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Anabela Mota Ribeiro

(Quase) Toda uma Vida - Cruzeiro Seixas

22.06.18

Artur Cruzeiro Seixas apresentou-se uma vez como "um homem que pinta". Uma das suas fotografias mais famosas mostra-o à mesa, com talheres polidos, um prato sobre o qual estão uns óculos. É um surrealista, o último dos surrealistas portugueses. Também poeta. A amizade com Cesariny é, de certa maneira, fundamental para entender o seu percurso; mas há outros interlocutores importantes para décadas de produção pictórica e poética. Vespeira, António Maria Lisboa ou Mário-Henrique Leiria são alguns deles. Pertence a uma geração que praticou a insubordinação, que se manifestou provocando escândalo, que quis ser livre. O traço fino revela um universo onírico, rico, é uma janela para um mundo que é seu. Vive na Casa do Artista, nasceu em 1920. É o próximo convidado do (Quase) Toda uma Vida: dia 1 de Julho, às 17h, no Centro Cultural de Belém.  

Ler no Chiado: Lisboa!

21.06.18

Os espanhóis Rosa Cullell e Javier Martín escreveram "Lisboa, a minha e a tua", um guia da cidade que é também um diário das suas vidas aqui. Joana Stichini Vilela nasceu na capital, escreveu sobre a Lisboa que está para trás nos livros Lx 60, Lx 70 e Lx 80. Fernando Medina nasceu no norte, é presidente da Câmara de Lisboa. Todos são lisboetas: vamos saber o que isso é, discutindo as múltiplas identidades que a cidade tem, a transformação operada pela chegada de turistas e estrangeiros, os encantos e desafios. É com eles que vamos falar no Ler no Chiado, dia 28 de Junho às 18.30 na Bertrand do Chiado. Moderação de Anabela Mota Ribeiro.

Filipe Seems, um herói de BD

14.06.18

Os álbuns “Ana” (1993), “A História do Tesouro Perdido” (1994) e “A Tribo dos Sonhos Cruzados” (2003), escritos por Nuno Artur Silva e desenhados por António Jorge Gonçalves, fornecem um retrato de um herói enquanto jovem. Filipe Seems.

São a biografia de uma pessoa, que só por acaso não é de carne e osso; e de uma cidade, Lisboa, imaginada por ele.

A BD começou por ser publicada no semanário Sete. Depois em álbum. Depois fez-se a adaptação para teatro, na peça “Conspiração”. Primeiro protagonizada por Nuno Lopes, depois por Marco de Almeida. Os restantes cúmplices eram Sandra Celas e Kalaf, música de Armando Teixeira, coreografia de Amélia Bentes.

A peça deriva do terceiro tomo, “A Tribo…”, uma novela gráfica, mais do que um álbum BD. A versão vídeo, realizada por Pedro Macedo, está agora a ser lançada numa caixa que reúne todos os álbuns, o DVD e desenhos originais.

Muitos anos depois, fecha-se um ciclo. Formalmente fecha-se um ciclo. António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva já não são os mesmos. E Seems?

Por onde se começa? A compor uma ficção, a desvendar um mistério, a amar uma cidade. Talvez pela luz dourada sobre o rio, que é um mar. Pela vista esplêndida. Por uma cena assim: sapatos de detective pousados sobre a secretária, uma mulher óbvia e ondulante que entra pela porta, uma citação de Picasso. “D’abord on trouve, puis on cherche”. Primeiro encontra-se, depois procura-se. Este será o modus operandi deste detective.

Escolher o enigma e não a solução.

Seems, Filipe Seems. Parece que.

O ambiente de Seems: não há vestígios da soturnidade do film noir ou do romance à la Chandler. Mas melancolia, sim. Não há citações de Cesário, mas de Pessoa. (Há uma prancha em que se lê, no café, o Livro do Desassossego). Não há mortos. E é verdade que a primeira vez que alguém diz: “mãos ao ar”, o que se aponta é uma máquina fotográfica – arma dos tempos modernos, objecto conhecido e identificado.

Viramos a página. Subitamente, canais junto ao elevador de Santa Justa, gôndolas venezianas, escadas, escadas. Uma Lisboa impossível. Um objecto de desejo.

Começamos, de novo: o problema essencial é o problema de Seems. Que caminho seguir. Que escolha fazer. Qual é o fio da nossa história. Perante a bifurcação permanente, que narração escolhemos, de que narração fazemos parte. Tudo perguntas, tudo questões, deixadas em aberto. Não interessa a resposta, interessa o caminho para lá chegar.

O princípio mesmo. Lisboa, 1992. Dois amigos. Nuno Artur Silva, António Jorge Gonçalves. “Lisboa era uma cenografia pronta a receber histórias. Uma cidade com um potencial extraordinário. E havia histórias por contar e imagens para desenhar”, diz o argumentista.

Percorreram a cidade uma e outra vez. Fizeram repérage, como quando se prepara um filme. Mas a pensar em álbuns de banda desenhada. Escolheram décors, escolheram o ângulo, escolheram o absurdo que lhes apetecia. Por exemplo: “Acho que vou dar um mergulho”, e a seguir estão golfinhos a nadar no Tejo. Ou o Terreiro do Paço, completamente inundado, como se fosse S. Marcos em dias de maré-alta.

Tudo isto sem gastar dinheiro ou pedir autorizações. Ao contrário dos filmes. Coisas que a literatura permite. E também há, por falar em Lisboa absurda, a imagem poética da cidade coberta de neve. Neve espessa, de um branco opaco.

O cenário era este. Depois, era preciso um herói que ligasse os pontos, que lhes desse um sentido, que contasse uma história. Que a contasse à medida que a descobre. Descobrir, procurar – nesta ordem. Podia ser um poeta, mas é um detective. Faz o que fazem os detectives: segue as pistas. Outra citação, René Char: “Um poeta deve deixar pistas e não provas; Só as pistas fazem sonhar”.

Filipe Seems. “Em termos práticos, nasci em 1993, ano em que me inventaram. Mas as minhas histórias passam-se num futuro mítico. Será 2016, 2020? Se quiser, eu não tenho tempo, eu não tenho idade. Sou uma ficção, uma utopia. O que está por trás de mim é a ideia de que todos somos obras de ficção. Vivo numa cidade mas esta cidade não é só a cidade real. Aliás, esta cidade é sobretudo a cidade irreal. É a cidade que eu posso transformar. É a cidade em que, na esquina, posso ter aquele jacarandá e imaginar tudo o que quiser: gôndolas venezianas, naves espaciais. Esta cidade tem pessoas. Cada pessoa é uma obra de arte, uma obra de ficção. O meu cruzamento com essas pessoas tem que ser um cruzamento que provoque, que estimule, que inspire. Eu tenho que ter uma existência literária. Eu quero ter uma existência literária. Porque essa é a forma de viver inspiradamente”.

O excerto é retirado de uma entrevista de 2003, a única entrevista dada por Seems. Ou seja, por Nuno Artur e António Jorge a responderem na pele de Filipe Seems.

Da mesma entrevista.

“Qual é o seu passado? Que infância foi a sua?

- Que quer que lhe diga? Em miúdo, vivi num bairro típico de Lisboa, fui o miúdo do Molero [«O que diz Molero», Dinis Machado]. Joguei à bola no meio dos outros miúdos. Depois fartei-me de viajar sem nunca sair do bairro. Depois isolei-me. Fartei-me de ler, de ver filmes. Continuei a viver no mesmo sítio, mas virado para dentro da minha cabeça. Foi esse o lugar onde sobrevivi.

