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Anabela Mota Ribeiro

Curso de Cultura Geral - 18 Mar 2018

19.03.18

Graça Correia é arquitecta, fica impressionada com esta frase de Edgar Allan Poe: “A tradução de um outro autor permite-nos encontrar de um modo mais claro a nossa própria escrita. Um jovem poeta que estude o modo como Rilke escrevia os seus sonetos, aprenderá mais se tentar traduzi-lo, do que se escrever um ensaio sobre o tema”. É uma frase que levanta questões importantes e que tem várias ramificações: como é que se aprende e como encontrar a nossa voz, a nossa escrita. Ou seja, como integramos o nosso ritmo no curso dos dias, numa continuidade histórica? Como integramos uma multiplicidade de referências e fazemos com elas uma constelação que é nossa, própria?

De certa maneira, estas questões são centrais ao trabalho de Tiago Rodrigues, actor e dramaturgo, director do D. Maria. Basta pensar no modo como trabalha os clássicos, da Bovary de Flaubert a Shakespeare, como é que de um corpo a corpo, em que se aprende com o coração além de se aprender com o cérebro, se faz uma obra nova. O terceiro convidado é o escritor José Gardeazabal. Meio Homem Metade Baleia é o seu último livro, depois da estreia em 2015 com História do Século XX. Há no livro um diálogo com Moby Dick, há no universo de referências de Gardeazabal o fuzilamento de Goya e a execução pintada por um artista chinês contemporâneo, Yue Minjun.

Então, dito num italiano torto: Ki Fatxiamo Noi Kui [O que fazemos nós aqui]? A arte é uma forma de responder a esta pergunta?

 

A lista de Graça Correia, arquitecta

  1. Aprender com pintores, escultores, designers nas Belas Artes. Ter Fernando Távora como mestre. Frase de Fernando Pessoa: "sem a loucura, o que é o homem, mais que a besta sadia, um cadáver adiado que procria?" (Poema D. Sebastião, Mensagem);
  2. Laurie Anderson: O SuperMan ou Bright Red (trabalho com Brian Eno); em Progress, aka The Dream Before, usa Walter Benjamin, os Irmãos Grimm (Hansel e Gretel), Paul Klee;
  3. Eduardo Souto Moura: fui sua colaboradora quando saí da faculdade, continuamos a trabalhar e comunicar. Aprendi com ele a noção de continuidade histórica;
  4. Paul Auster. Por causa do acaso e das nossas escolhas;
  5. Frase de Edgar Allan Poe que transponho muitas vezes para a arquitectura: “a tradução de um outro autor permite-nos encontrar de um modo mais claro a nossa própria escrita. Um jovem poeta que estude o modo como Rilke escrevia os seus sonetos, aprenderá mais se tentar traduzi-lo, do que se escrever um ensaio sobre o tema”;
  6. Viagem a Nova York em 1991: uma exposição de Robert Mapplethorpe no Whitney Museum; um bailado de Trisha Brown com música de Laurie Anderson e cenários de Donald Judd;
  7. Bill Viola: fui propositadamente a várias cidades ver instalações. Rinascimento Elettrónico, que vi no Palazzo Strozzi em Florença, deixou-me em transe;
  8. Ruy Athouguia;
  9. É difícil explicar a sensação que se vai tendo quando se constrói e, para mim, a arquitectura só acontece quando se constrói;
  10. "A alegria é a coisa mais séria da vida": frase do Almada Negreiros que há vários anos está no ambiente de trabalho do meu computador.

 

A lista de José Gardeazabal, escritor

  1. Camus: O Estrangeiro e A Peste. O regresso a Camus com Kamel Daoud em Meursault, Contra-Investigação (à volta de O Estrangeiro); 
  2. Kurt Vonnegut: Matadouro Cinco;
  3. Beckett e Tchekhov. A presença e a palavra em contraste em À Espera de Godot. O final de A Gaivota como síntese do que é o teatro. A literatura que ilumina e a literatura que salva. A arte como espelho e consolo da realidade;
  4. Goya, El Tres de Mayo de 1808. Yue Minjun, The Execution, 1995;
  5. Mulheres de Atenas de Chico Buarque, Romaria de Elis Regina, e Cantiga do Fogo e da Guerra José Mário Branco: os discos dos pais. A língua portuguesa em África;
  6. Amália e Barco Negro. O fado e a palavra poderosíssima;
  7. A pé do East Side ao West Side de Nova Iorque: da riqueza à pobreza, em meia tarde. Ouvir um sermão na Memorial Church, em Harvard Yard. Os reis magos: "They returned home by another way";
  8. "I have a dream": o discurso Martin Luther King. O Memorial de Lincoln e o Memorial do Vietname em Washington;
  9. Anna Akhmatova na fila da prisão. A esperança na palavra, na literatura;
  10. Musil e Thomas Mann: o longo e substantivo declínio europeu, até hoje. A ideia de literatura pensante.

 

A lista de Tiago Rodrigues, director Teatro D. Maria, encenador e dramaturgo

  1. O primeiro álbum dos Pearl Jam, Ten, ouvido no liceu da Amadora;
  2. A antologia de poemas de Fernando Assis Pacheco, Musa Irregular;
  3. O filme Lawrence da Arábia, de David Lean;
  4. Ki Fatxiamo Noi Kui [O que fazemos nós aqui], do Teatro Meridional, numa noite em que falhou a luz;
  5. O romance Madame Bovary de Flaubert, lido aos 15 e relido aos 35;
  6. O romance Anna Karénina de Tólstoi;
  7. O concerto de Caetano Veloso e Chico Buarque em São Salvador da Bahia [Teatro Castro Alves, 1972];
  8. A companhia belga tg STAN;
  9. O espectáculo Germinal, de Halory Goerger e Antoine Defoort;
  10. William Shakespeare, praticamente tudo.

Ler no Chiado no dia da Poesia

14.03.18
No Ler no Chiado vamos conjugar o verbo poetar no dia 21 de Março. 
Com a ensaísta e poeta Maria João Cantinho, a cantora Márcia (que vai trazer poemas-canções) e o jornalista e director do Expresso Pedro Santos Guerreiro. 
Todos são grandes leitores de poesia e pedi-lhes que partilhassem os seus autores e poemas preferidos. O critério principal é mesmo este: que seja uma escolha amorosa, que prevaleça o prazer de falar sobre aqueles versos. 
Juntem-se a nós na Bertrand do Chiado, às 18.30. Eu modero.
 

 

Curso de Cultura Geral - 11 Mar 2018

11.03.18

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Este é o célebre começo do poema Tabacaria de Fernando Pessoa. Os versos são um enunciado sobre um mapa interior, uma relação com o universo, o sofrimento, o sonho como experiência humana. Está aqui a grande interrogação e a grande procura, considera o psicanalista João Seabra Diniz. Há aqui um substrato que vai sendo composto, uma compreensão histórica: vimos de um lugar, temos em nós um contexto cultural, um passado, uma raiz. Somos seres de cultura que pertencem a um lugar, que habitam um tempo que não é unívoco. Seabra Diniz tem intimidade com a poesia de Pessoa, Raul Brandão, T.S. Eliot, Dante.

Martim Sousa Tavares não está naquele meio do caminho de que fala Dante quando começa a Divina Comédia. É muito jovem, estuda nos Estados Unidos para ser maestro, o piano é o seu instrumento. Porém, não é preciso ter os 30 anos do poeta florentino para compreender que temos dentro de nós uma “selva oscura”, um lugar onde precisamos de figuras tutelares, que nos acompanhem na descoberta. O compositor alemão Schumann encarna, para Martim, a ideia de homem bom e artista ideal.

Ana Margarida de Carvalho é escritora. Com os dois primeiros romances venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Os dois livros têm títulos roubados a autores que são uma referência: Que importa a fúria do mar pertence a uma canção de Zeca Afonso. Não se pode morar nos olhos de um gato é um verso de Alexandre O’Neill. O livro mais recente, de contos, tem o título de um disco de Sérgio Godinho: Pequenos delírios domésticos.

 

A lista de Ana Margarida de Carvalho, escritora

  1. Chico Buarque;
  2. 2001: Odisseia no Espaço (1968) de Kubrick;
  3. Monty Python;
  4. Filmes de Woody Allen e livros de Saramago;
  5. Hamlet, Shakespeare;
  6. A Casa dos meus trisavós que ardeu;
  7. Um conto de Tchékhov;
  8. Zeca Afonso/ Sérgio Godinho/ Fausto/ Jorge Palma/ José Mário Branco;
  9. Manoel de Barros;
  10. Rodin.

