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Anabela Mota Ribeiro

Ruy Castro ("Era no Tempo do Rei")

08.01.15

Rio de Janeiro, 1810, dois anos depois da chegada da Família Real Portuguesa. Tempo de Carnaval. A apresentação é a seguinte: “Como se, a uma ordem do deus Baco, diabos brotassem das profundas e ocupassem os corpos de homens e mulheres, nobres e plebeus, livres e escravos, e os tornassem, por igual, crianças de todas as idades, como os heróis e vilões deste livro”. Os protagonistas de “Era no Tempo do Rei” são D. Pedro e Leonardo, o príncipe e o mendigo – como lhes chamaria Mark Twain. Mas todos os outros, nobres e plebeus, heróis e vilões, são personagens do romance. E o leitor, que segue no cortejo.

“Os dois garotos, igualmente endiabrados, tomam a cidade de assalto envolvendo-se nas mais empolgantes cabriolas” – pode ler-se na contracapa do livro, onde nos apresentam também ao temível major Vidigal, à prostituta Bárbara dos Prazeres, à vingativa princesa Carlota Joaquina, ao sinistro inglês Jeremy Blood. Vidigal, terá existido de verdade? Um sinistro inglês com sangue no nome? A improvável Bárbara dos Prazeres? Todos se cruzam na biografia ficcionada de um tempo. Nem tudo o que se passa naquelas páginas aconteceu – mas podia ter acontecido. É sobre este pressuposto que o autor trabalha.

Ruy Castro fez uma pesquisa aturada para poder compor um mosaico sobre o tempo do rei. Dá a sentir os cheiros, as comidas, as roupas, as palavras de uma época. O biógrafo de figuras famosas da cena brasileira, autor de duas novelas e tradutor, permitiu-se a liberdade da ficção. “Era no Tempo do rei” foi finalista do prémio Jabuti, o mais importante prémio das letras brasileiras, e será transformado num musical por Carlos Lyra (um dos nomes mais importantes da Bossa Nova). Em Portugal, foi editado pela Asa.

 

“Era no Tempo do rei”, sendo uma ficção, pretende reconstituir um tempo e um acontecimento histórico. O que é que é da imaginação e o que é que é da realidade?

Decidi que os personagens principais viveriam um enredo imaginário, mas a base toda da história – o cenário, os costumes, as falas, o ritmo – teria que ser fortemente documentário. Passei quase um ano lendo sobre a chegada da corte, material que contava detalhes da corte portuguesa no século XVIII, livros produzidos no século XIX. Estudei o rei D. João IV e os vários personagens do livro. O ambiente dos palácios: não descansei enquanto não tive descrições acuradas. Estive no Palácio de Queluz.

 

Habitualmente faz não-ficção. Porque é que, desta vez, não lhe bastou a realidade?

Tive essa ideia há mais de dez anos. A minha visão omnipotente da época era a seguinte: os livros sobre a chegada da corte são muito chatos! São documentados, são livros de historiador. Mas, com poucos meses de estudo, cheguei à conclusão de que era muita presunção da minha parte tentar fazer isso. A História é muito séria, ou complexa, para que um jornalista decida que D. João veio porque quis e não porque foi forçado.

 

Optou pela ficção por causa da liberdade que ela lhe permitia?

Sim. Se a fizesse como ficção, não precisaria me comprometer tanto com a realidade, eu me comprometeria o suficiente na descrição do ambiente. Qualquer desvio histórico me seria irrelevado, porque se trataria de uma ficção.

 

No livro revela um interesse pela dupla face de cada personagem. D. Carlota Joaquina, por exemplo, é a intriguista-mor, com os seus amantes, preferindo um filho, desprezando o outro, pretendendo ver o marido pelas costas. Como é que chegou a esta trama?

Parti da “Memória de um Sargento de Milícias”. Li esse livro muitas vezes, e nas últimas vezes achava: “Puxa, está faltando um personagem”. O jovem príncipe D. Pedro cairia como uma luva ali; é da mesma idade que Leonardo [o herói da rua], tem o mesmo temperamento bravio, aventureiro, indisciplinado, romântico. E porque é que o Manuel Antônio de Almeida, que escreveu o livro em 1852, não pensou nisso? Porque o livro não tem ninguém da corte. Ali é a história da classe média brasileira que estava se formando – os meirinhos, os ourives, os pequenos comerciantes.

