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Anabela Mota Ribeiro

Itália low-cost (Veneza, Florença e Bolonha)

31.12.17

A experiência de visitar Veneza tem qualquer coisa de A Rosa Púrpura do Cairo. Há um cenário de beleza idílica, com a espessura de um cartão-postal, e de repente ele ganha forma, profundidade, temperatura, e nós cabemos nele. No filme de Woody Allen, o impossível também acontece: Cecilia, a empregada de mesa que se refugia nos filmes da vida atroz que leva com o marido, recebe, do lado de cá do ecrã – do lado da vida –, o seu herói do cinema, qual príncipe sem cavalo branco, que a resgata para o plano da felicidade. Ela recebe-o como quem recebe um presente. E nós entramos em Veneza como quem entra num sonho.  

Entre este parágrafo e o filme de Woody Allen deve estar uma frase de Goethe: “Veneza deixa de ser para mim mais uma palavra apenas”, escrita quando o poeta alemão chegou a Veneza em Setembro de 1786. Depois de ter sublinhado esta frase, e de ter anotado “30 Agosto de 2013; a quarta vez em Veneza, creio”, pensei que “uma frase apenas” é uma folha de papel. Lisa, em branco, anódina. O que muda tudo é a vida que fica inscrita na folha, na frase, que salta do ecrã e nos leva para o paraíso da infância. Só aí é que acontecem as coisas fantásticas que acontecem nos filmes e em Veneza – como ver uma mulher com um ramo de flores no vaporetto e perceber que vai visitar um ente querido ao cemitério de San Michele, pequena ilha em frente a San Marco. Visitar um ente querido de barco?, um cemitério numa ilha?

O encanto de Veneza talvez esteja em transportar-nos para esse território onde tudo é possível. A cidade, ela mesma, parece impossível (perguntamo-nos: Veneza existe, deveras?). No filme de Woody Allen, Cecilia acaba mais ou menos como começou: a apanhar do marido, a ouvir do chefe, fascinada pelo cinema. Mas enquanto dura o mistério, enquanto, de facto, o herói a leva a jantar (não importa que o dinheiro que usa para pagar a conta seja falso), nada mais é preciso.

Era, portanto, a quarta vez que eu estava em Veneza, e estava fascinada como se fosse a primeira. De certa maneira, é sempre a primeira vez que se vai a Veneza por causa deste carácter exorbitante da cidade.

Um parêntesis para contar a minha efectiva primeira vez em Veneza: aterrei no dia 24 de Dezembro, frio de neve, cidade deserta. Percebi mais tarde que os dias 24 e 25 de Dezembro são os únicos dias do ano em que a cidade está vazia. Os enxames de turistas começam a chegar no dia 26. E como a população de Veneza se fica pelas 58 mil pessoas, eram pouquíssimos os que se encontravam no labirinto de ruas, atarefados a resolver compras de última hora. Diziam uns aos outros, como uma senha: auguri! Eram pessoas com um ar burguês (quem mais tem dinheiro para ter casa em Veneza?), ligeiramente envelhecido ou completamente envelhecido. Devem ter encontrado um modo de coabitar com os 13 milhões de turistas que invadem Veneza todos os anos. Pouco mais de um milhão por mês.

Nesse 24 de Dezembro a cidade estava silenciosa como nunca mais a encontrei. A acústica (tão particular em Veneza, por causa dos canais) permitia ouvir passos distantes, o rumor das águas, o deslizar de duas gôndolas. Comprei no mercado de Rialto iguarias para a ceia de Natal. Mais prosecco e panetone.

No dia de Natal havia o silêncio das manhãs de Natal (das casas onde não há crianças). Um silêncio que se prolonga pelo dia, quando as pessoas ficam mergulhadas no torpor que sucede aos grandes encontros. Foi no dia de Natal que percorri as ruas estreitas, transpus centenas de pontes, resisti à chuva de neve. Lembro-me de ter encontrado um café, um dos únicos abertos, e de ter tomado um expresso. Muito torrado e curto. Uma italiana é um café muito curto, não é? Pois então. Eu estava em Itália.

Ofereci-me de presente 20 minutos de gôndola. Um presente caro, mágico e triste. Triste porque sublinhou a impressão de que passeava por um cenário, como o de Morte em Veneza de Visconti. O gondoleiro estava, como eu, cheio de frio, e não cantou.

Mas Fábio, o gondoleiro desta quarta vez em Veneza, correspondia à imagem estereotipada do gondoleiro. Cantava O Sole Mio, apontava a casa de Marco Polo, a de Casanova, falava em português com sotaque do Brasil; é casado com uma brasileira, e esta “valência”, como se diz nos cursos de Gestão, tem sido muito útil para passear os milhares de brasileiros que, cheios de nota, aterram em Veneza. Eu não tinha muita nota, pelo contrário, e regateei o preço. Um passeio de 45 minutos, para quatro pessoas, custou 80 euros.

Talvez seja altura de dizer que o propósito desta viagem era adaptar a promessa de felicidade que Itália representa para mim ao orçamento low, mas mesmo low de que dispunha. E também é importante dizer que viajei com uma família que vive no norte, com uma criança de nove anos, e que todos os gastos, mas mesmo todos, foram objecto de discussão.

Estive quase a desistir da viagem quando choquei de frente com os preços dos voos. Veneza é capaz de ser a mais cara das cidades italianas (de todas as que visitei, é, sem dúvida), e o voo custava uma pequena fortuna. Mesmo comprando com um mês e meio de antecedência. Tive então a ideia de voar para Bolonha e fazer o resto da distância de comboio. Para terem uma ideia do quanto se poupou com esta manobra, passo a explicitar: numa companhia low cost, a partir do Porto, o bilhete para Bolonha andava pelos 140 euros (tudo incluído); na Tap, para Veneza, o preço era de 400 euros, também a partir do Porto. Acabei por voar na Tap, para Bolonha (opção muito acessível), a partir de Lisboa; e a família viajou com a RyanAir, do Porto.

Este impulso fez-me estender um mapa de Itália sobre a mesa e alargar horizontes. Se a opção era voar para Bolonha, talvez pudesse não me ficar por Veneza, que fica a uma hora e meia de comboio. Florença fica a meia hora de Bolonha (35 minutos, para ser exacta) e eu tinha muita vontade de ver o David de Miguel Ângelo, entre outras coisas.

Outro excurso para contar a primeira vez que fui a Florença. Eu era uma menina de 23 anos, fazia programas na televisão, o que me dava, facto novo, o conforto de não ter de esticar até ao fio o dinheiro do mês. Era um tempo em que se ganhava bem na televisão. Decidi ir sozinha para Florença. Não sei o que me passou pela cabeça para escolher Florença, e não Roma ou Veneza, para primeira cidade italiana. E sozinha, sim, porque gosto muito de viajar sozinha, do encontro a sós com uma cidade. É um diálogo íntimo como os diálogos íntimos que se têm com pessoas. Gosto de estabelecer um enredo e cumpri-lo com liberdade; é mais difícil consegui-lo quando temos de articular as nossas prioridades, ritmos e neuras com outras pessoas. Uma boa parte dos meus amigos não compreende o meu gosto de viajar sozinha. “E não tens pena de não partilhar o que estás a ver?” Não. Partilho de outra maneira, a posteriori, e depois de as coisas se sedimentarem em mim.

Nunca mais estive em Florença sozinha. Nem voltei a Siena, àquela magnífica praça onde me sentei e tive uma sensação de plenitude que ainda recordo. Achei que não precisava de mais nada para ser feliz. Olhava, sentada no chão, era tudo. Em Junho. Não tenho ideia do que comi (devo ter comido bem, porque só se come bem em Itália), mas não esqueço uma fachada amarela, da cor dos girassóis, que me apontaram como sendo a casa dos Médici. É a cor que não esqueço, mais do que a casa, porque tudo ficou guardado nessa tonalidade dourada e sonhadora.

Na viagem deste Verão, fim de Verão, não tive tempo para visitar Siena ou San Gimignano, a aldeia medieval que fica a dois passos de Florença. O dinheiro estava contado e o tempo também. Resumindo: a viagem durou de sexta à tarde a quarta. Apanhámos o comboio em Bolonha às seis da tarde. Assistimos ao cair da noite no vaporetto, ainda não eram oito da noite. Primeira imagem do que aquilo ia ser: águas azul indigo, reflexo pirilampo das luzes, casas terracota ou marmóreas nas margens.

Para a criança que estava comigo, além do deslumbramento de Veneza, havia a coincidência de num só dia andar de carro até ao aeroporto, de avião até Itália, de comboio até Veneza, de barco até ao centro de Veneza. Ela acrescentava, atenta: “E de táxi entre o aeroporto e a estação de comboio, em Bolonha. E de autocarro entre o avião e o aeroporto”. Os adultos não reparam nestas coisas. Mas uma criança olha para o que não foi ainda olhado, e essa foi uma das coisas mais extra-ordinárias de visitar Veneza com a Vitória. Ela transportou-me para o encantamento que é próprio da infância, sem reservas e sem medos, e que Veneza potencia por ser a tal cidade cenário de cartão.

Mas não é fácil ser criança em Veneza, vêem-se poucas crianças em Veneza, dou por mim a pensar que não vi nenhuma escola em Veneza – onde estão as crianças de Veneza? Não se vive em Veneza. Visita-se Veneza. Porém, e voltando ao meu ponto, todos somos crianças quando pomos o pé em Veneza. Não é preciso que esteja acqua alta, e que São Marco tenha água pelo joelho. O tempo estava glorioso.

Volto a Goethe. “A largura das vielas pode em muitos casos medir-se de braços estendidos, ou quase, e nas mais estreitas bate-se com os cotovelos nas paredes quando estendemos as mãos para os lados; há outras mais largas, aqui e ali também uma pracetazinha, mas em geral pode dizer-se que tudo é acanhado”. Desde a primeira viagem a Veneza que procuro estas vielas onde os meus cotovelos possam bater. Não as encontrei ainda. Mas desta vez encontrei uma onde os braços curtos da Vitória tocavam, sem dificuldade. Ficava perto da “nossa” casa, a dois passos da igreja e da ponte della Crocre, entre o Arsenale e São Marco. 

Era um piso térreo, construído à volta de um saguão, com um bom quarto de casal, casa de banho, cozinha, sala ampla (com sofá cama). Tinha também um pequeno jardim, impossível de usar por causa dos insectos. Bed and Breakfast, evidentemente, 200 euros por noite. Apesar de ser a parcela mais cara desta viagem, o preço não era absurdo se pensarmos que aí dormiam quatro pessoas. Se compararmos com os preços de Florença e Bolonha, era uma careza.