 

A lista de João Seabra Diniz, psicanalista

  1. A descoberta da natureza, a sensação de pertença ao Cosmos. “Não posso ver uma árvore sem espanto... extraio ternura de uma pedra” – Raul Brandão, 1918. “Para ouvir passar o vento já valia a pena ter nascido.” – F. Pessoa;
  2. Ouvir ler, antes de saber ler, é uma experiência infantil muito viva. Ler é a descoberta do segredo dos livros, o encontro com as histórias dos outros;
  3. A descoberta das línguas diferentes da nossa; permite o contacto directo com outras culturas, compreender melhor quem é o homem, quem somos nós, como é a nossa cultura;
  4. A música e a arte em geral. Na infância, ouvir cantar traz o desejo de cantar também. Ouvir falar do bonito e do feio, abre a curiosidade para o mundo da arte e para a qualidade estética das coisas;
  5. Noção de História: a criança que nasce é como um adulto que entra num filme a meio (Umberto Eco). Tem que perceber como são os capítulos precedentes da história em que está a participar;
  6. As opiniões dos outros e a opinião própria. À medida que vamos organizando o nosso pensamento e o nosso mundo interno, confrontamo-nos com os outros e com a sua maneira de pensar e de sentir;
  7. O encontro com a Psicanálise e a atividade de psicanalista. A grande interrogação e a grande procura: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” – Pessoa. O sonho como experiência humana. Uma concepção do tempo: “Time present and time past, Are both perhaps present in time future, And time future, contained in time past” – T. S. Eliot;
  8. O encontro com João dos Santos e o Ano Internacional da Criança em 1979;
  9. O trabalho na Misericórdia de Lisboa com as crianças privadas de meio familiar normal e abandonadas;
  10. O trabalho com adopções.

 

A lista de Martim Sousa Tavares, músico

  1. A cultura começa com a educação; o ambiente cultural que tive em casa tem de ser o primeiro item na lista;
  2. A revelação do abismo da música: primeiro concerto do Grigory Sokolov a que assisti, em Sintra, lá para 2008 / 2009, e a insónia que se lhe seguiu;
  3. A Odisseia (tradução de Frederico Lourenço) em Abril de 2011;
  4. Recordações da Casa Amarela de João César Monteiro: o chamamento, ou despertar de um lado dionisíaco na minha natureza apolínea;
  5. Um mês em Veneza em Setembro de 2009, com uma bolsa de estudo, fui com 17 e voltei com 18 anos. Simbólico pórtico para o mundo adulto (como água que entra em terra seca);
  6. Ser aprendiz na oficina de mestres: Gilberto Serembe, Umberto Benedetti Michelangeli e Victor Yampolsky;
  7. Ainda sobre música: habituar-me e amar viver nesta solidão acompanhada;
  8. Deixar casa (Portugal) aos 21 anos para perseguir um sonho do qual ainda não acordei. (Todos os meus heróis são errantes.);
  9. Descobrir em Schumann o artista ideal e um homem bom. Quanto mais estudo a obra dele, mais me sinto próximo da minha própria natureza. Um pequeno busto dele vigia o meu trabalho no canto da minha secretária; 
  10. A minha obra preferida é aquela que está à minha frente em cada momento. Ou, a profissionalização da paixão.

Maria Teresa Horta

09.03.18

Portugal ainda é um país machista? É seguramente menos do que há 40 anos. É-o, em todo o caso. Dou-me conta disso se penso que a maior parte dos que estão a ler estas palavras – os leitores do Jornal de Negócios – são homens. Se penso que a maior parte dos que fazem negócios em Portugal são homens. Se penso que na lista dos mais poderosos da economia portuguesa, que este jornal elabora anualmente, as mulheres têm uma expressão residual. E antes que desandem e pensem que acordei feminista demais para vosso gosto, gostaria de dizer que, sim, é verdade que a directora deste jornal é uma mulher, a editora deste suplemento é uma mulher, esta que vos escreve é uma mulher. E sabemos que uma das pessoas mais poderosas em Portugal, a que ocupa o Ministério das Finanças, é uma mulher. Mas a pergunta que faço, que Maria Teresa Horta faz na entrevista, é a seguinte: e isto é assim em Trás-os-Montes e no Algarve?, está generalizado? Nenhuma carreira – nenhum projecto de felicidade – ficou pelo caminho para que estes homens (os leitores, os que fazem negócios, os poderosos) chegassem onde chegaram?

O mote da entrevista é outro, ainda que atravessado por este. É consensual que uma das mudanças mais contrastantes no nosso tecido social diz respeito ao papel da mulher. Hoje ninguém discute que uma mulher tenha formação escolar, tenha uma carreira (e faça de supermulher). Ainda se lembram – ou sabem – do tempo em que a mulher era uma sombra? Não é uma anedota, houve mesmo um tempo, e não é longínquo, em que ela precisava da autorização do marido para se ausentar. E não, não vos peço que levem o jornal para casa, para que as vossas mulheres ou as vossas filhas o leiam. Isto é evidentemente dirigido a homens. Melhor: a pessoas. Homens e mulheres. Porque aqui se fala de quem somos, de sociedade, de política, das condições que nos permitem ser isto e aquilo. Ou seja, de liberdade.

A poetisa e escritora Maria Teresa Horta destaca-se há muito na luta pelos direitos das mulheres. O seu discurso político é empenhado, categórico, sem virar a cara para o lado, sem espaço para a condescendência. Zero de atitude compromissória – essa coisa que abunda. A ela não a apanham a dizer: como passa vossa excelência? – se do outro lado estiver um membro deste Governo, ou o presidente da República. Zero de sorrisos. Recusou em 2011 receber de Passos Coelho o prémio D. Dinis, como é sabido. Zero de arrependimento.

Que é feito do sonho de Abril? 40 anos depois, olhamos para dentro de casa, e não só.

 

O que é que o 25 de Abril fez à sua vida?

Aquilo que fez à vida de todos os portugueses: virou-a dos pés para a cabeça. Viver em liberdade e ser uma festa completa, desde que se acordava e enquanto se dormia... É uma época tão jubilosa, de tanto entusiasmo, tanta esperança. Tanta crença no futuro. Tudo era cinzento e passou a ser rosa acre.

 

Rosa acre? Porquê?

Porque é a cor mais intensa. Era mais a rosa acre do que a rosa damascena. Quando me lembro do 25 de Abril, o que sinto é essa festa. Dava prazer ir para a rua em liberdade.

 

Com o que é que sonhou? Três coisas em relação às quais pensou: isto agora vai ser possível.

Agora vai ser possível fazer deste país outro país. (Era um país amordaçado, triste.) A mulher vai mudar a sua vida. E nós, jornalistas, não precisamos de ir mais à censura.

 

Como jornalista, lidava com a censura todos os dias.

Sempre trabalhei em jornais diários. Aquela coisa de o coronel cortar e de às vezes ainda termos que falar ao coronel porque queríamos que voltasse atrás... Era uma violência. Não se podia pôr uma palavra que não passasse na censura. Fechavam o jornal. Era um atentado diário. À integridade, à autenticidade. Eu trabalhava enquanto jornalista cultural, fazia entrevistas, aquilo que cortavam tinha a ver com literatura. E cortavam tanto quanto em artigos políticos.

 

Eram consideradas ideias subversivas e autores subversivos?

Sim. Quanto mais ignorante se fosse, melhor. Toda a gente sabe que quanto mais conhecimento, mais difícil é dominar e calar uma pessoa. E não havia censura prévia nos livros porque no início ligavam pouco à cultura, não se tinham apercebido do perigo. Nessa altura, estava com a Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa em tribunal.

 

O processo das chamadas Três Marias tinha rebentado em 71, depois de escreverem as Novas Cartas Portuguesas. Esperavam ir presas?

Claro. Não tínhamos ido presas porque tínhamos pago caução. Só faltava o juiz dar a sentença, estava marcado [o anúncio] para Maio de 74. Ele tinha ordem para nos prender. Mas havia em todo o mundo ocidental uma pressão enorme das feministas, e não só. Jornalistas, pensadores, estiveram connosco. Simone de Beauvoir, [Jean Paul] Sartre, Marguerite Duras, Christiane Rochefort.

 

Uma das coisas que mais mudaram nestes anos diz respeito ao papel da mulher na sociedade. Concorda?

O 25 de Abril foi maravilhoso para toda a gente, especialmente para as mulheres. As mulheres nem sabiam que tinham direito a ter voz. Eram a sombra do homem. As mulheres não tinham sexualidade, não tinham direitos, não tinham qualquer espécie de relevância na sociedade portuguesa. Todo o código de família – que depois foi mudado pelo Salgado Zenha – era uma coisa aterradora. O direito que tinha era dar opinião.

 

Estava escrito?

Estava. A mulher não podia sair do país sem o homem lhe dar autorização. Se o filho dos dois [quisesse sair], ele é que tinha que dar autorização. Porque ele é que mandava nos filhos. A mulher tinha o direito de discordar.

 

No espaço público, que direitos tinha? Tinha direito a votar?

