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Anabela Mota Ribeiro

Diana, ópio do povo

30.08.17

«E então, ela viu a minha bicicleta contra a parede, montou-a e pôs-se a andar às voltas, e a tocar à campainha, a tocar, a tocar, e cantava: “Amanhã vou casar com o Príncipe Carlos, amanhã vou casar com o Príncipe Carlos”. Consigo ouvir a campainha daquela bicicleta agora... Ela era uma criança, sabe?, uma menina». O mais antigo pajem da Rainha Mãe, William Tallon, conta este seu encontro com Diana na véspera do casamento no livro de Tina Brown “The Diana Chronicles”. Primeiro invade-nos uma sensação de inverosimilhança. Depois, passamos, como ele, a ouvir a campainha, a visualizar a cena, os movimentos circulares da bicicleta, as calças de peito que ela estaria a usar, a face corada de excitação, o cabelo suado nas têmporas. Visualizamos a cena como se a tivéssemos presenciado. E não acreditamos completamente que essa menina pequena vai ser vista no dia seguinte por 750 milhões de pessoas a dizer “sim” na Catedral de S. Paulo.

Diana não fala deste contentamento juvenil no livro de Andrew Morton “In her own words”. Fala de uma descida ao frigorífico, onde comeu tudo o que lhe apareceu pela frente, para vomitar logo a seguir. A bulimia nervosa, que Carlos e a Rainha consideraram ser desestruturante do casamento, começa aí, quando o conto de fadas estava prestes a ser selado.

A noiva já se tinha mudado para o Palácio de Buckingham, para fugir ao assédio dos fotógrafos, e abandonado a casa de Sloane Square que partilhava com três amigas. Nos dias que antecederam a cerimónia, ela encontrou entre os presentes, que se amontoavam na sala do secretário, uma caixa que lhe pareceu invulgar. Lá dentro estava uma pulseira com dedicatória que o noivo tinha escolhido para a amante de longa data, Camila. Muitas lágrimas e suspiros depois, Diana confessa à irmã Sarah, (que no passado namorara com o dito noivo, futuro rei de Inglaterra), que talvez não pudesse casar com ele se ele amava outra pessoa... E a irmã, menos dada a delírios sentimentais, repô-la no caminho do negócio: «A tua cara está estampada nas toalhas e nos serviços de chá... Talvez seja um pouco tarde para te pores a andar» (a acreditar que as aristocratas inglesas usam expressões como esta).

Porque é que instintivamente preferimos a primeira versão à segunda? E porque é que, assim que pegamos nestes personagens, temos a noção de submergir num melodrama de quinta categoria? Pela sensação de vizinhança, talvez. Todos já tivemos, na nossa vida, momentos de melodrama de quinta categoria. Enfim, menos glamorosos e a render menos páginas de jornal. Mas tivemos. Vivemo-los dentro de portas ou na casa de uma tia quando, em pequenos, assistimos a uma discussão conjugal, entre uma madalena e um copo de leite.

Se não se entender esta identificação, não se entende porque razão esta criança loura que canta que vai casar com o Príncipe Carlos se transformou na pessoa mais famosa do mundo. Diana conquistou o planeta por ser uma rapariga normal. Ela foi como as colegas que tivemos no liceu de quem não lembramos o tom de voz. Demasiado apagadas, sem brilho, até sem tiques irritantes. Sem nada que nos faça lembrar a sua existência. É verdade que Diana era demasiado bonita para passar tão despercebida. Mas não era boa em nada, coisa que, aliás, sabia e usava em proveito próprio. Esclarecia que era “estúpida como uma porta”, e com este anúncio reduzia drasticamente as expectativas e inibia comentários sobre a sua prestação. Os resultados escolares eram um zero à esquerda, e ficaram arrumados com três meses titubeantes na Suíça. Um semestre ocupado a escrever cartas e a pensar que era chocante o dinheiro que investiam nela e os resultados que estava disposta a alcançar. 

Como Tina Brown nota, já não se usa as meninas “upper class” terem uma educação tão despreocupada. O exemplo é Kate Midleton, que conheceu  Príncipe Williams quando partilharam casa, na universidade. Diana pertence à última geração de mulheres de certo extracto social cujo propósito é casar e ter uma família. Mas ela nasceu para viver um conto de fadas, que é muito mais do que, simplesmente, casar e ter uma família. Basta olhar para a sua cara de felicidade, dentro de um coche de Cinderela, com um vestido tufado nas mangas e uma cauda infindável, para perceber qual era o sonho da sua vida. A tiara era a prova material dessa conquista: Diana era uma princesa de verdade, e não uma leitora de contos de fada. O que não podia supor é que os seus sonhos de Gata Borralheira acabariam gorados: não foram felizes para sempre.

Alguém diria, revendo as imagens, que a recém casada vomitara tudo o que comera na noite anterior? Que comera por insaciedade, insatisfação, infelicidade. Solidão. Depois vomitara por nojo e fastio. Ninguém viu. Novamente solidão. (Diana sempre descreveu a sensação posterior como sendo de “calma e limpeza”. Por momentos aquietada). Tudo isto é um pouco repugnante, sim, mas Diana era demasiado poderosa para que estas minudências sejam consideradas insignificantes.

Preferimos a versão do pajem àquela que ela mesma contou a Morton porque gostamos de pensar que foi uma criança que acreditou no seu sonho. A candura comove sempre. O sonho foi esculpido sobre a história da sua família e alimentado nos livros de Barbara Cartland – são romances delicodoces que fazem apodrecer o espírito. Consta que foram os únicos livros que leu na vida, e não lhe fizeram bem. Exaltaram o seu lado fantasista, não a deixaram amadurecer emocionalmente. Diana disse a um político inglês na primeira vez que o viu: «Nos romances de Barbara Cartland encontrei todas as pessoas com quem sonhei, e tudo aquilo por que esperei». Um reino de fantasia que colidiu no confronto com a realidade. Como sempre acontece. A mesma Barbara Cartland embaraçava Diana terrivelmente: gaiteira, o cabelo arrumado numa bola de algodão doce, o baton rosa choque por fora dos lábios. Risível. Também se distinguia por dizer enormidades nos jornais. Como a linha com que resumiu o falhanço do casamento: “Ela não estaria disposta a fazer sexo oral!”. Ninguém a levou a sério. Os súbditos não querem acreditar que os seus soberanos têm vida sexual, como não querem pensar na vida sexual dos seus pais.

Sucede a circunstância cómico-irónica de Cartland ser a mãe de Raine, a madrasta de Diana. Odiada, evidentemente, como na Cinderela. Quando Diana casou, escreveu-se nos jornais sobre a possibilidade de banir da cerimónia semelhante criatura. Mas a rainha dos romances rosa foi escondida atrás de uma coluna na catedral.

Como vai sendo óbvio, nada disto é “fait divers”, ainda que, aparentemente, tudo na vida de Diana seja um cliché que não tem interesse nenhum. Se a mãe da madrasta tem mais importância do que a madrasta, (na construção do imaginário), a madrasta foi a mulher horrível que, mais do que substituir a mãe, lhe roubou o pai! Freud explica este rancor em sucessivas páginas...

Desde a separação dos pais, Diana vivia com o pai e o irmão mais novo; as duas irmãs mais velhas estudavam fora. E Diana tentava fazer de filha, de mulher e de amiga: passava a ferro, batia bolos, afagava o irmão quando este chorava a ausência da mãe, confortava o pai nos momentos de solidão. O desaparecimento da mãe tem que ver com um banal caso de infidelidade. Apaixonou-se, foi à sua vida, o marido conseguiu a custódia dos filhos.

Filha de uma aristocracia bem relacionada, Diana cresceu com uma mãe a chorar. A separação dos pais foi, nas suas plavras, «o mais disruptivo dos acontecimentos». No essencial, pela vida fora, reproduziu o comportamento da mãe. Chorou, chorou, chorou. Não é fácil gostar de uma mulher chorona e melodramática, e o princípe Carlos queixava-se de um soluçar inesgotável. Terá sido isso que o levou de volta aos braços de Camila? Diana indignar-se-ia perante esta possibilidade: sentia-se uma vítima e clamava, no programa Panorama da BBC, que nenhum casamento pode funcionar com três pessoas. Mas segundo Tina Brown, há pelo menos mais um elemento na relação: os media. Também há os amantes da “pobre” Diana e a hostilidade da monarquia inglesa – para nomear os mais sonantes. 

Diana podia ser “estúpida como uma porta”, mas numa coisa era genial: na relação com os media. Também, na verdade, com os desvalidos, os doentes, os desfavorecidos. Os que eram ou se sentiam, como ela, humilhados e ofendidos. « Há [entre mim e o povo] um entendimento incrível. “Top of the Pops”, “Coronation Street”, todas as telenovelas. Diga uma!, eu segui-a. A razão pela qual as vejo ainda, não é tanto pelo interesso que tenho nelas, mas é porque, se vou para fora, seja Birmingham, Liverpool ou Dorset, falo de um programa de televisão e estamos no mesmo nível. Decidi isto sozinha. Funciona tão bem! Toda a gente as vê. E se eu digo: “Viu isto e aquilo? Não foi engraçado quando aquilo ou aqueloutro aconteceu?”, fico imediatamente no mesmo nível. Não sou a princesa e eles o povo: é o mesmo nível». Smart, ah? E não há dúvida de que funciona!

