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Anabela Mota Ribeiro

Teresa Paiva

13.03.15

“Em Portugal temos uma cultura do desassossego. Um noticiário provoca imensa ansiedade. Se se lembra, tínhamos o Vitinho, a história, a cantiga; e para os adultos a emissão acabava com o hino nacional. Agora acaba? Não!, continua noite dentro. Esses Zeitgeber (como internacionalmente são chamados), os dadores de tempo (ou seja, as horas dos noticiários, as horas do trabalho, as horas das refeições), deixaram de existir”.

E as pessoas, como dormem?

Teresa Paiva explica.

E fala de si, pela primeira vez. Quem é a médica que reconhecemos como sendo a especialista do sono?

Entrevista em dois movimentos.

 

O que é dormir bem?

Dormir bem é uma sensação subjectiva. Uma pessoa dorme bem se no dia a seguir se sente com energia, bem disposta e capaz de viver um novo dia. Mas esta noção da avaliação subjectiva do sono é relativa. Se perguntar a um pessoa que dorme mal quantas horas dormiu, essa pessoa diz que dormiu menos do que aquilo que dormiu. Se perguntar a uma pessoa que dormiu bem, ela diz que dormiu mais horas do que aquelas que dormiu. Se perguntar a uma pessoa que tem apneia do sono, ela diz que dormiu muito bem, porque tem grande facilidade em dormir; mas a maneira como dorme assusta qualquer um!, tem paragens respiratórias durante o sono… As pessoas com apneia do sono dizem: “Eu durmo muito bem, ela é que se queixa que eu ressono”. Mas têm um problema sério.

 

Ou seja, as pessoas não têm uma percepção exacta de como dormem. Apesar da subjectividade e da relatividade da definição do que é dormir bem, quais são as balizas?

Não haver repercussões cognitivas (erros de desempenho, lapsos, etc.) durante o dia. Não ter sonolência. Se a pessoa diz que dormiu bem, mas depois está cansada, adormece a ver televisão, adormece quando está sem fazer nada, não é verdade que tenha dormido bem.

 

Situa-se entre as cinco e as oito horas? Quando se ouve o Prof. Marcelo dizer que dorme cinco horas, todos os demais sentem-se dorminhocos.  

Cinco, nunca! Cinco é patológico. Há 5 a 8% da população que precisa de dormir menos de seis horas, e outros 5 a 8% que precisam de dormir mais de nove horas por dia. A maior parte da população precisa de dormir entre seis horas e meia e oito horas e meia. O sono de um short-sleeper tem características especiais. Temos duas partes nucleares no nosso sono. Uma é o sono lento profundo. A outra é o sono-REM.

 

Como é que se caracterizam?

O sono lento profundo é um sono no qual o nosso cérebro fica com uma actividade muito lenta (um ciclo por segundo). Nesse período estamos a fazer coisas essenciais para a memória, e nele é produzida a hormona do crescimento, tanto em crianças como em adultos. A tensão baixa, a respiração fica muito pausada, a frequência cardíaca baixa, a temperatura do corpo também. Essa é a fase mais importante de todas do nosso sono e acontece no primeiro terço da noite. A fase do sono REM, ou paradoxal, é chamada assim porque nessa fase sonhamos mais, temos uns sonhos mais mirabolantes e o nosso coração bate descompassado, a respiração é irregular, os olhos andam de um lado para o outro (por isso se chama REM: rapid eye movement).

 

Voltando ao ponto da partida: o que é que aconteceaos short-sleepers?

Quando temos uma privação do sono, a primeira coisa que recuperamos é o sono profundo e logo a seguir é o sono REM. Os short-sleepers têm a mesma duração de sono profundo e de sono REM do que um dormidor normal. O que têm menos é a primeira e a segunda fase do sono. Têm um sono mais eficaz. Há cientistas e pessoas muito inteligentes com o sono curto (como o Prof. Marcelo ou a Madonna), mas também há pessoas muito inteligentes que precisam de dormir mais (uma deles era o Einstein).

 

Segundo um estudo recentemente feito na Europa, cerca de 32% das pessoas entrevistadas dizem que têm problemas de sono; e destas, 60% são mulheres. Porquê é que é assim?

Há estatísticas ainda mais exuberantes. Do ponto de vista biológico, em termos hormonais, a vida das mulheres é mais complicada do que a dos homens. Um homem tem duas fases: entra na puberdade e pronto. Na vida da mulher não é assim: ela entra na puberdade, depois tem menstruação todos os meses, o síndrome pré-menstrual, a fase da ovulação, as gravidezes, a menopausa. Do ponto de vista social, as mulheres trabalham bastante mais; trabalham no seu trabalho e a seguir fazem o trabalho doméstico. Ontem, numa consulta, fiz as contas a quanto é que trabalha uma paciente; trabalha 71 horas por semana! Uma violência. Este excesso de trabalho é certamente uma das razões para que elas durmam pior. Depois, parece que tudo é culpa da mulher… Se os filhos não estão bons, é culpa da mulher. Se o marido tem uma amante, a culpa é da mulher.

 

É uma penalização ancestral da mulher?

As mulheres continuam a queixar-se muito disso, é um facto. Para tentar resolver essa culpa, fazem muito mais do que são capazes ou deviam fazer. E têm muito mais queixas de coisas que são crónicas, coisas que não matam mas moem; como as dores de cabeça, as insónias, as queixas psico-somáticas. Apesar disto, as mulheres vivem bastante mais do que os homens, têm uma esperança de vida maior. Mas actualmente tenho muitos homens com insónias.

 

Temos a ideia que quem dorme mal tem mau humor e envelhece pior; tem mais cabelos brancos e mais rugas. É uma conclusão empírica ou cientificamente está provado que é assim?

Relativamente aos estados de humor, está provado. Nos primeiros estudos que foram feitos, a primeira coisa que se fez foi privação de sono. Logo se viu que dava problemas de cognição, lapsos, dificuldades de desempenho, propensão para dormirem sono REM; chega a dar alucinações e defeitos de compreensão. As rugas: não está provado cientificamente, mas pensa-se que sim. O que foi estudado e tem comprovação científica é que a privação de sono aumenta o risco de obesidade, a hipertensão e a diabetes. Isso é para todas as idades (crianças, adolescentes, adultos). O sono tem uma enorme importância na regulação metabólica. Portanto, as pessoas engordam se não dormem.

 

Apesar de termos consciência da importância do sono – um pouco como com o cigarro – não dormimos como devíamos, não fazemos disso uma coisa central na nossa disciplina diária.

Não estou tão confiante nem de acordo com isso que diz. O homem convenceu-se de que podia fazer o que lhe dava na gana ao seu corpo e ao planeta, e que não havia barreiras. A diferença entre o dia e a noite deixou de existir. A separação casa/trabalho também. As pessoas continuam a trabalhar em casa e há uma intrusão a todo o momento, com os telefonemas, as mensagens. O mesmo para o divertimento: não há limites para o divertimento. Dantes, as pessoas dormiam várias no mesmo quarto. Agora, apesar de terem um quarto só para si, o quarto tem várias funções. Serve para dormir, para ver televisão, de escritório (porque continuam a trabalhar), ler, dar voltas na cama. Esta contaminação delimita mal os espaços. Mas sob o ponto de vista biológico, a separação entre sono e vigília existe.

 

Temos a ideia de que as crises de ansiedade são mortíferas para a qualidade do sono. É assim?

Ninguém morre por ter uma, duas, três noites sem dormir, e há fases da vida em que isso é uma resposta normal ao stress. Desde que seja transitório, não tem problema nenhum. Se durar mais de um mês, começa a haver perigo. É normal que uma pessoa que se vai divorciar nessa noite não durma bem. Ou se uma pessoa querida faleceu. Quem tem um sono robusto, aguenta isto melhor. É comum que seja a seguir a um divórcio ou a seguir a ter filhos que não dormem que se desenvolvam as insónias crónicas. Isto que estou a dizer tem algumas tintas, não é igual para todos.

 

As crianças são um caso à parte?

Ando muito preocupada com as crianças. É essencial que uma criança pequena, assim como aprende a andar e a comer, aprenda a dormir. A dormir sozinha.

 

E isso ensina-se?

Seria uma coisa normal se os pais não desensinassem. Não é preciso ensinar ninguém a dormir, como não é preciso ensinar ninguém a andar. Há milhões de anos que é assim. Os andarilhos não fazem nada de especial e a criança aprende a andar na idade respectiva. Quando a criança está desensinada, é importante ensiná-la a dormir sozinha, na sua cama, pelos seus meios. Isso vai torná-la uma pessoa robusta quando for adulta, porque adquiriu essa autonomia. Uma criança que dorme na cama dos pais, que não é capaz de adormecer sozinha, tem um risco aumentado de ter ansiedade, depressão e insónia em adulta. É o que eu vejo aqui todos os dias.

 

Insónias: o que são? São todas iguais?

Há muitos tipos de insónia. Há pessoas que levam muito tempo a adormecer e acordam muitas vezes durante a noite; há pessoas que adormecem rápido, acordam e não conseguem readormecer; há pessoas que acordam cedo de mais. É um problema sério, não é uma coisa psicológica. Mas trata-se. Reeduca-se. E com pouca coisa. A taxa de sucesso é muito elevada na maior parte das pessoas, desde que façam o que lhes é prescrito. Uma das características das pessoas que dormem menos do que precisam é ficarem irritáveis. No trânsito: “eu passo primeiro!”, insulta-se logo o parceiro, fica-se desabrido a falar, grita-se com os filhos, lá vai uma chapada. Nas crianças isto dá hiper-actividade (em vez de ficarem sonolentas). O maior risco da insónia não é a ansiedade (embora haja insónias por ansiedade), mas a depressão.

 

E esses que cita, somos todos? Ouvimo-la e pensamos nos casos que conhecemos e que encaixam nesse retrato que faz.

Estou a falar e a pensar em doentes que vi ontem, anteontem… São casos reais.

 

Toma-se demasiados comprimidos para dormir?, banalizou-se essa toma?

O excesso de medicamentos para dormir é outra das causas das insónias. O Michael Jackson morreu porque não dormia e porque pediu medicamentos em excesso para dormir. O Elvis Presley morreu pela mesma coisa. A Carmen Miranda também. As pessoas têm de perceber que o excesso de remédios não é bom para dormir. “Dê-me um remédio que garantidamente me faça dormir”. Não há ninguém que possa dar um remédio que garantidamente a faça dormir.

 

O que fazer nessas circunstâncias? Como é que a pessoa pode dormir?

Retirar remédios – é exactamente o contrário –, e com terapias comportamentais. Fazem uma escalada de medicação, desenvolvem uma dependência química, e a dada altura os medicamentos deixam de fazer efeito. O cérebro habitua-se. Quanto mais remédios toma, menos dorme.

 

Do ponto de vista simbólico, associa-se um bom sono a uma consciência tranquila. Como se os inocentes pusessem a cabeça na almofada e dormissem tranquilamente.

É uma ideia que vem do Ricardo III, de Shakespeare. Não sei se as pessoas más não dormem tranquilamente… [risos] Não conheço nenhum estudo científico que associe a moralidade ao dormir bem. Mas no senso comum, concordo que haja essa ideia. “Dormir de consciência tranquila” pode querer dizer que não há motivos de preocupação, que não há nada que cause ansiedade. Mas há muitos “maus” que dormem bem. E “bonzinhos” que dormem mal. 

 

Também se fala do sono como antecâmara da morte.

No sono profundo, o nosso cérebro funciona de modo parecido com o do estado de coma. As ondas cerebrais são relativamente parecidas. Há a noção de que se arrefece… E efectivamente há um maior número de mortes de madrugada.

 

Diz-se: “Teve uma morte santa, morreu a dormir”.  

Sim. Não sentiu a transição, não sentiu o medo da morte. Se é que isso causa medo. Pessoalmente, gostaria de sentir que estava a morrer. Porque é uma parte fundamental da vida.

 

Quando é que teve medo de morrer?

Tive uma experiência daquelas em que se está mais para lá do que para cá. Estive perto de morrer e senti-me muito bem, senti uma grande paz. Eu era relativamente nova. Determinou o resto da minha vida, pela enorme tranquilidade que senti. Acho que não tenho medo de morrer. Encaro isso como uma coisa natural. Estamos a fugir do sono…

 

Podemos? Ouvimo-la sobre o sono. Mas não sabemos que pessoa é, nem porque é que este é o seu tema.

Este é o meu tema por uma circunstância específica. Eu tinha estado na Holanda a estudar neurofisiologia e interessei-me pelos comas. Nessa altura fizemos um equipamento, no hospital: uma mesa enorme, com rodas, uma parafernália em cima, os computadores tinham 64 k de memória. Pesadíssimo. E era preciso levá-lo do piso sete para o nove. Eu sofria imenso de ciática. À primeira vez que carreguei a máquina tive uma crise de ciática, à segunda também; percebi que não podia ficar imobilizada de cada vez que fazia aquilo. Como o sono e o coma são parecidos do ponto de vista tecnológico – as monitorizações são parecidas –, virei-me para o sono. Isto foi em 1983/84. Em 87 fez-se o primeiro laboratório com todos os efes e erres no Hospital de Santa Maria. Foi uma paixão, como se viu.

 

Um auto-retrato, pode fazer?

Sei lá quem sou! Não sei explicar bem quem sou. Sei o que gosto de fazer e algumas das minhas características. Gosto muito de ver doentes e acho que os vejo bem, com dedicação. Acho que gosto muito de ensinar, tenho uma paciência enorme, e tenho imensos alunos de mestrado e doutoramento. Gostaria de ter mais tempo para a minha parte imaginativa. Nunca pensei que escreveria e estou a escrever. Há dois anos saiu o livro Viva Bem, durma melhor; este ano vão sair três livros e uma ópera para a qual escrevi o libreto (escritos com a Prof. Helena Rebelo Pinto). O primeiro é para adolescentes (Os mistérios do sono), o segundo é para crianças que ainda não sabem ler e o outro para crianças que já sabem ler. 

 

Que criança foi? Já é a segunda vez que fala da sua preocupação com as crianças.

Fui uma criança triste. Uma menina com muito boas notas, bem comportada. Sou a mais nova de três irmãos, dois rapazes muito mais velhos do que eu. Sou muito diferente da família, o que talvez me tenha dado alguma solidão. Não há médicos na família. O meu pai era militar, general. Fui para a faculdade em 1962, um ano depois da crise académica de 61. No fim da faculdade fui um dos elementos essenciais de uma greve de médicos. Foi a primeira greve de médicos que se fez a nível nacional. Curioso: organizei essa greve, e depois do 25 de Abril nunca aderi a uma greve.

 

Uma rebeldia que vinha da filha de um militar?

Sim, uma rebelião em relação ao meu pai, completamente assumida. Depois tive as crianças, três raparigas. (E tenho uma neta e outro que está para vir. A neta é de uma ternura enorme). Pensei que fosse estéril, coisas assim, e depois provou-se que tinha uma fertilidade indiscutível. [riso] Não foi fácil para mim. Tenho toda a experiência das mulheres que vejo. Sei o que é fazer trabalho doméstico depois de fazer o trabalho profissional, ter os filhos e não ter ajuda, ter pouco dinheiro. Tive doenças graves, das quais estou bem, graças a Deus, que também me ensinaram imenso sobre os doentes. Sobre o que é estar doente.

 

Conte mais.

Já contei imenso! Ser possível estar tranquila, ou ter aprendido a estar tranquila, é de uma grande ajuda e é um privilégio. Como não me fiz a mim própria, como não me escolhi, não tenho uma particular vaidade de dizer que sou assim ou assado. Não sei se devemos ficar muito orgulhosos por ter feito uma coisa; no fundo, temos essa potencialidade. Esta humildade, é importante tê-la. Os sofrimentos têm sido sempre usados para fazer outras coisas. Estes três livros foram escritos numa altura de grande sofrimento.

 

Têm alguma relação com a experiência que viveu na agência do BES que foi assaltada, e onde ficou refém?

Não. Essa experiência foi-me muito útil para perceber o que é o stress pós-traumático. Como tenho doentes nessas condições, percebo com mais facilidade o que podem estar a sentir. Fiquei muito sensível à ameaça. Percebo rapidamente que as pessoas foram sujeitas a violência, quer física quer psicológica. O tipo de violência mais comum é entre marido e mulher ou as agressões sexuais na infância.