Tem mãe? Foi embalado?

- Não. Ou se tive, também foi uma ficção. Não esqueça que eu não tenho o problema de pagar a renda, não penso em dinheiro. Sou apenas uma personagem perdida num labirinto de possibilidades, condenada a errar eternamente nesse labirinto”.

Coisas, factos, imagens do labirinto: um passageiro numa noite de verão, um gato elegante que vai à frente. Passeia no telhado, sem que isso pareça um número equilibrista. Funambulismo não é uma palavra usada. Mas serendipidade sim. (Serendipidade: faculdade de fazer descobertas felizes e inesperadas, por acidente). Palavra essencial na música do acaso de Seems.

Há números de circo (e moda) na Basílica da Estrela. Uma evocação de Pessoa ao volante de um Chevrolet, numa estada de Sintra. Há pessoas que comunicam pelo computador antes de o skype ser uma ferramenta de todos os dias. Há sessões de psicanálise, amigos cientistas, uma guia que acha que o ideal é deixar que os seus turistas se percam. Prestidigitadores, visões caleidoscópicas. Um azul árabe. Esquinas, jogo de sombras, edifícios oblíquos. Gaivotas esparsas. Roupa dependurada na janela. Temperatura solar. E Jorge Luís Borges, omnipresente.

Mais factos: “Convidei-a para um pequeno-almoço, a luz da manhã invadia os telhados”. Era n’ A Brasileira, e A Brasileira era mesmo A Brasileira. O mesmo recorte. Não havia coisas estrambólicas – ao tempo – e que depois não seriam tão estrambólicas assim. Como o comboio a passar debaixo da ponte 25 de Abril. (De certa maneira, Seems apresenta também uma Lisboa premonitória).

Há bicicletas que andam no ar, com um balão. Um funicular liga a Baixa e o castelo de S. Jorge. Um eléctrico igual ao 28 que percorre as colinas de Lisboa e onde fanam carteiras aos turistas.

Detenhamo-nos no eléctrico. No primeiro álbum, “Ana”, é um funicular. No segundo, “A História do Tesouro Perdido”, há um bar que funciona num eléctrico chamado Desejo. (Sem Blanche Dubois à vista). No terceiro, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, o eléctrico é o mesmo, mas eles não. O eléctrico aporta numa estação soturna, com estalactites e estalagmites. (Cesário nunca vem ao caso). E por isso, o espaço que atravessa é subterrâneo, dark, perdido do seu sentido.

O fio principal: “O primeiro álbum tem a ver com o universo das histórias. É dominado pela errância do personagem e pela frase de Picasso. A partir daqui, quis fazer arte pop. Colagem, mistura, cruzamento, sobreposição. Tudo o que a BD permite, de modo simples e imediato. Misturar o universo borgesiano com Philip K. Dick. Cruzar um passado mítico e visões futuristas. A Costa da Caparica que aparece é a do [modernista] Cassiano Branco (de um projecto que nunca se chegou a concretizar). Tudo num só tempo”.

Tudo cheio de múltiplos sentidos, múltiplos fios. Um exemplo: Maria Kodama, dona de uma clínica de clonagem em “Ana”, é o nome da mulher de Jorge Luís Borges. Alice Lidell, que dá nome à clínica, é o nome verdadeiro da Alice do país das maravilhas.

Nada elementar, meu caro Seems.

Voltamos a Nuno Artur Silva e ao coração destas fábulas: “O António Jorge queria desenhar luz, luz, luz. Eu gosto de histórias de tesouros. Qual é o sítio mais improvável para enterrar um tesouro e encontrar um marinheiro? No meio do deserto”.

N’ “A História do Tesouro Perdido” mistura-se Casablanca e a “Ilha do Tesouro” de Stevenson, Corto Maltese e os Descobrimentos Portugueses, Al Berto aparece, himself, como director de um museu, há um misterioso casal de atlantes. Mas os andróides/atlantes/replicants vêm do primeiro álbum. Numa citação explícita de “Blade Runner”, e Harrison Ford cara a cara com Filipe Seems.

E o tesouro? “Mais importante é estar na pista do que encontrar no tesouro”, diz Nuno Artur.

Sempre a mesma ideia base.

Dez anos mais tarde, no terceiro tomo da trilogia, em vez de um tom luminoso e solar, há fantasmas por resolver. Tudo se passa no undergroung, nos subterrâneos dele próprio – Seems – e de Lisboa. Sombras e nevoeiro. Escuro cá dentro. Talvez seja sempre noite. Seems sem conseguir ver o dia. Cidade em escombros. Corredores e corredores de metro. A única imagem solar é a dos Jerónimos transformados em praia tropical. Bizarro.

E há um fio condutor, roubado a Chatwin, que por sua vez o roubou aos aborígenes do deserto australiano. Os tais que se guiam por canções e não por mapas. (Roubar é um modo de dizer.) Quando se muda o sentido, o caminho, o fio? Quando acaba a canção.

Filipe Seems deve, então, seguir a sua songline. Sair dos escombros. (Todo o cenário do último álbum, aliás, é pré e pós apocalíptico). Uma rede terrorista faz atentados. A sociedade sucumbe a uma overdose de imagens e sons. É preciso chegar ao silêncio. Soterrado, soterrado. Filipe Seems precisa de abrir uma fenda no muro.

António Jorge Gonçalves: “N’ "A Tribo", somos outros a revisitar um lugar onde muito tinha acontecido”. Graficamente, é outro objecto. “Achei que era eu que estava a marcar demasiado a diferença por incapacidade de voltar a uma linguagem de "juventude"; mas a certa altura percebi que o Nuno também não era o mesmo, e que já tínhamos mudado de século, e que já tinha acontecido o 11 de Setembro, e que...”

E que coisas querem dizer? “Nos dois primeiros queríamos apenas jogar; no terceiro precisámos dizer. O meio da banda desenhada (essa pequena aldeia de irredutíveis) não aceitou muito bem essa diferença e acho que decepcionámos alguns fãs.

Mas para mim é límpida a supremacia do autor sobre o leitor numa obra (quer dizer: o autor fá-lo por necessidade, não escolhe. O leitor tem a liberdade de decidir se quer ou se não quer)”.

Onde começou a alucinação?

“A mulher que comigo agora se cruza é o meu grande amor e ambos ainda não o sabemos. O homem que saiu do táxi tem uma missão: vai salvar doze pessoas e ainda não sabe. O outro, que entrou no táxi, é um assassino, vai atrás da sua vítima, e sabe-o”.

Linhas, fios, histórias, enredos. Viver, literariamente, que é como vivemos, talvez se trate de encontro e desencontro. O problema talvez seja desencontrarmo-nos dos nossos passos, ou seja, da nossa ficção. Mas há sempre outra ficção…

Filipe Seems diz: “Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo”.

Faites vos jeux, os fios estão lançados.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2009

 

Manuel Hermínio Monteiro

08.06.18

A conversa que a seguir vão ouvir, aconteceu numa destas tardes de sol. Do sol radioso que encharca de esperança os primeiros dias de Primavera. Manuel Hermínio Monteiro, o mítico editor da Assírio e Alvim, refastelou-se no sofá para desfiar o novelo da sua vida cheia. Como ele diz, logo no começo, a ponta pode ser a que nos aprouver que há-de sempre dar ao mesmo.