 

Manuel Antônio de Almeida foi, nesse romance, um cronista do seu tempo.

É. Eu sou um garoto do século XX. Vi sete mil filmes (anteriores a 1970; não tenho o menor interesse nos filmes produzidos de 1970 para cá, excepto os do Woody Allen e do Kubrick, e talvez alguns europeus. Em compensação, do Méliès até, digamos, “2001”, tenho tudo!). Você vê a quantidade de livro que tem aí, pode imaginar, né? Fui formado por uma tradição narrativa muito forte, meio vagabunda, maravilhosamente vagabunda, de romances de aventura, de seriados de cinema.

 

Em “Era no Tempo do rei”, verdadeiramente, a acção começa quando D. Pedro se aventura fora das fronteiras do palácio.

Ele encontra na Travessa do Comércio Calvoso e Fontainha: esses dois personagens são exactamente iguais àquela raposa e àquele gato do Pinóquio. Quando Pinóquio sai da oficina do pai, é achacado imediatamente por uma raposa e por um gato, que prometem um lugar onde não precisa estudar, não precisa tomar banho: é a Ilha dos Prazeres...

 

No seu livro, esse “lugar” é a prostituta Bárbara dos Prazeres.

É. Mas isso aí, só depois me dei conta.

 

Pedro e Leonardo, o príncipe e o mendigo: mais do que vincar as distâncias, procura notar as semelhanças entre os dois. Faz deles “irmãos”; por exemplo, ambos são renegados ou mal amados pela mãe.

Exactamente.

 

Ambos são aventurosos, destemidos, livres. Procura mais a sintonia, e faz um retrato psicologista; o puramente factual parece interessar-lhe pouco.

Sem dúvida. Se bem que, no caso do Pedro, não o obriguei a fazer nada que ele não pudesse ter feito na vida real. Não há muitos registos do Pedro como adolescente: tem a infância, em Queluz, mais ou menos estudada, e tem imensos relatos dos 18 anos em diante, já se preparando para ser imperador. Me baseei muito nos relatos dos 18 anos em diante para construir o que ele poderia ter sido aos 12.

 

Outra situação em que revela o personagem na sua dupla condição: quando D. João sabe da notícia do rapto do filho, não é o rei que chora, é o pai que chora.

Essa dupla condição é uma linha essencial para mim, mas é muito inconsciente o processo. Mesmo nas biografias, só venho a descobrir depois que há coisas em comum entre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda [biografados por Ruy Castro]. Por exemplo: um talento intuitivo absolutamente fora do comum. Nenhum deles aprendeu a ser Nelson Rodrigues, ou Garrincha ou Carmen Miranda. Não era para que fossem daquele jeito, e se tornaram. Porque escolhi esses personagens? Não sei! Talvez tenha sido porque também me considero bastante intuitivo.

 

Em comum com os biografados que citou, Pedro e Leonardo têm uma família disfuncional. Estão cheias de grandeza e de miséria, com filhos preteridos e filhos amados, traições, infidelidades...

Todas as famílias se parecem.

 

Faz de uma mulher decadente, prostituta, louca, uma pedra essencial na decifração desta história. Porquê?

O mais impressionante é que comecei o livro sem ela. Eu não tinha Bárbara. Trabalhei durante dois meses para tirar o príncipe do palácio e o manter fora do palácio. Conversando com uma amiga que tem um sebo [alfarrabista] no Leblon, ela me perguntou: “Você conhece a Bárbara dos Prazeres?”

 

Existiu de verdade?

Encontrei referências sobre ela em vários livros. Livros que contam essas histórias miúdas – não é a grande História do Brasil, é a pequena História do Brasil.

 

Bárbara era a amante predilecta do rei, que Dona Carlota Joaquina mandou deportar para o Brasil. O processo de decadência é tremendo. E acaba, demente, por encontrar o filho do ex-amante e amado: o infante D. Pedro.

