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Anabela Mota Ribeiro

Carminho

08.03.17

Carminho é o mais recente fenómeno da música portuguesa. Um fenómeno que se sabe que não ficará por aqui. Sabe-se como? Ouvindo-a.

O seu disco de estreia, Fado, foi elogiado pelos pares, pela crítica, pelo público. Um estranho caso de consenso num país dado à discórdia e à maledicência. Os seus concertos esgotam. A Mesa de Frades, casa de fados onde canta à quarta-feira, enche-se para a ouvir.

Quem é ela? É uma menina que interrompe o discurso para dizer que apareceu um arco-íris bonito. É uma mulher que diz: “Os meus pais nunca sonharam para mim coisas que não sonhei. Nunca projectaram em mim nada que não tivesse sido uma decisão minha”.

Tem uma vida cheia. E tudo está ainda por acontecer. Isso constitui uma dádiva. Uma, das muitas que recebeu. Carminho, ou Carmo Rebelo de Andrade, também deu. Dá.

Isto tudo aparece no modo como ela canta.

 

Já está habituada ao sucesso? A ser considerada a grande revelação do fado. Ou está assustada com a velocidade com que tudo isto aconteceu?

Não estou de todo habituada. Tudo está a evoluir tão rapidamente que não chega a haver tempo para me acostumar. É especial o que me está a acontecer. Estou muito feliz, mas relativizo tudo isto. Agora tenho sucesso; mas o que é isso realmente representa? O que é que isso faz de mim? Não posso perder de vista o que estou a fazer, nem a certeza de que o que estou a fazer me está a fazer feliz.

 

O que é que já mudou na sua vida e em si? Que impacto tem esta exposição e este sucesso em quem é?

De uma forma prática, mudou o meu dia a dia. Para além dos concertos, tenho trabalho de casa. Não só de recolha de repertório, mas também de partilha com produtores, de preparação do que vou fazer. Trabalhar a minha voz, ter cuidados que antes não tinha. Grandes mudanças interiores: são as de me questionar constantemente. Posicionar-me no que eu acredito. É muito bom ouvir elogios, mas, se calhar, daqui a algum tempo, vou ouvir críticas. Não posso ficar aprisionada àquilo que os outros pensam do meu trabalho. Há que trabalhar interiormente para construir uma fortaleza que me proteja. Não me posso deslumbrar, nem ficar afectada demasiadamente.

 

Em que momento é que decidiu que era mesmo isto? Basta ir ao youtube e vê-la a cantar o fado com 12 anos para perceber que a história já é antiga…

Houve um momento. Foi no avião, do Brasil para Portugal, no fim de 2007, quando regressava de uma viagem à volta do mundo. E agora, o que é que vai ser? E foi instantâneo. Não havia mais a ponderar. O fado, além de ser o que mais gostava de fazer, podia também ser a minha profissão. Antes, achava que o fado era tão um braço meu, que não podia ser a minha profissão.

 

Como assim?

Eu achava – pensamento naif! – que era preciso ter um computador e uma secretária, um horário e um projecto, um orçamento, clientes. Dava-me tanto prazer cantar, era tão fácil, que não achava digno ter uma profissão onde não tivesse de ter esforço. Não era meritório. Agora percebo que é preciso esforço e empenho, que o talento é uma percentagem pequena em relação ao que é preciso fazer para se fazer disto uma profissão. É preciso muito trabalho, abdicar de coisas, nunca perder o fio traçado, encontrar equilíbrio para viver emoções fortes. Para se cantar o fado de modo verdadeiro temos de estar sempre a confrontar-nos com sentimentos. Custa e é trabalhoso.

 

Antes da viagem, tirou um curso superior.

Estudei marketing e publicidade. Para além do curso, ia cantando, ganhando uns trocos, uma coisa muito amadora. Foi aí que consegui dinheiro para a viagem. Já havia pessoas a perguntar-me porque é que não fazia disso a minha profissão, editoras fizeram-me convites para gravar. Nunca me senti preparada. Não sabia bem o que é que eu era, de que é que era feita, não sabia o que ia dar.

 

Quando se canta o fado, canta-se quem se é.

Exactamente. Então fui-me embora, fui viajar. E quando soube, soube com certeza que era aquilo.  

 

O que é que a viagem lhe fez? Pode resumir a viagem?

Parti sozinha para a Índia. Tinha 21 anos. Peguei na mochila, comprei um bilhete de avião, que é uma volta ao mundo com vários destinos. Chega-se lá e não há nada. Não temos marcações, é muito à aventura. Um dos meus objectivos principais era fazer voluntariado. Sabia que ia, através do voluntariado, encontrar mais respostas acerca de mim.

 

Sabia como? Intuía?

Durante a faculdade fiz voluntariado. Tinha tido experiências, isso fazia-me crer que era por aí. Não me enganei. Fui primeiro para Calcutá, para a primeira casa que a Madre Teresa fundou. Tratar moribundos. Tratar dos últimos momentos dessas pessoas, dar-lhes alguma dignidade (quem está ali não tem família, não tem casta). Ia cheia de certezas, que tinha amor para dar, amizade, conforto. E aquilo de que os outros precisam não é nada daquilo que nos achamos que eles precisam. Se calhar precisam disso, mas num formato que ainda não conhecemos. Precisei de ir ao encontro dessas pessoas; elas é que tinham de me ensinar, mostrar o que eu tinha para dar.

 

O que é que fazia?