Decidi começar por um lugar que cruzava as palavras e as memórias, umas e outras em catadupa. Um lugar que é talvez o mais belo recanto do Douro. E por isso de Portugal. E por isso do Mundo. Conheço esse sítio há muito porque me fiz, também, em terras transmontanas. O que, como perceberão, tem a sua importância. A marca da terra, espessa, fez-me assim, fê-lo assim.

Esta é a vida de um transmontano, um transmontano de boa cepa. Calha de haver uma flor maligna que lhe traga a carne. Até ver. Como ele dizia, quando pela primeira vez o vi depois de saber, «Estou bem», embrutecendo o tronco, referindo-se à força, à robusteza.

A seguir, que é para isso que servem as introduções, têm a vida deste homem. E dentro dela a vida toda.

  

Começamos por onde?

Sei lá. Como a vida anda às voltas, pode ser por qualquer lado.

 

A vida anda às voltas?

Muitas. A minha é uma vida muito cheia.

 

Podemos começar por S. Leonardo de Galafura, o recanto do Douro escolhido por Torga, que, presumo, conheça.

Conheço. Dizem-me agora que na encosta contrária ainda há outro miradouro mais bonito, S. Salvador.

 

O seu lado do Douro é o do Pinhão.

A minha terra é mais para interior, perto de Murça, Alijó. Do meu lado vejo Favaios, Sanfins, Vilar de Maçada.

 

Nasceu na aldeia, em Parada do Pinhão. Viveu lá até que idade?

Fiz lá a Primária. Vivi no século passado, posso dizê-lo. Vi chegar a electricidade, a rádio, a televisão.

 

Era um outro tempo para o país, e sobretudo para o interior.

A escola era uma mesa muito grande numa sala; em bancos corridos estavam numa pontinha os meninos da primeira classe e na outra ponta estavam os da quarta, alguns já com 17/18 anos.

 

Passavam directamente do campo para a escola?

Andavam ali a arrastar. Uma vez um contou que a professora lhe tinha dito: «Se fizeres os deveres vais amanhã dormir comigo». Ele chegou ao pé da mãe e disse: «Ó mãe, dê-me umas cuecas novas que amanhã vou dormir com a professora!» Ainda levou nas orelhas.

 

A professora era quem? Era uma moça da aldeia?

Comecei com uma professora que levei até ao fim. Marcou-me muito e ainda hoje a recordo com muita saudade. Vive agora em Cascais, chama-se Lúcia. A minha professora deve ter sido das primeiras do Magistério; as outras tinham a quarta classe. Logo a seguir inaugurámos uma escola nova. Excelente, a escola, com entrada em arco, azulejos à volta, e tal.

 

A Professora Lúcia acompanhou a sua escolaridade primária. Onde eu queria chegar era à sua primeira relação com as palavras.

Deve-se muito a ela. Uma relação de encantamento. O que é extraordinário é que andamos sempre à procura. Do Graal, às tantas. Antes de irmos para a escola estamos num estado absolutamente delirante. Eu já sabia os reflexivos, os pronomes, as preposições...

 

Como é que já sabia?

Era uma música. Ouvia os mais velhos e decorava.

 

Ouvia-os do recreio?

A escola era mesmo no meio da aldeia; ouvia cá de fora e depois perguntava aos mais velhos. Quando vamos para a escola, imaginamos que vamos aprender coisas. Uma ansiedade. Como depois temos quando vamos para o Liceu; julgamos que ali é que vai ser a sério. Depois a Universidade é que vai ser a sério. Para chegar à conclusão que andamos permanentemente à procura de qualquer coisa que não existe. Tal e qual como a felicidade.

 

A felicidade não existe?

Com a idade vamos percebendo que a felicidade é uma aquisição muito delicada, muito trabalhosa. Esgaravatar numa mina, mexer muita terra, muita pedra, e depois, de vez em quando, lá aparece um bocadinho de minério. A felicidade também é assim. São momentos fulgurantes, extraordinários, mas não existe em estado puro. Nada existe nesta vida em estado puro.

 

O que é que se pode retirar dessa lida diária?

Mas é isso, é o trabalho diário, é a busca. E talvez sim, talvez se consiga. A consciência disso leva-nos a valorizar cada vez mais esses momentos, esses pedaços de cintilância. Isto vem a propósito?

 

Da aldeia, dos parcos recursos.

Como é que com pouquíssimos livros..., raramente víamos um livro, uma imagem.

 

Não tinham livros em casa?

Não. E não tínhamos ainda televisão, éramos muito virgens em termos de imagens. A cultura era muito interessante; desde cantares, guitarras, uma forte tradição do teatro, festas feitas conjuntamente – havia laivos de comunitarismo permanentes. Ao mesmo tempo a aldeia fechava-se, como se um medo a rodeasse, «Fulano de tal ainda não chegou à terra?». Imaginavam-se coisas completamente loucas, derivadas também das casas onde o vento soprava pelas frestas, o soalho muito antigo rangia, a luz da lareira era móvel; parecia que estávamos em empurrões de barcos. Isto a juntar àquela imaginação alucinada, como ainda é lá em cima, do maravilhoso celta; ou, para não sermos tão caros, a imaginação do próprio meio que fermenta coisas - uma vez que não havia esta dispersão que há hoje.

 

Qual era o seu ponto de observação e participação nesta vivência comunitária?

Tinha uma experiência muito colectivizada porque a minha avó tinha um forno onde as pessoas iam fazer o pão e o meu avô tinha um grande alambique onde se juntava o pessoal todo, com a concertina, e mais não sei quê.

 

O que representava a sua família na aldeia?

Eram camponeses. O meu pai e a minha mãe casaram cedíssimo: a minha mãe com 16, o meu pai com 18, dois miúdos filhos de volframistas.

 

Naquele tempo era comum casarem tão cedo e terem filhos logo depois.

Nasci um ano depois. Tive sempre os meus pais muito novos e uma família muito numerosa: muitas tias, muitas primas, em idade casadoira. Lembro-me bem dos vestidos delas, muito vaporosos, de se pentearem. A minha tia tinha raparigas que iam para lá aprender costura. Um gineceu fortíssimo, sempre a ser esmagado por abraços apertados.

 

E gostava ou não?

Às vezes apertavam-me demais, já fugia! Mas na verdade sentia-me um reizinho. São coisas que nunca mais se esquecem: a pressa para irem à missa, os dias de sol, a luz da Primavera.

 

Num dia claro de Primavera, como é este, é isso que rememora?

Lembro-me muito da minha infância. É uma espécie de película impressionável: o que fica ali registado, marca muito, muito mesmo. Tive a felicidade de ter uma infância completamente rural. O meu avô ia podar, levava-me com ele, deitava-me no casaco dele. Nesta altura, que é das primeiras ervinhas e flores, enquanto ele cantava aquelas canções, o Pinhão vinha com fragor por ali abaixo, e sentia os lampejos do sol nos açudes. Para um miúdo de sete anos isto era uma coisa fabulosa. Acordar num casaco a cheirar a tabaco _ o meu avó fumava onça - e ficar a olhar. Ficar com as florzinhas em primeiro plano, ver o mundo mais rasteirinho. Nunca mais esqueci. De tal maneira que ainda hoje a maior parte dos meus sonhos são: águas límpidas, rosas, pereiras floridas, o meu pai a mostrar-se sítios por onde passávamos quando íamos à feira.