A osmose funciona melhor que qualquer livro cujo título é “Como ser popular no emprego”. Melhor que todas as lições de damas de companhia e secretários e especialistas em media. Tony Blair parece ter aprendido isso muito bem e adaptou a táctica ao longo dos dez anos em que foi primeiro ministro do Reino Unido. Blair, que entra em cena pouco antes da morte de Diana, tinha grandes planos para a Princesa do Povo. Segundo Tina Brown, que foi recebida durante a pesquisa que fez para o livro, este contou-lhe que pensava usar Diana como “embaixadora” junto das grandes causas humanitárias. E Tina conta isto, como outras coisas, para dar provas sistemáticas de um trabalho de casa bem feito, e de uma rede de contactos poderosa.

Diana a ver telenovela à hora de jantar. Bom, já não é tão sensacional depois de vermos o filme “A Rainha” e sabermos que também Isabel de Inglaterra pode comer com um tabuleiro no colo e botija de água quente nos pés. Mas Isabel é a uma monarca à moda antiga e a lamechice causa-lhe urticária. A televisão que ela vê, aposto com segurança, resume-se a noticiários e a “séries de qualidade”. Alguém que usou aqueles sapatos a vida toda não pode rever-se, ou sequer entender, os sapatos Jimmy Choo (Brown também falou com ele...) e os gritinhos histéricos que abundam nas televisões. Mas Diana, que deve ter começado por sapatos ingleses de qualidade, conformes e discretos, cedo percebeu o poder apelativo de uns Manolos (Brown também falou com o designer). E ficou a ganhar.

Mudam-se os tempos, mudam-se os valores. A Rainha, que trabalhou como mecânica durante a Segunda Guerra, aprendeu que o Dever vem primeiro, e que não podia ser outra coisa que não um “role model”. Não pode saber-se onde fica a identidade de alguém que foi educado para ser Rei ou Rainha – algures estropiada pelo caminho... – porque o “dever ser” abafa qualquer surto de espontaneidade. A manifestação de sentimentos cai tão mal que há uma expressão idiomática para isso: “You dont wear your feelings in your sleeves” [“Não se usam os sentimentos nas mangas da camisa”, numa tradução livre].

Diana era o oposto da instituição que é a realeza, imersa em naftalina, acompanhada por árias famosas . Ela usava perfumes Versace e ouvia a pop de todos os dias de Elton John. Trabalhou a relação com os súbditos e a imprensa de um modo nunca visto. Eles eram, simultaneamente, seus aliados e confessores. Amavam-na e deixavam que ela os amasse. Queriam tocá-la e ela queria ser tocada. Carlos acenava de longe. Andava entretido com o polo e com a eterna Camila. A Monarquia andava entretida com assuntos de suma importância (?), porque haveria de perder tempo com uma loura frívola? Ela andava entretida com a sua infelicidade e os seus gritos de socorro. Tentativas de suicídio, bulimia desenfreada, solidão atroz. «Atirei-me pelas escadas abaixo quando estava grávida de quatro meses do Williams, para tentar obter a atenção do meu marido, para que ele me ouvisse». Uma tristeza. Sobretudo quando pensamos no desfecho.     

Faces diferentes da mesma moeda, a relação com o povo e o culto da celebridade fizeram dela um fenómeno ímpar. Tina Brown escreve que Lady Diana percebeu cedo que nos dias que correm a aristocracia que vale a pena é a da celebridade. Ela foi uma catástrofe natural que fez tanta mossa na Casa de Windsor como o terramoto fez à antiga cidade de Pompeia. Quase deitou tudo por terra. E por aqui se vê o seu poder. Diana passou a ser nome de princesa, como Camila passou a ser nome de amante do rei. Mas até que isso fosse possível, até que o génio saísse da lâmpada e se espraiasse com plenos poderes, passaram uns anos.

No princípio, ela era uma uma menina adorável. E virgem. O “era uma vez” desta história começa quando, num dia frio de Fevereiro, o Príncipe Carlos escolheu um cordeiro, virgem e sacrificial, para resolver o assunto do casamento. Foi assim mesmo que Diana, o cordeiro, classificou a escolha no celebérrimo livro de Andrew Morton. O mundo inteiro viu o passeio dos nubentes nos jardins do palácio, reparou no tailleur azul que ia bem com o anel de noivado, comentou como ele era bem mais velho e feio.

A primeira imagem dela: apoiada no braço do futuro marido, uma flor discreta. A expressão doce, o sorriso cândido, a cabeça baixa, quase submissa. Nada fazia prever que se transformaria na mulher mais fotografada do planeta. Onde estava o seu carisma? Mas então não existia a segurança evidenciada na sessão com Mário Testino, já aliviada dos vestidos sorumbáticos que acompanharam os primeiros anos. O que as fotografias de Testino deixam ver é uma mulher emancipada, quase enamorada de si mesma. Mas essa sessão, publicada originalmente na Vanity Fair, bem como o livro de Morton, aparecem cerca de onze anos depois. E então já todos sabíamos da infelicidade, do equívoco, do infortúnio. Tínhamos todos visto a entrevista ao Panorama, na qual, interpretando magistralmente a mulher traída, confessou também ela o adultério. Por fim veio o esbarramento do carro, com Dodi Al Fayed, num túnel de Paris. Há muito tinha terminado o conto de fadas.

Nesse dia de Fevereiro, quando foi apresentada, já não lhe chamava “sir”. Tinha aceite o pedido de casamento daquele homem e foi-lhe consentido, a partir desse instante, chamar-lhe Charles. Ele regressava de umas férias na Suiça, confessou-lhe que tinha sentido a sua falta; e depois perguntou com sinceridade pomposa: casa comigo? Ela aceitou imediatamente, fez risinhos nervosos e incrédulos, e só mais tarde se interrogou por que razão o futuro rei de Inglaterra a escolhia para sua mulher.

Na verdade, a mulher da vida de Carlos era outra. E essa, tinha “um passado”. Camila era já casada com Parker Bowles e uma reputação maculada. Carlos aceitou que lhe escolhessem uma noiva que não representasse qualquer ameaça e que fosse fácil de manobrar. Ficaria intacta a sua relação com Camila. Quando, ao cabo destes anos, casou com o seu amor de sempre, Carlos deu razão ao que durante anos se chamou a “paranóia ciumenta” de Diana. A sua intuição feminina estava certa: Camila sempre existiu na vida do marido.

Por ora, chega desta fotonovela. Passemos a outra: a da psicanálise barata que Tina Brown faz de Diana. «Diana cresceu a associar a câmara fotográfica com amor». Fica-se estarrecido. Há no livro da ex-directora da New Yorker e Vanity Fair uma descrição “posh” mesmo dos pormenores mais comezinhos. Como escreveu esta semana Sarah Bradford, “expert” da Princesa Diana, não há no livro de Brown casacos velhos... «Pode tirar-se a rapariga da revista, mas não se consegue tirar a revista da rapariga». É bastante previsível que uma “rival” seja demolidora. Afinal, esta pequena fricção só confirma aquilo que Diana sabia sobre as relações entre mulheres, mesmo que ela, excepcionalmente, penetrasse bem junto do público feminino. Junto deste, não há nada mais eficaz do que uma mulher sofrida. Quem é que nunca teve um coração partido?

A câmara: depois da partida da mãe, o pai de Diana passava tardes a filmar e a fotografar a filha mais nova. E ela rodopiava, fazia passos de ballet, sorria e olhava a câmara com uma segurança inesperada. Tina Brown pensa que a fotogenia de Diana e a sua relação com os media encaixam neste modelo de relação com o pai. “Dás-me mimos e atenção (sob a forma de máquina fotográfica) e eu dou-te sorrisos e sou amorosa...”. É uma tradução demasiado básica do Complexo de Édipo para ser levada a sério. Mas o livro de Brown é mais inteligente do que este pedaço sugere.

Tina Brown não foi amiga íntima de Diana, mas cruzou-se profissionalmente com ela. A sua carreira começa, também, no início dos anos 80 quando, aos 25 anos, dirige uma revista que constava das salas de estar dos círculos “upper class” ingleses: a Tatler. Quando se muda para os Estados Unidos, Brown especializa-se no mundo da celebridade e faz do glamour uma prática obrigatória. Quando Tina Brown era uma mulher muito poderosa (ou seja, quando dirigia a New Yorker), era convidada para almoçar com Diana e com Anna Wintour (directora da Vogue americana; é nela que se inspira o filme “O Diabo veste Prada”) quando a princesa se deslocava a Nova Iorque. A descrição da chegada de Diana ao restaurante do Four Seasons é sumptuosa: «A alta e discreta rosa inglesa que conheci na Embaixada americana em 1981 tornou-se tão fosforecente quanto um “cartoon”. Avançava com os seus saltos altos pelo espaço do restaurante como se fosse a Barbarella». Depois fala do bom corte do fato Chanel, da pele de pêssego e aveludada, do bronzeado suave e perfeito. Tina sabe do que fala quando se trata de imagem. E Diana usava essa linguagem como ninguém.