 

Apercebe-se no diagnóstico?

Muitas vezes, antes de as pessoas o verbalizarem. Induzo isso. As pessoas normalmente não falam, não querem contar esses problemas. Aquilo é tão desagradável… Uma vez tive aqui um velho de 80 e tal anos que chorou como uma criança por causa de uma coisa que tinha acontecido quando ele tinha 10. Muitas vezes, aqui, é a primeira vez que contam.

 

O que é que a levou a escrever estes livros?

Foi um outro problema, de que não quero falar, que surgiu no Verão passado. Escrevi um romance meu, em 15 dias, de que sou a única leitora, e que não é para publicar. O que eu gostaria de ter feito era investigação. Tive sempre esta dualidade entre a clínica e a investigação.

 

Conte-me um sonho seu.

Nunca tive sonhos recorrentes. O meu sono tem resistido a imensas coisas (a seguir ao assalto ao BES tive umas noites de insónia). [pausa] O sonho mais magnífico que tive é um sonho que tem que ver com a morte. Eu estava num barco com uma irmã minha (que não tenho), e vinha uma onda gigante (como se fosse um tsunami), que estava parada no tempo, que ia cair sobre nós, mas que não caía. As cores eram de uma beleza extraordinária. Ainda hoje vejo esse sonho, parado no tempo, como se fosse uma imagem cristalizada. Foi extremamente importante para mim: a partir desse sonho passei a gostar de viver. [sorriso] Antes, provavelmente, não gostava muito de viver. Era muito nova quando aconteceu, mas ainda tenho uma memória dele muito visual e ternurenta. Esta foi a sua última pergunta!

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2010

 

 

Carminho (2014)

12.03.15

Fado, Alma, Canto. Palavras-âmago de Carminho. Três discos, vendas astronómicas, o mundo tornado um espaço pequeno. Fala com uma voz rouca. Está mais magra. Tem o mesmo sorriso. Entrega-se à entrevista e ilumina-se quando fala de Beatriz da Conceição (que lhe ensinou que não se poder dizer Deus como se diz pedregulho), ou quando recorda o tempo em que era criança e ia cantar os Reis com os primos numa noite de inverno. Claro que agora há Chico e Caetano e Marisa no pedaço, as gravações com personagens que se tornaram reais. Há 250 mil pessoas que a seguem no Facebook. A força da marca Carminho. Que isto tudo tenha nem cinco anos e ela menos de 30, impressiona. Ela continua a ser a mesma? E quem é ela, afinal?

 

Fiz-lhe uma entrevista em 2010. Parece uma outra vida. Tinha saído o primeiro disco. O aplauso era consensual entre críticos, pares e público. Ainda ia cantar uma vez ou outra à Mesa de Frades. E vivia em casa dos pais.

Ainda vou cantar, quando posso. Preciso de silêncio para ganhar força para uma nova resposta. Ir às casas de fado é algo que me alimenta. Há lá uma raiz.

 

O que é possível encontrar no silêncio?

Descanso, paz. E liberdade de pensamento. Organiza-me, recompõe-me. Às vezes o mundo encaminha-nos para um viver porque sim, para uma rotina, uma mecanização de gestos, de atitudes. É importante parar e reconhecer o que se conquistou, interrogar a origem dessa vitória. É bom reconhecer as pessoas que estão à nossa volta e que trabalham connosco, dar-lhes esse brilho, iluminá-las com o nosso sucesso.

 

Não quis viver porque sim. Por isso foi fazer uma viagem ao mundo para se encontrar. Foi depois desse ano de procura que decidiu que a sua vida ia ser a cantar.

Senti que era uma pessoa independente no canto. Isso deu-me muita alegria, muita força. Só na felicidade é que posso transbordar. O meu trabalho é dar o meu melhor.

 

Caetano Veloso usou uma expressão belíssima para falar de si: breve milagre.

Contaram-me: “O Caetano diz que chorou ao ouvir-te cantar”. Eu respondi: “Mas a culpa não foi minha”. Grata fico por ele se ter exposto e partilhado isso. Mas ele é que se emocionou, foi o mundo dele.

 

É uma pessoa religiosa. Que imagem lhe ocorre para “breve milagre”?

Gosto muito do desconhecido e de pessoas anónimas. Há um breve milagre em sorrisos desconhecidos, pessoas que se ajudam. (É um bocado piroso, esta coisa do sorriso que muda o nosso dia... Mas sou tocada por sorrisos na rua que mudam o meu dia.) Se calhar por ter viajado um ano sozinha, comecei a dar imenso valor a esses breves milagres. Muitas vezes ressuscitavam-me da solidão.

 

No fundo, o milagre é o do encontro.

É, são sempre encontros.

 

Ocorreu-me aquele encontro com o Chico Buarque, no concerto de angariação de fundos para a Escola de Samba da Mangueira...

Também foi um breve milagre, cantar com o Chico [riso]. O Carnaval move famílias e move corações. Assim como para mim é vital cantar, para outros é vital aquele acontecimento anual. Fá-los ter razão para viver todos os dias. O facto de ser levada pelo Chico para aquele concerto: houve um carinho maior no modo como me receberam. Este ano [2015] vou voltar, convidaram-me outra vez.

 

Que músicas é que cantou?

Cantei o Carolina. O Sabiá. Cantei As Pastorinhas [canta].

 

Dá uns ares de Elizeth Cardoso, a cantar As Pastorinhas. Elizeth era uma diva. Uma espécie de Amália brasileira, pelo génio, brilho, popularidade.

Toda a gente sabia aquela música. Foi arrepiante. Cada vez sei mais sobre música brasileira, porque o Milton [Nascimento], o Chico, vão-me mostrando. E faço muitas perguntas. Contam-me as histórias que viveram com os próprios [autores e intérpretes originais].

Aquela música foi-me apresentada uns meses antes. A versão da Elizeth Cardoso é de ir às lágrimas. Entro num palco e estou a cantar uma canção que aprendi há pouco tempo. Não fazia ideia de como é que o público ia reagir. E de repente calo-me e toda a gente canta. É como se estivesse a cantar a Casa Portuguesa!

 

Cantou alguma música portuguesa?

Cantei a Marcha de Alfama acompanhada pela bateria da Escola de Samba. Transformaram aquilo num frevo. Foi também uma forma de dar um bocadinho da minha cultura.

 

Que importância é que isso tem para si?

É importantíssimo. Apesar de ter o privilégio de me entrosar com esses artistas, de aprender com eles, quero mostrar a minha identidade. Não quero deixar de transparecer a importância que o fado e a música popular portuguesa têm para mim.

 

Hoje estive a ouvir o seu disco em repeat. É uma experiência diferente de ouvir músicas avulsamente. Há contribuições de músicos brasileiros (de Caetano a Marisa Monte), e não só; mas aquilo continua a soar Carminho. Como é que consegue que soe Carminho, ou seja, fado? É a sua maneira de cantar?

É a minha maneira de cantar. Estando tão envolvida com estas personagens, que passaram a ser pessoas reais (abrem-me as portas de suas casa, cantando), percebi que têm uma identidade e que não abdicam dela. E fazem-me constantemente olhar para mim, de longe, e pensar assim: “De onde é que venho, mesmo?”. Percebi que não vim só do fado. Venho da música popular portuguesa.

 

Explique isso.

Venho de muitos anos a viver no Algarve, onde me batiam à porta para cantar as Janeiras. Eu ia cantar os Reis. Era muito pequenina e aquilo era assustador e mágico. Com frio, com lanternas. Cantávamos. Acendiam-se as luzes, abriam-se as portas, tinham um banquete para nos oferecer. Os meus primos saíam sempre com os bolsos cheios de camarões [risos]. Uma vergonha. A minha avó ficava furiosa porque aparecíamos com bolos inteiros. “Aquilo é só para petiscar”, dizia ela. (Resolvemos importar o Halloween. Temos tantas tradições similares que podem dar o mesmo prazer às crianças. Não é preciso mascararmo-nos de abóbora.) A vivência destas tradições aumentou o meu imaginário de uma forma incalculável.

 

Como era a sua voz quando era criança?

Não sei. Há uma gravação aí com 12 anos. Sempre fui muito afinadinha, dizem os meus pais.

 

Nessa gravação dos 12 anos, que está no Youtube, usa um vestidinho branco, muito querida e infantil.

A minha mãe não me deixou ir em devaneios de criança de 12 anos que acha que já não é criança. Chorei baba e ranho durante o ensaio de som. Vi que todas as outras meninas iam de saltos altos e alcinhas. Eu tinha que ir de bolo-rei! Com a fava!, porque as minhas sabrinas eram dois números abaixo. E não tinha brinde.

 

Quando olha para aquela gravação, o que é que ouve?

Tenho imenso orgulho. Ali começou uma coisa muito importante da minha vida.

 

Cantar perante uma plateia.

Sim. As pessoas que conheciam os meus pais (e em especial a minha mãe [Teresa Siqueira], que canta, que tinha uma casa de fados), perceberam que eu cantava. Passei a ser uma mascote: “Tens que trazer a tua filha”. Para cantar nos jantares de beneficência, numa noite de fados, ao fim-de-semana. Adorava viver de noite. Pedia sempre para ir para o restaurante da minha mãe, o Embuçado. Acabava por adormecer nos bancos. Jantava na cozinha, os empregados enchiam-me de mimos, bolos de chocolate e morango.

As viagens de carro: a minha mãe resolvia que o canto evitava discussões. Não andávamos à estalada, os meus irmãos e eu, por causa disso. Organizávamo-nos por vozes. Cantávamos fado, o cancioneiro popular, Fausto, Vitorino.

 

Uma família tradicional a cantar esses esquerdalhos.

Não é maravilhoso? Às vezes nem sabíamos o que é que estávamos a dizer [risos]. Esse imaginário, ficou.

O Diogo Clemente (o produtor [e marido]), conseguiu transpor esta genética, que é a minha, para o disco. Há um lado meu que é português e é muito forte. Comecei a conhecer os adufes, os cavaquinhos, que são tão característicos. O Júlio Pereira fez um trabalho extraordinário com o cavaquinho. Recuperar é não deixar morrer. Não numa perspectiva de condescendência, mas numa perspectiva de identidade. Eu sou isto.

 

E a sua têmpera, como era?

Eu não tinha personalidade suficiente para assumir com toda a minha força que gostava de fado. E escondia. Ficava com vergonha, pensava que estavam a gozar comigo. Havia um mar de emoções que me moldavam.

 

Quando tinha 12 anos, o fado não estava na moda. Hoje parece muito fácil.

Hoje parece tudo facílimo. Na altura, ninguém era fadista. Cantava fado apenas nos meios do fado.

 

Como é que se canta, ou cantava, fado nos meios do fado? O que é que pode fazer numa casa de fados que não se pode fazer em cima de um palco?

Nada. Às vezes é abordar temas que não fazem parte do meu reportório e que me apetece cantar. Mas em termos de canto, não. Canto como sou, seja aqui, na Mesa de Frades, em cima do palco. E como estou.

 

“Como estou”?

Sim, porque estou sempre diferente. Tem a ver com uma consciência maior da beleza das coisas, com o que cada palavra significa. Um poema tem uma energia, cada palavra tem uma energia. Não é mecânico, não é igual, é inspirado em alguma coisa, em alguém, em nós próprios, no como estamos. Sobretudo, quanto menos penso no momento em que canto, quanto mais me entrego sem pensar, melhor canto.

 

Como se estivesse a sós consigo? Como se fosse uma espécie de oração?

Sim. Não canto – isto agora pode parecer um bocadinho duro – necessariamente para os outros. Canta-se para que os outros ouçam.

 

Então, se cantar em casa, para si…

É igual.

 

Nestes quatro anos, e de novo estamos no começo da entrevista, o que mudou substancialmente? Já era uma grande fadista, entretanto passou a ser uma grande artista.

Há outras coisas envolvidas, isso é verdade. E são tão importantes como uma boa interpretação. Saber o que é que se quer de um concerto. A maneira como nos mexemos. Não se pode ser alheio à nossa imagem. Não pensar: “Eu canto, o que interessa é cantar”.

 

A marca Carminho é forte. Só no Facebook tem 250 mil seguidores.

Um artista passa a ser possuidor desse valor de marca. Esse valor traz amor e traz responsabilidade. É nessa dança que se é um artista. Entreguei a minha vida ao canto e às pessoas. Isso traz-me peso. E traz-me muita alegria, muita realização. Eu não queria ser outra coisa. Penso: onde é que estaria se não cantasse?

 

Podia ser publicitária, tirou o curso de Marketing. Ou trabalhar numa empresa, no departamento de comunicação.

Que horror! Não me vejo e não me revejo. Não seria eu. Não sei o que é ser artista, confesso. Essa pergunta é traiçoeira. Põe-nos a falar de: “O que é que é ser eu?”. O que é que é ser Carminho? Não sei.

 

Então, como é que é a máquina Carminho? Tem uma empresa que trabalha consigo. Com quantas pessoas? Que participação é que tem nisso?

Trabalho com o João Pedro Ruela, que é o meu manager, e que tem uma agência de management e concertos. Construir esta marca tem muito a ver com o que sou como pessoa e como artista. “O que é que queres fazer?, quem és?, como estás?, o que é que sonhas?, o que é que queres dizer às pessoas?”. Depois é planear isso em termos objectivos e em conjunto. Por exemplo: vamos fazer um disco; quem é o produtor, quem são os autores, quais são as canções? Eu escolho o meu reportório.

 

Escolhe mais do que tudo sozinha ou com o Diogo Clemente?

Eu com o Diogo, neste caso. Tem-me ajudado nestes três discos porque fez sentido até agora. Não quer dizer que venha a fazer sentido a seguir. Não tem nada a ver com a relação pessoal que tenho com ele. Ou tem porque ele me conhece muito bem. Na verdade, o Diogo percebe muito de fado, gosta muito de fado. Percebe a minha forma de interpretar. Sabe traduzir aquela minha genética portuguesa.

Convidei artistas. Ao Javier Limón disse: “Tenho um poema musicado pelo Mário Pacheco, do Fernando Pessoa, que vai soar a português, mas gostava que trouxesses a tua característica”. E tornou-se um tema muito ibérico. É o Na Ribeira Deste Rio.

 

Estabeleci um paralelo entre o seu percurso e o da Marisa Monte. Ainda não tinha gravado um disco e já toda a gente sabia quem era a Carminho. A Marisa Monte começou por gravar um disco ao vivo, uma coisa inédita no Brasil. As duas são muito cuidadosas na gestão da carreira. E não tiveram de fazer aquelas coisas aos trambolhões, com muitos erros, que muitas cantoras têm de fazer.

Por imaturidade, às vezes. Por começo. As pessoas não têm que saber tudo ao princípio. Se calhar, o que ajudou foi ter tido consciência do perigo que seria entregar-me sem conteúdo.

 

O que é que quer dizer “sem conteúdo”?

Entregar-me a esta vida sem ter muito para dar. Isto é uma vida de dádiva artística, de energia, de alma. Por isso é que quando uma pessoa fica alienada começa a ficar vazia e começa a ser difícil dar alguma coisa. Nunca posso deixar a minha alma fixar-se e acomodar-se.

Tive propostas para gravar quando estava na Mesa de Frades. E disse que queria fazer uma volta ao mundo de um ano. Até usaram aquela expressão: “A vida é um comboio, só passa duas vezes, à segunda já vai cheio”. Como quem diz: “Aproveita já”. Muitas vezes cai-se nessa tentação. E eu, por iluminação do espírito ou por intuição, recusei. É uma certeza que tenho: devo sempre seguir a minha intuição.

 

Como quem escuta e obedece a uma voz íntima?

É uma voz muito presente em mim. Ela é que escolhe o que é que se vai fazendo. Ela, e depois a equipa que está à volta. Escolhi três ou quatro pessoas para me criticarem.

 

Escolheu-as como?

Umas por gostarem muito de mim, incondicionalmente. A minha mãe, o Diogo. Não há nada que elas digam que seja para mim um mal. Outras, porque percebem como é que são os ouvidos do mundo. Como é que vão ouvir a mensagem.

Às vezes é muito duro. Não acertamos sempre. É chato.

 

Uma perfeccionista.

Não gosto nada de falhar. E fico muito chateada comigo porque o meu falhanço pode implicar que outros falhem.

