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Anabela Mota Ribeiro

Artur Santos Silva

19.09.17

É um homem rico que fala pouco da sua riqueza. Teve uma educação esmerada, e, como ficará provado, esse é o seu tesouro mais valioso. Dito deste modo, parece um exercício retórico. Mas não é. Fala pouco da sua riqueza por modéstia, por elegância; mas, sobretudo, porque o império que construiu em 25 anos, e que contrariou o destino que tinha traçado para si, não lhe deixa um brilho tão intenso quanto aquele que o invade quando fala da sua família feliz. Do avô médico, que fora presidente da câmara, e que vê os pobres durante a tarde. O pai, um “herói fácil” por ser tão extraordinário, que participa em todos os grandes acontecimentos do seu tempo. E o irmão, outro “herói fácil”, que vive intensamente por saber que o seu sangue bom pode misturar-se com um sangue envenenado. Foi o fim de um tempo. 

 Fala da família com ardor e recupera a alegria do tempo em que todos almoçavam na casa da Rua do Bonfim, ou cruzavam a rua para irem ao jardim dos avós. Nesse tempo, a casa estava sempre cheia de amigos que vinham de fora e dos protagonistas da cidade. Do Porto, do seu Porto. Mais tarde, na sua teia de relações, convergem os protagonistas do seu tempo, (Francisco Sá Carneiro ou Agustina), e deste modo se mantém uma época que se exauria. Nesta entrevista faz-se o retrato de uma época. Recupera-se a chegada de Delgado ao Porto, da importância de encher o depósito do carro no dia 25 de Abril de 74, do momento em que Câmara Pestana se lembra que o Dr. Santos Silva tinha um filho em Coimbra, assistente, com boas notas, que talvez fosse bom para juntar às fileiras do Banco Português do Atlântico. E pronto, deste modo se desenhou em definitivo o seu caminho. Deixou de ser possível o modesto projecto inicial: que ia ter um escritório, como advogado, ao lado do pai.

Artur Santos Silva tem 65 anos. É banqueiro. Escreve sobre Eugénio de Andrade e cita o exemplo de coragem de Unamuno. É casado e tem quatro filhos. Fala do OPA sem querer falar, para dizer que depois do abalo dos primeiros dias, se sente revigorado pelo apoio dos que estão à volta. E está firmemente convicto de um desfecho que não eclipsa o projecto da sua vida. Deliberadamente misturo Unamuno e Eugénio com a OPA e BPI. Ele é um, e todos os assuntos desaguam no seu rio naturalmente. Ainda que o corpo, e sobretudo a cara, revelem as diferentes vibrações que cada uma deles lhe provoca.

 

 

A brasileira Clarice Lispector escreveu: “Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre! Mas, mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim”. Começo por esta frase para falar consigo de vida e de morte.

Eu não olho muito para a morte. A vida tem passado, tive alguns desgostos importantes. Os três desgostos que mais me marcaram, em diferentes fases da minha vida, foram a morte do meu Avô paterno, a morte do meu Irmão e a morte do meu Pai. O meu Avô paterno era uma personalidade fantástica, de afectividade transbordante e grande alegria de viver, embora tivesse já enfrentado a perda de dois filhos.


É raro manter essa alegria transbordante depois de passar por provações tão grandes como a morte de dois filhos.

Sim, sim. Estava muito disponível para a família e os amigos. Com cerca de 70 anos, sendo médico, decidiu: “Deixo os meus doentes antes que os meus doentes me deixem a mim”. Passou a fazer medicina para meia dúzia de amigos e para os pobres. Um dia por semana via pobres em casa e tratava-os. E na quinta do Douro todas as tardes recebia as pessoas da aldeia, a quem não levava nada. E eu, antecipando, perguntava-me: “O que é que há-de ser um dia a minha vida sem o meu Avô?”.

 

Normalmente, na juventude, não se pensa na morte, porque se é ainda eterno.

Eu antecipava, em relação ao meu Avô, o que era natural: ele estava com perto de 80 anos. Depois, fui de novo confrontado: vivi com o risco da morte de meu Irmão que tinha uma cardiopatia congénita. Quando foi diagnosticada, tinha ele 14 anos, já era tarde para ser operado sem uma alta taxa de mortalidade, e ele nunca quis. O seu desaparecimento, tinha eu 25 anos, afectou-me profundamente, bem como o de meu Pai, que morreu com 70 anos. Morreu há 26 anos.

 

A morte pairou de modo insistente num determinado período da sua vida. Como é que deixou de a olhar, de a ter no seu horizonte?

Em relação a mim próprio, vejo isso com serenidade. A vida é uma grande aventura que tem de se viver intensamente.

 

Houve, sobretudo no seu irmão, uma sensação de urgência? Uma urgência em viver intensamente...

Quer ele, quer o meu Pai eram pessoas com uma enorme alegria de viver, um elevado sentido de humor, uma grande coragem física e moral. Eram naturalmente os nossos heróis, com todas essas qualidades. A minha Mãe era o grande estabilizador da casa, eles os dois grandes animadores, muito parecidos um com o outro.

 

A doença dele passou a ser uma espécie de centro da vida da família?

Não, não. Era um perigo sobre a nossa felicidade que funcionou pelo lado positivo: não devemos perder tempo porque isto pode acabar, enquanto está tudo bem, vamos aproveitar tudo de bom que a vida nos oferece. Esquecíamos que havia ali um problema. Mas se o telefone tocava na minha República, em Coimbra, às duas da manhã, só pensava: “Aconteceu qualquer coisa com ele”.

 

O seu irmão quis experimentar a vida até aos seus limites?

Sim. Adorava viver e fazia tudo o que gostava, mesmo coisas que eram contra-indicadas para a sua saúde.


Pergunto isso porque o senhor, ao contrário, é muito bem comportado...

Ele era um alter-ego do meu Pai. De facto, eram personalidades que se sentiam muito onde estavam. Partilhávamos o mesmo quarto e eu fui mais o repressor dele: “Vamos dormir, feche a luz, não faça isto, não faça aquilo”. O meu Pai foi sempre o grande amigo dos filhos. A minha Mãe também, mas exercia mais o poder numa relação pais-filhos. Evidentemente que a felicidade passou a ser uma coisa muito diferente quando o meu Irmão faltou. É o antes e o depois, quando temos uma coisa que verdadeiramente nos marca.

