala da sua psi. “A minha terapeuta”. A que propósito é que fala dela?

Para começar, não sei se falamos da mesma terapeuta. Para citar a canção, eu já tive dois amores. E o mais engraçado é que, pensando bem, uma era loira e outra era morena. Não que isso alterasse as regras do jogo – ali era paciente, no duplo sentido da palavra. Mas confesso que nem sempre era fácil: por ironia do destino, calharam-me duas mulheres lindíssimas e inteligentíssimas na rifa do divã. E eu, antes de ser neurótico, sou humano.

 

Seria diferente se fosse um homem? As suas relações com os homens são muito diferentes das relações com as mulheres? Em quê?

Não é possível generalizar sobre “os homens” e “as mulheres”, embora a minha tentação fosse dizer que os homens são mais femininos do que as mulheres. São mais frágeis, mais inseguros e incomparavelmente mais românticos. Kissinger dizia que o poder é o maior dos afrodisíacos, mas esqueceu-se de acrescentar que essa grande verdade só funciona para um dos sexos. As mulheres fascinam-se pelo poder; mas os homens fascinam-se pelas mulheres. Quer coisa mais ingénua? Claro que, depois, conhecemos um caso ou outro que desmente a teoria e impede a tentação misógina. E eu, verdade seja dita, tenho conhecido alguns, razão pela qual a misoginia me está interdita, apesar de ser um excelente recurso literário.

 

Casos que desmintam a “regra”. Pergunto por mulheres importantes na sua vida.

Quando penso nas mulheres que conheci na vida, a começar pelas grandes mulheres da casa onde cresci, lembro-me sempre daquela entrevista ao Evelyn Waugh em que a jornalista perguntava: “Sr. Waugh, como é possível o senhor ser católico e, ao mesmo tempo, ter um feitio tão insuportável?” E ele, com honestidade tocante, respondia: “Minha senhora, se não fosse o catolicismo, eu dificilmente seria um ser humano.” Faço minhas as palavras dele: o melhor de mim devo-o à generosidade e à tolerância das mulheres, que praticamente fizeram de mim um ser humano.

 

Ainda o assunto terapeuta: como foi lá parar? Confesse uma página das suas angústias.

Mas eu já confessei. E por escrito. Creio, até, que o texto está no meu livro, Avenida Paulista, com o título absurdamente heróico de “A conquista da noite”. Está a ver como não falo apenas da Muralha da China? Basicamente, fui lá parar porque perdi o sono, há muitos anos. Durante vários dias, fiquei a olhar para o tecto. A coisa preocupou-me e, sobretudo, deprimiu-me. Não apenas porque a privação do sono é um suplício; mas porque eu tenho um gosto genuíno em dormir. Sou um anti-prof. Marcelo, digamos assim, e a privação do sono era como amputarem uma perna ao Cristiano Ronaldo. Como é evidente, deixei de dormir porque, estranhamente, passei a temer o estado de inconsciência; e esse temor, como é ainda mais evidente, revelava um desconforto profundo com a própria ideia da morte, porque o sono é sempre um simulacro da morte.

 

Num dicionário de latim, encontrei três significados para «Nox»; podem ser considerados isoladamente, mas metaforicamente podem também querer dizer a mesma coisa: Noite, Sono, Morte. Há ainda Deusa da Noite.

Os Gregos sabiam disso e, não por acaso, fizeram de Thanatos e Hypnos irmãos, filhos da mesma mãe, a deusa Nyx. Mas divago. Não lhe vou contar o filme todo, até porque ele ainda está em exibição no livro – ou, pelo menos, no site da Folha de S. Paulo. Avanço directamente para o final: viveram felizes para sempre. Durmo como um anjo, muito obrigado.

 

Está à espera que desate à patada? As pessoas, de si, esperam a patada?

Nada do que eu escrevo me parece particularmente duro ou violento. Mas admito que possa soar duro ou violento na nossa cultura política ou jornalística, que ainda vive na ressaca da ditadura. Como sabe, um dos prodígios do dr. Salazar foi ter removido a política das ruas, dos jornais, dos cafés, até para evitar a loucura revolucionária e confrontacional que dominou a Primeira República. Só que o resultado desse apagamento do político, que é sempre um apagamento do confronto e do pluralismo, produziu estas opiniões moles que hoje são medradas por aí. Opiniões em cima do muro, onde ninguém quer incomodar ninguém e todos querem ser amigos de toda a gente.

Se fujo um pouco ao tom melífluo da imprensa portuguesa, acredite, não é virtude minha.

 

É obra de quê?

Foi sorte. Tive a sorte de crescer com o jornalismo brasileiro, que soube importar o melhor do jornalismo anglo-saxónico. Não apenas a prosa enxuta, sem aqueles ridículos “tenho para mim que” ou “na minha óptica”; mas um certo gosto pela liberdade e pela dignidade da opinião. Quando uma vez contei, ao meu editor em São Paulo, que o colunismo português era maioritariamente exercido por membros dos partidos políticos, ele nem queria acreditar. Achava que eu estava a falar, sei lá, do Zimbabwe.

 

Provocação, insolência, natureza sulfurosa são o mais soft que se pode dizer do seu estilo.

O Paulo Francis tinha uma frase certeira sobre o assunto: “Trato as pessoas como adultas”. Nem mais: o meu “estilo”, como lhe chama, é uma forma de tratar as pessoas como adultas, embora saiba que nem sempre as pessoas gostam de ser tratadas como adultas. Já pensei, aliás, em escrever crónicas paralelas: de um lado, a versão “normal”, adulta; do outro, a mesma coluna, mas em versão infantil para não perturbar os estômagos mais sensíveis.

 

Isto era um intróito para começar a provocá-lo. Sente-se insultado quando lhe chamam “insolente chic”?

Sinto-me insultado com a parte do insolente.

 

Já agora, e só por curiosidade: sente o quê quando lhe chamam “fascista” e “reaccionário”?

Não tenho ouvido esses epítetos nos últimos tempos. O que pode significar uma de duas coisas: ou as pessoas estão mais educadas e cultas, o que é altamente duvidoso; ou, então, as minhas “opiniões” acabaram por entrar na corrente sanguínea do debate público. Comecei a escrever no Independente, literalmente no século passado. E, nesses tempos primitivos, quando uma pessoa escrevia, sei lá, que o rendimento social de inserção criava uma cultura de dependência e de infantilização dos indivíduos – a velha “tirania democrática” de que falava Tocqueville – aparecia logo uma dúzia de abencerragens a gritar “vem aí o fascismo!” A coisa divertia-me e horrorizava-me, como nos diverte e horroriza ver aqueles esqueletos de dinossauros nos bons museus de História Natural. Mas entretanto, e como dizia o outro, o mundo mudou. Apareceram os blogues, por exemplo, e as opiniões “heréticas” começaram a ser naturais num espaço pluralista. Hoje, sinto-me menos só do que nos tempos do Independente. De vez em quando, pode surgir alguém que ainda dispara um “fascista” ou um “reaccionário”. Mas é apenas um tique nervoso, próprio do foro psiquiátrico, não político.

 

Qual é a sua definição de um e de outro?

Por paradoxal que possa parecer, o “fascista”, o “reaccionário” e até o “comunista” são semelhantes. Apresentam um tipo de  mentalidade radical que visa destruir o presente para a reconstrução de um mundo ideal. No caso do reaccionário, ele acredita que esse mundo ideal existe no passado: no retorno a um passado arcádico onde não existiam as iniquidades do presente. O fascista ou o comunista, que são irmãos gémeos, acreditam que esse mundo existe no futuro; na construção de uma sociedade futura e imaculada. Mas a atitude de ambos é igual: uma atitude monista e revolucionária. Como sou um conservador, a minha preocupação está precisamente em conservar o presente, não em destruí-lo ou subvertê-lo rumo a um passado ou a um futuro perfeitos. Sou um anticomunista pelos mesmos motivos que sou um antifascista. Porque a noção de perfeição, em política, é conceptual e moralmente aberrante.

 

Pergunta seca: porque é que é de direita?

Resposta seca: porque não sou de esquerda. Porque não acredito na bondade intrínseca da natureza humana. Porque não creio que os homens nasçam livres e, como dizia Rousseau, se encontrem por aí aprisionados. Creio, aliás, no oposto: os homens nascem aprisionados na sua agressividade instintiva e é a sociedade que os civiliza, refina e liberta. E não existe liberdade sem lei, ou seja, sem uma autoridade politicamente constituída e democraticamente eleita. E, também ela, limitada pela lei. De preferência, bem limitada: capaz de exercer as suas funções soberanas mas sem interferir nas escolhas individuais e legítimas dos indivíduos.

 

Qual é o papel do Estado, nesse quadro?

Não é função do Estado dizer-me como viver; é função do Estado permitir-me viver em segurança e paz. Por minha conta e risco. Como é evidente, sei que isto soa estranho em Portugal: um país onde a pobreza mental e material obriga qualquer um a olhar para o Estado como certas tribos primitivas olhavam para os seus deuses de pedra e bambu. De forma reverente, messiânica. E isto tanto se encontra à esquerda como à direita.

Por outro lado, e de forma mais caseira, sou de direita – ou, se preferir, não sou de esquerda – porque não tenho tempo nem paciência para cultivar complexos ideológicos de nenhuma espécie. Nasci depois do 25 de Abril.

 

Quer dizer, nasceu liberdade, não nasceu num regime ditatorial.

Não fiz parte da ditadura nem defendi nenhuma ditadura de sentido contrário. Salazar, tal como Cunhal, são-me igualmente repulsivos. Mas é necessário entender que Salazar não nasceu do vácuo nem permaneceu por milagre; nasceu da nossa pobreza material e da nossa balbúrdia republicana – exactamente os motivos pelos quais permanece na memória dos nostálgicos: porque a pobreza e a balbúrdia persistem. E, se permaneceu no poder, não foi pelo uso totalitário da repressão e do medo, como na Alemanha ou em Itália. Foi porque o país continua a ser intrinsecamente cobarde e iliberal. A aura de Cunhal, mesmo à direita, explica-se pelas mesmíssimas razões. Fosse Portugal um país mais cioso da democracia pluralista e da liberdade individual e jamais Salazar ou Cunhal teriam a expressão que tiveram e têm.

 

Nunca teve um fio anarquista?

Mas eu tenho vários fios anarquistas. Parafraseando um velho filósofo inglês, Michael Oakeshott, eu sou um anarquista em todas as esferas da vida precisamente porque sou um conservador em política. Quando o poder político está domado e limitado, podemos permitir-nos a todos os luxos. Mas a política não é um luxo; não é uma actividade “criativa”, onde devemos esperar “a imaginação ao poder”. A imaginação e a criatividade devem ser cultivadas noutras esferas da conduta humana. Na intimidade. No futebol. Nas artes. Na culinária. Mas a política lida com a vida de seres humanos. A primeira exigência que se deve fazer ao poder político é ele não confundir a vida de terceiros com as tintas que usamos numa tela. A segunda é ele não interferir com a forma como as pessoas, livremente, pintam a sua tela. 

 

Cito Oscar Wilde, uma das suas referências: “Se há no mundo alguma coisa mais irritante do que sermos alguém de quem se fala, é ninguém falar de nós”. Ser tão polémico é uma boa maneira de ter sempre alguém a falar de nós…

Repito o que lhe disse: não é importante que as pessoas falem de mim. O meu negócio é o inverso: ser eu a falar das pessoas; e, através delas, falar de mim.

 

Nelson Rodrigues: “Nas velhas gerações, o brasileiro tinha sempre um soneto no bolso. Mas os tempos parnasianos já passaram. Hoje, ferozmente politizado, ele tem sempre à mão um comício”. Porque é que, tendo estudado História de Arte e elegendo a literatura e a arte como as suas paixões, do que fala é de política?

Porque não há literatura ou arte sem política. Isto significa duas coisas. Em primeiro lugar, que é improvável a existência de literatura ou arte sem estarem resolvidos os problemas básicos da condição humana, a começar pela segurança e pela liberdade dos seres humanos. Acredito que no Sudão existam escritores ou pintores em actividade. Mas, como dizia o Bellow, não conheço o Balzac ou o Matisse do Sudão. Por mais desagradável que isto possa soar, sociedades politicamente civilizadas e com um nível material elevado tendem a produzir grande arte.

Eliot tinha inteira razão quando aconselhava o poeta a escrever com Homero sobre os ombros. Mesmo que o poeta escreva contra Homero, contra a tradição, rejeitando tudo para criar tudo outra vez. A literatura e a arte são paixões, sim, mas é a política que as torna possíveis – no sentido prático e filosófico do termo.

 

“Nasci adulta, morrerei criança”, é um dos aforismos mais famosos de Agustina. Fala da sua precocidade amiúde. Foi uma criança “adultecida”? Não me diga que brincava com carrinhos…

Brincava com carrinhos, embora a minha paixão fosse uma espingarda de pressão de ar que o meu pai me ofereceu e com a qual fiz imensos estragos. Janelas, lâmpadas, um primo.

 

Por falar nisso, é mesmo verdade que comprou o carro à Marisa Cruz?

A vendedora disse-me que sim. E eu acreditei. Nestas coisas, convém seguir John Ford: imprima-se a lenda.

 

“Quem é o gajo?”. Começa assim uma entrevista que lhe fizeram no Brasil e que pode ser vista no youtube. Então, quem é o gajo?

Creio que na altura respondi: “Uma alma pura que se confronta com a corrupção do mundo”. Infelizmente, não é possível reproduzir aqui as gargalhadas insanas do entrevistador brasileiro, que ainda não recuperou completamente.

 

Há duas biografias? A do persona público e a privada. O público escreve para jornais, é professor universitário, polemista empenhado. A privada?

A privada, curiosamente, é privada. E os leitores desta revista não merecem morrer de tédio.

 

A escrita é um modo de fugir ao “modo funcionário de viver”?

