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Anabela Mota Ribeiro

Henrique Neto

14.10.14

Preparem-se que o combate vai começar. Na primeira parte da entrevista folheia páginas e personagens dos vários romances da sua vida (quem diz que são vários romances é ele). Na segunda parte, é um tirocínio impiedoso, em que cada frase parece ter José Sócrates na mira. Porquê este pó (a expressão foi minha)?

Henrique Neto vive numa casa no coração do Chiado (uma geografia que bate certo com a da sua infância). Manhã cedo. Abre a porta, olha para o relógio, pergunta: “Você é pontual?”.

Não está habituado à pontualidade (entre jornalistas, pelo menos). Durante a entrevista chegou pelo correio um livro de crónicas – de um antagonista de Sócrates, claro – que é suposto apresentar.

É casado pela segunda vez, tem três filhos e quatro netos. Fez o curso industrial e o comercial quando não tinha dinheiro para ir para o liceu. Estudou Gestão na Universidade de Navarra quando a vida era outra e havia dinheiro para tudo.

Preparem-se. Ele tem uma postura física que não é a de um homem de 74 anos. E tem um discurso de um homem com dinheiro (apesar de dizer que não) e uma situação de independência que lhe permitem dizer quase tudo. Quase? 

 

 

As pessoas têm a ideia de que é o homem da Marinha Grande, o self made man, uma voz crítica do PS nos anos mais recentes. Podemos decompor estes vários elementos?, para perceber a pessoa que hoje é.

Conto-lhe a minha história, tem a sua graça. Nasci em Lisboa, acidentalmente, no Beco do Carrasco, Poço dos Negros, numa sobreloja de uma fábrica de vidros que ali existia, “As Gaivotas”. Tinha uma tia que vivia na sobreloja esquerda, com uma filha. Nasci do lado direito, num quarto da casa do chefe da polícia da esquadra da Boavista. O meu pai, que era operário vidreiro, quando fez tropa foi para a polícia, para a esquadra da Boavista. A minha mãe veio com ele e alugaram um quarto. O meu pai era muito irrequieto, teve as mais diversas profissões. Era um autodidacta, lia muito, apesar de ter só a quarta classe. Estive por ali até aos três, quatro anos. Depois o meu pai deixou a polícia, voltou a ser operário vidreiro, e fui para a Marinha Grande.

 

Porque é que o seu pai era tão irrequieto?

Era assim. Emigrou para a Alemanha como operário vidreiro com 65 anos e trabalhou lá até aos 75. Com a minha mãe sempre foi assim, sempre teve a casa dele e ela a casa dela. Voltei para Lisboa para fazer o final da 3ª classe, com nove anos, e fui viver para o Beco, para casa da minha tia. O meu pai era pobre, vivíamos com dificuldades. A minha prima era funcionária da Bertrand, fazia as compras dos livros, ganhava bem. A minha tia não trabalhava, as duas tinham uma vida pacata. Fiz a 4ª classe, e o 1º e 2º ano da escola industrial, na Fonseca de Benevides. Quando acabei, voltei para a Marinha Grande. Nunca ninguém na família pôs a hipótese de eu ir para o liceu – coisa interessante. Era natural que fosse trabalhar.

 

Não pensaram no liceu, nem sequer a sua prima que fazia compras para a Bertrand, que tinha acesso aos livros, porque não havia de todo essa possibilidade económica, ou porque se achou que o facto de estar em Lisboa já era uma maneira de ter uma educação diferente daquela que teria na Marinha Grande?

Penso que era mais por acharem que não tínhamos recursos para fazer uma carreira universitária. Não me lembro de ter achado aquilo estranho, escolhi e ponto final. Com 13 anos, fui trabalhar e estudar à noite. Fui fazer um curso industrial, que já não era de mecânica, era de pintor de vidros. Como tinha um grande à vontade em mecânica, consegui convencer os professores a fazer um curso de mecânica onde havia um curso de pintores de vidros [riso]! Lembro-me que arranjei uma chumaceira, um motor de bicicleta italiana, desmontei, levei e desenhámos aquilo. Tirei o quinto ano de mecânica num curso que não era de mecânica. Os miúdos todos fizeram esse percurso: o curso de mecânica que nos era útil à vida, que estava a nascer na Marinha, com a indústria de moldes.

 

O que é que perseguia nesses anos, e o fazia sugerir isso aos professores? Era o desejo de aprender, era o desejo de sair da cepa torta?

Era um bocado o desejo de subir na vida. Comecei a trabalhar numa fundição e deram-me cinco escudos por semana. Achei uma exploração, só lá trabalhei duas semanas. E não gostava, trabalhar com areia não tinha nada a ver com mecânica. Fui trabalhar com um tio que tinha uma caixotaria (fazia caixotes de madeira que eram fornecidos às fábricas para meterem o vidro, para a exportação). Dos 14 aos 16 trabalhava a pregar os caixotes, e depois levava-os à fábrica num carro de burro. Fiquei célebre na Marinha Grande porque ia ao lado do burro, a andar, e a ler! Lia toneladas de livros. A história da Bertrand tem que ver com isso.

 

Os livros chegavam por via da sua prima ou das bibliotecas itinerantes?

Havia uma biblioteca no Jardim de Santos. Era uma estante metálica com duas portas de vidro. O meu critério era começar na prateleira de cima até à prateleira de baixo. Quando acabei aquilo passei para o Jardim da Estrela, onde havia uma biblioteca semelhante. Com nove, dez anos, passava ali as tardes. Já no curso industrial e comercial, vinha para a Bertrand. Lembro-me de o Aquilino Ribeiro se vir meter comigo: “O que é que estás a ler?”. Andava sempre por ali, pela Brasileira.

 

Aprendeu a ler com o seu pai, com a sua prima?

Antes da 1ª classe, fui para a Candidinha, uma professora que ensinava os meninos a ler, aí uns 12. Tinha um quarto pequeno, com uns banquinhos baixinhos; cantava-se, lia-se, aprendia-se.

 

É interessante a consciência que os seus pais têm de que é preciso que saiba ler cedo. Não era tão comum quanto isso em pessoas pobres e naquele quadro social.

A Marinha Grande tem uma cultura completamente diferente. O meu pai tinha muitos livros, de política, de outros tipos. O meu tio paterno, que viva ao nosso lado, tinha estantes com livros. Quando voltei para Lisboa, foi um choque cultural para mim. Via os operários da Lisnave, das docas, pelas ruas, sentados no chão, todos de fato-macaco, ainda sujos. Mas estes tipos não se lavam? Na Marinha Grande o operário vidreiro (ainda hoje, mas na altura era mais notório) acabava o trabalho, tomava banho na fábrica, vestia-se e saía de fato e gravata. O fato da fábrica ficava na fábrica e ao fim-de-semana limpava-se.

 

De onde é que isso vem?

Da tradição. A [empresa] Marinha Grande foi fundada pelo Stephens, um inglês. O Marquês de Pombal achou que estávamos a importar vidro da Inglaterra que não se justificava, chamou o Guilherme Stephens e disse-lhe: “Queria que fizesse uma fábrica de vidro aí num sítio qualquer. Escolha”. Escolheu a Marinha Grande porque tinha lenha para queimar. Construíram um palácio, que hoje é o museu do vidro. Fizeram leis; uma delas foi proibir as tabernas. Fizeram um teatro, uma escola profissional, importaram mão-de-obra de Inglaterra, de Veneza e de outros sítios, para ensinar. Diz-se nas crónicas [da época] que foram à Marinha Grande os grandes teatros de Lisboa. No final da monarquia fundou-se o sindicato vidreiro, que teve uma acção muito importante na cultura. Já no meu tempo existia o Sport Operário Marinhense, uma associação de cultura e recreio que durante muitos anos foi dirigida por um grande amigo, o Dr. José Vareda. Com ele aprendi muitas coisas – democracia, nomeadamente. Quer na escola industrial quer na comercial, que fiz depois, não se aprendia inglês; aprendi inglês no Sport Operário Marinhense. O operário da Marinha Grande, na política, até recentemente, não reivindicava se não soubesse dar o exemplo. O meu pai era um doente disso.

 

Disse que parte do seu esforço tinha que ver com o desejo de subir na vida. Qual era o modelo que o inspirava? É verdade que todo o meio o puxava para cima.

Quando acabei o curso industrial devia ter uns 15 anos e trabalhava já no Aníbal Abrantes. O Aníbal Abrantes tinha uma fabriqueta para fazer moldes, foi para a Marinha para jogar futebol. Toda a gente o conhecia, era uma espécie de Peyroteo. Passava muitas vezes à porta da fábrica, que tinha janelas com umas frestas, ficava horas a ver as máquinas. O meu sonho era trabalhar naquela fábrica.

 

Porquê?

Eu percebia que o vidro era o passado e que os moldes iam crescer. Não me enganei. Quando acabei o curso industrial ainda pensei ir para o liceu, mas não havia aulas nocturnas, a minha família precisava do meu ordenado. (Chegava a casa e dava o ordenado à minha mãe, ela depois ia-me dando o que achava. Foi assim até me casar).

 

Antes dos moldes, vamos a alguns personagens com quem se cruzou. Já me disse que tem vários romances na sua vida.

Tive um professor fabuloso na 1ª, 2ª e 3ª classe, o professor Garcia. Tínhamos só escola de manhã mas ele dava aulas todo o dia, por auto-recriação. À tarde, havia um aluno que fazia ditados aos outros e mantinha a disciplina. Se no dia a seguir lhe cheirava que tinha havido bagunça, era estalada forte. Era muito grande, um estalo dele era uma coisa respeitável. Incentivou-nos a pedir à família dois tostões e havia prémios para quem tinha dado menos erros durante a semana. Havia três matulões que levavam o prémio sempre, eu era um deles [riso]. Os outros dois foram da PIDE, mais tarde. Era o “Mercúrio”, porque foi trabalhar para uma drogaria, e o Prazeres, que vivia sozinho com a mãe, o pai tinha desaparecido.

 

Que expectativas é que os seus pais depositavam em si?

Bastantes. A minha mãe era analfabeta. O meu pai lia muito mas estava lá na dele. Se precisasse de alguma coisa e fosse ter com ele, ele fazia; mas eu nunca precisava de nada, nem ia precisar. Portanto, nunca ia ter com ele, e ele nunca vinha ter comigo.

 

Que acanhamento era esse em relação ao seu pai, a ponto de “nunca precisar de nada”?

A minha mulher diz isso muitas vezes – acho que exagera –, que na nossa família não comunicamos. Se alguém está aflito acode toda a gente, mas cada um resolve a sua vida. Para lhe dar uma ideia: as minhas pegas com a minha mãe – que eram poucas, adorava a minha mãe – eram sempre porque ela comia em pé. As culturas são como são. A minha mãe tinha sido criada de servir, antes de casar, e tinha vindo de um meio rural, da Batalha. O meu avô era um homem terrível. Morreu com 102 anos e era um “Malhadinhas” chapado – não sei se conhece a obra do Aquilino. Um dia matou um homem que lhe fez qualquer coisa no quintal. Conto isto muitas vezes porque é tão português...  

 

Que idade é que tinha quando isso aconteceu?

Tinha sete, oito anos. Ouvi falar na altura. Depois do julgamento, o juiz perguntou se ele tinha alguma coisa a dizer: “Tenho. Não fiz nada, só lhe dei umas verdascaditas com o cabo da enxada”. A palavra é esta. A verdascada é dada com uma coisa fininha. Se ler o “Malhadinhas”, ele fala assim. Aliás, temos um primeiro-ministro que também é assim. Falam, torcem a verdade e a realidade. Claro, isto é uma torcidela muito forte. O juiz parece que lhe disse: “Então uma verdascadita…”. Mandou-o para a cadeia 20 anos, mas ele só lá esteve um ano. Tornou-se jardineiro do chefe da prisão, rapidamente, fazia o vinho.

Sempre tive horror às palavras que dizem coisas demais. As palavras têm que dizer aquilo [que são], não pode haver interpretações na minha cabeça. Detesto escritores [como] o Lobo Antunes, detesto, se aquilo é um escritor. Porque diz o que lhe passa pela mona, lemos páginas e páginas sem saber o que é que ele quer dizer.

 

Porque é que precisa de palavras concretas?

Talvez como reacção aos “Malhadinhas” deste mundo.


Que distorcem a realidade e o significado das palavras, é isso?

Como comecei a ler muito cedo, comecei a gostar das pessoas que percebia facilmente o que é que queriam. Adorava o António José Saraiva, que era o tipo que dizia mais coisas com menos palavras.

 

Que impacto é que teve na família, e em si, em termos reputacionais o caso do seu avô?

Nenhum.

 

Era a cultura do seu tempo?, era um homicídio mas apesar de tudo era uma coisa de honra?

A minha mãe dizia que o meu avô tinha matado a minha avó. Aí nunca foi preso. Ela estava grávida e parece que ele lhe deu um pontapé. A minha mãe dava-se muito mal com ele. Eu dava-me bem, estranhamente. Bem sei que o conheci mais proximamente quando ele estava na fase de velho.

 

Mais adocicado?

Sim.

 

Ele falava do que tinha feito, do que tinha sido a vida dele?

Não.

 

Manteve-se orgulhoso até ao fim ou mostrava arrependimento?

Nunca dei por isso. Lembro-me dele na fase dos 90 anos. A casa era em frente ao Mosteiro da Batalha. Quando tinha 90 anos e começava a chuviscar, agarrava numa garrafa de vinho, num bocado de pão, um bocado de queijo (quase só se alimentava a pão e queijo), e dizia: “Vou ver os desastres”. Fazia-lhe muita confusão porque é que as pessoas tinham desastres naquele sítio; era uma estrada polida, os carros vinham por ali abaixo, ele estava por trás do sobreiro a ver. Dizia que tinha tido dez filhos de duas ninhadas. (São coisas chocantes, mas era assim). Tinha filhos dessa mulher que morreu, depois casou novamente e teve outros cinco. Mas íamos sempre ver o meu avô, no Natal, na Páscoa.

 

Viveu num mundo onde as relações podiam ser simultaneamente passionais e tensas. Com a sua mãe, com o seu avô, percebeu que era possível viver nessa tensão e não perder a face.

Sim. O meu avô resolvia todos os problemas. Quando esteve preso, “o avô Alfredo…” – Alfredo Palaio, era a alcunha – “rapidamente resolveu o problema”. Empregou-se, ainda estava na prisão, na Junta Autónoma dos Vinhos, primeiro na Batalha e depois em Leiria. Não havia enólogos, pisava-se a uva, cheirava-se e toca a andar; o meu avô especializou-se, era muito respeitado na zona.

 

Não perdeu o respeito.

Não, não, as pessoas respeitavam muito o Alfredo Palaio. Uma vez, na Marinha, tinha 12, 13 anos, ainda me lembro da situação, do sítio, da casa, estive à bulha com outro miúdo, que me terá dado um estalo. Eu, aparentemente não lhe dei outro; a ponto de alguém, que conhecia o meu avô, me ter dito: “Ai se fosse o teu avô… Não sais ao teu avô, ele matava-o já”. Aquilo humilhou-me brutalmente.

 

Estávamos naquilo que os seus pais esperavam de si.

Esperavam que tivesse uma profissão. Trabalhei com o burro até aos quase 16 anos. A minha mãe dizia ao meu tio, meu padrinho, que eu queria era ir para o Abrantes. E ele dizia: “Um dia falo ao Abrantes”. O meu padrinho Frutuoso ia muitas vezes ao café Cristal, onde o Abrantes também ia beber café. “Quando tiver lá uma vaga, tenho um sobrinho que queria ir para os moldes”.

Lembro-me de estar a ler e baterem ao vidro da janela à meia-noite, uma hora da manhã; era o meu tio Frutuoso: “Pode mandar o rapaz amanhã para o Abrantes, que ele mete-o lá”. Fiquei encantado, levantei-me de madrugada, vesti-me, quando a minha mãe me veio chamar já estava pronto. Havia pouca gente entre os trabalhadores que tivesse o curso industrial. Trabalhei na oficina nos primeiros meses, nos tornos, na bancada; depois fui para desenhador (uma espécie de escalão mais elevado).

 

Já não sujava as mãos. Uma enorme diferença.

Fui dos primeiros desenhadores de moldes.

 

O que é que era fascinante, era perceber como é que as coisas funcionavam?

E também sentia que tinha ideias.

 

E que conseguia materializar essas ideias nos moldes?

Foi o que aconteceu. Quando fui para desenhador já havia mais dois, nenhum deles tinha o curso industrial. Um era o Carlos Ministro, de uma família de operários a quem chamavam “os ministros” porque tinham opiniões; eram do PC. Era o Carlos Ministro, o Lenine Ministro. Tive pegas com ele mais tarde, na empresa. Lenine era nome próprio, Lenine de Jesus Alexandre.