Em Florença o preço era 140, em Bolonha 109. Sempre para quatro pessoas, no centro da cidade, opções confortáveis. Encontrei-os no Booking.com. Só é preciso procurar com paciência e prestar atenção aos comentários que outros hóspedes fazem. Durmo frequentemente em B&B e posso dizer que estes eram melhores do que outros onde fiquei em Roma, em Paris ou em Madrid. E pela primeira vez os móveis não eram Ikea, ou desengonçados.

É fácil ser feliz em Itália. Tudo é superlativo em Itália. (“Boa noite é o que nós, gente do norte, dizemos sempre que nos separamos depois de escurecer; o italiano diz felicissima notte uma única vez, e no momento de nos trazerem a luz ao quarto, quando dia a noite se separam, e nessas circunstâncias a expressão tem um sentido completamente diferente”.)  Felicissima notte em vez de boa noite. Felicíssimo dia. Uma praça onde se encontram Neptuno, Hércules, David. As galerias Uffizi ao lado. Os tectos abobadados, pintados com esmero, no palazzo vecchio.  Ao dobrar da esquina, casas, igrejas, jardins, estátuas. Estupefacção permanente.

“Ali” morava Dante. O Dante (que estudei) e que começou um longuíssimo poema da seguinte forma: Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura. Todos nos encontrámos já numa selva escura, interrogando-nos sobre o caminho que fazemos, quando vamos a meio. Então “o meio” eram os 30 anos. Dante escolheu o poeta Virgílio para o acompanhar na viagem. Mas Dante, que amava muitíssimo os poetas, pôs Homero ou Horácio nos primeiros círculos do Inferno, e pôs um suicida, Catão, a guardar as portas do Purgatório. Porquê, que quer isto dizer? Porque é que os poetas não estão no Purgatório, ou mesmo no Paraíso?

Continuo a pensar nos enigmas de Dante, nos nossos enigmas – como não amar Dante? “Ali” é a ponte onde pela primeira vez Dante viu Beatriz.

Poderia visitar Florença apenas para seguir o seu rasto. E teria, a dois passos, o baptistério, com as portas do Paraíso esculpidas numa folha de ouro muito amarelo; a catedral de mármore verde e rosa, que naquele começo de Setembro tinha uma fila de centenas de pessoas para entrar. “Aqui” tudo é extático e de certo modo irreal. Mas muito diferente de Veneza. Em Veneza é o cenário que parece fictício e nos atrai. Em Florença estamos já dentro do labirinto e tropeçamos em tesouros, uns a seguir aos outros. Não queremos sair.

Dois tesouros: a biblioteca dos Médici (Biblioteca Medicea Laurenziana) e o David (Dávideee, chamam-lhe os florentinos) na Accademia (é melhor pagar quatro euros extra e marcar entrada na Accademia – ficam a ser 15 euros; de outro modo, perde-se uma manhã na fila. Porque é que é diferente da réplica que está na praça principal? Porque é o original, e porque, por sabermos disso, nos parece maior, e mais brilhante, e mais gracioso).

Não chegámos a estar dois dias completos em Florença. Eu gostaria de ter estado mais tempo, é claro; sobretudo quando se vai pela primeira vez, dois dias é pouco. Mas de repente pareceu-me que Veneza tinha sido há uma eternidade, e isso deu-me a noção de que a marca de Florença já se sobrepunha, e que tinha visto muitíssimo naquelas poucas horas. O tempo permitiria que as impressões se sedimentassem. Era terça-feira à tarde e era preciso apanhar o comboio de regresso a Bolonha.

Como já escrevi, a viagem tinha o dinheiro contado. Imaginem o meu horror quando percebi que comprei bilhetes de comboio de primeira classe e não de segunda! Os bilhetes já não eram propriamente baratos. Andavam pelos 25 euros (entre Bolonha e Florença) e os 40 euros (entre Veneza e Florença, duas horas de distância). Felizmente a Trenitalia estava com uma promoção para famílias e as crianças não pagavam (a CP não quer fazer o mesmo?). Em todo o caso, tanta poupança e de repente eram malbaratados uns 15 euros, em média, por bilhete. Disse entre dentes, danada: “Ao menos um prosecco, para afogar as mágoas”. Alguém ouviu as minhas preces. A CP oferece um café de termos e um biscoito. A Trenitalia oferece um prosecco e uns frutos secos. Faço daqui um brinde à Trinitalia!, e deixo um recado: a CP não quer fazer o mesmo?

Bolonha é uma cidade surpreendente. Era a única das três que não conhecia, e se não fosse este estratagema para poupar massas no bilhete de avião para Veneza, provavelmente não a visitaria. O que eu perderia... Foi em Bolonha que vi uma das homenagens mais tocantes de uma cidade aos seus heróis.

Está na praça principal. São três painéis com as fotografias e os nomes dos bolonheses que combateram na Segunda Guerra Mundial. Uma fotografia especifica: partigiani combatentes: 14425, dos quais mulheres: 2212. Partigiani mortos: 2059. Feridos: 945. Presos: 6543. Fuzilados por represálias: 2350. Mortos nos campos nazis: 829. O que é que revelam as fotografias: que eram pessoas como nós. Nem mais pobres, nem mais ricas, nem mais desesperadas, nem mais destemidas. Eram caras como as nossas, anónimas. E contudo, heróis. Que morreram a lutar. É muito inspirador, em tempos de crise, passar pela praça e ver aquelas fotografias. As circunstâncias são outras, bem entendido. Mas aquelas pessoas dão-nos ânimo para continuar, ajudam-nos a não baixar os braços. Grazie.    

Que mais há para ver em Bolonha? O museu arqueológico (é muito gabada a colecção de artefactos etruscos e egípcios, mas só tive tempo para ver a ala greco-romana). A biblioteca, o teatro anatómico onde se fazia dissecação de cadáveres. Um centro histórico onde se come genialmente. No Tamburini come-se salame, presunto de Parma, mortadela, carpaccio..., a dez euros a tábua; uma tábua dá, à vontade, para duas pessoas. Na taberna Il Sole só servem bebidas; é suposto que se comprem fatias de pizza e paninis nas lojas vizinhas e que se peça álcool ao balcão. Não é exactamente o sítio mais limpo do mundo, apesar de ter uma tabuleta que diz: é vietati sputare sul pavimento. Mas o ambiente é divertido, muito local a marimbar-se para o turista, e gostei mais desse prosecco, a dois euros a flute, do que daquele que bebi em Veneza ou Florença.

Goethe não gostou especialmente de Bolonha. Refere-se à cidade apenas em três entradas no seu livro-diário Viagem a Itália. O seu anseio era chegar a Roma. “O meu desejo é mais forte do que os meus pensamentos. Sinto-me irresistivelmente atraído para diante, e tenho dificuldade em me concentrar no momento presente”. Mas fala de pedras maravilhosas, que viu nos arredores da cidade, e de um sonho que tivera um ano antes e que lhe ocorreu nesses dias que passou em Bolonha. Sonho perturbador. Eu tive pena de não poder demorar-me no presente, naquele meu presente, que era Bolonha. Tenho de voltar. Quanto à pequena Vitória, depois de Veneza e Florença, Bolonha pareceu-lhe secundário. Ou então era só o cansaço. Nós, os adultos, esquecemo-nos de que uma criança, mesmo que seja muito curiosa e bem comportada, não tem pernas para andar de manhã à noite. E a única maneira de ver três cidades em seis dias (nem isso) é não parar. Parar? Parada estou eu agora.

 

 

Como chegar:

Viajar de comboio, em Itália, é uma bela experiência. É confortável, pontual, há espaço para as pernas. A informação horária que está no site é rigorosa: http://www.trenitalia.com

Mesmo que viaje em segunda classe e não tenha direito a prosecco, recomenda-se. Ao meu lado, numa das viagens estava um cão labrador. A passageira contava que o preço do bilhete do cão era carote, mas só num pequeno troço da viagem exigiram que pusesse açaimo.

É possível comprar bilhete em máquinas na estação ou em guichets próprios. Nestes últimos, as filas são exasperantes. Comprar na máquina é fácil. Pense duas vezes antes de alugar um carro. Caos absoluto na estrada, mesmo a auto-estrada para uma estrada nacional.

 

Onde comer:

Esta é a secção mais fácil de escrever. Come-se tão bem em Itália, e em especial em Bolonha, que o difícil é que corra mal. Veneza, sendo tão turística e cara, exige escolha mais cuidadosa. No nosso caso, acertámos no primeiro dia com o restaurante e repetimo-lo todos os dias. Não fiquem horrorizados os gourmets: o propósito da viagem não era gastar fortunas à mesa. O restaurante, muito perto de São Marco, é uma extensão de um restaurante napolitano (bom argumento para nos fazer decidir): www.rossopomodoro.com. O preço médio das refeições: 15 euros por pessoa. Uma garrafa de prosecco honesto custa 10 euros. 

Em Florença, a média de preços manteve-se mas a qualidade subiu significativamente. http://www.trattorialemossacce.it tem pratos geniais, num ambiente só aparentemente modesto. É relativamente acanhado, por isso é preciso reservar. Mergulhar o biscoito em vin santo, um vinho entre o aguardente e o licor, que é bom demais!, é obrigatório.

Bolonha tem como alcunha a grassa. Os bolonheses levam muito a sério a relação com a comida. Por mim, continuava à mesa do Tamburini, a pedir carnes frias e queijos da charcutaria contígua. Cada prato, abundante, custa 10 euros. O serviço é um desastre absoluto. Desorganização que choca, até, um português (que tem fama de ser desorganizado, mas que ao pé de um italiano é um alemão). A qualidade compensa a espera de 45 minutos por um copo. Espreite no site http://www.tamburini.com

 

Onde ficar:

Além do Booking.com, sugiro os seguintes sites para encontrar soluções económicas: http://www.luxrest-venice.com e http://residenzaariosto.it/

 

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013 

 

 

Deserto do Atacama (Chile)

27.12.17

Puras piedras viejas. Esta frase deve ler-se com vagar, como quem soletra, fazendo uma pausa entre cada uma das palavras. Com algum desdém. Deve ler-se com a intensidade de quem pronuncia “puras piedras” como se as duas palavras formassem um sopro, um hálito acidulado, e a aliteração de “piedras viejas” fosse uma música.

Experimente dizer outra vez: Puras piedras viejas. Agora com um arrastamento poético, enrolando a língua, como se sentisse a espessura de um tecido grosso e quente (por exemplo, alpaca). Como se estivesse refém de um feitiço, emudecido pelo espanto, sem palavras. Pode resumir-se esta indicação de leitura no seguinte verbo: balbuciar. Experimente dizer puras piedras viejas como quem balbucia.