O “[Memórias Póstumas de] Brás Cubas”, do Machado de Assis tem um personagem, uma menina chamada Marcela, por quem Brás Cubas se apaixona; no final do livro ela aparece leprosa, horrível. Me dá um sentimento de mal-estar ver uma personagem que você admirou, que desejou até, e que reaparece como velha encarquilhada... Eu queria fazer o contrário: queria mostrar que aquela mulher repugnante tinha sido uma pessoa deliciosa, maravilhosa, em jovem. De repente, ela começou a se tornar o pivot da história, foi crescendo por conta própria. Esse tipo de coisas realmente acontece, fora da intenção do escritor.

 

É um livro de ficção. Mas a teia de relações é plausível: D. João e Bárbara dos Prazeres, ou o príncipe D. Pedro e o mendigo Leonardo.

Na verdade aconteceram: D. João, é sabido que teve uma amante, em Lisboa, antes da vinda da corte para o Brasil, enquanto Carlota era ainda uma criança. E o próprio D. Pedro teve um personagem rigorosamente parecido com Leonardo na sua vida adulta: foi o Chalaça, a quem faço uma referência no final do livro. O Leonardo é o que o Chalaça vai ser daqui a dez anos.

 

É um biógrafo. De figuras, de um bairro ou de um movimento; neste livro é o biógrafo de um tempo. Em todas as biografias, há a preocupação pelo que é quotidiano, pelo que humaniza o personagem. Foi essa a sua maior preocupação quando quis falar da chegada da corte?

Sem dúvida. Essa preocupação com o facto menor, com as miudezas do dia-a-dia vem desde o primeiro livro, “Chega de Saudade”, e foi uma coisa completamente intuitiva. Só vim a ser informado depois que é uma tendência contemporânea da História, a que chamam na França História das Mentalidades. Infelizmente não estudei História.

 

Porque é que se interessou pelo quotidiano?

Quando vi que os poucos textos até então existentes sobre Bossa Nova, por exemplo, invariavelmente continham a seguinte passagem: “Em Julho de 1958, João Gilberto gravou “Chega de Saudade”, de António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. Naquela época, o presidente do Brasil era Juscelino Kubitschek, e havia um grande optimismo”. O autor daquele texto saía da história que estava me contando, que era o João Gilberto gravando “Chega de Saudade”, e começava me dando uma aula de História que não pedi para ter. E que já sabia, além disso.

 

Preferiu sair da aula de história e ir para o terreno.

Para contar aquela história e dar um panorama do lugar e da época em que ela se passava, eu ia fazer isso através de informações que me seriam dadas pelas pessoas. A quem ia perguntar se tinham carro, qual era a marca do carro, se bebiam, qual era a marca de bebida, onde compravam roupa, onde namoravam.

 

Normalmente esses pormenores são anexados à história principal, dão um colorido, um exotismo. Você eleva isso a uma condição quase primordial.

Não uso como uma descrição à parte, eu incorporo isso. Como deu muito certo no “Chega de Saudade”, já fiz isso no “Anjo Pornográfico” [biografia de Nelson Rodrigues]. Cada vez mais fui me empolgando por essa possibilidade de reconstituir uma época, ou um ambiente, por intermédio desse tipo de detalhes. A Heloísa [Seixas, a mulher, escritora] gosta muito de contar a angústia com que fiquei, durante seis meses, porque não conseguia saber a marca da escarradeira da redacção do jornal do pai do Nelson Rodrigues! Quando finalmente descobri, vibrava com se tivesse sido um golo do Flamengo! [risos]

 

Em relação a este livro, que motivos foram os da sua obsessão?

É uma ficção. Eu não precisaria ter esse compromisso com a verdade, podia perfeitamente ter tirado da cabeça. Mas você não pode mudar as pintas do leopardo. Eu tenho esse vício da busca da informação, da minúcia, de saber exactamente como foi, a maneira como se falava, o tipo de gíria usada... Jamais usaria, por exemplo, nem nas biografias, nem mesmo na ficção, uma expressão que não estivesse em voga na época.