Não. Só tinha direito a votar se fosse chefe de família, coisa que nenhuma mulher era, a não ser que fosse viúva. Ou então se tivesse um curso superior, o que nessa altura era bastante raro.

 

Quando é que as mulheres começam a votar?

Só depois do 25 de Abril. Nunca votei antes. Não acabei o meu curso. Voto com a maior das alegrias!, continua a ser uma festa tão grande. Foi uma luta minha. Luta que até hoje se mantém. Deram-se tantos passos atrás depois do 25 de Abril que já nem reconheço o 25 de Abril.

 

Desvirtuou-se assim tanto?

Sim, muitíssimo. Estão a tentar dar cabo de tudo o que conquistámos.

 

Concretize.

O Sistema Nacional de Saúde é uma macaqueação daquilo que tínhamos imaginado e daquilo que chegou a ser. Os direitos dos trabalhadores não têm nada a ver com aquilo que se tinha conquistado no 25 de Abril. A escola pública, que era um ideal e uma realização da Primeira República..., estão a fechar dia após dia. Já estão a dar dinheiro às escolas particulares. Nas aldeias tiram tudo, o correio. Coitadinhos dos velhinhos que têm de andar quilómetros para receber as pensões [na estação dos CTT mais próxima].

 

Quando é que o sonho se desvirtuou?

O sonho hoje é mesmo só sonho. Mantém-se a liberdade de ir para a rua manifestar. Mas pergunto-me se as pessoas não começam a ter medo. Essa é uma das coisas em que se recuou – o medo. Um medo que conhecia desde criança. Nasci no fascismo, vivi 30 e tal anos no fascismo. Sempre conheci esse abocanhar do medo em todas as pessoas que ia conhecendo. Falávamos ao telefone e sabíamos que estava a ser escutado. Houve uma altura em que a PIDE me bateu à porta, durante uns três meses, todas as semanas. Às seis da manhã. Ainda acordo de noite a ouvir baterem à porta.

 

As pessoas têm medo de que represálias?

De perder o emprego, é óbvio. As pessoas têm medo de dar a sua opinião porque têm medo de ficar desempregadas. Hoje em dia pode-se ir para a rua? Pode. E depois, como é, não há filmes? Eles não vão ver quem está? Essas pessoas são as primeiras a ficar desempregadas. As pessoas aceitam tudo, têm que viver. Quando temos um primeiro ministro que diz: “Não pode encarar o desemprego como uma tragédia, tem que encarar como um mudar de vida”, então, ele que mude. Vai para o desemprego e muda de vida.

 

Quando é que o sonho começou a ser desvirtuado? A crise dos últimos anos tem sido muito aguda. Mas é de agora?

Tem vindo a pouco e pouco a ser desvirtuado aqui ou ali. O grande declive tem sido nestes últimos anos.

 

Com uma marca ideológica?

Claro. Aquilo que estão a fazer, fazem porque queriam fazer. Estão a dar cabo deste país. Estão a abolir tudo o que era 25 de Abril. Como é possível que se acabem com feriados sendo um deles o 5 de Outubro? A República não é importante?

O 25 de Abril foi realmente um sonho e como tal era muito difícil que se mantivesse intacto. Aquele 1º de Maio foi uma coisa única em todo o mundo. Vir o povo todo para a rua, os políticos, todos de braço dado nas manifestações. É uma festa tão grande que alguma coisa teria de ser perdida. Uma coisa é o sonho, outra coisa é a realidade, e outra coisa ainda é o desmantelamento.

 

Passámos por uma fase intermédia? Isso corresponde também aos anos em que as pessoas se distanciaram da política? Há muito que as taxas de abstenção são altas. As pessoas não têm uma actividade cívica empenhada.

Levámos 50 anos a desaprender o interessarmo-nos pela política. A prática quotidiana do fascismo era essa: não podíamos nada. Não tínhamos que dar a nossa opinião. Íamos presos, éramos perseguidos, entravam-nos em casa. Quando nos sentávamos num café púnhamos a mão debaixo da mesa para ver se havia um microfone.

 

Depois da revolução, as novas gerações encontraram um país onde o essencial estava adquirido. Entretanto os mais velhos tinham desaprendido de intervir porque aquilo por que haviam lutado estava satisfeito.

Os mais novos encontraram uma sociedade aberta, ninguém os impedia de nada, era tudo possível. Podiam falar à vontade. Basta olhar os olhos dos jovens que estão em cursos de Comunicação Social. Quando se diz que cada texto, cada letra, tinha de ir à censura...

 

Qual é a reacção?

O que se vê nos olhos é incredulidade. Julgam que somos loucos. Como é que era então possível fazer um jornal diário? Era um horror, mas era possível.

Quando vou ao Brasil, depois do 25 de Abril, e ainda encontro uma ditadura [a ditadura militar terminou em 1985], sou convidada para uma rádio. Senta-se o jornalista à minha esquerda e à direita um senhor. Era um censor. Disse: “Isto nem no fascismo em Portugal”. Nenhum escritor se sentaria ao pé de um censor. Tem tão pouca consideração por si próprio um escritor que se senta ao lado de um censor... Ainda hoje não me sento ao lado de ninguém que esteja ligado à extrema-direita, que esteja ligado ao fascismo ou à censura.

 

Em 2011 recusou receber o prémio D. Dinis das mãos do primeiro ministro, Passos Coelho.

E este ano não aceitaria de ninguém deste Governo nem do Presidente da República, que é conivente com eles. Nem uma códea de pão, quanto mais um prémio. Não preciso de prémios, preciso de ter respeito por mim. Não posso ir para a rua gritar contra eles e depois, porque é um prémio, dar um sorriso e apertar a mão. Não posso! É uma questão de coerência. E de auto-estima. Não recebo nada desses senhores.

 

Qual foi a reacção que encontrou na rua, no seu bairro, nas pessoas à sua volta, depois dessa atitude?

Muito boa. No Facebook, centenas de pessoas muito animadas dizendo: “Ainda bem que há pessoas que continuam a ter dignidade, a agir conforme as suas ideias”. Mas houve uma mulher que pôs assim na minha página oficial: “Que pena, eu que a admirava tanto e a amava, agora desprezo-a”. Isto é muito português – os extremos. Mas achei muita graça. E gostava de conhecer a senhora. Eu desprezava-me a mim se tivesse aceitado o prémio.

 

Sabe que todos os idílios têm um período de corrupção inevitável. Imaginou este grau de corrupção do sonho?

Nunca pensei no 25 de Abril que isto pudesse acontecer. (Aquele Manifesto dos 74, eu assinei, queria assinar. Manifestos era o que fazíamos durante o fascismo, e era perigoso. E agora, qual é o passo seguinte, é ter medo de assinar?) Percebi que se estavam a dar passos atrás depois de 75, depois de [25 de] Novembro.

 

É militante de algum partido?

Não. Mas fui militante do Partido Comunista durante 14 anos. Antes do 25 de Abril, trabalhei com o PCP na clandestinidade, pertencia ao grupo de pessoas que davam apoio aos presos políticos. Com 19, 20 anos quis entrar no partido e a resposta foi que era muito nova.

 

Muito nova? Era uma resistência à sua origem de classe? É oriunda de uma família aristocrata. A Marquesa de Alorna, cuja biografia escreveu, As Luzes de Leonor, é sua antepassada.

Penso que a desconfiança era em relação à minha poesia. A poesia erótica ainda é uma coutada dentro da literatura a que as mulheres dificilmente têm acesso. Senti durante anos que havia um terreno movediço debaixo dos meus pés em cada livro que publicava. Depois do 25 de Novembro sou aceite no PC em duas semanas. Aí já havia uma abertura que tinha a ver com a democracia.

 

Se entrou para o PCP depois do 25 de Novembro, significa que sentiu que o PCP estava a perder terreno e que esse era o momento de dar força ao partido. Aquilo que preferia era que o PCP tivesse ganho o PREC, e não o PS?

Na altura, sim.

 

E hoje?

Saí do partido, não me puseram fora. Hoje continuo a achar que a democracia só existe por causa do Partido Comunista.

 

Contrariava a ideia de que o 25 de Novembro punha termo ao que podia ser uma ditadura vermelha?

Nunca acreditei nisso.

 

Saiu depois de 1989, depois do desmoronamento do muro e do mundo soviético.

Sim. Era chefe de redacção da revista Mulheres, editada pela Caminho, que era do partido [PC], e foi muito complicado. Eu faço muitas perguntas, quero ouvir respostas.

 

É um grande título: nada foi fácil porque faço muitas perguntas.

Sou uma perguntadora. Sou uma sonhadora da liberdade. Exijo muito da liberdade. E sou muito agradecida ao Partido Comunista. Não tinha havido militares de Abril se não tivesse havido um trabalho por trás.