 

Tinha cinco anos quando nasceu o seu irmão. Tem falado de si enquanto sujeito familiar. Tem memórias de si do tempo em que era ainda sozinho?

Lembro-me vagamente. A escola é o momento em que começo a situar no tempo as coisas, o que é que aconteceu, o que é que fiz. Comecei numa escola oficial, onde fiz a primeira e a segunda classe. Vivi os meus primeiros 12 anos na rua do Bonfim, que é uma rua larga, na zona oriental da cidade, do Porto industrial. Os meus Avós viviam numa casa que tinha um grande jardim, nós vivíamos quase em frente e íamos muito para lá. Era uma zona com grande densidade populacional, onde também vivia média e alta burguesia. O meu Pai era um profissional liberal e na fase inicial da sua vida profissional vivia com algumas limitações, como toda a gente. Comprou o primeiro automóvel e tirou carta só aos 45 anos! 

 

Imaginei que ganhasse muito dinheiro: era “o advogado” do Porto.

Era um advogado de sucesso, mas o princípio da vida foi difícil. Era o tempo do Estado Novo.

 

Ele era, justamente, olhado como um advogado da oposição, defensor dos socialistas.

E de todos os presos políticos. A sua vida profissional foi muito afectada por ter sido preso várias vezes. Não houve nenhum importante acontecimento político a que não tenha estado ligado. A vida profissional do meu Pai começa a afirmar-se plenamente a partir dos 40 anos. A primeira coisa que os meus Pais valorizaram foi ter uma segunda casa. Reconstruíram uma casa antiga numa quinta que a minha Mãe tinha entre Felgueiras e a Lixa, a 50 km do Porto. A primeira casa era alugada e continuou a ser. Depois mudámo-nos para uma zona entre o Marquês de Pombal e as Antas, para ficarmos mais perto dos colégios que frequentávamos. Para nós foi um constrangimento, porque o meu Pai não queria que frequentássemos a Mocidade Portuguesa e nos liceus isso era obrigatório.

 

Presumo que poupasse dinheiro onde fosse preciso para poder ter-vos no colégio...

Ai, sim. Nunca tive carências nenhumas. A minha Mãe era uma pessoa muito equilibrada, a quem o meu Pai entregava tudo o que ganhava. Ela era o ministro das finanças lá da casa.

 

Por causa do percurso político do seu pai não há dinheiro a rodos... Porém, há uma coisa mais importante que o dinheiro que fica dessa altura: o sentimento de honra, de dever cívico e a participação política, que acompanham a sua vida. Como se fosse um desejo de perpetuar essa tradição familiar.

Nesse aspecto, foi isso. A seguir à guerra, toda a gente vivia austeramente, mesmo as pessoas que tinham dinheiro. Nunca tive problemas de ter mais ou ter menos, porque isso não estava nos nossos parâmetros de educação e de vida.

 

Estou a lembrar-me de uma história divertida que me contou há uns anos o Miguel Veiga, a propósito de não ter um carácter exibicionista e de não ostentar o dinheiro que tem: ia na estrada e um polícia mandou-o parar; pediu-lhe os documentos e perguntou-lhe o que é que fazia. O senhor terá respondido que trabalhava num banco e o polícia achou que era caixa, que era bancário. Teve algum acanhamento em dizer que era banqueiro, que era o dono do Banco.

Não sou dono do Banco.

 

Mas é assim que, de um modo simplista, se lê.

Nunca fui educado, nem procurei educar, nem procurei viver exibindo o dinheiro, usando o dinheiro. Nunca me faltou nada, tive tudo o quis e que era importante. Naquele tempo, a grande despesa era o cinema. Um grande amigo do meu pai era correspondente no Porto d“A República” e tinha bilhetes para o cinema; sempre que eu queria ir, aquilo ficava por um escudo – o custo do selo – quando o preço de um bilhete era de cerca de dez escudos. Fui imenso ao cinema. Frequentava também o CineClube do Porto, que tinha um óptimo programa aos domingos de manhã. A minha Irmã mais velha e eu íamos muito com o meu Pai, apanhámos aquela fase do neo-realismo [italiano].

 

Ainda agora estávamos a falar da Anna Magnani, evocada no novo filme de Pedro Almodovar. Viu em ecrã, cedo, todos os filmes do Visconti ou do Rossellini.

“Roma, Cidade Aberta” é dos filmes mais fantásticos que vi.

 

É um filme muito político, percebo que o tenha impressionado especialmente. 

Não fui educado num clima em que o dinheiro fosse importante. O que nos dava uma grande alegria e felicidade era a afectividade, era poder participar em tudo o que a vida da família e dos amigos nos proporcionava. Quer o meu Avó, quer o meu Pai, nunca iam com amigos de fora do Porto almoçar ou jantar a restaurantes, traziam-nos sempre para casa.


A casa é que era o espaço.

Era. Conheci, quer em casa do meu Avô, no Porto e no Douro, quer na casa dos meus Pais, no Porto ou na quinta, personalidades extraordinárias como Manuel Mendes, Miguel Torga, José Régio, Lopes Graça, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro ...

 

Foi aí que se habitou a conhecer as grandes figuras, e a tê-las em casa. Li no texto que escreveu aquando da morte do Eugénio de Andrade que o conheceu na casa da Agustina e do Alberto Luís, muitos anos antes.

Mas isso já foi a minha vida e as minhas relações próprias.

 

Mas o hábito das tertúlias vem de trás, não corta a linha.

Claro. Outro casal que conheci bem, a Sophia e o marido, Francisco Sousa Tavares, que era um homem de uma grande coragem e tinha um talento extraordinário a analisar o mundo à nossa volta.

 

Já falou duas vezes de coragem, referindo-se ao seu pai e ao seu irmão, e agora ao Francisco Sousa Tavares. Como é que define a coragem, em que momentos é que ela se revela?

A coragem é sermos iguais a nós próprios em quaisquer circunstâncias e estarmos dispostos a sofrer sérias consequências por manifestarmos o que somos. Revela-se pela maneira como as pessoas afirmam as suas convicções, em circunstâncias adversas, em que tudo está contra elas. Em regra, a coragem física está ligada à coragem moral. O acto que conheço de maior coragem, e que é moral, sofrendo eventualmente consequências físicas, é o de Unamuno, em Salamanca, pouco antes de morrer... Não sei se conhece?