A escrita é um modo de vida, ponto final. Não tenho nenhuma visão romântica sobre “isto” – deixo ficar as visões românticas para os amadores. “Isto” é trabalho. “Isto” é escrever quando não temos vontade ou, pior ainda, “inspiração”, essa grotesca palavra. “Isto” é escrever quando temos gripe. “Isto” é escrever quando estamos sóbrios, ressacados ou nem uma coisa nem outra. “Isto” é escrever quando temos o coração partido ou enlevado. “Isto” é escrever, faça chuva ou sol; haja tema ou não; agrade ou não agrade a fulaninho ou sicraninho. Os meus estados de espírito não alteram o trabalho que tem de ser feito; o editor que está à espera para fechar a página; os homens na gráfica que já protestam com o atraso da impressão; os leitores que acordam no dia seguinte, compram o jornal e esperam ser informados ou entretidos, e que se estão razoavelmente nas tintas se é gripe, hipocondria ou coisa mais grave. Claro que, no meio de tudo isto, existe algum prazer e um certo sentido de competência, caso contrário seria impossível: seria impossível acompanhar o ritmo de cinco colunas por semana, às vezes mais; respeitar os prazos; aguentar as horas longas que se passam sozinho.

 

De quem é que espera aprovação? Não faça de conta que é auto-suficiente… Há mesmo um momento em que passamos a ser auto-suficientes ou passamos a vida a tentar remendar umas fracturas que estão lá atrás?

Passamos a vida a tentar remendar as fracturas que estão lá atrás. E convém fazer isso a tempo porque as fracturas tornam-se mais dolorosas e mais profundas com o tempo. Não vale a pena fugir – ou, como dizia o outro, viajar, perder países. O Jeffrey Bernard, um dos maiores cronistas das últimas décadas, costumava ironizar: onde quer que estejamos, para onde quer que fujamos, nós também estaremos lá. É por isso que convém ter uma consciência tranquila, ou minimamente tranquila. Vive-se melhor assim. Mas, sobretudo, morre-se melhor assim.

Falava disto com a minha irmã, há uns tempos, a propósito de uma pessoa que partiu com uma terrível doença. E eu confessava-lhe o meu espanto perante a coragem estóica dessa pessoa nos últimos tempos de vida. A minha irmã, que sempre foi mais inteligente do que eu e que, além disso, é médica e convive com situações limite todos os dias, sorriu e disse-me que a coragem não tinha nada a ver com o assunto. Ou, dito de outra forma, o que eu tomava por coragem era, na verdade, uma consciência tranquila. Tão simples e tão difícil quanto isso.

 

Quis ser professor em Oxford?

Que horror. Seria incapaz de viver em Oxford. Gostei de lá ter estado, foi muito útil para a minha tese de doutoramento, desde logo porque pude aprender com o Henry Hardy, que há mais de três décadas é o editor exclusivo do espólio do Isaiah Berlin, meu tema de tese. Mas não tenho nenhum deslumbramento pelo sítio. Talvez porque não fui completamente virgem para lá: já tinha viajado muito, já tinha lido muito e Oxford pareceu-me bonitinho mas um pouco claustrofóbico. Além disso, sou um rapaz de cidades e sempre que podia escapava-me para Londres. Para matar saudades do caos físico e existencial que só as cidades permitem. 

 

Que vida quis para si? Que vida inventou para si?

A vida que tenho é a vida que quis, inventei e procurei. Nada a lamentar.

 

É previsível que os seus alunos vão à procura do cronista. Que pessoa lhes dá?

Essa pergunta deve ser colocada a eles. Mas é provável que a Anabela fique desiludida, tal como alguns ficam: na universidade sou um professor, não um “colunista”. A separação que faço é absoluta, quase fanática: não é por acaso que, na minha coluna do Correio da Manhã, por baixo do nome, surge “colunista” e não, por exemplo, “professor universitário” ou “politólogo”. De igual forma, se um aluno me pergunta o que penso do político X ou Y, agradeço a pergunta e convido-o a tomar café fora da universidade. A única “política” de que falo dentro da universidade é a da área que me compete, ou seja, da Teoria Política. Faço esta separação entre o “professor” e o “colunista” da mesma forma que faria se, fora da Academia, fosse pintor ou trapezista. São mundos diferentes, com regras diferentes. Eu sei que em Portugal não há essa tradição, o que implica que as pessoas levam a universidade para o jornalismo e o jornalismo para a universidade. Resultado: temos mau jornalismo e má universidade.

 

Por acaso escreve crónicas. Para ganhar dinheiro? Para ter um certo estatuto público?

Se a minha ambição na vida fosse ganhar muito dinheiro e ter estatuto público, acha mesmo que teria escolhido o colunismo – este trabalho incerto e ingrato, onde fazemos inimizades todas as semanas? Se a ambição fosse o dinheiro e o estatuto público, acredite, eu teria tido a imaginação e a inteligência suficientes para escolher caminhos mais rápidos. E mais rentáveis. 

 

O Independente e o Miguel Esteves Cardoso foram seminais na sua vida? De que modo?

Foram bons ombros. O Independente, o Miguel Esteves Cardoso, mas também a Mónica Bello, a Inês Serra Lopes, o Paulo Pinto Mascarenhas, o Vasco Rosa, o António Barreto e tantos outros foram bons ombros para que eu pudesse subir, aprender, abusar – e aprender a abusar. Portugal não é apenas um país de inveja; é um país de ingratidão, que é uma decorrência da inveja, onde ninguém deve nada a ninguém. Eu, pelo contrário, devo muito ao Independente e aos amigos que lá fiz: como diria o herói do MEC, eles ensinaram-me a tentar outra vez, a falhar outra vez – e a falhar melhor.

  

Escreve para a Folha e há quem o aponte como o melhor cronista que se pode ler nos jornais brasileiros. Fica de peito cheio?

Faço uma vénia e depois regresso à minha toca porque o relógio começa a contagem decrescente para a crónica seguinte. O relógio arrasa com qualquer vaidade, minha senhora.

 

Ninguém diz isso em Portugal das coisas que escreve, agora, para o Correio da Manhã. Porque é que acha que é assim?

Com a devida vénia, a doutrina divide-se: tenho leitores que preferem a “opinião” do Correio da Manhã à “crónica” da Folha de S. Paulo. E vice-versa. Esta talvez seja a principal diferença entre o que faço em Portugal e o que faço no Brasil. Actualmente, não estou a escrever crónicas em Portugal. As últimas que escrevi foram, precisamente, no Independente, há oito anos, e foi por causa delas que surgiu o convite para escrever na Folha – e para continuar aí o género. No Expresso e no Correio da Manhã passei a escrever “opinião”, o que é diferente e incomparavelmente mais difícil. Escrever sobre mim e sobre as minhas pessoalíssimas idiossincrasias – no fundo, ser um “cronista” – é uma forma de respiração natural. Analisar a realidade política e escrever sobre ela – no fundo, ser um “colunista” – é uma tarefa que me leva sangue, suor e lágrimas. Isto é sobretudo válido no Correio da Manhã e nos 1000 caracteres à disposição.

Quando o Octávio Ribeiro me propôs três colunas às sextas, sábados e domingos com essa dimensão, imaginei que a coisa seria simples. Enganei-me e isso vê-se nos bastidores, todas as semanas: escrevo várias versões da mesma coluna e só envio aquela que condensa, nas doses certas, a apresentação de um problema, a crítica ao problema e a síntese, ou seja, o punch line que faz a soma das partes. Esta pequena loucura, muito parecida com o trabalho de um relojoeiro, demora-me uma tarde inteira. Dez crónicas da Folha são mais fáceis de escrever do que uma só coluna do Correio da Manhã.

 

É o primeiro a falar do tamanho da sua testa. É o primeiro a praticar o género “não me levo a sério”. Mas a sério: tudo teria sido diferente se fosse parecido com o Gary Cooper?

Mas quem é que lhe disse que uma testa alta não dá boa cinefilia? Lembre-se do David Lynch no Eraserhead.

 

Quando googlamos o seu nome, deparamos consigo e com o seu homónimo milionário. Nunca pensou como seria trocar de vida com ele por umas horas?

Seria horrível. Uma vez escrevi um texto sobre ele, “Quem pensa João Pereira Coutinho que é?”, no Indy, onde apresentava uma lista de exigências para que ele pudesse continuar a usar o meu nome impunemente. Coisas modestas, tipo um Steinway, Michelle Pfeiffer sobre o Steinway, etc. Nessa mesma tarde ele ligou-me e disse-me que estava disposto a cumprir algumas exigências, mas não todas: a Michelle, pelos vistos, não podia vir no pacote. Ri alto e simpatizei imediatamente com o cavalheiro. Mas não trocava de vida com ele. Enjoo de barco, tenho algum medo de voar, a única ilha que tolero é Manhattan e ser um grande empresário implica uma capacidade infinita para aturar idiotas a horas obscenas, tipo nove ou dez da manhã. Não me perdoaria semelhante desperdício de tempo.

 

Tem um décimo da massa do seu homónimo? Estou a perguntar se é da família e se vai ter um quinhão nas partilhas.

Fazem-me essa pergunta muitas vezes. Dou várias respostas, consoante o estado de espírito. Umas vezes digo que não sou da família; outras, que sou; por vezes, acrescento que fui deserdado; ou então que descendo de um ramo bastardo; ou então que descende ele e eu prefiro nem falar do assunto. E por aí fora. Mas o mais engraçado é que, se calhar, até existe uma raíz comum: o meu “Pereira Coutinho” vem do lado paterno; o meu bisavô era da região do Douro. Creio que a família distante do outro João Pereira Coutinho também era do norte e daquela zona. Como é evidente, já tenho advogados a trabalhar no assunto.

 

Há ainda um JPC flautista. O seu instrumento é o piano, que tocou em bares. Que caminhos foram esses?

Caminhos de vadiagem no meu primeiro ano de Direito. Entrei para Direito por engano e, felizmente, apercebi-me a tempo: quando a turma, com o código na mão, começou a discutir a situação do senhor A, atropelado pelo senhor B, eu resolvi optar pelo senhor C, de “cavanço”. Além disso, desanimei imediatamente quando me disseram que nos tribunais portugueses não existe a tradição americana do júri e não é de bom tom o advogado passear-se pela sala de audiências. Era toda uma memória fílmica que estava a ser atraiçoada, e eu não podia tolerar mais aquilo. Então, na companhia de mais quatro vadios, formei um quinteto e, como dizem os brasileiros, por aí fui. Foram tempos divertidos: quando a família me imaginava a ler Vital Moreira, eu passava as minhas noites com Gershwin. Foi uma excelente troca.

 

Com que personagem da mitologia grega se acha parecido?

Obviamente, com Zeus. Mas o meu objectivo é descer até ao nível de um Apolo.

 

Com quem é que gostava de ser parecido?

Com o Anthony Hopkins no Homem Elefante. Desde que tivesse a alma nobre do paciente dele.

 

Uma pergunta, que pode parecer lamechas, mas não é: chora?

Choro. Todas as Primaveras. “Febre dos fenos”.

 

O que é que o magoa profundamente?

Sapatos apertados.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2011

 

João Galamba

05.01.14

“A minha persona pública existe, em grande parte, devido aos blogues”. João Galamba é bloguer, é deputado. Nasceu em liberdade. O mundo que ele conhece já não é o do seu pai. A sua luta não é a mesma, e as armas também não. 

Com o que é que sonha esta geração. Como é que vive com o seu passado, (o seu, o dos pais, o do país). Como é que articula isso com um mundo em mutação acelerada. Com novas influências, inesgotáveis possibilidades, com diferentes fantasmas. Como são, como estão. O que lêem, o que escrevem. Como é que passam do uso privado para o uso público da literatura.

Um exemplo: “Eu sabia que o Baudelaire e o Flaubert eram autores fundamentais no cânone da literatura do séc. XIX. Depois de ler certos filósofos percebi porquê. Aquilo que seria uma experiência privada e puramente estética, ganhou uma dimensão de política e crítica da sociedade que não tinha ideia que existia nesses autores”.

Esta geração vive fora, estuda fora, trabalha fora. Viaja. Fala inglês. Usa o skype. Está nas redes sociais. Tem novas formas de se dar com os outros, de dizer coisas. “Há pessoas que escrevem melhor sobre si do que sobre a realidade, e outras ao contrário; encaixo-me nessa segunda categoria”. Ele escreve sobre política, sobre a realidade, e essa é uma forma de intervir politicamente. Desde as últimas eleições legislativas, ser deputado é outra.  

Epítome desta geração, João Galamba nasceu em 1976. É licenciado em Economia na Universidade Nova. É doutorando da London School of Economics. Trabalhou como consultor. Regressou a Lisboa no final de 2006. Trabalhou na Direcção Geral dos Assuntos Técnicos e Económicos do Ministério dos Negócios Estrangeiros durante a presidência portuguesa da União Europeia. A partir do Verão de 2008, trabalhou na Unidade de Missão dos Cuidados Continuados Integrados (UMCCI).

No Outono do ano passado, casou com uma mulher de direita.

 

Fez-se adulto já no “Fim da História”, para usar a expressão de Fukuyama; ou seja, depois de 1989. Houve uma cisão à qual não assistiu, um mundo que não conheceu. É o resultado destes dois mundos?

Estudei Economia numa faculdade muito liberal onde o discurso de Fukuyama fazia sentido. E havia uma dissonância entre isso e um conjunto de instintos adquiridos na infância, por influência do meu pai (que tem um passado político activo, esteve preso em Peniche e fez parte de todos os movimentos esquerdistas antes do 25 de Abril). Isto não terá marcado toda a minha geração, que é plural; mas comigo aconteceu. Até Londres, vivia um bocadinho frustrado: uma parte de mim não queria concordar, mas não sabia como. Não tinha o arsenal de conceitos e de autores que me permitiram contestar o que Fukuyama dizia.

 

A London School of Economics, onde estudou, é uma escola que não tem que ver com o PS, ou com o seu pai, ou com Peniche. Foi um encontro explosivo?

A LSE surgiu como um gesto de desespero. Desde sempre tive dificuldade em imaginar-me a trabalhar. Fui para a Faculdade de Economia sem pensar verdadeiramente na opção que estava a tomar. Tinha jeito para Matemática, e os pais tinham a preocupação de que fosse para um curso com elevada empregabilidade.

 

Qual é o seu percurso profissional?

Trabalhei no Banco Santander de Negócios, e depois trabalhei numa consultora chamada Cluster Consulting, que actuava na área das novas tecnologias. Mas nunca me revi verdadeiramente no trabalho que fazia. (Há pessoas, como o João Constâncio, que não percebem porque é que temos de nos rever no trabalho que fazemos, que a realização se faça através do trabalho). Tinha interesse em Ciência Política e em Filosofia e o programa de doutoramento na LSE era suficientemente abrangente para responder a esta minha insatisfação.

 

Quanto tempo passou entre o fim do curso e a ida para Londres?