 

A sua vida é como?, concertos, ensaios, viagens? No espaço de uma semana vai a vários países, cruza Portugal de norte a sul. Há uma primeira fase em que é glamoroso, depois passa a ser cansativo. Como é que arranja energia?

Tem que se procurar a energia nas pessoas, nas equipas. Depende imenso dos músicos, da energia que me dão, do companheirismo. Sou a única mulher na estrada, a menina.

 

Dizem palavrões à sua frente?

Não. Dizem muito poucos. Às vezes sou eu que digo [risos]. Mas não digo muitos. Tratam-me sempre com muito cuidado. Eu preciso de descanso, eles são mais resistentes. Acabo por ficar mais sozinha. Tenho lido imenso. Tenho rezado.

 

Como é que reza? Reza o terço ou reza pensando?

Converso. Mas são conversas de longas horas.

 

Quem é o seu interlocutor? Maria, Jesus? Tem um santo de devoção, uma figura religiosa a quem se dirige?

Vai variando consoante o propósito.

 

Sabe que há uma Santa Rita dos Impossíveis?

Também há o São Judas Tadeu, das causas impossíveis. Os santos são todos um bocadinho de causas impossíveis. A fé transpõe montanhas. Quando uma pessoa acredita… Tenho fé nas pessoas. Deus está nas pessoas e em nunca desistirmos de nós próprios.

 

O que é que tem que fazer para aguentar as tournées? Na prática, como é que se passa?

É muito exigente. É ser um atleta de alta competição. Tenho que dormir muito bem. Tenho que comer bem. Passo a vida a dizer: “E se fôssemos ali a um vegetariano?”. Janto sempre depois do concerto, nunca antes, e faço questão que jantemos todos juntos. O ar condicionado mata a agilidade vocal. Bebo água, muita água. Muito soro fisiológico. Mezinhas, chá e mel. Tento falar pouco, não cansar a voz. A minha estrutura: tenho um técnico de luz, um técnico de som. O de luz é o meu road manager e trata de toda a parte de marcações, check in, check out, viagens. Desaparece uma mala, e eu estou noutra.

 

Continua a falar como a menina que vivia em casa dos pais, a do primeiro encontro...

Percebo o que diz e fico feliz. Sinto que há o perigo de perder esta alegria de viver. Este breve milagre de gozar os pequenos momentos da vida. Isso não pode acontecer comigo. Isso apaga-me. E se me apagar, deixo de fazer sentido.

 

O disco chama-se “Canto”. Pensemos num canto biográfico. Quais são os fados que melhor dizem quem é?

“Escrevi teu nome no vento”, que a minha mãe cantava. Tornou-se um fado meu. “Disse-te Adeus”, uma letra da Manuela de Freitas que coloquei num fado de Raul Pinto. A Folha, que foi uma letra que fiz. (Os fados, todos os que escolho para cantar, são referentes a momentos e a lugares diferentes de mim. Preciso de ouvi-los todos. Assim como preciso de ouvir marchas populares, porque acho que aquela alegria, aquelas cores dizem muito sobre mim, sobre Portugal.) Também o Voltaste, da Beatriz da Conceição.

 

Aponta sempre Beatriz da Conceição como uma influência enorme.

A Beatriz é uma força que me faz transpor montanhas. Quando preciso de passar um desafio muito grande, num canto, numa gravação, quando estou perante uma situação derradeira, ela vem-me à cabeça.

 

Que fado cantaria para ela?

Cartar-lhe-ia A Folha, alguma coisa que eu fiz. É uma pessoa muito exigente, muito crítica, mas muito valente. Não suporta o acomodamento, o fraco. Disse coisas sobre a minha forma de cantar. É um património único, porque ela quase não criticava ninguém.

 

Por exemplo.

Eu cantava o António Baptista, a história de um contrabandista. O fado tem uma parte que diz [canta]: “Ai, valha-me Deus”. E eu só cantava, não dizia nada. E ela: “Não vês que ele está a dizer valha-me Deus? Não podes dizer ‘Deus’ como dizes pedregulho, mulher!”!

 

Estava a ensiná-la a interpretar, a sentir as palavras.

Quando são coisas muito importantes, lembro-me do exacto momento em que as aprendi. Ora, aprendi a cantar as palavras naquele dia, àquela hora, com a Tia Bia. Aquele foi o primeiro momento de consciência da poesia, da importância da palavra. Quando comecei a ouvir a Beatriz, perguntei à minha mãe, com muito medo: “Ó, mãe, será que faz mal eu não gostar da Beatriz?”. Toda a gente a tinha como o ex-libris – e é.

 

Consegue perceber porque é que não gostou?

Aquilo agrediu-me, entrou por mim adentro com uma força de que não gostei. A minha mãe riu-se: “Já, já vai gostar, não se preocupe” [risos]. Era uma miúda, como é que ia conseguir descodificar tudo aquilo? Ainda hoje não consigo. Em pouco tempo comecei a apaixonar-me perdidamente por ela. E hoje é a minha grande referência, a seguir à minha mãe. A minha mãe é minha mãe.

 

Apanhou uma vida fadista na Beatriz da Conceição, noutras figuras de referência que passaram pela cada de fados da sua mãe. Essa substância é diferente de cantar, simplesmente cantar.

É. Cresci aí. Fez-me ter respeito pelos mais velhos. Cantar bem e ter uma grande voz, pode ser muita coisa – e pode não ser nada. E geralmente não é nada quando as pessoas não olham para o outro. Aprendi a ter os pés na terra. Tudo pode mudar. Já vi tantas pessoas que vendiam tanto, que faziam tantos concertos, e de repente as suas marcas desapareceram. Nada é garantido. É preciso ser-se coerente. Esse é o maior desafio, é o meu maior desafio. Tem que se ir contra a expectativa de outros, dizer que não a coisas que parecem tentadoras.

 

Já está rica?

Não [risos].

 

Falou de coisas tentadoras e pensei: “Ofereceram-lhe um anúncio publicitário de milhões”.

Recusei uma publicidade. Não estou a evidenciar o recusar uma publicidade, mas o preservar uma imagem, um valor que é maior. A minha avó dizia: “O que interessa não é perguntar: ‘Qual é o mal?’, quando fazes alguma coisa. O importante é perguntares: ‘Qual é o bem?’”. Muda a perspectiva.

  

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014

 

David Ferreira (2003)

11.03.15

Andou no Liceu Francês três anos, e não gostou. As melhores recordações de ensino pertencem ao Liceu Camões, que frequentou entre os 10 e os 17 anos, e onde teve como professores Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Marina Pestana. Um luxo, diz ele. Do pai, o poeta David Mourão Ferreira, herdou uma relação íntima com as palavras. Um luxo superlativo. A mãe levava para casa os singles editados pela companhia da família, a Valentim de Carvalho; esses e outros. Deste cruzamento, resultou uma convivência com Amália Rodrigues, com Natália Correia. Com gente que importa e que deixa marca. Envolveu-se em política, estudou História. Acabou por tomar em mãos o negócio da música. Começou por baixo, a vender discos atrás de um balcão. Hoje é o patrão da EMI-Valentim de Carvalho em Portugal; queixa-se que passa muito tempo a comunicar com Londres, enredado em mails e telefonemas. Mas inventa tempo para andar de bicicleta na hora do almoço.

David Ferreira tem 48 anos, é casado e tem quatro filhos. Trabalha virado para o Tejo, em frente ao Oceanário.  

 

 

No escritório do Restelo tinha emoldurado um poema do seu pai, «A Casa». Trouxe-o para aqui?

O meu gabinete tem só caixotes! Estamos aqui há 15 meses. Era um cartaz de uma acção da Câmara Municipal de Lisboa, «A poesia está na rua». É um poema de que gosto muito.

 

Sabe-o de cor?

«Tentei fugir da mancha mais escura que existe no teu corpo e não consegui/ era pior que a morte que antevi...». É assim, não é?

 

O que é que lhe fica desse poema?

Não estava nada à espera disto... [Silêncio] O mais estritamente visual, a pulsão erótica. Uma extrema atenção ao lado físico da relação amorosa, um lado físico que se transcende; a partir de uma fascinação ou prisão entre duas pessoas, já estamos a falar de outras coisas. Irrito-me quando oiço apressadamente chamar ao meu pai o poeta do amor. Não é que não o seja, mas as obras têm várias camadas. É impressionante a quantidade de poemas que são sobre a morte.

 

A morte como a outra face do amor?

Ou como um pano de fundo que irrompe.

 

E daí a urgência do amor.

E uma necessidade de transcender as limitações físicas. Na maior parte dos casos, na descrição das relações eróticas, ou há um pudor ou há uma opção entre o espírito e o físico, que nesse poema não há. Num outro poema, o meu pai pergunta: "Por que há-de sob a pele o sangue amotinar-se quando apenas a pele havemos convocado?".

 

Essa amotinação significa sair da casa, sair dos limites?

O meu pai era um poeta com uma grande presença da cultura clássica; a dicotomia equilíbrio-desequilíbrio era um tema recorrente. Há uma enorme necessidade de equilíbrio e a noção da inevitabilidade do desequilíbrio. Há um poema cuja ideia é esta: temos 5 sentidos com 5 asas, como poderemos desejar o equilíbrio? Ao mesmo tempo, há um equilíbrio formal incrível. Um domínio extraordinário da língua, de todo o arsenal de recursos técnicos. Um permanente jogo do todo e da parte. A mancha não é a mancha, é tudo mais. A mancha já é a mulher, a mulher já é a morte.

 

Essa iniciativa da câmara assinalava os 25 anos do 25 de Abril.

Voltamos ao facto de termos várias camadas. Quando me pediram autorização para publicar o poema, o que me ocorreu foi: tenho o meu pai na parede e tenho o 25 de Abril.

 

O pai e a libertação, é isso?

Nem é a libertação, é o 25 de Abril! Andei na rua com bandeiras no primeiro 1º de Maio. No dia 26 de Abril de 74 belisquei-me para ter a certeza de que não era um sonho. Gosto de tomar partido. Há uma parte assustadora da população que em 75 tinha medo de passar por anti-comunista primário e agora tem medo de passar por anti-americano primário. Os medrosos é que são primários. Quem é a favor e quem é contra ajuda ao esclarecimento das coisas.

 

Como era a sua vida há 30 anos?

Namorava, sobretudo. Era a minha ocupação maior.

 

Era já com a Margarida [Mercês de Mello]?

Não, não. A Margarida era casada e não nos conhecíamos. Tinha 19 anos e estava em História; tive um desgosto de amor e passei uma noite a ler «A Capital» do Eça de Queirós em vez de estudar para os exames de Setembro. Passei o ano lectivo de 73-74 em férias sabáticas. Arranjei uma namorada em Fevereiro ou Março. Portanto, no 25 de Abril namorava. Em 74-75 fiz sobretudo política. Era um militante do PS, cheguei a fazer segurança no comício da Fonte Luminosa...

 

Segurança?

Sim, era preciso. Falei em sessões de esclarecimento, guardei quartéis, dei o nome para receber treino militar, se fosse preciso, em Setembro ou Outubro de 75.

 

Os seus pais separaram-se quando tinha 13 anos e ficou a viver com a sua mãe. Que tipo de relação mantinha com o seu pai?

Não falávamos todos os dias, mas havia uma grande camaradagem. Tinha na casa do meu pai um estatuto que era meio de filho, meio de visita. O que não é inteiramente mau. Significava que a partir dos 13 anos estava nas conversas dos adultos. Ouvia as anedotas picantes dos adultos, ouvia as discussões políticas dos adultos... Lembro-me de estar à conversa com os amigos do meu pai desde muito cedo, com escritores, com a Natália Correia, por exemplo.

 

Como era a sua casa, como eram os diferentes espaços que habitava? Onde quero chegar é ao sentimento de estar em casa, e de estar em paz.

Várias casas, sim. A casa dos meus avós. O pai do meu pai era republicano e tinha muitos livros. Chegou a ser agente de ligação do Afonso Costa, fazia parte do Grupo da Biblioteca. Participou na primeira tentativa revolucionária contra o Estado Novo, em 1927, e, para não ser preso, teve de andar escondido. O meu pai nasceu prematuro.

 

Na casa do seu avô, a memória é a dos livros.

Havia duas zonas da casa: a zona do meu avô, que eram os livros, e a zona da minha avó, que era o chá, com lanches fantásticos. A casa dos meus pais, que depois passou a ser a casa da minha mãe, era uma casa com muitos livros e muitos discos. E era uma casa grande onde eu e a minha irmã nos movíamos completamente à vontade.

 

Os discos eram a parte da sua mãe, cujo apelido é Valentim de Carvalho. Havia também nessa casa uma demarcação clara dos universos?

A zona do escritório e dos livros, até se separarem, era claramente do meu pai. Aliás, havia um odor...

 

Do cachimbo do seu pai?

Sim. Ainda hoje, se entrar num sítio qualquer e alguém fumar cachimbo, penso automaticamente no meu pai.

 

Os discos aparecem por via da sua mãe. Em casa, os singles eram à borla.

A minha mãe levava à borla os da casa [editados pela Valentim de Carvalho], mas havia muitos outros que comprava. Muitos franceses. Aznavour, Bécaud, também o Brel, o Léo Ferré. Eu gosto muito da energia do Chevalier. Tinha muito talento, mas não era grande rês. Foi bastante acomodatício com os alemães durante a ocupação e os franceses não lhe perdoam.

 

O que é queria ser na vida?

Quis ser cowboy. Depois quis ser artista; cantor. Mas não canto nada, tenho uma voz horrível. Tentei aprender a tocar piano, mas a professora teve um ataque de riso e disse que nunca tinha visto ninguém com tão pouca vocação. Também pensei em fazer carreira política; não quer dizer que goste da maioria dos políticos, mas gosto de política. E queria trabalhar numa editora de discos. Aos 16, 17 anos ameacei o meu tio: se não me desse trabalho, ia para a concorrência.

 

O seu tio Rui?

Rui Valentim de Carvalho. Irmão da minha mãe e sobrinho do Valentim de Carvalho fundador.

 

Ele tinha uma relação muito próxima com a Amália e foi o grande responsável pela vinculação da Amália à Valentim de Carvalho.

Exactamente. O negócio tinha uma série de aspectos fascinantes, românticos. Os discos, espectáculos de vez em quando. Muitas vezes tem-se uma fascinação pelo território dos pais e, de facto, este negócio não é inteiramente mau, há coisas bastante piores... Estamos a trabalhar com músicas de que gostamos, estamos a contribuir para o sucesso de pessoas de quem gostamos. Quando sabe bem, sabe mesmo bem. Mas hoje em dia, sobretudo nas multinacionais, gasta-se um tempo disparatado a comunicar com a sede.

 

Gostou particularmente de vender discos, de aprender as minudências do negócio. Mas sabia que o seu futuro não seria passar oito horas atrás de um balcão.

Nunca faço isso, em nada. Ou estou, ou não estou. Não tenho essa atitude de estar de passagem, embora tenha a noção que tudo é de passagem. É capaz de ter a ver com as peças do Sartre que li aos 18 anos: em relação a determinadas coisas não se é, está-se. Não se é director de uma editora. Está-se director de uma editora.

 

Mas então é-se o quê? Refiro-me à noção de compromisso para a vida toda.

O nosso compromisso é em relação as pessoas de quem gostamos e às ideias em que acreditamos. Tive do lado do meu pai e do meu avô uma formação humanista e republicana muito forte, de esquerda, no sentido de que se deve reduzir os privilégios e aumentar as oportunidades para o maior número de pessoas. Isto, apanhei-o aos 12, 13 anos, e não mudei.


E do lado da sua mãe, qual era a inspiração?

Embora não houvesse o republicanismo encarniçado que o meu avô paterno tinha, também havia uma tradição liberal. O Valentim de Carvalho foi um homem que gravou a obra do Lopes Graça. Um editor que se preze tem que ser no sentido político um liberal. Um editor é uma pessoa que só faz sentido se viabiliza a afirmação de expressões artísticas diferentes, de pontos de vista diferentes. A edição, seja a livreira, seja a discográfica, são vitais para o exercício da liberdade. Portanto, do lado da minha mãe, havia a mesma abertura. Não tinha nada na minha família a puxar-me nem para o autoritarismo do regime, nem para a direita.

 

Mas para as artes...

Por todos os lados.

 

Ok, vendia discos na loja Valentim de Carvalho da Avenida de Roma. E depois?