As primeiras pedras foram ditas por uma senhora chilena, que passava dos 80 anos, diante do altar de Pérgamo.

O mundo inteiro acorre à ilha dos museus, em Berlim, onde o altar se encontra, ou vai à cidade de Pérgamo, actual Bergama, na Turquia. Demora-se frente à estrutura desmesurada, uma escadaria que vai da terra até ao Olimpo, quase sente na ponta dos dedos as histórias esculpidas no friso de mármore. Zeus, Apolo, Dioniso, todos os deuses, todas as desventuras, todas as ilusões e todas as tragédias (Medeia também está lá) cabem num baixo-relevo e são ali narradas. Do século II antes de Cristo, explicam os explicadores.

Mas a senhora arruma tudo numa frase: puras piedras viejas. Desinteressada.

As segundas pedras não dizem a história, não têm dramatismo (aparentemente), não foram esculpidas por mãos e escopro e imaginação. São uma massa inerte, abandonada há milénios, uma estranha e singular forma poética. O que é que há neste nada que parece ser tanto? Porque é que estas pedras, ridiculamente pequenas ou absurdamente grandes, nos impressionam e comovem, para lá do dizível ou do compreensível?

Talvez a sensação de absoluto seja dada pela imensidão. Para onde quem que se olhe, há sempre mundo.

Sou eu que digo as segundas puras piedras viejas, em pleno deserto do Atacama. Esmagada pela emoção. Nenhum desdém. Estou no Valle dela Luna ou no Valle dela Muerte. Já não me lembro. Também posso estar na laguna onde se vêem flamingos que esvoaçam como se o seu peso fosse o de uma pluma. (Bela plumagem têm.) Ou estou, simplesmente, a olhar para o Licancabur, o vulcão que se vê de todo o lado e que tem seis mil metros de altura. Outra maneira de o dizer: que se vê de todo o lado porque tem seis mil metros de altura. Maravilhoso vulcão. Há mais quarenta (quarenta!) nas imediações, mas nenhum é tão imponente e fabuloso quanto este. Percebe-se que a Jenny, que encontrei na aldeia de Tulor, adore Deus e a Natureza, e que, ao dizer isto, desvie o olhar para o Licancabur.

É a primeira vez que estou no deserto e lembro-me de um título de Raul Brandão. “A pedra ainda espera dar flor”. Aquelas pedras são tão bonitas como se pudessem dar flor a qualquer momento, como se tivessem vida.

É difícil dizer estas coisas sem que isto pareça uma tonteria, um artifício literário, uma frase presumida. Não sei explicar porque é que uma pedra, sem especial brilho ou beleza, pode comover. É mais fácil compreender que o deserto desperte em nós essa sensação de estarmos desorbitados, fora do mundo, de casa. Nem que seja porque nos reconduz a uma inaugural desprotecção e insignificância. Mas uma pedra, como compreender o feitiço de uma pedra? Uma pedra que não é sequer uma rosa do deserto, aquelas lindíssimas pedras que abundam em Marrocos, por exemplo, e que são tal qual rosas petrificadas. O nome não podia ser mais exacto. Porém, dias mais tarde, atravessei o Atlântico carregada de pedras. Como quem transporta um tesouro.

O deserto do Atacama não é um deserto de areia. Tem a grande duna, que se avista do Valle dela Luna, e que tem o tamanho de um prédio de dez andares. Vista a uma distância de poucos metros, crê-se, em todo o caso, que ela é inacessível, que nenhuns pés a podem trilhar. Mas isso deve resultar do facto de estar sem mácula, sem rugas, sem movimento. É uma duna que ao fim da tarde fica cor de ouro e para onde se olha em adoração.

Fora a grande duna e as dunas mais pequenas, onde se faz sandboard, e que não são muitas, o deserto do Atacama é constituído por puras piedras viejas, cordilheiras intermináveis, salares (isto é, superfícies salgadas), terra gretada, terra que parece Marte (a NASA faz aqui experiências quando quer ter uma ideia de como é Marte), terra que não parece desta Terra (extraterrestres: que los hay, los hay, diz qualquer atacamenho), formações rochosas esculpidas pelo vento ao longo de milhares de anos, formações rochosas daquilo que parece ser um barro mole, por secar, mas que o tempo tornou rijo, rijo como pedra, oásis no lugar onde correu o rio San Pedro e onde hoje se planta milho ou se ouvem pássaros, os já referidos vulcões, géiseres que entram em erupção às quatro da manhã, a Bolívia do outro lado de uma qualquer montanha. E poeira. E uma ou outra aldeia andina. E índios com uma tez curtida pelo sol e pelo trabalho.

Eu nunca tinha estado no deserto nem tinha visto um vulcão tão simétrico quanto o Licancabur. Sabia que os vulcões são uma estranha presença. Sabia-o do Vesúvio, do Etna, do Stromboli. Por onde quer que avancemos no caminho, seguem connosco. Como uma sombra que nos acompanha, mas que não tem o nosso recorte. Tinha sentido de perto o magnetismo destes vulcões (e tinha trazido pedras de todos eles, sim). Mas não tinha ideia que um deserto de pedras pudesse ser tão poderoso. Ou que o Licancabur fosse tão imenso. A que é que correspondem seis mil metros de altura? Saber que o Etna, que já parece monumental, tem pouco mais de três mil metros, ajuda. Contudo, talvez só se perceba o que são seis mil metros quando se chega perto, ou, melhor ainda, quando se começa a fazer uma preparação especial para subir (há gente valente, parece que não muita).

Ao contrário de Itália, onde Goethe, magnífico geólogo, me apresentava às pedras e às plantas como uma pessoa apresenta a outra as pessoas do seu tempo, no Atacama só tive o que os meus olhos viram. Isto é, o impacto da natureza. Puras piedras viejas, e subitamente flores. Flores de um vermelho sangue, esparsas, que rebentam em meia dúzia de semanas e depois se eclipsam. Os tufos onde nascem ficam tão ressequidos que deles se pode fazer uma coroa de espinhos.

Mas para já eram flores, indubitavelmente flores, a interromper a aridez e a secura. Flores que podiam ser as de um verso de Pablo Neruda: “En mi tierra desierta eres la última rosa”. Talvez sejam ambas uma declaração de amor: a Matilde, mulher de Neruda, e ao deserto.

A imagem da coroa de espinhos surgiu-me de uma canção de Violeta Parra que aprendi naqueles dias. Run-Run se fue pal Norte foi composta pela artista chilena para mitigar a tristeza da partida do amante, Run-Run. “Así es la vida entonces,
espinas de Israel, amor crucificado,
corona del desdén”. Ela ficou no sul, ele foi para o norte. Entre eles “un abismo sin música ni luz, ay ay ay de mí”.

Eu não estava no mesmo norte de Run-Run. A letra fala de Antofagasta, uma cidade do norte-litoral, mas não do deserto.

E não tinha deixado exactamente o sul, mas Santiago, que fica a meio do Chile. Não é sul porque no sul fica a Patagónia e a Tierra del Fuego. Mas é um sul quando pensamos que entre o deserto e Santiago estão duas horas de avião. Ou que atravessar longitudinalmente o país é como ir de Lisboa a Moscovo. Atravessá-lo entre a cordilheira dos Andes e o oceano Pacífico, ou seja, em largura, é um instante: são entre 100 e 300 quilómetros (números redondos).

Uma parte considerável dos chilenos não chega nunca a conhecer o seu país, dada a sua extensão. Jenny, que encontrei na aldeia de Tulor, tinha ido apenas uma vez a Santiago. De camioneta, uma saga interminável, um entusiasmo superior. Admirou a agitação da cidade, a beleza das avenidas, as árvores que espreitam em cada rua. Verdadeiramente espantou-se com o preço da água! Com o barata que era. Uma garrafa de água custava metade do que custa numa mercearia do Atacama.

(A todo o momento lembram-nos que a água é um bem escasso. No hotel pedem que os banhos não sejam demorados e que as toalhas não sejam trocadas a não ser que seja indispensável.)

Por esta altura, já deve ter nascido o filho de Jenny, que tem 40 anos e três filhas mulheres. A mais velha chama-se Milady Nicole e gosta do seu nome. O rapaz na barriga ainda não tinha nome.

É Jenny que apresenta a aldeia de Tulor, que significa lugar de descanso. Aparentemente o seu trabalho é vender bilhetes para visitar este espaço arqueológico. Não percebi se ser guia fazia parte das suas atribuições ou se foi por simpatia que enfrentou, grávida de sete meses, o calor das três da tarde. Mostrou as escavações e o que resta das construções redondas de Tulor. Têm 2600 anos, são anti-sísmicas e resistentes, a despeito de serem construídas de barro e areia. No caminho até elas, passa-se por uma série de arbustos, alguns com um cheiro intenso e agradável quando se tocam entre os dedos, outros com propriedades salvíficas.

Os primeiros vestígios da aldeia, de dois quilómetros de extensão, foram encontrados em 1958 pelo padre belga Gustavo Le Paige (o museu de San Pedro onde se encontram achados da cultura indígena leva o seu nome). A aldeia foi desenterrada pela arqueóloga Ana María Barón nos anos 80.

Barón é uma mulher exuberante, loura. Intrépida, dirigiu incontáveis expedições aos vulcões da região, inclusive ao Licancabur. Um fascínio pelo deserto mais seco do mundo fê-la radicar-se ali em 1977. Entre 1992 e 94 foi alcadesa de San Pedro.   

Perto dali, a uma distância curta da aldeia, há lamas. Têm um ar manso, lento e terno, e ruminam. São tão antigos quanto a paisagem, fazem parte do quadro atacamenho. Uma série de lamas desenhados numa pedra atesta-o. Há várias inscrições deste tipo, mas esta, para que fui levada por um guia peruano, é o tipo de jóia descoberto há pouco e que em breve estará rodeado de cercas e admiradores.

A rocha tem uma superfície lisa, propícia à gravação. Ou então foi desbastada para facilitar o trabalho. É muito fácil identificar os bichos pelo pescoço muito alto e a altivez que têm os camelos (são da família). As camisolas e os cachecóis que se vendem na rua Caracoles, em San Pedro, são de lã de lama e alpaca, têm uma macieza boa de tocar e são um bom aconchego para as noites frias do deserto.

Era o início do Verão quando estive no Atacama. A terra estava mais gretada do que é costume, mas o calor era suportável. À noite, o vento cortava e a temperatura descia até aos dez graus. Os meus Birkenstock foram eficazes para enfrentar a poeira e as rochas (há duas lojas em San Pedro que vendem calçado apropriado: custa uma fortuna). Verdadeiramente indispensável é um chapéu, que comprei por 50 cêntimos, e um creme gordo, porque a pele desata a gretar (como a terra) um dia depois da chegada. (Ninguém tinha noção de quando tinha chovido pela última vez.)