 

Era o catolicismo da mãe, o comunismo do pai…

O pai fazia moldes de madeira. Talvez devesse contar, tinha 14, 15 anos e fui para MUD Juvenil [Movimento de Unidade Democrática]. Eu e os outros todos. Éramos para aí 50 miúdos.

 

Antes disso ia para a Mocidade Portuguesa, não?

Tenho uma fotografia com o barrete da Mocidade Portuguesa. Nunca fui preso; ou melhor, fui preso três ou quatro dias enquanto os meus amigos foram todos presos. No MUD Juvenil fizeram de mim (não contribuí nada para isso) uma espécie de tipografia; deram-me uma máquina de escrever e um stencil, que levei para casa, para grande horror da minha mãe. Tinha-a numa casota, só eu é que tinha a chave. Quando havia distribuição de documentos, papéis, não ia para não ser apanhado. Se fosse apanhado podiam ir a minha casa, como iam a casa dos outros todos. Portanto, até ir para a tropa, tive sempre uma certa protecção por causa de ser o escritor de serviço. Diziam o que queriam, davam-me os textos e eu dactilografava. Não era formalmente do Partido Comunista.

 

Nunca foi?

Fui, muito mais tarde, em 1966, 67, 68.

 

Quem eram as figuras que dominavam a cena política da região, nessa altura?

O Dr. José Vareda, também ele um autodidacta. Fez uma coisa que nunca consegui fazer: foi para o liceu. Tinha a vantagem de servir à mesa, (o pai ferrava os cavalos e tinha uma tasca). Ia de bicicleta para Leiria. Tirou o curso de advogado em Coimbra, era um homem com grande importância na política antes do 25 de Abril, e depois também. O outro, Vasco da Gama Fernandes, que foi presidente da Assembleia da República. O Dr. José Vareda, para meu espanto, nunca foi do Partido Comunista. Dizia-me que não era, mas nunca acreditei [riso]. Não era mesmo, era aquilo a que se chama um compagnon de route, um homem que defendia os princípios.

 

Estamos outra vez nos personagens dos seus romances…

Havia um operário, de cultura fabulosa, ainda é vivo, na miséria, o Joaquim Carreira; nunca abriu a boca [na prisão]. O meu maior amigo, o Luís Manuel Ferreira dos Santos, que era dessa miudagem, era poeta. Deu-me a ler Fernando Pessoa. O Luís não era do Partido Comunista, não era de coisa nenhuma; ajudava, mas a política não era para ele. A PIDE não ia em poesias, foi preso três vezes. “Eu não falo”. Como os que não falavam eram os do Partido Comunista, o Luís era um perigoso comunista!, foi dos que mais levaram, pancada, sono. Na terceira vez, veio de lá e não dizia coisa com coisa, meio tolo.

 

Que é feito do Luís?

Nessa época acampávamos. Lembro-me de estarmos no parque de campismo de São Pedro de Moel, apareceu um casal, dois professores suíços, com duas filhas (bem giras, por acaso), que perguntaram: “Porque é que vocês não fogem disto?”. O Luís disse: “Eu fugia, se pudesse”. Foram para a Suíça e arranjaram-lhe um emprego. Era contabilista numa empresa na Marinha. Já tínhamos 20 anos. Já tínhamos ido ao estrangeiro, o Dr. Vareda, mais um primo dele, o Luís e eu, a França de carro. Fomos passar os Pirinéus.

 

Só para ver como era?

Para ver os livros, comprar jornais, passear. Fomos a um acampamento no Vercors, uma área da Resistência Francesa, ver os monumentos, o sítio onde as pessoas tinham morrido. Fizemos um mês inteiro. Quando chegámos a polícia caçou-nos tudo quanto a gente trazia na fronteira. O Luís ainda hoje está na Suíça, reformado. Vou lá vê-lo, vem cá ver-me. Escreve livros, faz poesia.

 

Como é que cresce profissionalmente?

Cedo comecei a ter uma vida economicamente organizada, folgada. Fiz a tropa. Voltei para a empresa como desenhador. Uma vez, com o Lenine, fomos falar com o patrão, que era um homem excepcional, ouvia toda a gente. Foi a época em que começaram a exportar. Os moldes chegavam, não eram iguais aos que estavam no desenho, os clientes começavam a reclamar. “Isto está uma desgraça, o senhor Costa (que era o chefe da produção) não cumpre os desenhos”. O Aníbal Abrantes deu-nos poder para fazer cumprir os desenhos. Quase toda a gente ia comer a casa; eu, durante a hora de almoço, andava por ali, com a bucha, a ver. Sabia tudo o que se passava na produção. Ganhei um certo ascendente pelo facto de saber. Mais tarde, houve um homem que iniciou a exportação portuguesa de moldes, um holandês.

 

Outro personagem de romance?

Deu um romance e deu um filme. Era um judeu, da Força Aérea, teve um desastre na fase inicial da [Segunda] Guerra. Saiu do hospital, foi recrutado pela CIA para espião, ele e mais meia dúzia. Fizeram espionagem através de uma orquestra. O nome dele era Tony Jongenelen. Foi meu mestre, também. Quando acabou a guerra, o governo americano deu-lhes apoio para organizarem a vida. Todos montaram fábricas de injecção de plástico para fazer instrumentos musicais. O Tony Jongenelen era vendedor de mecanismos de uma empresa Suíça, veio a Portugal e viu o molde de uma televisão com música dentro, um brinquedo, da Aníbal Abrantes. O plástico era a novidade. Disse: “Quanto mais produzíssemos, mais vendíamos. O problema são os moldes, não há quem faça moldes”. Ficou muito rico, o Sr. Tony Jongenelen. Já não era pobre. Fixou-se cá. O Aníbal Abrantes não ganhou muito. Mas deu-me a mim a oportunidade. A determinada altura o Tony Jongenelen teve um ataque cardíaco e decidiu que quem ia à América falar com os clientes era eu.

 

Que idade tinha quando isso aconteceu?

Tinha 26 anos. A primeira vez nos Estados Unidos, a primeira vez a andar de avião. Nunca tinha feito preços. Arranjei um amigo, desenhador de uma empresa americana, que fazia brinquedos; foi-me dando os preços americanos [riso]. À conta disso, fiz uma encomenda fabulosa que deu muito lucro à empresa.

 

Quando em 1975 fundou a sua empresa, todo esse caminho já tinha sido desbravado por si, com os diferentes sectores. Como é que deu esse passo?

Muitos dos meus colegas saíram para montar as suas unidades. As fábricas de moldes eram quatro, cinco sócios. Tive vários convites e nunca quis. Costumo dizer, quando me dizem que sou um empresário excepcional: “Fui, à força”. Só fui com o 25 de Abril. Era director-geral da Aníbal Abrantes e era do Partido Comunista, o que causou muitos engulhos. Dei com uns sujeitos na fábrica a fazer fotocópias e fiz uma zaragata. “Aqui na empresa trabalha-se, fazem os papéis lá fora”. O Aníbal Abrantes vendeu a empresa. A administração eram uns meninos ali do Estoril. Começou a haver choques crescentes a seguir ao 25 de Abril. Com um engenheiro da comissão de trabalhadores, quiseram cortar-me o ordenado. Eu tinha uma comissão sobre as vendas, tinha uma situação económica bastante desafogada… “Não há cá cortes”. Fiz umas propostas meio loucas e vim-me embora.

 

Porque é que antes disso não quis? Porque é que não teve a ambição de trabalhar por conta própria? Ainda por cima com a noção de que dominava as várias áreas.

Por um lado ganhava bem, gostava muito do que fazia. A empresa tinha crescido, era provavelmente a maior empresa de moldes do mundo, tinha cerca de 300 pessoas.

 

Achava que já tinha, olhando para o seu ponto de partida, mais do que alguma vez tinha sonhado, era isso?

Era. Por outro lado, tinha que começar com uma chafarica pequena. Nunca gostei de dinheiro, nunca valorizei o dinheiro.

 

Como assim?

Precisamos de dinheiro, para comer, para os livros. Mas mais do que é preciso, para quê? Nunca tive a ambição de ter dinheiro. Ainda hoje não tenho.

 

A sua ambição era ter o quê?

Era fazer obra. Esta coisa da maior fábrica de moldes do mundo, era uma coisa que dava no olho.

 

Estava envaidecido por ser o director-geral de uma fábrica que era a maior do mundo e que tinha 300 funcionários.

Era. Dava gozo, os clientes vinham, achavam aquilo o máximo. Estava mais motivado pela obra da Aníbal Abrantes do que propriamente por ir montar uma empresa.

 

Foi candidato pela Oposição Democrática em 1969. A partir do episódio que contou, é interessante perceber que não misturava a actividade política com a sua actividade profissional.

Isto reverte à cultura da terra.

 

Não quis ser um político proeminente, não investiu na carreira política, apesar de ter sido candidato.

Antes de mais nada, os políticos no distrito de Leiria eram dois, Vasco da Gama Fernandes e Dr. José Vareda. O Vareda era muito próximo do PC, o Vasco da Gama era muito próximo da Acção Socialista, que antecipou o Partido Socialista. Mesmo quando não havia campanhas políticas, todas as semanas nos reuníamos no escritório do Vasco da Gama. Ele ficava atrás da sua secretária, um senhor à antiga, discutia-se, livros, política. No 5 de Outubro vinham os velhos, alguns da primeira República, que faziam discursos com voz tremente, que o Vasco da Gama fazia também quando estava na Assembleia da República.

 

A maçonaria, entrava aí?

Bem dito. Sempre tive um pé à maçonaria muito grande. Não gosto da maçonaria.

 

Porquê?

Porque vicia o pensamento. A maçonaria é um grupo de amigos que se defendem uns aos outros. Não quer dizer que não tivesse sido importante.

 

O PC, a que pertenceu, não era um grupo que pode viciar o pensamento?

Na Marinha Grande, o PC era muito mais virgem. Era outra escola.

 

Quer dizer, foi assediado pela maçonaria, mas não foi.

Nessa altura, não. Fui mais tarde, em Lisboa, com a Natália Correia. Mas sempre disse: “Com a maçonaria não quero nada”. Ainda hoje continuo a dizer que é a coisa pior que pode existir na política. Por alturas de 1968, 69, o distrito de Leiria começou a ser muito importante na política nacional por causa do José Vareda e porque era a partir de Leiria que se faziam as reuniões da Oposição Democrática. Fazíamos reuniões em Fátima, foi lá que conheci o [Mário] Soares, o [Salgado] Zenha, o Jorge Sampaio. Depois o Vareda abriu um escritório em Lisboa e juntava-me muitas vezes aqui com ele, com o Jorge Sampaio, com aquele grupo dos católicos. Passámos também a fazer uma política lisboeta. Consegui conciliar as duas coisas, o que às vezes não era fácil visto que fazia viagens aos Estados Unidos praticamente todos os meses. Conheço os Estados Unidos como as minhas mãos.

 

Nunca desistiu de uma das partes? Nunca decidiu que ia ganhar dinheiro, mais que tudo, e que a relação com a política ia ser lateral?

Desisti. Quando montei a Iberomoldes, em 1975. Era na altura da comissão política do MDP [Movimento Democrático Português], o Vareda e eu representávamos o distrito de Leiria; lembro-me de uma célebre noite em que se discutiu os SUV’s, Soldados Unidos Venceremos. O PC tinha resolvido apoiar. Reagi contra, o Vareda também, e mais alguns. “Estou disponível para fazer uma revolução. Uma guerra civil, não faço”. Os soldados, no fundo: era dividir o exército, dividir a tropa entre esquerda e direita, coisa muito perigosa. Nessa noite, às três ou quatro da manhã, como aquilo acabou por ser aprovado, disse: “Vou-me embora, não ponho cá mais os pés”. Em casa, acordei a minha mulher: “A minha vida política terminou hoje”. E assim foi.

 

Foi só um desencanto com a política?

Claro que também havia uma razão [económica]: tinha um ordenado, ganhava bem, deixei de o ter, ia começar uma empresa. Durante uns anos não tive nenhuma actividade. Até que o Jorge Sampaio me veio desencantar quando foi secretário-geral [do PS].

 

Quando é que se reconcilia com o Partido Socialista? É por via do Soares, do Sampaio?

Do Sampaio. Nunca gostei do Soares, detestava-o. Antes do 25 de Abril, num jantar de homenagem no Carregado, o Soares, e hoje reconheço, com razão, fez um discurso em que cortava com o Partido Comunista e dizia que a política portuguesa não podia ser dominada pela Oposição Democrática inorgânica, que a missão dele era criar um partido. Na minha cabeça, isto era um ataque à unidade!, a nossa obsessão era a unidade.

Não porque Leiria tivesse mais poder político, mas porque organizava bem as coisas, as reuniões passaram a ser feitas ali. Os sítios estavam prontos, o almoço estava feito, funcionava que nem uma máquina. Eu detestava o Soares, que tinha aquela coisa, entra assim [incha o peito], arrogante. E a gente vinha da província aos senhores de Lisboa, para fazer a unidade…

 

Quando é que passou a gostar do Soares? Tem uma fotografia do Soares na sala.

Tenho, e de vez em quando janto com ele, agora dou-me bem com ele. [Reconciliei-me] quando o Soares foi presidente da República. Com os presidentes da República não discutimos. Na minha cabeça, um presidente da República está acima dessas coisas, este e os outros todos. Ainda hoje, quando o vejo, chateio-lhe o juízo porque ele anda a sustentar o Sócrates, e a denegrir o seu passado político. Gostei muito do Zenha, apoiei-o quando foi candidato à presidência da República, não apoiei o Soares. Era um homem íntegro, recto, com ele as palavras não queriam dizer outra coisa; o Soares não, diz uma coisa e daí a bocado já é outra coisa.

 

Porque é que tem pó ao Sócrates?

Uma vez, fui a um debate em Peniche, conhecia o Sócrates de vista. Isto antes do Governo Guterres. Não sabia muito de ambiente, mas tinha lido umas coisas, tinha formado a minha opinião. O Sócrates começou a falar e pensei: “Este gajo não percebe nada disto”. Mas ele falava com aquela propriedade com que ainda hoje fala, sobre aquilo de que não sabe [riso]. Eu, que nunca tinha ouvido o homem falar, pensei: “Este gajo é um aldrabão, é um vendedor de automóveis”. Ainda hoje lhe chamo vendedor de automóveis.

 

Esse é um dos nomes mais simpáticos que lhe chama, chama-lhe outros piores.

Quando se pôs a hipótese de ele vir a ser secretário-geral do PS, achei uma coisa indescritível. Era a selecção pela falta de qualidade. O PS tem muita gente de qualidade. Sempre achei que o PS entregue a um tipo como o Sócrates só podia dar asneira.

 

Nos últimos tempos a sua voz é das mais críticas no PS, e o desdém com que fala dele faz-me perguntar se a questão tem uma raiz emocional.

Faço uma explicação: gosto muito de Portugal – se tiver uma paixão é Portugal – e não gosto de ninguém que dê cabo dele. O Sócrates está no topo da pirâmide dos que dão cabo disto. Entre o mal que faz e o bem que faz, com o Sócrates, a relação é desastrada. O Soares também fez muito mal ao país, mas também fez muito bem; se calhar até fez mais bem que mal.

 

A maneira como se envolve e se empenha cada vez que fala de Sócrates, faz perceber que há ali uma motivação que é epidérmica, que não é uma coisa só racional.

Não. Há caras de que gostamos mais e outras menos, mas não me pesa assim tanto. Para além do facto de que estou convencido de que ele não é sério, também noutros campos. Conheci a vida privada do Sócrates, ele casou com uma moça de Leiria, de quem conheço a família. Sou amigo do pai delas, que foi o meu arquitecto para a casa de São Pedro de Moel. Esta pequena decoração que vê aqui [em casa] foi feita pela cunhada do Sócrates. Às vezes compro umas pinturas que a mãe delas faz. Nunca fui próximo da família, mas tenho boas relações. Não mereciam o Sócrates. Portanto, sei quem é o Sócrates num ambiente familiar. Sei que é um indivíduo que teve uma infância complicada, que é inseguro por força disso, que cobre a sua insegurança com a arrogância e com aquelas crispações. Mas um país não pode sofrer de coisas dessas.

 

Permite-se dizer todas as coisas que diz acerca de Sócrates porque tem esta idade e porque tem o dinheiro que tem?

Não tenho muito dinheiro.

 

Há essa ideia, sobretudo depois de ter vendido a sua participação na Iberomoldes.

Quase dei. Não queria morrer empresário. Tenho para ir vivendo, não tenho assim tanto dinheiro. Também não posso ser tão inocente… O problema é que também estava convencido de que a indústria portuguesa vai toda para o galheiro. Com os erros que estamos todos a cometer, só por milagre é que algum sector vai sobreviver. Se estou convencido disso o melhor é não fazer parte do problema, especialmente nesta fase da minha vida. Tenho a minha independência económica.

 

Não depende.