 

Respira, assim, um tempo que já não existe. Como é que sai da aldeia?

Apareceu a hipótese de ir para um colégio de Salesianos, com as duas vertentes, para padre ou não. Ficava em Arouca, num antigo convento, sinistro. Fui logo a seguir à quarta classe, com dez anos. Nunca tinha saído lá de cima, nunca tinha visto o mar.

 

O seu mundo era a aldeia, e os campos à volta.

E as romarias, e as feiras: a Sra. da Pena, a Sra. da Saúde, a Sra. da Piedade. Adorava, adorava aquilo. Conhecia outras aldeias. Mas, naquele tempo, íamos a outra aldeia sempre com o risco de levar uma pedrada. Para irmos a Justes – as terras ali mais perto eram Justes e Vilar de Maçada, que é a terra do [José] Sócrates – fazíamos uma aventura extraordinária, com um cuidado extremo. 

 

Onde lhe parece que radica essa incrível rivalidade?

Talvez sejam reminiscências de castreja, não percebo de outra maneira. Agora está melhor, há mais circulação, carros vão e vêm.

 

Há a televisão.

E as comunidades dissolveram-se, com a emigração, por exemplo. Hoje na minha aldeia, há uma geração jovem muito civilizada, educada, que estuda e circula. Organizam-se para o teatro, para o futebol, têm um grupo coral, até já gravaram um cd. Na altura, eram ódios terríveis. Isto é uma conversa de Antropologia que dava para irmos por aí fora!

 

A aldeia era visitada por almocreves, ou havia uma venda onde coincidia o café, a mercearia, a farmácia, etc?

Existia uma economia natural, de trocas directas. Nas feiras trocavam-se sacholas por feijão.

 

Os seus pais trocavam o quê?

O que tinham: milho. O meu pai tinha algum dinheiro, mas muito pouco, porque tinha explorações de resina. Está bem que o meu avô vendia aguardente e teve muito dinheiro no tempo do volfrâmio, tinha certa produção de vinhos, e o vinho sempre se vendia. Mas imperavam as trocas directas.

 

A relação era muito mais desprendida com os objectos. Que trocas eram as suas?

Nós só jogávamos ao botão.

 

A sua primeira namorada era da aldeia?

Sim.

 

Eu recordo os quilómetros que os namorados faziam para encontrar ao domingo a namorada, que vivia noutra aldeia, para, por fim, ficarem uma hora a falar na berma da estrada.

Uma vez inventaram-me um namoro, que nem era verdade!, em Sanfins, os sacanas, já andava no colégio Almeida Garrett. Levaram-me à fonte e tive de pagar um garrafão de vinho ao pessoal! Mergulharam-me a cabeça para ser adoptado.

 

Uma praxe. E nisto estamos já no Porto.

Depois da Primária estive dois anos nos Salesianos em Arouca, e depois três perto de Coimbra, onde completei o quinto ano.

 

Quando foi para os Salesianos, era para ser padre?

Digamos que tinha uma certa tendência. Por uma razão simples: numa aldeia, neste contexto de que lhe falo, o que produzia um fascínio, fascínio, fascínio, era a religiosidade.

 

O que era tão fascinante?

Para já, havia um delírio religioso, mesmo que não fosse ortodoxo. A presença da bruxaria, do sobrenatural, do Além. Antigamente vivia-se nesse mundo. E pessoas que não mentiam, (homens de uma verticalidade, de uma palavra dada...) viam coisas.

 

Também via coisas?

Uma vez estendi a mão para tocar numa senhora que julgava que estava ao meu lado. Imagine o que eram aquelas eiras quando no Verão ficávamos a olhar para o céu, a imaginar o que era o mundo, a chegar lá apenas por intuição. Então, o mundo da igreja, os bastidores dos altares...

 

Chegou a ser acólito?

Ajudar à missa? Montes de vezes.

 

Não estou a vê-lo feito papinho de anjo...

Nos Salesianos, onde cheguei todo sujo do carvão do comboio, nunca consegui ser dos bem comportados.

 

Demorou quantas horas a chegar?

A primeira vez que fui, ainda não tinha chegado à Régua, perguntei: «Ainda falta muito para o Porto?». Era preciso meter água, era preciso meter lenha, depois manobras à espera do outro. Mas também eram uma animação, aqueles comboios. Concertinas, gaitas-de-beiços, comezainas, garrafões, tipos a contarem anedotas, tipos a venderem romances de cordel.

 

Viu o «Rio do Ouro» do Paulo Rocha? É disso que está a falar?

O ambiente era ainda mais denso. Entrava uma mulher com cerejas, ia de Godim à Régua: dava logo cerejas ao pessoal. Dava! Vender, vendiam bilhas de água, regueifas, todo um conjunto de coisas ao longo da linha. E um calor infernal!

 

Como por lá se diz, «Nove meses de Inverno e três meses de Inferno». Para não perdermos o fio à meada, aterra no colégio sozinho. O normal era que os miúdos fizessem a quarta classe e ficassem por ali. Como é que se decidiu que continuaria os seus estudos?

Conheciam um padre salesiano ali perto, o padre Álvaro, que perguntou ao meu pai, «Porque é que ele não vai?, tal, tal, tal...». Já estava decidido que ia estudar: tinha um jeitinho, e portava-me bem nas aulas. Eu queria ir, e gostava, embora sofresse como um cão. Com saudades, chorava que era uma coisa doida.

 

Cortou com o universo encantatório da infância.

Diziam-me «Mas vai-te embora»; mas por outro lado cria-se a relação com os amigos e há o orgulho, não se quer ir para trás. É um desafio. O meu avô dizia «Como é que o rapaz está lá naquela coisa dos padres?, sem lareira e sem vinho!» [sorriso]

 

Davam-lhe sopas de vinho?

Não, mas às escondidas o meu avô dava-me às vezes um bocadinho de aguardente, tinha a mania que já era um homenzinho.

 

O que é que mais gostava no contacto com as palavras, de ler, de escrever?

Ah, o que mais gostava era de contemplar. E ouvir os velhos.

 

Pela sua professora, tinha uma paixão?

Tem-se sempre. Ainda me lembro das saias delas!

 

A sua memória é prodigiosa.

Dessas coisas da infância, lembro-me bem, mais do que das coisas de agora. As saias, os gestos, o ir buscar as cartas do namorado ao correio.

 

Os seus pais ajudavam-no nos trabalhos de casa?

Sabiam ler e escrever, mas não me ajudavam. O meu pai adorava ensinar-me como cantavam os pássaros, a imitá-los a todos. Chegava a casa, saltava para cima dele com ramos de cerejas. A minha mãe é muito mais enérgica, ágil, nervosa como as mulheres de lá de cima.

 

Há um momento, já em Lisboa, em que pensa voltar para casa, para os seus pais, depois de passar pela prisão de Caxias.

Olhe que há muitas mais coisas para trás. Ainda nem passámos pelo Porto.

 

Então vamos ao Porto.

O Porto foi uma descoberta, o primeiro contacto com a cidade. Tinha muita malta cujos pais estavam em Hong Kong e que tinham motorista fardado, grandes carrões à porta.

 

Impressionava-o de que maneira?