Basta olhar para os vestidos para contar a história da sua vida. Antes de casar, quando vivia com as amigas, à mesa discutiam-se os saldos da Benetton – alguém consegue imaginar a rainha a discutir os saldos da Benetton? Mas é fácil aceitar essa possibilidade se pensamos em Diana – comprava-se na Laura Ashley, usavam-se camisas de quadradinhos, sapatos praticamente rasos. Uma aparência discreta, “comme il faut”.

Folheando o álbum de fotografias, analisando-as à lupa, o que fica desses primeiros anos é uma menina tímida, “shy Di”. As camisas acompanhavam este desempenho: de uma seda antiga, com folhos a cobrirem o colo. Os vestidos: estampados, largos o suficiente para não se adivinhar o corpo que os usava. Demorou tempo até Diana se transformar num ícone “fashion” – parte indubitável do seu sucesso.

Estavam longe os vestidos de Catherine Walker, que marcavam o corpo de mulher madura, cobriam um braço e revelavam o outro, os “caicai” que deixavam perceber os braços, finos e compridos. Ou os fatos de dia, compostos de saia e casaco, uma saia com pequenos pesos nas bainhas para não esvoaçarem com o vento – mas disso, ela não percebia nada, confessa. Confessa para lamentar que ninguém lho tivesse ensinado. Ninguém entre os membros da família real, claro. Nem lhe ensinaram que a bolsa se usa no braço esquerdo e não no direito. Aprendeu sozinha, cedo percebeu que estava sozinha.

Esta é a versão que corre na biografia de Morton. Mas no livro de Brown, a mais antiga aia da Rainha, destacada para acompanhar a recém chegada Diana, desmente que ela tenha sido deixada à sua sorte. Lady Susan Hussey passou muitas horas com Diana nas quais lhe ensinou os passos do protocolo ou como terminar uma conversa com um admirador expansivo. Mas a “noviça” parecia não ouvir nada. Estaria a vaguear nos seus sonhos, com certeza... Aprender regras de protocolo deve ser muito aborrecido. E sobretudo, ela não pensava segui-las. 

Os vestidos: assuntos de senhoras? Experimentem tirar a cabeça à maior parte das fotografias e descobrirão que o mais empedernido dos homens reconhece que pertenceram a Diana. E nem é preciso que façam parte do lote de peças leiloadas na Christies a favor de uma instituição de caridade. Conhecer os vestidos de Diana, (leia-se, a força da imagem de Diana), faz parte da mais elementar cultura popular!

Se se fizesse um jogo (como o Trivial Pursuit) sobre os anos 80 e 90, os vestidos de Diana seriam uma pergunta obrigatória. E de resposta fácil, uma vez que toda a gente os conhece. O vestido preto com que dançou com John Travolta, o vermelho e lilás que usou frente ao Taj Mahal, o verde de lantejoulas, o vermelho com fios de ouro, o cor de areia com que posou nas pirâmedes do Egipto. A imagem de uma princesa não é nunca um assunto despiciendo, e na princesa em questão tornou-se um assunto capital.

A imagem de Diana passou a ser um património colectivo. Ninguém, nem mesmo o Papa, esteve alguma vez sujeito ao escrutínio a que esta mulher esteve. Mesmo para além da morte, aos 36 anos. O sentido da privacidade era-lhe estranho. A desconfiança tornou-se um recurso militante. Sentia-se permanentemente observada. Pelas objectivas dos fotógrafos, seguranças, membros do staff. Uma obsessão tal que a impedia, por exemplo, de tomar duche na piscina onde nadava todas as manhãs. Mudava-se em casa, certa de não ter curiosos a observá-la ou lentes escondidas. Como se transformou ela numa mulher cativa? E antes disso: como compreender o seu carisma?

O que fez de Diana a Princesa do Povo foi dar-se com o povo e dar-se ao povo de um modo a que ele não estava habituado. Apertar a mão a leprosos, aconchegar doentes terminais, interessar-se genuinamente pelos seus problemas. Já no fim da “carreira”, veio a campanha anti-minas em Angola – uma das imagens mais conhecidas de todo o século XX.

Vários extras no cocktail: a mulher trocada pelo marido (Diana diz a Camila, quando o baile ia a meio: «Sei o que se passa entre si e o meu marido, não nasci ontem...»), a mulher de bom coração invejada por uma corte de malvados, a vítima da injustiça e incompreensão. Uma como nós, portanto. Com a força, contudo, de mobilizar centenas de fotógrafos, milhões de pessoas. Uma princesa bonita, loura, de olhos azuis, como nas histórias lidas em criança. Mas ciumenta, dada a ataques de choro, que faz fila com os filhos no McDonalds e brinca com eles na EuroDisney. Com sentimentos bem visíveis, nas pregas do vestido (na primeira fase), no bom corte do casaco (na segunda).

Quem era ela, afinal? Uma mártire, ave ferida, humilhada e deixada à sua sorte? Ou uma manipuladora, sem o mínimo sentido de dever e honra, que quer viver livre como um passarinho? Era a educadora de infância, fascinada com palácios e contos de fadas, que decide casar mesmo sabendo que são três na relação? Ou era a loira impreparada que sucumbe à atenção de que é alvo e acaba refém de uma vida que escolheu.

Sentia-se aprisionada – a metáfora da jaula é recorrente – e isolada num mundo que lhe era inóspito: o da realeza. Como foi possível que o mundo não tenha percebido os seus gritos de dor? Como é possível que uma mulher se atire das escadas abaixo grávida de quatro meses, que tente cortar as veias quatro ou cinco vezes, e nas fotografias apareça como a Madre Teresa do Ocidente, de vestidos glamorosos e sorriso irrepreensível? «O lado público era muito diferente do privado. No público, queriam a princesa encantada, que vinha, tocava-os, transformarava tudo em ouro e fazia desaparecer as suas preocupações. Poucos compreendiam que o lado individual estava crucificado, por dentro, porque não acreditava que fosse suficientemente boa» (“In her own words”, livro de Morton). Algo ia mal no reino de Inglaterra.

Quando se soube, já era, claro, tarde de mais. A jaula dourada de Diana mantê-la-ia aprisionada até ao fim dos seus dias. Mas o que é se pode ser depois de quase se ter sido Rainha de Inglaterra? Que homem se vai escolher e sujeitar à invasão feroz da imprensa? Tornou-se um lugar comum dizer que foram “os paparazzi que a mataram” – chacais implacáveis. Mas a verdade é que Diana gostava de ser ver nas fotografias.

Por esses dias, tinha um pretexto adicional: queria estragar a festa de aniversário que Carlos preparava para Camila – voltamos à telenovela, se é que alguma vez saímos dela. E decidiu ofereceu bónus aos fotógrafos: um romance com um playboy da estirpe de Dodi Al Fayed.

Ele tinha os brinquedos todos: um iate onde se ouvia Júlio Iglesias (segundo Tina Brown), a casa em Paris que pertencera aos Duques de Windsor, o Ritz de que o pai era dono, os presentes que escorriam em catadupa: uma bracelete, um relógio, um anel, com as devidas incrustações. «Dodi era o antídoto perfeito: charmoso, sexualmente atencioso, intelectualmente nada ameaçador – e temporário», escreve a ex-directora da New Yorker. Foi com ele que morreu no dia 31 de Agosto de 97, há dez anos. Divorciada, mas nem por isso liberta do voyeurismo colectivo.

Levou uma vida bastante infeliz – infância infeliz, casamento infelicíssimo. Não é fácil percebê-lo nas fotografias. Mas Diana era uma excelente profissional e queria, “quando desligasse a luz antes de dormir, saber que fez o seu melhor”.

Os seus filhos, os príncipes Williams e Harry, promovem um concerto de solidariedade este domingo. Se fosse viva, Diana faria nessa tarde 46 anos. Alguém consegue adivinhar que vida seria a sua?

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

Alberto Vaz da Silva

09.08.17

Alberto Vaz da Silva é o grafólogo que diz que a escrita revela o inconsciente. O amigo de João Bénard, Pedro Tamen, Nuno Bragança. Católico progressista. O marido de Helena Vaz da Silva, a quem começou por oferecer Pessoa. Foi advogado a vida toda. Já antes disso olhava as estrelas.

Nasceu em 1936. Não parece uma pessoa nascida em 1936. Mesmo que use palavras como ígneo que não são usadas nos nossos dias. Tem uma natureza ígnea. Quando se parece com uma pessoa nascida em 1936, fala dos Católicos Progressistas e de namorar com chaperon atrás. Fixa uma geração e um tempo da vida portuguesa. Quando é um homem sem calendário fala da paixão pela Grafologia e pela Astronomia, de Roseline Crepy como a segunda mulher da sua vida, de Freud como a terceira mulher da sua vida!, do destino que pôde cumprir quando se reformou da vida de advogado.

Tem uma natureza apaixonada. De fogo, sem ser fogosa. Foi casado quase 50 anos com Helena Vaz da Silva. “Vivemos um percurso muito forte, de experiências muito intensas, sempre fazendo parte um do outro”.

Falámos numa manhã de calor. Não falámos dos cursos de Grafologia que dá no Centro Nacional de Cultura. Falámos de análise grafológica. Os nossos inconscientes estavam em contacto, disse ele. Também me pareceu.

   

Conte-me a sua história de amor com a Helena.