Sempre fui assim. Escrevi uma carta ao Guterres, que foi publicada, em que lhe disse coisas que digo do Sócrates.

 

Foi deputado na governação de Guterres.

Era deputado quando escrevi a carta, era da comissão política do Partido Socialista. Foi na fase de Pina Moura e daqueles descalabros todos. Na comissão política, estão publicadas algumas dessas coisas, [sobre] os negócios do Jorge Coelho e do Pina Moura. Depois de ter falado disso tudo em duas ou três reuniões e não ter acontecido nada, escrevi uma carta e mandei ao Guterres. Ele distribuiu a carta. No outro dia veio nos jornais. Era uma carta duríssima. Os problemas eram os mesmos, estávamos a caminhar mal, estávamos a enganar os portugueses, a dizer que a economia estava na maior, quando não era verdade. Na altura já falava com o Medina Carreira e ele já falava comigo.

 

Está a dizer-me que sempre se permitiu dizer tudo.

Sim. E tinha a empresa. Quando o Pina Moura foi ministro das Finanças, uma senhora das Finanças instalou-se lá na empresa. Nunca contei isto. Encontrava-a no elevador, nunca falei com ela, “bom dia Sra. Dra”. Mas os meus homens contavam-me. Andou à procura, à procura, à procura como uma doida. Esteve lá alguns dois anos. As coisas não são impunes, a gente paga-as neste mundo. Disse o que quis do Pina Moura, da maioria desses gajos; era natural que se defendessem. Os seus colegas jornalistas muitas vezes foram ao Pina Moura com o que eu disse; e ele: “Não comento”. O Guterres também não comentava, e o Sócrates também não comenta. Aliás, quando faço uma intervenção ao pé dele fica histérico, não me pergunte porquê.

 

Porque é que não quis acabar empresário?

Porque ser empresário hoje é ser herói. Já não tenho idade para ser herói. A economia portuguesa não está assim por acaso.

 

É o seu projecto de vida. Porque é que não quis continuar a trabalhar nisso que foi a sua vida?

O meu pai mudou de vida várias vezes. Por exemplo, emigrou para trabalhar na Alemanha com quase 70 anos e não foi por estar com fome. Devo ter alguma coisa da irrequietude do meu pai. Por outro lado, trabalhei e descontei para a Segurança Social durante 59 anos, sinto que cumpri a minha obrigação com o país. Fiz coisas interessantes, o grupo Iberomoldes é um grupo empresarial muito estimulante e inovador; mas tudo na vida tem um princípio e deve ter um fim. Éramos dois sócios com 50% cada – o que nem sempre é fácil – e na fase final da sociedade fui confrontado com alguns problemas inesperados que me desagradaram e de que só tomei conhecimento demasiado tarde. Tudo junto, e porventura o facto de já não ser novo, fez-me decidir pela reforma.

 

Sente-se velho? Tem 74 anos.

Sim. Velho é relativo. Para fazer a vida que quero, não. Para estar lá das oito da manhã à meia-noite, e ter os problemas que uma empresa tem, os clientes…

 

[a gravação é retomada daí a minutos]

 

…Tinha na empresa um senhor que o meu sócio quis mandar embora logo no princípio, o que nunca deixei. Um bocado verrinoso, mas com uma visão crítica. Era daquelas pessoas que têm prazer em encontrar coisas mal feitas. Uma pessoa utilíssima numa organização.

 

É assim em relação a Portugal e ao socratismo? Tem essa veia verrinosa, gosta de apontar o que está mal feito?

Não tinha essa veia verrinosa, mas acho-a útil. Adoro a crítica. O Dr. Vareda ensinava-nos nos livros lá da biblioteca que tínhamos de ser críticos de nós próprios, dos outros, da sociedade, mas com inteligência. E ver os pontos fracos.

Estudei um pouco da história portuguesa, nomeadamente dos Descobrimentos; fizemos erros absurdos. Um dos erros é deixarmo-nos enganar, ou pelos interesses, ou pela burrice. O poder, os interesses e a burrice é explosivo. Descambámos no Sócrates, que tem exactamente estas três qualidades, ou defeitos: autoridade, poder, ignorância. E fala mentira. Somos um país que devia usar a inteligência e o debate para resolver os problemas, e temos dirigentes que utilizam a mentira e evitam o debate.

 

Apesar da discordância, continua ligado ao PS.

A última comissão política do PS foi feita no dia em que o Sócrates anunciou estas medidas todas. Convocou a comissão política depois de sair da conferência de imprensa, para o mesmo dia, à última da hora, para ninguém ir preparado – primeira questão. Segunda questão, organizou o grupo dos seus fiéis para fazer intervenções umas a seguir às outras, a apoiar, para que não houvesse vozes discordantes. A ideia dele era que o Partido Socialista apoiasse as medidas. Fez medidas tramadas, toda a gente sabe. O mínimo era que o partido as apoiasse. Mas não falou antes. Depois o Almeida Santos fez aquilo que faz sempre: uma pessoa pode-se inscrever primeiro, mas o Almeida Santos só dá a palavra a quem acha. Os que acha que vão dizer o que não quer que digam, só vêm no fim. E no fim: “Isto está tarde, está na hora de jantar”. Isto é uma máfia que ganhou experiência na maçonaria.

 O Arq. Fava é maçónico, o Sócrates entrou por essa via, e os outros todos. Até o Procurador-Geral da República. Utiliza-se depois as técnicas da maçonaria – não é a maçonaria – para controlar a sua verdade.

Os sucessivos governos, este em particular, pintam uma imagem cor-de-rosa da economia portuguesa. Isto é enganar as pessoas sistematicamente. Depois aparecem críticos como o Medina Carreira ou eu a chamar a atenção para a realidade do País – chamam-nos miserabilistas! E quando podem exercem pressão nos lugares onde estão esses críticos e se puderem impedir a sua promoção ou acesso aos meios de informação, não hesitam.

Isto era o que se passava antes do 25 de Abril, agora passa-se em liberdade, condicionando as pessoas, e usando o medo que têm de perder o emprego.

José Sócrates, na última Comissão Política do PS, defendeu a necessidade das severas medidas assumidas pelo Governo, mas também disse que era muito difícil cortar na despesa do Estado porque a base de apoio do PS está na administração pública. Disse-o lá, e pediu para isso a compreensão dos presentes. Não tenho nada contra José Sócrates. Se ele se limitasse a ser um vendedor de automóveis, ser-me ia indiferente. Mas ele é o Primeiro Ministro e está a dar cabo do meu País. Não é o único, mas é o mais importante de todos.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2010

 

 

Mário Ferreira

13.10.14

Mário Ferreira desde cedo “estava a ficar com a cabeça orientada para sair de Portugal”. Deu várias voltas ao mundo.

Mário Ferreira “não gosta muito daquela malta emproada que chega cheia de “sirs”. É um self made man que não espera que lhe chamem “sir”. Mesmo que seja um senhor.

Mário Ferreira, ou o Super-Mário, é muito mais do que o português excêntrico que quer ir ao espaço com Richard Branson. É uma pessoa que acredita que “existem oportunidades em quase tudo o que fazemos no dia-a-dia. As pessoas só não as agarram porque não querem”.

Ele agarrou as oportunidades. E mais do que tudo, procurou-as.

Tem uma história que vista de longe tem o seu quê de inverosímil. Como quando vemos um filme e o enredo nos parece exorbitante. Mas a história comprova que a realidade é sempre mais rica do que a ficção. E o casamento com uma americana milionária, ou multimilionária, é só uma parte disso.

É muito mais do que um novo-rico, mesmo que o seja. Sem complexos. Como diria Joe Berardo, seu amigo e padrinho de casamento, “what you see is what you get”.

Nós encontrámo-nos na Bolsa (a sua empresa, Douro Azul, deverá ser cotada ainda este semestre). Durante quase duas horas falou para o gravador, com sotaque à Porto e com bichos de carpinteiro. Depois posou para as fotografias, já com o diacho do nervoso do almoço à uma. (Há que ser pontual). Pelo meio, ofereceu-me três livros de fotografia, uma das suas paixões. Acham que é por ele achar que cai bem? Não. É por ter orgulho no que faz, e uma parte disso está naqueles álbuns de fotografia.

Nas páginas seguintes não se fala de Hugo Pratt, aventureiro dos mares do sul. Nem de “Moby Dick” de Melville. A história de Mário Ferreira, cabe nessas, mesmo que ele não saiba.

 

 

Conte-me a sua história, por palavras suas.

O que foi mais marcante, e que continua a marcar a diferença na minha vida, foi ter tomado uma decisão aventureira aos 16 anos. (Isto dito em palavras simpáticas, porque se a minha filha, que vai fazer 16 anos, me dissesse o que eu disse ao meu pai, ficava preocupado). Decidi sair de Portugal sozinho e ir para Londres. Foi o maior desgosto que dei ao meu pai. Tinha estado em summer camps em Inglaterra, com 14 e 15 anos. A vida em Inglaterra, e os miúdos que lá viviam, da Noruega à Holanda, tinham mentalidades diferentes das nossas. Estava a ficar com a cabeça orientada para sair de Portugal. O meu pai não apoiou a ida. O apoio era pagar-me o avião e pelo menos a primeira e segunda semana. Depois trabalhava na apanha dos morangos para poder ficar mais tempo. Os meus pais já estavam divorciados, pedi à minha mãe, e ela deu-me o dinheiro.

 

O que é que disse ao seu pai?

Disse que ia e que tinha intenções de ficar. O sonho do meu pai era ter um filho doutor. O maior desgosto do meu pai foi o meu avô nunca ter tido posses para que ele continuasse os estudos – por isso percebo o drama. O meu pai é o tipo de pessoa que tem a 4ª classe e que ainda hoje tem o diploma (giríssimo, nem as licenciaturas têm um diploma tão lindo), os livros todos, da 1ª à 4ª classe, (giríssimos), tudo guardado religiosamente. E então disse-me: “Se fores contra a minha vontade, sais e não voltas a entrar”. Foi uma decisão arrojada. Conhecendo bem o meu pai, quando assumi aquilo, sabia que não podia voltar atrás.

 

O que é que fazia o seu pai?

Trabalhava na APDL, naqueles guindastes grandes, no porto de Leixões. Conseguiu fazer com que eu gostasse de barcos. Ofereceu-me uma máquina fotográfica, uma Zenit, russa, com um estojo com todas as lentes. Comecei a fazer fotografia assim, autodidacta. Vinha a caravela Sagres, os submarinos. Desde os 8 anos que adorava fotografar aquilo. 

 

O seu pai trabalhava na APDL, mas havia dinheiro para lhe oferecer um estojo desses e pagar summer camps.

Sim. O facto de o meu pai ser de origens muito modestas não quer dizer que eu tenha sido criado nas mesmas circunstâncias. Fui criado na classe média, já tínhamos televisão a cores. Não éramos ricos, mas nunca nos faltou nada. Podíamos andar nas melhores escolas, tínhamos a melhor assistência médica, explicador de inglês, aulas de Karaté.

                                   

O que é que fez o seu pai singrar e ascender socialmente?

Foi a vontade de estudar. Na altura, mesmo só com a 4ª classe, conseguiu fazer um curso para guindastes, um curso técnico para operar aquelas máquinas, que são sofisticadas e perigosas (carregam toneladas por cima das cabeças das pessoas que passam cá em baixo). Passou no curso e entrou para os quadros da APDL. Foi a vida dela até se reformar.

 

É interessante perceber de onde vem o empreendedorismo, mas também como é que aprende a trabalhar. Quais são as suas referências?

O aprender e o empreendedorismo não tiveram tanto a ver com o meu pai. Embora fosse desenrascado e tivesse conseguido singrar na vida, era totalmente avesso a situações de negócios. O meu pai é do estilo: “Só compro o carro depois de ter o dinheiro para o carro”. Nunca pediria um empréstimo. Nunca quis ter um cartão de crédito. Acho que agora tem um de débito para ir ao multibanco tirar dinheiro. O meu avô materno, não. Morreu quando eu tinha para aí dois anos, mas sei pelas histórias que era um negociante nato. Nunca trabalhou para ninguém na vida. Foi negociante em feiras, vendia rebanhos, terrenos, olivais. Sempre a comprar e a vender.

 

E a sua mãe, tinha essa fibra?

Ainda tem. É empreendedora, está-lhe na veia. No meu caso tem muito a ver com o ter começado a ver o mundo muito cedo, o ter sido exposto a muitas culturas diferentes e ter trabalhado num mix de 90 nacionalidades diferentes. Aos 20 anos, quando fui trabalhar para os barcos, fiz a minha primeira volta ao mundo. Fez-me ver que existem oportunidades em quase tudo o que fazemos no dia-a-dia. As pessoas só não as agarram porque não querem.

 

Apesar dessa exposição às possibilidades do mundo, a sua natureza não é a do seu pai. Querer ir para Londres, repetidamente, e ousar ficar lá aos 16 anos, é revelador disso. De onde é que vem essa vontade de vencer? Ou é vontade de descobrir?

É o conjunto. Mas estava convencido de que também vencia se ficasse cá em Portugal. Em termos genéticos, tem a ver com os meus tios e o meu avô materno. Naquela onda de emigração dos anos 50, foram para a Alemanha, França. A minha mãe foi a única que não emigrou – só para o Porto, aos cinco anos. Nasceu em Tabuaço, no Douro. Do lado do meu pai, todos os meus tios ficaram por cá, comedidos, quase todos funcionários públicos (sem desprimor para os mesmos).

 

Estava a falar do seu interesse pelos barcos.

[Também importa] viver em Leça da Palmeira, ao lado do Porto de Leixões, na Rua Direita. De manhã cheirava a nevoeiro e ouvia-se o farol, era nostálgico. Todos os anos vinha o Barco do Livro, que é uma biblioteca que anda à volta do mundo com miúdos estrangeiros; compram e vendem livros. Ia lá sempre com o meu pai. O meu sonho era dar a volta ao mundo naquele barco, com aqueles miúdos, quando tivesse 18 anos.

 

O seu pai disse-lhe: “Se vais, não voltas”. Nunca teve medo?

Não tive medo nenhum. Não digo que seja destemido, mas o medo tem a ver com o desconhecido e estava convencido do que ia acontecer. Ia chegar a Londres e em dois ou três dias arranjava trabalho. Fui para Londres com 50 libras e um bilhete de volta. Era a minha possibilidade de falhanço. Fiquei com os meus amigos do campo de férias do ano anterior uma noite. No dia seguinte fui a uma entrevista num restaurante e comecei logo trabalhar.

 

A lavar pratos?

Nunca tive o azar de ter que trabalhar numa cozinha ou lavar pratos (não que me importasse). Já falava muito bem inglês, fui logo de smoking e lacinho para aprendiz de chefe de sala. Era um restaurante italiano. Tive três meses para aprender o italiano, só falavam em italiano. Não percebia nada daqueles pratos, mas aprendi rápido, tinha a memória fresca.

 

Imagino que ainda hoje não consiga comer pasta sem ser al dente.

Tem de ser bem feita, e cozinho, gosto. Aprendi a cozinhar muito bem.

 

Sabia mesmo o que o esperava?

Imaginava. Agora, quando faço alguma retrospectiva, penso que era um bocado inconsciente. Mas sentia-me confiante, seguro.

 

Se corresse mal, tinha o bilhete de regresso, e sabia que tinha uma rede em casa, do lado da sua mãe.

Acredite que nunca pensei nisso. Quando fui, sabia que já não voltava. O plano A era: vou, arranjo trabalho numa semana e tudo bem. Plano B: vou e lavo carros ou arranjo trabalho só passado duas semanas. Vai custar mais, mas vou arranjar.

 

Onde é que queria chegar?

Ganhar bastante dinheiro, juntar, comprar o meu primeiro apartamento. E mais tarde ou mais cedo ver o mundo. Aos 18 anos comprei o meu primeiro apartamento, em Matosinhos. O meu pai ficou de boca aberta. Com 18 anos ganhava cinco vezes o que ele ganhava, e ele já ganhava muito dinheiro.

 

Com 18 anos, era gerente de um restaurante em Londres.

Em Chelsea, no final da Kings Road. O segredo foi nunca ter optado pelo formato do trabalhador com ordenado fixo. Ganhava 2500 libras por mês, com percentagem sobre as vendas do restaurante e sobre as gorjetas (havia uma taxa de serviço institucionalizada, de 12,5 por cento). Quanto mais alegre e bem disposto andasse, e mais clientes tivesse, e mais horas estivesse aberto o restaurante, mais facturava. O dono do Horse’s Mouth, o Nino, era um siciliano de Taormina, muito culto, casado com uma jornalista do “Sunday Times”; aprendi muito com ele. Estava tão satisfeito com o meu trabalho que começou a aparecer de três em três dias, de quatro em quatro, uma vez por semana, e depois já nem aparecia, telefonava.

 

Quanto tempo esteve lá?

