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Anabela Mota Ribeiro

Beatriz Batarda e Luís Miguel Cintra

27.03.18

“Qual é a qualidade que mais aprecio num actor? A generosidade. Consiste no gosto de se expor, correr riscos, estar aberto a outras pessoas. É precisar deixar que lhe aconteçam coisas. Quando partimos para a profissão com a intenção de ser admirados, não estamos abertos à surpresa, à curiosidade, à generosidade da profissão e da vida”. Luís Miguel Cintra não disse isto a propósito de Beatriz Batarda, mas poderia ser.

Os dois encontram-se em Setembro, na Cornucópia, na peça encenada por ele e protagonizada por ela: “Ifigénia na Táurida”, de Goethe.

Batarda entrega-se com generosidade. Cintra está disposto a correr riscos. Mais do que tudo, é um reencontro de dois cúmplices.   

 

Porque é que decidiu encenar “Ifigénia na Táurida”?

LMC - Por sugestão do Frederico Lourenço, que fez a recriação poética do texto. Em Goethe, sente-se um profundo repensar do que é o Ser humano, o que é a Liberdade, o que são as relações do Homens uns com os outros, os Valores. Isso faz do texto uma obra apaixonante.

 

Algures na peça pode ler-se: Ifigénia teve a ousadia de determinar o seu destino.

LMC – Era um papel ideal para a Beatriz. Há nela uma aparente fragilidade física que convém à Ifigénia, mas sobretudo um domínio das nuances da alma humana e da representação indispensáveis à personagem. Na peça, tudo assenta no que se passa na alma de cinco personagens, e sobretudo em Ifigénia. Não há grandes façanhas de encenação, cenografia, etc. É um espectáculo de câmara. A única ideia que eu tinha era: despojamento máximo, verdade total na relação com o texto, ausência de exposição [do actor].

 

Porque é que Ifigénia é desafiante para si?

BB – Certas personagens aparecem na minha vida na altura certa. O que me tem permitido fazer uma viagem de descoberta e crescimento, que não acabou ainda. Aconteceram muitas coisas no último ano na minha relação com a profissão. Aconteceu ao nível da técnica, do exorcizar do meu narcisismo. Cheguei a um momento em que aceito as minhas fragilidades. É bom que a técnica seja dominada, mas ela é apenas um instrumento.

 

A ideia é: dominar a técnica para a seguir a esquecer?

BB - Dominar a técnica torna-se o objecto da nossa obsessão e do nosso esforço. Fica uma coisa muito cerebral, fechada sobre o domínio do texto, da interpretação, da relação com o público. Tem um efeito contrário: contribui para a minha desumanização. Porque o público não se reconhece, não reconhece a sua própria humanidade. Faz comentários à habilidade da actriz, ao fogo-de-artifício, mas não sente nada. Quando percebi que isso me estava a acontecer fiquei triste, porque não é essa a minha viagem.

 

Pode explicar essa constatação, esse processo?

BB – Começou com “O Construtor Solness”, depois “De Homem para Homem”, e finalmente com “A Menina Júlia”. Houve um mergulho que foi um equívoco. Quando surge uma peça cujo tema é: quem é que domina?, os deuses, o destino, nós próprios?, a quem cabe a decisão?…, isso tem um efeito redentor na minha relação com a representação. Como sacerdotisa de Diana [na peça de Goethe], tenho de entrar em contacto com a minha humildade, e assim descobrir a minha humanidade.   

 

Quando é que começa a vossa relação?

LMC – A Beatriz esteve na Cornucópia há muitos anos. Eu funcionava como um protector. Sentia uma diferença de idades muito grande; era como se estivesse a tomar conta dela. Depois, foi-se embora, estudar, fazer outras coisas. O “Solness” marcou o regresso, e senti o prazer de contracenar com uma pessoa agora adulta. Estávamos em situação de igualdade. Há uma evolução da minha relação com ela através do trabalho, dos nossos encontros no trabalho.

 

Quando é que o Luís Miguel deixou de ser “a referência” para passar a ser um igual? Costuma dizer que ele é o culpado disto tudo…

BB – O Luís Miguel há-de ser sempre o culpado… [risos] Continua a ser o mesmo para mim. O nosso percurso tem sido uma permanente confirmação. No nosso primeiro encontro eu era muito jovem, tinha 17 anos. Fiz de filha dele, várias vezes seguidas. Numa altura em que também perdi o meu padrasto. Essas coisas todas misturam-se…

 

Ele apareceu como um pai putativo? Artístico.

BB – Sim, um pai da idade adulta. Que não tem a ver com o sangue e a raiz, mas com aquilo que escolhemos. Tem a ver com reconhecimento, identificação, admiração. Com o que poderia ser um percurso para mim. É verdade que em todas as escolhas que fiz, e que faço, profissionalmente, penso no que me faz sentido a mim, mas penso sempre no que o Luís Miguel diria. Apesar de não ter trabalhado cá durante dez anos, a relação não se quebrou. O “Solness” foi muito importante porque o Luís Miguel permitiu-me que eu fosse adulta. [LMC ri]. Só me foi possível contracenar com ele – e só Deus sabe as dores que tive no meu diafragma – porque o Luís Miguel me deu essa autorização.

 

É uma maneira de ele lhe dizer que tem confiança em si?

BB – É uma maneira de dizer: reconheço-te.

LMC – Há muitas coisas que facilitam o nosso entendimento. Há referências culturais e um passado comuns, há amizades de família.

BB – A nossa relação é uma escolha.

 

Como é que tudo começou?

LMC – Conheci a Beatriz como filha do Eduardo Batarda e da Tchou. Reencontrei-a num filme do Manoel de Oliveira. No “Vale Abraão”, superficialmente. N’“A Caixa”, todos os dias. E disse: “Mas esta menina é uma actriz!, tenho a certeza”. Pelo prazer da contracena. Foi daí que saltou o convite para integrar a companhia [Cornucópia]. Além de que era linda!, e continua a ser. A primeira coisa que fez connosco foi o “Conto de Inverno”; toda a gente dizia que era muito bonita mas que nunca poderia ser actriz porque não tinha voz nem presença! Ela deu-me o prazer de os dois nos podermos vingar dessas pessoas. Houve ali uma teimosia…, eu sabia que tinha razão.

 

Que coisa foi essa que reconheceu na Beatriz, além do prazer na contracena? O que respondia aos outros quando lhe diziam que ela não poderia ser actriz?

LMC – Dizia: “Pode, pode, isso não tem importância nenhuma. A voz está pouco desenvolvida, tem falta de segurança. Mas o principal para se reconhecer um actor não é isso. Não são as habilitações técnicas. Isso conquista-se. O principal está no fundo da pessoa.

BB – Tem a ver com a alma.

LMC – O principal é esse prazer de jogar com os outros, provocar, receber resposta. É arranjar maneiras de continuar a fazer o que as crianças fazem – brincar umas com as outras. 

 

Não por acaso, em inglês, brincar, jogar e representar dizem-se da mesma maneira: play.

BB – Hoje em dia dou aulas [na Act] e confronto-me diariamente com isso: como é que se reconhece um potencial actor? A questão do talento pode ser um enorme equívoco. O que parece ser um talento nato, à vontade com o seu corpo, expansivo, não ter timidez a projectar a voz…, isso não faz um actor. Acontece-me ver miúdos reservados, tímidos, mas densos como seres humanos. Intuitivamente chamam-me mais a atenção esses alunos. 

 

Quando foi estudar para Londres, mais do que tudo, teve consciência de si própria, das suas ferramentas, potencialidades?

BB – Sei lá!, aconteceu tanta coisa. Só a experiência de cortar com os nossos laços, os fantasmas, o ser obrigada a sair do casulo burguês para ser confrontada com o mundo, esse embate levanta tantas questões sobre a nossa identidade... Tive medo. Pensei em voltar – como toda a gente. Só que obriguei-me a assumir a escolha que tinha feito. Estar ali tinha sido uma escolha.

 

Os vossos processos de trabalho são semelhantes?

LMC – Eu não consigo representar enquanto não tiver a certeza absoluta do que lá está escrito, depois de todas as dúvidas estarem solucionadas. Desespero os colegas, estou até à última sem saber o texto bem. É como se precisasse de muito tempo para pensar. A Beatriz precisa de um compromisso emotivo imediato. E depois pensa sobre ele. Pouco depois de sairmos da mesa [de leitura], eu vi a cara da Ifigénia! – não era a cara da Beatriz. Depois trabalha, trabalha, mas o compromisso está lá. Significa também que se atira de cabeça, sem defesas!

BB – Pareço uma maluquinha! [risos] Funciono por camadas. Como um óleo que vamos pintando. Para chegar ao efeito do despojamento. 

 

 

Publicado originalmente na Revista Máxima em 2009

 

 

Vinicius de Moraes (p/ filha Suzana)

21.03.18

Produziu frases tão extraordinárias quanto: "Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido” ou "Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval”. E outras, menos amorosas: "O uísque é o melhor amigo do homem, ele é o cachorro engarrafado” ou “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. São boutades que constam das enciclopédicas, múltiplas, e que condizem com as histórias de trazer por casa. Histórias como esta: “Inteiramente bêbado, Tom Jobim se vira para Vinícius de Moraes: "Chega uma hora em que as mulheres quebram as garrafas de uísque. A minha quebrou duas ontem, na pia. Mas não adianta. A gente vai e compra outras."

Ambas definem Vinícius de Moares como um personagem excessivo, vibrante, em permanente estado de exaltação. Segundo Carlos Drummond de Andrade, «Vinícius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural».

Viveu intensamente, desdobrou-se em papéis vários. Foi diplomata, bolseiro em Oxford, crítico de cinema e aluno de Orson Welles, conhecedor profundo de jazz americano, amigo de Ava Gardner (quando foram apresentados, ela terá dito: «Sou extremamente bonita, mas moralmente cheiro mal!»). E foi, sobretudo, poeta iluminado: «De manhã escureço/ de dia tardo/ de tarde anoiteço/ de noite ardo»; e mentor da Bossa Nova, com António Carlos Jobim e João Gilberto. Foi ele que escreveu: «Olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça...», imortalizando certa garota de Ipanema que ele e o amigo Tom viam passar quanto tomavam cerveja.