 

Não. Conte.

A cidade já está ocupada pelas tropas franquistas. Unamuno, de quem se dizia mais perto da falange, no princípio, acabou do outro lado, como a seguir se pode ver. No final dos discursos do dia da abertura da Universidade, Milan Astray, um general mutilado na guerra de Marrocos, lança o grito dos franquistas: “Abaixo a inteligência, viva a morte”. Unamuno levanta-se e diz: “Lá que um mutilado, um revoltado com tudo o que é belo na vida, diga: ‘Viva a morte’, eu percebo. Agora que todos vós acompanhem esse berro e gritem em uníssono, não posso consentir. Vocês vão ganhar a guerra, mas não vão vencer. Para vencer é preciso persuadir, e para persuadir é preciso ter razão.” Ele tinha então perto de 80 anos e morreu semanas depois, preso na própria casa.

 

Em Portugal, conhecemos alguns casos de grande coragem física no período de resistência à ditadura. Há algum que o impressione especialmente?

Lembro-me, depois do 25 de Abril, a coragem que teve o Salgado Zenha ao combater frontalmente a unicidade sindical. E logo a seguir ao 11 de Março, Sophia de Mello Breyner, quando se começou a falar de pena de morte, fez uma intervenção num comício no Porto que nunca mais esqueço. A coragem é das qualidades que mais admiro nas pessoas sem esquecer a lealdade, a sinceridade e a transparência.

 

Apoiou o Zenha nas presidenciais?

Não. Apoiei Mário Soares. Porque a sua proposta vestia mais naquilo em que eu acreditava. Embora tivesse uma grande admiração pelo Dr. Zenha. Era um homem de grande carácter, íntegro, muito inteligente, um visionário.

 

Porque é que nunca foi político?

Eu fui. Interessei-me sempre pela política. Estive com umas dezenas de pessoas na Acção Socialista, no final dos anos 60, embrião do Partido Socialista; foi a minha primeira participação numa organização com objectivos estritamente políticos. Depois estive ligado à SEDES, cujo denominador era a construção de uma sociedade democrática e moderna, contribuindo para que Portugal se transformasse numa sociedade aberta.

 

Nunca foi um político profissional, nunca fez disso o centro da sua vida.

Fui dos primeiros do PPD... Tive até a sorte de passar o dia D, 25 de Abril, das 3 da tarde às duas da manhã, com o Francisco Sá-Carneiro, que vivia a 300 metros de minha casa. O carro dele, um Renault 16 igual ao meu, estava à porta, e eu fui meter gasolina em frente a casa. Ficámos ali, todo o dia.

 

Como é que seguiram o desenrolar dos acontecimentos?

A conversar e em contactos com Lisboa, sobretudo com o Expresso. O Francisco Balsemão e o Marcelo Rebelo de Sousa estavam em Lisboa, e o Francisco Sá-Carneiro também colaborava no Expresso. Sintonizámos rádio, televisão, tudo o que dava notícias. Depois, fui jantar a casa e acompanhou-me a minha Mulher. Ainda assistimos às declarações do Professor Antunes Varela, em Londres, dizendo à BBC que o Marcelo Caetano ia resolver aquilo rapidamente.

 

Acreditou que aquele golpe militar seria bem-sucedido?

Quando vi no fim da manhã o que estava a passar-se, [percebi] que o regime tinha acabado. O golpe tinha funcionado surpreendentemente sem resistência. E no Porto foi o General Carlos Azeredo que comandou as operações e tudo ficou arrumado rapidamente. O que não percebíamos era onde estava o poder, quem é que estava por trás disto. Estive ligado ao nascimento do PPD e ajudei a mobilizar muitas pessoas, nomeadamente, no Porto, Miguel Veiga e Vasco Graça Moura, bem como o grupo da Faculdade de Direito de Coimbra (Mota Pinto, Barbosa de Melo, Figueiredo Dias). Eu tinha sido assistente da faculdade, conhecia-os bem e achava que estariam em zonas ideológicas próximas. Fiz muitas sessões de esclarecimento nessa fase. Mas recusei logo fazer parte da comissão política nacional, que foi escolhida pelo Francisco Sá-Carneiro, e recusei também fazer parte da eleita no congresso.

 

Porquê?

Não me via numa máquina de um partido. A participação política realizava-me, mas não a participação numa máquina partidária. Eu gostava de trabalhar, tinha a actividade profissional que muito me absorvia e era isso que queria continuar a fazer.

 

O que é que o incomodava, propriamente, na máquina política?

Não tinha perfil para um certo tipo de coisas que estar numa máquina política supõe. Quem está numa máquina de uma direcção partidária tem de estar disponível para muitas coisas, não só para aquelas que são mais gratificantes intelectualmente.

 

Como é que faz o salto do socialismo para a social-democracia?

Na Acção Socialista as principais referências eram as sociais-democracias europeias. E quando foi o Partido Socialista não entrei porque o programa estava completamente fora daquilo em que acreditava. O meu Pai, que esteve na Acção Socialista e no Partido Socialista, saiu no fim de Abril de 1974: “Ou vocês mudam o programa ou eu mudo de partido”. O programa falava de mergulhar as suas raízes nos aspectos mais positivos da experiência chinesa, da terceira via que era o socialismo jugoslavo... O meu Pai sai nessa altura e entra para o PPD em Junho.

 

Levado por si?

O Francisco Sá-Carneiro também o estimava muito. Estimulei-o, e a outros amigos da geração dele, a irem para o partido. Um dos quais tinha sido secretário-geral da campanha de Humberto Delgado, o arquitecto Artur Andrade.

 

Assistiu à chegada de Humberto Delgado ao Porto?

Assisti. Quem o recebeu foi o meu Avô, na Praça Carlos Alberto. Quando o comboio chega, com uma hora de atraso, às sete e meia, está a cidade inteira na rua. O comércio tinha fechado às sete e estava tudo à espera dele. E isso é impressionante. Eu tinha de fazer o sétimo ano daí a um mês, fui para lá às seis e mesmo a essa hora já não consegui subir os Clérigos. Mas pegando atrás na sua questão: eu não me via a ocupar muito tempo com os jogos que antecipava como normais numa máquina partidária. Mas fui aos dois primeiros Congressos e no VI Governo Provisório participei como Secretário de Estado do Tesouro, a convite do Dr. Salgado Zenha [Ministro das Finanças].