Dois anos. Sempre com o espírito de empreender, mesmo que a trabalhar para outros. Tratava aquilo como se fosse meu. De tal maneira que quando estava a fazer 20 anos, e tive o desafio de ir trabalhar para os barcos, disse ao Nino Martinez: “Vou-me embora. Não vou para outro lado, vou cumprir o meu sonho e dar a volta ao mundo”. O homem ficou chocado a olhar para mim, com o seu charuto; tinha um braço largo, uma mão grande, jogava imenso ténis (eu trabalhava e ele jogava ténis). “Já ando há semanas para te dizer isto, mas agora é a altura ideal: queria que ficasses com 50 por cento da sociedade, oferecido, continuas a fazer o que fazes e metade disto é teu”. Eu já tinha bilhete. Em quatro semanas, o restaurante foi vendido a um grupo italiano e passou a chamar-se “Cavalino Bianco”.

 

Durante esses anos veio a Portugal?

Vinha pouco, mas vinha. (Durante um ano o meu pai quase não me falava.) Nunca tive muitas férias, vinha com intenção de estar cá um mês e ao fim de 15 dias já me estavam a chamar. Não é que fosse imprescindível, mas parecia que era.

 

Quando lhe perguntei onde é que queria chegar não falou em cumprir o sonho do seu pai e ascender socialmente pela via do estudo.

No dia-a-dia não projectava os sonhos assim, vivia naturalmente. Como ainda vivo hoje. Ainda sou muito parecido àquele dos 16 anos. Hoje vou a Londres ter com os meus amigos com quem trabalhava, e as pessoas estão a fazer a mesma coisa, nos mesmos sítios.

 

Pergunta-se porque é que não ficou no lugar deles?

Não. Sabia, quando entrava, que aquilo era passageiro. Passo a passo, step by step, sabia que estava a subir uma escada. Mas não olhava para o fim da escada, ainda hoje não olho. Olho para o passo seguinte. Entretanto procuro que esses passos não me cansem, que sejam naturais e que me divirtam. 

 

Fale-me da primeira viagem à volta do mundo, a concretização do seu sonho.

Foram as minhas primeiras 36.500 milhas náuticas. Saí de Londres para o meu primeiro porto de embarque, Reiquiavique, na Islândia. Fui um dia antes, à espera que chegasse o navio. Pico do verão, sol da meia-noite, não preguei o olho. Estava tudo numa grande azáfama, a carregar e a descarregar coisas, homens a entrar e a sair. Fui ter com um tipo que era o manager de todo o staff de bordo, 460 ou 480 tripulantes. O José Farto, da Galiza, foi o meu primeiro interlocutor. Hoje trabalha para mim, ele, a mulher e o filho. Ele já trabalhava há 20 anos nos barcos, mas quando saí, trouxe-o para trabalhar na minha organização. É da minha confiança. Disse: “Nós aqui, normalmente, não queremos portugueses, deves ser especial”. Eu era o único. A empresa não aceitava portugueses porque eram muito conflituosos, mas como ia com residência inglesa, era como se fosse inglês.

 

Como é que foi?

Nos primeiros seis meses foi muito duro. As primeiras 48 horas foram as piores. São sempre. Nunca penso em desistir de nada, a única vez em que pensei desistir foi naquela viagem. Ao fim do primeiro dia, estava há 24 horas sem conseguir comer, enjoado de tal maneira que não havia nenhuma medicamento que colasse e fizesse efeito. Estava verde, já não sentia o estômago, o fígado todo estoirado, a água entrava e saía. E ao mesmo tempo tinha que trabalhar, o barco estava cheio e tinha a minha posição, os meus objectivos para cumprir. Apanhámos uma tempestade do Mar do Norte, ondas de 12 metros a bater no barco, “Isto ainda não é nada”. Era a praxe, como era maçarico gozavam comigo.

 

Aquilo que abalou a sua vontade foram as condições físicas, não as psicológicas. Há uma enorme diferença nisso.

Foi o enjoo. Pensei: “Quando isto parar, vou pôr-me daqui para fora”. Medo, nunca tive. Naquele mar, não se vive um minuto se se cair à água. Quando cheguei a terra, a Hammerfest, depois de fazer a travessia da Finlândia para o cabo norte da Noruega, fui dar um passeio e pensar que me ia embora. Falei com o Farto, que me confirmou que tinha sido uma grande tempestade. “Vou dar mais dois dias a isto”. Nunca mais enjoei. Fomos para o Pólo Norte. O mar tranquilo, passou do pesadelo para o sonho. Foi um cruzeiro de sonho, os fiordes noruegueses, as coisas mais magníficas que já vi na vida.

 

Se tivesse regressado a Londres, hoje seria um grande proprietário de restaurantes ou hotéis ingleses.

Não tenho a mínima dúvida.

 

O caminho seria outro, mas venceria à mesma.

Provavelmente estávamos aqui hoje a ter a mesma conversa.

 

Essa convicção inabalável é o mais importante?

É. Mas também é isso que torna difíceis algumas perguntas que às vezes me fazem sobre se o empreendedorismo nasce com a pessoa ou se se cria. Sei que não me está a fazer essa pergunta, mas tenho pensado sobre isso. Não se podem fazer empreendedores a martelo. Há uma parte que tem de nascer com a pessoa, que pode ou não ser bem explorada, treinada.

 

Quem é que era por essa altura o seu role model?

Em Londres, era o Nino Martinez.

 

Já foi a Taormina?

Já, mais do que uma vez. Lindíssimo. Ele dizia-me: “Uma das coisas mais magníficas que há é conseguir, no mesmo dia, esquiar, descer a montanha, tirar o fato de esqui, já ter os calções por baixo e dar um mergulho nas águas cristalinas da Sardenha ou da Sicília”. Para além de empreendedor, gostava de viver a vida. Era o meu icon. Também tenho noção de que lhe dei um desgosto, mas é a vida.

 

Como é que fez o seu primeiro milhão?

Foi com o segundo barco. O primeiro foi em homenagem ao barco onde trabalhei durante cinco anos, o “Vistafjord”: chamei-lhe “Vista Douro”. Mas onde dei um salto mais rápido foi no segundo, porque o comprei muito barato e o paguei logo no primeiro ano. Foi o “Princesa do Douro”.

 

Antes disso, o seu primeiro negócio foi um restaurante.

O “Avó Miquinhas”. Tive de tomar a decisão de deixar os barcos, depois de andar a dar voltas ao mundo.

 

Já lá vamos. O que é que fazia nos barcos?

Estava no night club, o Viking.

 

Era como no Barco do Amor?, era essa a sua referência?

Era pior, para melhor! Tudo aquilo que imagina e que viu no Barco do Amor, tem de multiplicar por três. O sonho, a fantasia, a vida cor-de-rosa. Quem já estava com um estatuto de sénior sabia como é que o barco funcionava, como é que era o perfil de quem ia, o que queria.

 

Quais é que eram os grandes perfis? Viúvas, casais em Lua-de-mel?

Lidávamos sempre com o mesmo estilo de clientela. Casais a tentarem refazer o casamento, que normalmente acabava desfeito. Avós com netas, muitas. Mais mulheres do que homens, fossem viúvas, fossem divorciadas (para esquecer o divórcio). Conjuntos de amigas que faziam a viagem porque os homens trabalhavam muito.

 

E tinha um amor em cada porto, como na canção?

Houve uma fase em que não tinha em todos os portos, mas tinha em alguns.

 

Ainda não falámos dessa parte.

Essa parte agora é um bocado censurada. Se falássemos quando saí dos barcos e não tivesse casado, se não tivesse o quarto filho a caminho, falava mais à vontade.

 

Todo o seu discurso é focado no trabalho, mas basta olhar para si para perceber…

Que não é só trabalho, exactamente. Havia outra vida para além do trabalho, como os meus hobbies: o mergulho, o jet sky, nadar (sempre fui muito atlético). Comia que nem um desalmado. Nunca bebi muitas bebidas alcoólicas mas gostava muito de comer.

 

Drogas?

Não, nada. Sempre tive muita sorte com as amizades – é uma das preocupações que tenho com os meus filhos. Ou tive sorte ou soube escolhê-las. Não quer dizer que não tivesse visto passar ao lado, mas foi coisa que nunca me atraiu.

 

Podia tê-lo desconcentrado daquilo que era o seu caminho. É interessante perceber porque é que nunca foi por aí.

Tem muito a ver com o auto-controlo, com o domínio da mente e com a auto-confiança, que aprendi desde os oito anos quando a minha mãe me colocou no Karaté. Foi uma disciplina que me ajudou a não ter medo de enfrentar o mundo e as situações, até em termos físicos. Se tivesse que me defender, sabia como.

 

Tinha havido na sua história alguém com uma vida dissoluta, alguém que desse um exemplo que queria evitar?

Em termos de álcool talvez, drogas não.

 

O alcoolismo é outra associação clássica aos marinheiros.

No nosso caso era um grupo muito são. Trabalhar num barco daqueles era uma coisa de elite. (Era como as meninas da Tap: havia pessoas que preferiam ser hospedeiras da Tap a médicas. Iam ver mundo, com aqueles vestidinhos, escolhidas a dedo – era um mito. Agora não são mais do que empregadas de mesa, ao fim e ao cabo). Ganhava-se muito dinheiro, via-se o mundo, comia-se e bebia-se do melhor, nunca se apanhava um Inverno, não pagava impostos, era tax free: era uma vida não-real.

 

Como assim?

Havia pessoas que se amarravam a essa vida e ficavam lá para sempre. Tinham uma namorada diferente todos os dias, até podiam ter uma de manhã, uma à tarde e uma à noite, porque não faltavam. Podiam comer caviar, lagostas e tinham praias paradisíacas praticamente todos os dias. Se queríamos um fato, um smoking ou uma camisa feita por medida, já sabíamos os sítios onde faziam aquilo em 24 horas, na Índia, China, Hong Kong, com os melhores tecidos, por uma ninharia.

 

Foi nessa altura que começou a usar fatos por medida?

Não, por acaso tinha dois anos. O meu pai mandou fazer um fato fantástico com um lacinho e fez uma fotografia toda gira que tenho lá guardada. Lembro-me perfeitamente de ir ao alfaiate com o meu pai, ao fundo da rua; era o alfaiate manco. Tinha o tecido, tirava as medidas, marcava com o giz e depois íamos fazer as provas. Para a primeira comunhão, para a comunhão solene. Por isso, o meu primeiro fato por medida não foi feito em Hong Kong, foi ao fundo da Rua Direita, no manco!

 

A sua vida de sonho era como viver umas férias permanentes, durante cinco anos.

Era. Todos os dias ia dar o meu mergulho, na praia que queria, tinha amigos de Singapura à Austrália. A determinada altura trabalhei 14 meses sem parar, sete sobre sete dias, sem nunca ter tido um dia de folga.

 

Isso era para ganhar dinheiro?

Não, era porque gostava do que fazia. Eles precisavam e pediam.

 

Tinha 20 e pouco anos.

Exactamente, aguentava bem a coisa.

 

Não tinha uma vida familiar e outras obrigações.

E gostava daquilo.

 

Quando é que se começou a enfastiar?

Nunca me enfastiei. O que aconteceu foi um choque ocasional e eu sou determinado. Para bem ou para mal, tomei a decisão. Não gosto de áreas cinzentas, ou é branco ou é preto, tumba. Não tinha pensado uma hora antes naquilo, pensei naquele momento e decidi: “Tenho que sair daqui”.

 

O que é que determinou o corte, esse momento de definição?

Estávamos em Cape Town num restaurante onde costumávamos ir, o “Sagres”, em cima da marina (acho que ainda existe, é de um português). Íamos lá beber um Mateus Rosé e comer umas lagostinhas fantásticas, fresquinhas, era a nossa receita em Cape Town. À saída vínhamos a pé, a digerir o jantar. Tinha aberto um stand da Ferrari e estava deslumbrado com os carros que estavam lá expostos, cinco ou seis, numa vitrina toda iluminada. Disse ao Farto: “Um dia que tenha o meu negócio, que tenha capacidade financeira, hei-de ter um carro destes”. Estava um senhor ao nosso lado, que era chefe de mesa, trabalhava há 30 e tal anos naquilo, que diz assim: “Estás a ver, ó Mário, tinha dinheiro para comprar todos estes carros e não quero comprar nenhum! Aliás, nem carta tenho”. Aquilo fez-me um bocado de impressão.

 

Porquê?

O homem era das Canárias, já não ia ver a família porque já tinham morrido os pais, nunca tinha casado porque estava sempre a viajar, habituou-se àquilo e depois não se sentia bem sempre com a mesma pessoa. Não tinha filhos. Estava a ver que o futuro dele e os amigos que tinha era aquele nosso grupo. Disse para mim: “Não me quero ver assim”. Fez-me impressão sentir que o homem tinha o dinheiro todo que queria, que não tinha onde o gastar, não tinha vícios…

 

O que é que ele não tinha e você queria ter?

Não tinha família, não tinha futuro. Não tinha uma linha de horizonte que lhe desse alegria, felicidade, que o desafiasse. Aquilo era a vida dele. Era pouco. Estava numa fase de transição, podia renovar mais um ano; pensei: “Vou fazer 25 anos, está na altura”. Saí, nunca mais voltei. Depois só voltei como cliente.

 

Quando é que comprou o seu primeiro Ferrari?

O meu primeiro Ferrari não foi comprado. [risos] Também me tinha chateado com a namorada da altura, com quem estava há bastante tempo (já estava atinadinho). Era uma austríaca muito simpática que trabalhava no barco. “Porreiro, já não tenho aqui laços, posso pôr-me a andar para Portugal”. Íamos de Cape Town para o Rio de Janeiro, que era a maior travessia de mar, sete dias de mar. Depois subíamos a costa brasileira, Baía, íamos à Ilha do Inferno, Barbados, Caraíbas, Miami, e Fort Lauderdale. Por coincidência nessa viagem conheci aquela que viria a ser a minha primeira mulher. Conquistou-me com uma sanduíche [risos].

 

Uma sanduíche?

Trabalhava nesse clube, e à noite havia um concerto na piscina, um duo italiano a tocar para nós. Tinha umas varandinhas e não se podia reservar lugares, mas como havia esse concerto… à moda portuguesa, arranjei uma maneira. Dizia aos clientes alemães e americanos: “Se me comprar já aqui duas garrafas de Don Perignon, e mandar pôr aqui seis ou sete copos, ponho os frappé com as garrafas. Como já encomendaram, na verdade não estou a reservar nada, e o consumo está feito”. Vendia logo duas garrafas de Don Perignon. Eu tinha 10 por cento de todas as vendas. E tinha os empregados que me vinham ajudar (eles trabalhavam e eu é que ficava com a percentagem toda). E ainda me davam uns envelopes com umas gorjetas fabulosas com umas centenas de dólares lá dentro. Bati o recorde de vendas de Don Perignon, foi meu durante anos.

 

Como é que aparece a sanduíche?, que é um modo de perguntar como é que conhece a sua mulher?

Como tinha de ficar ali, não fosse alguém roubar alguma garrafa, não fui jantar. Começava às sete horas e era até fechar. E apareceu uma menina americana com uma sanduíche: tinha-a encomendado para o seu room service, e veio trazer-ma para não ficar sem jantar. Ao fim de um ano, casámos.

 

Ela era rica.

Era. Na altura, nem ela sabia o quanto era rica. Quando a malta pergunta se casei por dinheiro, podia ter casado, mas se casei foi ao engano. O pai tinha morrido há um ano e ela não tinha noção da fortuna que ele tinha construído. Tinha ido na viagem com a mãe e os avós porque estavam a ultrapassar o luto.

 

Ao preparar a entrevista, falei com algumas pessoas e todas mencionaram o facto de ter casado com uma mulher rica. Perguntei-me se isto era para si um estigma: o de ser um homem que faz um casamento por dinheiro.

Não. O que aconteceu foi que em Portugal, no início dos anos 90, ser americano era sinónimo de se ser gente com muito dinheiro. Continuávamos a fazer a nossa vida normal, a trabalhar 12 horas por dia, a ir ao mercado, à Makro, a orientar o restaurante. Não é bem a vida de um milionário. Nos entretantos, ia dando alguns conselhos. Não era um tipo da alta finança, mas tinha consciência de coisas que uma dona de casa, como a minha ex-sogra, não tinha. Ela vê-se com um império à frente porque o marido tinha morrido sem querer morrer, numa operação de coração aberto, (ele julgava que ia ali e vinha já, e acabou por morrer devido a um erro médico, sem deixar nada preparado em termos de continuidade). O conselho que lhe dei foi o de pedir uma auditoria, que ela não sabia o que era. Viu-se logo que os administradores se estavam a abarbatar, um com um milhão de dólares, outro com 600 e não sei quê.

 

Como é que viu isso?