Dois anos e pouco. Queria disciplinar-me. Quis obrigar-me a trabalhar e a ganhar uma certa independência financeira. Para provar a mim próprio que não andava de insatisfação em insatisfação. (Antes de fazer Economia, na Universidade Nova de Lisboa, andei um bocado perdido, sem saber muito bem o que havia de fazer).

 

Consegue dissecar isso? Por um lado não se revê no trabalho, e por outro lado, como diz o João Constâncio, porque é que tem de se rever no trabalho?

Porque, como já não há aristocratas, não há outra forma de nos realizarmos e participarmos na vida em sociedade se não for através do trabalho. É uma inevitabilidade histórica. Hoje em dia, a maioria dos meus colegas de faculdade ganha o quádruplo do que eu ganho. Com alguma oposição dos meus pais, dei um salto no escuro. Ainda não acabei a tese, suspendi-a porque estou no Parlamento e não tenho tempo nem disponibilidade mental. Ao contrário do que as pessoas dizem, no Parlamento trabalha-se bastante.  

 

Em Londres, chegou mais perto daquilo que o realizava?

Vivemos em insatisfação permanente. Se por um lado realizei um sonho, (fazer o doutoramento na LSE, nas áreas que me interessavam), a certa altura já pensava que aquela não era a faculdade mais indicada para mim; porque os meus interesses, que se foram desenvolvendo ao longo do meu percurso na LSE, eram divergentes do departamento onde estava. Aquilo que me teria parecido um paraíso, já não o era. Mas acho que isto acontece com quaisquer aspirações e quaisquer sonhos. Uma vez atingidos, surgem outros, e insatisfações que antes não podíamos prever.

 

Porquê o sonho do doutoramento? No fundo, estou a perguntar pela sua forma de afirmação.

Nunca tive grande sentido prático das coisas. Daí a minha dificuldade em encaixar-me no mundo tradicional do trabalho. Sem saber bem o que era o doutoramento, idealizei a vida académica. Parecia-me um caminho inevitável para alguém que tinha tido boas notas. Fui um dos melhores alunos, com média de 17.

 

Conte-me a história do seu pai, no sentido em que ela interfere na sua vida e com quem é.

A experiência de vida do meu pai antes do 25 de Abril influenciou-me imenso. O meu pai deu um colorido diferente a um conjunto de histórias que todos, na nossa geração, ouvimos. Tive em casa o relato na primeira pessoa. O que disse no início [da entrevista], (de ter um conjunto de instintos de esquerda, para os quais não encontrava correspondência na minha formação intelectual até certo ponto da minha vida), levaram a uma enorme proximidade com o meu pai e ao mesmo tempo a um conflito. Um conflito que hoje se encontra esbatido.

 

Que idade tinha o seu pai quando nasceu?

Tinha 36 anos, a minha mãe tinha 22. Tenho uma irmã quatro anos mais nova. O meu pai não é autoritário, mas a relação que estabelecia com os filhos, ou pelo menos comigo, era muito mais a relação de um pai que tinha passado por uma experiência que partilhava com o filho, do que propriamente um pai com uma relação emocional directa com o filho. A afectividade do meu pai manifestava-se de forma indirecta: ele partilhava comigo um conjunto de experiências.

 

Quando é que ouviu essa história? Quando é que teve consciência dela?

Estudei numa escola chamada Árvore, que era um meio de classe média, média/alta, de esquerda. Este caldo cultural sempre existiu na minha vida. Desde pequeno que me lembro de falarem na PIDE e no Salazar, tudo filtrado pela experiência pessoal do meu pai e dos amigos.

 

O seu pai partilhar consigo o que tinha vivido, era também uma maneira de o tratar como um igual?

Sim e não. Qualquer partilha implica um reconhecimento do outro como um igual, ou potencial igual. Mas com o meu pai havia uma unilateralidade na partilha. O meu pai partilhava as experiências comigo, mas eu tinha que as aceitar como absolutamente válidas. Tive uma relação relativamente conflituosa com ele por causa disso.

 

O seu pai não admitia facilmente a contestação?

Há uma coerência na sua experiência de que não está disposto a abdicar. Não posso destruir nem questionar parte do imaginário que formou o meu pai. O meu pai ainda tem, por exemplo, uma visão maniqueísta de esquerda e direita. Tem uma diabolização da direita que é produto da experiência dele. Olha-a com os olhos de quem viveu a ditadura e sofreu com ela. Esta dicotomia nítida, sobretudo quando entrei na faculdade, tornou-se difícil de gerir. Não quero convencer o meu pai de que nem toda a gente de direita é salazarenta. Há uma cisão enorme entre gerações. Ele agora tem 70 anos. Quem sou eu para destruir o mundo que ele criou?

 

Como é que, ainda pequeno, não adere completamente ao pai-herói e às suas experiências de coragem e resistência?

No início, a ideia de o meu pai ter estado preso fez-me confusão. Quando percebi o contexto em que esteve preso, houve uma enorme idealização da experiência dele. Se todos os filhos tendem a idealizar a figura paterna, um filho que tem um pai que passou por tudo isto, ainda mais. Quem é que não gosta de ter um pai que planeou assaltos a prisões para libertar pessoas, que passava clandestinamente pessoas para o outro lado da fronteira? Há todo este universo, muito real mas também mítico, que me deu uma imagem heróica do meu pai.

 

Quando é que começou a contestá-lo?

Na adolescência. As minhas referências passam a ser as minhas referências.

 

Quando está na adolescência, está Cavaco no poder. Não a direita que o seu pai conheceu, mas ainda assim a direita.

Fui uma pessoa pouco politizada nos anos 80. Com 14, 15 anos olhava para a actualidade de uma forma simplista, através dos olhos do meu pai. Não gostava do PSD. Se alguém perguntasse porquê não sabia bem dizer. E era do PS de forma clubista.

 

Era uma coisa afectiva.

Sim. Como não passei por juventudes partidárias nem por nenhuma associação de estudantes, até aos 18, 20 anos não era muito politizado. Fazia bodyboard na Figueira da Foz, andava a viajar pelo mundo. A experiência traumática do cavaquismo, vivi-a um pouco à distância, comparando com pessoas da minha idade que hoje estão em contextos semelhantes aos meus.

 

Isso entristecia o seu pai? O bodyboard está nos antípodas do que se espera do filho de um opositor político.

Aquilo pelo qual o meu pai se tinha batido era um dado adquirido. Eu podia dar-me ao luxo de uma certa irresponsabilidade. Sempre com alguma má consciência, devo dizê-lo. Estava relativamente informado, mas não achava – defeito meu – que houvesse causas políticas pelas quais valesse a pena bater-me. Tive uma adolescência significativamente hedonista, no sentido irresponsável do termo.

 

Isso talvez fosse o verdadeiro conflito com o seu pai: uma concepção hedonista da vida por oposição a uma atitude politicamente empenhada.  

Há aqui um dado importante: todas as histórias políticas surgiam no passado. O meu próprio pai não tinha uma militância activa durante a minha adolescência. Trabalhava em jornais. De alguma forma isso legitimava a minha irresponsabilidade presente. Não estava a trair nada. Enquanto não houvesse nenhum Salazar, estava tudo bem. E como não havia, podia ir à minha vida. Não tinha inquietações metafísicas. Se as tinha, eram tão inconscientes que não me apercebia delas.

 

Essas inquietações metafísicas, surgiram como?

Com os livros, os livros são terríveis! [risos] São cavalos de Tróia. A certa altura despertam em nós um conjunto de coisas que não sabíamos que existiam. Depois, quando olhamos em retrospectiva, vemos que algumas coisas já lá estavam. [Houve] uma reinterpretação do final dos anos 80 e da primeira metade dos anos 90. Ganhei uma consciência das coisas que não tinha quando as vivi.

 

Que livros é que detonaram isso?

O Pacheco Pereira foi uma figura intelectual importante na minha juventude. Mesmo no meio do bodyboard, via quase religiosamente o Flashback, o programa que ele tinha com o Miguel Sousa Tavares [e o António Barreto]. Concordo com Richard Rorty, que diz que há dois tipos de literatura: para uso privado e para uso público. A literatura para uso privado, sempre a tive. Mas só mais tarde percebi que a literatura tem uma importância ética e política fundamental. Só mais tarde é que percebi, por exemplo, a denúncia do Memorial do convento, (a monarquia opressiva, os miseráveis que ajudaram a construir um monumento por capricho do rei).

 

Quem é que lhe pôs essas coisas no caminho? Como é que tropeçou nelas?

Tropecei, literalmente. São portas que se vão abrindo. Recomendaram-me um livro do Charles Taylor, que se chama Sources of the self. É um livro sobre a construção do eu desde Platão até aos nossos dias. É fascinante porque nos conta a nossa história, a história da construção da nossa identidade, à luz da literatura. Grande parte do meu cânone literário dos últimos anos deve-se a esse autor.

 

É sobretudo um observador e leitor da realidade? Não é, ou pelo menos não o revelou, um extraordinário narrador de si e da sua experiência situada nesta corrente histórica. É defensivo?

Não sei, se calhar é por não estar habituado a fazê-lo. Falar de nós próprios é uma coisa que se aprende. Tenho alguma dificuldade em escrever sobre mim próprio. Não sei se por timidez, se por achar que sou incapaz de fazê-lo, se por achar que sou melhor espectador do que narrador. No momento em que posso escolher escrever sobre duas coisas, opto por aquela que não me envolve directamente.

 

Num post recente citava Paul Ricoeur: “A palavra é o meu reino e não tenho vergonha disso”. Porquê?

É a palavra como promessa e como alternativa à violência – é isso que Ricoeur quer dizer. Nisso sou um idealista compulsivo. Por muito que a realidade teime em dizer não, a palavra é uma promessa e pode transpor oposições que parecem irredutíveis. A palavra é o que nos distingue dos animais. A única alternativa à violência e à guerra é a palavra. Sou ateu, não sou baptizado e a religião não teve nenhuma presença na minha infância. Mas tanto no Charles Taylor como no Paul Ricouer, dois pensadores, um católico e outro protestante, há esta esperança. Que é uma esperança activa, que é a nossa única esperança, sobretudo esperança política. Ricoeur não ter vergonha de uma certa ingenuidade.

 

Ingenuidade?

É uma ingenuidade necessária. Sem ela a vida, sobretudo a vida política, torna-se um inferno. Sou um anti-cínico militante. Não suporto aquelas ideias quase agostinianas de que somos seres corrompidos, de que a natureza humana é assim. A palavra é sempre a coisa que vai para além de tudo o que é.

 

No Parlamento, a palavra é a moeda essencial? Como é que vive, isso que acabou de dizer, no Parlamento?

Há uma coisa na experiência do Parlamento que é bastante traumatizante, que é representar sempre o adversário como um inimigo. Mais do que debater, fazem-se proclamações unilaterais. Percebi que é muito difícil sair deste círculo vicioso, em que a palavra serve para atacar.

 

Não é possível sair da disputa retórica? Trata-se de uma contenda, onde o que importa é ter razão, e menos ouvir o outro e ser verdadeiramente tocado pelo que diz?

Sim, de facto é uma disputa de galos. Sabia que era assim, mas tinha a ilusão de que podia ser diferente. Uma vez, o Miguel Vale de Almeida disse-me que queria chegar ao Parlamento e surpreender aquelas pessoas, mudar de registo. Mas depois uma pessoa apercebe-se de que é impossível. Acreditar na palavra torna-se quase uma utopia privada. Acredita que é possível, mas não tem a autonomia que pensava que tinha. De repente a pessoa é sugada para aquele jogo e tem que jogá-lo.

 

Quando é que percebeu isso?

Quando estava a falar com um colega meu, deputado, e lhe disse que ia começar a minha intervenção reconhecendo razão ao Bloco de Esquerda. Eu achava que isso ia dar força ao meu argumento, para não ser sempre aquela diabolização do outro, aquela irredutibilidade nós/eles. Disseram-me para não fazer isso, porque não tinha eficácia. O que importa é aquilo que é eficaz. O que ia dizer pode fazer sentido numa conversa de café, mas naquele fórum não nos podemos dar a esse luxo. E os media tornam isto muito difícil. Imagine o que é uma pessoa começar uma intervenção com um elogio ao adversário e alguém retirar só essa frase e colocar no jornal: “deputado do PS elogia BE”.

 

Quais são os riscos, verdadeiramente?

Não pode quebrar um certo círculo de proclamações e de guerra, porque aquilo é de facto um combate. Ao tentar ir para além desta lógica, e ao expor-se, torna-se vulnerável. É melhor nem arriscar.

 

Personifica uma nova geração que está na política, de quem se espera uma outra maneira de fazer política. Sente essa pressão?

Não faz grande sentido pensar que pode ser outra coisa, como se houvesse uma ruptura. Essa ideia de ruptura é perigosa, porque olha para o que existe como uma podridão generalizada que precisa de uma força regeneradora. Não aceito isso. As mudanças fazem-se pouco a pouco, aproveitando pequenas oportunidades onde elas existem. O mais importante é não nos deixarmos contaminar absolutamente pelo que existe, nem fascinar pelo que pode existir, como se não houvesse uma mediação entre as duas.

 

Isso não parece o discurso de um idealista.

É fácil ser idealista nos blogues. Sou idealista naquilo que escrevo num determinado contexto. Sempre procurei não entrar numa lógica puramente destrutiva. Sempre procurei uma certa dialéctica com aqueles de quem discordo. No Parlamento, é muito mais difícil.

 

É um filho do 25 de Abril. Como é que passou da intervenção nos blogues ao arregaçar as mangas e dizer: “agora é a nossa vez”?

Escrever nos blogues, a posição crítica, é sempre confortável. Apontar o dedo, criticar, sem saber bem como as coisas se passam. Quando me convidaram para deputado, para além de me sentir honrado pelo convite…

 

Quem é que o convidou?

O José Sócrates. Primeiro convidou-me para participar no fórum Novas Fronteiras. Tinha pessoas do PS e independentes; eu sou independente. Depois de ter participado, perguntou-me se estaria interessado em integrar as listas do PS. Disse imediatamente que sim.

 

Porque é que não teve dúvidas?

Porque pela primeira vez em muitos anos achei que estas eleições, e o período económico em que vivemos, representavam uma clara clivagem entre o PSD e o PS. Os partidos nunca foram iguais, mas nunca houve uma diferença tão grande entre os dois projectos políticos. Nunca me identifiquei tanto com um projecto ou achei que era tão importante que aquele projecto político vencesse. E [aceitei] porque tinha idealizado um bocadinho a figura do deputado. Achava que era importante, até para informar parte daquilo que escrevo, ter um conhecimento enquanto participante daquela realidade. Achei que podia ter uma liberdade que algumas pessoas da minha idade, que vêm das juventudes partidárias e que têm um percurso intra-partidário, não teriam.