 

Voltemos à dimensão política que a sua obra tem e nas suas repercussões. A publicação das Novas Cartas Portuguesas teve consequências (já falámos disso). Esta recusa de receber o prémio D. Dinis das mãos de Passos, o que aconteceria se ela tivesse lugar no antigo regime?

Não sei. Naquela altura não me vinham prender por isto, mas ficaria com mais uma pedra na minha vida. O que já acontecia comigo..., com as Novas Cartas Portuguesas, com o Minha Senhora de Mim [livro de poesia, 1967]... Quando publiquei o Minha Senhora de Mim, a minha editora, Snu Abecassis, foi chamada ao Moreira Baptista, que lhe disse: “Proibi o livro desta senhora. Se volta a publicar, o que seja, dela, fecho-lhe a casa”.

 

Snu tinha fundado a Dom Quixote dois anos antes, em 1965.

Sabia que não havia nenhum editor que me pudesse publicar. Como escritora estava arrumada. O que é que podiam fazer mais se me recusasse a receber um prémio das mãos do Marcelo Caetano? Nada mais do que me estava a acontecer.

 

No caso da recusa de 2011, quais foram as consequências?

Até agora nenhumas. Porque não dependo deles. Tenho uma reforma à qual tiram dinheiro, como acontece com milhares de pessoas nas mesmas condições. E porque vivemos em liberdade, e nessa altura vivíamos em fascismo.

 

Falemos novamente das grandes mudanças na vida das mulheres, daquilo que começou por apontar como um dos sonhos do 25 de Abril.

Pensei que a mulher pudesse, em Portugal, ter o estatuto que agora tem: um ser humano com plenos direitos. A Constituição reconhece a igualdade entre o homem e a mulher. Mas isso corresponde à verdade? Não.

 

Temos uma base legal que nos protege mas a realidade não corresponde, é isso? Porquê?

Porque, mesmo que se faça uma revolução, como se fez em Portugal, a mudança de mentalidades é muito lenta.

 

Aqueles que nasceram na década de 70, nasceram com um novo país. A sua mentalidade ainda tem muito desse passado penalizador das mulheres?

Tem. São filhos desse passado, os pais continuam a ser pessoas que viveram nesse passado. E as mentalidades têm séculos. Os homens continuam a matar as mulheres neste país. As mulheres têm o mesmo trabalho que os homens e têm salário desigual. As mulheres não estão à cabeça das empresas, dos jornais, no Governo.

 

Neste momento o Jornal de Negócios e o Público têm duas mulheres directoras, Helena Garrido e Bárbara Reis.

Isso só, muda?

 

Já é uma mudança. E são dois jornais de referência.

A cultura, a leitura, levam as pessoas a mudar. O próprio jornalismo leva as pessoas a mudar. A minha pergunta é se encontra isso no país inteiro. Se encontra essa mudança em Trás-os-Montes, no Algarve. Olha para o Governo e é um desastre de mulheres.

 

Mas olhamos para as universidades e são mais as mulheres do que os homens.

Isso é diferente. E as meninas são sempre as melhores das turmas. Depois, saem da universidade, e são elas as primeiras a ser empregadas? Não, não são.

 

A equação das mulheres que têm agora 30, 40 anos é a conciliação da família e da carreira? Isto não era posto assim há uns anos, era evidente que primeiro estava a família.

O que está viciado é já a pergunta. Por que é que não se faz essa pergunta aos homens? A mulher é que continua a ter que optar entre a sua vida profissional e a sua carreira. Todos temos na cabeça que para a mulher a família é a coisa mais importante.

 

E isso é válido para todas as gerações?

É. Mesmo para as mais novinhas. As mulheres continuam a cumprir aquela frase portuguesa que ainda não encontrei em mais sítio nenhum: “São mais que as mães”. Não há mães sem pais.

 

O que essa frase quer dizer é que, na cabeça das pessoas...

... a primeira função da mulher continua a ser família. “O meu marido ajuda-me muito”. Ajuda? Onde é que está escrito que quem faz o trabalho doméstico são as mulheres? Enquanto se achar que o homem ajuda, e que já é maravilhoso [que ajude no trabalho doméstico]… Enquanto se disser que os homens já tomam conta dos filhos... E depois, não são filhos deles?

E neste momento estamos a regredir. Os passos que demos para diante, mais de metade já demos para trás.

 

Regredimos no sentido em que as mulheres são as mais penalizadas? São consideradas o elemento mais frágil. Se a criança fica doente, é preciso ficar em casa a tomar conta. Normalmente é a mãe.

Com certeza. Ela é aquela de quem os patrões prescindem mais facilmente. Esse peso continua a existir em cima da mulher. Por isso fazem perguntas que não fazem aos homens. “É casada?, pensa ter filhos?”. Uma amiga da minha nora foi a uma entrevista de emprego; quiseram ver a carteira, se estava arrumada. Alguém pede a um homem para ver a arrumação da mala do carro, o que tem nos bolsos?

 

Fomos engolidos pelo critério economicista? E aí não somos só nós, Portugal. E não são apenas as mulheres, ainda que estas possam estar no ponto mais vulnerável da cadeia. Estamos numa espécie de disfuncional mundial.

Sim. Quando me vêm perguntar se ainda sou feminista, se ainda há necessidade... Nem respondo. As pessoas acham que já fizemos imenso. Votamos, não apanhamos todos os dias. E a sexualidade, acha que as mulheres são tão felizes assim na sua sexualidade? Ainda há montes de preconceitos em relação às mulheres.

 

A maneira como a sexualidade ocupa o espaço público nos últimos 40 anos mudou muito.

Antes do 25 de Abril, a mulher não tinha sexualidade. Agora tem.

 

Vulgarizaram-se as relações sexuais antes do casamento. A publicidade, a televisão são muito explícitas nas mensagens de conteúdo sexual.

A publicidade é péssima, andou quilómetros para trás. Uma pessoa vê coisas na televisão hoje que não se viam antes do 25 de Abril.

 

Lembra-se daquele título do Jornal de Notícias, o ano passado: “Ministra foi mostrar o buraco”? Referia-se a Maria Luís Albuquerque e à situação das finanças do país.

Isso não se diz de um homem.

 

Talvez os autores percebessem o que fizeram se aplicassem a expressão à sua mãe ou às suas filhas.

Aí, sim. As mulheres são sempre respeitadas particularmente. A mãe e a filha são sagradas. E des-sexualizadas. Fiz um livro chamado A Mulher na Literatura Portuguesa. Um escritor tinha escrito um texto sobre a mãe e dizia que a mãe não tinha corpo e não tinha cheiro. As coisas que a mãe tem mais! Ainda hoje me lembro do cheiro da minha mãe.

 

Como é que o descreveria?

Louro. De uma pele branca. Foi até aos 90 anos linda de morrer. A minha mãe era parecida com uma árvore.

 

Que palavras imagina que os seus netos, o seu filho e o seu marido diriam imediatamente de si, como disse da sua mãe que era parecida com uma árvore?

Cada um diria a sua coisa. O meu filho, não faço ideia. O meu filho é da condição do sonho, dos anjos. Está lá por cima. Os meus netos são muito diferentes. Pensavam em poesia. O Tiago diria: “A minha avó é poesia”. O Bernardo [falaria de ] determinação. É a imagem que têm de mim. E o Luís [marido], também.

 

É um casamento longo.

O que é que pensa um homem apaixonado há 50 anos por uma mulher que também está apaixonada por ele há 50 anos? Todos os dias faço poesia de amor por ele. Há dois dias ele disse uma coisa a que achei muita graça: “Pára de bulir, só um bocadinho”. É uma palavra linda. É a ideia que as pessoas, as minhas amigas, têm de mim. A permanente agitação, a permanente desobediência.

 

É o seu carácter insubmisso.

E sou muito determinada. Quando me proíbem, incandesço.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014

 

Gilberto Gil

07.03.18

O meu quarto fica no sétimo andar de um hotel de Brasília. Começo por abrir o mapa que me deram na recepção, ponho-o contra o vidro da janela. Sigo o percurso rectilíneo de Oscar Niemeyer a partir dali. A catedral com vitrais de um azul céu e anjos suspensos sobre o altar; as fileiras de edifícios ministeriais; a Praça dos Três Poderes; o Palácio dos Congressos. Todas as grandes obras.

É meio-dia. Sei desde a véspera que o ministro Gilberto Gil me concede entrevista ao fim da tarde. Na véspera eu estava no Rio de Janeiro, e num contacto telefónico com o assessor de imprensa, obtive a confirmação da entrevista – os contactos tinham começado duas ou três semanas antes, ainda em Portugal.