Ouvia o máximo de música possível. Considerava fundamental a música que se punha na loja. Quer para atrair pessoas lá para dentro, quer para revelar coisas a quem estava lá dentro. Ficava todo contente quando alguém me vinha perguntar: «O que é que está a tocar?». E, se tivesse tempo, mudava música a música. Estávamos na altura do vinil. Falava com as pessoas, tentava ajudá-las a encontrar o que queriam, mas também ficava interessado no que me diziam. Passados quase seis anos, ouvia muito jazz, comprava música árabe... O meu universo cresceu. E isso é muito bom.

 

Estudava ao mesmo tempo? Que dimensão tinha aquilo?

Comecei a trabalhar duas horas, depois passei para quatro e quando acabei estava a trabalhar 12 ou 14 horas por dia. Já não estudava, já não namorava, já não fazia política. Continuava a viver em casa da minha mãe.

 

Insisto no projecto de vida. Nenhum filho de boas famílias considera estar atrás de um balcão como modo de vida.

Para todos os efeitos, eu era um privilegiado. A minha mãe era sócia de uma empresa de alguma notoriedade, isso tornava-me menos preocupado com as questões financeiras. Tenho uma relação adolescente com o dinheiro. Ainda hoje, volta e meia, tenho a conta careca.

 

A sério?!

A sério. Gosto do conforto, mas não invisto, não aplico, não sei.

 

Significa que não sabe a quantas anda?

- Financeiramente? Sei quando ponho o cartão na máquina para tirar dinheiro. Não sou nada de amealhar. Resquícios de ser um menino rico... E também uma coisa geracional.

 

E essa confiança de menino rico, tinha-a? Se acontecer alguma coisa, a mãe ajuda.

Embirrava com os meninos ricos. Ainda embirro. Quando os meus filhos são complacentes em determinadas coisas, zango-me e digo: «Não te armes em menino rico». A minha estrutura mental é muito mais de classe média. Sou pessoa para ficar irritada perante certos sotaques reveladores de uma determinada origem social ou de uma pretensa origem social. Essa coisa de falar à queque deixa-me nervoso, como me deixa nervoso a coisa de as pessoas se reconhecerem umas às outras em função dos apelidos. Por exemplo, uma expressão que sou incapaz de utilizar é «novo rico». Porque faz presumir que os velhos ricos são melhores que os novos. Não estou seguro que seja assim. O que quero dizer é: a nível consciente nunca pensei que alguém me poria a mão por baixo. Acho que se as pessoas tiverem valor intelectual, viram-se.

 

Tem confiança em si?

A esse nível, tenho. Há pouco dizia que tudo me puxava para as artes. Um artista não deixa de ser um trabalhador liberal. Tenho a noção de que se fizer aquilo que faço bem feito, hei-de arranjar saída.

 

O que é que significa ser um dos 200 homens mais influentes do país, (índice da revista «Visão»)?

[gargalhada]

 

O que é que significa ser presidente da companhia e estar aqui?

A palavra poder tem duas leituras. Uma é o substantivo, que tem muitas vezes uma leitura desagradável, mais usado para impedir do que para viabilizar, usado como lápis de censura, exercício vazio de autoridade, jogos de poder. Depois há o verbo, que é muito simpático. Poder é bom, não é? É bom poder fazer, apostar numa música completamente inesperada, ajudar as pessoas a compreender um artista, ajudar uma obra a chegar às pessoas. Como é bom poder andar de bicicleta, que é uma das coisas de que mais gosto!

 

Passa do exercício do poder para o andar de bicicleta!

Dia sim, dia não, monto a bicicleta e vou almoçar. Levo num bolso o telemóvel, noutro um livro e um bloco de notas. Às vezes vejo aqueles tipos muito importantes, de fato escuro, aquelas procissões de galos a que se assiste nos restaurantes, e apanho os olhares irónicos...

 

Pelo facto de aparecer de bicicleta?

Posso ir de jeans ou de fato e gravata. A visão que muitas pessoas têm do que é o poder, levá-las-ia a sobrevalorizar os símbolos convencionais de poder.

 

Seria mais previsível chegar com um carro potente, ou mesmo com chauffer.

Além da riqueza, são todas as convenções. Ocorreu-me a bicicleta, porque quando a desmonto, penso sempre: «Bestial!, posso andar de bicicleta. Posso trabalhar numa coisa onde não me impedem de ter um bocadinho de pancada se me apetecer ter um bocadinho de pancada, e de fazer uma coisa que me dá prazer». Tenho ali três sacos com discos para ouvir; ter discos de borla, bestial. Poder andar de bicicleta, bestial.

 

O exercício do poder permite dizer sim e não. Basicamente é isso: faz-se ou não se faz.

Tenho obrigação de dizer que não a uma coisa que me pareça financeiramente desastrada ou até artisticamente desastrada. É muito fácil dizer que sim e depois dizer que o escritório de Londres mandou despedir não sei quantos artistas... Se uma coisa não faz sentido, se é um desperdício... Por exemplo, discuti longamente com o Sérgio [Godinho] a embalagem deste disco, «O Irmão do Meio». O Sérgio tinha razão quando defendia que devia ser uma embalagem especial, bonita. Eu insisti em não meter as letras. Se as pusesse, não ia acrescentar um grande valor para o consumidor, que já conhece estas canções, e ia perder margem para o marketing. Aí, tenho obrigação de dizer que não.

 

Continua a ouvir o material que chega em bruto? Imagino que lhe façam uma triagem.

O meu forte não é A/R. O Paulo [Junqueiro] é um bom A/R, o Chico [Francisco Vasconcelos] é que era o A/R quando cá estava.

 

A/R quer dizer Artistas e Repertório. Como é que definiria este lugar, que é tão importante numa companhia?

Descobre os artistas, discute o repertório... O A/R está mais ligado ao lado artístico. Não venho daí, venho da promoção. O A/R sabe ouvir maquetes, sabe ouvir o que está em bruto. É um bocadinho como uma equipa de futebol: há os que jogam mais atrás, a preparar o jogo, há do meio campo, que distribuem o jogo, e os que marcam os golos, os vendedores, os promotores. Eu jogo a meio campo.

 

Então não é o treinador?

Sou as duas coisas... Às vezes não resisto a jogar!

 

É muito centralizador, não é?

Às vezes. Tenho alguma familiaridade com as várias áreas _ o que é importante quando se dirige uma empresa. Normalmente percebo antes dos sectores mais agressivos da empresa (promoção e venda), mas depois dos sectores artísticos. E não consigo quase nunca ouvir uma música cá de casa sem pensar como é que a vou vender.

 

O que é que significa exactamente EMI-Valentim de Carvalho? A Valentim de Carvalho era a editora dos grandes nomes da música portuguesa. A associação à internacional EMI representou uma anulação desta, ou não?

Valentim é uma empresa, EMI é outra. Em 1983 fizeram uma empresa conjunta chamada EMI-Valentim de Carvalho. Em 94 o Valentim vendeu as suas quotas à EMI, mas a EMI decidiu manter o nome EMI-Valentim de Carvalho. Esta empresa é 100% EMI, mas temos uma mentalidade EMI-Valentim de Carvalho. Somos muito diferentes de uma filial normal na EMI. O Chico dizia-me: «Isso é uma abstracção, só existe na tua cabeça». Se calhar. Mas as empresas são sempre abstracções. É sempre um enredo, e o enredo apenas faz sentido enquanto tiver actores e público para ele.

 

Em todo o caso, a designação Valentim de Carvalho aponta para a sua família. Não sente que isto é seu?

Dizem-me: «Isto é teu, aquilo não é teu»... A propriedade é uma coisa super-fluída. A única coisa que verdadeiramente temos são as nossas ideias e convicções. As empresas hoje têm um patrão, amanhã têm outro. Posso amanhã chegar aqui e a EMI ter comprado outra empresa ou ter sido vendida a outra empresa. Não é nada que assuste.

 

Como é que se constroem os sucessos? Peguemos no exemplo da Norah Jones, cujo cartaz tem colado na parede. Quanto a mim, o disco é competente, mas bastante anódino. A ausência de uma personalidade vincada fez-me estranhar o sucesso no mundo todo. O marketing operou especialmente bem?

Há sempre três coisas a considerar. A qualidade intrínseca das coisas. A campanha que se possa fazer. Os dois agem sobre um sobre o outro como um multiplicador. Quem diz: isto é tudo uma questão de marketing, está completamente enganado; 100 vezes 0, continua a ser 0. Agora, se tivermos um repertório com potencial, se lhe juntarmos uma divulgação bem feita, pode obter um excelente resultado. Nunca se esqueça do terceiro factor, a que costumo chamar a conjugação dos astros. Há alturas em que o espaço não está lá, alguém o ocupou. Lembro-me de um disco que achávamos que ia ser um grande sucesso e que foi atropelado pelo [Pedro] Abrunhosa, que submergiu toda a gente.

 

Esta pergunta já lhe foi feita mil vezes: porque é que a música portuguesa raramente vinga lá fora?

Primeira questão: somos periféricos. Numa cultura dominada pela língua inglesa, os sucessos que vêm da periferia são excepção. Segundo ponto: ainda temos raízes mais profundas que os escandinavos; os escandinavos mais depressa cantam em inglês sem soar a postiço. Das duas uma: ou temos coisas em inglês _ e na minha opinião, salvo raríssimas excepções, é tudo sub-produto; e se é sub-produto, para que é que o querem lá fora?; ou fazemos em português, e estamos a dirigir-nos a um público reduzido. Isto não quer dizer que não apareça um artista português a cantar em inglês e a debater-se com as mesmas armas. Com toda a franqueza, gosto do David Fonseca, tem uma voz muito bonita...

 

E é muito bonito. Porque é que ele não é uma star internacional? Esta combinação (ser muito bonito e cantar em inglês) pode dar frutos?

Não lhe sei dizer. Nunca trabalhei a música do David Fonseca para me pôr a questão. Como consumidor, comprei o primeiro disco dos Silence Four e achei lá coisas muito bonitas. Mas é uma raríssima excepção, há mais duas ou três.

 

O que quer dizer quando diz nas reuniões, mais ou menos irado, «Esta editora tem de ser exemplar, tudo nesta editora tem de funcionar de modo exemplar».

Quem é que lhe disse isso? Quem é a sua fonte? [risos]

 

Há um lado óbvio, que obriga as empresas a funcionarem bem. Mas a sua exigência requere mais do que isso. Remete para o brio.

É uma questão de brio, com certeza. Hum... «A gente não devia ter aprovado aquele vídeo. A gente não devia ter saído com o disco naquela altura. A gente não devia ter feito o spot assim». Com a melhor das intenções, cometem-se erros! Se não estivermos sempre com o objectivo dos 100%, é tão pior ainda... Brio, sim, claro. Brio. E serviço, também. Parto do princípio que a maioria dos artistas, quando nos dá uma canção, põe-se lá dentro. Não temos o direito de pegar na canção, andou, passa para outra.

 

Que temas ocupam as conversas com os seus filhos e amigos? Falam sobretudo de música, de política, de afectos?

Gosto de falar de música. Gosto de falar de futebol. Depende as pessoas e depende as horas.

 

Conversas íntimas, tem com várias pessoas?

Não. Isso não.

 

É muito reservado.

Sou? Nunca ninguém me tinha chamado reservado. Até sou bastante espalha brasas.

 

Vai delimitando o seu espaço.

Se calhar sou uma pessoa aberta, que não deixa de dizer «daqui não passas». Sou capaz de ser reservado, não sei... Quando tinha vinte e poucos anos, assim com os meus amigos, não tinha vergonha de me expôr, de falar nas namoradas que me deixavam cair... Eu acho que tenho relativo à vontade. As experiências que se vivem quando se é solteiro e se tem 20 anos não são as mesmas que se vivem aos 48. Tenho uma mulher bestial, com quatro filhos bestiais.

 

Introspecção é uma palavra que me lembra outra vez casa, o que se passa dentro de portas.

Mas olhe que «A Casa» do poema é uma casa que expõe imenso o locatário. Ou seja, a sua ideia de que a casa do poema é um refúgio, é um refúgio muito particular...

 

Ainda não me falou da casa onde hoje vive.

É muito desarrumada. Tem quilos de papel que não devia ter, revistas e jornais. Estão a faltar-me estantes para livros. Compro livros e discos demais para o tempo que tenho para os ler e ouvir. Mas tenho uma fascinação pelos objectos. Se entro numa discoteca ou numa livraria estou bem, sinto-me bem.

 

Sente-se em casa. Mas então qual é o seu refúgio? É Deus? Porque é católico, não é?

Sou um mau católico e seria pretensioso achar que era capaz de falar com Deus. Acho a figura do Jesus Cristo extraordinária. Acho o Cristianismo uma revolução radical em relação a tudo. Começa por que o povo escolhido são todos. E São José, que é uma figura em que as pessoas não pensam devidamente, o pai de Jesus, não é o pai natural. A cena do presépio leva-nos a crer que a família natural não é a família do sangue, é a família do coração. É uma lição de tolerância fantástica. Quando se vê o mundo dividido em fundamentalismos religiosos ou racismos de toda a espécie, aquela relação do São José com Jesus é a maior lição de tolerância.

 

O que é que significa para si ser pai? Dê-me um sinónimo de pai.

A primeira coisa que me vem à cabeça é a responsabilidade. Quando algum dos meus filhos passava pela fase de perguntar se há morte, incapaz de entender a morte ou a eternidade, sentia a grande responsabilidade de ter de os tranquilizar.

 

Para que é que serve a música? A sua vida, o seu trabalho, o grosso do seu tempo, é quase em função da música.

A obra de arte em geral oferece-nos pontos de equilíbrio, mesmo que sejam formas precárias de equilíbrio. Ordenam as nossas sensações no sentido mais lato, não apenas sensações físicas. Sensações, emoções caóticas. A obra de arte – podemos falar da pintura, da música, da literatura – dá-nos uma casa. Acabámos por dar a volta completa à conversa. Por outro lado, no caso da música popular, as canções vivem connosco, fazem-nos companhia.

 

É-se com elas, além de se estar com elas.

É. E quem gosta realmente de canções vive em permanente diálogo com elas. Com elas, com quem as escreveu. A música em geral e as canções em particular fornecem-nos uma forma superior de comunicação.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2003

 

Dulce Rocha

10.03.15

Crianças batidas, insultadas, maltratadas, negligenciadas, abusadas. Crianças mortas. Crianças que não tiveram tempo para ser crianças ou a quem não foi consentido que fossem crianças. Crianças em risco, rondados pelo perigo. Crianças para quem ser criança é um luxo, uma miragem.

Ouvimos os relatos na televisão, nos jornais, na vizinhança, e perguntamo-nos, incrédulos, como é possível?! E confortavelmente, logo a seguir, pensamos que este cenário é próprio de bairros putrefactos, de famílias carenciadas. Que isso não é nem se parece com a nossa vida. Não? Às vezes sim, às vezes não. O perigo, o horror, a monstruosidade convivem connosco, estão entre nós. Agora, trata-se de saber o que queremos fazer, o que podemos fazer com as nossas crianças.

Na conversa com Dulce Rocha, a presidente da Comissão Nacional de Protecção das Crianças e Jovens em Risco, levantámos questões que têm que ver com a compreensão dos factos, com a moldura jurídica que os envolve, com as mudanças que urge fazer. Porque, como diz a magistrada no final da entrevista, «as crianças exigiriam que tudo fosse muito mais rápido, que as aquisições fossem mais rápidas». 

 

Tem a convicção de que «a criança está melhor do lado do afecto». Pode explicar esta ideia?

Actualmente está reconhecido o direito da criança a ser amada. Na lei já se diz que está em perigo a criança a quem falta afecto. Mas esse direito tem que ser desenvolvido, porque a criança também tem direito a ver preservadas as suas relações afectivas profundas.

 

Quais são?

As relações que são para ela uma referência estruturante. Esse direito não está completamente consagrado. E portanto, vemos aquelas decisões gravíssimas, que consistem em entregar a criança aos pais biológicos, mesmo sabendo os decisores que ela viveu um longo período com outras pessoas que lhe dedicaram muito afecto. Essas decisões fazem com que concluamos que ainda não está desenvolvido esse direito. E a criança tem direito a ver mantidas essas relações afectivas, mesmo que não tenham sido proporcionadas por aqueles que a geraram.

 

Porque é que há uma prevalência dos laços do sangue, mesmo sabendo que aquilo que faz as crianças (e as pessoas!) felizes são as relações de afecto?