 

Os blogues podem fazer uma espécie de iniciação, mas mais livre, mais descomprometida?

Sim. Desde que fui eleito deputado, exerço uma auto-censura. Há um conjunto de lealdades que não tinha e passei a ter. A nossa liberdade para o exterior é limitada e certo tipo de críticas devem ser feitas internamente. A lealdade não é uma cedência de qualquer espírito crítico; já critiquei certas opções do Governo no meu blogue depois de ser deputado. Mas as nossas palavras passam a ter outro peso.

 

Estou a pensar novamente no seu pai. O cenário era diferente e havia um desejo de lutar contra aquele mundo. No seu caso, há também o desejo de mudar o mundo? É isso que o faz intervir? 

Mudar o mundo é demasiado ambicioso. Acredito que a política é fundamental para gradualmente e de forma reformista ir mudando o mundo. Mudar o mundo tem de ser lido com alguma humildade e um realismo qb. No mundo em que vivemos grande parte das mudanças transcendem a realidade política portuguesa.

 

O que é que a internet mudou na sua vida?

Abriu-me as portas para uma noção de espaço público que não tinha. Estava completamente circunscrito aos meus amigos e às pessoas que fui conhecendo.

 

Quando é que nasce para a internet?

Foi em 2004, quando um amigo me perguntou se queria fazer um blogue. Não sabia bem o que é que era, mas aderi. Os blogues são fascinantes porque permitem um espaço público virtual e a criação de amigos que a realidade não-internética não permite. Poder ter uma conversa de café com um tipo que está no Porto e outro que está no Algarve, simultaneamente, não seria possível sem internet. O espaço público, como espaço de exercício de cidadania, tem hoje nos blogues, porventura, a sua expressão mais significativa. É algo importantíssimo para a democracia. Se não tivesse participado nos blogues nunca teria sido convidado para as listas do PS. A minha persona pública existe, em grande parte, devido aos blogues.

 

Existe uma clivagem entre aquele que é no espaço da blogosfera e aquele que é cá fora?

No início, o blogue era uma janelinha onde escrevia umas coisas. Neste momento, é uma sala onde vivo. Os blogues formataram e influenciaram uma parte significativa da minha experiência do dia-a-dia. Acordar de manhã e ir ver o que é que as pessoas que eu sigo escreveram, falar com amigos meus que me contam coisas que apareceram nos jornais.

 

Posso perguntar qual é a sua história com a sua mulher, a advogada Laura Abreu Cravo?

Conheci-a numa festa de bloguers. Foi-me apresentada por uma amiga comum. Tinha lido coisas dela. Foi um acaso, como grande parte dos encontros são.

 

Ela é de direita e você é de esquerda. Como é que resolvem duas maneiras de ver e de estar tão antagónicas?

Somos pessoas tolerantes e curiosas, e não fazemos uma coisa que seria expectável, que seria compartimentar a nossa vida privada e a nossa vida pública. Como se cada um ficasse com as suas ideias. Discutimos bastante política e convivemos bem com isso – o que é um sinal de que a representação do outro como inimigo e adversário não é inevitável. Às vezes, quando um determinado assunto tem uma presença mediática muito prolongada, temos de nos proteger.

 

Como assim?

Na campanha eleitoral, a certa altura tínhamos de preservar o nosso espaço privado e não falar de política um com o outro. Estávamos a deixar contaminar completamente a nossa vida privada com a política. Mas no dia-a-dia acho que mantemos um equilíbrio saudável entre coisas que nos unem e coisas que nos afastam. É uma experiência enriquecedora para os dois.

 

Tenta convencê-la da bondade dos seus pontos de vista e convertê-la para o seu lado, e vice-versa?

Acho que tento convertê-la mais do que ela a mim! Há um proselitismo da esquerda que a direita não tem. [risos] A direita tem mais aquela passividade do “é assim que o mundo é”, a que o meu idealismo não me permite resignar. Modéstia à parte, acho que consegui convencê-la numa ou duas partes.

 

Fora do Parlamento, é mais permeável ao argumento do outro lado?

Sou sempre permeável quando acho que o argumento tem um fundo de razão. Se a mediação for impossível e tiver que escolher um, escolho o meu. Isso acontece no Parlamento e acontece em todo o lado.  

 

Impõem-se as escolhas afectivas, é isso?

Não há posições políticas não-afectivas. No fundo de tudo o que defendemos, há um instinto, transformado depois pelo argumento; mas há uma componente afectiva que nunca desaparece.

 

A maior parte das suas experiências são experiências que quer traduzir no Twitter ou no blogue? Não pressuporia, a partir do que leio de si na blogosfera, que gosta de artes plásticas e de uma artista como a Helena Almeida.

No último ano houve uma intensificação enorme da minha vida política. É natural que a parte não-política tenha passado para segundo plano. Noutras alturas, escrevi sobre livros que lia, peças que ia ver. São coisas cíclicas. Não há nenhuma razão [para não escrever sobre esses assuntos], senão que não tenho tido cabeça para isso.

 

O que é que aconteceria se amanhã não tivesse a possibilidade de partilhar no Twitter?

Há casos em que o Twitter acompanha o dia-a-dia. Eu escrevo em momentos muito pontuais, em que quero dizer alguma coisa. Tenho uma relação muito utilitária com o Twitter; há um dia em que escrevo bastante e depois posso estar um mês sem lá ir. Das redes sociais, a única em que participo assiduamente é o blogue.

 

É dependente?

Sou muito dependente. À excepção de quando estou a trabalhar, passo lá muito tempo. Uso o blogue e as novas ferramentas de socialização para debate político. Muita gente integra os blogues ou o Twitter na sua vida privada; nisso mantenho alguma fronteira. A intimidade vive-se em carne e osso.

 

Por uma questão de pudor?

Por um pudor natural, por achar que não tenho que partilhar certas coisas da minha vida com o resto do mundo.

 

Em nenhum momento da entrevista apareceu a palavra ambição.

Nunca fui ambicioso. Empenho-me nas coisas, defendo com intensidade aquilo em que acredito, mas ambicioso, no sentido de ter uma estratégia e um plano para o meu futuro, não. Nisso sou bastante relaxado e diletante. Não me programo, nem o que digo ou faço. Tenho uma noção vaga de realização pessoal, mas isto não se traduz numa programação estratégica e táctica da minha forma de estar. Tenho alguma dificuldade em fazer um planeamento inter-temporal da minha existência. Vou respondendo a solicitações.

 

Isso é porque o essencial está adquirido?

Não. As coisas são imprevisíveis, e exigem uma flexibilidade na resposta. Muitas vezes não são compatíveis com uma programação a médio, longo prazo. A minha ideia de ambição não tem um conteúdo concreto que possa especificar.

 

Nunca teve os seus passos cerceados por falta de dinheiro.

É verdade que nunca passei por dificuldades, e quando as tive os meus pais ajudaram-me. Mas a minha opção por abandonar o meu emprego como consultor, onde ganhava muito bem, causou-me angústias. Estou como deputado, onde não ganho uma fortuna, mas ganho bastante bem – não me queixo. Mas sei que há aqui uma enorme volubilidade. Se ficasse sem emprego agora, passaria por dificuldades financeiras. É algo que me angustia ciclicamente, porque não tenho um emprego certo, não tenho uma carreira.

 

Mas não é uma questão determinante, nem nunca foi?

Não. Esta não-necessidade de me programar a médio, longo prazo tem certamente a ver com uma infância e adolescência relativamente desafogadas em termos financeiros. Se tivesse tido outra infância não me teria despedido aos 23 anos e dado um salto no escuro. Uma certa inconsciência, que me permite tomar certas decisões, está alicerçada num mundo seguro onde sempre vivi.

 

Recentemente, num jornal, insinuou-se que o Parlamento era um “tacho”, por ter feito parte do blogue Simplex. O que é que é mais ofensivo para si nisto?

É sobretudo porem em causa o meu bom nome. Sugerirem que posso ter vendido a minha opinião e as minhas ideias a troco de um qualquer apoio é insultuoso. Isto transcende em muito a minha pessoa. Vivemos uma caça às bruxas. Ser um apoiante do Governo actual é uma espécie de crime. Sirvo uma determinada narrativa e sou uma vítima dessa narrativa. O Correio da Manhã não me quis atacar – não sou ninguém, não tenho importância para ser atacado. Mas sofri com isso. É horrível comprar o jornal de manhã e ver o nosso nome na primeira página a dizer que recebemos dinheiro. É horrível para mim e para a minha família.

 

Nas respostas a diferentes jornalistas, disponíveis no blogue Jugular, sobre contratos que lhe foram atribuídos enquanto consultor, dizia que tinha terminado o curso com média de 17 e falava do seu percurso profissional. O que estava a dizer é que não precisava daquilo?

Foi uma resposta táctica e estratégica. As minhas respostas aos outros jornais estão lá e só digo isso ao Correio da Manhã. Tendo em conta as actuais histórias do Rui Pedro Soares e da PT, podia haver a tentação de pôr tudo no mesmo saco, e senti necessidade de me demarcar. Daí ter dito que era independente, que não vinha das estruturas partidárias e que tinha qualificações que não permitiam que eles me associassem a uma narrativa que estavam a tentar construir. No entanto, truncaram parte das minhas respostas e ignoraram outras. E mentiram acerca das datas dos contratos que consideraram suspeitos.

 

Este processo foi para si uma surpresa?

Mais do que a surpresa, tive uma sensação de pânico, de vulnerabilidade. Sempre tive a ideia de que o jornalismo era um vigilante do poder. Sentir que estava completamente nas mãos de um conjunto de jornalistas é uma experiência aterradora. Sentir medo de alguém que é um contra-poder é assustador.

 

Voltando ao miúdo que foi na infância, que tinha um pai-herói. Alguma vez quis para si uma qualquer forma de heroísmo?

Tendo em conta o meu pai e a sua geração, sempre senti mais a impossibilidade de heroísmo do que a ideia de herói. O heroísmo manifesta-se em pequenos momentos do quotidiano. Os nossos tempos exigem humildade e responsabilidade.

 

Não falou da sua mãe. Todo o seu discurso é muito masculino, de certa maneira.

Não vou falar muito da minha mãe, ela tem mais a ver com a minha intimidade. Pelo menos de forma consciente, acho que a minha mãe não teve contributo nas minhas posições políticas.

 

O espaço exterior e o doméstico correspondem…

A uma divisão da qual não abdico.

 

Ao pai e à mãe, ao masculino/feminino.

Ambos foram fundamentais na minha intimidade, na minha formação afectiva e na minha personalidade. A minha mãe não é uma pessoa muito politizada. A minha mãe foi e é uma extraordinária mãe.

 

Um auto-retrato de quem é, do que sente. Sabemos razoavelmente o que pensa, mas não quem é.

O que sou manifesta-se nos meus actos. Vivo intensamente aquilo em que acredito, sou bastante impulsivo e irreflectido nas coisas que faço.

 

Chamou filho da puta a João Gonçalves, por causa do que ele escreveu acerca de João Constâncio. (“Este é filho do outro. Expele exactamente o mesmo estilo de flatulência política do papá”.) Foi um gesto impulsivo e irreflectido?

Quando vi aquilo escrito sobre o João Constâncio, de quem sou amigo, e depois de ter estado até de madrugada a tentar convencê-lo a publicar um texto no blogue, dizendo-lhe que não tinha que temer e que as pessoas eram civilizadas, aquilo causou-me uma enorme indignação. Reagi a quente. Não sei se me arrependo. Aquilo era exactamente o que escrevi: uma filha da putice. Era inaceitável que alguém tivesse aquele tipo de registo num debate político que se quer civilizado. Trazer à luz a condição de alguém ser filho de outro é uma canalhice.

 

Voltando a quem é.

Sou bastante apaixonado, vivo as coisas muito intensamente e sou um diletante emocional. Vou gostando das coisas que em determinado momento me surgem e às quais dedico o meu tempo. E elas vão mudando. Agora é a política. No futuro, não sei.

 

 

Publicada originalmente no Público, em Março de 2010

 

Diogo Morgado

02.01.14

E aos 32 anos, Diogo Morgado foi Jesus. Um hot Jesus, visto por 100 milhões de pessoas (ninguém esperava, nem ele, nem os produtores). Foi entrevistado por Oprah Winfrey, comeu um cachorro quente com ela (como toda a gente sabe). O que é que se percebe quando se está lá? Que é tudo uma questão de dinheiro. E que não se pode esquecer o lugar de onde se vem.

Passavam poucos minutos das onze da manhã quando recebo uma mensagem de Diogo Morgado. Estava ligeiramente atrasado e pedia desculpa por isso. “Não tem problema”, respondi. “Tem, tem”, replicou ele.

Nos Estados Unidos não se chega atrasado. A entrevista tinha sido marcada através de uma agente e eu não sabia se ele ia chegar à americana, com agente, assistente, staff. Mas chegou à portuguesa, absolutamente sozinho, descontraído, sem maquilhagem. O oposto do que foi a maratona de promoção da série A Bíblia, cujo sucesso suscitou esta entrevista.

Diogo Morgado não poderia dizer a Oprah que já anda há uns anos a virar frangos (portuguesíssima expressão para dizer que anda há uns anos nisto). Foram precisos uns anos para chegar onde chegou. Que é onde? A que é que corresponde? É preciso fazer o que para chegar aqui? E a máquina, vista de perto, é como? Estes foram alguns dos pontos de partida. Quando nos despedimos, ele quis pagar o capuccino. Eu insisti: “Isto é trabalho”. Ele foi bem educado (e pagou a conta).    

 

(Tenho uma pergunta provocadora, para começar.

Uma entrada a pés juntos!

 

“Entrada a pés juntos”?

É a expressão futebolística para cartão vermelho. Quando os tipos vão atrás da bola e entram a pés juntos, pode ser vermelho directo.

 

Espero que não dê sequer amarelo. A pergunta provocadora:) protagonizar uma série que é vista por 100 milhões de pessoas dá para ficar rico?