 

Quanto tempo demorou a escrever o livro?

Passei quase um ano estudando. Depois sentei para escrever outro ano. Tive a sorte, ou falta de sorte, não sei, de dois livros importantes para mim, “Carmen” e “Era no Tempo do Rei”, terem sido escritos durante períodos de recuperação de problemas de saúde. No caso do “Carmen”, estava fazendo tratamento contra o câncer. Nesse outro, também tive uma intervenção, muito dolorosa. Toda aquela parte da tomada do morro pelo Vidigal, capturando aqueles bandidos, foi escrita de pé!

 

De pé? Quer dizer que mesmo tão debilitado fisicamente não conseguiu deixar de escrever?

Tinha feito operação de próstata, estava com uma sonda, não podia sentar, porque doía muito. Tive que escrever em pé, à mão.

 

O livro era também qualquer coisa que o prendia à vida?

Falei desde o começo, quando tive o diagnóstico, que ia começar a fazer o quinto capítulo do “Carmen”... E o “Rei” me ajudou na recuperação da operação de próstata. Ah, sim, me prenderam [à vida].

 

 

ALGUNS LIVROS DE RUY CASTRO

 

CHEGA DE SAUDADE

“Aquele novo jeito de cantar e tocar de João Gilberto ensolarava tudo – muito mais do que “Copacabana”, com Dick Farney, tinha feito doze anos antes”. “Chega de Saudade – a história e as histórias da Bossa Nova” fala de um movimento musical que varreu o Brasil há 50 anos. De uma música que ensolarava tudo e que se ouve ainda hoje. Mais do que a inventariação das músicas e dos autores que marcaram aquele período, Ruy Castro faz a crónica de uma geração. Lançado em 1990.

 

ELA É CARIOCA

É uma enciclopédia de Ipanema. Um guia das personagens que fizeram de um pequeno bairro junto ao mar um dos pedaços mais apetecíveis do planeta. A famosa garota, “que coisa mais linda, mais cheia de graça”, é só uma das figuras. Fazem parte deste guia romancistas, desportistas, compositores, arquitectos, modelos, cantores, musas; mas também bares, revistas, boutiques e o “cachorro-vira lata”! Tudo e todos os que fizeram de Ipanema um bairro onde a vida fervilhava. Editado em 1999.

 

ANJO PORNOGRÁFICO

Ruy Castro aprendeu a ler, no colo da mãe, com o retrato que Nelson Rodrigues traçava d’ “A vida como ela é”. Nelson foi um escritor genial que publicou tudo: crónicas, folhetins, contos, consultório sentimental, romance, teatro. Além de fazer a biografia do seu ídolo, que se lê como um romance, Ruy Castro organizou-lhe toda a obra para a Companhia das Letras. Recentemente, uma questão com a filha ilegítima de Rodrigues transferiu os direitos de publicação da obra para a editora Agir. A organização de Castro é infinitamente superior. Edição de 1992.

 

CARNAVAL NO FOGO

“O carioca Ruy Castro evoca todo o imaginário do Rio. Ele conhece a pulsação errática desta cidade como se fosse a sua”. A crítica é do jornal The Guardian ao guia que Castro escreveu sobre o Rio de Janeiro. Na verdade, a cidade não é sua: nasceu no Estado de Minas Gerais, viveu em S. Paulo (também em Lisboa e Nova Iorque), e radicou-se no Rio há cerca de 20 anos. Neste livro, apresenta a cidade como ela é vivida pelos cariocas. Na praia. No Carnaval. Na Confeitaria Colombo. No futebol. E escreve coisas que transtornam para sempre a nossa visão da filosofia alemã: “Imagine um Heidegger de bermuda e comendo churrasquinho na calçada…”. Publicado em 2003.