A vida de San Pedro corre em função do turismo. Seria um lugarejo sem história se não funcionasse como epicentro da região. É a partir dali que se percorre o que globalmente se designa por deserto do Atacama.

Não vi lá, como em Tuconao, uma freira a agitar o sino da igreja de 1750, ou miúdos em idade escolar a jogar à bola na praça central. San Pedro tem uma bela igreja, um campo de futebol, uma praça. Não parece é ter uma vida de todos os dias, própria, à margem do turismo. Mas posso ter sido eu a não conseguir ver.

O número de habitantes ronda os dois mil, as casas são de uma argila de tons róseos, os cactos têm os braços mortos pelo calor (como um membro caído, decepado). Não se encontra um lagarto, nem em San Pedro nem na vastidão do deserto. Encontram-se cães, às dezenas, que se estendem no chão, indolentes. Em San Pedro, Valparaiso, Santiago, como nos filmes passados na América Latina. Parecem confirmar o ditado que diz que cão que ladra não morde. Estes ladravam como se uma tragédia estivesse a acontecer ao raiar do dia. Mas garantiam-me que eram inofensivos.

San Pedro fica a uma hora e meia do aeroporto de Calama. Quase a chegar, sobrevoa-se a imensa mina de cobre que garante ao Chile um crescimento de 6,6% ao ano. A Chuquicamata é uma das maiores minas a céu aberto do mundo e tinge de um tom acobreado boa parte da paisagem. Também se sobrevoa o que começa por ser uma fortaleza inexpugnável e que se percebe ser a cordilheira dos Andes.

O mais fácil, apesar de não ser o mais barato, é alugar um jipe ou carro robusto. Há quem desbrave (o verbo não é excessivo) o deserto de bicicleta (eu acho que preferia fazer exercícios de respiração e subir ao Licancabur). A oferta de excursões é interminável, os hotéis e restaurantes de diferentes preços, também.

Na véspera da partida, soube, por um jornal brasileiro que um hóspede deixou no hotel, que Dona Canô, a mãe de Caetano e Bethânia, a avó de Moreno, tinha falecido. Não consegui não pensar nela como uma rosa do deserto que tinha seguido o seu caminho. Em Santo Amaro, num mapa diferente daquele em que me encontrava, uma flor seguia em direcção a um lugar que não se sabe onde fica. Uma senhora, pura e vieja, cuja solidez se encontrava assim que se viam os seus olhos. Ou se percebia no modo como cantava com os filhos. A luz deles deriva da dela, e essa não se extingue.

Para mim o Atacama ficou ligado a Dona Canô. No friso que percorre aqueles dias, esculpido na minha memória, a última imagem é dela.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

 

 

Viena

27.12.17

Klimt é um dos pintores mais amados de sempre. Quadros como O Beijo ou a comovedora imagem de uma mãe e do seu filho são ícones reconhecíveis no mundo inteiro. É dele também o Retrato de Adele Bloch-Bauer, vendido em 2006 por 135 milhões de dólares – uma das peças mais caras de sempre.

Nascido em Viena, Klimt é um nome que se aprende a revalorizar na sua cidade. Porquê revalorizar? Porque, por um lado, parece que os seus quadros estão demasiado reproduzidos, gastos, banalizados. Por outro, chega-se a Viena, vê-se de perto a sua técnica, a diversidade de registos e fica-se siderado. É um grande pintor, que felizmente conheceu grande reconhecimento em vida.

A obra está espalhada por diferentes museus e instituições da cidade. Encantatória.

 

Freud é um dos mais famosos vienenses de todos os tempos. O pai da psicanálise vivia no centro da cidade e recebia os seus pacientes em casa. A casa é visitável e tem muito que ver, apesar de parte substancial do espólio ter seguido para Londres onde o famoso médico terminou os seus dias, fugido da perseguição nazi. Através da colaboração da amiga Maria Bonaparte, Freud conseguiu levar consigo o mobiliário (incluindo o famoso divã), a colecção de peças arqueológicas, objectos do dia a dia.

O que há em Viena? Todo o mobiliário da sala de espera, o bengaleiro, um enigmático baú, a bengala, o chapéu à entrada da casa. Estes objectos são doações de Anna, filha dilecta do médico, após a morte do pai, para que a casa-museu de Viena não ficasse completamente destituída da alma de Freud. Há uma outra coisa preciosa: uma série de fotografias gigantes coladas nas paredes que mostram como é que o espaço era ocupado. Por coincidência, pouco antes da mudança, tinham sido tiradas.

O prédio continua a ser um banal prédio de habitação, e ao entrar parece, justamente, que estamos a entrar na casa de uma pessoa que conhecemos, e não num museu ou sequer no espaço de uma pessoa essencial para a compreensão do mundo moderno.

 

Arthur Schnitzler é um escritor enorme, autor de obras como A história de um sonho, adaptada ao cinema por Kubrick no filme De olhos bem fechados (com Tom Cruise e Nicole Kidman). O seu universo coincide em muito com o da cidade. Mas dizer isto é redutor. O seu universo é o da natureza humana, o do inconsciente, o das pulsões sexuais. Freud disse-lhe, a propósito da peça de teatro A Menina Else: “Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição – a partir de uma fina auto-observação – tudo o que tenho descoberto em outras pessoas por meio de laborioso trabalho”.

 

Por alguma razão, o cineasta Max Ophuls fez de Viena a cidade dos seus filmes. Quase todos se passam num mundo em transformação, de sentimentos à flor da pele. Um dos mais belos filmes de todos os tempos Carta de uma Desconhecida passa-se em Viena. Mas também A Ronda, que é filmado como se fosse uma valsa. Em Madame de…, há brincos que vão a Viena e voltam. E há os duelos de Liebelei… Todos estão disponíveis em DVD e são obrigatórios para se entender Viena. Persiste na cidade este espírito: o de um mundo que está quase a desaparecer e de outro que se anuncia. Viena está no equilíbrio destes dois mundos, e isso vê-se nas ruas da cidade. Coexiste o lado imperial e a modernidade. O excesso e a compostura. O passado e o futuro.   

 

A Secessão Vienense foi um movimento artístico que começou no final do século XIX e que teve a sua máxima afirmação no começo do século XX. O pintor Klimt foi uma das figuras cimeiras do protesto contra uma sociedade atávica, conservadora nas artes, como Viena era então. O seu estilo Art Noveau – Jugendstil arrasava a pompa e o barroco do passado recente, defendia uma arte mais próxima das formas vivas.

Uma das obras essenciais do colectivo é o museu da Secessão, um edifício branco, com folhas douradas na fachada e na cúpula (parece um planetário), que contrasta brutalmente com o estilo imperial dos edifícios circundantes. É neste espaço que está uma obra belíssima de Klimt: o friso de Beethoven.

O grupo fascinante da Secessão teve diferentes expressões artísticas, e não estava isolado. Freud e a Psicanálise, a filosofia de Wittgenstein, a arquitectura de Otto Wagner, o mobiliário de Hoffman, a literatura de Schnitzler… A pergunta que se impõe é: como foi que tanta coisa aconteceu em Viena em apenas dez anos?

www.secession.at

    

10 coisas a não perder em Viena

1 – Uma instituição vienense, a sacher torte é um sumptuoso bolo de chocolate servido com natas. O original come-se no hotel que lhe dá nome, o Sacher. O ambiente é requintadíssimo. Perfeito às cinco da tarde. Com chá ou champanhe. www.sacher.com

2 – O arquitecto Otto Wagner assinou algumas das obras mais emblemáticas da cidade no início do século XX. Percorrer Viena em busca do trabalho de Otto Wagner pode ser um excelente programa para quem tem paixão pelo belo e pela modernidade. Duas peças, pelo menos, são imperdíveis: os pavilhões/estação de metro e uma célebre fachada de azulejos ornamentada com flores de tons róseos. Fica fora de mão, mas vale mesmo a pena.

3 – As criações do austríaco Helmut Lang. O estilo é urbano, depurado, nos antípodas no italiano vistoso. Um outro conceito de sensualidade. Há duas lojas na cidade. www.helmutlang.com

4 – Passear pelos jardins de Viena. Os jardins contíguos ao Belvedere, antiga casa de campo da família imperial, são de buxo, desenhados com rigor. Mas no centro da cidade há pequenos jardins mais desalinhados. Roseirais encantadores. Árvores de tons belíssimos no Outono.

5 – Ir a Viena e não ir à ópera é um pecado capital. Mesmo para os que não são melómanos. Áustria é a pátria de Mozart (encontrá-lo-á por toda a parte, em toda a espécie de merchandising), e de alguns dos maiores génios da música. Os bilhetes estão frequentemente esgotados, mas é possível comprar lugares de última hora, de pé, por cinco euros. É normal encontrar pessoas de vestido comprido e de smoking. www.wiener-staatsoper.at

6 – Os museus da cidade têm um óptimo acervo (não esquecer que Viena era uma das sedes do império austro-húngaro). Há um bairro inteiro só com museus. Uma vez que está em Viena aproveite para ver pintores austríacos. Dois nomes indispensáveis: Kokoschka e Egon Schiele. 

7 – A confeitaria Demel é, praticamente desde a sua fundação, no século XVIII, uma página de um conto de fadas. É uma sucessão de salas, de paredes forradas a espelho e talha dourada, escolhida pela alta sociedade vienense como espaço de encontro. Os bolos são superlativos (há quem defenda que a pastelaria vienense é inultrapassável). Talvez se coma aqui o melhor apfelstrudel do mundo – sem exageros. www.demel.at

8 – O que são as thonet? São cadeiras de madeira curvada, com assento de palhinha, muito populares no século XIX. O nome deriva do seu criador, o alemão Michael Thonet, que fez na capital austríaca parte substancial da sua carreira. A thonet, fabricada em série e vendida a preços acessíveis, recebeu o cognome de “cadeira de estilo austríaco”. www.thonet.de

9 – A Palmhouse é uma estufa contígua ao palácio Schoenbrunn. O pavilhão de vidro é imenso e abriga diferentes temperaturas e espécies de plantas. O restaurante é altamente recomendável, além de bonito. Conte com palmeiras por todos os lados, paredes de vidro para os jardins, mobiliário moderno, e reze para que o dia esteja bonito.   

www.schoenbrunn.at

10 – Os cafés de Viena são tantos e tão bonitos que o difícil é escolher qual é o nosso. Há o café frequentado pelo filósofo Wittenstein, há o café dos artistas, dos músicos, dos políticos, das pessoas de todos os dias. Os bolos são sempre de cair para o lado. As pessoas juntam-se a discutir e a ler jornais. Sugestão: não repita um. Há sempre um ainda melhor para descobrir.