Tem a ver com uma tradição cultural que existe por toda a Europa, e sobretudo em Portugal. Lembre-se que não era reconhecido o direito de as crianças serem adoptadas! Só em 1966, com o novo Código Civil, é que foi permitida a adopção, e, mesmo assim, só para filhos de pais incógnitos ou falecidos – os chamados “meninos da roda”. As crianças maltratadas, abandonadas, sexualmente abusadas, mesmo que os pais tivessem sido inibidos do exercício do poder paternal, não podiam ser adoptadas.

 

A alteração deste quadro já se deu depois da revolução de Abril.

A Constituição de 76 veio dizer que não podia haver discriminação entre filhos nascidos dentro e fora do casamento, e com base nesse artigo desenvolveu-se o instituto da adopção. Nas últimas décadas assistimos a uma grande evolução. Mas ainda não há unanimidade relativamente a estas políticas. Os pais têm poderes que advêm do facto de terem dado à luz uma criança; mas esse poder, actualmente, entende-se que é um poder funcional.

 

É um poder/dever.

Os pais têm responsabilidades para com os filhos. Se não forem cumpridas, e se, pelo contrário, são violados os direitos das crianças, devem deixar de ter esse poder. A legitimidade do poder é porque prossegue um fim, e o fim é o interesse da criança. Esta construção sobre o abuso de poder é recente na ordem jurídica.

 

Como é que podemos perceber o abuso? Quando vêm a lume estes casos terríveis, perguntamos, perplexos, como é que é possível.

O ser humano é assim, capaz de fazer maravilhas e capaz de fazer atrocidades.

 

Estas pessoas são perversas, descontroladas, estão afectadas temporariamente, são inconscientes?

Pode ser tudo isso, mas a maior parte são pessoas que têm consciência do que estão a fazer. E são perversas e cruéis. A Dra. Teresa Ferreira [psicóloga], referindo-se aos pedófilos, achava que eram pessoas que não eram susceptíveis de ser influenciadas pela pena, porque não conseguiam arrepender-se. Em Portugal temos a ideia da regeneração, da re-socialização. Povos com tradições culturais como a nossa tendem a rejeitar a possibilidade de haver pessoas tão más.

 

Mas há uma coisa tremenda: estes monstros são pessoas como nós. As estatísticas mostram como estão disseminados no tecido social, como o abuso é transversal.

Somos obrigados a perceber que estes crimes horrendos existem mesmo. É por isso que digo que há ainda mitos no direito penal que nos impedem de criar um sistema que proteja efectivamente a criança.

 

Como o da lei do sangue.

Esse é um. Mas temos um outro: o prazo de prescrição dos crimes é igual quer a vítima seja um adulto, quer seja uma criança. No caso dos abusos sexuais, já percebemos que muitas crianças não são capazes de denunciar o crime. Algumas nunca revelarão. Outras revelarão, mais tarde, com ajuda, quando estiverem confiantes. E entretanto o crime já prescreveu. Temos de criar um sistema que permita a justiça reparadora.

 

Acompanha-nos a todos, e em especial às vítimas, uma noção de profunda injustiça. É isso que faz que, muitas vezes, pessoas se mobilizem e queiram fazer justiça pelas suas mãos? Quando se ouvem histórias como a da Joana, as pessoas dizem: “O que eu fazia àquela mãe e àquele tio”...

Pois, ouve-se, mas geralmente não se faz. Quando ouvimos essas declarações pergunto-me sempre: “Será que esta pessoa sabia alguma coisa e não denunciou?”. Temos o dever cívico de verberar contra a justiça popular. O que me parece é que há que tornar a lei mais razoável. Há que tempos que defendo que a prescrição só deve ocorrer após os dezoito anos. (Por exemplo, no Canadá é imprescritível). Mas também há a prescrição do direito de queixa, que só existe durante seis meses. Os crimes sexuais eram todos semi-públicos_ dependiam de queixa. Relativamente aos crimes praticados contra uma criança, era uma coisa vergonhosa! Porque a maioria são praticados pelos próprios pais! Ora, se os pais é que têm o poder de representar a criança, como é que a criança ficava?

 

Desde a explosão do processo Casa Pia, o pedófilo passou a ser “a figura monstruosa”. Mas mais de 70% dos crimes sexuais acontecem dentro de casa e têm as raparigas por vítimas...

O processo Casa Pia serviu para pôr em causa as instituições. Para vermos que há maus-tratos institucionais e que há um dever do Estado em acompanhar as crianças, principalmente depois de as institucionalizar. Os deveres do Estado não terminam com a aplicação da medida. É necessário fazer um trabalho com as instituições, no sentido de mudarem procedimentos.

 

É possível amar e por vezes maltratar? Estou a pensar nos maus-tratos ocasionais, nas situações em que a pessoa perde a cabeça e vai mais longe do que queria.

Há ainda uma cultura nesse sentido... Mas devia ser feita uma campanha muito forte no sentido de erradicar de vez a violência sobre as crianças. Até porque não conduz a nenhum dos objectivos a que o agressor se propõe.

 

A criança é o elo mais fraco, é por isso que é o alvo.

O agressor que ama não consegue maior obediência, não se consegue atenção. Se é por causa da criança estar desatenta na escola, já se viu que não é por aí que se consegue maior concentração. Consegue-se é humilhar, consegue-se que a criança fique com baixa auto-estima.

 

Acredita que alguma coisa vai mudar?

Acho que sim. Não pode ficar tudo igual porque a população faz muito mais pressão sobre as instituições. A Comissão Nacional existe desde 98, mas agora não é possível ignorar que ela existe.

 

Os direitos que assistem à criança, o modo como devemos tratar as crianças, o que é uma criança são conceitos em evolução?

Sim. Foi-se entendendo que a criança tinha determinados direitos, e isso são aquisições culturais históricas. O Supremo Tribunal Federal dos Estados Unidos considerou recentemente que não poderia ser aplicada a pena de morte a crianças_ era o único país que não reconhecia o direito ao erro e condenava crianças à morte. Mas, por outro lado, exige-se também mais das crianças.

 

Vivemos uma situação algo contraditória. Por um lado, as crianças são criadas num clima de hipervigilância e paranóia, como se fossem flores de estufa; e, por outro, assistimos à negligência absoluta e aos maus-tratos. Não existe um meio-termo?

Há essa ideia da superprotecção... Isso tem muito a ver com o amor, com a pessoa querer proteger aquele ente querido. Essa é uma das perguntas mais difíceis que me faz. Não sei responder. Temos de saber, progressivamente, dar autonomia para a pessoa poder ser adulta um dia. Nem podemos ter a pretensão de proteger de tal maneira que fique sempre a salvo das agressões. Por isso é que sou apologista da explicação: dar-se muita informação à criança, de forma a que ela conheça os seus direitos, compreenda...

 

Hoje há mais denúncias por causa disso, porque as crianças sabem mais?

Creio que sim. Reconhecem até onde é que vai o poder do outro.

 

“Tu não podes fazer-me isto.”

Se pudessem, diziam “não” mais vezes, só que às vezes não conseguem. Mas as crianças notam e sabem que têm direitos. Dantes sabiam que o outro não devia fazer aquilo, sabiam que alguma coisa estava estranho... Mas tinham muito medo e pensavam que ninguém iria acreditar nelas. Agora, com a mediatização destes casos, sabem que podem denunciar.

 

E as pessoas à volta? Também se pensa que a criança está a inventar. Mesmo que se oiça os especialistas dizer que normalmente uma criança não mente quando fala destes assuntos.

E sabe como é que fazem? Alteram o que dizem as pessoas como eu; quando digo “geralmente, nestes casos, as crianças não mentem” põem em grandes parangonas “as crianças não mentem”. Ridicularizam as palavras das pessoas, fazendo com que as declarações não sejam credíveis. Nós sabemos que as crianças por vezes mentem; dizem que fizeram os trabalhos de casa e ainda não fizeram, dizem que foram às aulas e não foram, dizem que perderam o telemóvel e afinal roubaram-no e a criança não quer dizer porque levou o telemóvel para um local para onde os pais tinham dito “não leves o telemóvel”. Sobre este aspecto é que, geralmente, isso não sucede. A não ser que as crianças sejam induzidas, e também há casos desses.

 

O que é o perigo? Como pressentir o perigo, como prevenir o perigo, como denunciar o perigo?

O perigo advém do facto de alguém notar um comportamento que não é adequado; e, por causa daquele circunstancialismo, temos a percepção de que a criança está a ser prejudicada no seu desenvolvimento. Então, está em perigo a segurança, a saúde, a educação. A lei vem explicar que situações podem denunciar o perigo: “nomeadamente estão em perigo as crianças que sofrem maus-tratos ou são vítimas de abusos sexuais”. Depois há situações que são de prevenção. Está em perigo a criança que não tem afecto. Também estão em perigo as crianças que estão a ser cuidadas por alguém que não são os seus pais durante um período prolongado e cuja situação jurídica não está definida. O perigo resulta de os pais a poderem a qualquer momento retirar do ambiente acolhedor e tranquilo em que se encontra. Verifica-se muitas vezes: os pais vão buscá-la porque acham que têm direitos sobre ela.

 

E têm na mira o dinheiro da segurança social, a casa maior...

Ou que ela vai trabalhar para eles. Tive casos em que as crianças estavam na primária, e depois chegavam aos quinze anos e os pais iam buscá-las para trabalhar na oficina. Ou que tinha asma, necessidade de cuidados especiais, e se via, de repente, a ter de carregar com pesos, quando a sua configuração física e a sua inteligência exigiriam que durante mais tempo se investisse no seu intelecto, e as pessoas com quem a criança vivia estavam dispostas a proporcionar essa educação.

 

E o que é que acontece aí?

Há a quebra da continuidade das relações afectivas que a criança estabeleceu. Se reconhecermos o direito à preservação [das relações afectivas profundas], temos de considerar que estas crianças estão em perigo. Interpus muitos recursos na minha vida por causa desta concepção. Porque havia a ideia de que tem que ser um perigo iminente e esse é um perigo hipotético. Houve decisões judiciais, das quais recorri. Umas vezes ganhei, outras vezes perdi. A maior parte das vezes ganhei, felizmente. Isto foi no início da minha ida para o Tribunal de Menores, em 91. Estamos em 2005 e ainda a lei não reconhece isto!

 

Mas como prevenir estes casos chocantes de que vamos tendo conhecimento? Casos de maus-tratos que acabam por provocar a morte da criança.

Só se previne se se alargar o conceito de perigo. Se se lembrar dos casos raros que resultaram em morte, ou que resultaram em grande sofrimento, tinham a ver com casos em que foram propostas acções de regulação do poder paternal. Mesmo que o caso seja participado à Comissão ou ao tribunal, o Ministério Público põe uma acção de regulação do exercício do poder paternal. Eu acho que esta acção não é a própria! A regulação do exercício do poder paternal serve para situações em que há conflito entre os pais, não é para situações em que há conflito entre os pais e a criança.

 

O direito que é reconhecido é o dos pais à posse e não o das crianças ao afecto.

Não podemos ter tribunais que não valorizam o direito da criança ao afecto. Por isso é que digo: reconhecer o direito ao afecto não chega, tem que se valorizar esse direito, especificando-o melhor.

 

Defende uma especialização das pessoas que, nos tribunais ou nas comissões, vão trabalhar estes casos. Porquê?

As crianças são um caso à parte. Não são a mesma coisa que um cheque sem cobertura ou um traficante. Seria óptimo se houvesse uma vontade política no sentido de obrigar à especialização dos magistrados nos tribunais de família e menores, obrigar à especialização dos funcionários judiciais.

 

Desde a sua ida para o Tribunal de Menores, em 91, tem lidado com estas questões. O quadro não se alterou tanto quanto isso... Sente-se desesperançada, perante a gravidade e a monstruosidade dos casos, dominada por uma sensação de impotência?

Sinto, muitas vezes. Às vezes digo: “Mas eu pensava que esta ideia já estava completamente adquirida e afinal estamos a voltar para trás!”. Mas trabalho com pessoas também optimistas, o Conselheiro Armando Leandro é muito optimista, e ajuda-me a ver para trás – “afinal já se conseguiu um envolvimento maior da comunidade, já houve mais denúncias, o facto de se falar mais nestes casos significa que o nosso trabalho está a ter sucesso”. Vou-me conformando e ficando outra vez com esperança, apesar de haver momentos de desalento. Acho que as crianças exigiriam que tudo fosse muito mais rápido, que as aquisições fossem mais rápidas...

 

 

Publicado originalmente na revista Selecções do Reader’s Digest em 2005

 

 

 

Joaquim Vieira

08.03.15

Joaquim Vieira é um dos mais reputados jornalistas portugueses. E é um dos autores que mais livros vendem em Portugal. A nossa conversa incidiu sobre estes dois focos: o jornalismo e os livros.

Falámos sobre o efectivo poder do chamado quarto poder. Do que são as empresas de comunicação hoje em dia. Do papel dos jornalistas numa engrenagem que visa o lucro e está cotada em bolsa. De situações concretas como a do Sol ou a das escutas de Belém. Sobre esta, falou-se também do tempo em que foi provedor do leitor do Público. Falámos do New York Times e do que fazer quando se tem uma bomba em mãos. Do Washington Post e de acatar ou não ordens judiciais. Do que é do interesse público. Da missão que o jornalismo ainda tem aos olhos de Vieira.

É presidente do Observatório de Imprensa (cargo não remunerado). Ele próprio diz que se voltasse às redacções, provavelmente seria olhado como um dinossauro que se preocupa com coisas com que mais ninguém se preocupa. Mas que continuam a fazer-lhe todo o sentido. Está afastado das redacções há anos. Foi director-adjunto do Expresso, e depois disso director-adjunto para os programas da RTP. Já se tinha envolvido na aventura dos livros quando aceitou dirigir a revista Grande Reportagem.

Os livros têm como objecto principal Salazar e o Estado Novo. Um estranho fascínio que se disseca mais à frente. “Está a ver estas prateleiras? Só têm material relacionado com Salazar”. São livros sem fim, em prateleiras de parede a parede. E há mais livros sem fim, em prateleiras de parede a parede, com os títulos de que é autor. Por exemplo, as fotobiografias de Salazar, Marcello Caetano, Almada Negreiros e Joshua Benoliel, ou Mataram o Rei – o regicídio na imprensa internacional, de que é co-autor. O mais recente livro serviu de pretexto para esta conversa, A Governanta – D. Maria, companheira de Salazar. Bem como a discussão acesa sobre o papel do jornalismo na sociedade portuguesa ou a promiscuidade entre o Poder e o jornalismo.

É meticuloso. É um trabalhador compulsivo. Tem a fama de saber mais sobre o material existente na Torre do Tombo, e respectiva arrumação, do que muitos que lá trabalham… Fala depressa e tem um pensamento muito articulado. Nasceu em 1951. É um melómano e amante de cinema. Tem dois filhos.

  

Comecemos pelo poder que acha que os jornalistas têm neste momento. Têm?

Não têm muito poder. Podiam ter mais se procurassem ser mais autónomos. O que sinto é que o jornalismo, de uma forma geral, está muito acondicionado à situação, seja ela qual for. Não vejo que haja aquele espírito que sentia há uns anos, de procurar ser independente, fiscalizar, denunciar, destapar aquilo que estava oculto dentro da sociedade. Há alguns franco-atiradores isolados a tentar fazer isso, mas não o vejo como tendência do jornalismo hoje em dia.

 

E esses são apontados como justiceiros? São olhados como pessoas que se querem sobrepor à Justiça. Concorda com esta percepção que tem a opinião pública?

Não acho que seja uma percepção da opinião pública, é uma percepção daqueles que são visados pelas notícias ou informações que são publicadas por esses jornalistas. Vivemos numa sociedade onde há liberdade de expressão, se as pessoas não têm mais nada senão acusar os jornalistas de justiceiros, é uma defesa muito fraca. O que interessa é responder ao que eles publicam, se é verdade ou mentira, se os agentes do Poder podem ou não fazer aquilo que os jornalistas dizem que eles fazem. Se não esclarecem, não respondem e se limitam a acusar os jornalistas, nesse caso diria que deixem os jornalistas continuar a ser justiceiros e a desempenhar o seu trabalho.

 

Porque é que estamos nesta situação em que os jornalistas estão acantonados, e isso traduz-se no pouco poder que eles têm?