Vinícius de Moraes foi um amante da vida. Casou nove vezes. Teve cinco filhos.  Oriundo de uma família tradicional carioca, teve uma existência errante. Cidadão do mundo, passeou-se e viveu entre a Europa e a América do norte e do sul. Publicou prolixamente; em Portugal, entre os livros disponíveis, consta uma antologia da sua obra poética, editada pela D.Quixote, e revista pelo próprio.

A discografia é extensa; são memoráveis as suas gravações com Edu Lobo, Chico Buarque, Toquinho e, especialmente, Tom Jobim. Consta que nasceu numa noite de temporal, em 1913, num bairro do Rio de Janeiro. Morreu há 25 anos.

Sabia que «Tristeza não tem fim, felicidade sim».

Susana Moraes é a sua filha mais velha, nascida do primeiro casamento. É cineasta, vive no Rio de Janeiro, tem 65 anos. Traça de Vinícius, figura da cultura brasileira e do mundo, um retrato fervilhante. Mas quando o recupera enquanto pai, sente a falta da sua companhia. Chamava-lhe «Darling». É co-produtora do documentário “Vinícius de Moraes - Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores", que estreia em Outubro, no Brasil. 

 

Paixão é a palavra exacta para uma primeira aproximação a Vinícius de Moraes?

Paixão é a palavra chave. Sendo que a paixão, em Vinícius, tomava a forma de busca e de transformação. Ele estava sempre atrás, não só nas relações amorosas, mas um pouco em tudo o que fez na vida. No filme de Miguel Faria, que eu co-produzi, o Edu Lobo fala uma coisa bem interessante: quando Vinícius se empenhava numa coisa e aquela coisa estava na crista da onda, ele passava adiante. Edu falava particularmente da participação dele na Bossa Nova e em como isso se desenvolveu numa pós-Bossa Nova _ na parceria dele com Baden [Powel] e na composição dos afro-sambas, que são completamente diferentes do trabalho que tinha feito no começo da Bossa Nova.

 

Onda radica essa insatisfação permanente, de que essa busca desenfreada é expressão?

Esse traço na personalidade dele é resultado de muitas coisas. Em Vinícius houve desde cedo a ambição de fazer coisas, e uma coragem, existencial e como artista, de ir rompendo... E isso mudou muito pela vida fora. Ele começou um poeta místico, influenciado pela formação católica, depois virou um homem de esquerda e passou fazendo o contrário do que tinha feito até então. Transformou-se num poeta do quotidiano, do amor.

 

Quais foram as revoluções que rasgaram caminhos? O que é desencadou cada mudança? Os encontros com pessoas?

Vinícius era uma pessoa extremamente permeável e com muita vontade de entender o que estava a acontecer no momento. Sempre se interessou pelos novos discursos, pelas novas coisas que estavam acontecendo.

 

Esse interesse pelo novo e pela juventude, pelo que é palpitante e contraria o que vem de trás, era sintomático de uma instabilidade ou mesmo imaturidade?

Provavelmente tem componentes disso. Há componentes disso em qualquer grande poeta. São sempre um pouco infantis e instáveis. Infantis no sentido de não quererem se estratificar, de estarem sempre querendo uma síntese maior, uma compreensão maior. Vinícius era muito ambicioso. Em relação a tudo. Por exemplo, ele teve uma relação longa com o cinema, foi crítico de cinema, foi amigo de cineastas.

 

O primeiro posto dele como diplomata foi em Los Angeles. Ele, que já tinha estado na Europa, em Oxford, a estudar, sentia a América do norte como o centro do mundo? Foi por isso que ele a escolheu?

Certamente que a paixão dele pelo cinema contribuiu para isso. Fora uma relação muito profunda que ele estabeleceu com a música negra americana. Na minha casa, quando eu era criança, só se ouvia jazz, ele era um conaisseur. Fomos várias vezes a New Orleans, porque ele queria ouvir fulano ou sicrano que ia tocar.

 

Mas de onde vem o interesse tão sério pela música negra num branco filho de brancos?

Na formação dele, a cultura negra brasileira foi importantíssima_ essa coisa do quintal, das empregadas, do cavaquinho e do samba. Era uma pequena classe média carioca, ligada à música popular. O lado da família da mãe eram uns boémios, meio malucos! Ele tinha um tio, Henriquinho, engraçadíssimo, que era delegado de polícia, e que foi expulso porque fazia roda de samba na cadeia com as prostitutas!

 

É extraordinário que um homem nascido numa família com essas características tenha enveredado pela diplomacia. Representa uma ascensão social notória. Ele procurava transcender-se socialmente?

Em Vinícius sempre tem um lado popular e um outro lado, que é o da família do pai, ligado à cultura erudita. A peça “Orfeu da Conceição” é a maior síntese disso. O pai era muito culto, poeta convencional, que nunca publicou mas que conhecia literatura francesa, latim, professor de violino... Essas duas vertentes caminham em paralelo.

 

Então, não é estranho que tenha sido também diplomata?

Ele foi ser diplomata depois que eu nasci. Quando voltou de Oxford com a minha mãe, era muito pobre. Ser diplomata era um costume no Brasil. Poetas como João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, eram diplomatas. Era bom para um escritor porque oferecia uma vida materialmente confortável, viajava e dava tempo para escrever. É claro que outras profissões seriam possíveis. Eu acho que há um desejo de ascensão social, sim. Ele casou com minha mãe, por exemplo, que era uma moça rica, de uma família “aristocrática” de S. Paulo.

 

Casou nove vezes.

É verdade.

 

Há uma conversa famosa entre ele e Tom Jobim. Jobim pergunta: «Quantas vezes você vai casar?», e ele respondeu: «As vezes que forem necessárias». Porque é que acha que ele casou tantas vezes?

Porque precisava da chama da paixão, do começo de um amor. Isso alimentava-o de alguma forma. Estou super-simplificando, mas a razão mais óbvia me parece essa.

 

O que é que o fazia desapaixonar-se? Possuir o objecto desejado, fosse ele qual fosse?

A paixão, como toda a gente sabe, tem um tempo dentro de uma relação amorosa, que pode desenvolver-se e virar outra coisa. Ele não tinha essa capacidade. Ele precisava daquele primeiro momento do amor.

 

Era muito seguro de si, do seu poder de sedução?

Tinha muita confiança nele mesmo e tinha um real prazer em relação às pessoas. Tinha uma paciência... Por exemplo: aluno que vinha entrevistá-lo e que ele recebia... Era muito democrático, e muito sedutor.

 

Sedutor como?

Porque, realmente, ele interessava-se, ele ouvia o que as pessoas tinham a dizer, e achava graça. E isso passa, as pessoas sentem isso. Ele tinha um jeito de ser muito simples, muito directo que desarmava as pessoas. Muito humor, também, muito engraçado.

 

Era um hedonista? É fácil olhar para ele como alguém que vivia plenamente a vida e não conseguia deixar de procurar o prazer, as várias formas do prazer.

Totalmente. Já com 50 e tantos anos ele ficou diabético, diabetes adquirida_ coisa característica de quem come errado, bebe demais, essas coisas. Soit disant, ele fazia regime. Mas, numa época em que morei com ele, descobri os óculos dentro da geladeira! Ele descia de noite, comia indisciplinadamente tudo o que não podia comer e esquecia os óculos dentro da geladeira!

 

Era absolutamente indomável...

Indomável, ah, indomável... Nada, a não ser a vontade dele, o segurava. Tanto que, (tem essa história), quando saía dos casamentos, saía com a escova de dentes. Deixava tudo, não queria nem saber. E quando casava de novo, montava outra casa.

 

Com o mesmo empenho?

O mesmo empenho.

 

A acreditar: desta vez é que vai ser?

Bom, não sei se com o passar dos casamentos ele acreditava assim tanto... Mas, que eu tivesse visto, nunca teve uma posição céptica em relação ao amor.

 

Imagino que não ligasse qualquer importância às convenções sociais...

Realmente, ele mudou padrões de comportamento. Em relação à mulher, o discurso era revolucionário_ não tem outra palavra_ para a época. Que as mulheres largassem os maridos que elas achassem chatos, que fossem em busca do seu próprio prazer e existência... Falava essas coisas, e eu acho que é uma das razões porque as mulheres adoravam tanto ele.

 

Dava-se com homens e com mulheres?

Dizia que gostava muito mais da companhia de mulher do que de homem, que as percepções e as conversas das mulheres lhe interessavam muito mais do que as dos homens_ se bem que tivesse muitos amigos homens.

 

Quando acedemos ao site oficial de Vinícius, assistimos ao desdobrar de um biombo, que é um modo, também, de apresentar as suas múltiplas facetas. Ele era uma figura poliédrica, tinha sucessivas faces. Não podemos concentrar-nos apenas numa face?

Não pode mesmo. Tem uma essência, claro...

 

E qual é? O que é dominante?

A essência é essa necessidade de mudança, de estar em busca. No filme, Miguel Faria pergunta a Chico Buarque se ele achava que Vinícius era feliz. Chico diz assim: «Ele estava sempre à procura da felicidade». Mas quando você está à procura, já está compreendido que a felicidade não está ali onde você está. Ela está sempre um pouquinho adiante, um pouquinho para o lado. Essa angústia..., de sempre estar a ver ali adiante... Isso é o mais essencial em Vinícius, em todos os sentidos: na vida amorosa, na vida profissional, na relação dele com o mundo.

 

Então, a sua resposta coincidiria com a do Chico Buarque?

Ah, sim. Chico conhecia ele bem, e ele conhecia Chico desde pequenininho. Pai de Chico, Sérgio Buarque de Hollanda, era muito amigo dele.

 

Depois, há esse lado incrível. Ele deu-se com pessoas do mundo inteiro, ao longo de décadas. Sérgio Burque de Hollanda, Ava Gardner, Orson Welles, Carmen Miranda, Pablo Neruda. E dava-se indiscriminadamente?

Bem indiscriminadamente, sim. Interessava-se por uma gama extensa de pessoas. Não se dava só com intelectuais.

 

Do que é que ele gostava mais nas pessoas? O que é que lhe provocava enamoramento?

Ele era muito sensível à integridade_ da pessoa ser ela mesma_, e dava muito valor à generosidade.

 

A imagem que tem dele, enquanto pai, é coincidente com o retrato deste Vinícius contado na terceita pessoa?