Dar-lhes de comer, a higiene pessoal, tratar-lhes das feridas, umas conversas, um carinho. O que é que podemos fazer para que eles se sintam amados, respeitados, dignificados? Descobrimos que cantar uma música pode ser suficiente. Ou um sorriso. Ou o modo como se penteiam os cabelos. Como se está atento à pessoa e responde quando ela chama. Nunca deixar as pessoas nuas. Não mostrar repugnância. Temos de fazer um esforço para libertar-nos disso e ver o outro para além das suas feridas. O que nos repugna são as feridas, mas o que faz com que precise de nós são as feridas… É lutar com os nossos medos e saber do que somos capazes.

 

Sabia que era capaz disso?

Não, e descobri.

 

Nunca se tinha ocupado, aqui, de uma pessoa assim?

Na faculdade, fiz a volta dos sem abrigo durante dois anos, à noite, a dar refeições. Estive também num lar de idosos acamados a dar apoio aos almoços, jantares, fins de tarde. Mas precisei de ir mais fundo. Também por uma questão pessoal: cresci numa família privilegiada. Tive uma infância feliz. Eu brinquei. Eu tive os meus brinquedos, que eram meus. Pude ter o meu território. Pude viajar, pude estudar, pude ter amigos, pude sair à noite. Não tive que ser mãe antes do tempo, não tive que tomar conta dos meus irmãos. Pude fazer coisas que, mesmo em Portugal, não estão garantidas. Hoje em dia dou-me com pessoas muito diferentes de mim. E penso, em relação a pessoas que estão ao meu lado, com quem trabalho, que não tive e passar por aquilo por que elas passaram. Tive necessidade de me despojar dos meus bens e dos meus privilégios, misturar-me com pessoas que sentem outras coisas. E tentar ser uma delas. Continuo a ser privilegiada, porque, assim que tenho medo, posso pirar-me.

 

Saber que tem uma rede muda as coisas.

É um trapézio com rede. Ainda assim, fiz o exercício de desprender-me de tudo o que tinha em casa, ir, tentar dar-me ao máximo às pessoas, respeitá-las como elas são, nas suas diferenças. Foi uma luta muito grande. Isto são frases muito bonitas ditas assim… Às vezes nem me sinto bem em dizê-las, porque parece que sabia o que ia encontrar… Não. Foi um percurso.

 

Conte um episódio.

Foi duro perceber que, além do tempo que tinha dispensado, além do dinheiro que tinha pago, além da disponibilidade, ainda tinha que fazer o trabalho bem feito. Não podia falhar. Por exemplo: estava atarefada, abria o armário da roupa, tirava uma fralda e desarrumava as outras; mas como estava com pressa não arrumava. Uma freira deu-me um raspanete, disse-me: “Houve alguém a arrumar isto por ti”. Cerrei os dentes e fiquei furiosa! Não respondi, obviamente. Por dentro, pensei: “Que lata!, venho eu do meu país, saio do meu quentinho, estou a pagar para estar aqui, e ainda me vêm dizer como é que devo fazer”. Mexeu com o meu orgulho. Tive de pôr-me no meu lugar. Percebi que o tempo disponibilizado e o dinheiro eram apenas o compromisso. É quando a pessoa assina o papel. O fazer é outra parte. Elas são voluntárias, mas não se dão ao luxo de falhar só porque o estão a fazer de graça.

 

Que é que aconteceu a seguir à Índia?

Um mês depois, encontrei-me com a minha prima Rita, que me acompanhou na viagem. Da Índia fui para a China, Tailândia, Vietname, Laos, Cambodja, Malásia, Singapura, Timor, Austrália, Nova Zelândia, Ilha de Páscoa, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Um ano.

 

Que contacto manteve com casa?

O que podia. O que eu queria.

 

Estou a perguntar até onde queria distanciar-se do que tinha aqui, das referências; até onde estava isolada.

Não levei telemóvel. Era impossível as pessoas contactarem-me. Isso foi muito importante para mim. Não podia ser interrompida no meu propósito. Mas até fui: o meu irmão casou a meio e tive de vir a Lisboa. Estar aqui foi estranho. Mas depressa recuperei.       

 

Ia cantando, durante a viagem? Cantando sozinha, como vinha a cantar agora, subindo a rua.

Vinha? [riso] Fado, não cantei. Estava a expurgar, a deitar fora. Mas cantei no voluntariado. Havia uma senhora que todos os dias queria que lhe cantasse os parabéns!, em inglês. E eu cantei. Cantei em Timor numa Ordem Religiosa, que pretende combater a fome e a pobreza na ilha e ajudar jovens a encontrar um ofício. Também dei aulas de português. Foi um voluntariado diferente: foi um investimento no futuro. O meu quarto, pequenino, era parede com parede com a capela. Acordava às seis da manhã, com os meninos a cantar. Eles sabiam imensos cânticos.

 

Era uma preocupação, ganhar o seu dinheiro para se sustentar na viagem?

Sim. Já ia mais ou menos preparada. Mas cantei na Embaixada de Portugal na Argentina, Chile e Uruguai. Ganhei mais uns trocos, para me aguentar. Viajei a muito baixo custo. As dormidas: o mais barato que havia. Comida: o mais baratinho que havia. Não comprei nada.

 

Ao perguntar-lhe se cantou, quero chegar ao seguinte ponto: quando é que o que viveu esse ano, essa em quem se transformou, apareceu na sua forma de cantar?

Muita gente me disse que eu estava a cantar de modo diferente, quando cheguei. Eu não conseguia identificar. A intenção, a vontade de cantar, era a mesma. Mas o que saia era diferente. Realmente fiquei diferente. Estou ainda a tirar sumo daquela experiência. E tento aprisionar o mais possível tudo o que conquistei nessa viagem. Não quero perder essa liberdade de me dar aos outros. Rapidamente recuperei vícios. Há uns que me custa reconhecer.

 

Em que é que está a pensar?