A verdade é que os órgãos de informação, do ponto de vista económico, estão muito débeis. Olham para o futuro e a situação não está famosa. Não só porque vivemos uma crise conjuntural, mas também porque a evolução dos sistemas de comunicação se alterou. O conceito de órgão de informação como uma fortaleza inexpugnável do ponto de vista económico, não existe – os perigos são nesse aspecto.

 

O perigo deriva de serem empresas como outras quaisquer?

As empresas estão cotadas em bolsa e têm de apresentar resultados no fim do ano. Muitas vezes contam mais os resultados que apresentam aos accionistas do que aquilo que o órgão de informação publica. Muitas vezes a informação não é a esquadria mais importante na produção de uma empresa de comunicação social, infelizmente.

 

O que é que conta, então?

A mercadoria é a venda de publicidade, por exemplo. Quando esta se sobrepõe à produção de informação, isso pode perigar [a qualidade da informação]. Não é que o jornalista não tenha a liberdade de fazer o que quer, mas há pressões invisíveis que se instalam sub-repticiamente. Ele sente a necessidade de produzir informação orientada de uma certa maneira, porque, do ponto de vista empresarial e económico, é melhor.

 

Mas como é que isso passa?

Essa mensagem vai passando porque se instala na própria cultura das redacções. Basta lá estar com alguma atenção para se apreender esse tipo de coisas. As direcções, os editores, acabam por transmitir essa mensagem.

 

Mesmo que isso não seja dito taxativamente?

Sim. É muito fácil assumir a cultura de um órgão de informação. Fui da RTP para o Expresso; e sem nunca ser do PSD, sentia que lá se respirava um ambiente PSD, porque o patrão era PSD. Ele nunca deu nenhuma ordem para se escrever a favor do PSD, até porque estava no Poder na altura, e não dava ordens ao Expresso, pelo menos que soubéssemos. Mas cada órgão de informação tem uma cultura própria, e essa cultura impregna-se sem ser transmitida explicitamente. Neste momento, a cultura dominante é a empresarial, de perdas mínimas, e o jornalista faz parte da operação de minimizar perdas e potenciar custos.

 

Isso leva-nos a uma questão interessante, a das pressões e da maneira como elas chegam ao jornalista. Muitas vezes o jornalista é acusado de estar vulnerável ou sucumbir a determinadas pressões. O leitor comum não tem noção dessa pressão, de como ela é passada, de como é sentida e que resultados é que produz.

Um leitor comum nunca terá esse retrato, essa apreensão. É muito difícil explicar isto com dados concretos, é uma coisa que passa ao nível subliminar. Não consigo provar que existe uma espécie de correia de transmissão dentro das redacções para os jornalistas actuarem desta forma. Talvez fazendo uma grande investigação, escrevendo um livro, mas vai ficar sempre uma dúvida. Não é a “arma fumegante”, como dizem os americanos, que foi apanhada naquele momento a disparar e em que se prova que existe uma relação de causa/efeito. Quando a parada é muito alta há outras formas de condicionamento – os tribunais, que temos de respeitar, porque existem leis.

 

No caso do semanário Sol, recentemente, houve um desrespeito das leis, quando se decidiu pela publicação daquela matéria no jornal apesar da providência cautelar interposta por Rui Pedro Soares. Isto abre um precedente perigoso?

Não, já existe um precedente: o caso dos documentos do Pentágono, nos Estados Unidos. É um caso muito célebre em que o New York Times quis publicar documentos que eram segredo de Estado, e o Governo americano interpôs uma espécie de providência cautelar para não os publicarem. Eram documentos do provável envolvimento secreto dos Estados Unidos em bombardeamentos na Indochina; o Presidente teria dado ordem para alargar a guerra para além das fronteiras do Vietname para o Cambodja, o Laos. Aos americanos não interessava que isso viesse a público. A providência cautelar foi aceite pelo Tribunal da Primeira Instância (lá a designação é outra, mas a nomenclatura judicial é essa). Entre o Washington Post e o New York Times houve atitudes diferentes. O primeiro também teve acesso aos documentos e decidiu acatar a ordem do tribunal. O New York Times decidiu não acatar por achar que havia um valor mais alto, que era o direito dos cidadãos à informação, e publicou. Ao mesmo tempo recorreu da decisão. O assunto chegou ao Supremo Tribunal de Justiça que tomou uma decisão, por margem mínima, a favor da liberdade do jornal de publicar. Em Portugal, aquilo a que temos assistido é que os jornais e os jornalistas perdem processos em tribunal, recorrem para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, e ganham.

 

Isso acontece recorrentemente?

Praticamente todos os processos de liberdade de imprensa que aqui têm sido perdidos, quando há recursos para o Tribunal Europeu, são ganhos. No caso do jornal Sol, tenho a certeza de que, se recorrer para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, vai ganhar. Só que entretanto, legalmente, vai ser obrigado a pagar multas. É uma penalização extremamente forte do ponto de vista económico – fala-se em 400 mil euros.

 

Quem paga? É uma multa a ser sustentada pela empresa?

Não só a própria empresa, mas também os jornalistas envolvidos estão obrigados ao pagamento. Perante este enquadramento, é natural que os jornalistas se sintam intimidados e com receio de publicar certas informações a que têm acesso. É mais uma forma de acondicionamento, mesmo que em última análise o jornalista venha a ser ilibado. Acaba por ter um efeito dissuasor e causa desgaste. Quando as empresas, como acontece hoje com frequência, estão em situação económica difícil, mais complicado se torna arriscar neste tipo de matérias. Sei que há muita coisa sobre as escutas do “Face Oculta”, que são importantes do ponto de vista da informação, e que deviam vir cá para fora, porque é um direito das pessoas – tenho esse entendimento: saber o que se passou, é uma matéria de interesse público – mas os jornalistas estão a pensar duas vezes sobre se vale ou não a pena publicar e arriscar.

 

Um caso concreto muito falado: o da putativa pressão do Engº Belmiro de Azevedo sobre o Público, de que é proprietário, como forma de retaliação sobre o Governo pelo facto de ter perdido a OPA sobre a PT. Estas coisas nunca se podem provar, ou podem?

É muito difícil. Tal como não se pode provar se José Sócrates pressionou o jornal para não publicar coisas sobre a sua licenciatura; ou a quem é que telefonou e o que é que disse nas conversas telefónicas. É como dizem os espanhóis, “não acredito em bruxas, pero que las hay, las hay”. Porque é que nos últimos anos Portugal desceu no rating da percepção da liberdade de informação? Por alguma razão será. Mas tudo isto é uma percepção subjectiva de quem responde a esse tipo de inquéritos.

 

O que fica é um terreno minado entre o órgão de comunicação e o leitor? Também o leitor acha que não pode confiar completamente na informação que lhe é dada, que não sabe se estão a obedecer a ordens superiores, se estão a sucumbir a pressões económicas, políticas, pessoais.

Sim, junto da opinião pública tem esse efeito. Os leitores têm de confiar em alguma coisa, precisam de se informar; mas tem havido uma certa disseminação das audiências porque as pessoas têm alternativas. Muita gente já confia mais no que dizem os blogues e a internet, que é uma informação que muitas vezes não é feita por jornalistas, que não é filtrada ou confirmada. Acham que há ali um sistema de liberdade maior do que aquilo que aparece nos media, que julgam ser mais condicionado.

 

Os órgãos de comunicação social estão cada vez mais agrupados em torno de um grupo económico, funcionam numa lógica de monopólio. Isto é cerceador da liberdade, não só do jornalista, mas de informar?

Tenho sentimentos mistos. A coisa boa é que os grupos podem ter mais autonomia do ponto de vista económico, mais poder, maior capacidade de o jornalista investigar, ir para o estrangeiro (em teoria). O complicado é que muitos deles são grupos cotados em bolsa, como já disse. Outro problema é que, de certa forma, elimina as alternativas de informação de que os cidadãos dispõem.

 

Como assim?

Num grupo, toda a informação pode ser orientada numa certa perspectiva. Em vez de os vários órgãos de informação do grupo informarem de forma diferente, não é bem isso que se passa. Dou um exemplo concreto: antigamente havia um golpe de Estado na Guiné-Bissau, e o Expresso, a SIC e a Visão mandavam enviados – cada um tinha uma visão diferente. O que aconteceu no último golpe de Estado na Guiné foi que o grupo Impresa enviou apenas um jornalista que escreveu para todo o lado. A perspectiva que tínhamos sobre o que se passava era a mesma nos vários órgãos de informação. Tratou-se de uma grande profissional, a Cândida Pinto, e não estou a pôr em dúvida as suas capacidades. Mas nesse caso, não vale a pena procurar diferentes formas de informação, porque já tenho o mesmo ponto de vista em todo o lado. Há de facto um afunilamento e menor diversidade informativa. A tendência nos grupos, para poupar custos, é concentrar as redacções. Mais uma vez temos a eliminação de uma certa diversidade.

 

Outro afunilamento, para o jornalista, é o de se incompatibilizar com um órgão do grupo e deixar de trabalhar para todos os outros do mesmo grupo.

Se tivermos três grandes grupos económicos, e a tendência em Portugal tem sido para a concentração, acontece que se um jornalista, por qualquer razão, se incompatibilizar com o patrão de um desses órgãos de informação, incompatibiliza-se com um terço de todos os media. O jornalista poderá ter dificuldade em encontrar trabalho.

 

Essa fragilidade não acontece só dentro de portas, na relação do jornalista com o seu patrão; existe também na relação daquele grupo económico com o político, o financeiro, com aquele que é visado nas suas notícias.

A relação acaba por abranger e afectar todos os órgãos de informação do grupo. É um processo inevitável, vivemos numa sociedade aberta e não concordo que se publique uma lei que impeça a concentração. Já existe a lei da concorrência que impede um certo nível de concentração.

 

O caso do Sol é paradigmático. O director foi queixar-se de o seu jornal ter sido alvo de uma represália, sob a forma de publicidade que não foi injectada naquele jornal, porque a informação era desfavorável ao Governo. Não estamos aqui a discutir se a informação corresponde ou não à realidade; mas gostaria de saber se esta acusação lhe parece plausível.

Acho que isso é plausível. Tal como se cria um espírito nas redacções, há um que se cria no Governo e junto do poder. Depois, se calhar, não é preciso emitir uma ordem escrita a dizer para não porem lá publicidade. Quem é responsável pela colocação de publicidade já sabe que não a deve colocar neste ou naquele órgão de informação porque ele é desfavorável ao Governo. E depois há os bancos que podem ou não financiar de acordo com as influências não escritas que existem. No caso do Sol, tanto quanto sei, a ERC não conseguiu provar nada, mas a informação que me chegou aos ouvidos não é essa.

 

Qual foi?

Ao nível do BCP, por exemplo, tentou-se asfixiar o jornal. Pode haver também directivas não assumidas nesse campo.

 

É possível contrariar esta tendência?

Acho muito difícil. As leis dizem o contrário. Dizem que o Estado deve defender a independência dos órgãos de informação, que não deve intervir para condicionar essa independência. Em países onde a cultura política é diferente, onde toda a gente defende e assume a transparência – nos países nórdicos – não acredito que se funcione da mesma maneira. Aqui temos uma cultura política terceiro-mundista, ligada ao passado. Há uma cultura que não tem apenas a ver com o relacionamento com os media, mas com a administração pública de uma forma geral. A sociedade civil poderá ter alguma responsabilidade.

 

Que papel poderá ser, na sua opinião?

Se esta não protestar e resignadamente aceitar aquilo que existe, não exigir uma informação mais independente, mais crítica, mais fiscalizadora do poder público, se as pessoas sentem que podem continuar como estão e os poderes têm impunidade para continuar a intervir, não vai mudar nada. Se, pelo contrário, a cultura evoluir para um grau de maior exigência, e toda a gente achar que tem de ter uma atitude diferente perante aquilo que é a causa comum, talvez as coisas mudem a prazo. Hoje em dia temos muitas formas alternativas de informação, sobretudo por causa do advento da internet, e por aí sempre se vai sabendo mais alguma coisa.

 

Também é verdade que as pessoas não podem exigir uma informação mais isenta, ou ter uma atitude mais participativa, se estiverem numa situação de fragilidade. Talvez o denominador comum disto de que estamos a falar seja pobreza. Quanto mais pobres, mais dependentes, e menos livres e críticos podemos ser. É assim ou não?

Isso tem um bocado a ver com aquele discurso do Presidente Cavaco Silva: uma vez que estamos perante uma situação de crise, temos de nos concentrar neste problema e não discutir o resto. As pessoas podem ter duas coisas diferentes na cabeça ao mesmo tempo.

 

Não estou a dizer que não possam pensar, mas mais dificilmente terão uma atitude livre e empenhada.

Não faz parte das suas prioridades.

 

Elas ficam a medir o alcance dos seus gestos, das suas acções. No limite, ficam desempregadas.

Isso existe e não vai mudar. Os jornalistas são seres humanos como outros quaisquer e têm de pensar na família, na sobrevivência, nessas coisas comezinhas do dia-a-dia. Não são D. Quixote a lutar contra moinhos de ventos. Também é muito mais fácil fazer outro tipo de jornalismo, o jornalismo light, o roteiro da boa mesa, dos bons hotéis, dos bons hospitais (que até é bom para a publicidade). Não se pensa em denunciar o que está mal. Cada vez há menos jornalismo de investigação em Portugal.

 

Quanto é que custa ter um jornalista a fazer uma reportagem durante três meses, uma longa investigação?

A maior parte das redacções hoje em dia não suporta isso. Claro que o jornalista não faz só isso. Se o próprio jornalista tem interesse, abnegação por descobrir a verdade e ir atrás de uma notícia, pode fazer horas extraordinárias – o jornalismo não pode ter horários. Mas não é para aí que as coisas estão orientadas. Fazer investigação é um monte de problemas que ele vai ter pela frente e ninguém lhe vai dar uma medalha no fim.

 

Também se fala muito da impreparação dos jornalistas. Que não sabem escrever, que são incultos, que as redacções estão transformadas em jardim-escola. Isto acontece porque os jornalistas bons são caros e não há dinheiro para os pagar?

Há uma tendência para afastar os jornalistas seniores porque são mais caros, pesam nos orçamentos. O problema que existe em muitas redacções é uma certa falta de memória. Aqui há tempos, caiu uma avioneta no Alentejo, morreu o Costa Martins, Capitão de Abril, que tinha sozinho assaltado e tomado conta do aeroporto no dia 25 de Abril; os jornais publicaram a queda da avioneta, disseram que um dos passageiros se chamava Costa Martins, e nenhum jornalista naquela redacção questionou quem ele era. Só no dia seguinte é que perceberam, reagiram e fizeram um obituário. Os jornalistas que podiam saber quem era o Costa Martins já não estão nas redacções.

 

É verdade que agora são mais impreparados?

Não me parece que agora seja diferente do que era no passado. Um jornalista, quando entra numa redacção, nunca entra completamente formado. Um jornalista faz-se pela experiência, pela evolução profissional. Antigamente o jornalista estava agregado a outros que tinham maior experiência, trabalhavam em conjunto e ia aprendendo, o trabalho era supervisionado pelo outro com mais experiência. Hoje há jornalistas inexperientes que chegam a editores com muita facilidade, sem terem traquejo profissional e maturidade para assumir esses cargos.

 

Enquanto provedor do leitor do Público, durante dois anos, o que é que mais o surpreendeu?

Não sei dizer, embora já me tenham perguntado isso. Precisava de ver o que é que respondi nas outras entrevistas [riso].

 

Há anos que estava afastado das redacções. Foi uma surpresa perceber o que as redacções são agora, como funcionam?

Embora não estivesse no jornalismo prático, sabia como é que as coisas se processavam. Por causa disso é que achei que estava preparado e aceitei esse lugar. Não posso dizer que tenha ficado surpreendido por alguma coisa de forma gravosa, mesmo em relação ao caso mais complicado que enfrentei, que foi a questão das chamadas escutas de Belém. Encontrei no Público uma cultura que existe nas secções políticas dos órgãos de informação: uma certa promiscuidade entre jornalistas e fontes.

 

Do que é que os leitores se queixavam mais?

As queixas dividiam-se em duas categorias: as faltas deontológicas e profissionais dos jornalistas, e o mau uso e mau tratamento da língua portuguesa. Estas duas categorias são quase estanques, não comunicam; os que pertenciam a uma criticavam-me porque dava demasiada atenção à outra, e vice-versa.