Para mim, não era bem assim. Durante a minha infância e adolescência, Vinícius não era muito conhecido. Passou a ser conhecido e uma pessoa tão pública depois que foi trabalhar com Tom Jobim e a Bossa Nova. Antes disso, era um poeta e diplomata, conhecido de um grupo relativamente pequeno de gente.

 

Via-o como?

Quando fomos morar nos Estados Unidos, as pessoas perguntavam o que é que o meu pai fazia; e das vezes em que disse: “poeta”, aquilo causava um estranhamento. Poeta? Passei a omitir esse facto e a dizer que ele era diplomata. Eu adorava-o. Éramos muitos próximos. Tínhamos uma relação constante. Sinto falta da companhia dele.

 

Quando pensa nele, recupera-o nos momentos de intimidade?

Sim, penso no pai. E agora, muito mais velha, fiquei um pouco com a responsabilidade de cuidar das coisas dele_ eu nem queria, aliás, mas não tinha outro jeito. Então, passei a pensar nele como uma pessoa dentro da cultura brasileira e do mundo.

 

Foi aí que se habituou a falar dele na terceira pessoa? É que não se refere a ele como «o meu pai».

Habituei-me a falar dele assim, como uma pessoa que está olhando de fora. Na verdade, eu chamava ele de “darling”. Minha mãe chamava ele de darling, até por influência da estadia na Inglaterra. Eu não saberia dizer “papai”. Nunca chamei ele de “papai”. 

 

Publicado originalmente na revista Elle

Curso de Cultura Geral - 18 Mar 2018

19.03.18

Graça Correia é arquitecta, fica impressionada com esta frase de Edgar Allan Poe: “A tradução de um outro autor permite-nos encontrar de um modo mais claro a nossa própria escrita. Um jovem poeta que estude o modo como Rilke escrevia os seus sonetos, aprenderá mais se tentar traduzi-lo, do que se escrever um ensaio sobre o tema”. É uma frase que levanta questões importantes e que tem várias ramificações: como é que se aprende e como encontrar a nossa voz, a nossa escrita. Ou seja, como integramos o nosso ritmo no curso dos dias, numa continuidade histórica? Como integramos uma multiplicidade de referências e fazemos com elas uma constelação que é nossa, própria?

De certa maneira, estas questões são centrais ao trabalho de Tiago Rodrigues, actor e dramaturgo, director do D. Maria. Basta pensar no modo como trabalha os clássicos, da Bovary de Flaubert a Shakespeare, como é que de um corpo a corpo, em que se aprende com o coração além de se aprender com o cérebro, se faz uma obra nova. O terceiro convidado é o escritor José Gardeazabal. Meio Homem Metade Baleia é o seu último livro, depois da estreia em 2015 com História do Século XX. Há no livro um diálogo com Moby Dick, há no universo de referências de Gardeazabal o fuzilamento de Goya e a execução pintada por um artista chinês contemporâneo, Yue Minjun.

Então, dito num italiano torto: Ki Fatxiamo Noi Kui [O que fazemos nós aqui]? A arte é uma forma de responder a esta pergunta?

 

A lista de Graça Correia, arquitecta

  1. Aprender com pintores, escultores, designers nas Belas Artes. Ter Fernando Távora como mestre. Frase de Fernando Pessoa: "sem a loucura, o que é o homem, mais que a besta sadia, um cadáver adiado que procria?" (Poema D. Sebastião, Mensagem);
  2. Laurie Anderson: O SuperMan ou Bright Red (trabalho com Brian Eno); em Progress, aka The Dream Before, usa Walter Benjamin, os Irmãos Grimm (Hansel e Gretel), Paul Klee;
  3. Eduardo Souto Moura: fui sua colaboradora quando saí da faculdade, continuamos a trabalhar e comunicar. Aprendi com ele a noção de continuidade histórica;
  4. Paul Auster. Por causa do acaso e das nossas escolhas;
  5. Frase de Edgar Allan Poe que transponho muitas vezes para a arquitectura: “a tradução de um outro autor permite-nos encontrar de um modo mais claro a nossa própria escrita. Um jovem poeta que estude o modo como Rilke escrevia os seus sonetos, aprenderá mais se tentar traduzi-lo, do que se escrever um ensaio sobre o tema”;
  6. Viagem a Nova York em 1991: uma exposição de Robert Mapplethorpe no Whitney Museum; um bailado de Trisha Brown com música de Laurie Anderson e cenários de Donald Judd;
  7. Bill Viola: fui propositadamente a várias cidades ver instalações. Rinascimento Elettrónico, que vi no Palazzo Strozzi em Florença, deixou-me em transe;
  8. Ruy Athouguia;
  9. É difícil explicar a sensação que se vai tendo quando se constrói e, para mim, a arquitectura só acontece quando se constrói;
  10. "A alegria é a coisa mais séria da vida": frase do Almada Negreiros que há vários anos está no ambiente de trabalho do meu computador.

 

A lista de José Gardeazabal, escritor

  1. Camus: O Estrangeiro e A Peste. O regresso a Camus com Kamel Daoud em Meursault, Contra-Investigação (à volta de O Estrangeiro); 
  2. Kurt Vonnegut: Matadouro Cinco;
  3. Beckett e Tchekhov. A presença e a palavra em contraste em À Espera de Godot. O final de A Gaivota como síntese do que é o teatro. A literatura que ilumina e a literatura que salva. A arte como espelho e consolo da realidade;
  4. Goya, El Tres de Mayo de 1808. Yue Minjun, The Execution, 1995;
  5. Mulheres de Atenas de Chico Buarque, Romaria de Elis Regina, e Cantiga do Fogo e da Guerra José Mário Branco: os discos dos pais. A língua portuguesa em África;
  6. Amália e Barco Negro. O fado e a palavra poderosíssima;
  7. A pé do East Side ao West Side de Nova Iorque: da riqueza à pobreza, em meia tarde. Ouvir um sermão na Memorial Church, em Harvard Yard. Os reis magos: "They returned home by another way";
  8. "I have a dream": o discurso Martin Luther King. O Memorial de Lincoln e o Memorial do Vietname em Washington;
  9. Anna Akhmatova na fila da prisão. A esperança na palavra, na literatura;
  10. Musil e Thomas Mann: o longo e substantivo declínio europeu, até hoje. A ideia de literatura pensante.

 

A lista de Tiago Rodrigues, director Teatro D. Maria, encenador e dramaturgo

  1. O primeiro álbum dos Pearl Jam, Ten, ouvido no liceu da Amadora;
  2. A antologia de poemas de Fernando Assis Pacheco, Musa Irregular;
  3. O filme Lawrence da Arábia, de David Lean;
  4. Ki Fatxiamo Noi Kui [O que fazemos nós aqui], do Teatro Meridional, numa noite em que falhou a luz;
  5. O romance Madame Bovary de Flaubert, lido aos 15 e relido aos 35;
  6. O romance Anna Karénina de Tólstoi;
  7. O concerto de Caetano Veloso e Chico Buarque em São Salvador da Bahia [Teatro Castro Alves, 1972];
  8. A companhia belga tg STAN;
  9. O espectáculo Germinal, de Halory Goerger e Antoine Defoort;
  10. William Shakespeare, praticamente tudo.

Ler no Chiado no dia da Poesia

14.03.18
No Ler no Chiado vamos conjugar o verbo poetar no dia 21 de Março. 
Com a ensaísta e poeta Maria João Cantinho, a cantora Márcia (que vai trazer poemas-canções) e o jornalista e director do Expresso Pedro Santos Guerreiro. 
Todos são grandes leitores de poesia e pedi-lhes que partilhassem os seus autores e poemas preferidos. O critério principal é mesmo este: que seja uma escolha amorosa, que prevaleça o prazer de falar sobre aqueles versos. 
Juntem-se a nós na Bertrand do Chiado, às 18.30. Eu modero.
 

 

Nuno Markl

13.03.18

Uma entrevista é uma entrevista é uma banda desenhada/ uma fotonovela/ uma caderneta. É um tudo em um com Nuno Markl, a olhar para os melhores cromos do seu álbum. Entra o pai, entra o filho, entra a rádio, entram As Manhãs da Comercial, entra evidentemente o blazer branco do Miami Vice. Sempre houve vida em Markl. E há pathos e galinhas, o que pouca gente conhece.

Olhando bem para trás, não é tão estranho assim que ele tenha feito o percurso que tem vindo a fazer. A Nancy, por exemplo, já achava que ele ia fazer qualquer coisa nesta área. A do humor, a da comunicação. A Nancy era uma quase mãe no colégio. A “velha e boa” Nancy que o mimou muito e nunca demais. Mas durante anos, Nuno Markl deitou-se no chão do quarto a desenhar, em trip infantil, deitou-se (na cama?) do quarto a sonhar com uma vida mais integrada (apesar da penca e de manifestamente ser de outro planeta), em trip adolescente. Olhando bem para trás, e sobretudo depois de começar a fazer rádio, era de supor que o Markl ia ser o acabado cromo, a fazer render o facto de ser o acabado cromo. Não no sentido de ser mais um cromo da caderneta. No sentido da estranheza, da singularidade, do “que grande maluco me saíste” ou do “tudo acontece a este gajo”.

Há outro lado, menos cromo. Em metamorfose. Talvez em crise de meia idade. Nuno Mark nasceu em 1971. Nesta entrevista passa o trailer disso. (Foi Markl, como argumentista, que inventou a frase tornada famosa por Lauro Dérnio e interpretada por Herman José. Era tempo das Produções Fictícias.)

Esta não é uma entrevista como as outras. Vale a pena falar do modus operandi: primeiro, a entrevista. Depois, a ilustração. Com desenhos feitos por Markl propositadamente, fotografias à maneira (algumas encenadas), material antigo, fotografias que não envergonham muito retiradas do baú dos tesourinhos. Por fim, fez-se uma conjugação de peças do puzzle. (E aqui se acaba a toada engraçadinha da introdução.)

 

 

Quais são os cromos mais preciosos da sua caderneta?

A Ana [mulher] e o Pedro [filho] estão num cromo, mais as outras criaturas que compõem a família. A rádio está noutro. Planos separados. A televisão está algures, noutro cromo qualquer.

 

Comecemos pela primeira página. O persona Markl é muito original. Teve a noção de que compunha uma caderneta diferente das outras?

Era preciso que a dada altura tivesse pensado: “Sou mesmo singular”. Não foi o que aconteceu. Na adolescência senti isso no mau sentido. “Sou tão diferente do resto que estou tramado. Não vou conseguir sobreviver neste mundo”.