No egoísmo com que às vezes vivo. Certos sentimentos que sentimos e não gostamos de sentir. Entrar em mesquinhices porque não se está aberto para o essencial. Quando estamos muito perto, temos atitudes possessivas, estranguladoras. Não gosto disso. É uma luta constante em mim.

 

O catolicismo é central na sua vida?

Sim. Mais do que o catolicismo: a Fé. Tenho Fé. Mais importante do que a religião que tenho, é Deus. É um braço meu. É tão natural como respirar. Depois, toda a prática está lá. Quando se está do outro lado do mundo, (na China há muito poucas igrejas), tenho sempre comigo Deus. E rezo.

 

Nunca se sentiu desamparada?

Não. E é assim desde sempre. É uma dádiva. Não tenho mérito nisto: foi Deus que quis que eu fosse próxima dele.

 

Como foi a sua infância feliz?

Nasci em Lisboa, sou a mais nova de quatro irmãos, e com três anos fui viver para o Algarve. Vivemos numa aldeia ao pé da Serra. Paderne. Perto de Boliqueime. Vivi uma infância despreocupada.

 

Foi importante? Ter vivido num espaço menos ameaçado do que são as cidades hoje em dia. Em Lisboa brinca-se menos da rua.

Não é um pormenor insignificante. O que mais me ocorre: são pessoas diferentes. Até à quarta classe, aprendi a dar-me com todo o tipo de pessoas. Frequentei uma escola internacional em Vilamoura. Tinha estrangeiros, algarvios, lisboetas. [pausa] O sonho dos meus irmãos era ter um café! (Os colegas tinham todos um café). Para poderem beber Coca-Cola quando queriam e comer gomas à vontade. Os outros meninos achavam que nós éramos pobrezinhos, porque estávamos sempre com os mesmos calções. Herdávamos a roupa uns dos outros. O meu irmão herdou calções de ganga de todos os primos.

 

E no seu caso?

Tinha uns vestidos que picavam, mas até tinha roupas giras. Uma coisa que tenho da minha infância: sempre me destaquei por alguma coisa. Por causa disso, ficava mais sozinha. Ouvia imensa música. Chorei a morte do Freddy Mercury com sete anos! Fui para um cantinho do jardim chorar! É o episódio mais hilariante da minha vida! Aquele que pode ser contado, um dia, nas biografias quando eu for uma grande estrela! [risos] A minha irmã tinha mais seis anos do que eu, e os rapazes tinham as brincadeiras deles; eu aprendi a brincar sozinha. Aprendi a confiar no meu gosto.

 

O que é que ouvia?

Fado. A minha mãe é fadista. Ouvia Amália, Marceneiro, Maria Teresa de Noronha. Ouvia Queen, REM, Simon and Garfunkel. E música clássica. Depois da quarta classe, vim para Lisboa. Fui para as Escravas, um colégio de freiras. As minhas amigas não achavam piada ao fado. Houve ali uma fase em que escondi que gostava de cantar…

 

Como é que começou a cantar?

Cantávamos todos, no carro. Para não discutir, para não andarmos à batatada. Cantávamos tudo. O meu pai e a minha mãe abriram uma casa de fados, o Embuçado. Ia com a minha mãe fazer as compras, ia à tarde estar com o pessoal, bisbilhotar em tudo. Um dia, a minha mãe foi convidada para um concerto de beneficência; perguntaram se os artistas tinham um filho que quisesse cantar. “Querem cantar um fado?”, “Não, nós não queremos”. Eu quis.

 

É a tal coisa que está agora no youtube…

É. A primeira vez que cantei em público, para alguém que não os meus pais e os meus irmãos, foi no Coliseu dos Recreios, para uma sala a abarrotar!

 

Com medo?

Não, com inconsciência. Ia com umas sabrinas com os pés todos encarquilhados. Estavam apertadas. Estava furiosa porque ia com uma saia aos folhos… Era naquela idade em que não se é nem carne nem peixe, nem menina nem mulher. Eu queria usar saltos altos e alcinhas. Graças a Deus a minha mãe teve bom senso. Na altura odiei, mas agora acho querido. Ia ser ridículo ver-me com 12 anos e vestida de Marilyn Monroe.

 

Cantar em público: teve continuidade?

Passei a ser uma espécie de mascote. Acompanhei a minha mãe em sessões de fado em paróquias, acções de beneficência, jantares de amigos. Adorava! Ao fim de semana ia ao Embuçado e de vez em quando cantava. Ouvia os outros fadistas. Estava lá a Beatriz da Conceição, a Celeste Rodrigues. Foi ali que conheci a Amália. Comecei a apaixonar-me. Os meus irmãos não ligavam nenhuma, e eu estava sempre com a minha mãe, a dormir nos bancos…

 

Nos fadistas que referiu, não está Argentina Santos. Há nela um lado castiço que aparece também na maneira como você canta. Surpreende que esteja mais próxima desta (na maneira de cantar) do que de Maria Teresa de Noronha (do mesmo meio social).

Não referi porque ela não cantava no Embuçado e fui poucas vezes ouvi-la à casa de fados dela [A Parreirinha de Alfama]. Mas admiro-a muito. Esse lado castiço: vem da Beatriz da Conceição. O meio social: quando vim do Algarve, fui para um colégio onde todas as meninas tinham um percurso parecido ao meu. Mas eu falava algarvio e tinha rosetas! Achavam que eu era uma tacanha, e até achavam que eu não era de família.

 

Como é que lidou com isso?

Nunca me interessou. Adoro a minha família porque é a minha família. Só somos aquilo que fizermos e quisermos ser. Nunca procurei, através da minha família, chegar a lado nenhum. Nem senti que o nome Rebelo de Andrade me levaria a algum lado. Só agora me deparo com o facto por me perguntarem sobre a minha “família aristocrática”. “Não acha que chega mais longe por ser filha deste e daquele?”. “Ah é, isso acontece?” E descobri que acontece. Sou muito naïve.