Não, não dá. O mercado americano distingue-se em várias classes e subclasses. A classe mais privilegiada é a do sindicato, o SAG [Screen Actors Guild]. Essa, sim, para a maior parte dos actores, sejam eles ligeiramente conhecidos ou desconhecidos – os conhecidos são outra liga –, obriga a uma escala de valores. E não foge muito dali. Depois há os non-union projects, e é uma rebaldaria.

Este projecto específico: o produtor era inglês, vive nos Estados Unidos, é lá que tem a empresa; mas a empresa que abriram para fazer esta série é sediada em Londres e a série foi gravada em Marrocos. Uma das particularidades do projecto é que os actores não podiam pertencer a um sindicato americano – era o meu caso. Por essa razão, não entrando em muitos pormenores, [a resposta é]: longe de ficar rico.

 

Nem depois do sucesso?

Este não foi um projecto de dinheiro para 80% das pessoas envolvidas, inclusive para os produtores. Começou por ser um docudrama para o Canal História. A expectativa de retorno financeiro não era por aí além. De repente tornou-se um fenómeno, e aí, para o produtor, isso traduziu-se noutros valores. Para mim, não.

 

Quando olhamos para séries como Anatomia de Grey, Madmen, Os Sopranos, Os Homens do Presidente, para o espectador que nada sabe dos sindicatos e das diferentes ligas, olhamos para séries glamorosas, para uma vida hollywoodiana. Também imaginava que era assim antes de ir para os Estados Unidos e perceber na prática como é que as coisas são?

Não esperava isso, mesmo. Obrigo-me a ser realista, para não dizer pessimista. Nunca enfatizo muito o que me está a acontecer. Antes de começar a série não pensei na repercussão; e depois de acabar a série havia tanta coisa para digerir dentro de mim, de que não estava à espera, que não pensei na repercussão mediática. Chego aos Estados Unidos [para fazer promoção], a série ainda nem tinha estreado, e de repente há um grande boom à volta da série, à minha volta. A brincadeira do hot Jesus começou porque a minha imagem saiu ainda antes da figura de Jesus. Os comentários que surgiram não eram sobre o meu trabalho...

 

... mas sobre o facto de ser hot.

Sim. Foi uma surpresa, também.

 

Foi uma surpresa?

Então não foi? Dei tanto de mim, aquilo foi uma aventura tão dolorosa e difícil, tão de vida ou morte, quase, que a última coisa que esperava era que o primeiro comentário fosse sobre a minha figura. Nunca vivi em função da imagem.

 

Vamos falar de imagem, mesmo que não lhe atribua importância central. Se tivesse 1,60m e fosse um camafeu não teria ganho o papel.

Porque não? O Dustin Hoffman trabalha e é feio como um boi, o Danny DeVito trabalha. Eles têm imenso trabalho porque são bons. Grande parte das coisas improváveis que fiz teve que ver com um combate a uma figura [pré-determinada].

 

Coisas improváveis?, está a pensar em filmes independentes?

Não. Teatro de revista; estive dois anos no Teatro Maria Vitória, quase ninguém sabe, mas fiz duas revistas lá. Não preciso de adjectivar. Estive dois anos a fazer Malucos do Riso – não é propriamente aquilo que dá sex appeal. Fiz um ano e meio de musical infantil em que era um golfinho que gaguejava.

 

Quando é que teve consciência de que era hot e que esse atributo era importante?

Comecei com 15 anos. Eu era alto, tinha alguma pinta, não tinha formação como actor. Mas fiz um casting com 30 ou 40 que tinham melhor figura que eu.

 

Um casting para o papel de Jesus?

Não, para o meu primeiro trabalho, [a novela] Terra Mãe. Estive quase cinco ou seis anos, também por causa disso, a testar-me. A perceber se, de facto, tinha alguma coisa que pudesse acrescentar a este mercado da representação. Só aos 21 é que decidi estudar teatro.

 

No mundo em que se movimenta a figura é uma exigência. É mais severo para as mulheres, mas é suposto que um actor tenha cuidado com a alimentação, seja ginasticado, corresponda a determinado estereótipo.

Não concordo. Numa série como Downton Abbey nenhum desses atributos é válido. Há um outro mercado, muito mais comercial, que movimenta muito mais dinheiro, em que esses atributos também são precisos. Mas é “também”. Grandes blockbusters como o Thor, o Capitão América: o público da Marvel é um público que ama a personagem, que não permite que qualquer fedelho se ponha na sua pele. Se o actor não tivesse alguma coisa...

O Robert Downey Jr, que passou por um processo complicado, drogas, álcool, renasce agora sem qualquer desses atributos. É um tipo bem parecido, mas não é estonteante. É um tipo altamente carismático e bom para caraças.

 

Então é preciso ter qualquer coisa, que distingue aquela pessoa entre as demais.

Sim. Não tem que ser mais nem menos, mas é uma coisa genuína e distintiva.

 

Quando foi para os Estados Unidos, já sabia qual era o seu elemento de distinção?

Nunca “fui” para os Estados Unidos. Sou português e trabalho em Portugal. Sempre que fui aos Estados Unidos foi para trabalhar. Os castings são feitos por vídeo, cá, e depois, havendo interesse (“estamos indecisos entre três”), é necessário uma reunião pessoal. Não “fui” como muitos foram. Não tenho nada contra. Eu é que não sou capaz de fazer isso, de ir à maluquice.

 

Por que é que nunca o fez?

Tenho 32 anos. Tudo o que sou como pessoa e como actor foi aqui. Há muita coisa no nosso mercado por fazer. Gosto de pensar que a minha presença cá será mais proveitosa do que lá. Lá serei apenas uma pessoa que está a tentar a sua sorte em determinados castings. Pouco mais posso fazer. Não posso produzir uma peça, dificilmente poderei fazer um filme.

 

Nem o sucesso, a deflagração que foi A Bíblia, o faz apostar nessa possibilidade?

Não, não. Não consigo explicar, talvez seja teimosia, burrice. É como [escolher] não viver em Lisboa. Quando vivi em Lisboa, durante quatro meses, a minha dinâmica mudou; deixei de ser a pessoa que era, deixei de ter os meus tempos, a minha orgânica própria. E isso tirou-me força. Não vou mexer numa máquina que para mim funciona. Vou ser sempre o miúdo que jogava à bola na margem sul, tenha o dinheiro que tiver e faça o que fizer. Vou ser sempre o miúdo que cresceu no Fogueteiro que tem muito respeito por aquilo que faz e pelas pessoas que têm muito respeito por aquilo que fazem.

É tão fácil darem-nos palmadinhas nas costas... Não é fácil é olharem para nós quando não somos nada e dizerem: “Acho que há qualquer coisa aí”. Houve três ou quatro pessoas na minha vida que o fizeram, e foram essas que me fizeram estar a falar consigo hoje. Quando [a série] saiu cá – e houve muitos comentários positivos à minha participação – fiz um agradecimento no Facebook, nomeei-as todas. Uma delas já não está entre nós, mas vou agradecer-lhe enquanto for vivo.

 

Quem é?

O Armando Cortez. Quando eu tinha 15 anos, agarrou-me no braço, puxou-me para trás do décor, como só um senhor sabe fazer, para não estar à vista de ninguém, e disse-me: “Diz lá o teu texto. Pára, respira. Isto é uma coisa, aquilo é outra coisa. Outra vez. Por que é que estás a fazer tudo seguido?” E no final disse-me assim: “Não fiques chateado comigo. Se estou a fazer isto é porque acho que vales a pena”.

 

Alguém disse: “Vales a pena”. Foi isso que o comoveu?

Não foi alguém: foi ele. Deu-me uma meta. Fez-me olhar para ele e dizer: “Quando for grande quero ser assim”. Quero ter esta generosidade, quero ter olho e distinguir as pessoas, e não as julgar pela aparência, por aquilo que fazem ou fizeram. Isto é tão difícil. Assim que nascemos já estamos em condenação, em privação. Somos filhos de Adão e Eva. Se formos pelo lado cristão, e se não formos por aí, é igual. Mesmo esquecendo o lado moral e indo apenas pelo lado fisiológico, é uma luta de sobrevivência.

 

Usei a expressão “quando foi para os Estados Unidos”, explicou que não foi para os Estados Unidos. Fechamos esse parêntesis. Retomemos aquilo que tem e que marca a diferença num mercado tão competitivo como o dos EUA. Qual é o seu distinguo?

Não sei. Dificilmente quem tem esse distinguo tem noção de que o tem. Cada vez que tento seguir aquilo que esperam, acaba por ser o normalzinho. Das poucas vezes – e isso tem acontecido nos últimos quatro, cinco anos – em que penso: “Vou ter mesmo que lutar por isto, acredito mesmo que é por aqui”, mais tarde vem a recompensa, e sinto que essa foi a distinção.

No casting de Jesus, nunca na minha vida, em segundo algum, pensei que ia ficar. Pensei que era uma coisa tão inatingível. E mesmo que ficasse, ia ter um trabalho muito difícil, porque já foi feito imensas vezes. Fui para o casting, lendo a Bíblia e [perguntando-me]: “Qual é a mensagem?” A minha aposta foi essa. Não direi que foi uma aposta..., foi a minha vontadinha. Grande parte das opções que foram tomadas em relação à minha personagem, foram coisas que eu trouxe e que não existiam no papel, não foram sugestão do produtor.

 

Vamos lá contar a história desde o princípio. Telefonou o seu agente a dizer que tinha um casting para Jesus Cristo?

Foi isso. Tenho um manager nos Estados Unidos.

 

Como é que arranjou esse manager?

Através de um filme que fiz no Porto chamado Star Crossed [2009]. Era a história de Romeu e Julieta mas com futebol; em vez de ter duas famílias rivais, tinha dois clubes de futebol rivais. O produtor levou o filme para festivais. Num desses festivais, um agente perguntou quem eu era. Entrámos em contacto, ele disse que gostava de trabalhar comigo. “Mas eu não vou para os Estados Unidos”, “Tudo bem, arranjamos uma fórmula”. A fórmula foi começar a fazer aquilo a que chamam pré-castings, em vídeo (mesmo nos Estados Unidos é assim).

 

Quando lhe ligou o agente americano lembrou-se daquele provérbio português: “Quando a esmola é grande o pobre desconfia”?

Achei que me iam ficar com um rim. O projecto chamava-se Mary, Mother of Christ. Fiz o vídeo-casting. Passado quatro dias liga-me: “Querem conhecer-te. Este filme tem o Al Pacino, o Peter O’Toole e querem-te para protagonista”. Lembro-me de ter comentado com a minha família: “Isto é uma jogada, de certeza. Eles vão a países em que a malta é mais ou menos e atraem a malta para depois lhes ficarem com os órgãos”. [risos]

 

Andou a ver filmes de ficção científica. Ou CSI.

Na altura falava-se um bocadinho do tráfico de órgãos.“Tens de vir aos Estados Unidos”, “E quem é que paga a viagem?”, “Tens de ser tu porque estás a ser contratado como um actor americano”, “Então não vou, lamento imenso”. O agente ficou lixado comigo. Passados 15 ou 20 dias voltou a ligar-me. “Então e a Marrocos, podes ir? O realizador vai fazer uma repérage – conhecer os locais para filmar – e voltou a lembrar-se de ti. Como está mais perto de Portugal pergunta se podes ir lá. Eles reservam-te o hotel”. Vou à net, vejo o preço dos bilhetes. “Vou arriscar”.

 

Está a exagerar. Achava mesmo que podia ser uma cilada?

Não estava convencido de que fosse verdade. Só quando conheci o realizador, o James Foley, é que descansei. Ai, isto é mesmo a sério! E fiquei com o papel.

O casting:é uma história gira. O lobby do hotel era enorme. Tinha uma mesa em vidro. Comecei a fazer uma cena toda improvisada. Há uma parte em que aparece um anjo, eu faço assim [exemplifica, como quem dá um golpe] e a mesa partiu-se em mil pedaços. E eu continuei! O casting eram quatro páginas, eu ia na segunda, alguma vez ia parar? O James Foley conta isso numa biografia. Ainda tem a cassete guardada. Acho que foi um factor determinante para ficar: aquilo partiu-se tudo e eu continuei.

 

E o filme?

O projecto está há quatro anos em águas de bacalhau. Pode ser que se faça algures este ano.

 

Mary Mother of Christ... Depois de Jesus.

Essa é outra razão pela qual se calhar não vou fazer o filme, se o filme se fizer. Há coisas que não posso fazer. Já me ofereceram o papel de diabo, entretanto.

 

Recusou?

Sim.

 

Imagino que seja difícil recusar projectos grandes.

Para mim é difícil recusar quando parecem bons. Quando parecem absolutamente ridículos não me custa nada. Nesta altura de crise há o factor dinheiro. Custa um bocadinho... Mas nunca entrei nisto por dinheiro.

 

Já sei que não ficou rico com A Bíblia, mas continua a fazer contas?

Faço contas todos os dias, claro que sim, porque continuo a ser o miúdo que joga à bola no Fogueteiro.

 

Agora percebo a alusão aos “pés juntos”, ao cartão vermelho. Segue o futebol?

Não tenho nenhum clube, não acompanho. Mas há ali qualquer coisa – o companheirismo, a coisa da rua, e eu jogava na rua – que me toca. O sol punha-se e a minha mãe gritava da janela: “Ó Diogo!” Enquanto ela não dissesse o meu nome todo sabia que estava tranquilo.

 

O que é que é importante na sua biografia?

A minha mãe era cabeleireira. O meu pai trabalhou durante anos no mercado de peixe. Daí vêm várias coisas. Lembro-me de o meu pai ter dois empregos. A minha mãe tem problemas nas costas, esteve muitas horas em pé. Sempre foram dois grandes exemplos de trabalho e de respeito pelos clientes para quem trabalhavam, às vezes para lá das suas forças.

 

Não me passou despercebido que tenha dito bom dia a uma senhora fardada (parecia empregada de cozinha ou camareira) que passou por nós. [A entrevista fez-se no bar de um hotel.]

Sempre. Até já fui repreendido por não dar bom dia às chefias para dar bom dia às pessoas que não eram chefia.

 

Repreendido por quem?

Não interessa.

 

É um tributo aos seus pais.

É um tributo a quem merece. Não tem nada a ver com políticas, mas lido mal com o poder, com pessoas com muito poder. E sinto-me muito bem, muito confortável… Nos Estados Unidos, onde me sentia bem era no bairro mexicano, um dos bairros mais pobres de Los Angeles.

 

Refere-se à temporada que passou lá a promover A Bíblia?

Sim. E sempre que estive lá a filmar.