Pela bizarria. Fascínio?, nenhum. Ao mesmo tempo era injusto: metia-me no Cabanelas e via aquela gente toda, pobre, a subir a Serra do Marão. Pobres mas muito alegres, diga-se de passagem. Não sei que aconteceu ao povo português. Acho que foram os primeiros rádios, sabe? Até para trabalharem nas vinhas levavam rádio, em vez de cantarem. Agora já nem usam rádio. No princípio a música era fundamental. Sempre fui sensível às injustiças. O Porto, o Porto ajudou-me a abrir. Era o período da Guerra Colonial, quase não havia homens nem rapazes. Os bailes eram só com raparigas.

 

Como é que entra nesta roda dos bailes?

Bailes que havia em qualquer associação, e também bailes privados. Arranjavam-se namoradas muito facilmente _ estava tudo lá fora. Na minha aldeia, havia o sol de Inverno, os cães, um e outro sentados, não se via mais ninguém. A partir dos 18 anos iam para a Guerra. Mas devo ao Porto ter-me desmamado em relação a uma série de coisas. Fiz também um esforço para sair de um certo maniqueísmo religioso em que tinha sido formado. Comecei a frequentar igrejas protestantes para ver como é que os outros pensavam.

 

 

 

 

 

 

Era profundamente crente?

Sim, sim. Já não muito de missas. Isso ajudou a libertar-me do que era o Bem e o Mal. É um percurso que tem de se fazer sozinho. Os amigos estavam noutra. Provavelmente não tinham as inquietações que eu tinha. Reflectia muito sobre mim próprio, escrevia já bastante, e tentava perceber o que se estava a passar. E havia outra coisa: para aquela malta do Porto, não ir às putas era o mesmo que ser maricas. Fazia-lhes uma confusão do caraças. E era uma coisa que também não percebia: como é que com tanta rapariga lindíssima... Tinha essa estranha relação homem-mulher facilitada, apesar de ter passado por um colégio interno, pelo facto de ter tido uma infância de gineceu. A malta nova ia toda para a Rua do Bonjardim, para as Candeias.

 

Frequentavam bordéis ou putas de rua?

Casas, o Porto estava cheio disso. Bastava descer a Rua dos Caldeireiros a passear... O meu avô, no tempo do volfrâmio, às vezes até trazia os trabalhadores para os Caldeireiros.

 

Escrevia para as raparigas?

Ah sim, escrevia. Aconteciam-me coisas extraordinárias: entrava num comboio e apaixonava-me, entrava numa camioneta e apaixonava-me.

 

Pela beleza, por aquilo que a pessoa emanava?

Não sei. Uma vez estava a contar ao José Agostinho Baptista e ele dizia-me «Tens uma imaginação maluca». As coisas estavam num estado de pureza... Eu tinha uma felicidade interior, uma tal transparência, que isso contagiava a outra pessoa.

 

Essa “imaginação” deixou de o acompanhar no amadurecimento dos anos?

Com o passar do tempo as pessoas deixam de ter disponibilidade para viver em estado de paixão. A minha mola foi sempre o afecto. Nunca pensei ser rico, ter poder...; outra coisa era o amor, isso sim, movia-me para o cu do mundo. O resto? Brrr...

 

Fala de uma relação de afecto que me parece tremendamente panteísta.

Tinha sempre a casa com flores, mesmo quando estava a estudar e tinha pouquíssimo dinheiro: 18 escudos iam para sécias, comprava meia-duzita todas as semanas. Já trabalhava na Assírio, metia-me sozinho, com o saco a tiracolo e um caderninho para escrever, primeiro no barco, depois na camioneta: Costa da Caparica, quilómetros por ali fora, ficava a olhar o mar. Fazia isto com uma regularidade extrema. A partir de determinada altura o tempo não chegava para nada, nada!

 

Responsabiliza sobretudo o tempo? Estava a pensar que naturalmente há uma inocência de que se perde. As pessoas deixam de ser puras.

Chega uma altura em que nem damos conta de como tudo se passa. Ficamos absorvidos, e depois queremos mais, cada vez mais, e já não conseguimos parar, a não ser que aconteça qualquer coisa de muito...

 

Esteve ainda um ano em Direito.

Quando vim para Lisboa foi para fazer Direito, mas praticamente não fiz nada. Direito estava ocupado, era o tempo do Martinez.

 

Porque é que vai para Direito? Ainda por cima já escrevia, já sabia que lhe interessavam as palavras.

O que queria ser era poeta. Os poetas que lia mais, o Pascoaes, o António Patrício, alguns Simbolistas, eram todos licenciados em Direito. Julgava que o Direito... Uma ingenuidade!, como aliás tinha muitas. O mundo era assim, não precisava que fosse mais complexo. Fica-me mal dizer o eu, mas há uma água límpida que ainda mantenho.

 

É o seu lado aldeão.

Não tenho ninguém a quem desejo mal, acredita? Posso não simpatizar, mas não conseguia atirar uma pedra a ninguém. Nem aos de Justes! [riso]

 

Os seus pais acompanhavam o seu projecto?

Cresci sozinho, praticamente sobrevivi sozinho. No Porto, tinha muito pouco dinheiro, os meus pais também tinham muito pouco dinheiro. Tive a minha fase freak, como todos. Quer ver como é que eu era?

 

Quero.

[Mostra uma fotografia com a mulher, Manuela, em Marrocos]

Isto é nos anos imediatamente anteriores à Revolução. Tínhamos a sensação de que o mundo ia mudar e que estava ali, ao alcance da nossa mão. Estamos a dispersar-nos muito, não?

 

Vamos recentrar em Lisboa, no primeiro ano de Direito.

Não, Direito é de ignorar, é só matrícula e mais nada.

 

Lisboa, depois do Porto, é um novo mundo. Ainda se identificava como um rapaz da aldeia? Pelo facto de ter estudado, a sua vida passou a ser completamente diferente da vida dos rapazes da terra.

Na aldeia só estive dez anos, nesta altura já tinha outro tanto fora. Mas mantive uma relação muito forte com aquilo. Em Lisboa, numa primeira fase, toda a malta de Trás-os-Montes se encontrava. Desde cirurgiões, a tipos do PC, a tipos da Pide. Desde malta de Montalegre a malta de Vila Real. Juntava-se o pessoal todo ao pé do [café] Gelo.

 

Discutindo a situação do país?

Não. Era talvez puro instinto, pura defesa. Dos que não conheciam isto, dos que conheciam bem. E depois rapidamente se passou a uma fase, por que passei também, de repulsa por tudo o que era rural. Aquilo parecia-me uma piroseira do caraças, as músicas e tudo. Estive muito tempo sem lá ir.

 

Porque se fascinou com uma Lisboa sofisticada?

Julgo que foi um processo mais cultural, que começa nos livros e no que se aprende. Há coisas que irritam!, que, aliás, ainda hoje me irritam: um atavismo, um não querer saber, uma preguiça natural.

 

Foi tudo hiperbolizado.

Parecia-me atávico, justamente. E ridículo: os rapazes chegavam de bicicleta aos bailes, com óculos espelhados comprados na feira! Vinham juntos, mas depois, à frente das raparigas, atravessavam o baile para se cumprimentar. Hoje tudo isso me encanta, mas na altura achava hipócrita.

 

Tinha algum amigo da escola primária?

Sim. Que estudassem só uma rapariga e um rapaz; ela é hoje professora, e foi o único caso de chegar ao fim do curso como eu. 

 

Estava a tentar perceber se ter tido acesso a outros universos o demarcou das pessoas que conhecia.