 

Gostou da experiência?

Foi muito valorizante e muito gratificante. Mais tarde, fui algumas vezes convidado para funções ministeriais e nunca aceitei. O meu perfil e a maneira de encarar as coisas não é muito compatível com este tipo de trabalho. A idade era a mais indicada: é importante ter ainda um misto de sonho e de ambição e vontade de fazer, que com mais idade se tem menos. O exercício de funções governamentais, na altura sem maiorias absolutas, obrigava a concessões muitas vezes contrárias àquilo em que acreditávamos. Isso nunca me interessou. Fui convidado para ser candidato a deputado em 69 e não aceitei; não me via a mobilizar as multidões nos comícios.

 

Tem medo de ir a votos?

Ir a votos não supõe qualquer risco pessoal. Vai-se a votos em Portugal pela máquina partidária. Eu não me via era na representação e na encenação que a política supunha.

 

Este podia ser um bom momento na sua vida para assumir um cargo político, como o de Presidente da Câmara do Porto. É uma coisa de que se fala de quando em vez, sobretudo desde o seu afastamento progressivo do banco. É um cenário que contempla ou é completamente descabido?

Já me perguntaram isso. E já disse que o estado de espírito é o mesmo. Estive durante uns meses à frente de um projecto que achei que poderia ter mudado o Porto, o Porto 2001. Um projecto para uns 6 a 8 anos, como inicialmente defendi.

 

Era mais do que um mandato de uma câmara.

Era um projecto para ajudar a requalificar e a valorizar a cidade. Como adoro o Porto, disse: “Disponho-me a avançar, a aceitar, coordenando uma equipa que assuma este projecto. Um par inter pares, mas como primeiro responsável”. E nessa experiência, que para mim durou cerca de dez meses, percebi claramente o que eram as fidelidades, as lealdades, o apoio efectivo que podemos ter quando não estamos ligados a uma máquina partidária. Não vou falar mais disso, que bem conhece. Chegou para perceber que nunca mais aceitaria fazer nada que tivesse que ver com dependência do poder político.

 

Diz isso com uma determinação... Definitiva e férrea. Não há nada que o pudesse tentar?

Em relação à Câmara, era das coisas que mais me teria agradado fazer noutra idade. Mas só se tivesse sido apoiado pelas grandes forças partidárias, o que é naif: ou se vai com uns ou se vai com outros. O meu Avô foi presidente da câmara, quase cinco anos, com menos de 40 anos de idade.

 

Mais atrás: quando vai estudar Direito, o seu projecto de vida passava pela política? Pelo Direito propriamente dito? Porque a tradição familiar vai neste sentido.

Vamos lá a ver. Nunca me passou pela cabeça estar ligado a um banco, quando entrei em Direito. Fui fazer o curso de Direito e pensava vir a trabalhar com o meu pai.

 

Isso é tão portuense! A placa na janela com o nome do pai e do filho... Os médicos e os advogados fazem-no ainda hoje.

Muitas vezes acontece. O meu pai era o meu herói. Primeiro, pensei que podia ser médico.

 

Como o avô. Estava ali entre o avô e o pai.

Exactamente. Depois, quando o Norton fez 80 anos, ia com o meu Avô, vi um desastre e percebi que aquilo me perturbou muito. Hesitei entre a matemática e a engenharia química, mas a projecção da vida do meu outro herói levou-me a optar por Direito. À medida que o curso foi avançando, tive muito boas notas, e depois uma pessoa também estuda por amor-próprio.

 

Brio.

Queremos convencer-nos de que podemos fazer mais, podemos fazer melhor. No dia em que me formei, sou desafiado para ser assistente, na Faculdade de Direito, em finanças públicas e economia política. Depois vou fazer o serviço militar na Marinha.

 

O que é que rompe com esse quadro e o faz iniciar uma nova vida?

O que rompe é quinze dias ou três semanas antes de acabar o serviço militar, quando pensava voltar para Coimbra, surge-me um convite para ir para um cargo directivo no Banco Português do Atlântico. Havia dois directores gerais: em Lisboa, Vasco Vieira de Almeida, e no Porto, Carlos Câmara Pestana. E esse, que apreciava muito o meu Pai, quando houve uma vaga na direcção lembrou-se que o Dr. Santos Silva tinha um filho assistente em Coimbra que tinha feito um curso com boas notas e que talvez encaixasse bem nessas funções.


E assim se traça um destino.

O que é que pesou muito em mim, nessa altura? Achei que era um desafio diferente e admitia que tinha condições para o assumir, embora não conhecesse o terreno concreto. Em segundo lugar, era voltar ao Porto, onde tinha todas as minhas raízes afectivas.

 

No meio deste percurso, quando é que constituiu a sua família? Ou seja, quando é que casou e começou a ter filhos?

Casei um ano depois de estar a trabalhar no Porto, quando tinha condições para casar. Tinha 27 anos. Tive namoro com a minha Mulher cinco anos.

 

Está a falar-me, desde o princípio, da relação profunda que tem com o Porto. A sua vida teria sido outra se se tivesse mudado para Lisboa?

Acho que não. No princípio, o desafio que tive foi ficar a trabalhar no Porto, no Banco Português do Atlântico. Depois, fui convidado para administrador _ o que a nacionalização não permitiu concretizar. A seguir, estive em Lisboa, entre o VI Governo e Vice-governador do Banco de Portugal, perto de três anos. Podia ter ficado aqui, mas gostava mais do ambiente do Porto, do tipo de vida que fazia, mais dependente de mim do que da envolvente. Houve outras razões específicas: uma crise de saúde do meu Pai, a fase terminal da vida do meu Pai. Quando tive que desenhar este projecto...

 

Avancemos então para o projecto da sua vida. Pensou o BPI de raiz há 27 anos. O banco comemora em Outubro 25 anos.

Tive a ideia, construí o projecto, atraí accionistas portugueses, entidades internacionais financeiras, e para isso tive de dar muito a cara e comprometer-me neste desafio. E isto foi um sonho que passou a projecto e a instituição estritamente a partir de mim. Não fui convidado por ninguém. Fui eu que tive a ideia e mobilizei investidores. Os accionistas com mais peso eram empresas do Norte. A componente mais dinâmica do nosso País estava no Norte. A sede natural do banco era o Porto.