Ah! [suspiro] Encontrámo-nos por acaso. Ao telefone. A Helena tinha o hábito de estudar com uma amiga, e faziam umas partidas. Ligaram e mandaram chamar o menino [riso]. Estava a estudar para um exame, no 7º ano. Havia o meu irmão, que graças a Deus não estava em casa.

 

Porquê graças a Deus?

A Maria Filomena Mónica diz num livro que o meu irmão era o homem mais bonito de Portugal.

Entabulámos logo uma conversa. Falámos de filosofia, de literatura. Ensinei-lhe um bocadinho de História de Arte. Não sabia quem ela era nem tinha o número (ela não disse). Uma vez ficámos a noite inteira ao telefone.

 

Ela conhecia a sua família?

Não, não sabia sequer como me chamava. Depois fui para o Brasil durante vários meses. Tive um prémio inesperado. Um prémio que o governo brasileiro dava aos alunos que acabavam o 7º ano com média mais alta.

 

Quanto tempo durou a relação ao telefone antes do primeiro encontro?

Quase um ano. Encontrámo-nos pela primeira vez no dia 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, em que se fazia o peditório para o Instituto Português de Oncologia, de que o avô dela era fundador, Francisco Gentil. Disse-me que estaria a fazer o peditório à porta da Igreja de São Domingos, vestida de encarnado. Devo confessar: já tinha feito umas investigações, sabia quem ela era. Até sabia que nos tínhamos encontrado em casa de um amigo comum, o Fernando de Mascarenhas, no Palácio Fronteira. Cheguei ao pé dela e disse: “Olá”.

 

Começaram logo a namorar?

Houve um interregno. A certa altura fiz a um amigo comum três perguntas muito simples. Era uma menina muito inteligente, que falava alemão, que já não tinha pai. Soube o telefone e telefonei eu. Ela ficou para morrer quando ouviu a minha voz. Depois foram uns cinco anos de namoro, sempre com um chaperon atrás.

 

Quem é que fazia de chaperon?

Matámos várias velhotas nessa nobre missão. Eram caminhadas a subir a Serra de Sintra, a pé. Iam sucumbindo uma após outra.

 

O que é que foi tão sedutor nela?

Tudo. A primeira coisa foi a voz dela ao telefone. Era muito nítida, muito afirmada e bem timbrada. Não era uma voz pastosa. Era uma voz autoritária. A inteligência. A Helena tinha tido estudos, mas as meninas de boas famílias não iam para a universidade. Foi para o Instituto de Serviço Social, aprendeu a coser, a fazer remendos. Suscitava muita desconfiança e inveja, sobretudo por parte dos homens. Nunca ouvi ninguém dizer: “Admiro a Helena por causa da inteligência invulgar dela”.

 

O que é que já sabia de si quando a conheceu?

Aquilo que sempre soube, sem formulação. Aquilo que sabemos de nós é um núcleo central que não nos preocupamos em definir. Mais tarde, quando estudei Psicologia, percebi que há pessoas que nunca souberam de si, que sempre se sentiram desestruturadas. Eu não sabia de mim, mas era completamente integrado. Não tinha dúvidas sobre nada.

 

Como é que um rapaz com o seu percurso intelectual, cultural e pessoal não tinha dúvidas?

É muito o meu temperamento e o meu carácter. Há uma grande predominância de fogo na minha textura psicológica.

 

Olhando para si achei que podia ser água. Porque tem uma leveza, como água que corre. Porquê fogo?

Porque sou um apaixonado, por temperamento. O apaixonado atira-se facilmente para as coisas com confiança, com certezas. Penso que sou uma pessoa modesta, não gosto de dar nas vistas. No entanto, na minha sombra, sempre fui muito seguro do que fiz. Sabia o que gostava, o que não gostava. Se fazia o que não gostava sabia porquê. Se fazia o que gostava ia até ao sétimo céu. Essa pergunta traz-me uma reflexão: tive muita sorte na vida. Muita coisa me foi dada, como a Helena. As coisas caíram-me em cima da cabeça, ou através de pessoas. No meu último livro, sobre a Sophia de Mello Breyner, pus em epígrafe Saint Martin, filósofo do século XVIII, que esteve na base da alquimia e de grandes conhecimentos esotéricos: “Houve certos seres através dos quais Deus me amou”. Aconteceu-me a vida inteira.

 

Quem foram esses seres através dos quais se sentiu amado por Deus?

Esse grupo de amigos que me aconteceu muito cedo, ainda no liceu.

 

O João Bénard da Costa era amigo do liceu?

Sim. O Pedro Tamen, o António Alçada [Baptista], mais tarde. O Padre Manuel Antunes; conversávamos muito na [sede da revista] Brotéria, ia lá ter com ele. Tínhamos conversas espantosas sobre poesia, arte. Depois houve os grupos de casais, o empenhamento nos movimentos ligados à Igreja. Uma fé. Devia ter começado por aí.

 

Estou a promover uma espécie de associação livre. Por isso não estava a começar pelos eixos principais que se lhe conhecem. O da Grafologia, o da Astronomia, o da fé. Talvez tenha começado por um eixo central, a Helena.

Centralíssimo.

 

Quando é que se sentiu desamado?

Descobri-me desamado várias vezes porque tinha um ideal de amor irrealista. Pensei que o amor humano podia chegar a um máximo de exclusivismo, de proclamação solene, de vivência. Fui descobrindo ao longo da vida que não é assim, que as pessoas são diferentes de mim. É o mal do fogo. O fogo é um bom bocado fixo e um bom bocado exigente. Todos os episódios bíblicos que mais me atraíram tiveram a ver com o fogo. Para mim a vida era a chama ardente, era Iavé, Moisés, era aquela cobra nas mãos de Moisés. O meu principal trabalho foi descobrir a relatividade das coisas.

 

Moderar a chama?

Tamisá-la, modelar a chama. E isso foi a Psicologia que me veio dar. Foi uma aquisição fundamental, através de uma outra mulher fabulosa, a Roseline Crepy, a minha grande revelação em matéria de Grafologia ligada à Psicologia das profundidades. Foi a maneira de encontrar o Freud. Deus amou-me através desse encontro. Quando comecei a perceber a diversidade do mundo, inatingível na sua plenitude, percebi quão limitado e ego-centrado era. E quão lamentável [riso]. A tal fixidez.

 

Gostava de me fixar um pouco no desamor. Somos feitos, mais do que tudo, dos momentos fracturantes? Dos momentos em que descremos do amor que os outros têm por nós.

Os momentos fracturantes são grandes oportunidades de crescimento. Sempre olhei o sofrimento como uma oportunidade. Como uma sorte. Mesmo que algumas sortes tenham sido muito amargas. Mas isso não foram desamores. Nunca me senti desamado, embora tenham acontecido coisas que me fizeram mudar a minha perspectiva sobre o amor.

 

Relativizar, perceber o sentido das proporções requer maturidade.

[Requer a] abertura da consciência, a compreensão dos outros. A compreensão daquilo que sabemos sobre o que é a vida. Sempre que tive a tentação de me sentir desamado, de me sentir posto em causa, percebi que estava a entrar no domínio da auto-compaixão, que é daquelas coisas que é essencial ultrapassar. O sentido das proporções fica completamente obnubilado pela auto-compaixão.

 

Já falou do seu irmão, que era mais bonito.

Era e é.

 

Podemos falar da sua infância?

Podemos. Foi uma infância numa grande casa. Sempre vivi com avós, e até com bisavós. A minha bisavó materna foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Pagava-me 20 tostões para espreitar debaixo da cama dela e ver se estava alguém escondido.

 

Fazia isso para o entreter?

Não, porque tinha medo. Era uma pessoa inteligentíssima.

 

Como é que se chamava?
Adelaide. A minha mãe também era Adelaide. E a minha avó paterna também. O meu irmão sempre foi uma relação muito importante. Fazíamos uma diferença de seis anos, sou mais novo. Tínhamos mundos completamente diferentes. Ele tinha um mundo social, de sucesso, desportista, meninas muito bonitas à volta. O homem do mundo. Eu era um sensível, introvertido, sempre agarrado aos livros. Houve uma altura em que se ria dos meus livros, e ria-se de eu ouvir Mozart e Bethoven.

 

Era um menino velho?

Não. Sentia-me bem com o que gostava. Promovia em casa representações teatrais. Era bastante satírico, sobretudo em relação à minha avó materna, que tinha uma grande preferência pelo meu irmão e que me fazia a vida negra. O importante é que pagavam a entrada. Com esse dinheiro comprava os meus discos e os meus livros. Estamos a falar de nove, dez anos.

 

O fundamental não era o seu pai e a sua mãe? Escreveu num papel, numa entrevista que encontrei: “O mais importante numa pessoa é a relação com a sua mãe e com o seu pai até aos seis anos de idade”.

Isso é evidente, mas é anterior ao que estou a descrever. É desde a concepção, passando pelo nascimento, às várias fases do desenvolvimento infantil. Mas disso não tenho memória. Vivíamos no Estoril, passava os dias na praia, tinha uma relação com o sol, com o mar. Uma alegria física, um pouco como a do Camus na Argélia.

 

Mas o Camus era filho de uma lavadeira. Isso muda tudo, ou não?

Muda.

 

Até a descontracção com que se está ao sol.