 

CARMEN

A vida de Carmen Miranda, a brasileira mais famosa do século XX, na prosa apaixonada de Ruy Castro. Mais de 400 páginas onde se olha para a Lapa boémia dos anos 20, ou para o glamour de Hollywood nos anos 40. Para a filha do barbeiro e da lavadeira portugueses e para a artista estilizada que vingou no cinema e posou para a posteridade. Para este livro, Castro fez uma pesquisa iconográfica notável – a sua colecção de imagens exclusivas é assombrosa. E como sempre, mais do que detalhar a vida da biografada, leva-nos até ao mundo em que ela viveu – o público e o privado. Editado em 2005.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008

 

JE SUIS CHARLIE

08.01.15

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

JE SUIS CHARLIE 

 

 

Margarida Palma

04.01.15

A gravura é o lugar onde se sente mais confortável? Foi para Inglaterra (Camberwell) estudar gravura.

Eu entendo a gravura como um meio, uma ferramenta. O meu lugar mais confortável é mesmo o desenho. A gravura atribui ou oferece ao desenho possibilidades e intensidades distintas. Mas acho que desenhar vem antes... É uma competência mais profunda, que precede tudo o resto. Implica um tipo de reflexão de outra natureza.

 

Conte como faz uma gravura.

Há muitas maneiras de fazer gravura. Vou tentar simplificar ao máximo. Em princípio, é necessária uma matriz, seja madeira, metal ou outra. Nessa matriz fazem-se marcas, incisões ou texturas que depois são transferidas para outro suporte, geralmente papel, utilizando uma prensa. Uma gravura pode ser reproduzida muitas vezes, ou não, dependendo do tipo de matriz e da marca que se fez. Pode ser rigorosa, experimental, plana, tridimensional.

Há um lado muito técnico que é necessário perceber e dominar. O Bartolomeu (citando Jean Renoir) dizia frequentemente que a técnica deve ser aprendida... Mas terminava, completando: para depois esquecer.

 

Como assim?

Toda a atitude e forma de trabalhar dele mostravam que é quando existe esse esquecimento, quando todos aqueles preceitos se tornam num movimento natural e despreocupado, que as coisas mais interessantes acontecem, que somos capazes de voltar a experimentar, sem reverências à técnica.

 

E como é que faz gravura? Pergunto pelo seu modo próprio. 

Eu prefiro experimentar, brincar, desenhar directamente no metal (ponta seca). É um processo directo, um pouco rude. Exige intenção, força. Por vezes, nesse equilíbrio delicado entre força e precisão, surgem outras coisas. Acho que se adequa ao meu desenho. Também gosto de ver o ácido a morder livremente (spit bite). Frequentemente opto por caminhos um pouco imprecisos, contrariando a rigidez do meio. Gosto mesmo é do erro e do acaso.

 

O que é que mudou em si o encontro com Bartolomeu Cid dos Santos?

Acima de tudo, a certeza de que estava no rumo certo. Mudou a confiança em mim mesma, a vontade de arriscar, de ir. Tinha dezoito anos quando o conheci. Nessa altura, sentir que uma pessoa com aquele percurso, aquela vida, aquela história, tinha curiosidade em perceber o meu trabalho, estava disponível para me ensinar, ouvir, partilhar... Foi de uma generosidade imensa, sempre. Isso não se repete. E faz muita falta.

 

Os seus desenhos e gravuras têm corações, pernas, o corpo. Porquê o coração, mais do que tudo? É o coração-órgão, quase sempre. A representação é oposta à do coração romântico da cultura popular.

Sim, é um coração órgão, em estudo, talvez. Repito um mesmo órgão ou parte do corpo muitas vezes, no meu trabalho. São tentativas. Sempre achei extraordinária a ideia do desenho científico em que se condensam as características de um animal ou planta perfeitos, na sua espécie, mas que na realidade não existem. São amálgamas, uma ideia sobre as características que os definem. Talvez eu esteja no caminho oposto. Vou registando características particulares, perspectivas transitórias, passageiras, desses pés, pernas, órgãos... Porque eles não são estáveis, estão em permanente mutação. Mudam, crescem e adaptam-se.

 

Viveu em Londres, Chipre, Algarve, Lisboa. É um cliché, mas vou perguntar: a luz importa mesmo?