 

Em que é que se baseava essa estranheza que sentia?

No facto de me sentir inadaptado desde sempre. De não me conseguir integrar nos jogos de futebol. Achava que nunca ia conseguir falar com as miúdas, que era super acanhado. Não sabia sequer quais eram as ferramentas para “desacanhar” e sair da minha ostra. “Resta-me ficar aqui fechado no meu quarto”. Curiosamente a fazer coisas que depois tiveram eco na minha vida pública.

 

Como é que era esse quarto?

Precisava de ter imenso espaço no chão para estar deitado de barriga para baixo a desenhar. À medida que fui crescendo outras coisas tiveram que entrar no quarto. A rádio. Ouvia imensa rádio. O Rebéubéu Pardais ao Ninho do Herman [José], o Pão com Manteiga, o Noites Longas do FM Estéreo. Mas se alguém aparecesse e dissesse: “Neste quarto está tudo o que vais fazer. Vais acabar por desenhar coisas, nestes desenhos há humor”...

 

Gostava de fazer piadas?

Tinha a mania de misturar bonecos da televisão [com pessoas de carne e osso]. Estávamos na altura do PREC e misturava o [Álvaro] Cunhal e o [Mário] Soares com a Heidi.

 

Como é que fazia isso?

O meu pai era militante do PCP, a minha mãe era simpatizante do PCP. Tudo era acompanhado com intensidade. Eu andava um bocado aos papéis. O que eu gostava era de ver o Vickie na televisão. E a Heidi. Não havia muito para fazer.

 

Entretinha-se com a sua irmã?

Houve uma altura em que não tinha irmã. Estive oito anos como filho único e via muita televisão. E tudo aquilo se misturava na minha cabeça.

 

O Cunhal e a Heidi.

Sim. E o Mickey e o Soares. Criava as minhas próprias revistas em casa. Havia magníficas aventuras envolvendo o Cunhal e o Donald em busca da Heidi [risos]. O meu pai foi uma influência. A minha mãe também, tem sentido de humor, mas o meu pai desenhava bastante bem.

 

Era de História de Arte.

Sim. O Mário Soares que o meu pai desenhava era fantástico. Olhávamos e dizíamos que era o Mário Soares. O formato da cara: era uma pêra com duas partes de baixo. O meu desenho do Mário Soares era baseado no que o meu pai fazia. O Eanes também tinha uma boa pinta.

 

E o núcleo da aventura, era qual?

Coisas elementares. Naquela idade somos esponjas. Se ouvia o meu pai a dizer que o Soares era isto e aquilo, de vez em quando o Soares era o vilão da história. Tenho algumas em que aparece o Mota Pinto.

As minhas primeiras obras de humor são essas pequenas histórias em que tudo se mistura. Mas sempre com a ideia de que aquilo não ia a lado nenhum. Achava que um dia teria de enfrentar o mundo.

 

O que é que o fez sair, enfrentar o mundo?

A rádio foi o meu grande sair da caixa. As rádios locais, as rádios piratas. No fim dos anos 80 havia uma micro-rádio nas traseiras da casa da minha avó, em Benfica, ao pé do restaurante Califa. Desci a escada, fui lá. Olhei para aquilo e perguntei: “Isto é que é uma rádio?” Comecei a trabalhar nesse mesmo dia. Nem gira-discos tínhamos, só leitor de cassetes. A mesa de mistura parecia uma caixa virada ao contrário na qual alguém tinha cortado ranhuras para meter os cursores. Mas funcionava. Fui a casa buscar o Top Jackpot 86 e estive ali a cruzar Stevie Nicks com Comanchero.

 

Tinha quantos anos?

Tinha 16 ou 17. Fazer rádio foi uma epifania, mesmo numa rádio minúscula, que muitas vezes era milagrosamente ouvida na Amadora.

 

O seu acanhamento era muito físico?

Era. Não foi uma infância deprimente e trágica, mas tinha dificuldades em sociabilizar e acabava só com pessoas iguais a mim. Com alguma pança e óculos. Tive uma fase gorda no secundário. Ia para o núcleo dos gordos de óculos. Aqueles que eram postos à baliza no futebol.

 

E a penca?

A penca sempre fez parte de mim. Mas eu não achava que fosse a pança ou a penca. Era a concha da qual dificilmente sairia. A rádio foi óptima porque me pôs a falar para alguém. A minha mãe ficou espantada porque na rádio florescia.

 

Antes da rádio, tinha atenção? Os pais não estavam sempre à volta da criança, mesmo de uma criança marginalizada porque pertence ao clube dos de pança e óculos.

Hoje, quando se fala em bullying... Nós nem tínhamos uma palavra para isso. Era porrada. Levava uns calduços de vez em quando. Éramos submetidos a uma humilhação por parte dos mais fortes. Nunca pensei que pudesse usar a minha geekness para ganhar a vida com ela, que é o que faço hoje.

 

Havemos de chegar à parte em que trabalha a partir da sua geekness. Ainda na infância: não tinha nenhum interlocutor a não ser o desenho?

Tinha. À noite, punha-me a pensar na vida. “Gostava de ter mais amigos, de ter namorada”. Por outro lado sentia-me confortável com a solidão, a brincar com os meus Legos, a escrever, a desenhar. Era uma dualidade estranha. Havia ainda um outro que queria dar espectáculo. Gostava de fazer rir, apesar de não ser o palhaço da turma. Lembro-me de desenhar as caricaturas dos meus colegas com o intuito de ser mais popular. Comprei amizades assim!, é espectacular [risos]. No ciclo preparatório, um puto instantaneamente embirrou comigo.

 

Esse puto estava habituado a ser o star da turma?

Não sei, era um bully básico. Desenhei o gajo, ofereci-lhe a caricatura. Abraçou-se a mim: “Amigo!”. Nunca mais tive problemas com ele. Caricaturas é uma coisa que odeio fazer. Acho que falho sempre a expectativa das pessoas. Adoro criar bonecos do zero, que não sejam parecidos com ninguém.

 

Consultei alguns fãs incondicionais e trago perguntas feitas por eles. A primeira: “De onde é que vem essa loucura?”

Há-de vir de uma mistura de coisas. Do tempo que tive para explorar este universo interior, da criatividade fervilhante. Primeiro passamos pelo processo doloroso de achar que somos horríveis. De repente percebemos que estes defeitos se calhar não são bem defeitos; são idiossincrasias e originalidades, e que talvez possamos fazer comédia em torno disto. E depois, vem das coisas com que se estava a ser bombardeado. O Tal Canal [Herman], o Dr. Strangelove do Kubrick, A Vida de Brian, dos Monty Phyton, o Flying Circus, que passava na RTP2.

 

E a cerejinha no topo desse cocktail de influências, foi qual?

A rádio. Foi a primeira vez que peguei em toda essa explosão que estava a ocorrer dentro da minha cabeça e a servi ao público. A um público anónimo.

 

Escola primária, foi importante?

Sem dúvida. Tive uma professora espectacular. A Nancy foi importantíssima.

 

Nancy como a boneca?

Sim. A Nancy era uma versão mais barata da Barbie, não era? Alguns pais apontavam-lhe alguns defeitos, o facto de mimar imenso os miúdos. (Fui um bocado mimado e mal preparado para a vida..., não só pela Nancy, também pelas minhas avós. Precisava de ter levado mais porrada. Não estou a dizer física, mas precisava de ter sido mais bem preparado.

 

Está a fazer género. Se tivesse sido mais bem preparado para a vida seria um quadradão.

Se calhar.) Estive com a Nancy da 1ª à 3ª classe. Estimulou a minha criatividade. Foi quase tão importante como as pessoas da minha família. Olho para a Nancy como uma outra mãe na escola. Há pouco tempo, estava numa sessão de autógrafos de um dos meus livros e aparece uma rapariga crescidíssima a dizer que era neta da Nancy. Ligou para a Nancy e estive a falar com ela depois de tantos anos.

 

Como é que foi a conversa?

Reconheci-lhe a voz. Trinta e tal anos depois, era a boa e velha Nancy que conheci. Eu estava sem palavras. Disse-me que tinha muito orgulho e que acompanhava as minhas coisas desde sempre. E que já na altura achava que eu ia fazer qualquer coisa nesta área.

 

Andou numa escola pública? A sua vida era de pura classe média?

Média mais média não havia. Estive um curtíssimo tempo no Colégio Moderno mas depois passei para o [colégio] Pestalozzi. Era da classe média no tempo em que havia classe média. Eram tempos incríveis porque a política entrava pela escola adentro. Hoje entro na escola do meu filho e eles estão-se nas tintas para a política. E sabem lá de que partido são os pais, ou se os pais votam.

 

Nos anos 80, e em especial nos 90, a política desapareceu do mapa das pessoas da nossa geração. As coisas estavam de tal maneira harmonizadas e equilibradas que não era preciso ocuparmo-nos da política. Tem essa impressão?

Tenho. Quando estava a fazer a Caderneta de Cromos na Comercial muita gente dizia que a década de 80 não tinha nenhum interesse. Eu dizia: “Mas foi a nossa década”.

 

A do Capri-Sonne.

Não tivemos o Maio de 68 mas tivemos o Capri-Sonne [risos].

 

Ambos sabemos do Capri-Sonne. Em Benfica ou em Trás-os-Montes, havia um elemento aglutinador chamado televisão.

Tinha uma força descomunal. A televisão era o centro da casa. Hoje é impensável a família estar toda sentada a ver coisas como o Festival da Canção ou os Jogos sem Fronteiras.

 

Ou os vestidos das Doce. E livros? Temos estado a falar de cultura audiovisual, mas se pensar em si como argumentista, a relação com a língua é fundamental.

Adorava português e adorava escrever redacções de tema livre. Sem qualquer tipo de influências porque não lia. A dada altura fiz um texto com o qual a minha professora ficou entusiasmada. Não era baseado em nada senão em maluquices que me ocorriam. “Por acaso já leste o Mário Henrique Leiria?”. Eu não fazia ideia, gostava era de ver os Soldados da Fortuna.

 

Porque é que ela achou que os Contos do Gin Tónico eram bons para si?

Disse: “Lê isto, não sei como, mas pareces influenciado por isto. O teu estilo de nonsense, a maneira de escreveres e de te expores é próxima disto”. Fiquei histericamente fã do Mário Henrique Leiria. Diria que para além das influências audiovisuais, os contos do Mário Henrique Leiria foram uma mega influência. Pensei: “Quero escrever assim, falar sobre isto, falar sobre nêsperas”.