A minha ex-sogra, uma pessoa humilde e simples, foi ao supermercado e viu a mulher de um administrador com um bruto Mercedes 500, novo em folha, branquinho, “ai que carro bonito”. Começou a interrogar-se como é que a mulher de um administrador tinha um carro melhor que o dela. Depois da auditoria, despediram os tipos todos, foi uma limpeza. Eles tinham uma rede de lares de luxo para a terceira idade, a maior de todo o estado do Louisiana, 40 e tal unidades, uma coisa brutal. Milhões e milhões de contos de facturação.

 

Qual foi o seu conselho?

Que soubessem quem era o número dois e que fizessem uma proposta de venda. Foi o que aconteceu. Realizou umas centenas de milhões, em cash, que aplicou bem. Dei-lhe esse advice de graça. O estigma de que fala, nunca tive. Estamos a falar de uma pessoa multimilionária, à séria, a nível americano – em Portugal multiplique isso por uma quantidade maior.

 

Já não tinha de ir fazer compras à Makro.

Ia na mesma, aí é que está a diferença. Tenho algum mérito na materialização daquela fortuna. Sem alguns dos meus conselhos podiam ter feito a cama à senhora – como já estavam a fazer –, tinham drenado a empresa. Ela vendeu-a no tempo certo. Tinha um jacto particular, enorme, um Challenger, que voava directamente dos Estados Unidos ao Porto. Eu chegava ao Porto de avião particular três ou quatro vezes por ano, levava três ou quatro amigos mais chegados a fazer um cruzeiro no mediterrâneo, íamos de avião particular, (que era maior do que o do presidente da República), a Roma, a Atenas.

 

Luxos.

Comprámos uma casa simpática no Cabo do Mundo [a seguir a Leça da Palmeira], que era o que podia comprar com o nosso dinheiro, do trabalho. Mas a minha ex embicou que queria vir para o Porto. Apareceu uma casa na Avenida Montevideu, em frente ao mar. Um miúdo e uma miúda com 20 e tal anos, aquilo criou grande impacto, “chegaram aqui os novos-ricos” e não sei o quê. A casa foi oferecida pela minha ex-sogra e pronto. Quando fiz 26 ou 27 anos, a minha prenda de aniversário foi o meu primeiro Ferrari. Depois comprei o segundo e os outros.

 

Confesse, o que gostou verdadeiramente foi de o comprar…

Eu tinha aquele dinheiro, eram uns 30 mil contos, e decidi comprar para o Natal o Ferrari. Eram as conversas que tínhamos em casa e a minha mulher sabia que tinha aquele sonho. Ela fez-me aquela surpresa. Ofereceu-me o carro, mas quem passou o cheque fui eu, aquele dinheiro era nosso.

 

Sentia-se ofendido com o facto de as pessoas dizerem que tinha casado com uma mulher rica porque isso diminuía o seu talento para o negócio, o seu empreendedorismo?

Não. As pessoas que diziam isso é que não se tocavam. Diziam-me alguns, a maior parte jornalistas que tinham um bocado a mania: “Isto para si foi um bocado mais fácil, porque casou com uma mulher rica”. “Olhe, trabalho o mesmo, e no dia em que quiser tenho um ordenado milionário para tomar conta de negócios nos Estados Unidos, um avião particular e uma casa à minha espera melhor que esta”. E nunca quis. Isso é que era tomar partido de casar com uma milionária. Dos três filhos dessa senhora, a única que preserva a fortuna e a aumentou é a minha ex. Com o divórcio levou 12 milhões de volta para os Estados Unidos e nunca tocou num tostão da sua herança. Os outros dois já espatifaram metade. Os netos mais ricos da família são os meus filhos. Sem contar com a minha parte. Isso é que me dá gozo.

 

Quando é que se divorciou?

Em 2004. Quando foi do meu divórcio, chegou-se à vergonha de jornalistas ligarem, estava eu em Londres, a dizer: “Consta aqui que a empresa está falida, acabou-se a sua fonte de financiamento”. “Eh pá, estão todos enganados, a minha fonte de financiamento sempre foi o BES e o BCP, e continua a ser”. Divorciei-me e o BES ainda me financiou mais para pagar o meu divórcio e manter tudo aquilo que tinha. Comprei a parte da casa, onde ainda vivo e fiquei com os mesmos negócios. A única coisa que tive de perder para conseguir dar esse salto foi o Solar de Rede.

 

Durante esses anos havia uma retaguarda diferente que lhe permitia sonhar e ousar com mais segurança.

Não usava isso como pensamento, lembre-se do step by step.

 

Nunca foi megalómano?

Não, dei sempre passos dentro daquilo que podia fazer. Numa situação de aperto de tesouraria, em que o negócio estivesse a correr pior, podia pedir, mas utilizámos sempre os bancos. E foi a minha independência. Se não fosse isso teria tido muita dificuldade em seguir caminho depois do divórcio. Fui muito feliz enquanto durou o casamento, mas quando achei que devia seguir o meu caminho também foi: “É agora, é agora, acabou”. (Branco ou preto, não há cá áreas cinzentas.)

 

É um sabor completamente diferente saber que fez o seu primeiro milhão à sua custa, em função do seu talento e da sua capacidade de trabalho, ou esse primeiro milhão vir lateralmente.

Podia ter tido dois ou três milhões antes desse, podia.

 

O seu primeiro milhão foi o seu primeiro milhão, e não um milhão feito com a ajuda da sua mulher.

Exactamente, foi a trabalhar. Seria sempre importante ter alguém que apoiasse, que ajudasse a manter os sonhos, como tenho actualmente com a minha mulher. A minha mulher é juiz, trabalha quase tantas horas como eu. Se ela me tivesse dito para não me meter nisto da internacionalização e de ir para a Amazónia, não tinha ido. “Estás preparada? Se continuar aqui no Douro é para me reformar, isto já está a entrar num patamar em que ganho dinheiro suficiente para não ter que fazer mais nada na vida. É uma boa reforma, mas já não há estímulo. Ou então avanço para um projecto novo e que vai exigir muito mais”.

 

O importante é a adrenalina?

Não é só a adrenalina. É fazer, construir.

 

É casado com separação de bens?

É uma pergunta engraçada. O que é que isso tem a ver para o assunto?

 

É um homem rico. Imagino que se tenha perguntado se queriam casar consigo por ser um homem rico.

Não tive essa dúvida. Sou casado com separação de bens por ter filhos de um lado e do outro, e para que não haja esse tipo de interrogações. Até foi a minha mulher actual que preferiu assim. Não quer dizer que ela não seja rica, esqueceu-se desse detalhe; e por acaso, não é desprovida de bens.

 

Não estou a levantar qualquer dúvida ou suspeita, mas acho normal que estas coisas lhe ocorram.

Respondo-lhe para não dizer que estou a fugir à pergunta, mas não foi coisa em que perdêssemos tempo a pensar, sinceramente.

 

O Ferrari é o brinquedo. Mas também há um momento em que passa a comprar os que foram os seus brinquedos do passado: os barcos, o seu sonho.

Os barcos não eram um brinquedo. Cheguei a um ponto em que percebi que o meu know how estava na área dos barcos, do serviço ao cliente e do conhecimento do mercado estrangeiro. Quando voltei para Portugal apercebi-me de que, em termos de estratégia, aquilo que um turista de nível médio/alto precisava não estava identificado. O turismo do Algarve era uma vergonha, os hotéis de cinco estrelas não o eram verdadeiramente, eram uma treta. O serviço não era orientado para um cliente exigente. Achei que podia marcar a diferença. Decidi montar um negócio e um barco, numa situação de investimento sério, de forma a prestar um serviço que em Portugal ninguém dava.

 

Há uma certa excentricidade na sua atitude e em algumas propostas que oferece ao cliente. Como querer ir ao espaço. Há em si o desejo de ser o Richard Branson português?

Tenho a sorte de privar com ele. Conheci-o em 2004 por ter sido o primeiro português a inscrever-se para ir ao espaço, e por ter a concessão e a exclusividade da Virgin Galactic em Portugal. Ele achou piada ao meu historial, ao facto de ter origens como as dele, ser um self made man, ter começado do nada. Ele aprecia isso nas pessoas, e a honestidade, a franqueza, a lealdade. Não gosta muito daquela malta emproada que chega cheia de “sirs”. Passei uma semana na ilha dele, Necker Island, e as regras são muito básicas: tomamos o pequeno-almoço juntos numa mesa, almoçamos juntos numa praia, e à noite jantámos todos juntos numa mesa grande, mais formal, mas onde não há lugares marcados (cada um senta-se onde quer e sobre bancos corridos).

 

Branson é um modelo?

O que faço é aquilo que gosto de fazer, não tento copiar ninguém. Fazem esse tipo de comparações por falar nele e por estar na corrida da Missão Possível. Ele vai fazer 60 anos e é um desafio fazer a sua primeira maratona, agora dia 25 de Abril, em Londres. Aceitei o desafio de fazer a minha primeira maratona porque me convidou. Não estou a copiar, fui convidado.

 

Por isso é que perdeu 20 quilos, por causa do treino? Quanto tempo levou?

Uns sete meses. A Missão Possível eram três missões impossíveis: a primeira, perder os 20 quilos para poder começar a correr; a outra é conseguir aguentar os 42 quilómetros; e a outra, para dificultar mais a fórmula, é o objectivo para a equipa da Virgin. (Mission Possible, com música da Impossible, é um trocadilho!) Se for ao You Tube, vê-nos lá a todos. A Mission Possible tem de angariar dois milhões de libras para um fundo de caridade. O meu share são 20 mil libras, e está quase. Temos uma equipa da Virgin com um grupo especial que, vai ter uma partida toda VIP, cheia de actores de Hollywood, cantores conhecidos, princesas.

 

Acha que é um homem interessante?

Essa é complicada. Posso ser um homem interessante em termos de história de vida, riqueza de vida, e por ter visto muito mundo.

 

Se está sentado num banco corrido, acha que tem um discurso sedutor para a pessoa que está ao lado?

Inicialmente gosto de ouvir as histórias dos outros. Aqui estou a disparatar e a debitar porque tenho de encher o gravador e tenho de lhe responder às perguntas.

 

É desagradável?

Não, estou a gostar imenso. Há dez minutos que quero ir à casa de banho e não consigo parar porque estou a gostar da conversa. Já vou na segunda garrafa de água [risos]. Gosto muito de aprender com os outros. Os yuppies, aqueles miúdos que formaram o Silicon Valley, e que agora têm 60 e tal anos, três deles fazem parte deste grupo; gosto de os ouvir.

 

Porque é que foi agora estudar gestão de empresas?

Na verdade, nunca parei de estudar.

 

Disse que não gosta de pessoas emproadas, nunca procurou a confirmação social e o título. Não é isso, portanto? Imagino os seus colegas e professores da Lusófona, ao verem chegar o “Super Mário” às aulas… Deve ter a sua graça.

Tem. Fiz um curso de Auditores de Defesa Nacional, de que gostei imenso. Depois fiz um curso de um ano na universidade de Navarra, em Barcelona, um curso de Advance Management. Muito, muito sofisticado em termos económicos, técnicas de negociação, macroeconomia – todo em inglês. A maioria dos professores está na IESE e em Harvard. O meu mentor, o meu conselheiro em termos de estratégia económica, o Alves Monteiro, (e o professor Alberto Castro) tanto me chateou que lá fui. Comecei a ter noção de que este tipo de formação é um complemento. É quase como meter um compósito dentro da gasolina Super.

 

Imagem curiosa.

O motor já andava bem, metendo aqueles aditivos ali dentro, o motor podia andar muito mais e com menos esforço. Só me faz bem. Veio outro desafio da directora deste curso de Gestão e Gestão de Empresas Turísticas que estava a ser montado na Lusófona, a Prof. Dra. Elisabete Serra. Gostava de me ter lá. Houve coisas bastante difíceis no primeiro ano – Estatística, tive de estudar imenso. Outras, não estou lá a aprender nada, até podia ensinar umas coisas. Sem dar nas vistas e sem interferir demais, nos trabalhos que faço tento ajudar, e servir de inspiração para as pessoas que lá estão. Posso dar o meu contributo de vida.

 

Frequentar o curso, e sair de lá com o canudo, é uma maneira de, por fim, cumprir o sonho do seu pai de ter um filho doutor?

Não. Para o meu pai, já ultrapassei aquilo que seria o sonho dele. O primeiro impacto que teve de que ia ultrapassar aquilo que sonhou para mim foi logo aos 18 anos, quando lhe mandei o cheque para ser ele a escolher o meu apartamento. A partir daí, pum, já estava para além daquilo que ele imaginava. Com 20 e tal anos já tinha o título de comendador, depois recebi mais duas comendas. Recebi a medalha de prata por conhecimentos turísticos da cidade do Porto.

 

Mas havia essa coisa do doutor.

Olhe que não.

 

Vai ver que ele fica contente quando acabar o curso.

Não tem a ver com isso, tem a ver com o aditivo na gasolina. Acho que consigo chegar mais longe se refinar alguns dos métodos de gestão que tenho e domino. Actualizar-me é enriquecedor e ajuda-me a pensar em novas maneiras de ganhar dinheiro no futuro. Tem a ver com o enriquecimento pessoal, sem ter que demonstrar nada a ninguém. Desde muito novo, nunca tive complexos, por isso é que isto é tudo coerente.

 

Nunca teve complexos em relação a nada?

Nunca. Nunca tive complexos por ter casado com uma mulher multimilionária e de ir trabalhar de calças de ganga. Não me privo de fazer isto ou aquilo pelo facto de as pessoas acharem que agora estamos em crise e não devo ir de Bentley para o escritório. Se estamos em crise, façam por não estar, também faço por isso e não estou em crise. 2008 e 2009 foram os melhores anos da minha vida em termos empresariais. Faço pela vida.

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2010

 

 

 

P/ Mª Filomena Molder, 36 anos da FCSH

10.10.14

1.

Não queria ser pomposa ou resvalar para uma erudição, que não tenho como devia, nesta apresentação que vou fazer. Mas trago Dante e a Divina Comédia para começar a falar convosco, esta tarde. Começa assim o longo poema, de 14 mil versos, que o poeta italiano escreveu no toscano que todos podiam entender, e não em latim, apenas acessível a uma elite.

“No meio do caminho em nossa vida, eu me encontrei por uma selva escura porque a direita via era perdida...”

Este ano, tive a sorte de visitar a casa de Dante, em Florença. De engrossar o número de pessoas que circunda a velha casa de pedra, e que murmura num italiano titubeante:

“Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura, ché la diritta via era smarrita.”

Duas ou três portas abaixo, no mesmo bairro sinuoso, fica a capela onde Beatriz rezava, e onde Dante a via, fugazmente.

Há uma estranha força nesses caminhos, e ainda mais num gesto insólito a que se dedicam boa parte dos que visitam o local: escrevem notas, preces, dedicatórias a Beatriz, que depositam num cesto de verga. Os bilhetes podem ser lidos por outros, uma vez que não são lacrados ou depositados num contentor fechado. São frases íntimas, como que tiradas de um diário, qualquer coisa que uma pessoa escreve a si mesma fazendo um percurso enviesado e passando por figuras inspiradores.

Juntei-me ao grupo dos que escrevem a si mesmos escrevendo a Beatriz. E, além disso, escrevi a Beatriz e a Dante para lhes dizer como os meus caminhos se tinham cruzado com os seus.

Foi através de Maria Filomena Molder. Simbolicamente quis juntar o nome da minha professora àquele processo efabulador e àquele lugar.

Podem fazer troça à vontade. Digo sem pejo que escrevi numa nota para duas criaturas quase mitológicas, numa igreja medieval, para selar a minha devoção, e, mais do que tudo, a minha gratidão, por uma professora. O meu mundo é o das fábulas. Acredito no seu poder gerador, de vida, e, sobretudo, de felicidade. É neste tipo de rituais que me sinto eu.

 

2.

Vou deter-me no primeiro verso do poema.

Eu estava num ponto do caminho que já não é o começo quando fui aluna de Maria Filomena Molder. Excepcionalmente, nesse ano, ensinou Filosofia Medieval no segundo semestre. Escolheu a Divina Comédia como núcleo a partir do qual iríamos estudar o pensamento medieval. Conseguem imaginar o assombro de pensar o mundo a partir da poesia, da perplexidade, da inquietação? E conseguem imaginar o que isso representa quando estamos acompanhados de uma professora que nos leva pela mão, bem soltos, e não bem presos, e que nos mantém presos por causa da sua força magnética, e que nos atira constantemente para a liberdade? É uma condução imperiosa e subtil.

Dante encontrou no poeta Virgílio, que ele amava, o seu guia e tutor. Antes de mais, uma coisa que aprendi: a poder usar a palavra amor, referindo-me, por exemplo, a poetas, indo ao encontro do significado íntimo da palavra amor. E pondo atrás das costas a carga específica que ela tem na vida de todos os dias.