Quando nessa manhã aterrei em Brasília, caía uma chuva miúda. O calor não era o mesmo do Rio, a humidade era bastante inferior. Era um dia de semana, com homens de gravata e mulheres de tailleur. A cidade surge-me exactamente como a conhecia dos postais. O elemento humano, a vivência do espaço, em nada a transforma. A sensação de estranheza advém disso mesmo. A escala não é humana, não tem botequins nas esquinas, pessoas nos passeios. A despeito da extrema elegância, do traço depurado do arquitecto Niemeyer, parece-me invivível.

O que faz um homem como Gilberto Gil, um baiano de colheita excepcional, um músico reconhecido internacionalmente numa cidade como Brasília?

Olho pela janela do sétimo andar, reconheço o edifício do Ministério da Cultura. Algures naquele espaço, no cruzamento de salas de espera e gabinetes de trabalho, o senhor ministro Gilberto Gil pensa a cultura de um desmesurado país chamado Brasil.

No seu discurso de tomada de posse, pode ler-se o seguinte: «Cultura como usina de símbolos de um povo. Cultura como conjunto de signos de cada comunidade e de toda a nação. Cultura como o sentido de nossos actos, a soma de nossos gestos, o senso de nossos jeitos. (...) Desta perspectiva, as acções do Ministério da Cultura deverão ser entendidas como exercícios de antropologia aplicada. O Ministério deve ser como uma luz que revela, no passado e no presente, as coisas e os signos que fizeram e fazem, do Brasil, o Brasil. Assim, o selo da cultura, o foco da cultura, será colocado em todos os aspectos que a revelem e expressem, para que possamos tecer o fio que os unem».

Da aventura política, quase não falámos naquele fim de tarde. A não ser do significado que tem, para ele mesmo, o cargo de que está investido. De como isso entronca na sua história pessoal.

Durante cerca de uma hora e meia, a conversa correu tal como a vão poder ler.

Reencontrámo-nos dali a pouco, no Clube do Choro de Brasília, cuja temporada era inaugurada nessa noite. O surpreendente Armandinho Macedo extasiou a plateia. O senhor ministro Gil tinha ao lado uma das suas filhas, secretária particular que vive com ele em Brasília, durante a semana. O fim-de-semana é passado no Rio. Comeu um ou outro bolinho mineiro, de queijo. Respondeu a perguntas de jornalistas no intervalo. Perguntou ele mesmo a Armandinho, da sua mesa para o palco, se a música que este acabara de tocar era dele ou do pai, fundador do Trio Eléctrico na Baía.

Desconheço se em algum momento teve vontade de saltar para o palco, de experimentar a música. 

 

Gostava que me descrevesse o tecto do seu quarto de quando era pequeno. É verdade que era transparente e a partir dele via as estrelas?

Não era todo transparente. Eram telhas de barro normais com vigas de madeira e algumas telhas de vidro em lugares estratégicos. Três delas em fila bem acima da minha cama, outras três por cima da cama da minha irmã.

 

Dividia o quarto com a sua irmã?

Sim, durante um período grande da nossa infância. Minha irmã se chama Gildina, é dentista. E havia outra fileira de telhas de vidro fora das nossas camas. Era muito interessante porque dali víamos as estrelas.

 

Conversavam?

Conversávamos. Sobre as coisas do nosso dia, da nossa vida. Dos temores da nossa avó e da nossa mãe, que eram as responsáveis pela disciplina. Tínhamos a obediência. Falávamos das pequenas transgressões, quais seriam, como seriam, quais os mecanismos de ludibrio. Recordo muito bem o dia do eclipse solar, teria sete, oito anos. Não se podia olhar para o sol no momento do eclipse. Havia duas coisas: uma era a ameaça física, o mito da ameaça da cegueira, outra era que alguma coisa mágica, encantada, podia acontecer.

 

E olhou?

Estava debaixo dos lençóis e espreitava... Hesitava entre atender ou vencer à tentação de olhar.

 

O seu pai era médico e a sua família de classe média alta – o que não é muito comum numa pessoa que tem uma cor escura como a sua. Isso representava uma responsabilidade adicional para si e para a sua irmã?

Naquela ocasião não me dava conta disso. A minha família era uma família branca no sentido social, de poder, de condição económica e educacional. Pai médico, mãe professora, avó também professora. Vivíamos numa cidade com 900 habitantes onde a minha família ocupava uma posição muito destacada, muito elevada. Por outro lado, como acontece em muitas cidades do interior da Baía, os vasos comunicantes entre as raças e as pequenas gradações sócio-económicas eram muito abertos.

 

Caetano Veloso escreve no livro «Verdade Tropical», a propósito da cor e da proveniência social...

Que eu sou um mulato suficientemente escuro para ser considerado negro, enquanto ele é um mulato suficientemente claro para ser considerado branco. E isso é verdade em conjuntos sociais onde haja mais concentração de pessoas, nas cidades grandes. Como lá era uma cidade de 900 habitantes, e como nesse momento da colonização o prefeito, Sr. Oswaldo Conceição, era negro, o dentista, Sr. Cassinho, era negro, meu pai, que era médico, também era negro, minha mãe, que era uma das cinco professoras do grupo escolar, era negra, sendo que havia uma outra que também era negra... Os negros mestiços saíam capacitados em actividades educacionais, tinham profissões liberais, iam para essas cidades e formavam ali novas elites mestiças, misturadas. Com muito menos problemas de separação, de preconceito racial do que nas grandes cidades.

 

Disseram-me que passou recentemente na televisão brasileira um documentário sobre si e uma das imagens mais deliciosas era o senhor a cantar com as lavadeiras da terra da sua infância. Já era assim nessa altura? Um menino filho de médico e que ia à escola, cantava com as lavadeiras?

Era assim. Todas essas barreiras eram bastante quebradas numa cidade pequena, num microcosmos social como era aquele. A necessidade das pessoas se valerem umas das outras era tão maior do que em qualquer outro agrupamento maior, com mais alternativas. Era tão maior que essas vivências se impunham sobre quaisquer resíduos de desejo de apartação que pudessem permanecer nos corações e nas mentes das pessoas. As festas eram oportunidades profundas para estabelecer convívios.

 

A música como uma espécie de língua franca entre os vários estratos sociais?

É. E então ali estabeleciam-se comunidades quase ideais. Só começo a ter o problema da classe social, da raça, quando vou para Salvador, na adolescência. Vou fazer o Ginásio, a complementação dos estudos que já não era possível fazer na minha terra. Fui viver para casa de uma tia, irmã do meu pai.

 

Como é que a música, a música da rua, a música das pessoas, a música que era linguagem franca, o impressiona? Como é que ela entra na sua vida?

Desde a infância. Principalmente nas feiras. No mercado municipal, aos sábados, vinham todos montar o mercado. Começavam a chegar às quintas, (alguns que vinham de mais longe), e ao sábado dava-se a feira. Vinham os cantadores dos lugarejos, era a única forma de comercializarem a sua música. Cantavam e recebiam gratificações.

 

Nas feiras havia altifalantes?

Também havia. E aí já era o rádio, passavam as grandes canções de sucesso produzidas nos grandes centros, no Rio de Janeiro, em São Paulo.

 

Que músicos ouvia mais atentamente? 

Orlando Silva, Mário Reis, Augusto Calheiros, Chico Alves, Luiz Gonzaga e vários outros. As irmãs Batista, Dalva de Oliveira, Vicente Celestino.

 

E João Gilberto? O senhor tocava acordeão e decidiu trocá-lo pelo violão depois de ouvir João Gilberto.

O acordeão chega quando eu vou para Salvador, em 51. [João Gilberto aparece com «Chega de Saudade» em 58] Para além do Ginásio, fui também para a Academia de Acordeão. Foi o primeiro instrumento que aprendi.

 

Quem é que ouvia rádio em sua casa?

Todos. Todos nos sentávamos para ouvir o rádio.

 

Sentavam-se para ouvir rádio como hoje nos sentamos para ver televisão.

Sim, claro. Sentávamo-nos a ouvir rádio onde havia, não só programas musicais, como rádio-novelas, como crónicas, (a crónica do César Ladeira, por exemplo, na Rádio Nacional). Eram crónicas como hoje lemos no jornal, sobre a cidade, sobre os costumes, sobre factos acontecidos, sobre grandes personalidades nacionais ou internacionais, sobre datas magnas. Ou programas de competição musical.

 

E aí vibravam?

Vibrávamos com tudo isso. E com as rádio-novelas como «O anjo», «Jerónimo, o herói do Sertão». Depois complementava com as foto-novelas, com as revistas em quadrinhos.

 

Mas via isso? Eu tinha a ideia que o público que consumia isso era maioritariamente feminino.

Mas eu era e sou muito feminino. Tem muitas canções minhas que falam disso. «Super-homem» é uma delas. Até por causa da minha educação. Na minha casa, o único parceiro homem era meu pai. E não vivia muito em casa. Eu vivia com a minha irmã, com a minha avó, com a minha mãe, com a minha tia.