Sim. Não há nada mais angustiante do que ir para a praia, ver o sol, ou sequer tomar um banho de mar, e estar mortalmente triste, ou quando se tem luto na alma. Voltando à minha infância: fui uma criança feliz, mas, de alguma maneira, sempre fui prisioneiro. É uma conclusão de há pouco tempo. Nunca vivi 100 por cento o que sou. Sempre o destino me armou alguma dificuldade, me deitou a rede por cima.

Foi muito importante a relação com a minha mãe, mais longínqua com o meu pai. Muito conflituosa com essa minha avó materna, que era uma figura predominante.

 

O seu irmão gostava de si, ou não achou graça ao facto de aparecer, seis anos depois, uma criança na família?

Hoje tenho a certeza de que gostava, e gosta de mim. Nunca o olhei como pequeno. Quando se é pequeno, o irmão, seis anos mais velho, dispõe de nós. Ele tinha um certo prazer em ver os meus limites. Eu era um intelectual miúdo que o irritava por ser tão diferente. Mas quando nos encontrávamos no Tamariz, gostava de dizer aos amigos: “Aquele puto é o meu irmão”. E eu também tinha orgulho nele.

Era mais parecido com o meu pai, que era muito secreto, introvertido. A minha mãe era muito mais apaixonada; herdei o fogo da minha mãe.

 

E escolheu uma mulher também assim.

Escolhi uma mulher ígnea.

 

Usa palavras que não são deste tempo. (Ígneo no dicionário: que é do fogo ou a ele se assemelha; ardente.) Ígneo é uma palavra que Goethe usa para descrever o Etna: coluna ígnea.

Adoro vulcões. Uso palavras que estão na minha alma. Ígneo é uma palavra central em mim.

 

A religião, a sua fé, sendo um enorme conforto, alguma vez foi também uma rede que se intromete entre si e o seu destino?

A fé nunca foi conforto nenhum para mim. Foi uma essência. Não consigo encontrar palavras senão através de um episódio. É uma das minhas memórias de infância, o maior espanto da minha vida. Talvez olhando o céu (sempre tive uma atracção enorme pelo céu à noite, e também pela religião, a minha avó levava-me muito à igreja; adorava os paramentos, os cânticos gregorianos, os frescos), alguém me disse que havia pessoas que duvidavam da existência de Deus. E eu perguntei: “Mas duvidam como, não olham à volta?”.

 

Estava a ligar Deus a uma certa ordem cósmica.

Sim, sempre liguei. Por isso é que digo que Deus não é uma consolação minha. É um dado de facto que sempre senti à minha volta como a essência da ordem das coisas.

Perguntou-me se alguma vez Deus fez parte dos obstáculos. Algumas vezes pensei que opções na minha vida poderiam perturbar a minha relação com Deus, com essa ordem. Ir atrás de tudo o que me atraía, abandonar a minha família, desaparecer para as ilhas do mar do Sul.

 

Está a falar de sexo e irresponsabilidade.

Sim. O sexo foi uma pequeníssima parte disso. Era também uma atracção pelos horizontes. Sempre me atraiu o Gauguin, o Van Gogh, a Polinésia. Outro aspecto paradoxal: sou muito fixo, nunca teria precisado de viajar para conhecer o mundo. Podia ter vivido a minha vida toda com os meus livros, os meus discos, num sítio ideal que encontrasse. Mas a minha vida foi o contrário, passei-a a andar de um lado para o outro com a Helena, com os projectos da Helena. E gostei imenso de ter viajado. Excepto África. Tenho a sensação de que se puser um pé em África é o fim dos meus dias. Coisa estranha.

 

Não é o seu elemento. Ainda que tantas vezes África seja associada ao fogo.

Eu sei. Mas devo ter sofrido horrivelmente em África. Posso perguntar em que dia nasceu?

 

Gosto de dizer que nasci no mesmo dia do Brás Cubas, o personagem inventado pelo Machado de Assis. No dia 20 de Outubro.

Tinha a certeza que era Escorpião.

 

Não, ainda sou Balança.

Quem é Balança de 20 de Outubro está muito perto do Escorpião.

 

Fica chocado se lhe disser que não tenho ideia alguma do que é ser Escorpião ou Balança?

Escorpião é um signo de água, é ir até ao fundo dos maiores segredos.

 

Por que é que só agora sentiu a urgência de saber onde é que pertenço? Não viu a minha caligrafia senão fugazmente, não conhece o meu mapa astrológico.

O essencial num contacto como este em que estamos, de entrevista, como é a relação terapêutica, como são as relações exclusivas a dois, é o encontro dos inconscientes. O seu inconsciente é uma máquina de alta potência que põe a funcionar quando entrevista uma pessoa.

 

Estou a perguntar se me fez uma pergunta porque sentiu necessidade de uma pausa.

Senti que os nossos inconscientes estavam em contacto.

 

Habitualmente o entrevistado não faz perguntas ao entrevistador. E acho que não é só porque essas são as regras da entrevista.

Acredito. Mas não se esqueça que sou terapeuta. Funciono com uma terapia de tipo psicanalítico, e estou habituado a estar no seu lugar. Contudo, não estou de todo a encará-la como uma paciente.

 

Mas eu estou a encará-lo como um paciente.

Há muito tempo que lhe estou a fazer perguntas mudas. Não de um modo perverso, mas tentando entender a fundo as suas perguntas.

 

Fale-me de um tempo que viveu, de uma geração a que pertence e que está a desaparecer. O que é que na sua vida foi grandemente marcado pela sua condição social, pelo grupo que integrou e pelo que o país era então?

Foi um longo capítulo da história da minha vida. Começou nos anos 50, quando fui conhecendo estes meus amigos, que vieram a integrar o grupo dos Católicos Progressistas. Foram muito importantes como estímulo intelectual. Originais.

 

Pode especificar algumas originalidades?

O Nuno Bragança vivia no seu meio muito fechado, ainda em casa dos pais. Tinha uma inteligência de um tal brilho, uma tal revolta, um tal talento de escritor, que funcionou como um deslumbramento permanente. O Luís Sousa Costa era uma inteligência arrasadora, músico extraordinário, o melhor amigo do Mateus Cardoso Peres, superior dos dominicanos, figura também central no nosso grupo. A Helena também teve um grande fascínio pela inteligência do Nuno. O Nuno tem um lado revolucionário.

 

Apesar de os Católicos Progressistas serem uma forma de revolução no seio da comunidade católica lisboeta, eram todos bem nascidos, de famílias conservadoras. Incapazes de fazer uma revolução por completo? De rasgar com tudo?

Não. Fizemos um projecto de vida em comum, o chamado Pacto. O João Bénard, o Duarte Nuno Simões, o Pedro Tamen, o Padre Manuel Antunes. O projecto era arranjar uma grande quinta com várias casas com coisas comuns (como uma cooperativa de ensino). Isto, em pleno salazarismo, era revolucionário.

O Nuno Bragança mandou as nossas sugestões ao Nuno Teotónio Pereira, que era quem ia fazer os projectos.

 

Que sugestões deram ao arquitecto?

Há um ano o Teotónio Pereira mandou-me a carta do Nuno Bragança em que este pedia àquele “orçamento para as instalações que conciliassem o máximo de pobreza possível com o mínimo de necessidades civilizadas a que por infelicidade de nascimento seria utópico pretender renunciar de chofre.” Este “infelicidade de nascimento” é extraordinário.

 

O Pacto foi em que anos?

Começou em 1961, durou até 1966. E deu origem ao O Tempo e o Modo, que era a nossa maneira de actuar na sociedade e de lutar contra o regime, apesar dos horrores da censura e de a maior parte dos artigos serem cortados. No Centro Cultural de Cinema, um cineclube católico, os programas eram revolucionários. Éramos vaiados pela massa associativa.

 

Viveram realmente nessa quinta?

Nunca vivemos. Procurou-se a quinta, encontrou-se a quinta, fizeram-se estudos. O cooperativismo estava na moda, mas não era fácil pôr de pé.

 

Comecei por perguntar se não eram capazes da revolução completa. Isso era a vossa revolução possível, por “infelicidade do nascimento”? Em 1961/62, foi a revolta dos estudantes, foi a guerra de África.

Não é tão simples quanto isso. Houve uma reunião especial para saber se íamos abrir aos não-católicos, e chegou-se à conclusão que sim. É quando entra o Mário Soares, o Jorge Sampaio, o Sottomayor Cardia. A acção política clandestina passou a ser também um dado. A Helena e eu casámos em 1959, em 1960 já tínhamos o processo-crime por causa da carta ao Salazar sobre as torturas da PIDE, o que ia ocasionando ser despedido logo no ano a seguir a casar. A minha sogra falava-me de maneira pouco  simpática. O Nuno escreveu em nossa casa, uma casa recatada, onde nunca seria procurado, alguns dos seus papéis políticos mais importantes, [e o romance] A Noite e o Riso.

 

Esta casa onde estamos?

Não. Uma casa mais pequena, onde depois viveram o Nuno Portas e a Helena Sacadura Cabral.

No Nuno Bragança a revolta era máxima. Até aos 12 anos a mãe não o deixava pôr um pé na rua para não se constipar; passou disso directamente para a noite do Cais do Sodré e para o boxe.