Ama-se um texto, um autor como se ama uma mãe ou um marido? Claro que não. Evidentemente falamos de diferentes planos de relação. Mas a acepção da palavra é no essencial a mesma. E tem que ver com o que se intromete na nossa vida e nos faz ser outros. Com o que nos muda e se torna parte constitutiva de quem somos.

Virgílio, dizia eu, foi o pai putativo que acompanhou Dante nas trevas da selva oscura. Mutatis mutandis, eu encontrei em Maria Filomena Molder essa certeza de estar segura, o desafio, uma figura tutelar para a minha viagem. Evocá-la, e às suas aulas, significa trazer uma miríade de pensadores, artistas, escritores, pessoas que nos ajudam a sentirmo-nos menos sozinhos na nossa selva oscura. Significa abrir portas e portas, sentir estranheza e sentir familiaridade. Significa aquilo que Caetano Veloso sintetizou na canção Livro: “Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem dúvida, sobretudo o verso) é o que mais pode lançar mundos no mundo”

Não imagino que um professor possa ser melhor do que isto. Não imagino que a escola possa ser melhor do que isto.

Um professor pode ser uma pessoa fulcral na nossa vida. Talvez deva ser uma pessoa fulcral na nossa vida. Um interlocutor privilegiado. Alguém a quem perguntar. Alguém que nos instala na vontade de compreender. Sobretudo, alguém que nos ensina a pensar. Talvez seja isto a Filosofia.

 

3.

Do que estou a falar, quando devia falar da FCSH, que assinala os seus 36 anos, quando devia falar da especificidade desta faculdade, é de mim e dos meus encontros. Do que também fez de mim quem sou. É nesta apresentação, heterodoxamente política, mas política, que falo de educação, do que entendo que deve ser a preocupação primeira de uma faculdade. Numa linha, de criar nos seus alunos uma apetência pelo saber, uma formação que é, para começar, e como não pode deixar de ser, incipiente, mas que contém em si o gérmen da curiosidade, também o da incompreensão, e os alicerces que servirão para a construção do edifício. Numa palavra, pensar.

Esse processo, meticuloso, complexo, laborioso, não pode ser feito sem professores excepcionais, sem uma composição criteriosa dos departamentos. Há encontros que mudam uma vida, como já expus. E se um aluno se sentir tocado, desta maneira fulminante, por um professor, há já qualquer coisa preciosa que é resgatada. Que é salva.

Que uma vez, ao menos, se dê uma epifania assim na vida de uma pessoa.

Que maravilha se isso acontecer na faculdade. E que maravilha se isto acontecer numa universidade pública. E que maravilha, ainda, se aos professores é dada a liberdade de ensinar assim. Sou dos que acreditam que um país só é país se tiver serviços públicos de qualidade acessíveis a todos. Saúde e Educação, para começar. Seria bom que os nossos governantes percebessem isto, que para mim é elementar. Urge acabar com o desinvestimento na educação.

Gostava que não entendessem o que disse até aqui como um longo preâmbulo para falar agora como falam as pessoas que mandam e fazem avançar o mundo. O que faz avançar o meu mundo tem outros vocábulos na sua origem. E se falei até agora, mais do que tudo, de uma professora, é porque ela encarna grandemente isto que penso que uma faculdade deve ser. Mas acima de tudo está a Filosofia, essa disciplina que no seu étimo quer dizer amor ao saber, e que nos serve de instrumento para compreender o mundo, para nos compreendermos no mundo. Acima de tudo está o aprender a pensar criticamente, a atitude de interrogação e de questionamento. Estes são os nossos tesouros.

 

4.

Talvez deva agora dizer o que nos discursos canónicos vem no princípio. Dizer da minha relação com a FCSH.

Eu não fui uma aluna regular nem extraordinária. Eu tinha quase 30 anos quando me mudei do norte para Lisboa e para uma casa não muito longe da faculdade. Já trabalhava há uns anos, já tinha feito rádio, televisão, imprensa.

Não tinha uma formação académica, até então. Entrei em Coimbra em Direito, com 18 anos, e com média de 18. Acho que foi disso que gostei. De ter entrado com média de 18. Mas, para ser sincera, o Direito não me interessava para nada. E hoje acho que não seria possível tirar um curso de Direito. Não é a minha cabeça. Não é o meu modo de me apropriar das palavras, dos conceitos e interpretar o mundo. Não fiz uma única cadeira em Direito.

Quando decidi retomar os estudos, não tive dúvida de que não estudaria Ciências da Comunicação, mas sim Filosofia. Melhor: ainda hesitei e pensei se não poderia ser Estudos Portugueses... Sem grande resistência, foi Filosofia.

Porquê, se já trabalhava na área da comunicação? Porque intuí o que hoje posso argumentar com firmeza: a Filosofia ensina-nos o mais precioso e basilar dos procedimentos: a pensar. A partir daqui, como dizia o Caetano, pode-se lançar mundos no mundo.

Sempre que falo com jovens que querem ser jornalistas e me pedem conselhos sobre a melhor forma de prosseguir os seus intentos, falo da importância da palavra, como célula primeira. É no pensar que nos fazemos humanos. É na palavra, burilada, que ilumina o mundo onde antes era escuro, que nos fazemos pessoas.

Que me perdoem os professores de Ciências da Comunicação, mas não percebo porque se esforçam tanto os alunos para conseguir uma média altíssima e entrar nesse curso quando podem fazer a diferença e adquirir competências singulares se estudarem Filosofia ou Estudos Portugueses. As regras do comunicar são importantes e há que aprendê-las, mas antes disso vem a relação com a palavra. Que, na minha imaginação, deve ser amorosa e atenta. O resto aprende-se, e muito se aprende fazendo.

 

5.

Também devia ter começado por dizer que não fui aluna da FCSH. Eu sou aluna da FCSH. Actualmente frequento o mestrado em Filosofia, variante Estética.

Estou a ultimar uma tese que tem por objecto a afirmação e a negação da vida no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis. Ou seja, estou a fazer um mestrado em Filosofia incidindo sobre literatura brasileira. Mais uma vez, faço a apologia do cruzamento de caminhos, da multiplicidade de abordagens. De uma coisa a que talvez chamem numa linguagem que não é a minha transdisciplinaridade. Mas aceito e adopto a palavra.

O que eu disse de Maria Filomena Molder é em larga medida extensível aos meus orientadores neste processo, os professores João Constâncio e Abel Barros Baptista. O pudor impede-me de ser tão efusiva como posso ser com a Prof. Molder, agora que se reformou e sei que não nos vamos voltar a encontrar na qualidade de professora-aluna. Sempre ouvi dizer que dar graxa é foleiro. Mas tenho de dizer que é bom encontrar na mesma universidade professores tão inspiradores, e felizmente, além dos citados, encontrei outros ao longo dos anos. Só abona a favor da casa.

Confesso que fiquei desapontada quando soube que este ano não tinha aberto este mestrado. Soube entretanto que se trata, apenas, de uma interrupção. Faço votos para que ele recomece já no próximo ano e alimente as expectativas de tantos quanto alimenta as minhas. Se não abrir, venho cá para o ano barafustar!, e com claque ruidosa.

É também num tom ruidoso e caloroso que termino o meu testemunho, agradecendo o convite para estar aqui e para me juntar à festa.

Bela faculdade! Gosto de fazer parte.

 

 

Discurso lido no dia 8 Outubro de 2014, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, pelos seus 36 anos.

 

 

Tiago Cavaco

09.10.14

Tiago Cavaco, 1977, um rapaz do seu tempo. E pastor baptista de andar com o botão do colarinho apertado. Músico punk rock (ou panque-roque, como ele escreve no blog). O blog Voz do Deserto onde disponibiliza os sermões e publica textos como “As razões porque precisamos mais de Cristo e nem assim tanto de Jesus”. Casado com a Rute, pais de quatro crianças.

É um cromo pós-moderno irritado por ser um cromo pós-moderno. É muito mais do que um cromo. Escreve no livro Felizes Para Sempre (e outros equívocos acerca do casamento): “Dei por mim a pensar: ‘Querias ser o Tolentino em versão protestante, querias!’ Se conseguir ser apenas o Tiago Cavaco já vai ser bom mas mencionar o Tolentino torna-se um gesto de necessária justiça.”

Então ele é o Tiago Cavaco, que chega a (quase) tantas pessoas quanto o Tolentino, o padre e poeta. A soma improvável do Tiago: a religião e o panque-roque. Os canais mais usados para comunicar: o blog e a editora Flor Caveira. Foi Tiago Guillul, abandonou o pseudónimo musical. Continua a compor e a gravar.  

Encontra-se com o seu rebanho na Lapa. Uma igreja linda, grande, para onde mudaram recentemente. Antes era Benfica. E antes Queluz. Geografia suburbana. Isso importa, como se verá.

A entrevista foi por cima da igreja, num espaço onde trabalham com as crianças da comunidade. Quando Tiago Cavaco era pequeno, aprendia o mundo em salas assim. As fotografias foram noutro dia. A família aparece nas fotografias porque, apesar de a voz e o percurso ser o dele, o nós está sempre lá. Ele não é só uma pessoa. É sempre, também, um projecto e uma vivência religiosa. E nisso, está acompanhado. E também porque são muito giros todos juntos.

 

 

Mesmo numa família de pastores baptistas, uma criança de oito anos não quer ser pastor. Rocker, ainda vá. Pastor/rocker é uma impossibilidade.

Aos oito anos dizia que queria ser actor. É uma coisa que não se deseja, ser pastor. Não é chamativa. É uma coisa que é acerca de se ser mais velho.

 

Que personagens imaginava que ia encarnar? Ser actor é viver outras vidas, muitas vidas.

Via o cinema que o meu pai via, e o meu pai via filmes americanos de acção. Ainda hoje, acabo sempre a falar no Sylvester Stallone. Mais tarde vou para o curso de Ciências da Comunicação e o meu gosto pelo cinema não coincidia com o dos meus colegas. Vinham de meios mais beneficiados a nível de cultura. Eu gostava pelos tiros, pela afirmação heróica.

 

Stallone era uma afirmação não só heróica e de tiros, mas também da força bruta, da coisa boçal do músculo.

Tenho que reconhecer que quando visito alguns dos filmes de que gostei há filmes terríveis. E notáveis. O First Blood, o primeiro do Rambo, é bom em qualquer época. O primeiro Rocky ganhou o Óscar de melhor filme. Comove-me sempre quando ele faz o Rocky Balboa.

 

Não o vou apanhar a citar um filme da Nouvelle Vague.

Vi-os na faculdade. Ontem vi um filme, pela primeira vez, do António de Macedo, Um Domingo à Tarde. Quando descobri este outro tipo de cinema apercebi-me de que havia vida além daquela que conhecia. Mas [dessa primeira fase] lembro-me de dois filmes que me marcaram, O Homem Elefante (nem sabia quem era o David Lynch) e As Asas do Desejo, do Wim Wenders.

 

Outra loiça.

Imagine, miúdos do liceu de Queluz, explosão do punk, rock, e de repente… Saí d’ As Asas do Desejo a pensar que em todos os poros da minha pele houve dor. Para um cristão de tradição protestante estes momentos em que nos sentimos quase agredidos tendem a ser muito promissores.

 

O miúdo que queria ser actor, estava sobretudo animado por essa ideia de heroísmo? Todas as crianças querem ser salvadores.

Sem dúvida. Deixe-me usar uma ilustração lá de casa, do Joaquim [filho], que já usei em sermões. A Rute [mulher] comprou uma camisola do Batman na Primark (gira e barata). Até determinada idade eles preferem as roupas dos heróis. E acham que estão a ser despromovidos quando vão de bata para a escola. A roupa que faz justiça ao Joaquim é a camisola do Batman. Aplico isto à questão da santidade. Com a santidade, temos que vestir a roupa ainda antes de sentirmos que a roupa nos serve. No fundo, achamos que nascemos para ser heróis. Mas esse é o lado bonito de colocar as coisas. O lado menos bonito é que eu queria aparecer e ser amado.

 

Todas as crianças são recebidas como Messias. Até quando é que sentiu que era esse Messias para os seus pais, no seio da sua família?

É uma coisa em que nunca pensei. Quando se cresce numa família como a minha – os meus pais são baptistas como eu –, cresce-se com esse vocabulário da fé. Com a ideia de vida, com a ideia de morte. Com a ideia de as pessoas se salvarem ou se perderem.

 

Pecado, culpa, eram palavras do vosso léxico?
Pecado, necessariamente. O meu receio é que a culpa seja uma espécie de atenuação da palavra pecado. E num mundo pós-freudiano, é mais fácil falar de culpa do que de pecado. Para um miúdo [baptista], não seria fácil pensar na palavra salvação, ou salvador, em relação a si. Sabe que o salvador é o Senhor Jesus. Seria mais fácil colocar assim: que tipo de intervenção vou ter na vida dos outros que possa colaborar para a sua salvação?

 

Usou a expressão Senhor Jesus. Habitualmente dizemos Menino Jesus. O Menino Jesus aponta para uma criança, o Senhor, para um adulto.

O risco, quando falo de diferenças que são substanciais entre o cristianismo evangélico e o cristianismo católico romano, é cair em simplificações que podem não ser justas. Sim, há uma maneira de retratar Jesus na cultura católica que é demasiado emotiva. (Os evangélicos são todos a favor das emoções, não se pode ser um cristão evangélico se se não tiver o momento absolutamente emotivo da conversão.) Jesus como menino é um Jesus – deixe-me ser bruto – que não tem capacidade para salvar. Quanto muito vai-se lá, pega-se ao colo, beija-se.

 

Jesus foi esse menino?

Acredito que Jesus ao encarnar foi um bebé, mas quando nos referimos a Ele, e quando usamos a palavra Senhor, é no sentido de senhorio.

 

Um senhor que se serve?

Sim. Quando se ouve a expressão Lord Jesus, por alguma razão ela parece menos difícil do que Senhor Jesus. Ouve-se o George Harrison a cantar My Sweet Lord, e se se ouvisse a cantar Nosso Senhor… My Sweet Lord parece que assenta bem. A ideia de se servir alguém não é necessariamente má.

 

Voltemos ao início da conversa. Fale-me dos pastores à sua volta. Influenciaram-no na sua escolha?

O meu avô materno. O nome dele era Joaquim (razão pela qual temos um [filho] Joaquim). Partiu em 1989. Eu tinha 11, 12 anos. Velhinho, calvo, já encurvado. Nunca tive um convívio directo com o pastorado do meu avô – estava já aposentado. Converteu-se em Viseu nos anos 30. Foi pastor em Viseu, na Guarda, em Gouveia e Guimarães num tempo em que ser-se protestante ainda era difícil.

 

Difícil até que ponto?

A minha mãe chega à escola e só uma colega não tinha sido proibida pelos pais de falar com ela.

Depois destaco os pastores Jorge Leal, João Rosa de Oliveira, Jónatas Figueiredo. O pastor Jónatas é o primeiro que me leva a pensar: “Não me importava de ser pastor”. Que ser pastor podia ser uma cena fixe. E um pastor que é meu tio e me chama para trabalhar em Moscavide. “Preciso de ajuda com os jovens e a música, és um obreiro auxiliar”. Os meus primeiros dez anos de serviço cristão de ministério são dez anos a trabalhar ao lado do meu tio Teo.

 

Nunca ouviu os sermões como quem ouve um grande “secão”? A olhar para todos os lados e à espera de se ver livre daquilo.

Claro que sim.

 

É a experiência que os miúdos têm quando são obrigados pelos pais, domingo após domingo, a ir à missa, seja evangélica ou católica.

E que há nesta igreja. Noto isso nos meus filhos. A nossa mais velha, a Maria, tem dez anos. Durante o culto deixamo-la fazer aquilo que os nossos pais também deixavam, ficar a desenhar. Com dez anos já não damos autorização de se virar ao contrário e desenhar no banco. Numa igreja evangélica o centro não é a eucaristia, é a palavra; logo, o sermão tende a levar mais tempo. E eu prego muito. Posso pregar mais de uma hora.

 

Fica em transe, esquece-se do tempo?

Não. Prego sempre com um texto. Se me limitar ao texto demoro cerca de 20 minutos, só que não me consigo limitar ao texto.

 

Põe a gravação dos sermões no seu blog Voz do Deserto.

Ponho. No último sermão falei no Phineas e no Ferb. Nessa altura os miúdos acordam e ficam a ouvir. Interessa-lhes mais do que ouvir falar de justificação e santificação.

 

Os miúdos sabem que o centro da vossa vida é Jesus e não eles? Nas famílias modernas, as crianças estão no centro.

Espero que sintam isso. Faço uma coisa com eles que a geração dos meus pais, dando também uma formação religiosa, não fez tanto. Fazemos o culto doméstico, um período de devoção em casa, em família. Passámos a ter um momento em que lemos a Bíblia (e isso não é difícil) e cantamos. Se alguém vir de fora é um bocado ridículo.