Foi fundamental ter passado lá por fora, por Stanford, para ousar desenhar um banco, para saber erguer o edifício?

Foi a minha convicção segura de que era impossível o país continuar a ter todo o sector financeiro nas mãos do Estado. Tinha assistido a uma degradação brutal do sector bancário desde que passou para as mãos do Estado. Eu estava numa grande escola, o Banco Português do Atlântico, tinha estruturas de topo totalmente profissionais. As pessoas, não era por serem da família dos donos que estavam à frente do banco: estavam se tinham mérito. Vi como é que se geria uma instituição de acordo com o dever ser e com o respeito por uma série de princípios. O meu “benchmarking” pessoal era o BPA. Quando vi o estado a que se tinha chegado, disse: “Isto vai ter de mudar. Qual é a primeira janela? É a das sociedades de investimento. O resto será uma questão de tempo”. Foi a certeza, a convicção profunda de que havia uma grande oportunidade que era preciso aproveitar. Quanto mais tarde arrancássemos, mais tarde contribuiríamos para ser um agente de mudança.

 

Tenho uma pergunta sentimental a fazer-lhe. Sei que este não é o espaço para falar da OPA - são outras as características desta entrevista -, mas ela pode representar a asfixia do sonho de uma vida, do projecto da sua vida. A pergunta é se isto, emocionalmente, lhe custa imenso.

Pelo contrário. Ver como reagiram os colaboradores, os clientes e os accionistas - sobretudo os accionistas de referência, que conheciam melhor o que estávamos fazendo, o que queríamos fazer, e que foram de uma identificação total com a manutenção de um projecto independente – foi fantástico. Tirando os primeiros momentos, que foram, naturalmente, um abalo. “Está lançada uma OPA sobre o BPI”...

 

Como é que soube da notícia?

Soube quando a operação estava lançada. O meu colega Fernando Ulrich foi avisado pelo Dr. Paulo Teixeira Pinto uns momentos antes de ser público, mas já a cotação das acções estava suspensa. E informou-me imediatamente. Logo a seguir veio o comunicado. Esses dois, três, primeiros dias foram naturalmente complicados, mas depois foi para mim uma grande alegria ver como todos reagiram. E estou muito tranquilo quanto ao futuro. Mesmo na opinião pública há um reconhecimento da importância do papel do banco e da conveniência para o mercado de se manter um banco como o nosso, independente.


Está expectante em relação ao desfecho deste caso?

Eu estou fortemente convencido de que não vai haver nenhuma alteração, mas sobre isso não quero, agora, falar.

 

Começámos por falar de morte. O que é que por fim fica quando um homem fica a sós consigo e com a sua vida?

Acho que é o momento de reflectirmos sobre o que fizemos. Se pensámos só em nós, se pensámos nos outros, se quisemos perceber de onde vínhamos e para onde vai a Humanidade. É pelo que tivermos feito aos outros que temos de nos distinguir na nossa passagem pela vida. A família, os amigos, a sociedade em geral. E de uma maneira mais ou menos sensível, é o que devemos fazer todos os dias.

 

Imagino que deixe aos seus netos um património materialmente muito mais valioso do que aquele que herdou do seu pai ou do seu avô. E estes deixaram-lhe um património emocional incrível, que é evidente no brilho que tem quando fala deles. Do que é que se orgulha mais de deixar aos seus netos, este património material ou a memória que eles possam ter de si?

Quanto ao património material não pense que é nada que vá alterar radicalmente a sua vida, porque eu sou um profissional. A minha vida e o meu percurso foi, essencialmente, aqui no BPI. Não é isso que os vai marcar. Tenho quatro filhos: um está na Costa Esmeralda, no México, tem um projecto de ecoturismo. É formado em Direito, mas também se enganou na porta. O outro, que se formou em Gestão, está em S. Paulo. Os dois mais velhos estão cá. A minha filha trabalha num banco de crédito ao consumo, que hoje é do Crédit Agricole, e o meu filho mais velho trabalha numa empresa de grande distribuição, o Pingo Doce (do grupo Jerónimo Martins). Ele é formado em Marketing, ela em Relações Públicas. Eu acho que há uma relação muito boa deles connosco e deles entre si. A minha Mulher é educadora infantil e tem uma grande vocação e interesse de ajudar na educação dos netos, tal como se dedicou totalmente aos filhos. Quero é que eles tenham a melhor educação possível, e que eu, de alguma maneira faça até em relação aos meus netos o que muitas vezes consegui menos do que deveria em relação aos meus filhos, porque estava muito absorvido profissionalmente.

 

Uma boa educação...

É a porta principal para a felicidade.

 

O senhor é especialmente bem educado.

É muito bom termos beneficiado de um ambiente de grande felicidade à nossa volta e termos pessoas que nos transmitem valores, princípios e afectos: é isso que mais nos vai ajudar pela vida fora.

 

Como escreve a Clarice Lispector, “É tempo de morangos”. Que eu traduzo por: é tempo de viver.

Agora, com as estufas, temos morangos todos os dias! Mas, a minha fruta preferida é a tangerina. O Eugénio de Andrade tem um poema muito bonito sobre a tangerina.

 

E como é que diz o poema?

… deixai-me agora falar

     do fruto que me fascina,

     pelo sabor, pela cor,

     pelo aroma das sílabas:

     tangerina, tangerina

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007 

Ler Almada Negreiros no Chiado

17.09.17

Almada Negreiros, o moderno, o artista múltiplo, o difícil de adjectivar por não caber em nenhum adjectivo: vamos falar sobre ele no próximo Ler no Chiado. Com Fernando Cabral Martins, professor da Universidade Nova, especialista no modernismo português e na geração de Orpheu, Mariana Pinto dos Santos, a curadora da mega exposição da Gulbenkian, vista por milhares de pessoas, e a actriz Maria do Céu Guerra, que se estreou com um texto de Almada. Sobre a mesa teremos reedições de obras do artista, livros de teatro, poesia e prosa curta. 

Dia 28 de Setembro, às 18,30, na Bertrand do Chiado. Eu modero.
Ler no Chiado é uma iniciativa mensal da Bertrand e da revista Ler. Apareçam!