 

Quando é que foi além dos seus limites? A Astronomia e a Grafologia (com as quais se encontrou cedo, mas de um modo sistemático e quase exclusivo apenas na segunda fase da sua vida) foram uma forma de ir além dos seus limites?

Não. Toda a gente me disse para ir para Direito, e fui. No curso de Letras teria sido mais feliz. Fui advogado de um banco, de uma empresa. Fui mais além dos meus limites sendo advogado, para ganhar a vida, cumprindo a minha obrigação de pai de quatro filhos, do que fazendo coisas que eram muito mais da minha natureza.

 

Pelo que é que teve de lutar?

Por tudo. Sempre tive a noção de que a vida é uma luta permanente.

 

Ao mesmo tempo, no começo da entrevista disse que tudo lhe foi dado.

A essência da vida é uma luta. Tudo me foi dado mas não de mão beijada. Foi dado com a condição de lutar. Nunca me sentei sibariticamente numa rede. Odeio essas coisas, cadeiras de baloiço, redes. Sempre gostei destas cadeiras [onde estamos sentados].

 

De ferro. Algo desconfortáveis.

E que me dão a noção…

 

De estar alerta.

Estar alerta é uma das condições da minha vida. Super alerta. A maior parte das pessoas tem a noção do gozar a vida de maneira relaxada. Há coisas incompreensíveis – descansar. Descansar é mudar de tarefa, ou ir para uma coisa ainda mais cansativa, mas diferente.

 

Na segunda fase da vida, que acontece com a ida da Helena para o Parlamento Europeu, é quando pode ser mais inteiramente quem é, cumprindo o seu destino. É curioso que só depois disso se tenha dado o encontro fulminante com a Roseline Crepy.

Já se tinha dado muitos anos antes, mas por escrito.

 

Um livro dela caiu-lhe literalmente sobre a cabeça na Buchholz, quando procurava livros sobre Grafologia. Escreveu-lhe e ela respondeu.

Pensei que jamais a encontraria. A Helena fez-me um repto: “Só aceito se vieres também”. Foi ouro sobre azul. Podia reformar-me.

 

Não estamos nada à espera que depois de nos reformarmos uma outra vida comece mesmo.

Mas é que eu estava à espera disso!, vibrantemente. Não gostava da vida que tinha como advogado, embora fosse o chefe do contencioso da segunda maior empresa do país. Podia ter sido terrivelmente infeliz, não tinha nada que fazer em Bruxelas. Podia ter sido traumático – o trauma de que fala toda a gente que passa à reforma.

 

Outro trauma é o de ser o marido da Helena.

Nunca foi trauma nenhum para mim. Nunca tive complexo nenhum e nunca fui a reboque de nada. Só fiz o que quis, só ia quando queria. Logo a seguir telefonei à Roseline Crepy, e passava as semanas em Lille, [onde ela vivia].

 

Posso perguntar se foi uma paixão?

De alguma maneira, foi. Só que eu tinha 59 anos, e ela tinha 89 [riso].

 

Nem todas as paixões têm de ser carnais.

Não. Um tempo depois ela disse-me logo aquele provérbio francês: le ridicule tue, o ridículo mata. Foi uma relação espantosa.

 

Foi uma das mulheres da sua vida, como a sua avó, a sua bisavó?

Claro que sim. Foi a segunda mulher da minha vida. A minha avó era um ente espiritual, não era uma mulher. (Quando estava na tropa vinha para casa dela e fizemos as pazes. Lembro-me de uma costureira a quem fazia a vida negra. Era protestante. Toda a gente a chamava Sr. D. Emília, eu tratava-a por Emília, para a atazanar, e tentava ter discussões religiosas com ela.

 

Que snobe.

Porquê? Dessa não estava à espera.

 

Porque o fundo disso é uma snobeira. É pequeno, é atazanado pela sua avó, e porque pode atazanar um elemento que socialmente é vulnerável, exerce pressão sobre ele.

Isso não é snobeira, é psicanálise. Estou de acordo. Nunca tinha pensado nisso. Pode ter sido uma projecção da minha raiva com a minha avó.)

 

Retomando a Roseline. A Astronomia, sendo uma ciência diferente da Grafologia, tem pontos de contacto com esta. Há uma interpretação de sinais e de símbolos e uma tentativa de construir uma ordem e de fazer uma decifração. Como aos gregos, interessa-lhe a observação do voo das aves como forma de ler o destino e adivinhar o futuro?

Não. Isso são formas primitivas, pré-xamânicas (e os xamanes adoro). Gosto muito do voo das aves como coisa estética, que revela uma certa ordem. Quando vejo um bando de andorinhas ou de outras aves, adoro ver como vão trocando de lugar, as formas que vão fazendo. E tento perceber porquê. Não tento ser adivinhatório. Não tenho nenhuma pretensão adivinhatória.

 

Queria ir ter aí. Se lhe interessa a interpretação ou se lhe interessa também a adivinhação.

Na Grafologia, que é um veículo para os outros, as minhas terapias são chamadas de terapias de inspiração psicanalítica. O método é muito semelhante ao da Psicanálise, mas parto da escrita. Estou farto de dizer aos psicanalistas: se percebessem o que é a Grafologia poupavam anos de trabalho, não só a si próprios, como muitos tostões na bolsa dos pacientes.

 

Porquê?

Porque lhes dava um conhecimento que lhes permitiria começar muito mais além. A única coisa que me interessa são os outros. Compreendê-los a fundo. Compreender a raiz dos problemas e ajudá-los, através das associações livres, como na Psicanálise, a chegar a uma reconstituição da sua estrutura básica e do seu progresso. E de os restituir àquilo que são.

Não lhe quero mentir. Pergunta-me se me interessa a adivinhação; cheguei à conclusão, pela vida, que isso acontece dentro de mim, sem que eu procure. Mas não proclamo nem adianto.

 

Isso a que chega é uma espécie de conclusão lógica a partir de premissas que estão enunciadas?

Nunca é lógico. A lógica aí faz uma triste figura. É aquela estranheza inquietante de que falava o Freud, e é através dela que as verdades se descobrem. O Freud, antes de escrever o Totem e o Tabu, foi para Roma e esteve três semanas, dias inteiros, de pé, diante da estátua do Moisés, do Miguel Ângelo. Foi através disso que chegou à essência do seu Moisés. Na Psicanálise a lógica nunca entra.

 

Há uma coisa que Freud disse a Schnitzler, a propósito da sua peça de teatro A Menina Elsa. “Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição – a partir de uma fina auto-observação – tudo o que tenho descoberto em outras pessoas por meio de laborioso trabalho.”

Ele tinha um respeito extraordinário por tudo o que eram dons psicológicos. E tinha uma espantosa atracção pela arte.

 

Como é que foi lidando ao longo da sua vida com o descrédito dos cientistas em relação aos métodos que utiliza para praticar a Psicanálise?

Não me chame psicanalista. É um método de inspiração psicanalítica. Sou grafólogo e pratico a grafo-terapia. Lidei lendo tudo o que os cientistas publicam. Agora os físicos descobriram o novo inconsciente, arrumaram de vez com o Freud. O Freud continua a ser a terceira mulher da minha vida [riso]. Ele próprio não teve a noção do seu génio.

 

Em que momentos a sua letra mudou de modo notório?

Até ao encontro com a Roseline Crepy. Havia muitos lados vaidosos, egocêntricos, mundanos, na minha escrita. Com ela fiz uma psicanálise. Foi implacável comigo. Cheguei a fazer o percurso de Lille a Bruxelas aos palavrões, contra ela. (Perguntei à Helena se se importava com este novo percurso. Ela respondeu monossilabicamente: “Não”. Não tínhamos o hábito de prolongar as conversas com palavras a mais. Tinha feito a minha escolha. Esse “não” queria dizer tudo, era pujante de significado).

 

A sua letra mudou quando perdeu a Helena, quando perdeu um filho?

Não. A minha letra mudou depois do meu trabalho com a Roseline. Uma das coisas que apostrofava é que perdia demasiado tempo com trivialidades.

 

Como é que as mortes o afectaram? E se o afectaram muito seriamente, como é que não apareceram na caligrafia?

As mortes afectaram-me terrivelmente, sobretudo o processo da doença que conduziu às mortes, nos três casos, a Helena, o filho e o neto. Depois começou a acontecer uma coisa espantosa: perceber que a morte traz um peso e uma dimensão às pessoas que passaram por ela. Passei a perceber a Helena, o meu filho e o meu neto face a face. Há uma coisa que São Paulo diz: “Nesta vida vemos Deus como que através do espelho, mas haverá um dia em que O veremos de frente, face a face”.

Estranha e paradoxalmente, foi como se em vez da morte me trazer uma sombra, um esquecimento, me tivesse tirado os véus. Trouxe-me as pessoas na sua essência. Até onde sou capaz, vejo-as integrais, coisa que em vida não conseguia ver. A morte foi uma riqueza. O Buda diz que existe uma omnipotência que rege tudo; é como se fosse um tear de que as lançadeiras são o sofrimento e a morte; a trama é a vida e o amor.

 

Como é que é a sua letra?

É banalíssima.

 

Como é que é banal se não é uma pessoa banal?

Sou uma pessoa banalíssima.