 

Nonsense...

No Flying Circus há um sketch com vikings em que está toda a gente a gritar: “Spam, spam!”. Havia qualquer coisa de irresistível nesse disparate puro.

 

O que é que lhe agrada tanto nesse delírio?

É a sensação de liberdade absoluta. De não se estar escravo de nenhum conceito. É importante que o humor diga coisas importantes sobre a sociedade e que ponha dedos na ferida. Mas se só fizer rir visceralmente, sem que se perceba por que é que aquilo faz rir, a não ser a pureza do efeito cómico, é maravilhoso também.

 

Como um corpo que se escangalha?

Sim. É ir ao nosso lado infantil, o lado dadaísta que todos temos quando somos miúdos. Muitas vezes as pessoas dizem que é dever dos humoristas mudar o mundo. Agradeço que acreditem em nós para fazer a mudança, mas acima de tudo o dever do humorista é fazer rir. É errado vir para esta profissão com um espírito messiânico.

 

O que é que faz rir o seu filho?

Ainda está numa fase em que eu a andar e as minhas calças caírem e ficar em cuecas, é o máximo!

 

Tem cinco anos.

Sim, espero que o humor dele melhore. Primeiro teve a fase em que só era preciso ter um guardanapo à frente e fazer cucú. E isso inspirou um sketch d’ Os Contemporâneos.

 

Trabalha regularmente com o Bruno Nogueira e o Ricardo Araújo Pereira. São também amigos. E são humoristas de tipos de humor diferente.

Adoro-os e adoro trabalhar com eles. Rimo-nos bastante das mesmas coisas, mas a partir de certa altura é a personalidade de cada um que dita o caminho. Com o Ricardo escrevi durante anos para o Herman. Com o Bruno fiz Os Contemporâneos.

 

O Bruno puxa mais pelo seu lado nonsense, o Ricardo puxa pelo seu lado mais analítico, seco. Concorda?

Não consigo especificar. O Ricardo também é um grande fã do disparate puro. Se ouvir a Mixórdia de Temáticas na Comercial, há textos sobre crianças que vistas de trás parecem velhas. Ou tipos a quem nasceu um castanheiro no cu [risos]. E o Bruno, se ouvir o Tubo de Ensaio [na TSF], que ele faz com o [João] Quadros, tem coisas muito críticas.

 

Fizeram coisas juntos que se tornaram objectos de culto...

Há um sketch d’Os Contemporâneos em que tento provar que consigo imitar uma orca. Vinte e tal anos de carreira e o que as pessoas me pedem na rua é para imitar a orca!

 

Por que é que não teve que crescer?

Preservo muito, para o bem e para o mal, o lado infantil, mas tive que crescer. Começa logo no momento em que se lida com impostos [risos]. “Ok, se calhar não posso levar a vida nesta balda”. E quando se é pai olha-se para a vida de outra maneira. Eu estava em pânico.

 

Tinha 37, 38 anos.

Sim. Lembro-me de pedir conselhos a pessoas que achava que tinham a sua dose de loucura e que tinham filhos. Falei com o [radialista] Álvaro Costa, que sempre me pareceu viver num planeta só dele. Disse: “Quando nasce uma criança, sabes o que tens que fazer, sai naturalmente”.

 

Houve coisas que começaram a sair naturalmente?

Houve. Apesar de ser super distraído e cometer calinadas gravíssimas enquanto pai.

 

A sua mulher pediu-me para lembrar que tem de ir buscar a criança. A Ana toma conta de si, assim entre a mãe carinhosa e a preceptora severa?

Isso tem pouquíssimo sex appeal. Eu preciso de alguém que me organize no sentido profissional. Ela tornou-se uma espécie de minha produtora. A minha vida é um puzzle magnífico construído por ela. Mas a vida puxa por nós para sermos adultos. Não se pode passar o tempo a achar que isto tudo é muito divertido.

 

Por que é que não se pode?

Se só se mantém esse lado, a pessoa transforma-se num pateta e é atropelada a atravessar a estrada. Confesso que tenho alguma dificuldade em ter os pés assentes no chão, e tenho uma grande facilidade, que herdei do meu pai, de me meter no meu mundo de coisas confortáveis.

 

A morte do seu pai foi uma primeira maneira de o obrigar a pôr o pé na realidade?

Antes disso. O meu pai morreu em 2010, o Pedro nasceu em 2008. O meu pai viu pouquíssimas vezes o neto. Tive ali uma altura em que olhava para o meu pai – que de modo algum foi um mau pai – e para os defeitos dele. Depois, quando morreu, comecei a fazer um balanço de tudo. “Não tenho o mínimo direito de lhe apontar um dedo pelas coisas supostamente erradas que fez”.

 

Como se davam no fim da vida dele?

Continuava a adorá-lo, mas sentia que estávamos em dois mundos muito separados. Acabei por conseguir uma estranha paz apercebendo-me de que sou parecidíssimo com ele. E pensei: “Se não me ponho a pau, começo a desaparecer e a não dar a atenção que o meu filho e a minha mulher merecem”. Olho-o muito como exemplo para as coisas boas e más.

 

Uma recordação boa com ele.

Tantas. As coisas que me ensinou, os óptimos momentos que passei com ele, as tardes a vermos a Galáctica em casa, os nossos desenhos a meias. As outras coisas: as muralhas que criava em torno de si mesmo, fechado no seu mundo de tabuleiros de xadrez e quadros. Não tenho tabuleiros de xadrez nem quadros.

 

Mas tem o blazer branco do Miami Vice.

Do Don Johnson. Icónico.

 

Perguntei-me se não está a fechar-se atrás da sua muralha, da sua geekness, onde está de blazer branco.

Já fechei mais. A minha mãe dizia: “Tens que contactar um bocadinho com a vida real. Vives num mundo de ficção, só vês filmes e séries”. (Sempre fui muito cinéfilo. Escrevi para a Prémiere durante uns anos. Pus a minha geekness a render das mais variadas maneiras.) Mesmo depois de adulto tive uma tendência tremenda para viver noutro lugar que não este.

 

Voltar ao seu quarto.

No fundo é isso. Depois as coisas começaram a esbater-se. Já não me posso dar ao luxo de ter a geekness que tinha há uns anos. Com um filho, uma vida familiar, o trabalho que surge, é tramado ser geek. Mas é claro que não se consegue tirar a geekness inteira do tipo.

 

Outra pergunta trazida por um fã. A partir de que momento é que sai do quarto e começa a efabular? As pessoas têm noção de que uma parte daquilo é o seu delírio.

Dizem-me: “Não acredito que as coisas que contas da tua vida se tenham passado como dizes”. Eu tento que seja o mais preciso possível. Tento não ser chato a contar, dou algum colorido que vem da minha experiência de ter que servir as coisas com graça e com timings, com punch lines. Mas tento ser o mais próximo possível da realidade.

 

A margem de efabulação é reduzida?

Sim.

 

Está mais na forma do que na substância?

Sim. A Caderneta de Cromos é das coisas mais verdadeiras que fiz na vida. Conseguiu ser brutalmente comercial, as pessoas encheram os Coliseus para nos ver fazer aquilo ao vivo, e compraram os livros, e o Jogo da Glória da Caderneta de Cromos...

 

Pensei que estivesse milionário.

Não, isto é Portugal. Foi muito terapêutico fazer a Caderneta de Cromos. Começou por ser uma maneira de juntar as peças do meu puzzle, e tentar perceber o que é que sou hoje.

 

É uma geração que se reconhece ali, aquela que já cresceu em democracia. É um certo Portugal, também.

Sim. Às tantas comecei a sentir que havia muita gente que, por causa da crise, por causa de tudo o que está mal, olhava para aqueles tempos assim: “Quero voltar para lá e não quero sair”. Não era esse o espírito da Caderneta de Cromos. Não é uma rubrica saudosista, é uma rubrica que acha muito interessante voltarmos lá atrás e percebermos o que nos formou, mas depois é preciso voltarmos aqui, para coisas que não tínhamos naquela altura, nomeadamente os filhos.

 

Sente que fica refém desse que as pessoas querem ver nos Coliseus e na rádio, aquele que os induz, mesmo que não seja essa a intenção, num saudosismo, que os remete para os melhores anos da sua vida?

Senti isso e acabei com a Caderneta de Cromos. Também porque estava esgotado. Agora estou a fazer um remake na M80, os Cromos M80, em que vou buscar os textos originais e lhes dou uma volta. É uma mina que não pára de dar [risos].

 

Estou a ver.

Já estava a raspar nas paredes da memória, já não havia mais nada para extrair da Caderneta de Cromos. Sentia, para o fim, que já estava a partilhar memórias que eram só minhas.

Mas ficar refém é mais profundo que isso.

 

Vamos à conversa profunda.

Tenho sentido recentemente, não sei se é da idade se é de fazer isto há tantos anos, que estou a ficar refém desta espécie de funcionalismo público de humor que é o meu trabalho. Todos os dias tenho que apresentar humor à hora “x”, na rádio, de manhã, às quartas-feiras no 5 Para a Meia-Noite, durante anos seguidos.

 

Continua a sentir gozo no que faz?

Adoro a profissão que tenho, continuo a gostar muito de ir ter com eles de manhã, mas sinto que preciso de fazer outras coisas. E outras coisas que fujam a tudo isto de que estivemos a falar, à geekness, à comédia.

 

Para não ficar um cromo de si mesmo.

Sim. Na minha juventude ficava muito revoltado quando via o Tom Hanks, que tinha feito comédias hilariantes, fazer coisas sérias. Tornou-se um actor respeitável, de Óscares. Salvaguardadas as distâncias, isto da comédia desgasta muito.

 

No seu caso é uma comédia que o tem a si, à sua biografia, no centro.

Tento fugir a isso. O Homem Que Mordeu o Cão é uma rubrica que, apesar de ter muito de meu, fala do mundo e de coisas que se passam fora da minha bolha. Às tantas parecia que estava perdido no tempo, parecia o astronauta na corte do Rei Artur.

 

Fala como se estivesse um pouco exaurido.