 

Está concentrado no culto doméstico, sem dispersões, noite após noite?

É óbvio que uma boa parte das vezes a minha cabeça está em querer despachar aquilo rápido e meter os miúdos na cama e ter o momento de tranquilidade que eu e a Rute conseguimos ter depois de os meter na cama. Mas há um ciclo doméstico. E este ano tem sido especialmente saboroso porque a Marta, que está a aprender a ler, começa a ler versículos do início ao fim. Uma das coisas que os nossos miúdos aprendem é o catecismo. São 52 perguntas e 52 respostas sobre questões de fé.

 

Por exemplo.

“Qual é a nossa única esperança na vida e na morte?” É a primeira pergunta. “Que não somos nossos mas pertencemos, corpo e alma, na vida e na morte, a Deus e ao nosso salvador Jesus Cristo.” O Caleb [filho mais novo] vai fazer quatro anos, ainda não fala bem, mas no outro dia estava a fazer as perguntas a cada um deles e o Caleb terminava todas.

 

Doutrinar é o verbo...

A palavra doutrinar ganhou uma carga pejorativa. As pessoas podem olhar para aquilo que é mais maravilhoso no meu lar e dizer que é uma grande lavagem cerebral. Mas as crianças devem perceber que o mais importante da vida delas, não são elas nem são os pais, mas é Deus.

 

Porque é que foi estudar Ciências da Comunicação? Que planos é que tinha?

A minha [filha] Maria escreve e desenha muito bem. Eram duas coisas que eu gostava de fazer. A publicidade parecia que misturava essas duas coisas, o desenho e o texto. Acabei em Ciências da Comunicação. Os miúdos ficavam desiludidos porque queriam fazer reportagens e levavam com Semiótica e Hermenêutica. Tive uma cadeira de produção jornalística; era péssimo nas notícias, na objectividade, safava-me na crónica. Então saltei para cinema. Fiquei um bocado desencorajado porque os complexos de inferioridade começaram a vir ao de cima. Aquilo era tudo pessoal bem-nascido, viam o Godard desde pequenos. Eu sou o miúdo que viu o Stallone.

 

Luta de classes camuflada na Universidade Nova?

Sim. Agora faço um percurso ideológico diferente, mas tinha a mania que era comunista. A esquerda parecia-me, no 12º ano, o sítio da tolerância e do bom pensamento. Quatro anos depois [de ter entrado na Nova], sentia que estava perante a esquerda mais autêntica do nosso país: a das boas famílias, a do torcer o nariz aos miúdos que vinham dos subúrbios, a dos miúdos que são eruditos por osmose. O lado reaccionário foi subindo em mim, subindo, até que explode – esta expressão não é muito cristã –, num “sair do armário”, quando aparecem os blogues e há um advento da nova direita.

 

O que é que faziam os seus pais?

O meu pai foi contabilista. Teve uma pequena empresa, nunca lhe correram bem as empresas. Foi uma lição que aprendi. O meu pai é mais trabalhador. As melhores características dele, ainda não as consigo evidenciar. A minha mãe é professora de liceu, de inglês e alemão. Cresço na Amadora.

 

Suburbano orgulhoso?

Alguns suburbanos que escrevem têm tido alguma notabilidade. O [Henrique] Raposo, o [Pedro] Lomba, o Bruno Vieira Amaral. Topa-se uma certa consciência de classe, faz-se um certo caminho. Não vêm de famílias conhecidas, não cresceram em Lisboa, na elite. É aquela coisa saloia, quase americana: tentamos provar pelo nosso trabalho.

 

Na música, ouvia o quê?

Na faculdade já estava no punk. O punk tem um lado de rebeldia cultural de que a esquerda gosta, mas a elite não ouve punk.

 

Nunca foi da brasileirada e da francesada? Porque os meninos bem que cresceram a ver os filmes certos, também ouviram o Charles Aznavour e o Tom Jobim em casa dos pais.

Chego lá depois. O meu pai tinha alguns autores que me influenciam muito, Leonard Cohen, Bob Dylan. Ao mesmo tempo, ouvia os êxitos todos, comprava os Polystar.

 

Isso influencia a sua música?

Se a minha música tem um ar muito fácil, é disso, é de gostar de uma boa melodia. Cresci a ouvir os Beatles das colectâneas.

 

Em que momento é que a Rute apareceu na sua vida?

Em rigor, a primeira vez que estive perto da Rute ainda era intra-uterino. A minha mãe encontrou os meus sogros na praia. Já a Rute existia extra-uterinamente. Estava a minha mãe grávida. Ser baptista em Portugal: a probabilidade de se conhecer a maior parte dos baptistas é grande, porque somos poucos.

 

Quantos são?

Talvez cinco mil. Reencontrei-a anos mais tarde. Ela é de Benfica e tinha um ar de beta. Lá estou eu com a luta de classes [risos]. Tinha um ar altivo. E depois ela acaba por ir para a igreja onde eu estava, em Queluz.

 

No livro Felizes para Sempre (e outros equívocos acerca do casamento) fala do difícil que foi casar virgem.

Essa é uma vantagem que os protestantes têm: são mais despudorados. Por isso é que também se prestam mais ao ridículo de falar de coisas como a virgindade e isso não lhes custa tanto.

 

A probabilidade, hoje, de um rapaz e uma rapariga terminarem a faculdade virgens é reduzida. Muito do seu comportamento é moldado pela religião.

Em Portugal, se se é evangélico, é-se diferente da maior parte.

A primeira vez que noto que sou um bocado diferente é em criança. Não via os desenhos animados que davam ao domingo de manhã.

 

Porque ia para a igreja?

Sim. Depois vem a questão das asneiras; eles dizem asneiras e eu não. Para mim dizer asneiras era sinal de que se ia para o Inferno. Quando a sexualidade começa a ser um assunto não é uma coisa que se esbarra no caminho e que se sente que é mais difícil que todas as outras. A vida já era um percurso em que tinha que me esforçar para não fazer coisas que a maior parte das pessoas faz.

 

Na faculdade, falava de sexo com os colegas?

As pessoas sabiam que eu era evangélico. Falava disso. Ainda por cima estava numa fase muito punk, dava nas vistas.

 

Usava crista?

Crista nunca consegui usar, tenho pena. Os meus pais também nunca me deram espaço para isso. Usava uma franja muito comprida, o resto tudo rapado. T-shirts onde se leva a fé ao peito.

 

O que é que estava escrito?

Tinha o logótipo da Hugo Boss e em cima tinha Jesus is my Boss [risos]. Quando o ridículo diz tanto de uma pessoa, sai-se mais protegido. Ele vai abrindo caminho à nossa frente. Havia aquele lado de estranheza, “o Tiago é um tipo…”

 

Forex?

Sim. Eu enchia o peito. Toda a gente sabia que eu era virgem e que queria ser virgem até casar.

 

Dizia isso para se afirmar, para provocar?

Está tudo junto. Está junto com a convicção que se tem naquilo que se está a viver. Está junto com: “Fiquem já a saber que sou diferente”.

 

Quando perguntei isto estava também a perguntar pelo seu lado animal. Quando somos adolescentes, umas tais de hormonas impõem-se.

Os anos da adolescência, faz parte da sua natureza pensar neles com algum embaraço, sobretudo no que diz respeito a lidar com miúdas. Tenho uma irmã gémea, o que ajudou e desajudou. Por um lado há uma presunção: eu compreendia muito bem as miúdas. Falávamos de tudo, fomos os maiores companheiros até eu casar. Por outro lado, quando via as crises da minha irmã Sara, mais rapidamente chegava à conclusão de que não dava para perceber as mulheres. Uma coisa que me ajudou precocemente: as pessoas tendiam a achar que era um miúdo responsável. Isto às vezes ajuda porque nem sempre se é o miúdo responsável que se transmite ser.

 

Apesar do punk, era tido por responsável?

Falava muito. “O Tiago fala muito e diz coisas que a gente não percebe”. Em Portugal se se disserem três ou quatro frases que ninguém percebe, é-se um intelectual. Aconteceu comigo. Quanto mais me embrulhava, mais era um intelectual.

 

Quem é que achava gracinha às suas tiradas?

Fez-me falta um irmão, era o único rapaz. Tenho uma irmã mais velha, a Rute, e a Sara. Sempre foram mais corajosas do que eu. Não fui um menino mimado. Mas fez-me falta uma figura contra a qual tivesse que combater. Se tivesse tido um irmão com quem tivesse aquelas relações bíblicas de irmãos, difíceis...

 

Um Caim?

Sim. Talvez me tivesse ajudado a não ser tão preguiçoso.

 

O seu lado narcísico foi muito afagado na infância.

Não pelos meus pais. Na Amadora, dos miúdos com quem brincava na rua, a minha mãe era a única com curso superior. Os outros miúdos percebiam que tínhamos livros em casa. Com alguma facilidade chegava a sítios e arranjava um lugar meu, que era diferente de todos os outros.

 

É visivelmente espirituoso, na adolescência é punk, e é evangélico praticante. Há aí uma soma de singularidades improvável. Mas tudo seria diferente se não fosse tão inteligente. A inteligência é sobrevalorizada?

Há uma história na Bíblia, quando Deus pergunta a Salomão: “O que é que queres?”. E Salomão pede-lhe sabedoria. Em miúdo pedi a Deus sabedoria, nas minhas orações. A inteligência é sobrevalorizada porque não é necessariamente sabedoria. Categorias essenciais da nossa cultura, não se ouve falar delas – como a prudência. Algumas das pessoas mais desinteressantes que tenho conhecido são de uma erudição fantástica. Mas parece que aquilo é um vaso de acumulação de informação. Não têm uma capacidade real de sabedoria, de construir sobre aquilo que sabem.

[A soma de singularidades]: o pastor-rocker, há um lado que é ok, de surpresa, mas depois há um lado “é mais um bicho numa jaula pós-moderna”. É uma coisa que sei que me ajuda mas contra a qual tenho que lutar.

 

Inventou uma grande criatura e a criatura pode voltar-se contra si.

Volta. Houve um tempo difícil de procurar maturação, em 2010. Houve uma inesperada atenção por causa da música, da editora Flor Caveira, em 2008. Um dos discos que gravei [IV] criou “sururu” na crítica. Eu achava que alguém ia descobrir a Flor Caveira depois de termos morrido. E de repente, um disco que tinha feito nas catacumbas das igrejas, onde gravava tudo, estava a ser louvado como a nova música portuguesa.

 

Antes de IV, tinha editado títulos como A Isabel é intelectual (porque perdeu a virgindade na Feira do Livro), Ó Judas, aperta o laço, Tu tens o coração do tamanho do Salmo 119. Foi um ponto de viragem na sua vida.

Foi. E com o crescimento de trabalho na igreja tinha que definir o que era central para mim. Nunca deixei de fazer música, e não sei estar sem gravar algum disco. Nessa altura deixei de usar o nome Gillul.

 

Tiago Gillul era o alter-ego musical. Porque é que o deixou?

Tenho uma comunidade para tratar e as pessoas não têm de levar com a persona artística. Quando falo consigo hoje, também está a falar a minha família e a minha Igreja. Imagine que mando uma grande patacoada..., quem é da minha Igreja sente-se mal representado.

 

Há um momento em que se pergunta quem é?, pergunta-se pelo caminho dominante?

Isso foi acontecendo. No segundo ano da faculdade decido ir para o seminário. Estou ao mesmo tempo no Seminário Teológico Baptista – não acabei a licenciatura em Teologia –, e a fazer a licenciatura, que acabei, em Ciências da Comunicação.

 

Foi para o seminário já com a intenção de ser pastor?

“Pode ser que venha a ser pastor”, sim. Nessa altura tive um sonho.

 

Como se fosse uma revelação?

Passava um bocado por isso. A figura do meu avô aparecia no sonho. (Não faço teoria disto, estas experiências pessoais, quando se tem uma responsabilidade espiritual, devem ser cautelosas.

 

Está sempre a tentar não parecer leviano, tem noção?

É bom que sinta isso. Alguém tratar-nos por pastor é uma cena brutal. Acredito que a minha vida deve ser um reflexo do pastor último que as pessoas encontram em Deus. E que através do meu exercício, que é humano, de ajudá-las, elas digam: “Este é o meu pastor humano, o Tiago, porque o nosso verdadeiro Pastor é Deus”. Isto é uma coisa séria, não se pode ser leviano. O que é mais fácil é usar o pretexto da religião para manipular as pessoas. Esse é um lugar onde não quero estar. A Bíblia é o meu escrutínio, a Bíblia é que manda. É uma das frases mais repetida na minha igreja: “No dia em que deixar de pregar a palavra, despedem-me e arranjam um pastor que seja fiel à palavra”.)

 

Estava a contar que teve um sonho e que isso foi determinante.

Foi. Antes disso: quando acabo a licenciatura em Ciências da Comunicação já estava a namorar a Rute (começámos em 99). Era um namorado miserável, queria o que todos os namorados querem.

 

Ou seja?

Se desse para não casar logo, tanto melhor [risos]. A Rute tinha estado em Comunicação na Católica, depois Relações Internacionais. Mas o que ela queria era ser educadora de infância. É uma selfmade woman, já tinha carro, tinha casa. Eu estava a começar nuns programas do canal 2 que eram dados às diversas confissões religiosas. Pensei que podia ficar na boa mais algum tempo. A Rute queria fazer de mim um homem.

 

Que engraçado, não querer casar logo para iniciar a vida sexual.

Há uma maneira um bocado relaxada, hoje, de se namorar, mesmo entre evangélicos. Não têm relações sexuais, mas vão tendo outras coisas. Vai-se fazendo uma vida de namoro, do melhor que o namoro pode ter.

 

Ainda não têm o que dói no casamento, é isso?

Sim. Não estou a dizer que isto era consciente na minha cabeça, mas era um estado de passividade. Hoje teria pedido a minha mulher em casamento, teria ido falar com o meu sogro, e cumprido umas coisas que me pareciam formalidades mas que têm importância simbólica para mim.

 

Está mais “reaça” agora do que há 20 anos?

Estou a descobrir que vamos encontrando em alguns símbolos uma correspondência razoável para as coisas em que acreditamos. Também sou eu a ajustar contas com as coisas que não percebia sobre o casamento.

 

Já leva 12 anos de casamento. Foi na mesma altura que começou a trabalhar a tempo inteiro na igreja?

Tenho percebido que o caminho – e acredito hoje que foi para isso que Deus me chamou – é um caminho de dedicação ao pastorado. A determinada altura tornou-se um objectivo para mim estar exclusivamente dedicado a pastorear pessoas na igreja.

 

Li algures que o Tiago e a Rute podiam ganhar muito mais dinheiro se as opções profissionais fossem outras. A Rute deixou de trabalhar quando estava grávida do vosso segundo filho. Como é que o dinheiro apareceu e interferiu nas suas escolhas?

Não houve heroísmo nenhum. A posteriori apercebemo-nos de que essa era uma decisão que nos edificava melhor como família. Mas não foi tomada com clarividência. Hoje achamos preferível, e tendo em conta que sou pastor, que a Rute, de preferência, não tenha uma ocupação que a retire de dentro de casa. Não só pela educação dos miúdos como pela disponibilidade que temos que ter para as pessoas.

 

Existem regras sobre a família do pastor evangélico?

O padrão bíblico da família do pastor é que a família abraça essa vocação do marido como uma vocação de toda a família.

 

No livro usa quase sempre a primeira pessoa do plural, diz: “Eu e a Rute” ou “a minha família pastoral”. Outra diferença: funde o projecto familiar com o projecto da vida em comunidade.

Sem dúvida. Quando a missão começa somos meia dúzia de famílias. O casamento e o divórcio tornam-se por excelência um assunto do meu pastorado. O primeiro casal que tentámos ajudar divorciou-se na nossa sala de estar, essa decisão é tomada lá.

Um dos princípios que se encontram na Carta de Paulo a Timóteo: se não se tem capacidade de pastorear bem a nossa casa, não se é capaz de pastorear a nossa igreja. Isto não quer dizer que os pastores tenham famílias perfeitas, mas quer dizer que a Bíblia nos dá uma área prioritária de intervenção antes de querermos intervir na igreja – a nossa casa.

 

Alguma vez se apaixonou por uma mulher não-baptista, antes da Rute?

Sim. Graças a Deus ela desinteressou-se de mim. Poupou-me de um sarilho. Ela sabia que nunca casaria com ela se ela não tivesse a minha fé.

 

Porquê?

Quando se acredita que o casamento é uma união física que simboliza uma união espiritual, não faz qualquer sentido unirmo-nos espiritualmente a alguém que não acredita nisto. Sei que a metáfora é dura, mas é quase um casamento entre uma pessoa viva e uma pessoa morta.

 

E se um crente estiver apaixonado por um não-crente?