 

Parece que lhe estou a pedir um auto-retrato.

Claro que está. A minha letra reflecte o meu temperamento solar, reflecte o meu carácter ígneo. É um bocado apaixonada demais para o meu gosto. Verifiquei um dia com apreensão que as pernas das minhas letras às vezes trespassam um bocadinho as entrelinhas – que é um sinal de paixão, mas que não deve acontecer; perturba a claridade de espírito.

 

Uma vez que não analisou a minha letra…

Uma análise grafológica a sério exige um exame minucioso de horas, letra a letra, traço a traço, vírgula a vírgula. É uma coisa exaustiva. A Roseline Crepy só fazia análises grafológicas. Confiou-me todos os dossiers. Escrevia tudo, desde como é que a pessoa andava, como é que vinha vestida, como era a voz.

 

Queria perguntar-lhe se depois de uma conversa com uma pessoa, depois desta conversa, consegue ter uma surpresa enorme quando vê a letra de quem tem à frente.

Consigo. As pessoas mandam-me os documentos, faço o exame, marcam a consulta, que é sempre oral, e sei tudo sobre a pessoa. Dá para perceber desde a concepção até à fase de desenvolvimento infantil, a liquidação do Édipo, aos seis, sete anos. E aí a pessoa tem a vida determinada. Dá para perceber o que foi ou não foi a vida até este momento. E dá para fazer algumas prospecções de futuro – não são adivinhações.

Quando vejo uma pessoa e falo assim com ela há muita coisa que não realizei. A escrita é sempre mais rica. Sei idade, sei se é homem ou mulher. E quantas vezes me sai o oposto... O nervoso extremo pode aparentar uma calma absoluta, um apaixonado pode ter um ar quase apático, ou não saber que o é. Um amorfo pode parecer uma pessoa activa. Enormes ilusões. Tem que se ser extremamente alerta, prudente, modesto.

 

Por coincidência, antes de começarmos a gravar, perguntei-lhe o que é que significa a letra “f”, e disse-me que é a letra mais reveladora, mais importante.

É a mais sintetizadora. É sempre a primeira coisa de que se vai à procura, o “f” minúsculo. O “f” escolar tem um traço inicial, depois vai para cima (o espírito, a imaginação). Depois passa por uma linha (o real, a vida de todos os dias, a actividade). Vai para baixo (os instintos). Volta para cima (mostra como é que a pessoa dominou ou domina os instintos e volta aos outros). Outra vez a linha, agora para a direita. Percorre os quatro espaços da escrita, os quatro pontos cardeais. E também o passado, o presente e o futuro.

Há pessoas que escrevem “f” a mais. O inconsciente tem esta coisa espantosa de empregar despropositadamente uma determinada letra. Quando há “f” a mais é mau sinal: significa que a pessoa ainda não se encontrou. Quer desesperadamente encontrar-se, mas está a lutar contra moinhos de vento. Quando não há “f” é uma tragédia: a pessoa desistiu de si.

 

Todas as letras têm um significado. Vamos a outra: “R”.

Há quatro alfabetos. O alfabeto das minúsculas escolares, o alfabeto das minúsculas tipográficas, o alfabeto das maiúsculas escolares e o das maiúsculas tipográficas. Está a ver a complexidade. O “r” minúsculo, em primeira linha corresponde à precisão, ao jeito de mãos. É das letras mais difíceis de fazer. Tem também um significado sexual e moral. Depois há o lado da pressão, que é o maior mistério da Grafologia. É a força que o instrumento faz sobre o papel, é a própria essência da pessoa. Isso é quase impossível de ensinar. É a vida toda.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2012

 

NY para principiantes

04.08.17

Nova Iorque é provavelmente a cidade mais filmada do mundo. Mitificada colectivamente, sonhada a partir dos personagens, dos enredos, põe-nos no coração da(s) história(s) num ápice. Dá-nos a sensação de estar dentro de um filme ou de já ter visto num filme o que agora aparece ante os nossos olhos.

Para quem nunca foi, fica uma lista de filmes que nos ajudaram a sonhar – e a conhecer – NY. Mesmo sem alguma vez lá ter ido.

 

O Padrinho

Don Fanucci passa a laranja de uma mão para a outra. Veste um fato que Francis Ford Coppola quis que fosse branco, branco-imaculado, para acentuar o jorro de sangue no final da cena e transformar aquele bandido de pequena escala numa figura suína e ridícula.

Don Fanucci acena como um Papa, San Gennaro segue no altar. A procissão avança ao som de Nino Rota, o som de uma fanfarra local que acompanha a paixão de um santo. O Padrinho, que ainda não o era, mais viria a ser, depois desta audácia decisiva, observa o movimento a partir do telhado. E vê o passado, a injustiça, o caminho percorrido. Ou não vê nada, porque só vê Don Fanucci, a Mulberry Street apinhada, o momento em que uma pessoa se encontra num duelo com a vida. E mata. 

O território já era o de uma pequena Itália, hoje delimitado por bandeirinhas triangulares, incrustada na parte sul da cidade. Little Italy é de facto um bairro pequeno, e, a despeito da atmosfera turística, é uma Itália pura, com vera pasta feita à mão, paredes decoradas com a Sofia Loren e o Totó, pátios nas traseiras onde espreitam as árvores. Mesmo num restaurante fino como o Da Nico come-se em mesas de plástico. Come-se bem.

O ambiente é estridente, transplantado de Nápoles. (Não por acaso, San Gennaro é napolitano.) Essa é a Itália que se procura e se encontra. Sem decepções. 

Não corre um fio de ameaça. Há muito que o Padrinho se mudou para os subúrbios. Mas não é possível atravessar a Mulberry sem imaginar o jovem De Niro nos telhados, a mirar os passos de Don Fanucci, sem ouvir uma deflagração. E então sabe-se que o fato está sujo de sangue. 

 

Breakfast at Tiffany’s

A luz é bruxuleante e o táxi aproxima-se. Ouve-se o Moon River de Henry Mancini. A Quinta Avenida está deserta. Seriam seis da manhã? Ela sai do carro. A Audrey. Dá passos miúdos, num serpenteado elegante. Abeira-se da montra, vê as pulseiras. Tira de um saco de papel um croissant e um capuccino. Quando finalmente a vemos de frente, tem uma atitude sonhadora. E deleitada. Depois afasta-se. Continua a ouvir-se o Moon River.

Milhares de mulheres de todo o mundo, gerações de avós e mães e filhas, sonharam com um pequeno-almoço assim em frente à Tiffany. Sonharam atravessar a Fifth (não é preciso dizer mais do que “a Fifth”) vestidas de Dior, figura esfíngica.

A Tiffany representa o luxo, e, de certo modo, o inacessível. Ícone da avenida das avenidas, é uma espécie de lugar onde o sonho desagua. E como sonhar não custa, toda a gente pode entrar no edifício de vários andares, cirandar pelo piso dos anéis de noivado, espreitar as vitrines onde tudo é faiscante, fazer as contas a ver se dá para uma peça de prata. Se não der para nada, talvez dê para gravar um nome/ uma frase no interior de uma aliança de latão. Como no filme de Blake Edwards (1961).

Infelizmente já não há pulseiras nas montras às seis da manhã. (Se calhar nunca houve, era apenas uma encenação fílmica.)  Mas o edifício é lindo. E a dois passos está o Central Park. 

 

Annie Hall

E então lá estão eles, sentados num banco de madeira, a ver a vida a passar. Woody Allen e Diane Keaton, típicos nova-iorquinos, daqueles que usam (usavam) blazers de bombazina e calças largas, daqueles que leram os livros certos e debitam frases espirituosas sobre o que se passa cá fora. Cá fora é o mundo. Lá dentro são os livros, o complexo, o críptico, a fantasia.

Lá estão eles, sentados no Central Park, num banco que muito provavelmente tem uma placa onde se lê: “Este banco foi oferecido pela Sra. Taylor que gostava de vir aqui.”

O Park não mudou desde o filme de Woody Allen, de 1977. Continua a funcionar como pulmão da cidade, massa verde e gigante onde se mistura copas e lagos e pessoas, e onde se pode fazer tudo. Passear quilómetros, andar de charrete, ver crianças a brincar, receber a luz como quem recebe uma bênção, pôr pequenos barcos a deslizar, patinar nos lagos quando o inverno é duro, correr, correr e empurrar o carrinho de bebé ao mesmo tempo, ver esquilos enormes, sentir que se está noutra dimensão mesmo que os prédios toquem o céu e sejam visíveis de todo o lado. Inventar vidas para as pessoas que passam e presumir que estas, por sua vez, inventam vidas para nós. Quem seremos ali? Parecemos aquele casal do filme de Woody Allen?

 

Taxi Driver

A cidade que nunca dorme é o epíteto mais usado e vazio para falar de NY. Sinatra imortalizou-o num verso de New York, New York (I want to wake up in a city that doesn’t sleep). O tempo em NY é contínuo, o movimento dos dias e das noites é circular. Mas quando na madrugada seguinte, atordoados pelo jet-lag, ouvimos as sirenes e o ruído da noite, aquilo que era uma frase vazia volta a ter conteúdo. Os néons ainda estão acesos, sempre acesos, e os táxis ficam de um amarelo intenso, quase fluorescente. É um amarelo diferente daquele que têm durante o dia, quando adquirem uma tonalidade laranja sob o sol das duas da tarde. À noite, o yellow cab é uma força luminosa que atravessa a noite, urgente e gritante.