Sim. Ter escrito esta longa-metragem, o Por Ela: é óptimo se o filme for feito. Estamos a trabalhar muito para que isso aconteça. Mas para mim, ter um mês de Agosto inteiro, como tive no ano passado, para escrever esta história, que tem tragédia, momentos pesadíssimos, reflexões sobre a vida, é um luxo.

 

A comédia entra?

Entra. Não consigo largar totalmente a comédia. Foi muito terapêutico, quero fazer mais disto.

 

E a rádio, fica onde, no meio disto?

Adoro ouvir o melhor programa de rádio da história, o This American Life, do Ira Glass, que conta histórias verídicas. E sobre os mais variados assuntos. Sinto que é isto que quero fazer um dia. Não quero estar só a contar piadas, a falar sobre a mulher que bateu o recorde de engolir parafusos. Um dos meus heróis é o Woody Allen, e o Inimigo Público não tem nada a ver com o Blue Jasmine. Não é renegar a comédia, mas é qualquer coisa cá dentro que faz pensar que há mais na vida que isto.

 

Vamos usar uma palavra pomposa: gravitas. Está a perceber como é que pode integrá-la no seu discurso, é isso?

É. No 5 Para a Meia-Noite é fácil por vezes fazer uns desvios. Lembro-me de ter tido lá o Jerónimo de Sousa, e de ter feito palhaçadas com ele. Não sendo eu militante do PCP, e nem sequer votando PCP, tenho, por razões familiares, pelo meu pai, uma simpatia pelo PCP.

 

Camarada honorário.

Sim. Deu-me um grande abraço emocionado, uma coisa meio paternal. “O teu pai ficaria orgulhoso”. Tive sempre pouca confiança em mim enquanto apresentador de televisão.

 

Vai para o 5 para a Meia Noite fazer de Markl.

É capaz de ser uma mais-valia, ser um tipo meio desastrado que não sabe como se portar em televisão. Passei a assumir que é isso. Muitas vezes tenho convidados e passam-se conversas que não suscitam a comédia. E depois aparecem pessoas na net a dizer: “Este Markl tem cada vez menos graça”. Por um momento, deixem-me falar com as pessoas normalmente, sem estar armado em engraçadinho.

 

Ena, ena, o Nuno Markl está a envelhecer?

Acho que é isso. Estou a ter uma crise da meia-idade, mas é uma coisa positiva. Na Paraíso Filmes, a série com o Zé Pedro Gomes e o António Feio, há um diálogo que escrevi, dos que gosto mais. Há um argumentista cheio de ideias que diz à personagem do Zé Pedro Gomes, o produtor daquela produtora manhosa da Trafaria: “Gostava que este argumento tivesse mais pathos”. E o Zé Pedro diz: “Eh, pá, ponha patos, ponha galinhas, ponha todos os bichos que quiser”. Isso resume a minha vida, quero ter mais pathos, mas também quero ter galinhas.

 

Falamos de gravitas e terminamos com patos e galinhas?

É esse o meu slogan.

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2014

 

Herman Enciclopédia

13.03.18

Gud evenaing. Ou, se preferirem, boa noite.

O espectáculo vai começar. O elenco: Lauro Dérnio, Artista Bastos, Super Tia, Mike e Melga, Felisberto Desgraçado.

Mais este:

- “Eu sou uma pessoa que pensa no depressa”.

O senhor Engenheiro do riso alarve e estilo brejeiro: “Parece que temos um pedaço de francesinha na boca…, eheheh”.

O protagonista: Diácono Remédios.

Ei-lo.

- “Ó meus amigos-s-s.”

Censor, moralista, filho de uma mãe “repugnante e hedionda”: a Dra. Rute Remédios. A sexóloga que aparecia semanalmente na televisão para falar de “sexo puro e duro como todos nós gostamos, ceeeerto?”.

O Diácono Remédios foi o verdadeiro artista de um programa recheado de personagens luminosos, esdrúxulos, reveladores do que éramos então: um Portugal ocupado com a Expo-98, em transição. O Diácono instalou-se no imaginário colectivo como alter-ego de uma moral careta, salazarenta, falsamente puritana. Representava um bafio que afinal ainda existia.

Era um tempo em que Portugal repetia, como se fosse uma senha: “Onde é que tu estavas no 25 de Abril?”. Ou “Let’s look at the trailer”. Ou: “Este homem não é do norte, carago!”. Para além do omnipresente: “Não havia nexexidade-e-e”. Era um tempo em que Herman José estava no pico da forma. Herman Enciclopédia, a obra da maturidade, estreou em 1997.

“Acho que é, de longe, o que de melhor se fez em Portugal em matéria de humor. A obra mais iconoclasta, a mais escandalosa, às vezes quase pornográfica. Como dizia o Alexandre O’Neill, somos o país do diminutivo e do respeitinho é que é preciso; este é um humor que escapa a esse respeitinho. O programa é uma espécie de contra-ataque à censura dos anos do cavaquismo. Contra uma moralidade vigente, com cheiro a naftalina. Que estourou assim que Cavaco saiu do poder. No período Guterres, nitidamente, as bolas de naftalina diminuíram de tamanho. O programa transpira isso. Uma maior liberdade. Reflecte uma direcção da RTP menos sensível à censura. À censura íntima, àquela que se faz antes de os programas serem delineados”, diz Clara ferreira Alves, uma das primeiras opinion maker a escrever sobre o Herman Enciclopédia.

António Guterres, então primeiro-ministro, era fã da série.

“Sempre que tinha oportunidade, não perdia. Era para mim, não apenas um entretenimento, mas um tranquilizante. Era um modo de esquecer por um momento as preocupações, as tensões. Não me recordo de ter adoptado nenhuma das expressões do programa de forma regular. Não como uso: “É a vida”, que é uma das minhas expressões favoritas. Mas com grande probabilidade tê-las-ei usado. O impacto do programa e dos personagens foi extremamente forte”.

Guterres, o católico. Alguma relação com o puritanismo do Diácono? “Nenhuma – responde Herman. “Guterres é um espírito maior, e a sua fé serve as suas convicções, não é para ser usada como arma de arremesso. É uma pessoa de bem, e o mais democrata dos primeiros-ministros. Isso mesmo reflecte-se na amplitude da paleta crítica que usámos”.

Nuno Artur Silva quis que o Diácono se chamasse Reverendo. O director das Produções Fictícias, a empresa de argumentistas que escreveu o programa, e que esteve na concepção do personagem com o próprio Herman, José de Pina e Miguel Viterbo, considera que o programa foi “um bom momento, um bom encontro”.

“O programa surge numa época de abertura depois de um fechamento que coincide com o cavaquismo. O Herman Enciclopédia beneficiou de total liberdade depois da tentativa de censura do sketch da “Última Ceia” no programa anterior [Parabéns]. Surge na ressaca desse episódio, com algumas sequelas, com quebra de contratos publicitários, por, supostamente, o Herman ter hostilizado a Igreja Católica. A Igreja não é o único alvo, o programa dispara em muitas direcções. Critica os modelos de jornalismo; estava a despontar o estilo: “Põe a manchete primeiro e faz as perguntas depois”.

A Igreja não era o único alvo. Mas basta rever alguns dos episódios, no DVD que foi lançado recentemente, para perceber que o tirocínio é constante.

Alguns exemplos, em separadores inócuos, entre sketches e personagens. Uma manchete anuncia: “Claudia Schiffer é um homem. Para mim foi uma grande desilusão, diz o Papa João Paulo II”. Como consequência: “Basta de brincadeiras com sua santidade”, pede em título o Infelizmente. “Ex-Papa apanhado nas malhas do doping. O actual Papa: não comento”. Outro exemplo: o Papa passeia no Papa-móvel e antes dele, há elefantes mecânicos a copular.

Porquê esta fixação na Igreja? Herman esclarece que “na altura, estávamos convencidos de que um dos problemas maiores da sociedade portuguesa seria a pressão obsessiva da Igreja Católica sobre o poder político. Já em 1988 – apesar de ninguém mo ter confirmado – consta que o final do programa Humor de Perdição teria tido mão pseudo-divina. Estava no entanto longe de imaginar que, dez anos mais tarde, teria a prova de que os mais perigosos garrotes da liberdade de expressão desta espécie de democracia residem dentro das togas e não das batinas”.

Joaquim Vieira, o director de programas da RTP que aprovou, com o director-geral Joaquim Furtado, a série, nunca teve dúvidas acerca da aposta no programa, apesar do seu carácter subversivo. “Nunca considerei o Herman Enciclopédia uma aposta errada, porque achei que este era o tipo de programa que correspondia melhor ao enorme talento do Herman. A questão do suposto radicalismo nunca me preocupou, pois só assim se poderia construir um programa de humor saudável. Não tenho ideia de ter havido alguma pressão. Penso que depois de termos resistido a uma outra pressão de meios católicos, quanto a um sketch sobre a "Última Ceia", se terá chegado à conclusão de que não valia a pena”.

A pedido da PÚBLICA, Joaquim Vieira reviu alguns episódios do Herman Enciclopédia. Com esta distância, não hesita em identificá-lo como “expressão de uma época de expansão, tranquilidade e bem-estar da sociedade portuguesa, com muitas referências ao consumo, a projectos públicos e a prazeres de uma forma geral. Se fosse hoje, haveria diferentes preocupações, embora me pareça que não mudámos assim muito no que respeita à cultura de massas. Veja-se as caricaturas feitas aos programas de TV: parecem antecipar o que veio depois. Não acho o programa nada político, mas a ligação aos anos do guterrismo pode ter a ver com uma certa visão despreocupada da vida. Caminhávamos alegremente para o abismo (do défice) e nenhum de nós tinha consciência disso”.

Sobre que é o programa, afinal?

“O tema dominante eram os costumes, e não a política”, pensa Clara Ferreira Alves. “Aliás, o Herman e as Produções Fictícias nunca foram muito para a política. Mas há uma grande sátira social. O que ali se critica é um modo de ser português. Um modo mais estreitinho dá lugar a um modo às vezes boçal, à boa maneira de Bordalo Pinheiro, e outras vezes mais refinado. O sexo era um grande tabu. O episódio dos “Óscares da pornografia”, ainda hoje, não tenho a certeza de que pudesse ser feito com a liberdade com que foi. Teve a sua importância que a RTP tivesse na sua direcção o Joaquim Vieira e o Joaquim Furtado. Dois jornalistas, duas pessoas que gostam de liberdade. E que chegaram a ser ferozmente satirizados no Herman Enciclopédia”.