Para mim, muito. Mas também os ventos específicos de um lugar ou o tipo de nuvens mais comuns de uma região. São coisas em que só reparamos quando vivemos num sítio o tempo suficiente para perceber esses padrões.

 

O que é que mudou em si depois da vida nestes lugares? Como era a sua vida em cada um deles?

A vida foi muito diferente em cada um desses lugares. Com estímulos diferentes, aprendi coisas importantes em cada lugar, em direcções quase opostas. Londres e o Chipre trouxeram novas camadas ao que eu sou, foram experiências ricas, entre futuro, diálogo, possibilidade e herança, silêncio e luz.

 

As suas raízes são algarvias. Recentemente viveu no Algarve e trabalhou na Oficina Bartolomeu Cid dos Santos (OBS). Viver perto da casa dos avós, dos pais, perto do sítio de onde vem, mexeu consigo de um ponto de vista criativo?

Viver em Tavira alterou a minha compreensão e identificação com o lugar, o sentido de pertença, da história pessoal, do padrão, o enriquecimento da memória.

O regresso à OBS (Oficina Bartolomeu dos Santos) foi um desafio enorme. Tinham sido cinco anos sem um rumo definido para aquele espaço. Não foi simples retomar um projecto daqueles, sem o pai, o mentor. É uma responsabilidade e ao mesmo tempo uma alegria imensa ver as prensas a voltar a trabalhar, pessoas novas a entrar, a usar, a experimentar, ver as relações que o Bartolomeu criou a serem renovadas e ampliadas. Quero acreditar que ele ficaria contente.

 

Como é que aquilo que vê (no cinema, num museu) contamina o que faz? 

O cinema é uma fonte constante de informação. É um meio extraordinário, rico e diverso. Há coisas que ficam adormecidas e ressurgem dias, meses, anos depois. Não são necessariamente usadas de forma literal, mas fazem parte de um léxico visual importante para mim.

Há outras interferências, da medicina, da biologia. Ideias que me interessam e de que me aproprio. Fascina-me a sobreposição desses planos, as relações que deixam de ser unívocas, a multiplicação de leituras.

 

Está a regressar a Portugal depois de mais uma temporada fora. Demora a encontrar de novo o seu lugar? Acho que estou a perguntar também pela importância da viagem e do centramento em nós mesmos.  

A viagem, e sobretudo uma temporada tão longa, exige depois também o tempo para integrar o que se viveu, o que se viu. Acho que voltamos sempre diferentes, e portanto não há um reinício simples, nem tudo volta a encaixar no mesmo sítio. Isso é bom, mesmo quando causa estranheza, surpresa ... mesmo quando dói compreender que mudámos e que é irreversível.

 

Em que coisas está agora a trabalhar?

Continuo a olhar para o corpo. A capacidade de readaptação, interior e exterior interessa-me. O registo dessas lutas continua a ser o foco principal daquilo que eu faço, seja em desenho, objecto ou livro.

 

Uma delicadeza que fere e está ferida - pode ser uma boa maneira de falar do seu traço?

Eu desenho como um cirurgião inexperiente, acho... Desenhos podem ser mesas de operações onde corpos e órgãos se refazem, reagrupam. Tento reproduzir o que foi, a partir da memória, com o que ficou. Há ali uma oportunidade de refazer ou resolver qualquer coisa. Ferida, tentativa e erro. Novo corpo, nova função, nova possibilidade de resposta.

 

Se lhe perguntar quem é a sua família, responde o quê? Pode nomear pessoas, pinturas, lugares, passeios...

Esse mapa podia ser quase infinito, as ramificações são tantas... Amigos, professores, quadros, livros, lugares. Sophia. O mar. Marguerite e Virginia. Adriano e Orlando. Louise. Mulheres. Muitas mulheres. Uma, a do quarto de hotel, do Hopper. O Bartolomeu. Tavira. A serra algarvia. O Abbas. O miúdo à procura do amigo. O Wim. O anjo no baloiço. Tudo o que me fiz sentir e onde me senti menos sozinha. E a outra família, forte, de sangue e de amor desmedido.

 

 

 

 

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