 

No caso das chamadas escutas de Belém, enquanto provedor, acorreu à carta de um leitor, que era um dos visados no processo. A sua intervenção acabou por ter consequências em todo o processo, e de certa maneira na vida do Público, embora já fosse conhecida a intenção do director de abandonar o jornal. Quando partiu para a resposta, tinha noção de que aquilo podia ser uma bola de neve que depois não se parava?

Estou um bocado condicionado para lhe dar uma resposta. Como provedor, lidava com um certo tipo de informação que é confidencial. Comprometi-me perante as pessoas que ma deram a não revelar que a tinha. Quando comecei a investigar, rapidamente cheguei a certas conclusões e percebi o que se tinha passado nos bastidores.

 

Foi uma investigação como aquela que um jornalista faz, ou uma investigação que o provedor tinha de fazer para responder cabalmente àquele caso que lhe era apresentado?

Mas é uma investigação jornalística, também há a confidencialidade das fontes. Há um elemento fundamental que intervém aqui: o tal e-mail que foi trocado entre dois jornalistas do Público. Que não se pode dizer que existe, mas que também não é desmentido. Não posso dizer em que fase da investigação é que tomei conhecimento desse e-mail, mas foi numa fase que me permitiu compreender o que é que se tinha passado e que a coisa assumia bastante gravidade. Aliás, eu próprio, na primeira crónica, anuncio que vou continuar a falar do assunto na semana seguinte. Quando divido o tema em duas semanas diferentes estou a dar-lhe gravidade, porque não tinha feito isso com mais nenhum caso.

 

É no meio dessa semana, entre os dois domingos da sua crónica, que aparece a primeira página do Diário de Notícias com o e-mail estampado. Sabia que eles iam pegar nisso e publicar?

Sabia, porque me telefonaram na véspera a perguntar se confirmava, e eu disse que não falava sobre esse assunto. Quando estalou a manchete do Diário de Notícias recebi telefonemas e a minha posição era sempre a de que, como provedor, só falava dos casos do Público nas páginas do jornal ou no Blogue do Provedor. O Diário de Notícias tem acesso a esse e-mail por causa da troca de correspondência que existe entre membros da redacção em reacção à minha primeira crónica, e por essa correspondência se percebe que também sabia da existência desse e-mail. Quando digo que o jornal não confrontou o Presidente da República com as suas responsabilidades políticas no assunto, que o jornal pensava que tinha um Watergate nas mãos que punha em causa o Governo, mas que na realidade punha em causa a Presidência da República, e que o jornal não quis investigar essa parte; quando digo isto, tenho a noção da gravidade que o assunto tem. E depois escrevi que o assunto não ia desaparecer, ficava sempre como uma mancha na actuação do Presidente.

 

Este foi um daqueles casos em que a intervenção de um jornalista, de um provedor que tinha feito uma investigação jornalística, mexe com os poderes instituídos. Não há muitos.

A decisão do Sol de publicar as escutas do caso Face Oculta também mexe muito com os poderes instituídos. É uma decisão em que é preciso ter uma certa dose de coragem porque se sabe que se vai enfrentar muitos poderes e uma situação muito complicada que põe em risco a sobrevivência do jornal. Ainda não sei como é que isto vai acabar. A opção de publicar ou não publicar: o que seria mais confortável era não publicar nada. Ainda por cima com uma providência cautelar pendente e que poderia trazer problemas complicados do ponto de vista jurídico. Mas para mim era uma missão patriótica trazer ao conhecimento do público aquela informação.

 

Surpreendeu-me, no caso da sua intervenção enquanto provedor, a rapidez do desfecho, ao contrário destes processos, quer do Face Oculta, quer do Freeport, que são apresentados e explorados sob um ponto de vista comercial, e não só jornalístico, durante muito tempo. Foi rápido porque não teve de fazer render o peixe, vender jornais?

Para o jornal, o que publiquei era complicado. Foi uma opção minha. Na altura houve muita gente a felicitar-me; o que eu dizia era que a função também faz as pessoas. Estava naquele cargo e achava que era meu dever, minha obrigação actuar daquela maneira. Quando olhei para o tal e-mail que foi trocado entre os dois jornalistas, falei com uma pessoa do jornal e disse-lhe: “Não sei se tens a noção de que, se isto vier a público, vai ser uma bomba terrível para o jornal e para o próprio Presidente da República”. E perante isto o que é que uma pessoa faz? Limitei-me a interpretar aquilo que eram os meus poderes e as minhas obrigações como provedor. Sobretudo não me vou pôr num pedestal. Se calhar qualquer provedor, interpretando à letra o seu estatuto, faria a mesma coisa, com outras palavras; não sei se havia muita forma de fugir a isso. Quando uma pessoa adquire certo conhecimento sobre coisas que se passaram nos bastidores, como é que é possível ignorar isso?

 

No jornalismo político, como separar as relações pessoais e simpatias ideológicas do exercício da função?

A maior parte dos casos que põem em causa políticos não são feitos pelas secções políticas, são feitos por jornalistas que estão noutras secções das redacções. O Watergate não foi desencadeado por jornalistas da secção de política do Washington Post.

 

Porque esses estão demasiado próximos e têm uma relação promíscua com o Governo?

Exactamente. A secção e o editor de política do Washington Post eram contra a publicação das notícias sobre o caso Watergate. Foram uns jornalistas da secção metropolitana quem primeiro recolheu informação. E foi outro jornalista que estava praticamente no princípio da carreira, cuja ligação à secção de política era ténue, que levou o caso avante.

 

Como é que as relações resvalam, se tornam insidiosas?

Os jornalistas entram nesse mecanismo e nem sequer têm a percepção disso. Não é por acaso que os jornalistas que estão na área política são convidados para assessores de ministros, presidentes, secretários de Estado. Uma parte significativa dos jornalistas que fizeram a cobertura da primeira campanha eleitoral de Jorge Sampaio foi depois convidada para assessores presidenciais. O que é que posso pensar da independência com que estes jornalistas fizeram a cobertura da campanha eleitoral? Pelo menos terei algumas dúvidas.

 

Quem convida, é normal que convide alguém em quem confia.

Evidentemente. Um cargo de assessor é sempre um cargo de confiança política, mesmo que seja um assessor de imprensa. Não se convida uma pessoa que se julgue ser hostil.

 

Entendimento ideológico, profissional, pessoal?

Penso que esse entendimento já existia antes de ele ganhar as eleições, foi aí que se aprofundaram esses laços. Que cumplicidades é que houve na cobertura da campanha eleitoral? É uma coisa que merecia ser analisada.

 

Se calhar, uma parte significativa dos leitores não sabe que é uma das pessoas que mais venderam livros em Portugal.

Não sei se isso é bom [riso]!

 

Já vendeu mais de um milhão de livros. Qual é o segredo?

Não apliquei nenhum segredo. Estes livros têm a ver com a história de Portugal no século XX [Portugal Século XX – Crónica em Imagens], que fiz para o Círculo de Leitores na transição da década, e que foi seguido por uma série de fotobiografias. Tudo somado deu um milhão: 700 mil volumes da história do século XX, e 300 mil das fotobiografias. São muitos títulos, foram saindo uns a seguir aos outros no espaço de três anos. Havia uma apetência do público por aquele tipo de informação. As pessoas reviam-se ali porque era muito ligado ao quotidiano.

 

E aí era o olhar do jornalista? Essa foi a sua novidade, pegou naquela matéria não como um historiador mas como um jornalista que devolve às pessoas um pouco da vida de todos de dias?

Tive essa preocupação. Não tenho formação em História e não tinha sequer o vício académico de fazer uma tese de doutoramento. A minha preocupação era comunicar e achei que tinha de fazer uma história viva e virada para o quotidiano das pessoas. Uma história em que houvesse um lado sentimental onde elas se revissem, no sentido de que era a sua vida e a vida dos seus pais e avós que estava ali retratada. Não queria fazer só a história da superstrutura política, dos acontecimentos. Fazia isso em paralelo com a evolução dos costumes e das práticas sociais.

 

Depois disso escreveu outros livros, alguns deles à volta de Salazar. O mais recente é sobre A Governanta. Porquê este fascínio por essa figura que, no seu passado, era odiosa?

Entrei para a faculdade na altura em que Marcello Caetano ascendeu ao poder. Para mim não havia diferença entre um e o outro, eram dois ditadores. Há aqui um grande mistério: porque é que Salazar se aguenta no poder durante 40 anos? O facto de ter morrido na cama e de ninguém o ter derrubado; o facto de ter abandonado o poder por uma questão de doença, (foi uma cadeira que o derrubou, mas isso não conta); o facto de não haver uma força suficientemente forte dos portugueses para o derrubar, e ter dominado a história de Portugal durante quase meio século, torna a figura fascinante independentemente da adesão ideológica que tenhamos com ele.

 

No seu caso, esteve exilado e preso por causa do regime salazarista, foi um opositor.

Eu não tenho nenhuma adesão em relação aos princípios que defendeu. Mas quando estudei a figura percebi as suas preocupações, a sua filosofia, o seu entendimento da sociedade portuguesa, da situação em que se encontrava Portugal na altura em que ascendeu ao poder, das opções que tomou e das fórmulas que aplicou. Dentro de uma certa lógica, que é a sua, aquilo faz todo o sentido, e ele defendeu o seu sistema da maneira mais coerente possível. Mas repito, não é a minha perspectiva de maneira nenhuma.

 

Mas não é o mesmo, politicamente, que se envolveu na luta contra o regime…

Mudei muito politicamente. Era um radical de esquerda e agora não sou. Sou alguém que defende o sistema democrático, o sistema de liberdades em que as pessoas têm o máximo de liberdade possível sem interferir com a das outras. Mas a figura fascina qualquer um. A sociedade portuguesa está fascinada com Salazar.

 

Que significado tem isso?

Não tem valor nenhum. As pessoas não querem um regresso ao tempo de Salazar, porque não querem um regresso à ditadura e continuam convencidas de que a democracia é o melhor sistema. Mas não foi por acaso que ele ganhou aquele concurso de popularidade – a figura mais importante da história portuguesa. Também não é por acaso que tantos trabalhos de historiadores se viram para o Estado Novo. Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda, que não pode ser acusado de qualquer apreciação positiva de Salazar: quase todo o trabalho historiográfico dele é virado para o período do Estado Novo.

 

Também Irene Pimentel.

Outro caso. E há um lado secreto em tudo isto. Tudo o que é secreto acaba por ser mais atractivo do que aquilo que é transparente. A história das instituições democráticas praticamente está por fazer. Apesar de, como jornalista, ter feito alguns trabalhos sobre Salazar, quando fiz a história de Portugal no século XX percebi verdadeiramente o papel de Salazar. Ainda não tinha saído toda a história do século XX e já estava a propor à editora fazer a fotobiografia de Salazar.

 

O que é que soube sobre Salazar a partir da governanta?

Foi um desafio da editora, a Esfera dos Livros. D. Maria era importante porque lhe transmitia os rumores do exterior. Ele tinha uma certa repulsa por contactar com os cidadãos comuns. Detestava quando em público as pessoas se lhe dirigiam para o cumprimentar, nem que fosse para dizer bem; achava que se falasse a uma pessoa estava a privilegiá-la e nesse caso tinha de falar com todas. Mas quando recebia as pessoas tentava apurar coisas que se diziam dele. A D. Maria era a pessoa que sistematicamente lhe transmitia este tipo de informação – uma espécie de relatório diário.

 

Diário? Tinha essa importância?

Todas as noites a chamava para saber o que é que se tinha passado na casa e ela, circulando por fora, indo ao mercado, acabava por lhe transmitir o que era o pulsar da sociedade. E isto tudo se transforma em decisão política, o que me surpreendeu.

 

Um exemplo.

Isto é contado pelo Pedro Teotónio Pereira nas suas memórias. Quando era ministro do Comércio, é chamado pelo Salazar para uma reunião em São Bento, para discutir vários aspectos relacionados com a actividade. A certa altura o Salazar diz: “Há um problema com a venda do arroz. As pessoas queixam-se de que o arroz que está a ser posto à venda no mercado é de fraca qualidade, e há um melhor, o arroz carolino, que está nas mãos de uns quantos especuladores que o têm escondido e que o vendem por preços exorbitantes.” O Teotónio Pereira reage, diz que tem a coisa controlada. “Não é isso que diz a minha governanta, vou chamá-la para ela explicar o que se passa”. E chama a D. Maria, que explica que as pessoas estão revoltadas e que querem arroz carolino. A verdade é que decidem pôr à venda no mercado, para fazer baixar os preços, quantidades enormes de arroz carolino, que a partir daí passa a ser o preferido dos consumidores.

 

D. Maria era também um canal. Usado?

Ela é a correia de transmissão entre as pessoas que querem ter acesso a Salazar, e não o têm directamente, e o próprio Salazar. Escrevem-lhe, vão falar com ela para ela interceder. Muitas vezes são pequenos empenhos para nomear um familiar ou para livrar alguém da tropa.

 

A chamada cunha.

Sim. E isso não vai para o caixote do lixo: é comunicado aos respectivos departamentos do Estado que atendem as queixas e dizem se têm ou não cabimento. Devo admitir que não tenho conhecimento de que ela tenha feito uma pressão directa de pedir uma atençãozinha, embora a Micas [a pupila] me tenha contado que nas conversas que às vezes tinha com Salazar, falava dessas coisas. Até deputados escreviam à D. Maria: se queriam ser nomeados para um cargo numa empresa como administradores, por exemplo; uma dessas cartas é publicada no livro.

 

A importância, o poder da D. Maria é, para começar, o do acesso.

Exactamente, é um acesso informal, mas apesar de tudo é um acesso. Salazar estava recolhido naquela concha e era muito difícil ter acesso, para quem não fosse ministro.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2010

 

 

Sofia Escobar

04.03.15

Foi viver para a residência da Guidhall, uma das mais prestigiadas escolas de música e representação do mundo. Acordava às sete da manhã com alguém a estudar violino no quarto ao lado. O seu sonho começava aí.

O sonho, o romantismo, passados cerca de quatro anos, não se desvaneceu. Entretanto foi “Christine” e “Maria”, duas personagens famosas de musicais do West End. Fez provas para a primeira, foi contratada directamente para ser a segunda.

Sofia Escobar já as conhecia. Desde a adolescência, pelo menos, que as partituras, as fotografias, as histórias, faziam parte do seu quotidiano. Só que agora, ela fazia parte da história, e essa banda sonora era a sua.

Sofia Escobar está de férias em Portugal, onde nos encontrámos. É uma menina que fala com um sorriso constante e um ligeiro sotaque nortenho. Contou a sua história, falou dos seus medos, da confiança que a fez avançar, da relação com a voz. “Uma gripe qualquer pode transformar-se num drama. Uma dor de barriga não interessa nada. A dor de garganta arruína-me!”

Quando nos lerem, ela já estará em Londres, novamente. Provavelmente a finalizar projectos pendentes. Mas como eram pendentes, não podia ainda falar deles… É provável que conheçamos em breve por onde passa o seu futuro. O ponto de partida são dois musicais famosos e uma nomeação para os prémios Olivier no seu primeiro papel. Como ela diz, “o mais difícil já está feito”.

 

Apresentam a sua história como sendo uma história de Cinderela. Alguma vez foi Gata Borralheira?

Sinto muitas vezes uma Cinderela dos tempos modernos. Há alturas em que nem acredito!, penso que à meia noite a minha carroça vai transformar-se em abóbora! Uma dessas circunstâncias foi a entrega dos prémios [Lawrence] Olivier. Quem diria… Olhei para trás. Há dois anos fui para Londres sem nada. Messa noite estava na cerimónia dos Olivier com o Kevin Spacey a dizer-me olá. É tão surreal… Mas sim, fui Gata Borralheira.

 

Antes disso: como era o vestido da Cinderela?

Era um vestido do João Rolo. Um criador português. Sou portuguesa e tenho orgulho nisso. Mostrar um criador português que admiro fez-me todo o sentido. Era um vestido muito bonito, verde-claro, com cristais da Swarovski, comprido. Toda a gente elogiou imenso o vestido. E senti-me verdadeiramente Cinderela com ele! Ganhar ou não ganhar, não era fundamental. O fundamental foi estar lá, ter chegado tão longe em tão pouco tempo.