 

Muita gente do meio, tece-lhe rasgados elogios. Do Carlos do Carmo ao Camané. Tem uma máquina de luxo a trabalhar consigo. Com pessoas como o João Pedro Ruela, fundamental no percurso de Mariza, que faz a direcção de produção do seu disco e é seu manager. Ou o cineasta João Botelho que assina os seus vídeo-clips.

Há quem diga que foi estratégico. Não ter querido gravar logo, esperar, criar expectativa nas pessoas. Não foi nada disso.

 

Toda a gente já tinha ouvido falar da Carminho e ainda não havia disco.

Sim. Falava-se e não havia nada. Foi uma escolha inteligente: não pôr o carro à frente dos bois. Eu não estava pronta. O Carlos do Carmo e o Camané viram-me crescer. Ouviram-me crescer. Influenciaram-me directamente. Deram-me muitos conselhos. Têm carinho por uma pessoa que viram crescer. A equipa de luxo: vem da influência desses opinion makers. Foi sorte de percurso, foi destino, foi estar no sítio certo à hora certo.

 

Vive com os seus pais. É curioso pensar na que chega da Mesa de Frades às quatro da manhã e que volta para o seu quarto de adolescente…

[riso] Vivo com os meus pais e vivo muito bem. Os meus pais sempre me deram muita liberdade. Perguntaram-me como é que consegui viajar pelo mundo e voltar ao meu quarto. Sou ainda aquela também. Mas não vou ficar naquele quarto para sempre.

 

Que projectos tem?

Está tudo para acontecer e isso é fabuloso! Vou cantar muito este disco, tenho concertos marcados para 2010. Nunca paro de ler e de procurar repertório, para poder amadurecer nessas coisas. Não quero cantar letras que não entenda, que não falem de mim ou que falem de uma coisa oposta àquela que eu sou. Nesta fase, só consigo cantar aquilo em que acredito, aquilo que sinto, aquilo que reconheço. Aí, consigo ser mais verdadeira.

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2010

 

Assunção Cristas

08.03.17

Paga-me um café que eu conto-te a minha história – diz um verso do poeta José Tolentino de Mendonça, amigo de Assunção Cristas. A deputada do PP contou a sua história e ofereceu café. Nasceu em 74, está no Parlamento desde as últimas eleições. Porque é que ela é de direita?

Assunção Cristas licenciou-se na Universidade Clássica, doutorou-se na Universidade Nova. Quando é que começou a distinguir-se? “Não sei. Quando escolhi ser professora, era porque isso me permitia ter a vida que eu achava que queria ter. Para ter uma família, para ter tempo para estar com ela, flexibilidade. Ensino Direito Privado, contractos e obrigações”.

Mas não foi aí que, especialmente, se distinguiu.

Tem a vida que achou que queria ter. A família, a profissão, a sua âncora. “Se isto tudo se desmoronasse, como é que eu ia subsistir? Sou sempre optimista. Haveria sempre maneira de dar a volta. Sou muito confiante nas minhas capacidades e nas das pessoas. Sei que faria o que fosse preciso.”

Distinguiu-se, aos olhos do grande público, na campanha do referendo da Interrupção Voluntária da Gravidez, em 2007. Estava do lado do Não. Antes disso, já tinha assessorado Celeste Cardona no Ministério da Justiça e substituído o socialista João Tiago Silveira no Gabinete de Política Legislativa e Planeamento.

É deputada do PP desde as últimas eleições, em Setembro do ano passado. É vice-presidente do partido e aposta pessoal de Paulo Portas. Encarna uma nova maneira de estar na política, como outros que nasceram na década de 70, para quem o mundo deixou de se dividir entre os bons e os maus. Uma geração educada num mundo globalizado, que frequenta as redes sociais, que vive bem com a (aparente) contradição de ser contra a despenalização do aborto e a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

É católica praticante. É casada e tem três filhos.

Pessoalmente é mais jovial do que parece nos debates na televisão. E mais feminina. Gosta de saltos altos.

 

 

Por que é que é de direita? É uma maneira de perguntar pela sua história?

Talvez. Estas coisas não são exactamente como as dos clubes de futebol – uma pessoa nasce numa família do Benfica e fica do Benfica a vida toda – mas tem algumas semelhanças. Sou de direita porque a minha família é de direita. Habituei-me a olhar para o mundo com os olhos de uma família de direita. Se alguma vez questionei isto? Muitas vezes as pessoas crescem na oposição, fazendo um contraponto ao que foi a sua herança. Nunca senti essa necessidade.

 

Quais são os valores da direita com que mais se identifica?

Um valor de direita, que também está associado à esquerda, é a liberdade individual. Uma liberdade que se impõe ao próprio Estado, que o Estado deve reconhecer e que não é o Estado que atribui. Quando olhamos para o modo como uma sociedade se organiza, e para o peso que o Estado deve ter, acredito menos naquilo que é uma matriz de esquerda: que o Estado tem o dever de tratar, organizar um determinado modelo. Mesmo que seja pelas boas razões. Não tenho disto uma visão maniqueísta.

 

Nunca teve?

Nasci em Luanda, os meus pais nasceram em África (o meu pai em Moçambique, a minha mãe em Angola). O nosso processo familiar está ligado à descolonização e ao sentimento de perda do seu espaço e da sua terra. Havia em casa a ideia de que os comunistas eram um pouco responsáveis pela forma como as coisas se tinham desenrolado. Engraçado: o meu pai ensinava-nos as cantigas revolucionárias. Grândola, Vila Morena cantava-se no carro!, e a Gaivota. A minha mãe irritava-se com isso.