Não muito. Nunca julguei as pessoas pelo que sabiam. Nunca fiz qualquer discriminação pela pessoa ter o curso ou não ter, ser assim ou assado, ser pobre ou rico. Quer dizer, é uma coisa tão natural que o simples facto de falar nisto mete-me impressão. E nunca tive mitos, nem Marilyn Monroe, nem Jim Morrison; a única coisinha que talvez tenha tido foi pelo Che Guevara. As pessoas fascinaram-me sempre muito mais. Na hora da sesta, enquanto os outros iam dormir, passava o tempo a ouvir os velhotes. Horas e horas e horas. E depois continuou, com o Agostinho da Silva, que ia ouvir de vez em quando.

 

Quando é que encontra o Agostinho da Silva?

Anos 70, pouco depois de vir para cá. Um amigo disse-me «Tens de conhecer o Agostinho». Só não ia mais vezes visitá-lo por causa do cheiro dos gatos; (com o cio, o cheiro é insuportável).

 

A sua gata, Gueixa, cheira?

Não, os machos é que é uma coisa terrível. Ele vivia no terceiro andar e sentia-se no fundo das escadas.

 

Então, é um rapaz universitário que vai parar a Caxias. Conte lá a história, antes de aprofundarmos a sua relação com as letras e com a Assírio.

No Porto já participava numas coisas pró-social. Com o Bispo do Porto e uma certa igreja mais prá-frentex, com um grupo de jovens. Havia uma espécie de reflexão, um centro na Rua do Rosário, com a Irmã Humberta; cantava umas baladas do Fanhais e do Zeca Afonso.

 

Estavam ligadas para si essas duas componente, a religiosa e a política?

Por acaso nunca tive grande sentido político. Na faculdade deixei-me motivar pela luta anti-Guerra Colonial, mandei umas bocas e pronto. Mais nada. Fui parar a Caxias basicamente porque estava a ouvir o Zeca Afonso no Centro Nacional de Cultura. Deram-me um enxerto de porrada inacreditável. Com a minha ingenuidade perguntava «Porque é que me está a bater?». 

 

A sensação mais forte é o medo?

É a de que se está nas mãos da mais completa arbitrariedade; podem-nos dar um tiro, podem fazer o que quiserem. Mas agora, estar a contar isto tudo...

 

Custa-lhe?

Não. Mas foi a primeira machadada na minha vida. Até essa altura tinha sido como um pássaro, à solta. Cortaram-me o cabelo todo, que era enorme, implicaram com as coisinhas que trazia no saco: um caderninho, umas almofadinhas bordadas que as minhas amigas me davam. Meteram-me numa cela sem um papel, sem um livro, nada, nada. Um dia parecia uma eternidade. Sabe o que me fez cair na situação? Perceber que já não mandava em mim, «Tens a mania que andas aí como um pássaro?».

 

Quanto tempo esteve?

Para aí uma semana. Lá dentro apercebi-me que havia luta; nos pratos, no alumínio, escreviam coisas como «Coragem, estamos contigo», «Resiste»; na enfermaria havia coisas escritas a sangue; e havia gajos que cantavam, cantigas alentejanas.

 

Quando sai quer voltar à terra. Formulou seriamente o desejo de voltar para a aldeia? Ainda se reconhecia nessa vida?

Estava farto. Essa coisa da Aura Mediócritas, como dizia o Sá de Miranda, é uma coisa que existe muito dentro de nós. Às vezes vejo colegas meus lá em cima, a tranquilidade com que estão com os seus filhos. A felicidade é aquela coisa projectada nos outros, felizmente estamos já avisados, sabemos que não existe. Mas nos poetas acontece muito, o Pessoa então, «Ai se eu pudesse casar com a filha da minha mulher a dias». Sempre o outro como representação, encenação da felicidade. Essa busca de uma vida calma, contemplativa, às vezes assalta-me. Na altura era insólito, por ser muito novo e ter o mundo à minha disposição.

 

Aos 22/23 anos vai para a Assírio como vendedor.

É preciso dizer que a Assírio estava de pantanas. A Assírio foi fundada em 72, depois esteve uns anos sem publicar; mais tarde o Homero, produtor do Página Um, tinha lá o escritório e deu uma mão, mais as duas pessoas que lá trabalhavam. Aquilo estava num regime de sobrevivência. Quando fui para lá, os livros editados não chegavam a dez. A Assírio vivia mais da distribuição que da edição. É nesse contexto que entro, um pouco desinteressadamente.

 

Já tinha acabado o curso?

Já me tinha matriculado em Sociologia em Évora!, para ver as voltas da minha vida. Fui para a Assírio para a parte das vendas, mas ali todos faziam tudo. Sabe como é que se sobrevivia? Quantas vezes fazendo bancas, para sacar algum dinheiro. Estava mesmo na penúria, penúria. Fui-me mantendo por lá, acabei o curso de História.

 

Vivia desse pequeno trabalho?

Já tinha tido outro numa agência que contratava artistas: os Genesis, os Procul Harum.

 

Conheceu essa malta?

Alguma, e outra que vinha para o Casino do Estoril, de românticos a stripers. Foi o meu primeiro trabalho, quem mo arranjou foi a Maria Leonor, da rádio.

 

Na Assírio assume em 78 a coordenação editorial. Imagino que tenha correspondido a um desejo de estabilidade que grassou por todo o país, passada a agitação política.

E a tropa. Fui para a tropa depois de completar o curso. Tinha sido já refractário, devia ter ido para os Fuzileiros antes do 25 de Abril. Não fui e andei a monte.

 

Em 78 assentou arraiais na Assírio. Deixou de ser o rapaz à descoberta do mundo?

Continuei à descoberta. Ainda fui fazer vindimas a França. Andei sempre muito à solta, parecia que o mundo todo me sorria. Nestas viagens, sozinho, amadurecia muito, fermentava.

 

Na base da mochila às costas?

Era assim mesmo, sem saber onde ia ficar. Nunca fiquei na rua.

 

O que é que queria da vida? Ou tratava-se de a ir descobrindo?

Descobrindo. Mas sempre à espera, com a sensação de que a seguir é que era. A seguir, a seguir.

 

Tinha desistido do sonho de ser poeta?

Fartei-me de escrever. Tenho ali cadernos que nunca mais acabam. Depois começa-se a publicar tanta poesia tão boa... Não sei se é muito importante.

 

Realmente?

Ah, a vaidadezinha, não tenho muito essa vaidadezinha. A vaidadezinha que tenho é colectiva, por amigos. Às vezes apetece-me escrever, é uma necessidade interior, um imperativo. Na verdade, posso não escrever poesia, mas vivência poética acho que a tenho. Escrevo coisas incríveis. Só que não as escrevo. É como se as escrevesse, andam assim por dentro. Poemas feitos. Metê-los no papel? Brrr...

 

O seu olhar é eminentemente poético, marcado pela vivência rural.

É a visão desde a infância. Ver tudo, com muita atenção. Podia escrever um livro de memórias, relatando a vivência com uma gente de que pouco se sabe, das histórias que lhes ouvi.

 

Portugal não tem tradição de livros de memórias. As biografias, noutros países vendem-se como pão quente.

Em Portugal as biografias não pegam, não sei dizer porquê. Eu gostava de fazer sobretudo pela vivência forte que aí tive, humanamente. É quase uma dívida que queria saldar. Podia juntar a minha experiência no Alentejo. E a minha experiência enquanto editor; podia fazer um livro extraordinário sobre os poetas que conheci, não só os poetas que publiquei, mas todos os outros: o Manuel da Fonseca que ia tanta vez à Assírio, o Ruy Cinnati que ia diariamente à Assírio...