 

 

Publicado originalmente na revista Máxima. 

 

 

Catarina Portas e Nuno Portas

20.12.17

Nuno Portas tinha 35 anos quando nasceu a sua terceira filha, Catarina. Viveram juntos apenas seis anos. Mas cresceram juntos, descobriram juntos, construíram zonas de intimidade. A história deles, contada por um e por outro, lê-se nas próximas páginas.

O gravador já estava desligado quando Catarina disse o seguinte: “Ele nunca estava aqui, (não vivia na mesma casa que eu); mas sempre que precisei, estava lá”. E ficou decidido que essa frase tinha de entrar. “Essa frase vai-me safar”, comentava, trocista, o pai… Essa ficou gravada. Mas não ficou aquela que Catarina disse na rua e que se resume basicamente nisto: ele sempre lhe deu imensa corda e sempre a levou a sério. Foi sempre uma relação entre iguais.

Funcionou como constatação, umas três horas depois de tudo ter começado.

Antes disso, havia o atraso dos dois (“O meu pai está atrasado uma hora ou uma hora e meia”, avisava ela ao telefone uma hora antes). Quando Nuno finalmente chegou, quis saber se a filha já tinha chegado há muito tempo… “Porque ela atrasa-se mais do que eu”. Essa foi a primeira coisa que quiseram dizer que tinham em comum: uma relação particular com o tempo. Depois, foram as fotografias na loja de Catarina, A Vida Portuguesa. “É preciso posar?, eh pá, vou ser gozado por esta…”.

A conversa cúmplice já tinha começado. A cumplicidade é imensa. Tratava-se de saber de que forma, (com que pudor), ela ia ser revelada.

Por fim, sentaram-se lado a lado, beberam vinho branco e cerveja, comeram pão e acepipes. E conversaram. 

 

 

Trouxeram, cada um, um papel com notas… porquê?

CP – O meu pai estava muito preocupado, ontem… Achava que isto podia cair no mero elogio.

NP – Numa entrevista destas, com as relações afectivas que há, estamos muito na defesa. A nossa prestação é capaz de ser muito marcada por uma grande admiração mútua. Não é só uma questão de amizade, de relação pai-filha. A pouco e pouco, há uma cumplicidade, uma relação directa. Não estou a ver tabus especiais que me ponham em cautela… A Catarina nasceu em 69, e nesse ano eu estava a fazer – no que a mãe dela me ajudou muito – a tese para as Belas Artes, aqui no Chiado. Na noite em que ela nasce há um terramoto…, uma brincadeira de terramoto, mas existiu. À volta do 25 de Abril…, quando é que foste para Inglaterra?

CP – Em 75. E para Paris em 78.

 

Vamos devagar. A vossa história começa quando?

NP – Antes de 78, quando fui para Madrid três anos, a Catarina tinha nove anos. E quando vim de Madrid fui directo para o Porto. Nessa altura já havia uma separação entre nós.

CP – Entre a mãe e o pai.

NP – Entre a mãe e o pai, não com ela. Pacífica, mas dolorosa. 

 

Viveram junto quanto tempo?

CP – Seis anos. Nós, o Miguel, a tia Isabel… Continuo a viver na mesma casa e pergunto-me como é que cabia lá aquela gente toda. 

NP – Do período em que ela era muito pequena, não tenho muitas memórias. Eram coisas muito convencionais: passear, e tal. Quando ela começaria a ter mais interesse, mais conversa, eu já estava a caminho de outro sítio. Como a mãe dela.

CP – Mas sempre nos vimos muito. Há uma coisa importante: a intensidade desses momentos. Porque não nos víamos todos os dias.

NP – Tinha de ser tudo combinado.

CP – O meu pai ia a Paris, ou eu ia de férias [com ele].

NP – Neste contexto está o Miguel que vivia comigo, o Paulo que vivia com a mãe. Ao princípio era difícil o Paulo estar com a Catarina. O Miguel tinha optado por ficar comigo. Tiveram educações diferentes, escolas diferentes e...

CP – Resultados diferentes, como se nota.

NP – Podia ser tudo ao contrário, mas a verdade é que é assim. O Miguel tinha 11 anos quando nasceu a Catarina. O 25 de Abril foi muito turbulento para os casais portugueses. Foi uma coisa muito libertária.

 

Como é que conta a vossa história? E como é que, pequena, olhava para este pai, com um percurso errático, mas forte.

CP – Uma das imagens que tenho de pequena, é de o meu pai chegar das viagens, trazer-me presentes, e mandar-me postais.

NP – Que agora não envio…

CP – Lembro-me de um postal do Babar, escrito a vermelho, com aquela letra muito engraçada que ele tem. Acho que ainda o tenho. O pai sempre viajou muito.

NP – Porque me internacionalizei muito cedo. A mim chamavam-me como teórico, ao Siza chamavam por causa da obra.

 

A sua mãe também é arquitecta?

CP – É, paisagista.

NP – Foi minha aluna na escola. Mas também trabalhava no jardim de infância onde estava o Miguel… Foi numa reunião em Marrocos que a gente se conheceu mais propriamente. Uma reunião sobre o habitat dos países do Terceiro Mundo. Eu estava a trabalhar no LNEC nessa altura. O Teotónio Pereira, depois do 25 de Abril, fechou o atelier, considerando que “agora” não era altura de arquitectura, era altura de revolução! Só o Teotónio é que se lembraria disto. Achava que havia prioridades históricas.

CP – O meu pai estava sempre em trânsito, mas nunca me senti com falta de pai.

NP – Eu não senti complexos de culpa.

CP – Fui para a escola em Inglaterra. E depois fui para uma escola em Paris e não sabia francês e tive que aprender. Não há nada que nos faça melhor do que esse tipo de choques. Que nos obrigam a reagir. Em vez de estarmos comodamente no mesmo sítio.

NP – Saint François Xavier, não era?

CP – Era o nome da minha escola. Nas idas a Paris do meu pai, íamos ao cinema. Via filmes que não eram para crianças. Eric Rohmer e Nicholas Ray, gosto por causa do meu pai.

 

Tratou-a sempre como adulta?

CP – Sim. 

NP – Eles ficaram todos cinéfilos, no sentido exacto do termo: o gosto em estar no cinema a ver um filme.

 

Tinha uma parte de família convencional, com os Natais e as festas na escola?

CP – Sim, e com os meus avós. Era uma coisa importante, as férias em Vila Viçosa com os meus avós. Vila Viçosa tornou-se “a terra”. Foi onde o meu pai nasceu, onde o meu avô foi presidente da câmara. E isso leva-nos a outra coisa: ao sentido de comunidade. Se alguma coisa passa na família, é esse sentido de pertencermos a uma comunidade, de não estarmos aqui sozinhos.

NP – Todo o tempo em que o meu pai não estava a trabalhar nas pedreiras – era engenheiro de minas – ia para a casa do povo. Não interessava se eram fascistas ou não; era um homem totalmente dedicado aos outros.

CP – No funeral apareceram pessoas que não conhecíamos de lado nenhum e que diziam: “O seu avô emprestou-me dinheiro para comprar uma bicicleta. Graças a isso consegui ir trabalhar para a pedreira de não sei das quantas e sustentar a família”. 

 

O avô é uma figura fundamental na família?

CP – Fundamental.

NP – O Paulo está sempre a falar nele. Era muito sereno. Mesmo no período do divórcio, nunca… Estávamos a tratar de uma separação litigiosa, de pessoas e bens, que dividiu os nossos amigos; uns defendiam a Helena [Sacadura Cabral], outros defendiam-me a mim. Depois, felizmente, o juiz declarou que as culpas eram iguais. O meu advogado era o Jorge Sampaio. Foi a minha primeira fuga ao casamento católico…

 

A maneira como fala do seu divórcio, é como se ele fosse vivido por toda uma geração, sobretudo por aqueles que tinham uma formação católica.

NP – Isso está bem documentado no filme sobre o Nuno Bragança.

CP – “O homem que dava pulos”. Ah, não vi.

NP – O Frei Bento [Domingues] diz que passa por uma série de casais católicos uma grande perturbação É numa altura em que começam a casar os padres!, o que é uma coisa estranha: só eles queriam casar, nós queríamos descasar! Os famosos padres progressistas, os católicos progressistas... Estávamos no mesmo grupo com o Pedro Tamen, o Nuno Bragança, a Helena Vaz da Silva.

CP – Mas eu não fui baptizada.

 

Porquê?

CP – A minha mãe achou que havia duas coisas que eu devia fazer quando eu achasse. Baptizar-me e furar as orelhas! Furei as orelhas mais tarde, mas não me baptizei.

 

Tudo isso tem que ver com a escolha. É outra atitude em relação aos filhos.

NP – Curiosamente a Margarida esteve no Graal, (aquele grupo a que pertencia a Maria de Lourdes Pintasilgo).

CP – Sempre nos foi atribuída uma grande porção de responsabilidade na nossa vida. [virando-se para o pai] É verdade, isto. Nunca houve na minha educação – e na dos meus irmãos também não – o momento: “Se tiveres boas notas tens uma bicicleta”. Era: “A tua obrigação, no mínimo, é teres boas notas”. 

 

O que é que aconteceria se incumprissem?

NP – Tu tiveste más notas numa certa fase.

CP – No Liceu Francês. Eu já sabia o que é que queria e desleixei imenso as disciplinas de ciências; aquilo não me interessava nada.

NP – E o passo seguinte, isso é que eu tenho na cabeça…

CP – O que é?

NP – Quando a Catarina diz…

CP – Que ia fazer chapéus?

NP – Não. Embora as duas coisas estejam ligadas. É quando ela diz: “Não vale a pena porem-me na universidade”.

CP – A mãe até hoje… [gargalhada]

NP – A mãe tem essa atravessada, mas eu não tenho. Achei que a Catarina tinha uma cultura tão evoluída para a idade, que a universidade…

CP – Isso é a história da leitura. Quando fui cortada dos meus amigos e fui parar a Paris, embora tivesse os meus primos, comecei a ler em francês e descobri que havia livros incríveis. Basicamente, a minha actividade entre os seis e os 16 anos – que foi quando comecei a namorar – foi ler.

 

Numa das fotografias antigas que nos cedeu, está enfiada a ler, numa cadeira, e todos à volta estão a fazer qualquer coisa.