 

Nasceu em 1974, vieram no ano seguinte.

Viemos numa altura em que era impossível ficar. Viemos com um bilhete de ida e volta – que ainda está guardado. Durante anos, os meus pais continuaram a falar do que tinha sido a sua vida e aquele processo, e continuam a falar.

 

Voltou a Luanda?

Vou regularmente por razões profissionais. A primeira vez que fui foi em 2004. Cheguei e senti-me em casa. Fui ver todos os locais que eram os das nossas vidas. A casa que tinha sido dos meus pais. O cemitério onde está um jazigo de família com o meu avô e o meu irmão pequenino. Nasceu em 75 e morreu logo depois. Fui ver o sítio onde era o escritório do meu pai. O consultório e o hospital onde a minha mãe trabalhava. (Sou muito chorona! Não era, fiquei chorona depois de ter tido filhos.)

 

Que recordações tem da sua infância?

Muito boas. Os meus pais tinham mais dez anos do que os pais das pessoas da minha idade. Casaram tarde, em 1970. A minha mãe é médica. O meu pai acabou o liceu e começou a trabalhar nas empresas do meu avô. Estava ligado a gado, café, construção. Quando era miúda, preocupava-me que fossem pais muito velhos. Achava que iam durar pouco tempo.

 

Quantos irmãos são?

Somos cinco, com oito anos de diferença. Quatro raparigas e um rapaz. Eu sou a do meio.

 

Teve de aprender a conquistar um espaço e uma atenção que naturalmente o irmão do meio não tem.

Os meus pais diziam-me que conseguia sempre, habilmente, juntar-me aos mais velhos ou aos mais novos consoante os interesses. [riso] Tenho três filhos, no outro dia aprendi uma regra: aliviar o mais velho, dar atenção ao do meio, apertar o mais novo. É o inverso do que costumamos fazer.

 

Ao perguntar pela sua infância e pela relação com a família, tento perceber como é que se destaca. No seu percurso político, impressiona a rapidez com que se afirma.

Nunca fui uma líder, nunca fui a mais popular da turma, nunca fui a mandona da turma. Sempre fui tranquila. Nunca tive grandes protagonismos, e nunca me preocupei com isso. Numa família de cinco [filhos], não há protagonismos.

 

Às vezes há. Pela rebeldia e pela distinção, por exemplo.

Pois. Na nossa não havia. Eu era de facto a melhor aluna, mas isso nunca foi valorizado ou evidenciado. “É preciso estudar, porque é isso que vos vai dar a liberdade de viver como querem”. O meu pai dizia: “Se tivesse seguido os conselhos do meu avô, neste momento era advogado”. Trabalhou sem descanso, e as coisas foram-se de um dia para o outro. Perdeu tudo o que era o seu contexto empresarial. Os nossos pais sempre nos deram uma educação católica, de que a família e o casamento faziam parte. O casamento deles era um exemplo disso. Tínhamos de, em contextos de crise, poder salvaguardar a nossa independência.

 

Os seus pais ficaram outros depois da descolonização?

O meu pai é mais optimista, adaptável, alegre. A minha mãe, sinto-a com muitas saudades e com um sentimento de não-pertença a este espaço. Porque é que isto continua a marcar a minha vida? Porque me mostrou que a riqueza não é o mais importante. O objectivo é ter instrumentos suficientes para ter uma vida com a qual nos sintamos confortados e onde possamos ter um papel de ajuda aos outros.

 

Isso entra por via do catolicismo?

Sim. Mas os meus pais não eram beatos. Íamos sempre à missa, aos Jerónimos, a nossa paróquia. Umas missas que eu achava muito chatas! Teve aspectos formativos importantes. Uma hora em que não se pode falar, é um tempo de paragem e preenchimento importante. Em nossa casa havia sempre gente, que ficava por períodos maiores ou menores. A minha mãe era a mais nova de cinco e todos os seus irmãos morreram lá em casa ou viveram lá na recta final das suas vidas. As minhas avós morreram na nossa casa (eu tinha 10 e 14 anos). Esta dádiva, esta preocupação com as necessidades das outras pessoas, familiares e amigos, marcou-nos. Hoje é uma casa aberta aos netos. A minha mãe reformou-se quando a minha filha mais velha nasceu para poder tomar conta dela.

 

Na infância conviveu com a morte. Como?

Com uma grande naturalidade. Uma das minhas avós teve uma trombose e esteve seis meses acamada. Éramos nós que a acompanhávamos ao quarto, depois do jantar. Ela não usava bengala, dizia que não precisava porque tinha as netas para a levar. E era verdade.

 

Uma grande naturalidade porque esse é o ciclo da vida? Isso que conta bate certo com os valores que professa na idade adulta, com aquela que politicamente é.

Seguramente. Já crescida, tive uma experiência dolorosa com os meus sogros. O meu sogro teve um AVC quando andávamos no primeiro ano da faculdade e ficou 13 anos sem falar. O meu marido tomava conta do pai numa altura da vida em que não é suposto tomar conta do pai. Depois teve outros AVC’s e morreu. Treze anos já tinha sido um ganho imenso, inesperado. Lamentámos, mas acolhemos como sendo uma coisa natural. A minha sogra teve três cancros e morreu dois anos e meio depois.

 

A sua comoção acontece quando pensa nisso retrospectivamente? No momento domina-a o pragmatismo ou a comoção?

No momento, sou uma pessoa de agir, estar, apoiar. Sou resistente, forte.

 

É essa a imagem que passa, de tenacidade e determinação. A par da jovialidade.

Sou. Quando é para fazer, faço. Não fico triste, ai meu Deus, e agora o que é que vai ser?