 

As relações que a editora mantém com alguns poetas é mítica. É verdade que vão levar o almoço diariamente a casa do Cesariny?

É. Mas não é preciso contar isso.

 

O que me interessa é perceber a relação familiar que se estabelece entre si e alguns destes autores.

Sim, são a minha família, não há nenhuma dúvida. Mas há outros, que nem sequer são da Assírio com os quais tenho uma relação igualmente profunda. Caso do Eugénio de Andrade; falamos dia sim, dia não.

 

Pensou muito neste projecto no último ano, desde que sabe da sua doença? Mesmo que trabalhe a partir de casa e vá à Assírio ocasionalmente, imagino que esteja mais recolhido em si e nas suas memórias.

É verdade. Mas tanto penso em fazer isso, como logo a seguir penso em não fazer. Sou muito assim. Na minha vida as coisas quando têm de acontecer, acontecem. Não falo de um deixar-se reger, de um determinismo exterior à minha vontade; mas fui ganhando alguma sabedoria, percebendo que as coisas impõem-se.

 

Prefere que as coisas lhe aconteçam?

Sim. A minha vida é feita de acasos, de circunstâncias. Nunca forcei muito as coisas; nem as relações amorosas. Suponhamos que as coisas andam num caos e que tendem para uma harmonia. Se não as precipitarmos, elas tendem para uma pacificação. Tudo, tudo o que está no universo é assim. Se calhar é a lógica da vida toda.

 

Poucas foram, então, as opções da vida tomadas de forma categórica.

Sim. No trabalho, claro, é diferente.

 

A propósito dessa vida que lhe acontece, como ficou, a páginas tantas a relação com o divino?

É uma relação harmoniosa, sempre foi. Tenho fé, tenho. Há a perplexidade que algumas coisas inevitavelmente nos suscitam; por outro lado, há ainda tanta coisa para conhecer que é uma arrogância julgar que já estamos no fim do processo. Só posso falar da experiência própria. Não posso falar a alguém do encantamento que me dá ver um melro ali à frente no ramo, ou de uma pequena flor que me enche completamente de vida. Então neste momento actual, enche a sério. Como não podia, quando era mais novo, ler um poema às pessoas que me respondiam «Lá vem este com o poema, agora com esta merda».

 

Harmoniosamente foi fazendo a síntese entre a sabedoria das pessoas da terra...

É a mais importante.

 

E o saber livresco e o que deriva do contacto com outras pessoas. Foi este o seu labor.

Aprendi muito vendo, vendo a natureza. Isto é uma escola permanente, é uma escola permanente. O grande problema é que está a morrer a nossa sensibilidade, a nossa disponibilidade. A relação com os outros está terrível. Esta coisa do novo riquismo, esta ansiedade desenfreada que não leva a absolutamente nada. Um punhetaço, como dizem os espanhóis. Há uma coisa infernal que retira às pessoas a sua tranquilidade, a sua liberdade. E estamos a matar aquilo que, em putos, no tempo da festividade, do amor e tal, tínhamos como capital incrível, e que era o afecto.

 

Na altura já sabia disso?

«O nosso grande capital é o amor». Era a nossa grande riqueza, o que queríamos. Depois logo nos safávamos, íamos para França, enfim. Agora precisam de não sei quantos contos para ir para a estância na neve, mais não sei quê que só vai com determinadas condições. Estamos a perder a liberdade. Mais: a perdê-la sem ter consciência disso.

 

Esse conforto material em que vive agora, esta sua casa tão simpática, a casa da aldeia...

Mas eu posso viver em qualquer sítio. Se não fosse a Manuela a arranjar a casa algum dia tinha isto? Não, não me mexe muito. Seria uma estupidez dizer que não gosto de ter um bom carro em vez de ter um carro a abanar por todos os lados. Agora, que não signifique hipotecar a liberdade da pessoa. Se não puder ter não há problema, até não há problema absolutamente nenhum.

 

Estas coisas ficaram mais flagrantes para si porque as pessoas ficam sacudidas quando estão doentes?

Não, absolutamente nada. Tinha consciência delas, mas andava tão alienado que me apetecia chegar aí, ligar a televisão e ver a bonecada porque me dava o sono. Neste momento sinto-me melhor fisicamente, por incrível que pareça. A minha cabeça parece que estourava, com milhões de preocupações, permanentemente tau-tau-tau. Não tinha paz. E sinto-me tranquilo.

 

Sente? Não o invade uma angústia quanto ao futuro?

Se morrer quero ir para a minha terra.

 

Foi nisso que imediatamente pensou?

Foi. Logo. E disse-o à Manuela. Às vezes, depois das quimios, vou-me um bocadinho mais abaixo, fico mais mole e psicologicamente fico mais afectado. Agora, como hoje me sinto... Fico aqui sentado a ver os melros, de que gosto muito, os pequenos rebentos das folhas.

 

Porquê os melros?

É um pássaro muito bonito, canta extraordinariamente bem. Quando tinha seis anos havia uma japoneira ao pé da casa dos meus avós e cantava lá um melro ao amanhecer; contam que dizia: «Ó Vó, olha o que o melro está a dizer!, o que é que está a dizer?, queres comer, queres comida?». Era eu que estava com fome.

 

Teve um encontro, com um livro ou poema, que tivesse sido determinante na sua relação com a literatura?

Quando comecei a sentir poesia a sério, assim poesia de estremeção, foi nos Simbolistas, Gomes Leal e Camilo Pessanha. Sobretudo Pessanha, a gente dizia: «O que é isto?»

 

Que verso ou poema traduziria a essência de si e que escolheria para seu epitáfio?

Ah, não sei. Tenho muitas dúvidas sobre mim, não pense que não. Muitas convulsões, muitas dúvidas. Sou um toiro. Agora estou partido. Quem é que me domava? Nem eu. Energia. Alegria. Era capaz de levar uma multidão. Era uma coisa genésica e telúrica. Ao mesmo tempo, tenho uma dose de feminilidade forte, que não enjeito. A mulher herdou uma sabedoria de muitos séculos, de velha aranha que sabe esperar, perceber o silêncio. Os homens são tipos de uma ingenuidade total, de uma generosidade inexcedível, só qualidades; e depois há qualquer coisa de bruto, de guerreiro, de incapacidade de crescimento.

 

Que conversas tem com o seu pai e com a sua mãe?

Ao meu pai gosto muito de abraçar, estamos sempre agarrados um ao outro, «Então, a poda já está feita?», «Está quase», e tal. Com a minha mãe falo das coisas da casa, das minhas irmãs, deito água na fervura. E é assim.

 

As partes mais íntimas de si ficam para quem?

São coisas que a gente digere em nós, não é? Nunca matei ninguém, não tenho nada que me atormente. (pausa) Precisávamos de ter várias vidas, não é?, para acertar com uma. Esta é muito pequena. Mesmo que a tenha vivido intensamente. Morrendo brevemente, já ganhei muita coisa. Claro que gostava de mais, de fazer isto e aquilo; mas por outro lado, mesmo 100 anos não é nada, 200 também não. Estou habituado a ver a biografia de escritores... Isto passa tudo. É uma lucidez que convém ter afinada. Sempre a tive, não é de agora. Agora, pelo contrário, tenho mais ganas de viver. Mas sempre percebi o quão relativo isto era: 90 anos, 100 anos, 200 anos. Não se dá conta; julga-se que quando se for mais velho se vai saber mais e também não se sabe mais.