NP – À volta dos teus 14 anos, 15 anos, comecei a ver que tinhas uma enorme apetência por coisas de carácter artístico, romanescas…

CP – A verdadeira razão por que não fui para a universidade foi por causa das médias do Liceu Francês. São muito mais baixas.

(NP – Ela é mais ou menos do ano da Inês de Medeiros.

CP – A Inês é um ano mais velha). Não tinha média para entrar em História de Arte na Universidade Nova.

 

Porquê os chapéus? Numa família de intelectuais, não é a escolha mais obvia…

CP – Acho que foi o meu gesto de rebeldia.

NP – Sempre gostou muito de moda.

CP – Ainda fiz testes para a St. Martin’s, em Londres. Desisti dos chapéus porque não me interessava nada essa parte da criatividade da moda. Do que eu gostava era da actividade manual. Sempre adorei bordar. A minha avó ensinou-me a fazer tricot. Quando se está a coser, por exemplo, quando se tem uma actividade repetitiva, quase monótona, isso deixa a cabeça muito à solta. Para pensar, para ter ideias. E gostava muito dos chapéus da minha avó. Outra coisa: o marido da minha mãe é um coleccionador de objectos e de arte. Sempre cresci a ir com o Afonso aos antiquários. E ia aos livros perceber o que tinha visto. Quis ser arqueóloga e antiquária.

 

De certo modo, as duas estão presentes no que agora faz, ainda que as buscas, as pesquisas sejam outras.

CP – É incrível olhar para trás e perceber que estava lá tudo! Eu queria ser arqueóloga e antiquária, mas tinha a certeza que ia acabar em arquitectura. Inventando umas distracções, digamos, mas era óbvio que a coisa ia acabar ali. E depois, afinal, não foi.

NP – Ela tem uma grande propensão para descobrir aquilo a que os economistas chamam nichos. Os chapéus eram um nicho. Eram uma coisa em decadência completa.

CP – Eu sabia que se aprendesse as técnicas de chapelaria com as duas últimas modistas de alta costura de Lisboa, ia ser a única pessoa em Lisboa a saber fazer chapéus. Trabalhei com a Dona Virgínia (da Laura Sobral de Sousa) e com a Maria José que fazia os chapéus do Ayer. 

 

Tinha a preocupação de ser autónoma?

NP – Foi viver com o Miguel, na casa que era minha.

CP – Fui muito sossegada, mas aos 16 deu-me uma rebeldia.

NP – Expliquei à mãe: “Deixa-a ficar aqui”. Onde é que eu estava?

CP – No Porto. Foi tudo combinado entre a minha mãe e o meu pai.

 

Porquê essa rebeldia? Era o desejo de quê?

CP – Fiquei com uma pressa muito grande viver. Lembro-me de olhar para o mundo e de pensar: mas que estranho. Isto tudo é tão pouco consequente, ao contrário dos livros.

 

Apaixonou-se aos 16? Pelo menos começou a namorar aos 16.

CP – Também.

NP – Era o Jorge, não era?

CP – Foi o Nuno, depois o Jorge.

 

Nuno…

CP – Também se chamava Nuno, é verdade [risos]. Mas a minha vida não foi nada facilitada. Fiquei a receber a pensão de alimentos que o meu pai dava à minha mãe e a minha mãe pagava-me o passe e os almoços do liceu. “Ai é, queres ser independente? Então vai lá experimentar”. O meu irmão Miguel obrigava-me a pagar a minha parte das despesas. Não tinha um tusto. O meu único luxo era comprar a Marie Claire francesa uma vez por mês.

NP – Depois foste para O Independente.

CP – Tinha acabado o liceu e queria ir para fora. Para Lovaina fazer História de Arte ou para St. Martins fazer chapéus.

 

O “não vou para a universidade” tinha sido um statement inconsequente?

CP – Eu não queria ir para a Universidade em Portugal. Foi uma atitude um bocadinho snobe… Entretanto aconteceu O Independente. Comecei a dar ideias e o meu irmão Paulo disse: “Faz tu”.

 

Como era a sua relação com o Paulo?

CP – Óptima. Passámos férias muito divertidas em Vila Viçosa, construíamos cidades inteiras! Talvez por termos um pai urbanista. Fazíamos prédios, ruas, praças, cinemas… Desenhávamos os edifícios em papel e colávamos sobre cartolina.

NP – O Paulo fazia jornais desde pequeno. Sempre desenhou muito. É muito minucioso a fazer e a pensar as coisas dele. Suponho que foi uma das razões por que se revelou um ministro eficaz. Nunca fez a tropa, foi Ministro da Defesa e deu-se bem com os generais e os coronéis. Consideraram-no sempre. Até pessoas que não concordavam com ele, e que eram meus amigos, diziam: “O teu filho é uma surpresa… Quem diria que ele conhece os dossiers dos militares e discute como se fosse um militar?”. Para mim não era surpresa porque eu já sabia que ele era um trabalhador incansável. Podia-se discordar das ideias dele, mas tinha-se admiração por ele. O Miguel também, mas o Miguel é mais disperso.

 

Porque é que saiu d’ O Independente?

CP – Como sempre li muito, escrever era muito fácil. Nunca pensei nisso como uma profissão. Queria uma coisa que me desafiasse mais. Era um sítio onde me sentia demasiado protegida. Tinha um irmão director, um namorado director gráfico, vários amigos. Estava demasiado amparada.

NP – Já vamos na terceira reviravolta da Catarina. Que ela toma por ela. Está sempre a pensar no passo seguinte. Não se acostuma.

CP – Foi sempre um problema na minha vida não tolerar a rotina. Mas isso tem a ver consigo…

 

Por ter aprendido a viver neste carrossel?

NP – Sempre fiz muitas coisas. De arquitecto propriamente dito, depois de investigação (que era uma coisa que não se fazia na arquitectura), depois voltei à escola onde me tinha formado; fiz concurso para entrar, porque, por razões políticas e outras, nunca entraria na escola. Estranhamente entrei. A PIDE não levantou problemas.

 CP – Lembro-me de a PIDE ir lá a casa. Lembro-me das botas, e de haver um grande nervosismo. A minha mãe disse que me ia levar à escola. Havia umas listas do Miguel e a minha mãe pegou nelas e meteu-as atrás do contador.

NP – Suponho que iam atrás de documentação do Miguel. Que era dirigente da UEC.

CP – Embora menor.

NP – Talvez também atrás de mim. “O senhor está aqui acusado de ter ido clandestinamente a Cuba”. “Não, tenho muita pena, mas não fui”. E dizia-me o pide: “Talvez seja melhor o senhor corrigir e não dizer que até tinha pena…”. [gargalhada] Este sinistro homem foi o que matou o [Humberto] Delgado. Chefe Tienza. Foi o executor. Era de Elvas. Foi escolhido por conhecer muito bem o território do lado de lá da fronteira. Foi a minha única experiência directa com a PIDE. O resto era no aeroporto, “dispa-se”, livros, tirar o rolo da máquina fotográfica, essas coisas.

CP – Onde é que íamos?

 

Na terceira revolução da Catarina.

NP – A Catarina muda não por uma questão de inconstância mas no momento certo em que pode mudar. “É disto que vou fazer a minha vida?” A Catarina não diz isso. “Agora vou fazer isto, e depois logo se vê”.

CP – Mas levei o jornalismo muito a sério.

NP – Ela fez coisas, para a idade dela… As entrevistas que ela fazia na Marie Claire… Por exemplo, ao Siza.

 

Mandava as entrevistas ao seu pai para ele ler e dizer se gostava?

CP – Não. Mas a entrevista ao Siza foi um bocadinho cunha do meu pai… Quer dizer, não foi cunha, mas quando liguei ao Siza, o Siza sabia que eu era filha do meu pai.

NP – A melhor entrevista que o Siza deu.  

 

Tinha o desejo de que o seu pai aprovasse as coisas que estava a fazer? No fundo, que a admirasse.

NP – Sempre tivemos uma grande admiração mútua – mas isso também com os irmãos. Segundo, uma confiança nas escolhas sucessivas que o outro ia fazendo – mesmo quando me cheira “isto vai dar gato”. Mas não faço disso um drama.

CP – Havia essa história de o meu pai nunca estar. Mas sempre que eu quisesse ligar, falar, estava sempre presente, disponível. E sempre me ouviu. Não criticou antes de ouvir.

NP – Raramente critiquei. Num caso ou noutro posso ter dito: “Cuidado”. Faço umas voltas…

CP – Nunca, nunca disse: “Que disparate imenso, isso é uma asneira”. Era de um modo muito subtil: “Mas tens a certeza?”. É aberto.

 

Há poucos anos, trabalhou num documentário sobre a obra do atelier de Teotónio Pereira. O que implicou trabalhar sobre a obra do seu pai.

CP – Soube que ia ser feita uma exposição no CCB e propus-me, com a Joana Cunha Ferreira, fazer os filmes dessa exposição. Trabalharam juntos durante anos.

NP – Dezassete.

CP – Tinha um enorme interesse por arquitectura.

 

Como se estivesse à procura do pai de outra maneira? Era outro olhar, outro ângulo.  

CP – Claro que houve isso. Mas eu já tinha tido um momento assim quando fiz um livro com a Helena Torres,“Olivais: História de um Bairro”.

NP – [As torres dos Olivais] foram os meus primeiros projectos com o Teotónio quando saí da escola.

 

Quando vai à Igreja do Sagrado Coração de Jesus, prémio Valmor em 75, olha para ela como uma obra do seu pai ou como uma peça de arquitectura?

CP – Olho para aquilo como uma peça de um atelier. Mas há coisas que sei reconhecer de onde vêm… A utilização do mármore, por exemplo. O meu avô, uma das coisas que fez foi desenvolver a indústria do mármore em Vila Viçosa. Filmámos uma conversa entre o meu pai e o Teotónio e isso iluminou-me uma série de coisas na vida do meu pai e no meu entendimento da arquitectura.

 

Porque é que não era importante para si, e ainda muito novinha, ter a opinião do seu pai acerca do que fazia?

CP – Mas perguntava! O meu primeiro texto publicado foi…, como é que se chamava a revista, pai?, aquela de urbanismo que o pai tinha?

NP – Ah, era a Cadernos Municipais. 

CP – Escrevi uma redacção sobre uma cidade – não se lembra? E o pai achou muito gira! (tão querido, tão babadinho…) Eu tinha 12 ou 13 anos e ele publicou! Mas sempre tive um certo receio… Só não submeti mais vezes as coisas à aprovação porque tinha receio. O meu pai é um hiper-crítico.

NP – Quando foi o livro de Goa, li [a primeira versão]. Fiquei preocupado porque achei que estava um pouco desleixado.