Herman sublinha também este aspecto: “Era o serviço público ao serviço da inteligência, com dois “inteligentes” ao leme da direcção de programas. Lembro que o programa sucumbia nas audiências em confronto com a efervescente SIC de Emídio Rangel”.

As audiências do Herman Enciclopédia começaram por ser tímidas. Foram precisas semanas para que o programa se transformasse no fenómeno que continua a ser passados 13 anos sobre a sua exibição. Os portugueses pareciam não se rever nos personagens histriónicos de Herman&Companhia. Ninguém dizia nas ruas: “Grandes fitas, Greites faites”, numa glosa a Lauro Dérnio. Ou “Qual é a senha?”. Ou “Você “num” se desgrace!”

Nos jornais e nos cafés discutia-se o tema da regionalização; na televisão, numas caves infectas da muy distinta cidade do Porto, discutia-se em reuniões clandestinas o Pintismo Narcisismo.

Pinto da Costa era (e é) Presidente do Futebol Clube do Porto, Narciso Miranda, “rosto do poder local”, ascendia a Secretário de Estado, Fernando Gomes, presidente da Câmara do Porto e ministro socialista, servia de base para a composição do Senhor Engenheiro de Herman. Embora nunca se tenha ouvido da boca de Gomes: “Graande sticada”.

“É um mister!”, dizia dele um dos assessores-acólitos. Uma expressão que ficou, para Clara Ferreira Alves, indissociável daquele grupo. Herman, revendo, diz-se “positivamente espantado com a jactância da rubrica dos Homens do Norte”.

Nuno Artur Silva tem no “Partido do Norte” um dos momentos preferidos do Herman Enciclopédia. “É uma ideia colectiva, depois escrita pelo Rui Cardoso Martins e pelo José de Pina. Sempre imaginámos que deveria ser representado à Yes, Minister. Ou seja, com contenção. O Herman fez exactamente o contrário. Representou à Irmãos Marx, completamente em delírio, quase à desenho-animado. O que começou por nos parecer terrível acabou por ter um resultado brilhante. Tem imensa graça a maneira como se movimentam e a opção por aquela direcção de actores. É raro ter no mesmo sketch o Herman, o José Pedro Gomes, o Miguel Guilherme, a Maria Rueff, a Lídia Franco. Um grupo de actores em estado de graça”.

As reuniões do PNRN (Partido Nacional da Região Norte) representavam o momento mais colado à realidade política de um programa que não era eminentemente político. Mas Guterres não se revia no conteúdo do sketch. “Aconteceu-me várias vezes fazerem humor sobre mim, e sempre encarei isso com grande naturalidade. Quem quiser estar, não apenas na política, mas em qualquer função que implique exposição pública, tem de encarar isso com naturalidade. O que é importante dizer é que, apesar da irreverência do Herman, ele nunca foi ofensivo. O humor do Herman sobre as mais diversas personalidades da vida portuguesa, merecia, na minha opinião, ser encarado com grande fair play”.

Entre o “não ofensivo” de Guterres e o “quase pornográfico” de Clara Ferreira Alves, vale a pena rever algumas das cenas e expressões usadas para compreender o que estava em causa.

Pelo Herman Enciclopédia apareciam personagens como a Teresa Trucla, no programa Vibratório. Logo censurada pelo Diácono Remédios:

- “Um vibrador? E de tamanho familiar! Valha-me Deus!”

O Artista Bastos repetia a frase:

- “Lá vinha ele com o seu castor debaixo do braço…”,

como uma espécie de intróito ao famoso:

- “Onde é que tu estavas no 25 de Abril?”

Havia convidados que não entravam no monólogo secreto do Artista Bastos e eram zurzidos com pérolas deste quilate:

- “Eu acho que eras umas besta, há que dizê-lo com frontalidade” ou

- “Vou-te partir o trombil, há que dizê-lo com frontalidade” 

ou,

- “Vai levar na peida, vai fazer broches a cavalos”,

que os “pis” sobrepostos mal disfarçavam, como era intenção manifesta da equipa.  

Herman Enciclopédia satirizava o novo-riquismo nas “Aventuras da Super-Tia” e da sua amiga Robinha (um magistral Joaquim Monchique). “Uma super-tia llena de possidonite, de nome Batata, epítome de uma high society que vive na tesura e que mantém as aparências. Obviamente usa malas Louis Vuitton.

- “O tio Babas diz que a última moda em Paris é um Picasso no canto da parede e um Pollock no rodapé”.

Repete palavras como:

- “Caturreira!”

Num estilo afectado, exala boa educação quando se dirige à empregada:

- Ó não sei quantas (nunca sei o nome da criadagem)…

Acha que “os jipes na cidade não podiam estar mais na moda!” Fazem sentir “aquela coisa da ligação à terra”.

Os assuntos eram os de um Portugal próspero, em vésperas da Expo-98 e das grandes obras de construção. O Senhor engenheiro falava, cobiçoso, do “contratozinho”.

- “Le boilá!”

Ao mesmo tempo que frequentava casas de alterne, e deixava implícita a ligação entre política – corrupção – prostituição.

- “Tou-me a sentir comichoso. Bou até Amarante…”

(o incêndio no bar Mea Culpa tinha sido nesse ano).

Decisão que merecia o aplauso do personagem interpretado por José Pedro Gomes:

- “Este homem é um senhor!”

Neste mosaico da sociedade portuguesa, coexistia a micro-realidade de Alfama, onde se faziam campeonatos de lerpa, os homens vestiam fatos de treino fluorescentes e onde se cantava o fado, claro.

“Ai Mãezinha, não te apagues” era uma novela burlesca que tinha em Felisberto Desgraçado o personagem central. O seu sonho era levar a mãezinha aos Estados “Onidos”.

- “Corre-me tão mal a vida! É esta maldita caspa, é o cancro da próstata da Felismina, e a mãezinha que não volta... Menzinha volta por favor! Mãezinha não tapagues!”

Era o tempo das boys band, constituídas por rapazes espadaúdos, “repescados da valeta e das obras”. Da televisão “em movimentos”, feita de planos oblíquos – uma hiperbolização do já de si frenético Big Show SIC. A música que se ouvia era de Abrunhosa, Prince, Cesária Évora. No Herman Enciclopédia promoviam-se encontros improváveis. Entre Madonna e Carlos do Carmo, Amália e Bob Dylan a cantar um malhão-malhão.

A música também era a dos Fried Potato Suicide – deixa para nova aparição do Diácono Remédios:

- “Batatas fritas a cometerem suicídio? O suicídio é um pecado, mesmo para as batatas fritas.”

Nem o hino nacional foi poupado. A Dra. Rute Remédios, nas consultas de sexologia, considerava-o uma boa base musical para o sexo. Porquê? Porque daí se pensa em militares… Pelo contrário, os Madredeus eram desaconselhados.

- “Com isto é impossível ter uma erecção capaz! Madredeus, Manoel de Oliveira, meio litro de leite morno, bolachinha de água e sal, e obtenha uma embalagem de Xanax!”

De onde é que saía tudo isto?

Herman e Nuno Artur Silva explicam o modo de fazer do Herman Enciclopédia.

“Tínhamos reuniões de ideias todas as semanas, brainstorming à volta da mesa. Passavam-se as ideias para o Herman, que contribuía com algumas sugestões. Por exemplo, deu-nos uma frase da mãe: “Ó filho, és um bom artista, não tinhas necessidade de fazer aquilo”, e pediu-nos: “Façam alguma coisa com isto”. Daí resultou o “Não havia necessidade” do Diácono. A ideia era depois trabalhada por dois guionistas. Trabalhavam em liberdade total dentro daquela regra que o Herman estabeleceu comigo quando começámos a trabalhar: “Escreve o que te apetece, eu uso como me apetece, e não vamos perder muito tempo com explicações”. Esta regra manteve-se com a equipa toda e funcionou muito bem. No Herman Enciclopédia, de uma maneira geral, respeitou muito o texto. Eu próprio fazia a ligação com o Herman e os actores”.

Herman José recorda que o ritmo de feitura do programa era sempre alucinante, mas que o processo de apropriação dos textos e composição dos personagens era variável. “Eu diria, que atrás de cada boneco está alguém. Há os óbvios, como o Lauro António ou o Baptista Bastos, mas em todos os outros estão a vizinha, o motorista, a vendedora de jornais, a prima, o sócio, o polícia, etc... Havia textos que tinham tratamento copy/paste. Eram respeitados na íntegra e reproduzidos tal e qual. Havia outros que tinham tratamento bovino. Mastigava-os, engolia, e eram finalmente regurgitados depois de devidamente tratados. Outros não chegavam sequer a entrar na digestão – eram modificados e compactados no papel, em longas horas de trabalho (como aconteceu com alguns episódios dos “Homens do Norte”). Imagino que nessa altura jovens autores me tenham rogado algumas pragas. Mas foi por uma boa causa – espero eu”.

O ambiente era “muito solidário, distendido, divertido, mas penosamente profissional. Gravar mais de 50 minutos de ficção científica com aquela variedade de personagens e cenários foi uma tarefa ciclópica. Havia muito pouco espaço para brincadeira”.

O Herman Enciclopédia constituía uma das grandes apostas do canal. Numa fase inicial, as gravações, foram acompanhadas de perto pela direcção. “A única questão que se colocou de início teve a ver com valores de produção que quanto a nós, (eu e o Joaquim Furtado), não estavam a ser devidamente concretizados, o que tinha menos a ver com conteúdo e mais com imagem”.

Em todos, exista a ideia de se estar a fazer um grande momento de televisão, que perduraria. “Era uma equipa de argumentistas em boa forma e um Herman de regresso, depois de uma das suas mortes anunciadas. O programa é uma amostra da incrível paleta de cores que o Herman tem na composição de personagens”, sintetiza Nuno Artur Silva.

Era, como disse Carlos Pinto Coelho, himself, numa aparição no Herman Enciclopédia, um programa de “audiências modestas, mas um fenómeno planetário”.

Talvez fosse excessivo falar em fenómeno planetário, antes da vulgarização da internet como suporte privilegiado de conteúdos media. A geração youtube ainda não tinha nascido. Mas no Portugal de então, o programa era um espaço de convívio. (Convaive, para Lauro Dérnio.)

O que é que o fez resistir? O que é que faz que estejamos a falar sobre ele, 13 anos depois da sua exibição (e assumindo que a edição em DVD não o justifica completamente)?