 

Que idade tem?

48. 

 

 

Publicado originalmente no DNa, do Diário de Notícias, em 2001

Manuel Hermínio Monteiro morreu em 2001 

Ana Margarida de Carvalho

04.06.18

Ana Margarida de Carvalho, licenciada em Direito, jornalista, escritora. O seu livro “Que Importa a Fúria do Mar” foi finalista em vários prémios, tendo vencido o Grande Prémio de Romance APE, em 2014.

 

“Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, de Jorge de Sena: “Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós”. O que deseja para os seus filhos, para o país, no novo ciclo que se anuncia? 

A maior tragédia é se o ciclo que se anuncia não for novo. Se for velho, bolorento e destrutivo como o anterior. Não foi este o país que nos prometeram, não é este o país que eu quero para os meus filhos. Nem para mim.

 

Acredita deveras que será um novo ciclo? 

O drama não está no futuro, já chegou, está no presente. Está no meio milhão de empregos destruídos, no meio milhão de emigrados, nos 800 mil portugueses em estado de pobreza, nas 600 mil crianças a quem foi retirado o abono de família, nas tantas e tantas famílias assaltadas, amputadas, no capital social delapidado, no património desbaratado, nos cortes trágicos na cultura, na educação e na saúde, no trabalho não remunerado, nos estágios infames…

 

Como alimentar a garra dos dias inaugurais? Estamos atados no “a gente vai levando”, de uma canção brasileira? 

A canção do Chico não é uma canção de resignação, mas uma canção de resistência. Há um problema de sonambulismo por parte das pessoas, que tendem a deixar-se ir em manada e insistir em círculos viciosos eleitorais, sempre os mesmos, como se nos governassem por turnos. Eu não acredito em maldições. As manifestações espontâneas de 2012, as maiores desde o 25 de Abril, foram a prova de que os portugueses estão vivos. Depois caiu-se num torpor, as pessoas enfileiraram-se outra vez, obedientes e ordeiras, com mãos côncavas de pedir. E os tempos são de exigir. Por isso, mesmo com toda a fama, com toda a brahma, com toda a cama, como toda a lama, a gente vai levando essa chama!  

 

Desemprego, Sócrates, a enorme disparidade na leitura dos números: estes são os grandes temas desta campanha eleitoral? 

O Sócrates não é tema de campanha, é assunto de justiça, mas entrou na campanha. Não é todos os dias que temos um ex-primeiro-ministro preso, e por suspeita de práticas tão graves. E se chegar a haver acusação, e se se provar que um alto governante andou a enriquecer de forma obscena enquanto o país empobrecia drasticamente, devem-se tirar daí conclusões políticas sobre a desonestidade e o enriquecimento ilícito de políticos, a impunidade de outros casos, o fortalecimento das leis anti-corrupção… Seria bom que os eleitores elegessem gente com provas dadas de honestidade e seriedade. Parece-me o mínimo, a honestidade: ainda não chegámos ao faroeste. 

 

Quais são, na sua opinião, os outros grandes temas em discussão? 

Para além da austeridade, da troika e da crise financeira, a Segurança Social e o desemprego. E também o mito que se criou de que o aumento de salários retira competitividade e conduz a mais desemprego. E se em democracia as eleições são também um momento de prestação de contas, deveríamos relembrar a destruição do Estado Social e a incompetência com que fomos confrontados no nosso dia a dia, em coisas tão banais como a abertura do ano escolar ou a atribuição das culpas do caos na Justiça ao “informático”... 

  

Quais são os grandes desafios da próxima legislatura?

Relançar a esperança, recuperar as competências dos jovens condenados à emigração, desempregos precários e estágios. Renegociar firmemente a dívida. Requalificar os serviços públicos, desburocratizando e modernizando-os. Construindo uma estratégia de desenvolvimento que ponha as pessoas, a educação, a produção e a cultura no centro. 

 

Quer apostar em cenários?, vitórias, derrotas, coligações, protagonistas? 

Penso que este governo PSD/PP perdeu há muito a legitimidade que tinha conquistado democraticamente nas eleições anteriores. Quando os líderes de um governo deixam de poder sair à rua e o grau do insulto mais levezinho, que eles escutam dos populares, é “gatuno”, quer dizer que a situação está insustentável. Ter vivido com um presidente da República hibernado e com sucessivas inconstitucionalidades também não ajudou nada. Espero que as pessoas não se revelem bipolares nas urnas.

  

As palavras “empobrecimento” e “pobres” podem ser reconduzidas a uma disputa político-partidária. Mas a questão foi concreta na vida de muitas pessoas. Pessoalmente, aprendeu a viver com menos? 

Claro que o empobrecimento me atingiu mas sinto algum pudor em falar no meu caso, quando há pessoas em situações desesperantes. Prefiro falar de pessoas que vivem a ilusão de um emprego, em estágios não remunerados, em situações abusivas, numa espécie de escravatura consentida. Que é como quem diz: ”Olha, mais vale isto que nada”. Os nossos patamares estão tão rasteiros que já se toleram raciocínios destes como se fossem normais. E apareceram outros léxicos, expressões ultrajantes: quando nos chamaram ”piegas”, quando nos mandaram ”sair para fora da zona de conforto”, quando aquele caridosa senhora veio falar dos “profissionais da pobreza”. O que está em causa tem nome e vem no dicionário: chama-se desemprego, chama-se pobreza, chama-se indigência, chama-se miséria, chama-se afronta à dignidade.   

  

O afastamento da população em relação à política não é novidade. Exercer cargos públicos pode transformar-se numa nódoa, facilmente, no currículo de uma pessoa? Como fazer a renovação e reaproximar o cidadão da res publica

Até parece que neste país o melhor cargo é ser-se ex-ministro. Mas também vivemos numa terra que desde 1976 só foi governada por três partidos. Penso que o país precisa de uma injecção de auto-estima colectiva. O Eça dizia aquela célebre frase que toda a gente cita: “Este governo não se pode derrubar porque não é um edifício, tem de se remover com benzina porque é uma nódoa”. E esta nódoa de subalternidade a Bruxelas, à Alemanha, ao FMI tem de ser removida. Temos e nos sentir novamente donos de nós próprios. Soberanos e não uma espécie de protectorado, país pobre da Europa, de cabeça baixa. Pena que nunca chegássemos sequer aos calcanhares da Grécia, que manteve a dignidade, contra o medo, as chantagens, as ventanias da Alemanha e todas as marés contrárias dos países europeus.

 

O mundo não é o que era. Veja-se o que aconteceu na China, com a bolsa a provocar tremores de terra. Nos EUA há o aparente entretém Trump enquanto Obama faz grandes mexidas. Mais grave que tudo, a Europa a desmoronar-se? A crise de refugiados é um sintoma disso?  

A catástrofe que a Europa agora descobriu tem responsáveis: a política de vistas muito curtas dos dirigentes norte-americanos e europeus. Ao desastre do Afeganistão, ao apoio aos Talibã, às invasões ao Iraque, ao apoio a grupos insondáveis contra países como a Líbia (aqui, para além do petróleo juntava-se uma pequena vingança ocidental), a Síria… Pobres os povos sujeitos a tão pequenos dirigentes mundiais. A elite mundial é o pior que o mundo tem.  

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Setembro de 2015