Carrilho da Graça, Julião, Sapinho: Serralves

17.09.17

Esta quarta feira, dia 20 de Setembro, o ciclo ‘Novas Perspetivas’ junta o arquitecto João Luís Carrilho da Graça, o artista plástico Julião Sarmento e o cineasta Joaquim Sapinho numa conferência a não perder em Serralves. Os oradores vão partir da ideia de contaminação (entre diferentes disciplinas), de como a mão pensa (no desenho, no gesto), do mistério que é criar.

Às 18:30 no auditório, reserve já o seu bilhete.

Eu modero e assino a curadoria com Suzanne Cotter e Carles Muro. 

O programa de 2017 do ciclo “Novas Perspetivas” centra-se nas relações entre arte e arquitectura e incluirá debates com arquitectos, curadores, filósofos e investigadores das mais diversas áreas do conhecimento.

 

 

(Quase) Toda uma Vida - Artur Santos Silva

17.09.17

Artur Santos Silva teve um pai que era o advogado da oposição, um avô médico, recebeu deles o exemplo de uma existência virada para os outros. Considera que uma boa educação é a porta principal para a felicidade. A sua, era uma família burguesa e empenhada politicamente. Não foi político. Não pensou que o seu destino fosse a banca. «Vamos lá a ver. Nunca me passou pela cabeça estar ligado a um banco, quando entrei em Direito. Fui fazer o curso de Direito e pensava vir a trabalhar com o meu pai.» Fundou o BPI, que foi a aventura de uma vida.
Nasceu no Porto, em 1941. Nas suas memórias, aparece o Porto liberal, ferrenho, culto. Amigo de Agustina e Sá Carneiro. O tipo de pessoa que se impressiona com filmes como Roma, cidade aberta. Foi presidente da Fundação Gulbenkian. E agora?

Depois das férias de Verão, o (Quase) Toda uma Vida regressa ao CCB. Este sábado, dia 23 de Setembro, às 17h, na sala Almada Negreiros. Entrada livre. Eu modero. 

 

 

Feira do Livro do Porto

13.09.17

Feira do Livro do Porto, 1 a 17 Setembro 2017, Jardins do Palácio de Cristal,

programação de Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa

 

Dia 1

Uma máquina voadora movida por vontades (Saramago),  22h

spoken word por

André e. Teodósio, encenador, e Teatro Praga;

 

Dia 2

Clarice Lispector por Carlos Mendes de Sousa (lição, 12h);

Miguel Sousa Tavares, Frederico Lourenço e Ana Luísa Amaral conversam sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (19h);

 

Dia 3

José Luís Peixoto e Patrícia Reis conversam sobre o sagrado e o profano na literatura com moderação de João Paulo Sacadura (16h);

Han Kang, escritora coreana cujo romance, “A Vegetariana”, venceu o prestigiado Booker International de 2016, conversa sobre a sua obra com José Mário Silva (19h);

 

Dia 6

"Memorial do Convento" de Saramago por Carlos Reis (lição, 19h);

 

Dia 8

De Ana Hatherly a Tarkovsky (palavras, imagens e um fio de música) 21.30

por

Matilde Campilho (poeta)

Tomás Cunha Ferreira (artista plástico e músico)

Mariano Marovatto (poeta e músico)

Anastasia Lukovnikova (cineasta)

 

Dia 9

Sophia de Mello Breyner por Ana Luísa Amaral (lição, 12h); 

A escritora brasileira Tatiana Salem Levy conversa com a portuguesa Dulce Maria Cardoso (que estará lançando um novo livro) sobre a importância da literatura num mundo à beira do abismo — ou da salvação. Mediação de Raquel Marinho (15h);

Que mistérios tem Clarice? 

spoken word, 21.30, por

Carlos Mendes de Sousa (selecção de textos)

Ana Vidigal (imagem)

Marta Hugon (a dizer e a cantar)

Filipe Raposo (piano)

 

Dia 10

Teju Cole conversa com Isabel Lucas (16h);

Bruno Vieira Amaral e Djaimilia Pereira de Almeida conversam sobre a  construção e a reinvenção da memória, com mediação de Carlos Vaz Marques (19h);

 

Dia 13

"A Máquina do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade, por Clara Rowland

(lição, 19h);

 

Dia 16

David Mourão Ferreira por Fernando Pinto do Amaral (lição, 12h);

Laurent Binet conversa com Ana Sousa Dias (19h);

 

Dia 17

"Húmus" de Raul Brandão por Maria João Reynaud (lição, 12h);

Alexandra Lucas Coelho e Gonçalo M. Tavares conversam sobre o  corpo e o mal, com moderação de Luís Caetano (19h);

 

 

"Num mundo em convulsão, atormentado por grandes e imprevistas mudanças, e em busca de novos caminhos e ideais, a literatura tem um papel cada vez mais importante: o de promover o debate e pensar o futuro. Para esta edição da Feira do Livro do Porto iremos trazer um conjunto de escritores de grande relevância a nível internacional e no espaço da lusofonia, os quais irão discutir entre si, e com os leitores presentes, temas como a construção e a reinvenção da memória, a instalação do mal, ou o lugar do sagrado e do profano na literatura e na sociedade.

Iremos ainda recordar e homenagear Sophia de Mello Breyner e Júlio Diniz.

A nossa intenção é criar um Porto de Ideias, um lugar de encontro de escritores e pensadores, dando assim continuidade a uma tradição de cosmopolitismo e de partilha, característica da natureza de todas as antigas urbes portuárias.

José Eduardo Agualusa"

 

"Para explicar o modo como pensei alguns eventos da Feira do Livro do Porto (1 a 17 Set), socorro-me do maravilhoso trabalho, feitas de palavras desenhadas, de Ana Hatherly. Há nele uma forma que não é definitiva, que está em mutação, como que levada pelo vento; e, nesse movimento, contagia, assume novas configurações, incorpora um saber e uma relação que vem com os outros. Aprender é isto. Aprender implica uma dinâmica, uma abertura, a contaminação. Uma nova realidade que é criada, distinta da precedente, algo que nos faz ser outros e em que intervimos. Há elementos especialmente activos nesta metamorfose. Poetas, palavras, imagens, uma evocação, a música. Princípios, partículas essenciais, que nos levam, implicam, transformam. E intérpretes (aventurosos) que prolongam o movimento, desafiam limites, convocam outros e ainda outros. Tudo parte de uma matéria orgânica.