Circunstâncias destas acontecem na nossa igreja e trabalhamos a favor da fé das pessoas que ainda não a têm. Esta miúda na faculdade: sou calvinista, acredito mesmo que estas coisas estão gloriosamente pré-determinadas. Deus quis ensinar-me algumas coisas e fez com que ela se desinteressasse e eu pudesse ficar com o caminho claro. Alguns dos momentos mais preciosos da minha vida são momentos em que Deus me ajudou porque os planos que tinha foram frustrados.

 

Isso obriga a lidar com o fracasso.

E [obriga] a lidar com uma ideia que é muito cristã, a de que alguma coisa tem que morrer para que alguma coisa nasça. Às vezes o maior património da vida são os fracassos. Nesses fracassos temos que abandonar coisas acerca de nós e confiar em Deus para ser alguma coisa que está além do fracasso que acabámos de viver.

 

Quer citar um versículo que seja especialmente inspirador para si? Toda a sua vida é leitura e interpretação do texto sagrado.

Há um [versículo] que ensinamos lá em casa: “Servi ao Senhor com temor, alegrai-vos Nele com tremor”. Se acredito em Deus tenho que ter medo Dele na medida em que Ele é perfeito, e vai ter problemas com o facto de nós não sermos perfeitos. É bom que isso nos arrepie.

 

Na iconografia clássica, o encontro com Deus, o Céu, têm cores suaves, transpiram felicidade. Nada de arrepios.

Há um lado presunçoso de as pessoas quererem encontrar-se com Deus e quererem que esse encontro seja maravilhoso. Há um elemento de luta na Escritura. Há momentos em que obedecemos porque não compreendemos bem. Obedecemos porque estamos com medo. Isto hoje é pouco charmoso.

 

“Servi ao Senhor com temor, alegrai-vos Nele com tremor”. Sobretudo medo?

Não. Há [nesse versículo] um elemento de alegria. A Bíblia não separa coisas que a nossa cultura se habituou a separar – o temor, o amor, a alegria. O Deus da Bíblia é um Deus que manda as pessoas abaixo e isso é o melhor que faz por elas, porque depois dá-lhes uma vida nova. Um versículo como este ajuda-me a perceber aquilo que Jesus fez por mim, e é por isso que olho para ele como o Salvador.

 

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014

 

 

 

António Lobo Antunes (2006)

08.10.14

Falámos dos livros. Do silêncio. Da alegria. Da guerra. Da dificuldade em dizer o amor. Da necessidade de se apropriar do coração dos homens. Falámos da sua nudez, vulnerabilidade, do medo e do desejo. E da fé que tem nos homens. A explicação do mundo de António Lobo Antunes é tão caleidoscópica como a luz da tarde. Nela cabe, agora, a felicidade. Eis o retrato de um homem que a mãe diz ter sido sempre assim. Mas o tempo passou por ele.  

 

Hoje folheei a sua fotobiografia para ver como era em pequeno. A sua expressão, o seu olhar, não mudou muito.

A minha mãe é que diz isso. A minha mãe tem na sala uma fotografia minha com um ano e diz que não mudei. Que esquisito.

 

Pois é. Por isso queria lançar esta questão. As fotografias são um meio privilegiado de sentir a passagem de tempo.

Eu não gosto de fotografias minhas, não gosto de me ver, nunca gostei. Tive sempre uma relação difícil comigo, com o meu corpo, com a minha cara [riso].

 

Está a rir-se porque está a fazer género?

Não, não, é verdade. Vi isso naquele livro das cartas [“D’este viver aqui neste papel descripto”]. Tinha 20 e poucos anos e achava-me feiíssimo. Achava sobretudo que não era parecido comigo, que não tinha aquela cara, que era diferente daquela cara. Olhava para o espelho com uma certa estranheza. Nunca gostei de espelhos. Nem de relógios, não uso relógio.

 

O irreconhecimento passa por onde?

A sensação era sempre a mesma: não sou aquele, não sou este, não tenho fotografias minhas.

 

Nesse sentido, imagino que os livros sejam fotografias suas.

Agora já não. Ao princípio sim. Continuo a achar que os livros deviam ser publicados sem o nome de autores. Havia uma data de problemas que desapareciam. Pelo menos ao nível de competição, inveja, ciúme, tudo isso que nada tem que ver com livros e que eu entendo mal. O Victor Hugo dizia que as obras de arte são como os tigres: não se devoram umas às outras. Descobrir um livro bom é uma alegria tão grande, um autor que a gente não conhece... é uma festa!

 

O sentimento de admiração é uma bênção. Enriquece-nos.

Sinto-me grato por haver pessoas melhores. Mas as que muitas vezes admiro ninguém sabe quem são, a não ser a família delas. Acho que sou humilde. Por exemplo, em relação aos livros: tudo aquilo me escapa. Aquilo é novo e é diferente, mas ainda é muito cedo para se perceber o que é que eu trouxe. O meu medo é sempre o mesmo: desiludir as pessoas que tiveram em mim uma confiança que eu nunca partilhei.

 

Aos 18 anos estava cheio de certezas quanto à literatura e quanto à vida, disse-o. A soberba é própria da juventude.

Havia uma certeza que eu tinha, era que se trabalhasse muito ninguém escrevia como eu. Mas depois fazia coisas muito más. Havia uma distância tão grande entre aquilo que eu sentia e os resultados, que eram tão pobres. Continua a haver.

 

Como se houvesse um desfasamento? Entre aquele que é e aquele que aparece nas fotografias, entre os livros e o que quer que eles sejam.

Estava à espera que falasse nisso. Ainda não é isto, podia ter ido mais longe, podia ter trabalhado mais, podia ter corrigido mais, devia ter reescrito mais. Devia ter só publicado a partir do «Esplendor de Portugal», devia ter lido primeiro o não sei quantos. Ainda eram romances, e não me interessa nada contar histórias. Queria pôr a vida inteira dentro de um livro. Claro que não é possível, mas é a única maneira.

 

Tem falado do desejo de escrever (n)um estado que é “anterior à palavra”. Como se o que vai revelando nos livros, descobrindo com essa mão cega e mágica, fosse desconhecido para si e aflorasse no movimento da escrita. O que será que está antes? Por acaso, havia fotografias em que a sua inocência estava escancarada. 

Isso também depende da maneira como se olha para as fotografias, se é o nosso olhar... É isso que esteve a dizer, sim. Não poderia dizer melhor. Ao mesmo tempo é uma tarefa impossível, é tentar transformar em palavras o que é intraduzível em palavras: emoções, impulsos, os próprios nexos. Gosto de adormecer a ler. E quando estou a adormecer, estou a ler o que não está lá. Depois a gente volta à tona e afinal nada daquilo estava ali escrito. Então, é conseguir esse estado. Consigo-o através do cansaço. As duas, três, primeiras horas são perdidas. É tudo muito lógico-discursivo dentro de mim, os bonecos são quase cartesianos. É tentar furar no coração, do coração. Não sei explicar bem.

 

Explique mais.

Não sei. Só quando se está a escrever é que é isso. Também vivo um pouco assim. Agora é que eu estava bom para nascer.

 

O que é que quer dizer?

Tenho agora alguma virgindade. Virgindade no olhar, uma capacidade de surpresa muito maior do que tinha há dez ou 15 anos. E também o amor. Demorei muito tempo a aprender o que era o amor. Amor, estou a falar em lato sensu. E o entusiasmo. Vivia muito autocentrado, levado pela minha timidez. A existência dos outros foi-me revelada a pouco e pouco. Durante muitos anos era-me difícil conceber relações horizontais com os outros. Começou um pouco na guerra. De repente percebi que havia os outros, que eram iguais a mim e que eu estava entre eles. É muito difícil ser homem. Uma das coisas boas que tenho em ser homem é que não tenho nenhum atrito em me relacionar amorosamente com homens. Esse aparelho [gravador] é horrendo.

 

Mas fala tão baixinho que se o puser longe não capta nada.

Sempre falei muito baixo. Detesto gritos e pessoas que gritam, pessoas veementes. É horrível, porque queremos dizer “gosto de ti” e temos vergonha. Eu tenho vergonha. Fica-se muito despido. Estou a falar de coisas que normalmente não falo.

 

Do quê, exactamente?

Da maneira de viver. A pessoa, a certa altura, começa a perceber que a felicidade é possível. No sentido de não haver mal entendidos entre nós. Entre nós e nós, entre nós e os outros, entre nós e a vida.

 

Porque é que não há mal-entendidos? E como é que se consegue esse entendimento?

Ai, não sou nenhum sábio, vivo por instinto.

 

É uma conquista, esse abandono de uma grelha racional.

Bom, e eu era filho de um anatopatologista. Faz agora dois anos que morreu. Era um homem que quando um dos meus irmãos lhe perguntou o que é que gostaria de ter deixado aos filhos, respondeu “o amor das coisas belas”, seja o que for que isto quer dizer. Acho que ele nunca foi velho. Teve sempre uma capacidade muito grande de se apaixonar, até ao fim da vida. Por um livro, por músicas, por pessoas, mas isso já não me diz respeito, mas espero que sim. A seguir vou deixar de fumar.

 

Bons projectos! Parece de facto mais novo, agora que emagreceu.

Sinto-me leve. Entro no carro, saio do carro, corro, danço, se me apetecer, pulo, não podia fazer nada disso e era uma estupidez. Sem me dar conta, estava a matar-me. Pequei muito contra mim mesmo. Agora pareço o Francisco de Assis, que dizia: “confesso que pequei muito contra o meu próprio corpo”.

 

Falando do S. Francisco, lembrei-me do Santo António, e da sua viagem a Pádua. Quer falar-me dessa viagem?

Não me lembro de nada...

 

Todavia, na fotobiografia elege a viagem como um dos acontecimentos centrais da sua vida.

Claro que sim. Oiça, para uma criança de sete anos... Um homem, como era o meu avô, que me fazia festas, beijava lindamente – é tão difícil uma pessoa que sabe beijar, não é? –, levar-me de carro pela Europa... Portugal, Espanha, França, Suíça, Itália. Foi a pessoa de quem mais gostei até hoje.

 

Ele dedicava-lhe uma atenção exclusiva?

Não sei se dedicava, mas era daquelas pessoas que a fazia sentir-se única. A Anabela está com ela e sente que nada mais existe a não ser a Anabela. Tinha essa capacidade. E era genuína, significava um interesse real pelas pessoas e pelas coisas. Eu era o filho mais velho do filho mais velho dele, tinha o nome dele. Não me pareço nada com ele, que era moreno, bonito, sociável, falador. Eu sou introvertido e tímido e fechado. Não vou a jantares, vejo muito poucas pessoas.

 

A comunicação também se faz no silêncio.

Há pessoas que têm uma estrela na testa, mas são raras. Aquelas pessoas que a gente sente que o nosso corpo vai para elas, sem se dar conta... As palavras são desnecessárias. Uma pessoa de quem eu gosto é aquela com quem estou bem em silêncio. Com o Ernesto Melo Antunes, passávamos horas calados e com a sensação de que tínhamos dito imensas coisas. Dizíamos imensas coisas sem palavras. O Freud dizia que a maneira mais profunda de fazer amor era só com os olhos. Lembra-se de uma entrevista em que o Richard Burton dizia que ele e a Elizabeth Taylor se vinham só de olhar um para o outro? Aquilo parecia-me um exagero, mas é verdade.

 

Essa tirada é tão apoteótica quanto a entrada da Cleópatra em Roma!

Não vi esse filme. Mas vi uma das entrevistas que deram em conjunto, e a maneira como ela olhava para ele...


Há pessoas que têm uma comunicação fusional.

Se calhar, é a única que vale a pena. A gente ou tem ou não tem. É como um berlinde na mão, é como o talento. O amor não é um fim, é um meio, é uma outra forma de falar, é uma maneira de estar mais perto, e mais perto, mais perto.


Fala de África, da guerra, como um nascimento: “Aquilo que eu sou hoje nasceu lá, comecei a ser outro lá”...

No outro dia fui almoçar com eles todos, num almoço de companhia. Os militares falavam em camaradagem_ não é amizade, não é amor... É uma relação tão intensa. Talvez porque vivi com eles as horas mais amargas, mais duras, mais violentas que tive até hoje. Eu não sabia que estava tão ligado a eles. Aquilo era profundamente comovente. Sabe, os soldados tinham 19, 20 anos, os oficiais 23. Não sei se éramos homens, visto agora parece-me que éramos miúdos, e no entanto...

 

Nos seus livros, a marca deixada pela guerra continua a ser central.

Foi muito importante para mim e continua a ser. Eu era um miúdo precoce, fazia coisas estranhas, assustava a minha família. E encontrar iguais, encontrar pessoas... É sempre difícil falar disto, é sempre difícil falar de amor aos outros. Foi em Torres Novas, foi o mês passado. A maior parte vinham do Norte, num autocarro que tinha um cartaz à frente que dizia “Os príncipes do António Lobo Antunes”. Temos tendência a pensar que as pessoas humildes, que não têm aquilo a que chamamos cultura, não são capazes de uma delicadeza tão fidalga; e são. Eles eram príncipes. De coragem. A coragem é apenas uma forma de elegância. Ultimamente fico sempre surpreendido: a maior parte das pessoas são melhores do que eu imaginava. Durante tantos anos fui injusto.

 

Por que é que esteve tão zangado com as pessoas durante anos?

Não era uma questão de zanga, era uma questão de um narcisismo idiota, da assunção de uma superioridade imaginária.

 

A sua superioridade baseava-se em quê? Esse fio narcísico passava por ser o “grande autor”?

Não era o autor de nada, era um miúdo. Baseava-se sobretudo em parvoíce, era um palerma. Estava convencido de que tinha nascido para grandes feitos, que não sabia bem quais eram. Para citar o seu querido Goethe, “a nossa única grandeza possível é não chegar. Não chegar nunca”. Não me apetece nada falar, acho que você percebe sem eu dizer as coisas.

 

Batota. Quer falar de quê então?
Não gosto de falar muito. Quero que justifique o dinheiro que lhe vão pagar, só isso é que me está a preocupar neste momento.

 

Não se preocupe. Eu gostava de saber mais, independentemente do dinheiro que me vão pagar por escrever estas coisas de que estamos a falar.

Eu acho que já sabe, acho que as perguntas acabam por ser redundantes.

 

 

Publicada originalmente na revista Espiral do Tempo em 2006

 

Na sala de espera de um hospital

08.10.14

Passei a manhã [7 Out]  numa sala de espera de um hospital (razões privadas, nada de grave). Passei a manhã a lembrar-me da minha mãe e da minha infância. Do tempo em que vivíamos em Vila Real e íamos ao Porto a um especialista. Da roupa especial que vestíamos para ir ao especialista e ao Porto. Das quatro horas de autocarro pelo Marão antigo. Do mil-folhas que comíamos depois da consulta. Da escada-rolante do Brasília onde eu pedia para andar. 
Os anos 70 foram há uma eternidade. O país era tão outro que custa a crer que tenham passado apenas 40 anos.

As pessoas eram no essencial as mesmas. Havia as administrativas simpáticas que sorriam às pessoas que chamavam pelo primeiro nome depois de dizerem o nome todo. Havia as "cabras" (como a minha mãe lhes chamava) que agitavam o poderzinho de que dispunham e faziam um ar de importante quando lhes fazíamos uma pergunta. Havia os filhos que acompanhavam os pais. Havia os pais sozinhos ("sozinhos como cães", como dizia a minha mãe). Havia uma televisão ligada ao canto.

Havia e há. Vi isso tudo esta manhã. 

O hospital a que fui é privado. Seria muito diferente no público? A degradação do SNS já é preocupante? 
Este post é para repetir o que nunca repetirei as vezes suficientes: defendamos o SNS. Um país só é país se tiver serviços públicos de qualidade acessíveis a todos. Saúde e Educação, para começar.
Enquanto esperava, lia notícias sobre o impensável cenário na educação. Mas o que me impressionou mais foi uma notícia sobre o decréscimo acelerado das prestações sociais. Está no Público, pág.12. Somos mais desiguais. 
Isso dói muito. A vida da pessoa que está ao meu lado é também a minha. Como diria a minha mãe: "Hoje são eles, amanhã somos nós".

 

 

Ler Roth e o Nobel, na Bertrand das Picoas

03.10.14
Philip Roth nunca ganhou o Nobel (e nós gostaríamos que ganhasse). No dia em que se anuncia o escolhido de 2014, e tendo como pretexto "Factos", de Roth, e uma biografia autorizada do escritor saída nos EUA, discutimos o universo daquele que muitos consideram o melhor escritor vivo, e, no caso de não ser ele o galardoado do ano, como tudo indica..., falamos também do escolhido da academia sueca. 

Com os críticos literários Isabel Lucas e Pedro Mexia e o escritor João Tordo. 

Dia 9 de Outubro, às 18.30, na Bertrand das Picoas (há obras no Chiado).

Eu modero.

Ler no Chiado é uma iniciativa mensal da revista Ler e da Bertrand.