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Anabela Mota Ribeiro

Matilde Campilho

08.09.17

Matilde Campilho é poeta. “Jóquei”, o livro de estreia, foi o livro mais vendido no último festival literário de Paraty. Há quem lhe chama meteorito, há quem lhe chame musa. É bonito mas não chega para dizer o que ela escreve.

 

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa. Pode falar-me de alguns dos sonhos do seu mundo?

O que me faz seguir um caminho é precisamente o contrário do sonho. O real é que faz seguir caminho. Aqueles gestos chamados mecânicos, como tomar um café de manhã, ver o jornal, decidir que roupa usar, passar a mão na cabeça dos sobrinhos. Saber dos meus amigos e da minha família. Ler, todos os dias ler os poemas dos outros, as crónicas dos outros, as entrevistas dos outros. O que me faz seguir é a aprendizagem diária. O concreto é que me segura. O sonho e as promessas são importantes, mas são a massa pastosa que junta os alicerces dos dias. Para dormir bem eu preciso do sonho, para sobreviver eu preciso do real. É que o real é cheio de falhas e imprevisibilidades. Acho que as falhas é que fazem a construção.

 

E o sonho?

O sonho restaura-me as energias e empurra-me para a frente, mas guardo-o para as noites. E a vida faz-se de dia. Digo tudo isto e depois penso em certos livros, nos livros do Borges por exemplo, e penso que estou enganada. Se eu não tivesse lido o “El Aleph” e se não acreditasse em cada palavra, o meu caminho era outro. Então: o real é que me faz seguir, mas o sonho é aquele fiozinho transparente ao qual todos afinal nos seguramos. Porque a vida não pode ser só isto.

 

O que se aprende nos livros, no cinema, na arte é muito diferente do que se aprende na vida?

Não sei se o que se aprende é diferente, é mais a maneira como se aprende. Vida prática e literatura são duas coisas bem diferentes. Mas acho que determinadas artes são armas de acção. E quando falo de acção não falo sempre de uma coisa violenta, podem ser armas que nos ensinam o sossego. São ferramentas de transformação do concreto. A vida real é outra coisa– é diária, imparável. Eu posso sair do cinema quando quiser, fechar os livros dos outros quando quiser. Da vida eu não posso fugir. Seja como for, com determinados livros eu aprendi a ver o concreto por um outro prisma. “O Som e a Fúria” do Faulkner, por exemplo, é um livro cheio de acontecimentos familiares e banais. Só que não. Porque através das descrições dele, tudo vira uma outra coisa. O Faulkner faz um zoom aos gestos mínimos, como talvez devêssemos nós fazer muitas vezes durantes os dias práticos. A literatura cumpre muitas vezes o papel de desviar o foco do olho para os detalhes, e os detalhes são da maior importância.

 

Atravessamos um deserto em que todos sabemos o nome do ministro das Finanças alemão ou grego. Antes de mais: considera que é um deserto? Onde fica o oásis?

O oásis fica muito longe do espaço político. É importante, claro, compreendermos o espaço físico e económico em que nos inserimos hoje. Todos pagamos as nossas contas e é preciso que estejamos atentos ao real que nos rodeia. Àqueles que nos governam. Mas este deserto é muito maior do que a política e do que as finanças. E muito maior que a Europa. O mundo atravessa um deserto emocional, ideológico.

 

Que quer dizer?

Estamos cansados, estamos feridos, e principalmente estamos confusos. Está tudo num ritmo que é muito mais acelerado que a nossa própria respiração, um ritmo que não nos é natural. Parece que agora tudo acontece à nossa frente, à frente dos passos que conseguimos dar. A existir um oásis, ele é interno. O oásis está na serenidade e no foco. Em aceitar fazer uma coisa de cada vez, mais devagar do que nos é pedido. Ninguém consegue fazer uma corrida sem alongar de vez em quando. O mundo, principalmente o mundo ocidental, está preso à corrida. É preciso alongar a cabeça e o coração, é preciso sossegar.