 

Tinha um fascínio por aquele universo das mulheres?

Tinha.

 

O que era mais fascinante?

Era mesmo a diferença física. Elas eram diferentes de mim. Eram outras configurações de matéria plástica. Além disso, eram as tutoras, as disciplinadoras, tinham ascendência sobre a minha liberdade. Determinavam e criavam as regras, definiam a fronteira entre o que é possível e o que não é possível.

 

Inclusive a sua irmã, que tinha a mesma idade? Ela também tinha ascendência sobre si?

Tinha. Até porque – coisa que só vim a perceber mais tarde – ela é leonina e eu canceriano.

 

O que é que isso significa?

O signo de leão é forte, de afirmação, um signo positivo. E o meu é o caranguejo, o afectivo, receptivo, maternal, feminino. O leão é um signo do sol e o câncer é um signo da lua.

 

Uma visão estereotipada do masculino-feminino confere à mulher o atributo da sensibilidade, e ao homem a racionalidade. Mas depois na prática, isso cai tudo por terra.

Na minha comunidade esses parâmetros eram subvertidos pelas circunstâncias da vida. As mulheres se manifestaram dessa forma na minha vida, e continuaram até hoje. Tenho uma canção que fala da mulher que será sempre a minha mãe. Fui casado quatro vezes, a todas chamo de mãe.

 

Em que é que diferem as conversas e as relações que tem com mulheres e as que tem com homens?

Com as mulheres há necessariamente essa identificação com o elemento materno. Com todas as mulheres. Com os homens é o pai. E o pai era a figura distante; muito presente porque a actividade profissional era dentro de casa, o seu consultório médico era dentro da nossa casa...

 

E contudo...

Contudo, era distante porque deixava o encargo do relacionamento profundo, gostante, e o acompanhamento directo para as mulheres. A minha mãe, a minha avó e a minha tia. E mais ainda: a cozinheira. Era uma figura extraordinariamente importante. A velha Biíta, que era uma corruptela de «bonita». Quando eu, ainda muito pequeno, não sabia dizer a palavra «bonita», dizia «biíta». E ela ficou sendo chamada de Biíta, não só por mim como por todos da casa, e não só naqueles primeiros momentos da minha infância, como para o resto da minha vida, até à minha adolescência, quando ela saíu da minha vida.

 

Quando foi convidado para ministro, telefonou a alguma destas mulheres? Ou já são outras as pessoas e as mulheres da sua vida?

Neste momento, Flora, a minha mulher, é quem hoje simboliza essas outras todas, é quem está ao meu lado a representá-las todas. Ela estava ao meu lado quando recebi o telefonema do presidente.

 

O que é que ela lhe disse?

«Faça o que você quiser».

 

Deixe-me voltar à música. Gostava de perceber melhor quando é que se prefigurou na sua vida.

Como vivência interna, profunda, como forma de expressão, fio condutor, atractor de compreensões, de entendimentos, de leituras do mundo? Logo. Aos dois anos de idade. Aos dois anos de idade, minha mãe me perguntou: «O que é que ‘cê será, um dia, quando for um homem?». E eu disse: «Musgueiro».

 

O que era "musgueiro"?

Músico. Era como eu, aos dois anos de idade, me referia à palavra «músico». Mas devia ser difícil de dizer. E «musgueiro» era igual a padeiro, ferreiro, sapateiro, coisas que já eram do meu universo. O meu ofício seria o da música, então eu seria «musgueiro».

 

Todavia, vai para a faculdade tirar um curso que está nos antípodas disto. Um curso de administração de empresas.

Mas aí eu já vivia no universo da modernidade. Salvador, cidade moderna.

 

Como se operaram essas várias transições? Imagino que a primeira transição seja de um espaço onde toda a cidade era a sua casa, para um espaço inóspito, onde está na casa de uma tia...

E a casa da tia está numa cidade enorme de 400 mil habitantes.

 

E a outra transição é de menino para rapaz, que tem de escolher um ofício, além desse ofício que ele sempre disse que queria ter.

Tinha que atender aos anseios da família. Meu pai queria que eu fosse como ele, um profissional liberal. Minha mãe também queria que eu fosse como ela, uma profissional liberal. Havia um modelo social em que era importante que nos diplomássemos. Era importante ser doutor. E eu tive que aprender. Mas com muito gosto até, porque também tinha no meu coração um certo anseio de atender a essa convenção social, de corresponder a isso, de me tornar um doutor. Então escolhi uma profissão. A princípio pensei ser médico, como o meu pai, aos 12, 13 anos. Aos 17 anos, quando concluí o curso secundário e já se anunciava a hora de fazer o vestibular para a universidade, pensei em ser engenheiro. Fiz o vestibular de engenharia, não passei. E aí, no ano seguinte, apareceu esse curso de administração. Aquilo me fascinou porque era uma coisa completamente nova. Não pertencia aos cânones.

 

E foi de alguma serventia?

Acho que foi. Hoje tem-me servido muito.

 

Podia ser um curso de Letras? Um curso com palavras?

O interesse pelas palavras chegou depois, com a música.

 

Foi a sua mãe que o ensinou a ler?

Minha avó me ensinou. Enquanto a minha mãe ensinava na escola, minha avó se incumbia de me ensinar em casa. Eu não fui à escola da minha mãe. Minha avó era uma professora aposentada e se incumbiu da instrução, tanto da minha quanto da da minha irmã. Depois fui fazer o exame de admissão ao Ginásio numa escola em Salvador.

 

As palavras começam a ter importância a partir da relação com a música. Mas o modo como aprendemos a falar, a ler e a escrever é fundamental para a relação que mais tarde temos com as palavras.

E, sem dúvida, isso tudo foi forjado com «O Tesouro da Juventude», que era uma colecção de 18 livros, tipo enciclopédia, com tudo. Todos os grandes factos da História, todos os grandes personagens da História, todas as grandes descobertas científicas, todas as grandes invenções tecnológicas, todas as grandes escolas de pensamento. Tudo isso eu tive, na primeira infância, os livros do Monteiro Lobato. Literatura adulta feita para crianças.

 

Consumiu isso tudo como se se tratasse de um romance?

Só que eu não fiz a escolha da palavra. Fiz a escolha da música e não da palavra. Podia dizer que existia já em mim o embrião de poeta, de literato. Eu sentia o embrião de músico. E foi através da música que cheguei à palavra. Só comecei a necessitar dar às palavras significados meus, próprios, quando comecei a usar a palavra cantada. Quando comecei a precisar cantar coisas, cantar palavras.

 

Li numa entrevista uma coisa que me impressionou muito. Dizia que, para si, o sentimento está absolutamente em primeiro lugar, e só depois é que vem o pensamento.

É.

 

É disto, também, que estamos a falar?, da música e sensibilidade como formas primeiras e do pensamento e das palavras como passos subsequentes?

Creio que sim.

 

Quando diz que precisou de usar palavras para expressar melhor o que queria dizer, é também porque a sua música é uma espécie de reverberação da natureza.

Diria mais um prolongamento da existência.

 

Importa-se de especificar isso?

Quando falamos a natureza, corremos o risco de estarmos querendo nos referir à matéria, ao mundo material. Quando digo existência, adiciono às formas materiais – que nos incluem inclusive a nós humanos – a existência inteira. O existir, as dimensões da alma, as dimensões do espírito, as dimensões dos seres mudos que não falam connosco. Como as pedras.

 

Quando estava a dizer reverberação da natureza estava a pensar nisso. Nessa linguagem que a natureza tem e que pode ser o sopro do vento, o correr das águas. Tudo isso tem uma voz própria, uma música própria.

Mas quando eu digo existência é porque se inclui aí um mistério, que é um mistério profundo, que só pertence ao homem, que é a consciência. A alma, a especulação, a ideia do existir e do não existir. Se nós colocamos só como natureza, corremos o risco de não contemplar essa dimensão do mistério da vida.

 

Quando é que teve noção disso?

Logo cedo. Comecei a ter especulação filosófica aos sete, oito anos.

 

A sua parceira de conversa e especulação filosófica era a sua irmã?

Muito eu mesmo.

 

Era um menino solitário?

Era. Gostava de estar sozinho, brincar sozinho. Até porque era só uma irmã, e ela era mulher; diferente portanto. Eu tive de criar meu próprio mundo. Como a minha avó foi incumbida da minha formação, e ela já era velha, e eu era como um filho para ela, ela tendia a me proteger do mundo, a incentivar um certo isolamento. «Fique sozinho, é bom. Cresça você mesmo, sozinho». Então eu tive desde cedo gosto pela introspecção, pela solidão criativa, pela solidão entretida com pequenos afazeres, com a observação. Muita contemplação, muita capacidade de meditação.

 

Como é que um menino introvertido passa à situação de extroversão que é estar em cima de um palco?