 

Descreva-me essa noite. Entrou pela passadeira vermelha, num mundo de puro glamour?

Não fiz a passadeira vermelha, porque cantei na cerimónia e tive de chegar muito mais cedo, para fazer sound-check e passar as músicas com a orquestra. Estava muito preocupada pelo facto de ter de cantar, e porque estava toooda a gente do mundo artístico londrino. Agentes, directores de casting, actores de outros musicais, gente famosíssima que admiro.

 

Cantou a pensar que na plateia estava “aquela” pessoa, “aquelas” pessoas?

Tentei abstrair-me. No momento em que subi ao palco ficou tudo bem. Aí, já era “Maria”, já não era Sofia. Era o espectáculo [“West Side Story”] que faço todas as noites. “Hoje não é diferente, não interessa quem está no público”. No fundo, temos é de respeitar o público, seja lá quem for que está na plateia.

 

Em termos de gestão de carreira era muito importante que corresse bem. Para que “aquelas pessoas” ficassem positivamente impressionadas.

Exactamente. A pressão era essa. Nessas provas que a vida nos apresenta, tenho de poder dizer: fiz o meu melhor. Quando saio e sei que podia ter feito melhor, fico destroçada. Felizmente, nessa noite, as reacções foram óptimas.

 

Apesar de não ter ganho.

Recebi parabéns pela nomeação. Ainda nem acredito que tive uma nomeação no meu primeiro papel principal. Antes disso tinha sido substituta; ou seja, o papel não era propriamente meu, eu não estava sujeita à crítica.

 

O que é que pensou quando tirou o vestido, a maquilhagem, quando voltou a ser apenas a Sofia? Um ritual banal, que faz todas as noites, nessa noite teve um sabor especial?

É difícil explicar como me senti. Como quando fiz “Christine” [“Fantasma da Ópera”] pela primeira vez e saí do teatro e apanhei o autocarro como toda a gente… foi o anti-clímax. De certa maneira, não mudou absolutamente nada. Com vestido ou sem ele, sou a Sofia de sempre.

 

Regressou a casa numa abóbora…

[gargalhada] Na noite dos Olivier regressei de táxi. Já era um pouco tarde. Senão iria de autocarro. Claro que continuo a andar de transportes públicos. Aliás, em Londres, é mais prático apanhar o metro do que o táxi.

 

A razão prática ofusca o glamour?

Não sou dada a essas coisas. Por um lado sou muito menina, adoro os vestidos; mas as pessoas são só pessoas, toda a gente tem talentos, seja em que área for. Eu tenho esta paixão pelo mundo da música e da representação.

 

Como é que descobriu que esse era o seu talento? Nem sempre as pessoas identificam o seu talento. E no seu caso, podia ser uma paixão e não um talento.

Muitas vezes dá muito medo. De estarmos iludidos. Passei por fases em que pensei: se calhar estou completamente enganada. Mas o medo, a insegurança, fazem parte. E fazem parte do crescimento. O próximo trabalho: será que vou ser boa o suficiente? E há a pressão acrescida de ter chegado a um certo nível… Não quero descer. Como é que descobri? Desde muito cedo, as brincadeiras incluíam um palco, e bonecas em fila, e música. Mas só me apercebi que era isso que eu queria fazer, e que me iria fazer feliz no futuro, aos 16, 17 anos.

 

O que é que aconteceu nessa altura, para que isso eclodisse com essa força?

Foi chegar ao final do 12º ano e ver as minhas colegas optar por este curso e aquele. Eu não sentia vontade de concorrer a esta ou àquela faculdade. Eu gostava muito de Inglês, podia tirar o curso de Inglês.

 

E seria agora professora de Inglês. Escolheu um destino diferente.

Eu precisava de algo mais, sem saber o que era. Até que comecei a ter aulas de canto, em Guimarães. Fez-me falta não ter começado a estudar música mais cedo – não sabia ler partituras; mas não canto. Comecei na altura certa.

 

Teve o apoio dos seus pais? Os pais, normalmente, preferem que os filhos tenham uma profissão segura, que estudem Direito, Medicina, Inglês.

Tive muita sorte, mais uma vez. Os meus pais, acima de tudo, queriam que eu fosse feliz. E se era isso que me fazia feliz, era por aí que eu tinha de ir. Isso é tão importante! Sempre tiveram confiança em mim.

 

É ainda mais extraordinário numa cidade de província, como é Guimarães, onde os horizontes são frequentemente mais estreitos.

É mais complicado. Ouvia muitas vezes: “Estás a estudar o quê?”, “Música”, “Ah. E a sério?”. [riso] A sério? As pessoas não têm a mais pequena ideia! É um curso difícil, exige muitos sacrifícios.

 

Tem pernas de bailarina; fez ballet?

Não!, infelizmente. Gosto imenso de dança. Na altura do “Fantasma”, um dos meus maiores desafios foi aprender a coreografia. Coitadinha da coreógrafa, que teve tanta paciência comigo… Tive de usar sapatos de pontas, embora não fizesse pontas…

 

Onde eu queria chegar era à sua relação com os palcos. Não os frequentou em pequena. Não foi uma child star, daquelas que gravam discos e se habituam a ter uma plateia.

Eu era muito tímida. A relação com o teatro começou, justamente, porque eu era tão tímida que mal falava. Eu nem dizia olá às pessoas! Os meus pais pensaram que a melhor coisa que podiam fazer era pôr-me num grupo de teatro amador. Tinha 12, 13 anos. Comecei no Círculo de Artes e Recreio de Guimarães. E foi uma paixão!

 

Consegue recuar e pensar o que é que foi tão estimulante para si?

Não sei, especificamente, o que foi. Talvez vestir um figurino e encarnar um personagem diferente. Não ter de ser eu a inventar [o que dizer]. Ter um guião. E conheci pessoas do mundo das artes, que gostavam de música. Esse mundo fascinou-me. Descobri a paixão pela arte de representar. Sempre gostei de histórias. Tinha amigos imaginários. Contava histórias aos gatos…

 

É filha única? Essa descrição e vivência podiam ser a de uma filha única.  

Tenho uma irmã nove anos mais velha. O meu pai trabalha com calçado, a minha mãe não está a trabalhar. Tive boas bases.

 

Conte uma história que ilustre isso.

Lembro-me de assistir a um concerto no Paço dos Duques em Guimarães com uma soprano fabulosa; no fim consegui falar com ela, que era muito simples e acessível. Jurei a mim mesma que se algum dia conseguisse alguma coisa nunca deixaria de ser assim – simples e acessível. Admiro essas pessoas, que não consentem que a fama lhes suba à cabeça. Lá porque canto, não quer dizer que seja superior ou inferior a ninguém. Não me dá desculpa para ter atitudes de diva ou tratar mal seja quem for. Os meus pais, se me vissem ter uma atitude dessas, nem que fosse uma coisa pequena, não deixariam passar!, ainda ia bem a tempo de levar um raspanete. E era merecido.

 

É ainda muito ligada à família.

As saudades da família apertam, lá. Apesar do telefone e do skype – que nos salva a vida! – é muito diferente poder passar umas horas à volta da mesa, a conversar. Volto ao meu quarto, em Guimarães, e a primeira coisa que vejo é a minha janela. Atrás é um monte, com eucaliptos. Lembro-me perfeitamente de estar sentada na janela, a ouvir coisas como o “Fantasma da Ópera”. E sonhar. Como é que seria estar em palco? E agora, tudo está igual, mas consegui fazer parte disso com que sonhei.

 

Como é o seu quarto?

É grande, tem armários enormes, com os meus diários. O primeiro diário data de quando comecei a escrever, tinha seis ou sete anos. Dava imensos erros! “Hoje acordei e fui com um amigo imaginário, blablabla…”. Eu acreditava piamente naquelas coisas. Talvez fosse solidão, e a procura de um refúgio. Além dos diários, guardo os brinquedos, as miniaturas, as casinhas, as bonecas, os brinquedos das bonecas. Um teclado onde comecei a estudar – agora está cheio de pó. As partituras, levei para Londres. E livros. Gosto de romances. Recentemente leio peças – Tennessee Williams, por exemplo.

 

Que experiências teve de desilusão e fractura? De se abrir a porta do sonho e lá dentro estar um quarto vazio.

É interessante dizer isso, porque as pessoas têm uma ideia muito errada do que é o mundo do espectáculo. Por exemplo, o contrato que fiz com o “West Side Story”: um ano e meio, a viajar de duas em duas semanas. Mas não é viajar em primeira classe! O cansaço que implica fazer oito espectáculos por semana… Deixei de fazer vida social, porque manter a voz a 100% todos os dias exige uma disciplina grande. Não se pode sair, não se pode beber, não se pode fumar – não é que eu quisesse. E ter ido para fora implicou muitos sacrifícios. É duro estar longe da família e dos amigos.

 

É uma disciplina parecida com a que tem um atleta de alta competição?

Sim, é semelhante. A forma física é também importante. Se falhar num espectáculo recebo logo telefonemas dos escritórios. “As pessoas querem ver-te a ti, mas estás doente. O que é que se passa?”. Se telefonar a dizer que tenho um amigdalite e que é impossível fazer o espectáculo, dizem: “Ok, está bem”. Passado um bocado ligam a perguntar: “Mas de certeza que não podes fazer?” Nunca querem que seja a substituta. Também eles recebem reclamações… “Fui ver o espectáculo para ver o elenco A, e não para ver uma substituta”.  

 

A pressão é no sentido de levar uma vida regrada para não ter amigdalites.

Sempre. E a responsabilidade, se as tiver, é do artista. Ele é que tem de proteger-se das correntes de ar… Aconteceu-me estar doente e estar também doente a minha substituta… E agora? Alguém tem de fazer o espectáculo, doente ou não. E fui. Fiz o espectáculo com febre, etc. Se correr menos bem, somos nós que estamos expostos, à crítica, a uma casa cheia de gente que se vai embora menos satisfeita e a pensar: “Esta miúda foi nomeada para um Olivier?, como é que é possível?”

 

As pessoas não sabem, mas também não têm de saber, em que condições o artista faz o espectáculo. Ele compra uma parcela de sonho.

Pois. Há cerca de um mês recebi a notícia da morte de uma grande amiga, de cancro. Foi um choque! Estar tão longe, não conseguir fazer o luto, ter de fazer o espectáculo… E o espectáculo é emocionalmente exigente. Fiz o espectáculo, sem dizer nada a ninguém. Bloqueei os sentimentos de modo a poder cantar. Cheguei à cena final e quando pude deixar sair o que estava lá dentro, desabei. Fiz esse espectáculo para ela.

 

Quando é que chora, fora do palco? Um actor trabalha com as suas emoções, com quem é.

Ultimamente, por causa disso, tenho chorado muito. É a primeira vez que estou em Portugal e não posso ir tomar café com a minha amiga. Ela era muito nova, tinha 30 anos. As coisas que me fazem chorar… Eu tinha uma relação de três anos que foi por água abaixo. Ele era actor. Mal nos víamos. A relação não resistiu às ausências, à pressão. Mas tenho sido poupada às grandes dores.

 

No meu mundo artístico, sofreu até encontrar o seu lugar?

Ainda em Portugal, tentei tanta coisa, tanta coisa… Quando decidi ir para Inglaterra, concorri a imensas bolsas, e não consegui nada. Cheguei a pensar: consegui entrar na escola e agora não vou poder ir. [riso nervoso] Não tinha forma de me poder sustentar em Londres. Perguntava-me: tenho mesmo asas ou sonhei com elas? E se as tenho, porque é que não as posso usar?

 

Como é que isso se resolveu? De onde veio o dinheiro?

Fiz um empréstimo! Um empréstimo que durava dois anos. O curso na Guildhall durava quatro. Sabia que, pelo menos dois anos, conseguia fazer. Os restantes, logo se via como conseguia pagar. Tive bolsa de estudo para as propinas, lá. E ao fim de dois anos consegui o meu primeiro emprego. Não era suposto. O suposto era entrar no mercado de trabalho no fim dos quatro anos.

 

Estava a hipotecar o quê, nesse empréstimo? O seu futuro jogava-se ali.

Sim. E os meus pais hipotecaram a casa. Correu muito bem, mas podia ter corrido mal.

 

Pelo meio, serviu nos cafés? Faz parte do filme…

Sim! Fui empregada de mesa num restaurante perto da escola, onde trabalhava uma grande parte dos alunos da escola. Estudava a tempo inteiro, e com um nível de exigência elevadíssimo. Saía da escola e trabalhava até às duas da manhã, a ganhar cinco libras à hora. No dia seguinte, voltava ao mesmo. Mas valeu a pena.

 

Implicou um grande sacrifício.

Eu sabia que estava a fazer aquilo com um objectivo bem definido: conseguir manter-me na escola. Por um lado, gosto de ter tido que fazer isso. Trabalhar. Esforçar-me. Agora dou muito valor àquilo que tenho. Nunca me vou esquecer que há uns anos, para ir tomar um café ao Starbucks, tinha de pensar se tinha dinheiro para isso. Passei esse tempo todo com medo de chegar ao fim dos dois anos sem saber como ia pagar o empréstimo. Tirava-me noites e noites de sono. Não era só eu a envolvida no processo, a minha família estava envolvida nas minhas escolhas. “Vou ter de arranjar dinheiro, não posso deixar os meus pais perder a casa”. Senti pânico.

 

O “Fantasma” salvou-a. Foi o seu primeiro trabalho enquanto cantora?

Foi. E foi no tempo certo: comecei os ensaios em Agosto e tinha de começar a pagar o empréstimo em Setembro.

 

Como é que foi escolhida para o “Fantasma da Ópera”?

Vi o anúncio no jornal. Procuravam uma “Christine”. Audições abertas – o que é muito raro. Achei que seria engraçado ir, mais pela experiência de fazer um casting para um musical do West End.

 

Acreditou que podia ser escolhida?

Uma pessoa tem sempre o sonho de ser escolhida… Mas estava 99% segura de ser quase impossível conseguir. Porque havia muita gente, e muita gente com mais experiência. Eu ainda estava a estudar, ninguém me conhecia de parte nenhuma. Cair de repente no West End era impensável. Mas tento sempre. Não se perde nada por tentar.

 

Quanto tempo demorou a saber a resposta?

Foram oito meses de chamadas e rechamadas. “Agora queremos voltar a ouvir-te”. Nas primeiras duas, três vezes achei que era mesmo fixe!, queriam ouvir-me. Depois comecei a perceber que estavam mesmo interessados. As coisas começaram a tomar um carácter mais sério. E aí entrou a pressão e o medo. No início, estava lá pela desportiva. Comecei então a trabalhar com a minha professora nas peças que tinha de interpretar. Quando me chamaram para fazer provas no palco, fiquei tão contente! “Nem que seja por dez minutos vou ser “Christine” num palco do West End”. Lembro-me perfeitamente de entrar e de ver no palco tudo aquilo que conhecia a partir das fotografias. Há anos que tinha as partituras e as fotografias do “Fantasma da Ópera”.

 

Frequentou uma escola muito boa, altamente competitiva, onde estão pessoas de todo o mundo. Olhando para os outros, achava que era uma das melhores?

Não. As pessoas estão lá por um motivo forte, passam por audições sucessivas. Percebe-se desde cedo que cada uma das pessoas, se se empenhar e trabalhar, no final do curso tem um lugar no mercado de trabalho – qualquer que seja. Mas na escola, se a pessoa não se empenha o suficiente, mandam-na embora. Estão a ocupar espaço, há muita gente na fila de espera. Assisti a várias pessoas a serem… dismissed [dispensadas].

 

Conseguiu acabar o curso?

Fiz os dois anos. Quando começou o “Fantasma da Ópera” ainda tentei conciliar as duas coisas, mas foi impossível. Oito espectáculos por semana e a escola… Não dava. Entretanto, como tive uma média muito alta nesses dois anos, contactaram-me para me dizer que ia conseguir o diploma. Com mérito. Por causa, também, do trabalho que tenho feito. A escola vive muito da fama dos alunos.

 

Ganhou o suficiente para pagar o empréstimo?

Ah, ainda estou a pagar. Recebemos semanalmente e todas as semanas ponho dinheiro de lado para o empréstimo. Mas a vida passou a ser mais tranquila. Já posso ir ao Starbucks as vezes que me apetecer! [gargalhada] Comecei a dormir descansada.

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2009

 

 

 

 

 

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