 

Demasiada conversa e negociação? Selvajaria e domínio dos mais fortes sobre os mais fracos? É tempo de quê?

Mais do que chamar-lhe selvajaria ou domínio, este é o tempo da transição. Isto é muito maior do que um jogo de vencedores e vencidos. Às vezes parece que o mundo está feito um malabarista que não sabe mais para onde ir. É preciso estar atento, fazer silêncio, olhar para a história para que não repitamos uma e outra vez os erros do passado. Estamos assustados, sabemos que está tudo a ficar diferente e o diferente às vezes leva ao medo. O medo é um animal terrível. Mas se ao invés de ficarmos petrificados aproveitarmos toda esta confusão, pode muito bem ser que inauguremos o novo. E o novo, espera-se, é despido desse domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. O mundo ensina muitas coisas. Se ele está tão rebentado é porque certamente nos quer alertar para a mudança.

 

Se pudesse escrever uma carta a alguém, gritar alguma coisa, seria o quê e a quem?

Faço isso através da literatura, todos os dias. Os poemas também são cartas. São missivas, umas vezes profundamente ficcionais e outras vezes nem tanto. Costumo dizer que só virei poeta porque tinha muitos postais para mandar. Tento escrever sobre o detalhe, para assim devagarinho chegar à verdade e ao grito. O grito não tem que ser necessariamente um acto de violência. A violência não me interessa agora, a verdade sim. A verdade é o que mais me interessa.

 

“Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, no sol de quase Dezembro, eu vou...”, canta Caetano Veloso. Já não vamos sem lenço, sem documento. Levamos atrás o quê?

Espero que levemos outras partes da canção. Os grandes beijos de amor, as fotos, os nomes, os olhos cheios de cores. É difícil, mas seja como for ainda é Verão. O Verão salva sempre um bocado. As estações do ano têm esta função fundamental de nos lembrar de que muita coisa passa e muita coisa volta. Volta diferente, mas volta. Levemos o verão.

 

O futuro passou a ser uma ameaça, evitar o perigo uma divisa. Quando foi a última vez que usou a palavra esperança?

Tendo em conta o que faço, é impossível dizer que desisti da palavra esperança. O trabalho de um fazedor – quem escreve, quem pinta, quem compõe – é cravejado de esperança. Mesmo quando ela não tem reflexo directo na obra feita, o seu processo leva sempre uma porção disso. Porque o processo de criação é diário, nada nele é imediato. Para se chegar a um objecto final, faz-se e refaz-se constantemente. Isso dá tempo ao pensamento e à inversão do pensamento, logo, à esperança. Não há porque ter medo do futuro. Afinal, ele é sempre outra coisa. A ter medo, às vezes tenho do presente, de não usar bem o meu tempo no presente.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

 

 

 

 

Tomás Cunha Ferreira

08.09.17

E aí, é fundamental usar uma raiz brasileira para falar da sua identidade e do seu percurso?

É isso aí, fundamental. Fui criado entre Lisboa e Rio e São Paulo, confundindo lá e cá e vice-versa, e ainda ando nisto.

 

Você é mais músico mais poeta ou mais artista plástico? Um é pensável sem o outro? Como é que dialogam uns com os outros?

Tento não gaguejar ao dizer o que sou, mas, de verdade, falta-me a convicção e a lata para dizer que sou artista, ou músico, ou não sei quê. Arrisco e tropeço, hesito, mas quando faço não caibo em mim.

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 Pode apontar poemas e canções e obras e fragmentos de mundo que o digam bem?