 

O sítio onde se sente bem é um lugar de gente pobre, de gente simples?

De gente simples. O trabalho dignifica as pessoas e dá nobreza. Tenho tendência a complicar, penso demais nas coisas. Sempre que estou rodeado por essas pessoas simplifico e desfruto muito mais.

 

Estávamos na sua história. Foi educado para ser o quê?

Para tirar um curso, qualquer que fosse. Aos 15 anos, quando comecei a “incursar” por este lado, foi uma surpresa para os meus pais. Acredito que tenha sido até decepcionante. Aquela resistência, que qualquer pai teria, que eu hoje, sabendo o que sei, [teria], se o meu filho dissesse que queria ser actor... Se disser, vou ter medo.

 

Medo de quê?

É muito complicado viver o dia-a-dia sob teste. A nossa vida depende de como nos saímos num teste. Mesmo quando deixamos de fazer casting, o próximo trabalho é um teste. Somos tão bons como a última coisa que fizemos. Se esse teste não correr bem, descemos pontos. E ter que gerir as contas para pagar, as responsabilidades, e um lado que é artístico e que não liga nenhuma aos números, esse balanço, diariamente, é de uma violência brutal.

 

Há uma coisa fundamental nesse viver sob teste, que é aprender a lidar com a rejeição e com a frustração. É uma coisa banal nos Estados Unidos, onde os actores fazem 100 castings e com sorte conseguem dois papéis. Em Portugal, as coisas têm outra escala e a rejeição é vivida…

A rejeição é mais forte. Só comecei a ficar com trabalhos quando deixei de me importar se era rejeitado ou não. Isso permitiu-me desfrutar do momento. Ao fazer o casting de Jesus, o facto de pensar que nunca ia ficar [com o papel], se calhar foi determinante para ficar [com ele]. Há um desprendimento... “Não quero saber o que é que vocês acham, esta é a minha proposta”.

 

Como é que uma pessoa aprende a ser rejeitada, a ouvir “não” e “não”, sem sentir que não vale nada?

Está a começar a perceber a delicadeza que é ser actor... Por isso é que não queria isso para um filho – porque não é fácil.

 

Continua a não ser fácil?

Para mim já é mais fácil.

 

Tem 17 anos de representação. Começou muito cedo. Foi estudar teatro aos 21 anos. Para onde?

Comecei por Estudos Artísticos na Universidade de Lisboa. Como era um curso muito teórico, e não quis ir para o Conservatório [de Lisboa], fui para a TAI [Escuela Universitaria de Artes y Espectáculos], em Madrid.

 

Quem é que são os seus mentores, os que vê para aprender?

Gosto muito do registo do Tom Hanks. É o actor que eu gostava de ser. Teve das interpretações mais brilhantes da história do cinema. Filadélfia,O Resgate do Soldado Ryan, o Forrest Gump, que está no top dos filmes e no top das interpretações.

 

Ainda não disse que coisa foi essa, aos 15 anos, que o fez querer ser actor.

Nada. Só quis ser actor aos 21.

 

Então o que é que sucedeu aos 15?

Aos 15 fui apanhado. Fiz um casting para ganhar uns trocos. Estava numa agência, a trabalhar como modelo.

 

Já tinha a altura que tem hoje? Já tinha esta figura?

A figura não sei, era muito magrinho, mas era alto, 1,90m. Fiz um casting para a NBP. O Virgílio [Castelo] deu-me um [texto] e disse-me: “Estás numa esplanada. Calor, as miúdas a passar. Este é o ambiente. Estás a falar com o teu melhor amigo e a dar-lhe apoio. Acção”. A dada altura... [assobia]. “Que é isso, meu?”, “Desculpem, foi uma miúda gira que passou”. Fiquei.

 

Que papel era esse?

Um papel que rapidamente podia ser descartado, na primeira novela do Rui Vilhena em Portugal, Terra Mãe. Era sobrinho da Lídia Franco, neto do Armando Cortez e namorado da Patrícia Tavares. Era órfão, os meus pais tinham morrido. Se corresse mal era despachado em três tempos. Fiz até ao fim.

A primeira novela foi violenta. Não estava habituado a nada, muitas vezes saía de lá a chorar. Deixavam-me no Cais do Sodré, atravessava no barco, depois apanhava um autocarro, às vezes a horas adiantadas. Na manhã seguinte ia para a escola.

 

Depois fez teatro, outra novela, e o telefilme da SIC Amo-te, Teresa, com apenas 18 anos.

Com o Amo-te Teresa mudou tudo. Já sabiam o meu nome. Foi um boom, mas não houve um segundo Amo-te, Teresa. Fiz três telefilmes da SIC, fui erro de casting de muita coisa.

 

Como é que aprendeu a falar o inglês que lhe permite trabalhar no mercado anglo-saxónico?

A língua não é só saber as palavras, é dominar a musicalidade, a forma de expressão. Decidi investir no inglês, muito antes de qualquer possibilidade de trabalhar no estrangeiro. Era uma coisa minha, como plantar uma árvore ou escrever um livro. Quero expressar exactamente o que quero dizer noutra língua e sentir-me confortável com isso.

 

Teve alguma namorada americana ou inglesa a ensiná-lo...?

Não, nunca tive. Aprendi na escola e com os filmes. Ver filmes sem legendas é um grande exercício. Tive uns cinco anos de inglês na vida, na escola pública. O resto é tudo de la calle (sou fluente em espanhol, vou fazer um terceiro filme em Espanha, em que sou espanhol).

 

Para A Bíblia, teve aulas?

Tive um accent coach, para neutralizar o meu sotaque americano. Trabalhámos antes de começar a rodar, por skype.

 

Quem é que paga essas coisas?

Essa foi a produção. O meu sotaque é mais americano e o elenco era todo british. “Não quero falar british nem quero falar americano. Quero arranjar um sotaque que seja neutro porque Jesus não é inglês nem americano. Quero arranjar um sotaque que não seja distractivo e que não identifiquem.” Fiquei muito feliz, porque houve imensos críticos a escrever na imprensa americana sobre isso.

 

Fale-me da temporada de promoção da série nos Estados Unidos.

Foram três, quatro meses. O país é enorme e fomos a muitos estados. É uma máquina, aí é que se sente a máquina, organizada ao pormenor. Acabámos a rodagem em Setembro de 2012 e a série estreou na Páscoa. Fui para lá mês e meio antes [da estreia] e fiquei mais mês e meio depois de a série acabar. Há um staff que anda connosco para todo o lado. Seis pessoas, no mínimo. Duas publicists, uma pessoa da produção, o grooming...

 

O que é que faz o grooming?

Grande parte dos dias, há mais do que uma entrevista por dia. O grooming é uma pessoa que anda com roupa atrás para não estarmos no mesmo dia com a mesma roupa em diferentes entrevistas.

 

Essa roupa era sua?

Era roupa que arranjavam para mim. Vemos com a publicist qual é o género de roupa que gosto de vestir, o género de roupa com que me quero apresentar, e dentro disso escolhem. Num programa ia mais formal, noutro menos formal.

 

Os publicistas são as pessoas que fazem a gestão da imagem.

Sim. [As outras pessoas]: o agente ou manager. A assistente, alguém que ajuda, que faz a ponte. A publicist também tenta perceber para onde é que querem levar a entrevista; se querem ir para um lado mais religioso, se querem ir para um lado mais pessoal, de carreira.

 

Podem ser quantas entrevistas por dia?

Só em Miami fiz 12 entrevistas em espanhol, no mesmo dia, num espaço de seis horas. Andávamos a correr de estúdio para estúdio, Telemundo, Univision, CNN Latina, webtv. A produtora do projecto diz: “Sobre isto ele não vai falar porque não queremos tocar neste assunto”. Tento perceber se há palavras inadequadas. Por exemplo, gosto muito da palavra energia, que é conotada com um lado mais científico do que espiritual; em determinados programas, se utilizar a palavra energia pode ser desagradável. Digo “uma sensação”, “um sentimento”.

 

É fatigante, imagino.

Muito, muito, muito. As viagens, as diferenças de horário.

 

É trabalhar sete dias por semana?

Sim. Quando não se está a filmar, está-se a viajar para algum lado.

 

Em aviões normais?

Normalíssimos.

 

Em primeira?

Em primeira. Está-se a trabalho. E permite descansar. Chego a ter que dormir no voo. De Los Angeles para Nova Iorque são seis horas de diferença.

 

Tinha alguém da sua família consigo?

Tinha o meu filho e a minha companheira. Só não estão em rodagens porque não posso estar preocupado de forma nenhuma. Fazer promoção é diferente, e nem sempre viajavam comigo. Estavam em Los Angeles.

 

Ter a família por perto é uma coisa permitida a um actor que está num determinado nível?

Tem a ver com bom senso, boa vontade e bom gosto. É um período alargado de tempo, tenho um filho de três anos. Os produtores sabem disso. Seria um bocado insensível da parte deles não ajudar. As viagens [da minha família] são pagas.

 

Ou seja, o actor tem que estar emocionalmente estável e para isso precisa de ter a família por perto. É isso que é considerado?

É considerado que estarei muito mais disposto, muito mais aberto, se não sentir saudades de ninguém. 

 

O expoente máximo da máquina a funcionar é a máquina que envolve a Oprah?

É.

 

O que é que aí é diferente das outras máquinas?

Um grupo de 30 pessoas, que chega três dias antes para montar tudo, para ver cada milímetro, a tonalidade de luz para determinado tipo de pele. A equipa dela vai ao sítio, fala um bocadinho comigo, recolhe outro tipo de informação que não publica, faz uma espécie de pré-entrevista. A Oprah chega, faz e sai.

 

Perguntaram-lhe alguma coisa que o tivesse surpreendido?

Não. Muitas das perguntas – e a entrevista que vai para o ar não é a entrevista toda, é editada – foram sobre o projecto em si, sobre o que senti e o impacto que poderá ter em mim. Foi simpático, foi muito soft.

A máquina: tem a ver só com dinheiro. Em vez de ter uma pessoa a tratar de três coisas, tem três pessoas a tratar de uma. E se há três pessoas para tratar de uma luz, é bom que essa luz esteja boa – senão há cabeças a rolar. Nós achamos que somos menos qualificados (é muito portuguesismo da nossa parte achar isso). Nós somos mais qualificados porque fazemos mais com menos. Eles lá fazem menos com mais.

 

A única coisa que não percebi bem em toda a entrevista: porque é que depois deste sucesso, verdadeiramente, não quer fazer uma carreira internacional.

Porque isso não traz nada que eu não tenha.

 

Pode trazer uma projecção internacional.

Isso serve para quê?

 

Permite o acesso a determinados trabalhos, filmes, coisas a que não tem acesso da mesma maneira se estiver aqui.

Será? Mais dinheiro, é isso? Se a pergunta é: “Ambiciona?”, “Não”. Se a pergunta é: “Gostava?”, a resposta é: “Sim”. Se surgir, irei com toda a força.

 

Por que é que o seu filho se chama Santiago, um nome bíblico?

Porque a mãe gosta e eu gostei também. E porque a mãe e eu estreitámos a relação enquanto eu estava a rodar uma novela em que me chamava Santiago.

 

A sua companheira é uma figura pública, alguém que as pessoas conheçam?

Não, graças a Deus, não. Eles não têm culpa de eu fazer o que faço e não têm que ser expostos.

 

Resguarda isso?

Completamente. Não há uma única fotografia do meu filho em lado nenhum. O lado pessoal, as relações afectivas: eu gosto de um tipo de mulher, que não é a mais espalhafatosa nem a mais histriónica. A partir do momento em que sou actor, não é qualquer mulher que consegue lidar com isso. As mais interessantes têm tendência a afastar-se. Não querem ser como as outras: “Já viste aquele rodeado de mulheres?”.

Eu, sem fazer nada, sou atraído por público que está deslumbrado, não por mim, mas pela figura. Pela figura que aparece na televisão, nas revistas, pelo tipo que é conhecido. É um bocado secundário quem se é de facto. Logo aí fico privado de uma coisa que sou eu. Torna-se o dobro ou o triplo mais difícil conhecer alguém que me possa interessar e que se possa interessar por mim. Percebe o que quero dizer?

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

Emília, Miguel e Sérgio

01.01.14

A Emília, o Miguel e o Sérgio ouvem dizer que a crise é uma castração do seu futuro. É um muro que se interpõe entre eles e a vida. Que lhes tolhe os movimentos, a possibilidade de escolher, a liberdade. São filhos de pessoas que vivem do ordenado, família estruturadas, equilibradas. Vivem no Barreiro, na Baixa da Banheira, em Palmela. Têm 12, 13 anos. Não pensam o futuro sem uma nuvem pesada em cima da cabeça.

 

A entrevista teve lugar no sábado anterior ao Natal. Chegaram acompanhados pelos dois pais ou por um dos progenitores. Ficámos a sós para a entrevista. Não têm relação entre si (o Miguel e o Sérgio conheciam-se vagamente). Começaram nervosos. Foi-lhes explicado que não havia respostas certas. As perguntas tinham o intuito de perscrutar o que imaginam para o futuro. Agora que o futuro parece mais perto, por estarmos num ano novo. Foi pedido que não fossem lacónicos nas respostas. A seguir foi preciso explicar o que significava lacónico. Também foi preciso dizer que podiam perguntar tudo o que não compreendessem. A verdade é que não perguntaram nada. Responderam. De acordo com o seu quadro mental, e, sobretudo, deixando transparecer quem são. O Miguel mais tímido, o Sérgio eminentemente solar, a Emília a confirmar que as meninas amadurecem mais cedo. Todos se derreteram a falar de animais, e por instantes pareceram recuar ao tempo em que foram crianças. Não foi há muito, como é óbvio. E fizeram-se sérios quando pensaram nas dificuldades que os esperam, como quem exercita um músculo que tem de estar em forma.

Tratei-os por tu. Mantive o trato no registo escrito da entrevista. A conversão para a segunda pessoa do plural soaria a afectação. E não, eles não são miúdos queques. São miúdos de cabeça arrumada, com uma razoável noção do meio em que estão inseridos. Não esperam que o futuro seja uma marcha gloriosa. Estão cientes de que a atenção de que dispõem (sobretudo por parte dos pais) é um tesouro.

Combinámos encontrar-nos daqui a 12 anos. Quando tiverem, no essencial, o dobro da idade que agora têm. Para saber como a vida lhes aconteceu. E para olhar para os sonhos que agora têm.  