CP – Desleixado? A utilização desse adjectivo é o quê? [risos]

NP – Já se passou há muitos anos. A tua mãe dizia o mesmo. Não era bem desleixado. Era a história, talvez…

 

Muda um trabalho quando o seu pai diz uma coisa destas?

CP – O meu pai apontou-me coisas, e eu não estava muito de acordo. Ouvi-o. Não quer dizer que tenha mudado. Hoje percebo melhor a crítica dele do que percebi na altura [em relação ao livro de Goa].

 

Discutiram muito a vida toda?

NP- Nós rimos.

CP – Temos opiniões muito diferentes uns dos outros.

 

Essa é a imagem que se tem da família Portas.

CP – Mas nós não discutimos! Há uma abertura de espírito muito grande. Estamos sempre prontos a aceitar que os outros tenham ideias diferentes, e essas ideias podem ser discutidas. Não quer dizer que discutamos uns com os outros. Antes de qualquer outra coisa, somos esta entidade-família.

NP – Como no Alentejo. A minha família, o meu pai, os meus irmãos, sempre funcionámos como um clã que se auto-protegia. Apesar das diferenças. O meu pai era dirigente da União Nacional. Era um salazarista convicto. Nunca ganhou nada na vida com isso. Era mais uma das dedicações que tinha à causa pública. O meu irmão esteve quase um mês em Caxias e ele não meteu cunhas para o libertar. E um dia, já tarde, disse-nos: “Vocês tinham razão numa coisa e é a única crítica que faço ao Salazar. Não ter deixado discutir a questão colonial”.

 

Significa que esta diversidade…, e esta trapalhada – vamos dizer assim – já vem de trás?

CP – [risos] Já, já.

NP- Pelo menos na minha família. Depois há a família da Margarida, os Sousa Lobo. O tio dela foi o chefe de gabinete do Vasco Gonçalves. Nunca foi PC na vida. Simplesmente era muito eficiente e o Vasco Gonçalves era acima de tudo em engenheiro militar. Antes de o MFA ser de tipos muito à esquerda e especialmente do PC, a maioria eram engenheiros militares. Isso explica muita coisa…

 

Lembra-se de ouvir estas histórias deste sempre? Ficava, como agora, a ouvir atentamente e a aprender?

CP – Divirto-me muito, porque o meu pai conta histórias extraordinariamente.

NP – Encaixo muitas histórias umas nas outras e a dada altura já não sei onde estou.

 

Não teve a sensação de estarem todos ocupados com a política, com as grandes questões, e não lhe darem atenção a si ou aos seus assuntos?

CP – Não. Nas viagens para Vila Viçosa – que eram um clássico das nossas vidas – aquilo era: o meu pai ao volante, o Miguel, o Paulo e eu. E eles não se calavam!, a discutir política, nhonhonho, e eu ouvia. Eu tinha menos actividade política do que eles, para não dizer nenhuma. Aliás, acho que fiquei vacinada.

 

Para o Miguel e o Paulo, era uma maneira de se digladiarem?

CP – Sim. Mesmo agora, quando estamos juntos, estamos sempre a falar uns em cima dos outros.

 

Tinha vontade de participar? Era uma maneira de se fazer ouvir.

CP – Nunca acreditei muito na política. Não da forma em que os meus irmãos acreditam. Acho que as pessoas devem ter uma atitude política, mas a actividade partidária nunca me seduziu. Quando cheguei aos 20 anos, o Cavaco estava no poder. Nada daquilo me parecia interessante.

 

Nesse campo e noutros, não sentiu a pressão do apelido? Não sentiu que tinha de honrar o apelido Portas? Era um exemplo de excelência.

CP – Nunca dessa forma – honrar o apelido Portas. Os meus irmãos ainda não tinham entrado na vida pública. Mas sim, havia o exemplo do meu avô, do meu pai. Não tenho um especial respeito pelo dinheiro. Isso vem do meu pai.

NP – Sempre vivemos com o justo.

CP – Obviamente precisava de dinheiro para viver, mas nunca tomei decisões na minha vida em função de: vou ganhar muito dinheiro.

NP – Acontece assim: quando ganhamos mais dinheiro ficamos tão admirados que procuramos gastá-lo depressa!, [risos] em coisas que há muito tempo sonhamos fazer. Seja na política, seja na cultura há um elo comum nisto tudo: um certo sentido de militância, às vezes até excessivo. As pessoas podem não entender. “São chatos, estão sempre com estas coisas”.

CP – Ele é muito inquieto e irrequieto. Herdámos todos do meu pai esta enorme curiosidade sobre o mundo, e a vontade de o pensar e comunicar isso. De alguma forma, essa é a nossa matriz.

 

Reconhece-se nisto?

NP – Eu nunca estive ligado a uma ideologia política dura, como o Miguel se ligou ao PC, ou o Paulo na fase em que andou a estudar todos os teóricos do pensamento liberal. Tirando a militância católica, que era mais ética do que de ideológica política, em vez de ter crescido em dogmatismo, fui perdendo o dogmatismo. Fui ganhando um sentido relativista. Nesta altura não tenho nenhum absoluto do ponto de vista político e social. Tenho aquilo a que o Giddens chamaria um pensamento reflexivo. Estou sempre a fazer o feed back, a voltar atrás. Não tenho dogmas. Nem do ponto de vista social, nem estético, nem urbanístico. O que faz com que as pessoas desconfiem, pelo facto de eu ter muitas dúvidas. Não é por ter muitas dúvidas: é por assumir a incerteza. Como lidar com a incerteza?, é a minha preocupação teórica em matéria de urbanismo de há dez, quinze anos para cá.

 

Na prática é: como viver na instabilidade?

NP – No fundo é. A instabilidade é uma condição.

CP – Sempre foi, nas nossas vidas.

NP – É uma condição e não um azar, um falhanço. São escolhas que se vão fazendo. Significa também que hoje a sociedade é mais individualista do que colectivista. Que os modos de vida são mais diversificadas, e eu aceito isso. Isto é uma vida de uma instabilidade consentida, mental, física, monetária. Ao fim de 50 anos, vivo da reforma. Os meus colegas enriqueceram. Eu nunca enriqueci. Mas não me queixo. Eles [os filhos] é que podem ter perdido com isso, porque agora podia dar-lhes dinheiro e não tenho. Mas também se habituaram a viver sozinhos e por conta deles. É raríssimo pedirem-me dinheiro. Num caso ou noutro, numa aflição, já se sabe que se pode contar com isso e que eu arranjo mais facilmente do que eles. 

 

Foi assim com o seu pai?

NP – Para o bem e para o mal, é igual ao que era com o meu pai. Eles não se têm dado mal com isto. Não me criticam por isto.

 

Porque é que nunca teve sentimentos de culpa? Olhando para este quadro seria fácil pensar que teria sentimentos de culpa.

NP – Como o resultado não foi um desastre… [riso]

 

Mas quando eles eram pequenos não sabia qual seria o resultado. E disse no começo da entrevista que não sentia culpa.

NP – Pois não, não sabia. Pisei o risco. E aí, foi uma sorte a Catarina ter tido a mãe que teve, ou o Paulo ter tido a mãe que teve.

CP – Ele era mais inseguro.

NP – Já o Miguel teve de se aguentar mais sozinho porque viveu comigo. Mas ganhou logo o conforto de um partido que era uma espécie de super-mãe! Uma super-mãe dura.

 

Não teve uma grande dúvida sobre se seria um bom pai?

CP – O meu pai tornou-se muito mais atencioso à medida que foi envelhecendo. Começou a ligar mais frequentemente, a ficar mais preocupado.

NP – Quando decidi ir viver com a mãe da Catarina, estava a auto-excluir-me da Igreja. Para um católico de toda a vida, de colégio de jesuítas, foi um acto muito difícil. Seguramente, aí tremi nas decisões. Foi inseguro, fui imaturo. Tive muita sorte, encontrei pessoas que me ajudaram e sem as quais não teria podido fazer o que fiz. Nem sair das fronteiras, nem ter feito as obras que fiz como arquitecto e investigador, e o que fiz como professor (que é o que valorizo mais). Mudei tanto de vida, de job, e com risco, como a Catarina.

 

Onde se reconhecesse nela é sobretudo nessa procura?

NP- A Catarina já é o começo da geração que faz auto-educação, que deve menos aos pais do que aquilo que lhes parece.

 

Em que é que se sente que é absolutamente filha do seu pai – que a marca está lá?

NP – É melhor eu ir-me embora… [levanta-se e vai embora]

CP – Em termos físicos, tenho as sardas do meu pai (temos todos). E as olheiras. As minhas decisões são sempre viradas para: “Em que é que me posso enriquecer intelectualmente com isto? O que é que posso aprender? Em que é que isto é excitante?”. Isto tem imenso a ver com a cabeça do meu pai. Ele adora pensar. Assistimos à última aula dele e foi incrível. Para ele, falar de arquitectura nos anos 50 é falar do Rossellini, como é falar do jazz… consegue entrançar isso tudo. A música e o cinema também vieram dele. Foi o meu pai que me fez ouvir o “The River” do Bruce Springsteen, no walkman dele.    

 

E as vossas zonas de tensão?

CP – Não tive os conflitos com o meu pai que tive com a minha mãe. Com a minha mãe eu estava todos os dias. Quando as pessoas crescem, para perceberem quem são, têm de se opor a alguém. Como não estamos tantas vezes juntos quanto gostaríamos, queremos tanto gozar os momentos em que estamos juntos, que passamos por cima de alguma coisa mais susceptível. Acho que se passa o mesmo com os meus irmãos.

 

Têm uma relação íntima?

CP – Falamos mais de ideias do que das nossas intimidades. Tanto eu como o meu pai e os meus irmãos. É verdade que às vezes até falamos com algum pudor. Estar menos tempo com uma pessoa não quer dizer que a relação é menos rica – pelo contrário.

 

[Nuno chega]

 

Estava a perguntar à Catarina se têm uma relação íntima?

CP – Agora vou eu! [e sai]

NP – Não tanto. Nem com os irmãos. Não é um problema de ser rapariga. Pode ser acanhamento. Há coisas que não se perguntam. Há muitas coisas da vida da Catarina acerca das quais não tenho a mais pequena ideia. Nem quero saber. Não ando preocupado com isso. Se for importante e se quiser contar, ela conta. E eles também não me fazem perguntas sobre a minha vida íntima.

 

[Catarina volta]

 

Falam muito?

CP – Sim. Sempre que o telefone toca à uma da manhã eu sei que é ele. Por causa da distância, falamos muito ao telefone.

NP – “Viste o que disse o Paulo hoje?” – coisas deste género.

CP – O meu pai está sempre em trânsito. Não sei como ele aguenta! Eu não aguentaria. Apanha para aí três aviões por semana.