Agora estou a pensar nos Popcretos do Augusto de Campos, poemas feitos com recortes de revistas e jornais, nos anos 60. São colagens pop e concretas, políticas, para ver, ler, dizer, remixar. Estou a pensar também no Rap Popcreto que Caetano Veloso e Gilberto Gil gravaram no disco Tropicália 2, um recorte sonoro da palavra “quem”, a partir de outras canções de outros cantores. Enquanto soa a pergunta “quem?”, vamos reconhecendo (ou não) as vozes recortadas, como imagens de um retrato abstracto. Todos e ninguém. Olho por olho, boca a boca.

Também estava aqui a pensar no Paul Celan dizendo que quando se fala de arte “há sempre alguém que está presente e... não presta atenção ao que se diz”. Gosto disso e talvez isso tenha a ver com o Jasper Johns dizendo “as minhas pinturas são um convite para olharem para outro lado”. Afinal, que me importa? 

Também penso no mistério das vogais de Rimbaud: “A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul”.

E neste poema do Maiakóvski:

Eu

à poesia 

só permito uma forma:

concisão,

precisão das fórmulas

matemáticas.

Às parlengas poéticas estou acostumado,

eu ainda falo versos e não fatos.

Porém 

se eu falo

"A"

este "a"

é uma trombeta-alarma para a Humanidade.

Se eu falo

"B"

é uma nova bomba na batalha do homem.”

Mas mais que tudo isto, minha alegria vem muito das coisas que os meus amigos fazem, esses sim, poetas, músicos, pintores.

 

O que é que quer dizer a palavra ontemporâneo, que inventou/a que chegou recentemente? Estou também a perguntar pelo que lhe é intrínseco e concomitante (queira desculpar os palavrões!).

Chegar a um poema de uma palavra só, ou de um letra só, ou um poema em branco, vazio. Não dizer nada, acho que seria o poema ideal, tudo condensado. Se cortarmos o C da palavra contemporâneo, destaca-se o “ontem” que está escondido na palavra. De repente tudo aqui ao mesmo tempo agora. É isso. Numa palavra.

 

Conte do encontro com Moreno Veloso ou Domenico Lancellotti. Conte de como eles o fizeram sentir um deles. Conte porque é importante a irmandade. Ou não é?

É daqueles encontros em que há o antes e o depois, na vida, e ao mesmo tempo o encontro é que faz o antes e o depois serem só um. Sempre que estou com o Domenico alguma coisa muito especial nos acontece, é estranho. O Domenico tem qualquer coisa que mais ninguém tem no mundo inteiro, uma electricidade calma. Com o Moreno também é muito especial; uma vez combinámos ir até Assis, encontrar São Francisco, e fomos. Uma viagem e tanto. O Moreno tem uma calma eléctrica.

 

Conte do encontro com Jacinto Lucas Pires. Como é que funcionam Os Quais?

Quando cheguei do Brasil, na adolescência, conheci o Jacinto. Foi o que me safou. O Jacinto é o meu amigo. Somos uma dupla. Começámos logo a fazer canções juntos, imediatamente. Tinha que ser. Nunca pára. É assim que funcionam Os Quais. Não há outros! É mais uma oficina que uma banda.

  

Viveu no Japão seis meses, na Suíça um ano, no Brasil em diferentes períodos. O que é que mais aprendeu em cada um destes lugares?

Caramba, não sei! Tentei encontrar-me nesses lugares, chegar à rua da minha casa, seja qual for. Às vezes consigo desenhar uma linha que liga isso tudo. Ainda quero inventar mais lugares pra viver. Como diz o Rodrigo Amarante, uma ida à padaria já é se aventurar.

 

É também professor numa universidade. Pode falar da aprendizagem com os alunos?

Aprendo muito dando aulas de pintura, desenho e comunicação visual. Conheci pessoas incríveis, alunos extraordinários, acho que temos feito coisas boas juntos. É uma troca. Tento dar o máximo, mas acho que saio sempre a ganhar.

 

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Entrevista feita propositadamente para este blog em Fevereiro de 2015

http://tomas-cunha-ferreira.blogspot.pt