Nas sessões de spoken word, a palavra é dita, literalmente, mas está longe de se esgotar no dizer; ao invés, ela é apropriada pela imagem, pelo som, pela diversidade linguística e de suportes. Trazemos Clarice, Saramago, vamos de Hatherly a Tarkovsky.

Nas lições, recordamos os 30 anos da partida de Carlos Drummond de Andrade (e analisamos o seu mais famoso poema, A Máquina do Mundo), os 40 anos da morte de Clarice Lispector, David Mourão Ferreira que faria 90 anos, se fosse vivo, os 35 anos da invenção de uma máquina que voa movida por vontades ("Memorial do Convento") e Sophia, a autora homenageada na Feira, fada-menina-musa-tudo.

Anabela Mota Ribeiro"

 

A Feira do Livro do Porto conta ainda com um ciclo de cinema, exposições, discussões, entre outras iniciativas. 

 

Matilde Campilho

08.09.17

Matilde Campilho é poeta. “Jóquei”, o livro de estreia, foi o livro mais vendido no último festival literário de Paraty. Há quem lhe chama meteorito, há quem lhe chame musa. É bonito mas não chega para dizer o que ela escreve.

 

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa. Pode falar-me de alguns dos sonhos do seu mundo?

O que me faz seguir um caminho é precisamente o contrário do sonho. O real é que faz seguir caminho. Aqueles gestos chamados mecânicos, como tomar um café de manhã, ver o jornal, decidir que roupa usar, passar a mão na cabeça dos sobrinhos. Saber dos meus amigos e da minha família. Ler, todos os dias ler os poemas dos outros, as crónicas dos outros, as entrevistas dos outros. O que me faz seguir é a aprendizagem diária. O concreto é que me segura. O sonho e as promessas são importantes, mas são a massa pastosa que junta os alicerces dos dias. Para dormir bem eu preciso do sonho, para sobreviver eu preciso do real. É que o real é cheio de falhas e imprevisibilidades. Acho que as falhas é que fazem a construção.

 

E o sonho?

O sonho restaura-me as energias e empurra-me para a frente, mas guardo-o para as noites. E a vida faz-se de dia. Digo tudo isto e depois penso em certos livros, nos livros do Borges por exemplo, e penso que estou enganada. Se eu não tivesse lido o “El Aleph” e se não acreditasse em cada palavra, o meu caminho era outro. Então: o real é que me faz seguir, mas o sonho é aquele fiozinho transparente ao qual todos afinal nos seguramos. Porque a vida não pode ser só isto.

 

O que se aprende nos livros, no cinema, na arte é muito diferente do que se aprende na vida?

Não sei se o que se aprende é diferente, é mais a maneira como se aprende. Vida prática e literatura são duas coisas bem diferentes. Mas acho que determinadas artes são armas de acção. E quando falo de acção não falo sempre de uma coisa violenta, podem ser armas que nos ensinam o sossego. São ferramentas de transformação do concreto. A vida real é outra coisa– é diária, imparável. Eu posso sair do cinema quando quiser, fechar os livros dos outros quando quiser. Da vida eu não posso fugir. Seja como for, com determinados livros eu aprendi a ver o concreto por um outro prisma. “O Som e a Fúria” do Faulkner, por exemplo, é um livro cheio de acontecimentos familiares e banais. Só que não. Porque através das descrições dele, tudo vira uma outra coisa. O Faulkner faz um zoom aos gestos mínimos, como talvez devêssemos nós fazer muitas vezes durantes os dias práticos. A literatura cumpre muitas vezes o papel de desviar o foco do olho para os detalhes, e os detalhes são da maior importância.

 

Atravessamos um deserto em que todos sabemos o nome do ministro das Finanças alemão ou grego. Antes de mais: considera que é um deserto? Onde fica o oásis?

O oásis fica muito longe do espaço político. É importante, claro, compreendermos o espaço físico e económico em que nos inserimos hoje. Todos pagamos as nossas contas e é preciso que estejamos atentos ao real que nos rodeia. Àqueles que nos governam. Mas este deserto é muito maior do que a política e do que as finanças. E muito maior que a Europa. O mundo atravessa um deserto emocional, ideológico.

 

Que quer dizer?

Estamos cansados, estamos feridos, e principalmente estamos confusos. Está tudo num ritmo que é muito mais acelerado que a nossa própria respiração, um ritmo que não nos é natural. Parece que agora tudo acontece à nossa frente, à frente dos passos que conseguimos dar. A existir um oásis, ele é interno. O oásis está na serenidade e no foco. Em aceitar fazer uma coisa de cada vez, mais devagar do que nos é pedido. Ninguém consegue fazer uma corrida sem alongar de vez em quando. O mundo, principalmente o mundo ocidental, está preso à corrida. É preciso alongar a cabeça e o coração, é preciso sossegar.

 

Demasiada conversa e negociação? Selvajaria e domínio dos mais fortes sobre os mais fracos? É tempo de quê?

Mais do que chamar-lhe selvajaria ou domínio, este é o tempo da transição. Isto é muito maior do que um jogo de vencedores e vencidos. Às vezes parece que o mundo está feito um malabarista que não sabe mais para onde ir. É preciso estar atento, fazer silêncio, olhar para a história para que não repitamos uma e outra vez os erros do passado. Estamos assustados, sabemos que está tudo a ficar diferente e o diferente às vezes leva ao medo. O medo é um animal terrível. Mas se ao invés de ficarmos petrificados aproveitarmos toda esta confusão, pode muito bem ser que inauguremos o novo. E o novo, espera-se, é despido desse domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. O mundo ensina muitas coisas. Se ele está tão rebentado é porque certamente nos quer alertar para a mudança.

 

Se pudesse escrever uma carta a alguém, gritar alguma coisa, seria o quê e a quem?

Faço isso através da literatura, todos os dias. Os poemas também são cartas. São missivas, umas vezes profundamente ficcionais e outras vezes nem tanto. Costumo dizer que só virei poeta porque tinha muitos postais para mandar. Tento escrever sobre o detalhe, para assim devagarinho chegar à verdade e ao grito. O grito não tem que ser necessariamente um acto de violência. A violência não me interessa agora, a verdade sim. A verdade é o que mais me interessa.