Pode ser que em ruas imundas, em bairros que fedem, no submundo que fica não se sabe bem onde, os táxis da madrugada sejam como aquele que De Niro conduzia no filme de Scorsese de 1976. Pode ser que nos meandros da noite se encontrem Travis Bickle, de músculos de aço, a ensaiar a rapidez ao espelho e a dizer:“You talking to me?” como quem dispara um gatilho. Pode ser. Às quatro da manhã.

Às quatro da tarde os táxis são conduzidos por homens vindos do Bangladesh, Bulgária, Índia, Paquistão. Há sempre um separador de acrílico entre o taxista e o passageiro, e nessa parede que delimita o espaço há uma pequena televisão e um terminal de multibanco.

Nunca se vêem prostitutas como aquela que Jodie Foster interpretou quando era adolescente.  

 

O Grande Amor da Minha Vida

Pode-se começar a sonhar com o Empire State Building em dois filmes. No clássico An Affair to Remember, que em português se chama O Grande Amor da Minha Vida (1957), e no filma que declina o clássico protagonizado por Meg Ryan e Tom Hanks, Slepless in Seattle (Sintonia de Amor, 1993). O que há nos dois? Uma paixão de fazer chorar as pedras da calçada, desencontro de amantes, impossibilidades de diversa ordem (ou são comprometidos ou vivem em pontas opostas do mapa) – e o Empire State, esse colosso que se vê de todo o lado e de onde se vê todo o lado.

Talvez a aura romântica do edifício advenha do amor impossível de Cary Grant e Deborah Kerr. Talvez tenha sido propagado, junto de outra geração, com o filme de Nora Ephron.

Sonha-se com o Empire State como se sonha com o grande amor da nossa vida. Mais as mulheres do que os homens. Eles a fazer de conta que este barroco sentimental lhes dá urticária. Todos no topo do mundo a olhar o mundo.

A vista é absolutamente divina. Se se estivesse no céu, não seria diferente. O Empire State é tão alto que, em dias nublados, as nuvens parecem no chão. Tão alto que é possível descobrir a partir dele toda a geografia de Manhattan, o quadriculado rigoroso das ruas, identificar o Soho a sul, Harlem a norte, os quilómetros de avenida que unem os dois extremos da ilha, os quilómetros de ruas que as cruzam na perpendicular, o espaço onde até 2001 existiam as Torres Gémeas e onde agora está o edifício de Daniel Libeskind.

Demora-se minutos a subir os 102 andares, e com sorte não se demoram horas na fila de espera. Pode-se subir até às duas da manhã. A melhor hora é ao pôr do sol.

 

O Pecado Mora ao Lado

Uma das cenas mais picantes da história do cinema mete Marilyn Monroe e o seu vizinho lúbrico num dia de calor em NY. Os dois são dirigidos por Billy Wilder (por falar em lúbrico) numa comédia que no título original fala da crise dos sete anos, Seven Years Itch.

Todos os casais sabem o que são crises de sete anos (os que chegam lá), crises de fartura e erosão. Nem todos têm uma vizinha voluptuosa que guarda as cuequinhas no congelador para aguentar a brasa do verão nova-iorquino.  

N’ O Pecado Mora ao Lado (1955), a tentação está literalmente ao lado, ou, para dizer com exactidão, no andar de cima. É uma tentação redobrada porque a família foi a banhos e o lúbrico em questão se sente solteiro. Solteiro e enfeitiçado. Como não?

A vizinha fogosa, além de loura, apanha o fresco que vem da grelha do metro, com o vestido branco a esvoaçar. A imagem é impudica e irresistível, tão forte que se tornou reconhecível até em Marte. Marilyn tem estampada a descontracção de quem cede ao prazer e ignora as aparências.

Há guias turísticos que se dedicam a mostrar locais de filmagens e que incluem no percurso a grelha onde o vestido de Marilyn levantou. Se não for purista, talvez não seja preciso tanto. Há respiradouros de metro por toda a cidade e o efeito é facilmente o mesmo. Menos o vestido e a Marilyn, é claro. 

 

Chicago

A Broadway é uma avenida que giza Manhattan de (quase) alto a baixo. A Broadway verdadeiramente é um bairro de teatros onde se representam (sobretudo) musicais que ficam anos em cartaz e que tem como epicentro Times Square.

Toda a gente já viu imagens de Times Square, os prédios revestidos a publicidade, as cores que chegam a ferir, o movimento cacófono de pessoas e viaturas, os programas de televisão que ali se fazem, de costas para a praça. Tem qualquer coisa de cenário futurista que satura ao cabo de minutos.

Na Broadway, mais do que em qualquer outro ponto, sentimos que estamos dentro de um filme que já vimos, onde somos, não protagonistas, mas figurantes. Um figurante entre mil, que faz fila para atravessar a rua, faz fila para comprar bilhetes, faz fila.

Os bilhetes para o teatro são caros e estão frequentemente esgotados. São espectáculos para massas, onde tudo é coreografado ao detalhe. Quem gosta do frou-frou dos musicais, acha os espectáculos superlativos. É um género e a máquina está espantosamente oleada (isso é preciso reconhecer).

Na rua, duas meninas de meias vermelhas e chapéu distribuíam panfletos promocionais. Era impossível não dar por elas e não identificar nelas o filme de Rob Marshall de 2002, Chicago.

 

Manhattan

Caetano escreveu no Trem das Cores: “A seda azul do papel que envolve a maçã.” Podia ser – será? – uma maneira de falar da cor de NY? A Maçã, a Big Apple, tem um céu azul de seda que se vê por entre os arranha-céus. Não tem nunca a cor cinza e amarga que muitos esperam encontrar. É preciso ir a NY para sentir a sua alma, a dinâmica das ruas, a energia que transborda do multiculturalismo. Talvez só em NY seja possível perceber como uma cidade desenhada a régua e esquadro, de edifícios sumptuosos ou assépticos, nos atira para a vida. Mais do que tudo, que nos dá a impressão de que há sempre espaço para nós e para quem somos. Para a nossa diferença.

O mais belo soneto de amor a NY foi feito por Woody Allen em 1979. Manhattan abre com a música de Gershwin e um desalinho de edifícios iconográficos. Vemos o Chrysler, a Brooklyn Bridge, a espiral do Museu Guggenheim, a Village e a sua fauna. Ouvimos o realizador a fazer imperfeitas descrições de NY, declarações excessivas. Mais tarde sabemos da sua vida atribulada, da ex-mulher que o trocou por outra mulher, da namorada que bebe milk shake e tem menos de metade da sua idade, da amante que rouba ao melhor amigo.

O personagem interpretado por Woody Allen tem uma vida desarmoniosa como a cidade, mas encontra nela um estranho lar, doce lar. Um lar de betão e fogo de artifício.

Será isso ilusão?    

 

 

GUIA PRÁTICO

O primeiro problema quando se equaciona uma ida a NY é a massa que a aventura representa. É uma cidade cara – ponto. Mesmo em versão low cost, é uma cidade cara. Ou seja, nunca é muito low. Os hotéis são caros, os restaurantes são caríssimos. Mas é possível contornar algumas dificuldades. A primeira é a viagem. O preço médio são mil euros, em qualquer companhia (voos directos ou com escala), e todas voam para NY. Frequentemente há promoções que fazem o preço descer em 30 ou 40%. É preciso estar atento. O voo dura oito horas na ida e seis horas e meia no regresso (questão de ventos). A diferença horária é de quatro horas.

Se não tiver um amigo de um primo com um sofá disponível e tiver um orçamento mesmo curto, pesquise no Booking.com opções de Bed and Breakfast. Pode conseguir um apartamento mínimo mas aceitável, no Soho, por 100 euros.

Se ficar num hotel, prepare-se para tomar pequeno-almoço fora. Normalmente, na cafetaria do hotel é pago por fora e o preço é exorbitante. Em qualquer esquina há um restaurante onde servem pequenos-almoços, isto é, papas de aveia, sumo de laranja imbebível, bacon esturricado e ovos para lá de mexidos. Há quem coma. Há quem sobreviva. Felizmente há padarias como Le Pain Quotidien ou Kaiser – para não falar no velho Starbucks – por todo o lado. Mais carote, mas infinitamente mais saudável.

Sobre restaurantes, a primeira coisa que precisa saber é que é obrigatório marcar. Os bons estão sempre cheios. Se se permitir a extravagância de jantar no Mercer Kitchen, não se vai arrepender. Fica a dois passos da loja da Prada, no Soho, e pode custar uns 100 dólares por pessoa (tudo somado), mas é lindo e vale mesmo a pena.

Para almoçar, experimente uma opção frugal no Dean&deLuca. Há vários espalhados pela cidade. A comida é deliciosa, o preço razoável e nalgumas lojas há uma mercearia associada.

Ao fim da tarde, experimente a vista do www.rloungetimessquare.com em Times Square e beba um chardonnay; ou sente-se no bar da Grand Central Terminal e coma uma pecan pie enquanto assiste ao formigueiro de gente que vai e vem. Só isso, já vale uma ida à estação de comboios.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014.