 

 

 

Emília, quando pensas no futuro, pensas que é uma coisa que vai demorar muito a chegar?

Emília – Não. Acho que vai ser daqui a muito pouco. Sinto-me nervosa quando penso que falta pouco. Estou no nono ano, tenho de escolher. Sinto muitas dúvidas. Começo a imaginar: “Se eu escolher isto, a minha vida vai ser assim.” Era melhor não pensar tanto.

 

Este ano vai obrigar-te a pré-escolher uma vida. Um primeiro caminho. Não quer dizer que depois a vida vá ser exactamente como a escolhes neste momento. Quais são as escolhas principais?

Emília – Estou mais para ir para Línguas do que para Ciências. Gosto de coisas relacionadas com arte e teatro.

 

Miguel, pensas no que vai ser o teu futuro?

Miguel – Mais ou menos. Até ao nono ano ainda falta algum tempo. Acho que vou ter que emigrar. Aqui em Portugal vai ser difícil arranjar emprego. Se ficar cá não vou ter uma grande vida. Se for para fora vou ter uma vida melhor.

 

Mesmo sendo um aluno de cinco, como tu és?

Miguel – Sim.

 

Sérgio, e tu, o que é que imaginas para o teu futuro?

Sérgio – A vida vai decorrendo. Daqui a uns anos, Portugal pode melhorar. Tenho um objectivo: quero ser médico. Cirurgião. Interessei-me muito pelo corpo humano. E na etapa do sexto ano [em que estudámos isso], tive excelente. Acho interessante os médicos salvarem vidas. É uma profissão bonita de se ter. Se não conseguir, tiro outra coisa. Por exemplo, dentista. Há colegas meus que querem ser cirurgiões plásticos.

 

Porquê?

Sérgio – Dizem: “Ganha-se muito dinheiro”. Mas as pessoas estão sem dinheiro, não é? Um nariz; “Vou mudar o meu nariz, quero pô-lo mais fininho.” Não vão investir um monte de dinheiro, cá em Portugal, para mudar o nariz. É mais provável irem ao estrangeiro.

É o que o Miguel estava a dizer: é melhor emigrar se o país continuar assim. Cá, o ordenado mínimo é 800 e tal... não!, é 400 e tal euros. Em França é 1000, 1100. Em Portugal, ter um emprego onde se ganha 1000 e tal é uma grande vantagem.

 

Começaste por dizer que o país pode melhorar.

Sérgio – Pode. O dono do Pingo Doce pode começar a investir  em Portugal. Os clubes de futebol, que têm milhões, podem investir. Construir prédios, escolas.

 

Como é que imaginas o teu futuro?   

Emília – Também acho que vamos ter que sair de Portugal. É difícil ver que o futuro vai ser melhor. Já o Primeiro Ministro disse que é melhor emigrar.

 

Podem fazer um auto-retrato? Quem é que vocês são? Que informação acham que é importante para vos apresentar aos leitores?

Miguel – Como já viram, sou tímido.

 

Sabes porque é que és tímido?

Miguel – A minha mãe também era tímida quando era mais nova. Agora já não é tanto. Acho que sou inteligente. Gosto muito de Matemática. Também gosto de animais. Tenho 12 anos. Já vivi na Baixa da Banheira, agora vivo no Barreiro. Ando na escola da Baixa da Banheira porque a minha avó vive lá e vou para casa dela. Depois a minha mãe vai buscar-me no final do dia, quando chega do trabalho.

 

Como é que é feito este percurso? Imagina que uma pessoa nos lê em Bragança ou em Vila Real de Santo António e não tem ideia quanto tempo demora ou como se faz o trajecto entre um sítio e outro.

Miguel – Dez minutos. Vou de carro com a minha mãe. À noite é a mesma coisa. Demora-se um bocadinho menos.

 

Quando estás com a tua avó, ficas mais em casa ou vais brincar para a rua?

Miguel – Costumo ficar em casa. Vejo televisão, faço os trabalhos de casa e às vezes vou com os meus colegas ao parque, jogar à bola.

Emília – Eu chamo-me Emília, tenho 13 anos, vivo em Palmela. Vivo muito perto da escola e por isso vou sempre a pé para todo o lado. Sou uma pessoa social. Fiz o primeiro e o segundo ano juntos, e por isso sou sempre a mais nova. Na minha turma sou a mais nova. Na minha família, sou das mais velhas. Tenho de me adaptar a diferentes situações.

 

Porque é que gostas de teatro e de artes?

Emília – Gosto de interagir com pessoas. O teatro é uma ligação entre o espectador e quem está no palco. Ando na música. Estou a pensar andar no conservatório até ao oitavo grau. Se fizermos a prova, isso já nos habilita a dar aulas. Ando no quinto grau. Depois, deixo. Não é tanto aquilo para que quero ir. Toco música clássica, violoncelo. Mas gosto mais de ouvir música actual.

 

Tens um relacionamento fácil com os teus colegas e família? Dirias que és o centro do grupo e das atenções?

Emília – Não sou o centro das atenções nem sou apagada pelos outros. Faço o que quero e pronto. Estou ali. Sou boa pessoa.

 

Sérgio, és o centro das atenções?

Sérgio – Não. Lá na turma, ninguém é especial. Lá porque um se vai atirar ao poço, não vamos todos atirar-nos ao poço. Damo-nos bem. Tenho 12 anos, vivo na Baixa da Banheira. Mudei-me há três anos. Antes morava no Pinhal Novo. A turma: é como se fizéssemos parte de uma família. Gosto de estar na escola. Acho que sou simpático. Dou-me bem com as pessoas. Não sou de armar grandes confusões. Na minha escola há sempre confusões. Porrada, coisas assim. Nos primeiros dias do período houve suspensões. A minha turma não é fácil. É uma turma conversadora. Somos uma boa turma de aproveitamento, mas não de comportamento. Não é falar com o parceiro do lado... é falar com o parceiro da outra ponta. Os “stôres” querem falar e nós não deixamos.

 

O que é que suscita essas confusões na escola? Rivalidades entre alunos?  

Emília – Diferentes estatutos sociais. Os mais populares, os menos populares. Por mim, acho que estou ali no meio.

 

As pessoas que são populares são populares porquê?

Emília – São sociáveis de uma certa maneira. Se fôssemos perguntar a um adulto, ele responderia que é porque “aquele” tem mais dinheiro e compra coisas de marca. Não acho que seja tanto assim. Porque há uns populares que não têm coisas [caras]. É a maneira como se dão com os outros. São populares por causa das pessoas com quem se dão. É o irmão daquele. Conhece aquele.  

 

É-se popular pelo facto de se ser um bom aluno?

Emília – Não. Eu sou muito boa aluna, mas não sou crominha. Nos intervalos dou-me com todos. Não sou fechada nem nada. Há os inteligentes que andam sempre nos livros.

Miguel – Não é por ser mais inteligente ou assim que fico popular. Os populares são aqueles que armam confusões. Porque aquele namora com aquela e o outro está a ir com a outra e depois aquele faz não sei o quê àquele.

Sérgio – Às vezes o mais popular é aquele que está na escola há muito tempo, e chumba, e faz muita asneira.

 

Um rebelde?

Todos – É isso.

Sérgio – Fazer tanta asneira sobressai. O nome dele ouve-se tanto que uma pessoa decora. Não é por estatuto social [que se é popular]. Pode-se vestir tudo de marca e não ser conhecido. E outro, que não é tão rico, mas é mais rebelde, é mais popular.

 

Quais são os menos populares?

Miguel – Os que não armam confusão, e que são simpáticos. Como não armam confusão não são o centro das atenções. Os que são mais calmos e inteligentes – como eu – não são populares. 

Sérgio – Os menos populares são os nerds. Os que estão sempre metidos no PC. Que não saem com os colegas. Quando um “stôr” falta, vou jogar à bola. Mas muitos vão para a biblioteca jogar. É a vontade de ir para o PC – e que se lixem os colegas.

Emília – Na minha escola é ao contrário. Alguns dos mais populares vão para o computador.

 

Estão no Facebook?

Todos – Sim.

Emília – Tenho Facebook há pouco tempo. Não havia grande necessidade de ter. Depois achei que era um bom método para falar com amigos. Antes usava o skype e o Messenger.

Sérgio – Eu tenho 400 e tal amigos. Mas só há quatro ou cinco com quem falo. Falo mais com a minha turma, que vejo dia a dia.

Miguel – Só tenho como amigos aquelas pessoas que conheço mesmo e com quem falo. Não aceito [como amigo] pessoas [que não conheço]. Vejo, e vou logo convidar para ser meu amigo? Não.

 

Vamos voltar à ideia de futuro. Vamos imaginar que têm 24 anos.

Miguel – Hum. [faz cara de enorme surpresa]

 

Nunca pensaste nisso?

Miguel – Não.

 

24 anos é o dobro da idade que tens agora. À partida, terás o curso completo, estarás a entrar no mercado de trabalho. Consegues pensar como é que vai ser?

Miguel – É um bocado difícil. Primeiro vou procurar trabalho cá. Depois, se não conseguir arranjar, opto por emigrar. Mas não sei o que é que hei-de ser.

 

O que é que fazem os teus pais? Isso influencia a tua escolha?

Miguel – O meu pai é consultor imobiliário. A minha mãe coordena uma clínica.

 

Imaginas-te a coordenar uma clínica ou a ser consultor imobiliário?

Miguel – Não. Coordenar uma clínica, não. Dá muito trabalho e não compensa tanto. Consultor imobiliário: o meu pai só ganha quando vende; e como está difícil vender por causa da crise, não é certo.

 

Posso deduzir que gostavas de ter uma profissão mais segura em termos profissionais e financeiros?

Miguel – Sim. 

 

Olhando para a sociedade, que profissão imaginas que pode garantir isso?

Miguel – Advogado. Não sei... Os que trabalham nos hotéis, os recepcionistas.

 

Quando fizeres uma escolha não vais excluir a compensação financeira e a estabilidade que isso representa. Não te podes dar ao luxo de só escolher uma coisa de que gostes?

Miguel – Sim, é isso. 

 

Emília, como é que te imaginas com 28 anos? Tens quase 14.

Emília – Com 28 anos, se não encontrar nada em Portugal, estou em Londres. Acho que há mais saídas para fazer publicidade. Gosto de fazer campanhas publicitárias. Não é como modelo. É ter ideias para anúncios. Também no teatro, há mais saídas em Londres. Há mais saídas em todas as áreas, comparado com Portugal.

Isto que o Miguel estava a dizer: pensar no que gostamos e no quanto vamos ganhar: não sei se é assim. No teatro O Bando, no outro dia, estávamos a falar nisso. Uma das responsáveis dizia que devemos seguir sempre aquilo de que gostamos. Sem pensar no dinheiro. Isto está tão mau que é difícil arranjar uma profissão que dê muito dinheiro. Se estivermos a fazer aquilo de que gostamos, mesmo que não ganhemos tanto, pelo menos estamos a fazer aquilo de que gostamos. Vivemos melhor.

 

Quem é que achas que ganha hoje dinheiro em Portugal?

Emília – Os políticos. Quem trabalha na televisão. Os apresentadores. Toda a gente os conhece, vê-os todos os dias – devem ganhar dinheiro.

 

Sérgio, quando tiveres 24 anos, que vida será a tua? Pensas nisso?

Sérgio – De vez em quando. Nunca vou saber o meu futuro. Podemos hoje querer seguir um curso, amanhã podemos querer seguir outro. Não vamos ter sempre o mesmo pensamento. Imagino-me a ir a discotecas com os meus amigos. E que eles tirem, também, uma boa profissão. O meu futuro pode ser bom, como pode ser mau. Para entrar em Medicina tenho de tirar entre 18.40, 19, 20.

 

Estás disposto a marrar noite e dia para conseguir essas notas?

Sérgio – Sim. Tenho de melhorar o Inglês. Tiro boas notas às ciências. A Português surpreendi-me este ano: tirei um 4. Os meus professores têm-me ajudado, acho que vou conseguir.

As pessoas que ganham mais dinheiro em Portugal são os jogadores da bola. Se repararmos, os jogadores ganham 20, 30, 40 mil euros por mês. É muita dinheiro. O Cristiano Ronaldo ganha 50 mil euros por dia.

 

O que é que os teus pais fazem?

Sérgio – Não. O meu pai é vendedor [numa empresa] de desbaratização. Trabalha numa empresa que está em cento e tal países. Ele vende, mas já fez esse serviço [desbaratização]. Começa-se por esse e depois sobe-se para vendedor. A minha mãe trabalha numa espécie de CTT aqui perto. Não sei bem qual é o trabalho da minha mãe. O trabalho do meu pai já me influenciou; quando era pequenino; dizia: “Vou ser vendedor como tu, pai”. A minha estudou, foi até ao 12º ano. Ela queria ser bailarina. Os meus pais estão sempre a dizer uma coisa: “Faz o que eu te digo, não faças o que eu faço. Não te desleixes na escola, senão não tens uma boa vida”.

 

Tens irmãos?

Sérgio – Não. Gostava de ter. De vez em quando penso: “Os meus filhos não vão ter um tio nem um primo”. [riso]

 

Já começaste a falar de uma coisa que ia perguntar a todos: imaginam que vão casar, ter filhos? Como é imaginam a vossa vida pessoal?

Sérgio – Tenho um cão. Antes de nascer, os meus pais tiveram um cão. Deram-no. Roía tudo. Depois tive um gato, a Núria. Gostava muito dela, mas fugiu, na Covilhã. Foi uma pena. Depois tive outro. Não me dava bem com ele. Agredia-me. Uma vez entornou-me o aquário dos peixes para cima da cabeça. Depois tive uma cadelinha, a Fiona. Era muito porquinha, fazia chichi em qualquer lado. Tivemos de a dar. Depois mudámo-nos e os meus pais compraram um cão. Morreu. Voltaram a dar-me um, passados uns meses. Ainda o tenho. A Cuca. É tipo um leitãozinho. Tem a cauda encaracolada e o focinho achatado com rugas. Gosto muito dela. É como se pudesse desabafar com ela.

 

Emília, antes de mais: este não é um nome comum numa pessoa da tua idade.

Emília – Não. Gosto de ter este nome, é diferente. A minha bisavó chamava-se Emília. E a minha tetravó era também Emília. É para as homenagear. Alguns amigos chamam-me Milly.

 

Imaginas que vais ter uma casa tua, um marido, filhos?