 

“Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, no sol de quase Dezembro, eu vou...”, canta Caetano Veloso. Já não vamos sem lenço, sem documento. Levamos atrás o quê?

Espero que levemos outras partes da canção. Os grandes beijos de amor, as fotos, os nomes, os olhos cheios de cores. É difícil, mas seja como for ainda é Verão. O Verão salva sempre um bocado. As estações do ano têm esta função fundamental de nos lembrar de que muita coisa passa e muita coisa volta. Volta diferente, mas volta. Levemos o verão.

 

O futuro passou a ser uma ameaça, evitar o perigo uma divisa. Quando foi a última vez que usou a palavra esperança?

Tendo em conta o que faço, é impossível dizer que desisti da palavra esperança. O trabalho de um fazedor – quem escreve, quem pinta, quem compõe – é cravejado de esperança. Mesmo quando ela não tem reflexo directo na obra feita, o seu processo leva sempre uma porção disso. Porque o processo de criação é diário, nada nele é imediato. Para se chegar a um objecto final, faz-se e refaz-se constantemente. Isso dá tempo ao pensamento e à inversão do pensamento, logo, à esperança. Não há porque ter medo do futuro. Afinal, ele é sempre outra coisa. A ter medo, às vezes tenho do presente, de não usar bem o meu tempo no presente.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

 

 

 

 

Tomás Cunha Ferreira

08.09.17

E aí, é fundamental usar uma raiz brasileira para falar da sua identidade e do seu percurso?

É isso aí, fundamental. Fui criado entre Lisboa e Rio e São Paulo, confundindo lá e cá e vice-versa, e ainda ando nisto.

 

Você é mais músico mais poeta ou mais artista plástico? Um é pensável sem o outro? Como é que dialogam uns com os outros?

Tento não gaguejar ao dizer o que sou, mas, de verdade, falta-me a convicção e a lata para dizer que sou artista, ou músico, ou não sei quê. Arrisco e tropeço, hesito, mas quando faço não caibo em mim.

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 Pode apontar poemas e canções e obras e fragmentos de mundo que o digam bem?

Agora estou a pensar nos Popcretos do Augusto de Campos, poemas feitos com recortes de revistas e jornais, nos anos 60. São colagens pop e concretas, políticas, para ver, ler, dizer, remixar. Estou a pensar também no Rap Popcreto que Caetano Veloso e Gilberto Gil gravaram no disco Tropicália 2, um recorte sonoro da palavra “quem”, a partir de outras canções de outros cantores. Enquanto soa a pergunta “quem?”, vamos reconhecendo (ou não) as vozes recortadas, como imagens de um retrato abstracto. Todos e ninguém. Olho por olho, boca a boca.

Também estava aqui a pensar no Paul Celan dizendo que quando se fala de arte “há sempre alguém que está presente e... não presta atenção ao que se diz”. Gosto disso e talvez isso tenha a ver com o Jasper Johns dizendo “as minhas pinturas são um convite para olharem para outro lado”. Afinal, que me importa? 

Também penso no mistério das vogais de Rimbaud: “A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul”.

E neste poema do Maiakóvski:

Eu

à poesia 

só permito uma forma:

concisão,

precisão das fórmulas

matemáticas.

Às parlengas poéticas estou acostumado,

eu ainda falo versos e não fatos.

Porém 

se eu falo

"A"

este "a"

é uma trombeta-alarma para a Humanidade.

Se eu falo

"B"

é uma nova bomba na batalha do homem.”

Mas mais que tudo isto, minha alegria vem muito das coisas que os meus amigos fazem, esses sim, poetas, músicos, pintores.

 

O que é que quer dizer a palavra ontemporâneo, que inventou/a que chegou recentemente? Estou também a perguntar pelo que lhe é intrínseco e concomitante (queira desculpar os palavrões!).

Chegar a um poema de uma palavra só, ou de um letra só, ou um poema em branco, vazio. Não dizer nada, acho que seria o poema ideal, tudo condensado. Se cortarmos o C da palavra contemporâneo, destaca-se o “ontem” que está escondido na palavra. De repente tudo aqui ao mesmo tempo agora. É isso. Numa palavra.

 

Conte do encontro com Moreno Veloso ou Domenico Lancellotti. Conte de como eles o fizeram sentir um deles. Conte porque é importante a irmandade. Ou não é?

É daqueles encontros em que há o antes e o depois, na vida, e ao mesmo tempo o encontro é que faz o antes e o depois serem só um. Sempre que estou com o Domenico alguma coisa muito especial nos acontece, é estranho. O Domenico tem qualquer coisa que mais ninguém tem no mundo inteiro, uma electricidade calma. Com o Moreno também é muito especial; uma vez combinámos ir até Assis, encontrar São Francisco, e fomos. Uma viagem e tanto. O Moreno tem uma calma eléctrica.

 

Conte do encontro com Jacinto Lucas Pires. Como é que funcionam Os Quais?

Quando cheguei do Brasil, na adolescência, conheci o Jacinto. Foi o que me safou. O Jacinto é o meu amigo. Somos uma dupla. Começámos logo a fazer canções juntos, imediatamente. Tinha que ser. Nunca pára. É assim que funcionam Os Quais. Não há outros! É mais uma oficina que uma banda.

  

Viveu no Japão seis meses, na Suíça um ano, no Brasil em diferentes períodos. O que é que mais aprendeu em cada um destes lugares?

Caramba, não sei! Tentei encontrar-me nesses lugares, chegar à rua da minha casa, seja qual for. Às vezes consigo desenhar uma linha que liga isso tudo. Ainda quero inventar mais lugares pra viver. Como diz o Rodrigo Amarante, uma ida à padaria já é se aventurar.

 

É também professor numa universidade. Pode falar da aprendizagem com os alunos?

Aprendo muito dando aulas de pintura, desenho e comunicação visual. Conheci pessoas incríveis, alunos extraordinários, acho que temos feito coisas boas juntos. É uma troca. Tento dar o máximo, mas acho que saio sempre a ganhar.

 

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Entrevista feita propositadamente para este blog em Fevereiro de 2015

http://tomas-cunha-ferreira.blogspot.pt