 

Nunca lhe ocorreu que a sua vida podia ser outra, diferente dessa que decidiu que seria? Não casar. Não casar com um igual. O seu marido é do mesmo estrato sócio, económico e ideológico.

Sim, mas é militante do PSD desde os tempos da faculdade. Apaixonei-me pelo meu marido e ele por mim quando tínhamos 17 anos. Foi uma coisa descomprometida, como são as coisas aos 17 anos. Não o escolhi porque correspondia a um perfil, porque preenchia os requisitos da pessoa com quem eu queria passar o resto da vida. Escolhi-o porque lhe achei graça. Sempre achei que me ia casar e ter filhos e que isso era uma coisa estruturante.

 

Uma replicação da família de origem.

Inegavelmente. Eu era feliz na minha família e tinha a aspiração de ter uma família feliz. E so far, considero-me muito feliz. Se Deus quiser, vou continuar a sentir-me feliz. 

 

Ainda não falou do momento em que percebe que é capaz, em que confia em si, em que começa a distinguir-se.

O doutoramento foi uma coisa relevante. A reclusão que o estudo implica também leva a um conhecimento profundo de quem somos, dos nossos limites e capacidades. Estive dois anos e meio só a trabalhar na tese. Estive na Alemanha, em Itália, a ler, a pensar, a escrever. Dominava um processo que dependia totalmente de mim, com a ajuda preciosíssima do meu orientador. A verdade é que tive dois filhos antes de concluir o doutoramento e defendi a tese grávida do terceiro. Ou seja, percebi que essa vida só de trabalho e estudo não me preenchia completamente. Lembro-me de ter telefonado ao meu marido, das caves da biblioteca do Max-Planck Institut, e de ter dito: “Não aguento passar mais uns anos assim, até que isto acabe, sem ter filhos”.

 

Podia não acabar, desistir?

Ah, não. Nas alturas mais dramáticas, pensava que quando acabasse ia abrir uma loja! O antídoto era esse.

 

Em 2002 foi trabalhar no gabinete da ministra da Justiça. Também isso se intrometeu na tese. Além de ter sido uma primeira aproximação à política.

Fui convidada pela Celeste Cardona. O meu orientador aconselhou-me a ir: “Vá, que vai crescer”. Eu tinha 27 anos. Deixei de sonhar com a tese e passei a sonhar com apoio judiciário.

 

E cresceu?

Muito. Ir para o gabinete da ministra da Justiça fez-me ver o Direito de uma maneira completamente diferente. Percebi, em concreto, que é um instrumento de resolução de problemas, de estabilização de relações sociais. E também isso foi muito importante para a tese. Corrigi coisas que tinha escrito anteriormente e dei-lhes outro sentido. Enriqueci-a.

 

Mais humana, menos abstracta?

Sim. Mais ligada aos problemas reais. Menos certa. Eu era amiúde chamada para isso pelo meu orientador, e achava que ele exagerava. Agora que estou na política, mais lhe dou razão.

 

Nessa experiência, gostou de ter poder? Como assessora tem algum poder, nem que seja o da influência.

É um poder informal. Ser assessora é estar próxima do poder, ajudar, influenciar (preparamos papéis, damos uma leitura das coisas que será ponderada…); mas é muito cómodo, porque não se dá a cara por isso. Acho que não se pode dizer que seja um exercício de poder, porque falta uma componente essencial, que é a responsabilidade. É um teste imperfeito. Mas gostei de perceber como é que as coisas se processavam. Como é que as coisas que dizíamos apareciam nos jornais.

 

Ainda não falou de dinheiro. No seu percurso, teve de trabalhar porque o dinheiro importava? Foi determinante?

Importava e importa, mas na estrita medida da necessidade. Se eu quisesse ganhar dinheiro, muito dinheiro, teria escolhido ser advogada a full time. Se tudo tivesse corrido bem, nesta altura teria 12 anos de advocacia e ganharia muito mais do que ganho aqui ou do que ganhava na faculdade. O meu objectivo era ganhar o suficiente para poder proporcionar à minha família aquilo que também eu tinha tido dos meus pais. Claro que me preocupou ter uma profissão em que ganhasse dinheiro, porque não sou rica e tenho de sustentar, com o meu marido, a minha família. Quando há um ano comecei a trabalhar como consultora na Morais Leitão, perguntaram-me quanto é que tencionava ganhar; “O que estiver bem para os senhores, está bem para mim. Até porque essa não é a minha principal motivação”. Continua a ser verdade. Não é isso que me move. Se fosse, não estaria na política.  

 

A aproximação à política, e a visibilidade junto do grande público, faz-se por altura da campanha do Não à despenalização do aborto, de que foi uma das caras.

Casualmente. Um amigo tinha um amigo que estava a montar um blogue, e precisava de mulheres. Escrevi um texto, escrevi outro. Depois era preciso responder a um texto grande do Daniel Oliveira; devia ser uma coisa mais estruturada, densa, e pediram-me que o fizesse. Esse texto acabou por ter muito eco e começaram a pedir-me para ir a sessões de esclarecimento. Havia ali mais uma pessoa que podia ajudar. Fui a uma sessão no liceu Camões, que foi especialmente difícil.

 

Porquê?

Eu estava ali em minoria, com adolescentes. Foi difícil chegar ao outro, pôr-me na posição deles e fazê-los compreender uma realidade, que para eles era antiquada e abstrusa. A seguir fui ao Prós e Contras [na RTP]; a ideia é que fosse um jurista e um médico, um homem e uma mulher. Caiu-me tudo aos pés! E agora? Mas se alguém achava que talvez eu fosse capaz, nada como experimentar. “A matéria, eu sei”.

 

A sua posição era absolutamente coincidente com a do grupo que representava? É nesse sentido que diz que sabia a matéria?