Emília – Essa coisa do marido... Se encontrar alguém de quem goste mesmo, a pessoa certa, sim. Senão, não. Não sei o que é que vem aí. Em termos de trabalho, podemos escolher áreas. Ali, [no amor], não.

 

Achas que o amor é uma coisa que acontece, que é pouco de escolha?

Emília – Sim.

 

Que características tem de ter a pessoa certa?

Emília – Ser sincera. Oh pá, não sei. Tem de ter alguma coisa especial. Ser giro. [riso] Não pode ser violento nem agressivo. Tem de me tratar bem. Alto, não muito alto. Moreno.

 

Porque é que valorizas tanto a sinceridade (que começaste por apontar)?

Emília – Acho que é das coisas mais importantes. E muitos dos problemas nas relações são por causa disso.

O que os meus pais fazem não me influencia. A minha mãe é professora de Inglês – e não é por isso que sou boa a Inglês. As pessoas dizem que sim, mas não é. Vejo muitos programas em inglês, gosto dos Simpsons e de séries em inglês, e ouço música. O meu pai é artista plástico.

 

Teres um pai artista plástico não influencia o teu gosto pelas artes?

Emília – Gosto de artes mas não é nada por causa do meu pai. Se calhar está nos genes... Não sei.

Imagino que, quando estiver na universidade, vou partilhar uma casa com amigas. Gostava de experimentar partilhar casa com pessoas que não as da minha família. Partilho o quarto com a minha irmã. Não gosto nada. Quer dizer, gosto e não gosto. Provavelmente, se tivesse o quarto só para mim, sentia-me sozinha.

Quando era pequena tinha muito medo a cães, mas agora não, e gostava muito de ter um cão. Vivo num apartamento e é difícil ter animais. O meu pai tinha uma gata que até teve filhinhos, mas a minha mãe engravidou de mim e tiveram de dar a gata. Só tive peixes. O Sérgio, aos 12 anos, já teve estes animais todos! Quem me dera. É uma das coisas que quero ter quando tiver uma casa minha. Até pela companhia. Um animal de estimação parece que é o nosso confidente.

 

Miguel, imaginas que vais ter filhos? Quantos? Tens irmãos?

Miguel – Sou filho único. Os meus pais separaram-se quando eu tinha um ano.

 

(Os vossos pais estão juntos ou separados?

Emília e Sérgio – Juntos.)

Miguel – Gostava de ter pelo menos um filho. Imagino que vou ter uma casa não muito grande nem muito pequena – normal. Gostava muito de ter gatos, mas a minha mãe é alérgica. Tenho no meu pai, mas vou lá poucas vezes. Estou menos tempo com ele. Gosto muito de animais, em especial de gatos.

 

Como é o teu quarto?

Miguel – É daquela porta aqui.

Emília – O meu quarto não é nem muito pequeno nem muito grande. Quero ter uma casa diferente da minha. Que tenha um quintal ou um pedacinho de lá fora. Que seja acolhedora e organizada. Coisa que o meu quarto não é. Sou desarrumada.

 

És desarrumada e queres ter uma casa arrumada?

Emília – Pois. Quero tentar começar de novo, quando tiver uma casa, e ser mais organizada. Ter um sítio para cada coisa. Gostava de ter uma quarto grande porque vou precisar de espaço para as minhas coisas. Roupa e coisas assim. A minha mãe chateia-se muito, diz que eu tenho de arrumar.

 

É interessante teres dito que imaginas que vais começar uma outra vida.

Emília – Ao mesmo tempo, sem deixar a outra vida.  

Sérgio – Gosto muito da natureza (foi uma das razões por que entrei nos escuteiros). Gostava de ter uma casa no campo. Não isolada, mas no campo. Gostava que os meus filhos – dois, um casalinho – se habituassem a esse meio, e que fossem aventureiros. Vou ensinar-lhes a respeitar as pessoas. A partilhar. Sou voluntário do Banco Alimentar, vou ver idosos. Os idosos são os nossos irmãos mais velhos. Devemos tratá-los bem. Tiveram vidas mais difíceis do que as nossas. 

 

Miguel, pensas que vai ser uma outra vida quando casares e começares a trabalhar?

Miguel – Sim. Também sou um bocado desorganizado. Gostava de não ser tanto. Gosto de arrumar, mas passado um bocado já está tudo desarrumado outra vez. Espero que não seja assim [no futuro]. Não passo muito tempo no meu quarto. Passo mais tempo na sala. Sinto-me sozinho no quarto.

 

Estudas mais na sala que no quarto?

Miguel – Estudo mais no quarto.

Emília – Eu estudo na sala, sempre. Realmente passo muito mais tempo na sala. A sala tem a televisão e é um sítio mais acolhedor. No meu quarto tenho a escrivaninha e o sítio onde guardo as minhas coisas. Mas é isso: guardar. Não passo tempo lá.

Miguel – No quarto tenho o computador e a playstation. Mas passo mais tempo na sala a ver televisão.

 

Como é que achas que vais educar o teu filho? Disseste que querias ter pelo menos um.

Miguel – Espero que eduque bem. Quero que ele seja mais organizado do que eu. Espero que seja inteligente como eu. E que goste sempre dos pais que tem – que goste sempre dos pais que vai ter.

 

No fundo, queres que o teu filho goste tanto de ti e da mãe como tu gostas dos teus pais.

Miguel – Sim.

 

Ainda não falaram de viagens. Imaginam que vão conhecer outros lugares?

Emília – Eu quero conhecer o mundo todo. Fui a Paris, a minha grande viagem. De resto, Espanha, aqui ao lado.

Sérgio – Fui a Tenerife com os meus avós. Ficámos num hotel. Anda-se a passear nas ruas e é só hotéis, hotéis, hotéis. A praia é de areia preta: não gosto! Gostei muito da Suíça, achei fascinante.

 

Estavas a contar, antes de a entrevista começar, que foste com os escuteiros, de autocarro. 

Sérgio – Dois dias de autocarro. Dormimos no autocarro. Passámos por Barcelona, França, várias cidades. Fizemos muitas actividades na Suíça. Os meus pais compraram-me umas botas impermeáveis e andava com elas dentro do rio. Andámos numa coisa que tem uma linha... como é que se chama aquilo?

 

Teleférico?

Sérgio – Sim. Vimos as montanhas todas. Andámos de tobogã. Fomos ao Lago Gelado. Fomos ao Parque Astérix em França. Andámos na montanha russa. Fomos a uma discoteca.

 

Grande aventura.

Sérgio – Foi.

 

Como é que é a relação com os mais velhos?

Sérgio – Há uma falta de respeito pelos “stôres”. E pelos pais. Falo por mim, de vez em quando também respondo aos meus pais. É no momento que digo aquilo. Depois arrependo-me. Espero que os meus filhos, um dia, gostem dos pais. E que gostem dos avós – acho os meus pais fabulosos. Nunca me prenderam. Posso ir a acampamentos, posso sair com os meus colegas.

 

Miguel, és muito protegido? Tens a liberdade que gostarias?

Miguel – Os meus pais dão-me liberdade. Não muita. A necessária. Não me deixam ir para muito longe sozinho. Quando vou para mais longe vão sempre comigo. Mas não me prendem em casa para não sair com os meus amigos.

 

E tu querias ir para longe, às vezes?

Miguel – Não.

 

Estás com o teu pai ao fim de semana. É muito diferente a relação que tens com ele e com a tua mãe?

Miguel – É. Estou muito mais tempo com a minha mãe, portanto temos uma ligação mais forte. Não tenho uma ligação tão forte com o meu pai.   

 

Se tiveres um problema, uma coisa para contar: quem é o teu melhor amigo?

Miguel – A minha mãe.

Emília – Eu partilho com amigos. Também nunca tive assim grande coisa para partilhar... Partilho mais com a minha mãe do que com o meu pai. Por ser rapariga. Vivo com os dois e gosto muito dos dois.

 

Não contaste como é que imaginas que vais educar os teus filhos.

Emília – Não sei se vou ter filhos. Depende. Se tiver um marido e um ambiente estável, sim. Gostava mais de ter rapazes do que raparigas. É mais fácil a vida dos rapazes. Oh pá, sei lá porquê. Por exemplo, gravidez na adolescência: os rapazes não estão presos ao corpo. A mulher: é lá que o filho cresce. É também porque vivo com uma irmã: gostava de ter a experiência de ter um rapaz.

 

Que gostarias de lhes incutir?

Emília – Que fossem felizes. Que não tivessem a [obrigação] de ser inteligentes. Quero que sejam inteligentes, mas que não se preocupem tantos com as notas. Eu não quero preocupar-me tanto com as notas – e tenho boas notas. Mas de certo modo sinto essa obrigação. Os meus pais não ma impõem. Sou eu.

 

Essa imposição que tu te pões acontece porque é a única maneira de singrar na vida?

Emília – É porque me garante um futuro melhor.

 

Vamos voltar ao início da conversa e à ideia de futuro. As vossas primeiras respostas foram marcadas pela crise. Sentem-na na vossa vida de todos os dias?

Miguel – Não, a minha vida não mudou. Continuei a ter as coisas que tinha antes. Continuaram a dar-me as coisas que queria. Também não peço muita coisa... Não precisam de gastar muito dinheiro comigo. Quando quero ou preciso, tenho.

Emília – Só mudou o que eu acho do futuro. É aquela coisa de pensar que estamos em crise e que o futuro vai ser mais difícil. Presentemente, não. Não peço muita coisa. As coisas de que preciso mesmo, tenho.

Sérgio – A vida não mudou muito. Há diferenças. Não se pode gastar tanto. Também não peço muito.

 

Que coisas mais pedem? Um presente no Natal, um presente nos anos?

Emília – Agora já não peço nada. Que dêem o que quiserem.

 

Deixaste de pedir por causa da crise?

Emília – Não. Foi há anos que deixei de pedir. Foi porque cresci.

Sérgio – Deixei de ligar às prendas. O Natal é para se juntar a família. Não é pelos presentes que se faz o Natal ou os anos. Uma pessoa dá uma prenda quando quer. Eu queria um computador (o meu estava a avariar-se). Os meus avós ofereceram-me um portátil e não foi no Natal nem no dia dos anos. O ano passado perguntei se me podiam dar algum dinheiro para ir à Suíça.

 

Miguel, pedes ou esperas um presente quando tiras notas excelentes?

Miguel – Não. Não peço coisas nas ocasiões especiais nem nas outras. Se estiverem comigo já é um grande presente. A minha mãe e o meu pai.

Emília – Não receber nada... ficava um bocadinho triste. Nem que seja a coisa mais pequenina do mundo é um símbolo do que gostamos da outra pessoa. Mas dava algumas prendas para passar o Natal em casa dos meus avós maternos (têm uma casa muito grande). Gostava de passar mais tempo lá, e com aquela parte da família de quem gosto muito.

 

Onde é que ouvem a conversa sobre a crise? É em casa que se fala de cortes, da poupança que é preciso fazer?

Sérgio – Os meus pais não têm problema em falar nisso à minha frente. Acham-me suficientemente adulto para saber o que é que se passa. Dizem que não é preciso esconderem-me nada. Se for preciso dizem-me: “Não podes receber aquilo”. Não faz mal. Eu compreendo. Não é por aquilo que vou morrer. O presente é um objecto, não é uma coisa de valor. Dou mais valor à atenção que os meus pais me dão do que a um presente. Uma pessoa pode ter tudo no mundo e não ser feliz. 

 

Conheces alguém assim?

Sérgio – Não. Mas sei que há. (Vou responder à pergunta: com quem é que desabafamos mais? É com o meu primo. Temos um ano de diferença, é como se fosse um irmão. Tenho primos em terceiro grau que nem conhecia! Um primo que tem o mesmo nome que eu: Sérgio Tiago.)

Ouço conversas sobre a crise no telejornal. Também se vê na rua, nos cafés, as pessoas a falar sobre isso. Os professores. Um “stôr” dizia: “Vocês estão aqui a brincar enquanto os vossos pais estão a trabalhar, a esforçar-se para vos dar o que querem”. Era um excelente professor. Chamava-nos muito à atenção e puxava muito por nós.

 

Emília, como é que tu sabes da crise?

Emília – Principalmente pela televisão. Em família comentamos o telejornal. Mas não temos grandes conversas, especificamente, sobre a crise.

Miguel – Eu ouço mais no telejornal do que se fala em casa. Há pessoas que não estão afectadas pela crise; às vezes há promoções e compram porque está mais barato, mesmo que não precisem.

 

Se não sentem muito a crise no presente, o vosso medo é sobretudo em relação ao futuro?

Emília – É isso.

Sérgio – Os ministros dizem: “Em 2014 isto melhora.” Mas isto não tem vindo a melhorar... Tentam mentir ao país para o país estar mais motivado e não estar descaído. As pessoas estão tristes. Por exemplo, vêem o filho a querer uma coisa e sabem que não têm possibilidade de lha dar. Muita gente tem vindo a emigrar por causa disso. Isso é pior para Portugal. É bom para os outros países. Têm mais pessoas, as pessoas ficam lá, compram mais coisas lá.

 

Todos falaram de emigração. Do que é que teriam mais saudades se tivessem que emigrar?

Emília – Da minha irmã. Mesmo quando for para a universidade não estou a ver como é que vou passar os dias sem ela.

Miguel – Da família.

Sérgio – Da família e dos amigos. Os amigos são sempre aquele apoio.

Emília – E de Palmela.

Sérgio – Do sítio onde vivemos. Daquela escola onde passámos coisas bué da fixe. Dos meus pais. São uns grandes pais. Tentam dar-me o que podem. Não fazem os deveres comigo porque sabem que consigo fazê-los sozinho.

Miguel – Os meus pais também me apoiam muito na escola e no dia a dia. Ajudam-me a fazer as coisas, os trabalhos de casa. Ajudam-me a perceber. Para que consiga, sempre, tirar boas notas.

Emília – Os meus pais são óptimos porque me dão confiança. Não preciso muito de apoio na escola. A minha irmã precisa mais do que eu – é mais nova, tem nove anos. O principal é a confiança. Sabem que não me vou meter em coisas más.

Sérgio – É uma parte essencial: os pais terem confiança nos filhos.

 

Uma palavra para 2013. Qual escolhem?

Miguel – Esperança.

Emília – Era o que eu ia dizer. Esperança.

Sérgio – Motivação para o país?

 

 

Publicado originalmente no Público em Janeiro de 2013

     

       

 

     

   

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