“O que resiste melhor ao tempo é o Herman José”, pensa o antigo primeiro-ministro António Guterres. “Na maior parte dos casos, os programas de humor ficam tão terrivelmente datados que perdem a graça. São apenas expressão de um tempo. O que é mais interessante no Herman Enciclopédia é sentir que (exceptuando histórias mais específicas), o humor não perdeu a sua oportunidade. É uma qualidade rara”. E faz o paralelo com um clássico da história do humor. “Continuamos a ver Yes, Minister e continuamos a rir. Mesmo que o programa tenha a ver com a política do seu tempo. Porque é um humor de grande qualidade. É o que acontece com o Herman. A qualidade não é datada”.

Herman, o verdadeiro artista, elenca os momentos do programa que, na sua opinião, melhor resistem à erosão do tempo. “A actualidade do Diácono Remédios, o non-sense groucho-marxiano da novela “Ai Mãezinha, Não te Apagues”. Também me encanta o talento dos actores. A série resiste bem, apesar de ser pontualmente atraiçoada pelo timing menos frenético de alguns sketches, e pela própria duração de cada episódio, o dobro daquilo que é praticado hoje em dia”.

Na opinião de Joaquim Vieira, resiste porque há nele “um registo de humor burlesco e anárquico, demolidor das convenções, que é intemporal e muito bem compreendido pelos jovens”.

A geração Gato Fedorento, (denominada sumariamente assim para definir um tempo e um modo de consumir conteúdos de humor), não assistiu à emissão do Herman Enciclopédia no canal 1 da RTP. Mas Herman pensa “que são eles os grandes catalisadores do estatuto de culto que o programa tem vindo a ganhar”.

Vão ao youtube e percebam do que estamos a falar.

Clara Ferreira Alves reviu recentemente o programa com dois adolescentes. “Adoraram!, mesmo que não saibam quem é o Lauro António. A personagem criada é naturalmente cómica. Essa é que é a marca do grande humor e da genialidade do Herman: transformar uma situação particular numa situação universal, que todo o mundo percebe, em qualquer lugar. Transformou uma pessoa num tipo imortal. Isso, o Herman faz. O Eça de Queirós também fazia”.

É verdade que há expressões, como essa, que continuam a usar-se. Mesmo que a sua origem seja desconhecida. “Eu é que sou o presidente da junta” é outro exemplo, que se aplica de forma exemplar a contextos de poder.

Herman ouviu recentemente “Onde é que estavas no 25 de Abril?” na Assembleia da República, numa interpelação de um deputado ao Governo.

Mas o seu personagem preferido, “pela sua importância histórica e capacidade de sobrevida, é o Diácono Remédios. Infelizmente mais actual do que nunca”.

Para Joaquim Vieira, “o provedor Diácono Remédios diz muito sobre os preconceitos da nossa sociedade. Ainda há gente que parece hoje em dia querer imitá-lo, mas à séria… A minha preocupação tem sido não usar a expressão “Não havia necessidade”. Não é agradável ser comparado a um Diácono Remédios.”

Clara Ferreira Alves também escolhe o Diácono como o grande personagem da série. “O “Não havia necessidade” fez esse grande milagre, que fazem alguns versos de grandes poetas: entrou na língua portuguesa”. E continua a usar “Lets look at the trailer”.

Nuno Artur Silva tem uma predilecção pelo Artista Bastos, escrito por Eduardo Madeira e Henrique Dias, pelo Herman Geographic, em cuja criação participou, e que foi escrito por João Quadros.

Depois, veio o declínio.

“Se o Herman tivesse nascido nos Estados Unidos, sobretudo na Califórnia, seria uma estrela absoluta. Em Portugal, é difícil agradar. Há sempre um desejo de matar alguém em Portugal, e o Herman foi um desses casos bem sucedidos. Havia um desejo compulsivo, a partir de certa altura, de não achar graça e de dizer que o Herman estava acabado”.

Como é que Herman se revê?

“Com ternura e inveja. Ternura por me sentir, aqui e ali, relativamente imaturo; e inveja porque aquela pele de 43 anos imprime muito melhor do que a actual. Toda a perda é dolorosa. A perda de uma certa inocência e quixotismo. A perda de dezenas de amigos cuja saúde não resistiu à passagem do tempo. A perda de uma inconsciente felicidade de quem se sente praticamente imortal e centro do mundo. A perda da visão total que me permitia ler o teleponto a metros de distância sem qualquer ajuda”.

O Herman Enciclopédia teve duas séries. Frequentemente, depois de terminado o programa, no decorrer da ficha técnica, aparecia, cereja no topo do bolo, o Diácono Remédios.

- “A minha mãe a portar-se como aquelas cadelas infiéis... Uns seios enormes, como as bossas de um camelo. Enquanto vários homens abanam os seus bacamartes-s-s”.

E abanando a mão sapuda e mole, exortava ao recolhimento:

- “Ide, ide para as vossas casas”.

 

ps: "Let's look at the trailer" foi criado por Nuno Markl

 

 

Publicado originalmente no Público em 2010. 

 

Curso de Cultura Geral - 11 Mar 2018

11.03.18

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Este é o célebre começo do poema Tabacaria de Fernando Pessoa. Os versos são um enunciado sobre um mapa interior, uma relação com o universo, o sofrimento, o sonho como experiência humana. Está aqui a grande interrogação e a grande procura, considera o psicanalista João Seabra Diniz. Há aqui um substrato que vai sendo composto, uma compreensão histórica: vimos de um lugar, temos em nós um contexto cultural, um passado, uma raiz. Somos seres de cultura que pertencem a um lugar, que habitam um tempo que não é unívoco. Seabra Diniz tem intimidade com a poesia de Pessoa, Raul Brandão, T.S. Eliot, Dante.

Martim Sousa Tavares não está naquele meio do caminho de que fala Dante quando começa a Divina Comédia. É muito jovem, estuda nos Estados Unidos para ser maestro, o piano é o seu instrumento. Porém, não é preciso ter os 30 anos do poeta florentino para compreender que temos dentro de nós uma “selva oscura”, um lugar onde precisamos de figuras tutelares, que nos acompanhem na descoberta. O compositor alemão Schumann encarna, para Martim, a ideia de homem bom e artista ideal.

Ana Margarida de Carvalho é escritora. Com os dois primeiros romances venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Os dois livros têm títulos roubados a autores que são uma referência: Que importa a fúria do mar pertence a uma canção de Zeca Afonso. Não se pode morar nos olhos de um gato é um verso de Alexandre O’Neill. O livro mais recente, de contos, tem o título de um disco de Sérgio Godinho: Pequenos delírios domésticos.

 

A lista de Ana Margarida de Carvalho, escritora

  1. Chico Buarque;
  2. 2001: Odisseia no Espaço (1968) de Kubrick;
  3. Monty Python;
  4. Filmes de Woody Allen e livros de Saramago;
  5. Hamlet, Shakespeare;
  6. A Casa dos meus trisavós que ardeu;
  7. Um conto de Tchékhov;
  8. Zeca Afonso/ Sérgio Godinho/ Fausto/ Jorge Palma/ José Mário Branco;
  9. Manoel de Barros;
  10. Rodin.

 

A lista de João Seabra Diniz, psicanalista

  1. A descoberta da natureza, a sensação de pertença ao Cosmos. “Não posso ver uma árvore sem espanto... extraio ternura de uma pedra” – Raul Brandão, 1918. “Para ouvir passar o vento já valia a pena ter nascido.” – F. Pessoa;
  2. Ouvir ler, antes de saber ler, é uma experiência infantil muito viva. Ler é a descoberta do segredo dos livros, o encontro com as histórias dos outros;
  3. A descoberta das línguas diferentes da nossa; permite o contacto directo com outras culturas, compreender melhor quem é o homem, quem somos nós, como é a nossa cultura;
  4. A música e a arte em geral. Na infância, ouvir cantar traz o desejo de cantar também. Ouvir falar do bonito e do feio, abre a curiosidade para o mundo da arte e para a qualidade estética das coisas;
  5. Noção de História: a criança que nasce é como um adulto que entra num filme a meio (Umberto Eco). Tem que perceber como são os capítulos precedentes da história em que está a participar;
  6. As opiniões dos outros e a opinião própria. À medida que vamos organizando o nosso pensamento e o nosso mundo interno, confrontamo-nos com os outros e com a sua maneira de pensar e de sentir;
  7. O encontro com a Psicanálise e a atividade de psicanalista. A grande interrogação e a grande procura: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” – Pessoa. O sonho como experiência humana. Uma concepção do tempo: “Time present and time past, Are both perhaps present in time future, And time future, contained in time past” – T. S. Eliot;
  8. O encontro com João dos Santos e o Ano Internacional da Criança em 1979;
  9. O trabalho na Misericórdia de Lisboa com as crianças privadas de meio familiar normal e abandonadas;
  10. O trabalho com adopções.

 

A lista de Martim Sousa Tavares, músico

  1. A cultura começa com a educação; o ambiente cultural que tive em casa tem de ser o primeiro item na lista;
  2. A revelação do abismo da música: primeiro concerto do Grigory Sokolov a que assisti, em Sintra, lá para 2008 / 2009, e a insónia que se lhe seguiu;
  3. A Odisseia (tradução de Frederico Lourenço) em Abril de 2011;
  4. Recordações da Casa Amarela de João César Monteiro: o chamamento, ou despertar de um lado dionisíaco na minha natureza apolínea;
  5. Um mês em Veneza em Setembro de 2009, com uma bolsa de estudo, fui com 17 e voltei com 18 anos. Simbólico pórtico para o mundo adulto (como água que entra em terra seca);
  6. Ser aprendiz na oficina de mestres: Gilberto Serembe, Umberto Benedetti Michelangeli e Victor Yampolsky;
  7. Ainda sobre música: habituar-me e amar viver nesta solidão acompanhada;
  8. Deixar casa (Portugal) aos 21 anos para perseguir um sonho do qual ainda não acordei. (Todos os meus heróis são errantes.);
  9. Descobrir em Schumann o artista ideal e um homem bom. Quanto mais estudo a obra dele, mais me sinto próximo da minha própria natureza. Um pequeno busto dele vigia o meu trabalho no canto da minha secretária; 
  10. A minha obra preferida é aquela que está à minha frente em cada momento. Ou, a profissionalização da paixão.

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