NP – O Miguel também se mexe muito. O pior é o Paulo. Mas é tudo cá dentro, de feira em feira! – como lhe chama a malta!

 

 

Publicada originalmente na Revista Pública, em Março de 2009

 

 

 

 

   

 

 

 

 

Somos Douro

19.12.17

O Douro é um poema geológico, disse Miguel Torga. Sendo poema, tem um corpo difícil de circunscrever. Douro é o rio e o seu curso? Douro é a delimitação administrativa que abrange um determinado número de municípios? Douro são as pessoas que estão nesta terra e nela fazem vida, as pessoas que nasceram nesta terra? De que falamos quando falamos de Douro em 2017, 16 anos depois de a Unesco ter considerado a região um Património Mundial?

Um lugar é sempre uma identidade (sempre polifónica), uma História (que agrega múltiplos substratos), pessoas, tradição e modernidade, passado e futuro. Sou deste lugar. O Douro sou eu, o Douro somos nós. Sou jovem, somos jovens. O que é ser jovem em 2017, 43 anos depois da instituição da democracia em Portugal, um país envelhecido onde durou a mais velha ditadura da Europa? Talvez ser jovem seja ser livre, sem barreiras cronológicas rígidas, seja ser fruto deste tempo, deste país, deste mundo em metamorfose.

Aceito, honrada, o convite para ser comissária do programa Somos Douro, com o propósito de interpelar este lugar, as suas pessoas, o seu imaginário, e enraizar-me nele mais profundamente. Proponho uma série de iniciativas, agrupadas em alguns verbos nucleares:

Ser / Pertencer, Aprender / Fazer, Descobrir / Partilhar

Eles serão os motores de um programa que gostaria de ver espalhado pelos 19 municípios que fazem parte do CIM Douro. Ainda que as iniciativas em algumas localidades possam ter apenas um carácter simbólico, não deixar nenhum destes concelhos de fora é uma forma de sublinhar a importância que todos têm e o lugar que ocupam nesta unidade. Este programa deverá acontecer entre 14 de Dezembro de 2017 e 14 de Dezembro de 2018 e terá como ponto alto um fórum, algures entre o fim da primavera e o início do Verão.

O que se pretende aqui: auscultar, capacitar e envolver os jovens da região, dar-lhes ferramentas para que se possam pensar a si mesmos e a este lugar específico, potenciar a sua auto-estima através de um conhecimento e reconhecimento do seu património, promover um encontro e uma troca de saberes inter-geracional, criar, assim, um horizonte mais vasto, aberto ao exterior e à diferença, sintonizar algumas das iniciativas com as grandes questões que se discutem no mundo (por exemplo, a igualdade de género e as questões climatéricas que estão entre os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU), produzir objectos que traduzam este ano de iniciativas (entre eles, um manifesto, resultado dos vários dias de fórum, que condensa algumas linhas de reflexão havidas).

Ou seja, o desafio é lançar sementes, colher alguns frutos, transformá-los numa outra coisa, fazer um acompanhamento dos grandes ciclos da terra.   

Um dos projectos que podemos já anunciar é a realização de uma sondagem. Assim que recebi o convite do Prof. Freire de Sousa, interroguei-me sobre o que é ser jovem no Douro, hoje. Quando passei a minha juventude em Vila Real, quando apanhava o comboio que serpenteava a paisagem duriense, em direcção à Régua e para fazer rádio, era um tempo diferente. A democracia tinha pouco mais de uma década, a Europa e uma abertura ao mundo eram uma novidade, a universidade, com as alterações profundas que introduziu em toda a região, dava primeiros passos, as acessibilidades não eram as que hoje temos. Parece que falo de um outro tempo. E falo. E ainda bem que este tempo é outro e que neste país, por exemplo, se tenham criado serviços públicos de qualidade na educação e na saúde, um Estado Social que é o principal trunfo para combater a desigualdade e os problemas da interioridade. Mas sabemos todos que isso, que é muito, não chega. E sabemos que, apesar de parecer que estamos todos ligados, que todo o mundo se parece, há uma identidade própria, um contexto, há condições específicas que me levam, nos levam a interrogar: o que é ser jovem hoje, no Douro? Quem são, o que anseiam os jovens da região duriense, o que esperam da vida, que ideias têm em relação ao futuro, que mundos povoam o seu mundo? Querem viver aqui, querem sair? Que relação mantêm com a origem, quando saem? Penso que importa fazer um mapeamento, não apenas estatístico, destes jovens, através de uma sondagem, cujos resultados vamos apresentar no próximo ano.

Como disse antes, além dos verbos-motores Ser e Pertencer, onde arrumo a sondagem, há outros pares. Aprender /Fazer é um dos mais atractivos para mim. Vou dizer uma evidência: gosto de aprender e não estou sozinha neste gosto. Proponho um conjunto de aulas a acontecer em várias localidades. Estas sessões permitem um contacto com matérias e especialistas de excelência e dirigem-se também àqueles que já abandonaram os bancos da escola. Já não estamos no tempo em que há um tempo para aprender, um tempo para trabalhar e um tempo para gozar a reforma. O tempo é hoje uma massa elástica, com idas e vindas, com a necessidade de acompanhar as transformações espantosas a que assistimos. A necessidade e o gosto.

Portanto, as aulas. Sobre quê? Por exemplo, sobre Miguel Torga e o seu universo literário, sobre Agustina Bessa Luís, cujo imaginário está ancorado nesta paisagem, mas também sobre a Carta dos Direitos Humanos elaborada pela ONU em 1948. 70 anos passados, julgo que faz sentido, mais do que nunca, ler e comentar este documento que foi construído sobre um mundo em escombros, como era o da Segunda Guerra. E imaginem uma aula em que se identificam os grandes momentos da História da Arte, que começamos nas gravuras rupestres e que chegamos aos dias de hoje e à arte conceptual?

Que vamos ter mais? Workshops que apontem para a capacitação e a potenciação de talentos, espectáculos, cinema, conversas, visitas guiadas a tesouros da região. Sou das que acreditam que da discussão, do encontro, nasce a luz, se avança. No princípio era o verbo. Precisamos da palavra e do mundo que se faz com ela para acreditar no futuro.

Gostaria de agradecer a confiança que a CCDR-N, na pessoa do seu presidente, Prof. Freire de Sousa, depositou em mim para levar a cabo esta empresa, tão estimulante, exigente e difícil, e agradecer antecipadamente a confiança que os agentes da região e os tantos que serão meus interlocutores possam ter no meu trabalho, nas minhas ideias. É com o contributo de todos, e porque Somos todos Douro, que podemos fazer coisas que nos ligam ainda mais a este lugar e nos fazem amar a região e as suas gentes.

Obrigada.

 

 

Discurso lido no dia 14 de Dezembro de 2017, em Vila Real, na apresentação do programa Somos Douro e na celebração dos 16 anos da atribuição do selo da Unesco ao Alto Douro Vinhateiro.

 

(Quase) Toda uma Vida - Eunice Muñoz

17.12.17
(Quase) Toda uma Vida com Eunice Munõz, dia 17 de Dezembro, 17h, pequeno auditório do Centro Cultural de Belém, entrada livre. 

Eunice Muñoz é actriz. Estreou-se em 1941 na Companhia Rey Colaço/ Robles Monteiro. No teatro e no cinema, interpretou todos os grandes dramaturgos, de Tchekov a Racine, e foi, por exemplo, Ninotchka ou Joana D' Arc. Fez, faz televisão. Faz porque se recusa a parar, porque continua curiosa, porque representar é uma necessidade de expressão que não estanca com o passar do tempo. É versátil, é uma referência, agarra com o olhar. Se percorrermos o seu currículo, temos, não só a sua história, como uma certa história do mundo do espectáculo e da cultura em Portugal. O arco temporal é de quase um século: nasceu em 1928.

Serralves, Ler no Chiado e CCB

06.12.17
Novas Perspectivas - Serralves 

com Eduardo Souto de Moura, Jorge Pinheiro e Pedro Cabrita Reis,

dia 7 de Dezembro, 18.30, auditório de Serralves

 

Ler no Chiado Eugénio de Andrade

com Gastão Cruz e José Tolentino de Mendonça

dia 6 de Dezembro, 18.30, Bertrand do Chiado

 

(Quase) Toda uma Vida

com Eunice Munõz

dia 17 de Dezembro, 17h, pequeno auditório do Centro Cultural de Belém

 

Estes são os eventos a que estou ligada nas próximas semanas. Se puderem aparecer e ajudar na divulgação, agradeço. Informação mais detalhada aqui: 


 

"Preferias que [esta nossa conversa] fosse decorrendo naturalmente à medida que íamos falando, movendo-nos entre temas de uma forma ligeira, evitando qualquer agenda ou intenção programática": diálogo entre Pedro Cabrita Reis e Jorge Pinheiro. Que estas linhas (do que não quer um enunciado) sirvam de enunciado à sessão de 7 de Dezembro, que, além de Cabrita e Pinheiro, junta Eduardo Souto de Moura. O pretexto, inequívoco, é a exposição "D' après Fibonacci e as coisas lá fora" e as coisas, dentro, em que os três estiveram envolvidos. Mas, sem agenda ou intenção programática, sabe-se lá que chão eles pisam, eles vão pisar? 

 

Eugénio de Andrade é um clássico e é um revolucionador da poesia portuguesa: "com ele a poesia deixa de ser veículo e torna-se substância de si", diz José Tolentino Mendonça. Passaram mais de 10 anos sobre o desaparecimento do autor de As Mãos e os Frutos. Em breve, teremos nas livrarias um volume com toda a poesia reunida a partir da última edição revista em vida pelo autor e com prefácio de José Tolentino de Mendonça. É com este poeta e um outro enorme poeta, Gastão Cruz, que vamos celebrar Eugénio, lê-lo, pensá-lo, no Ler no Chiado de Dezembro. Na Bertrand do Chiado, dia 6 de Dezembro, às 18.30. 

 

Eunice Muñoz é actriz. Estreou-se em 1941 na Companhia Rey Colaço/ Robles Monteiro. No teatro e no cinema, interpretou todos os grandes dramaturgos, de Tchekov a Racine, e foi, por exemplo, Ninotchka ou Joana D' Arc. Fez, faz televisão. Faz porque se recusa a parar, porque continua curiosa, porque representar é uma necessidade de expressão que não estanca com o passar do tempo. É versátil, é uma referência, agarra com o olhar. Se percorrermos o seu currículo, temos, não só a sua história, como uma certa história do mundo do espectáculo e da cultura em Portugal. O arco temporal é de quase um século: nasceu em 1928.

 

 

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