Foi um parto a fórceps. Até hoje é um mistério para mim. Não sei como consegui. Me lembro bem que, quando estava a estudar acordeão, com os meus 12, 13 anos, me sentava numa sala escura que raramente era aberta. Eu ficava lá quase todas as noites. Se por exemplo chegava uma visita e minha tia ou minha avó pediam: «Toque alguma coisa para a visita ouvir», aquilo era uma tortura. Eu não gostava. Gostava de tocar para mim.

 

Tocar para as visitas foi o seu primeiro parto.

Foi. O primeiro parto nessa existência de uma audiência.

 

A noção de que existe uma audiência implica a consciência de que existimos para outros, e que o outro gosta ou não gosta, aplaude ou não.

E isso era tormentoso para mim. Na festa de formatura (eu me formei em acordeonista, tive um diploma), tive que me apresentar para um auditório, aí já num teatro.

 

Segundo parto.

Terrível. Eu tive febre. E quase que inconsciência. Fiz aquilo num estado de torpor mental, provocado por aquela agonia. Isso perdurou durante muito tempo.

 

Quando se apresentou pela primeira vez na televisão, ainda trabalhava numa multinacional, dando uso ao seu curso de administração de empresas. Esse emprego era uma espécie de âncora para si?

Era, uma âncora psicológica.

 

Porque é que era tão inseguro? Ainda não compreendi.

Porque eu sou assim. Código genético, tendências inatas. Claro que a vida adulta e a experiência vão modificando as coisas.

 

As mulheres que o rodeavam apoiavam o seu desejo de ser músico?

Minha mãe. Ela me fez. Ela guardou na memória aquela minha declaração dos dois anos de idade. «Eu quero ser musgueiro». Na verdade isso já configurava o quê? Um cuidado de mãe com a vida futura do filho. Era ela cumprindo as suas funções de mãe, cuidando do filho.

 

Como um anjo que vela.

E aos dez anos, quando fui para a cidade, ela me disse: «Você quer ser músico, vá para a escola de música. Você gosta do Luiz Gonzaga, da sanfona dele. Tem uma escola de acordeão recém fundada. Você não quer estudar acordeão? Vou-lhe comprar um acordeão e vou-lhe pôr na escola de acordeão. Está bem assim?». E eu disse: «Está bem». Quando completei 18 anos, ela me ouvia escutando Bossa Nova; quando comecei a escutar João Gilberto, ela – que já estava longe de mim há 8 anos –, me disse assim: «Eu vejo você interessado por essas músicas que têm esse violão tão forte, tão nítido, tão especial. Você não quer estudar violão?»

 

Ainda ela a insistir no seu sonho.

Ainda ela. Num dia de sábado me deu o dinheiro e disse: «Vá comprar um violão para você».

 

E tentou comprar um violão o mais parecido possível com o de João Gilberto?

Foi.

 

Queria ser o João Gilberto, nessa altura?

Queria. Queria ser muitos. Queria ser o Luiz Gonzaga, queria ser Dorival Caymmi, queria ser todos. Ainda hoje quero. O menos que eu quero ser sou eu mesmo.

 

Está a fazer género?

Não estou. Não tenho uma ambição autoral. Nunca tive uma vontade de criar meu próprio género musical. Quis sempre ser um bom reprodutor dos géneros amados, queridos por mim. Sempre quis imitá-los a todos, aos meus ídolos, mimetizá-los. Sempre gostei da ideia de que pudessem ouvir na minha música todos os outros. Minha capacidade de dizer: «Olha como eu ouço. Olha como meu coração guarda todas as músicas do mundo». E nunca tive vontade de invenção.

 

É uma existência sincrética. E «sincrética» é uma palavra que aparece no seu discurso de tomada de posse, assente como preocupação ministerial. Ao cabo de todos estes anos de carreira, continua a achar que não há uma marca autoral?

Os outros acham. A eles a incumbência de encontrar essa marca. A mim o deleite da música que me entra pelo coração. Não sou autor. Sou músico.

 

Significa que o seu modo de expressar o mundo através da música açambarca uma gama de géneros, de pessoas, de influências?

É isso. Daí que hoje eu sou reconhecido como um ecléctico, como criador e como intérprete.

 

Gosta desse epíteto?

Gosto. Faz jus à minha natureza.

 

Quando começou a apresentar-se, ainda antes da Tropicália, tocava o seu violão e vestia fato e gravata. Um terno, como no Brasil se diz, é uma moldura que confina o indivíduo ao seu corpo, não o deixa espraiar-se. Sentia-se confortável aparecendo desse modo?

Eu usava ternos e gravatas durante o dia. Quando fiz a minha estreia como artista nacional, na televisão, no disco, eu trabalhava na Lever como executivo. Saía todos os finais de tarde do meu escritório para ir viver as vivências musicais, de terno e gravata, de pasta na mão. Vários dos meus colegas se referem a isso até hoje. «Gil chegando no Redondo com seu terno, sua gravata, sua pastinha na mão!». O Redondo era um bar em São Paulo onde se reuniam muitos músicos.

 

Mas sentia-se confortável ou não?

Sentia. Eu era...

 

«Quadrado»? Porque dizem que era «quadrado».

Era quadrado. A família tinha-me programado, ou pelo menos pretendeu ter-me programado, para ser um doutor.

 

Eles sentem orgulho em si, vendo-o investido destas funções?

Sentem. Meu pai já não, porque já não vive. Não sei se onde está – se é que há um estar para ele em algum lugar hoje – gosta de me ver ministro. Mas a minha mãe agora no Carnaval me disse: «O seu pai estaria tão orgulhoso. Tão contente. Só me lembrava do seu pai, quando você foi chamado para ser ministro». O Caetano escreveu uma carta onde diz isso: «O facto de o Gil ter desejado ser ministro, ter aceite ser ministro, tem muito a ver com o pai dele. É ele querendo isso para o pai dele». E é. Óbvio. Claro que é.

 

Quando estava a ler o discurso de tomada de posse, em que coisas pensou?

Será que pensei alguma coisa de que posso ter memória hoje? Não. Pensava nisso tudo que estou conversando com você. Pensava na existência, no porquê. Porque é que estava ali, todas as coisas que tinham-me levado àquele momento, àquele lugar, a estar ali tomando posse no ministério. A família, as primeiras comunidades da minha vida... Se fosse possível fazer um condensado dessa coisa que eu estava pensando naquela hora, estava pensando na minha vida. Toda.

 

Não é tão inesperado assim que tenha sido convidado e aceite ser ministro. Se pensarmos na intenção da Tropicália ou numa coisa fundamental na sua vida, que tem que ver com a identificação da raça, com o papel dos negros no Brasil, subjacente a todo o percurso há o desejo de acolher pessoas.

Mas o que é o ministério senão um lugar de acolhimento?

 

Um ministro é aquele que serve, segundo a raiz etimológica.

Ministrar. Num sentido até religioso: aquele que ministra os sacramentos.

 

Também tinha essa sensação de ministrar, e portanto servir, quando era apenas um músico?

Sim. «Subo nesse palco, a minha alma cheira a talco, como um bumbum de bebé». Essa canção fala disso, do sacerdócio da música, de ministrar o bálsamo da canção para os outros. Sempre tive essa dimensão, do ministro religioso. E antes de ser ministro, já sou ministro de Xangô.

 

Explique-me quem é Xangô.

É um Orixá do panteon.

 

Descobriu o candomblé já adulto, disseram-lhe que é iluminado por Xangô.

Significa que eu sou um descendente de negros africanos que trouxeram para o Brasil suas religiões panteístas. Num desses panteões, o panteon Iurubá, (a etnia Iurubá está distribuída entre a Nigéria e o Benim), tem entre eles um dos seus deuses importantes, deus da Justiça, que é xangô. Eu sou um descendente.

 

Gosta de ser um descendente do deus da Justiça?

Gosto.

 

Mais do que qualquer outro deus?

Não necessariamente, mas me regozijo com a minha ancestralidade.

 

Mas que importância tem isso na sua vida? Teve uma formação católica e ainda menino pôs de lado esses ensinamentos da Igreja de Roma; já adulto, descobriu o candomblé.

E não só o candomblé. O budismo, o vedanta, várias... Especialmente as religiões orientais.

 

Qual é a presença que a religião tem na sua vida?

Muito grande. Nunca me senti mal com a sensação da transcendência.

 

Nunca teve a imagem do Deus punitivo que a Igreja Católica instiga?

Essa era uma prótese imposta pelo convencionalismo religioso ao meu redor. O meu sentimento religioso sempre foi de abraço com a divindade, abraço profundo e fraterno. Ao longo da vida fui separando o sentimento religioso dessa questão da institucionalidade. Eu tenho uma religião como vida. E portanto com tudo: com os códigos mas também com o caos, com a liberdade absoluta.