Estava por dentro das várias sensibilidades do Não e estava por dentro do que era o argumentário da outra parte. Não me preocupava o tema, preocupava-me nunca ter ido à televisão. Eu sabia lá!, se calhar chegava lá e engasgava-me. Deram-me algumas indicações, o programa correu bem. Gostei muito de ir.

 

De que é que gostou?

De poder expor as coisas, de debater. Na faculdade gostava de fazer orais (comecei a fazê-las no primeiro ano porque os professores nunca davam muito boas notas na escrita). Um combate oral é stressante e muito estimulante. No Prós e Contras gostei de combater aguerridamente. O Dr. Portas viu e mandou-me um sms a dar os parabéns (eu nunca tinha falado com ele, ele arranjou o meu contacto). Quando voltou ao CDS telefonou-me. A mim, à Isabel Galriça Neto, a um conjunto de pessoas. A convidar, a provocar, a vir para a política.

 

E aí, era política a sério. Com responsabilidade.

Já era política. Não estava nos meus planos. Lembro-me de ter dado uma entrevista na altura do referendo e de eles me perguntarem: “E agora, política?”, “Agora, continuo na minha vida normal!”. Não fui à procura de um partido que me quisesse. Não pensei que tinha descoberto uma vocação para a política. Não sabia o que era política partidária. Embora tenha sido evidente para mim que os partidos têm imensa importância. Havia 15 movimentos do lado do Não e três ou quatro do lado do Sim; havia vários partidos políticos empenhados do lado do Sim, havia um partido (o CDS) empenhado no Não, o PSD em si não estava empenhado. A verdade é que perdemos de forma retumbante. Acho que também foi por isso.

 

Como é que encarou o convite de Paulo Portas para vir para o partido?

Disse ao Dr. Portas: não sei se gosto, não sei se isto faz sentido, não sei se isto é para mim, mas vamos experimentar. Pensei, falei com imensa gente – normalmente falo.

 

Porquê?

Gosto de ouvir os outros. Mas posso seguir a minha intuição. No caso do CDS, segui. Tive amigos que me aconselharam: “Se queres ir para a política, ao menos vai para o PSD”.

 

Vai para quem tem possibilidade de ser Governo – era isso que lhe estavam a dizer?

Um amigo, muito empenhado no PSD, dizia-me: “Queres que fale ao presidente do PSD para ele te convidar?”. Eu dizia-lhe: “Repara, não estou a correr para um partido, estou a reagir a um convite”. Não me fazia sentido ser convidada pelo CDS e ir para o PSD. Além de me sentir mais próxima do CDS. Não teria ido para nenhum partido se não tivesse sido convidada.

 

Teve a noção, a partir da frase do seu amigo, de que era um valor seguro, disputado?

Achei aquilo tão disparatado… Não ia dizer: “Vejam lá quem é que dá mais”, como num leilão.

 

Porque é que se sente mais próxima do CDS do que do PSD?

A matriz democrata cristã diz-me bastante mais. Tem mais a ver com os valores da liberdade, subsidiariedade e solidariedade de que falava no começo da entrevista.

 

Tem de fazer menos concessões em relação ao que pensa num partido como o CDS do que num partido como o PSD?

Sinto-me mais confortada num partido onde sabemos porque é que as coisas são como são, porque é que nos orientamos desta maneira. Como o PSD não tem ideologia, dá para todas as tendências se acomodarem lá dentro...

 

Precisa de saber bem que chão é que pisa?

Sim. Mas há áreas em que o CDS tem uma posição e eu tenho outra. Se calhar, nessas, no PSD estaria mais livre. Mas é a consequência de estar num partido político. Há uma inevitável perda de liberdade, que tem de se assumir e aceitar. Há declarações de voto para isso.

 

Já teve de engolir sapos?

Fiz até agora um ou duas declarações de voto. Não posso dizer que seja engolir sapos. Sabia o que estava no programa eleitoral, que coordenei. O mais difícil foi a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Fiz uma declaração de voto, mas votei como todo o partido votou.

 

Pode ser mais específica?

Na declaração de voto disse que votava com o partido, porque era o que estava no programa eleitoral, tinha havido um compromisso dentro do próprio grupo e toda a gente votaria dessa maneira. Mas só por essa razão votava contra a proposta do Governo. Eu seria favorável a um casamento [entre pessoas do mesmo sexo]. O que pode parecer uma posição estranha da minha parte. Muita gente me aborda achando que sou contra; mas não sou. Curiosamente, desagradei toda a gente. Os que concordavam comigo, reclamaram, mesmo com a declaração de voto, por acharem que isso não servia de nada. E reclamaram comigo os que achavam que eu devia ser radicalmente contra e, no final, tinha feito uma declaração de voto; então, que tivesse sido contra!

 

Não se incomodou de ficar sozinha.

Não. Neste caso, fiz o que podia fazer, de acordo com a minha consciência. Dou muito valor ao contrato com o eleitorado. É mau dizer-se uma coisa e fazer-se outra. Todos cedemos um bocadinho para que fique espelhada a sensibilidade maioritária.

 

Essa sua posição tem a ver com a convivência…

Com amigos homossexuais, sim. Tenho amigos próximos que me fazem ver as coisas de outra maneira. Fazem-me perceber que são pessoas iguais a nós, com tanto desejo e expectativa de ter uma vida feliz como nós. O que digo aos meus amigos que não entendem esta minha posição é que há um caminho de felicidade que não pode ser fechado, sobretudo quando os valores dessas pessoas não comprimem os nossos. Não acho que isto seja um ataque à família “tradicional”. Tem de haver espaço na sociedade para que todos se sintam confortáveis. E não me parece que uma família com uma mulher, um homem e filhos possa ficar afectada por outras realidades.

 

A sua posição sobre este tema parece um elemento dissonante, sobretudo se pensarmos naquela que conhecemos da discussão sobre a despenalização do aborto. Nessa altura, temeu ser considerada retrógrada?

Não me preocupa isso. Na conversa com os jovens no liceu Camões, dizia que era preciso haver prevenção, saber bem com quem estão, tomar a pílula, usar preservativo. “E se isso tudo falha?” Se falha, as pessoas têm de estar disponíveis para aceitar as consequências, e acho que o aborto não é uma solução. Os actos têm consequências e há responsabilidades associadas a eles. Não pode haver o descartar da consequência. Se isto é ser retrógrada… Eu acho que isto é proteger os que são mais fracos. Acho que isto tem a ver com a doutrina cristã, que tem duas componentes: a liberdade e a responsabilidade. A sociedade, ao longo dos séculos, acolheu a liberdade, mas não a responsabilidade. Não é retrógrado olhar para as opções como algo que não pertence apenas ao acaso, que depende das pessoas. Quem não está disposto a correr certos riscos, não pode ter certos comportamentos.

 

Nunca se permitiu a irresponsabilidade?

Não sei. Nos dias que correm, o meu marido reputa-me de irresponsável porque conduzo a velocidades estonteantes para conseguir chegar a todos os lados.

 

Usa as redes sociais como ferramenta política. Porquê?

A relação foi íntima durante a campanha eleitoral, porque achava importante ir dizendo, ir dando testemunho.

 

Era um dever e não uma forma de socializar?

Era um dever mostrar às pessoas o que estava a fazer e receber o feedback. E era uma forma de relação. Hoje em dia a relação é menos íntima. Porque acho que não consigo, nesta fase, fazer o Twitter como deve ser feito e o Facebook como deve ser feito. Uso o Facebook para as coisas mais importantes. Quase não uso o Twitter; há o risco de ser epidérmico e retraio-me. Acho as redes sociais imperfeitas. Retiram-nos um pedaço de intimidade e reserva. Criam uma realidade que é muito irreal.

 

Os seus post da campanha eleitoral falam muito de crescimento. Diz frequentemente: tenho muito a crescer, tenho muito a aprender.

E tenho. Na vida cá fora cresce-se muito com o conhecimento dos outros. Poder estar com pessoas com quem não nos cruzaríamos em circunstâncias normais é uma riqueza ímpar da política. Essa riqueza não há nas redes sociais. (Os blogs são outra coisa, mas só estive no blog do Não). Como não exponho no Facebook nem no Twitter a minha vida privada, acho que não há ali uma bilateralidade que se encontra no contacto pessoal.

 

O que é que a surpreendeu desde que veio para o Parlamento?

Eu já tinha a ideia, quando entrei no CDS, que o mundo da política não é a aberração de que se fala. As pessoas não são piores nem melhores do que as dos outros lados que frequento. Estão mais expostas, são escrutinadas – por isso, também, é que não há tanta gente que queira vir para a política. As opções podem ser vistas à lupa e são ampliadas – coisa que não acontece na nossa vida quotidiana, nas relações de amizade e familiares. Segundo aspecto importante: ser obrigada a olhar para todas as posições como sendo válidas. Claro que pode haver desvirtuamentos politiqueiros, mas no essencial, quando se discute um projecto, temos de discutir com todos, de igual para igual, podendo achar que aquilo não faz sentido nenhum, mas que ainda assim é válido e representa pessoas que pensam daquela maneira.

 

Isso implica um auto-questionamento permanente?

Significa uma clarificação. Eu confirmo-me todos os dias estando no CDS. Há posições que não assumiria com tal veemência, mas olhando para o cômputo geral das matérias e preocupações, revejo-me no partido. Isso é confirmado com o debate de ideias. Procurar consensos é uma coisa que gosto de fazer. Não seria possível nem desejável, mas para mim seria tudo consensualizado. 

 

Tique de filha do meio.

Isso.

 

Gosta do exercício do poder? Quando é que sente que tem poder?

Pergunta difícil. Não sinto que tenha poder.

 

Mesmo sendo vice-presidente do seu partido?

Eu tenho o poder da influência nos órgãos do partido. No limite as decisões e opções são do líder. Tudo o que faço, tento fazer com empenho, o melhor que sei. Mas nunca olhei para isto como uma forma de exercício do poder. É o meu trabalho, é a minha obrigação. Se é poder ou não…, será, mas tenho [com isso] uma relação muito desprendida.

 

Faz parte de um grupo nascido na década de 70 que encarna uma nova maneira de fazer política – mais não seja porque cresceu num mundo em que as regras são outras. Pensa nisso?

É uma nova maneira, sim. Faz-me impressão no Parlamento que cada um bata palmas apenas à sua bancada. Não se bate palmas aos do lado, mesmo que concordemos com eles. A não ser em situações exceptuais. É impensável o CDS bater palmas a alguma coisa que é dita pelo BE ou pelo PCP. Para mim, é impensável o inverso – que não se possa bater palmas. Mas aqui aprendo regras e cumpro regras.

 

Ou seja, não tem, e acha que a sua geração não tem, uma visão maniqueísta da política?

É. Eu acho que não há os maus e os bons. Não olho para os comunistas como os maus, como acontecia na minha infância.

 

Esse grão de rebeldia e abertura aos outros, deve-o ao seu pai?

Sim, mais ao meu pai.

 

Que canções canta no carro com os seus filhos?

Tantas. Tenho de aprender as que eles me impõem, Hanna Montana, Mamma Mia, coisas assim. Canções brasileiras. Os Quais [de Jacinto Lucas Pires e Tomás Cunha Ferreira]. Músicas infantis, não há muito.

 

 

Publicada originalmente no Público, em Maio de 2010