 

Uma unidade na diversidade.

Um macrocosmos num microcosmos. O cosmos e o caos. Foi a isso que cheguei.

 

Chegou em que momento da sua vida?

Foi há pouco. Foi ontem, foi hoje. É agora. Está a ser.

 

Gostava de o ouvir sobre a Tropicália, sobre o que o movimento representou. Foi uma nova fase na sua vida, que cortou com o «Gil quadrado» e inaugurou uma fase quase de desbunda.

Foi. Coincidiu com umas experiências psicadélicas, de expansão de estados de consciência para transbordo de limites, derramamento, extensionalidade, diálogo intenso entre verticalidade e horizontalidade... Caí na farra, caí na gandaia.

 

O que seria diferente em si se não tivesse conhecido Caetano Veloso, que fez consigo a Tropicália?

Essa é uma pergunta que continuo a me fazer. E para a qual tento várias respostas. Em resumo, respondo sempre da seguinte forma: teria sido um músico bem mais simples do que sou. Tenho a impressão que a presença do Caetano na minha vida chamou a atenção para a complexidade como elemento essencial da constituição da expressão. E eu busquei. Caetano trouxe a curiosidade em relação ao complexo.

 

Ele libertou-o?

É. Se ele não tivesse aparecido na minha vida, talvez eu tivesse ficado com uma visão religiosa mais estreita, com uma visão estética mais estreita, com uma visão moral mais estreita. Caetano deu facilidade de expansão à minha vida, à minha existência.

 

Foi uma espécie de irmão homem?

É o irmão que eu não tive. E não é só um irmão homem. É o irmão mais velho, o mais sábio.

 

Curiosamente ele é que é o da desbunda. Isso de ele ser o irmão mais velho é uma novidade...

Mas essas coisas são novidade o tempo todo, mesmo para mim. São graus, camadas de conhecimento, de compreensão sobre o passado, sobre as minhas relações com as pessoas que vão chegando e vão-se sobrepondo ao longo dos tempos. Várias coisas que estou falando aqui sobre Caetano e sobre mim, eu nunca disse antes. São essa complementação constante do significado da vida, do significado da origem das coisas. Eu gosto disso. Gosto de uma coisa que só tenho começado a compreender agora, nos últimos tempos da minha vida, que é a mudança.

 

Mudança?

Nada está pronto. Não há referências que possam ser eregidas como definidoras do seu presente ou do seu futuro. Não há códigos. O que há sempre é flutuações do caos. A ordem é uma flutuação do caos, efémera, passageira. Não há ordens perenes, permanentes. Nesse sentido, não há modelos. Há sempre mudança, mudança, mudança.

 

Mas há sempre uma coisa, que é a memória.

É, mas até ela muda muito. Porque as interpretações que fazemos do passado, dos factos, das vivências, daquilo que gravou-se em forma de sentimento ou de pensamento, até as reinterpretações a cada instante são novas. Não há memória, nesse sentido de que a memória está aqui dessa forma. A memória é como a própria vida. Ela também é mudança.

 

 

Publicado originalmente no DNA do Diário de Notícias em 2003

 

 

Curso de Cultura Geral - 4 Mar 2018

07.03.18

Há um aforismo famoso de Picasso que diz: eu não procuro, eu encontro. Quando falamos de cultura, é interessante pensar nos encontros que vamos tendo, nos que se revelam determinantes, nos que desencadeiam novas procuras e novos encontros. Mas isto implica uma disponibilidade para o que se encontra, implica não estar cego numa específica procura, uma abertura ao novo, ao estranho, ao diferente, até àquilo de que não gostamos. Com os convidados desta emissão vou falar de procuras e encontros, de um mapa que vai sendo trilhado.

Vou falar com João Pinto Coelho, que se formou em arquitectura, é professor numa escola secundária em Trás os Montes, e é escritor; o seu primeiro livro Perguntem a Sarah Gross foi considerado um dos melhores livros do ano em 2016; com Os Loucos da Rua Mazur ganhou o último prémio Leya.

Helena Vasconcelos é crítica literária, coordena a comunidade de leitores da Culturgest, a sua estreia na ficção aconteceu com um livro de tributo a Jane Austen, Não Há Tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas Que os Mereçam.

Luís Barreiros é diplomata, viveu em Nova Iorque, Boston, Maputo, Bagdad, Zagreb, Havana. Com a mãe aprendeu a gostar de ler, nas colónias de férias em França e na escola em Inglaterra aprendeu as línguas dos outros, e os conhecimentos que estas transmitem.

 

A lista de Helena Vasconcelos, crítica literária

  1. A Ilíada e a Odisseia sempre;
  2. Autores: Shakespeare, Camões, Cervantes;
  3. Autoras: Jane Austen, Virginia Woolf, Toni Morrison;
  4. A Viagem - O Mar;
  5. Museus: percorrê-los e almoçar ou tomar chá nas cafetarias;
  6. Música: Hildegard von Bingen, Canticles of Ecstasy, John Coltrane, Love Supreme;
  7. Países: Índia e Moçambique; cidade: Nova Iorque;
  8. Direitos Humanos e dos Animais: sem a sua defesa, sem condições de vida, não existe cultura;
  9. Emoções fortes: ver os Caravaggio na Igreja de S. Luís dos Franceses em Roma, os Tiepolo (frescos em Würzburg e em Veneza);
  10. Estar no Festival de Teatro Clássico - Oresteia - em Siracusa, 2008.

 

A lista de João Pinto Coelho, escritor e professor

  1. A Casa Koshino - Tadao Ando;
  2. Rigoletto (Ah, veglia, o donna, questo fiore) Acto I - Giuseppe Verdi, Francesco Maria Piave (libreto);
  3. Traviata de Lisboa, Teatro S. Carlos, 1958 - Giuseppe Verdi, Francesco Maria Piave (libreto);
  4. Logicomix - Apostolos Doxiadis, Christos Papadimitriou, Alecos Papadatos, Annie Di Donna;
  5. Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez;
  6. Se Isto é Um Homem – Primo Levi;
  7. As árvores de Birkenau;
  8. O meu encontro com Querubim Lapa;
  9. Shoah - Claude Lanzmann;
  10. Nuit et Brouillard - Alain Resnais.

 

A lista de Luís Barreiros, embaixador

  1. Dos livros que me eram lidos pela minha Mãe ao leitor ávido em que me tornei;
  2. As biografias para jovens (David Crockett ou Madame Curie) e
    Emilio Salgari. As obras completas de Júlio Diniz, integralmente
    lidas nos primeiros anos do liceu e nunca mais tocadas;
  3. A revista "Tintin”. A banda desenhada de Hergé e Hugo Pratt;
  4. As colónias de férias em França, a escola em Inglaterra: a
    aprendizagem de outras línguas e conhecimentos de "outros";
  5. A música clássica da infância a que voltei mais tarde; a
    descoberta da ópera. Os três Bs alemães (Bach, Beethoven e Brahms), os 2 Vs italianos (Vivaldi e Verdi), os Ms de Mozart e Monteverdi;
  6. Elvis Presley, Beatles e Rolling Stones, Simon & Garfunkel (o fabuloso "Bookends"). Leonard Cohen, Chico Buarque, José Mário Branco e Sérgio O Free jazz, os trios de piano (jazz). A Christina Pluhar e L'Arpeggiata;
  7. A incapacidade de desenhar duas linhas paralelas e a exposição
    "100 anos de pintura francesa": o deslumbramento com a pintura;
  8. Os anos 60, a contra-cultura americana, Jack Kerouac e On the Road;
  9. Marguerite Yourcenar;
  10. Maio de ’68 e o 25 de Abril.

 

(Quase) Toda uma Vida - Maria Teresa Horta

01.03.18


Poesia, insubmissão, luta. Nestas palavras está Maria Teresa Horta, poetisa, escritora, jornalista. É uma das Três Marias que escreveram as Novas Cartas Portuguesas (1972), que se empenharam na defesa dos direitos das mulheres e foram perseguidas por isso. Cresceu num mundo em que «as mulheres nem sabiam que tinham direito a ter voz». Por ser mulher, pôde exercer o direito de voto, apenas, e pela primeira vez, depois do 25 de Abril. 
Foi militante do Partido Comunista, tem, desde sempre, um discurso político categórico, um olhar que não condescende com os atropelos à democracia. 
A sua obra poética e em prosa é imensa, admirada, inclui títulos tão marcantes quanto Minha Senhora de Mim (1967) e As Luzes de Leonor (2011).
Nasceu em 1937.

Falo com ela no pequeno auditório do CCB, domingo, dia 11 de Março, às 17h.  
(Quase) Toda uma Vida é um ciclo de grandes entrevistas de vida a personalidades diversas, conhecidas e marcantes da vida portuguesa no último século.