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Anabela Mota Ribeiro

50 anos de Bossa Nova

29.07.18

Dezembro de 1966. Chamam ao telefone o senhor Jobim. Não foi bem assim. No Veloso ele era “Seu Tom” e não se apregoavam frases de cafés lisboetas. O negócio era outro. E Arménio, o dono do boteco de esquina, conhecia-o de outros carnavais, de muitas rodas de chope. Ia dizer “Senhor António Carlos Jobim, estão lhe chamando ao telefone?” É verdade que Frank Sinatra estava do outro lado do fio. O maior cantor do mundo. Mesmo assim. Seu Arménio anunciou apenas: ligação dos Estados Unidos. Tem um gringo aí querendo falar. Foi então que Frank, Frankie, the voice, anunciou a boa nova:

- “Quero fazer um disco com você e saber se você gosta da ideia”.

Sinatra não falava português, mas Tom falava inglês. A resposta terá sido:

- “It’s an honor, I’d love to”.

Imaginemos um dia esplendoroso, como só podem ser os dias de Dezembro no Rio de Janeiro. Seu Tom estava de regresso ao Brasil e tomava chope pela tarde. Não é possível dizer cerveja, porque dizer chope já introduz toda outra coisa. O Verão a estourar, Tom prestes a fazer 40 anos, a Bossa Nova como um acontecimento de um passado longínquo, e Sinatra a acenar it’s now or never.

É provável que Tom ficasse para a história, e não apenas para os compêndios musicais, sem este encontro com Sua Eminência. “The Girl from Ipanema” tinha merecido 40 versões só no primeiro ano de vida. Nat King Cole tinha cantado no Copacabana Palace com Sylvinha Telles, a maior cantora do movimento. Miles Davis tinha assistido à apresentação formal da Bossa no Carnegie Hall. A Bossa não era mais Nova. Tinha sido dada como extinta no Brasil. Mas no resto do mundo, estava apenas a despontar. Num esplendoroso dia de Dezembro, Tom Jobim sabia que não era trote quando lhe disseram que Frank Sinatra queria falar. Talvez um génio saiba mesmo que é um génio.

Tudo começara muito antes. No Rio. Ou talvez em Juazeiro, terra recôndita da Baía, onde nasceu o homem que, mais do que Tom Jobim ou Vinícius de Moraes, revolucionaria a história da música brasileira. Os especialistas da Bossa Nova são os primeiros a prestar vassalagem ao génio de Jobim, a equipará-lo a Cole Porter ou aos irmãos Gershwin. É consensual que “Eu sei que vou te amar” é um hino do tamanho de “Everytime we say goodbye”. Mas o que mudou radicalmente o que até então se fazia foi a batida do violão de João Gilberto, em Juazeiro. A batida sincopada da Bossa Nova – como anos mais tarde diria Aloysio de Oliveira, em síntese.

Ruy Castro, biógrafo da Bossa Nova, começa o seu livro pelo altifalante pendurado num poste da Rua Apolo, em Juazeiro. A música era “Naná”, de Orlando Silva. Orlando Silva era quem João Gilberto queria ser. Como é que cantava Orlando Silva? Como cantavam os cantores da rádio desse tempo. Voz de veludo, cabelo lustroso, um punhal junto ao peito. Antes de João cantar do jeito manso que o mundo lhe conhece, por exemplo, quando cantava com o grupo vocal “Os Garotos da Lua”, ele cantava do jeito de Orlando Silva. Algumas fitas manhosas desse período atestam isso mesmo.

O altifalante, segundo Castro, passava de tudo um pouco; mas o tudo que passava era bom pra cacete. Tommy Dorsey (para os que estão muito fora, talvez dizer que Sinatra era o crooner da sua orquestra…), Duke Ellington, Charles Trenet, Carmen Miranda, Dorival Caymmi. Selecção irrepreensível, eclética. Os moços juntavam-se debaixo da árvore para tocar violão.

Ficaria bem no postal dizer que Joãozinho tocava violão e cantava às moças. Seria tão idílico quanto dizer: “Champanhe, mulheres e música, aqui vou eu” – que, segundo Ruy Castro, foi o seu grito de guerra quando rumou a Salvador. Mas não se lhe conheceu uma namorada na sua terra natal. Dir-se-ia que tocava e cantava para si próprio. Pelo prazer de tocar e cantar. O que não faz dele um monge. Antes de casar com Astrud, e depois com Miúcha, e depois com, e depois com, e agora com (de quem tem uma filhinha de três anos), João namorou com Sylvinha Telles, Marisa, e seguramente com outras mocinhas.

Era um sedutor de modos elegantes. Seduzia uma plateia com duas frases e uma canção, conquistava o pessoal dos hotéis e restaurantes ao fim do segundo pedido. (Consta que, durante os anos em que viveu em hotéis, quer dizer, muitos, e até há muito pouco, fazia das faxineiras, arrumadeiras e garçons os seus convidados de primeira fila nos raríssimos shows em que se apresentava).

Enquanto isso. Em 1949 e nos anos seguintes, ouvia-se Dick Farney. Nas boites, não nos puteiros – expressão insubstituível usada por Ruy Castro para definir os lugares em que Jobim se atirava ao piano. Dick Farney era o Sinatra brasileiro. Farney fez uma incursão nos Estados Unidos e dava-se com Stan Kenton, o director de orquestra venerado pelos meninos que cruzavam Copacabana e Ipanema. Mas também com Mel Tormé, Anita O’Day, e Sinatra, him self. “Aí eu disse ao Frank…”. Dick Farney era, além de cantor excepcional – para os que não tiveram ainda o prazer de um encontro, aconselha-se uma corrida imediata a uma loja online e subsequente encomenda – um grande pianista de jazz. Todo o universo, como facilmente se percebe, era o do jazz americano. Mais ou menos puro, mais ou menos duro. Mais para menos puro e duro.

Dick Farney não podia ser deixado fora da história da Bossa Nova porque ele era idolatrado pelos músicos que a fizeram. Pianistas como Johnny Alf (ainda vivo, também cantor, compôs “Eu e a Brisa”) ou João Donato (vivíssimo, com carreira pujante no Japão, autor do eterno “A Rã”/”The Frog”) seguiam-no com a um astro. No caso de Donato, apelidado de Judas Escariotes pelos outros meninos, seguia Dick Farney como seguia Lúcio Alves.

Ou se era de um ou se era do outro. Donato era dos dois. Depois de desfeitos os clubes de fãs que promoviam a rivalidade, também João Gilberto. Mas não foi por outra razão senão estar na Baía enquanto os garotinhos do Rio se entretinham com estas disputas. Acontece que João Gilberto tinha bom gosto musical e não podia prescindir de nenhum dos dois. Quando o seu primeiro disco foi gravado, quase dez anos depois do pico da rivalidade Farney-Alves, ele procurou Lúcio. Insegurança? Não. Este é um daqueles casos em que o génio sabe desde o começo que é um génio. Era, simplesmente, o desejo de receber a aprovação e o afago no pêlo do seu ídolo.

Porque é que ainda não se falou, senão de relance, da “Garota de Ipanema”? Um facto para arrumar desde já a questão: até que Vinícius e Tom celebrassem a beleza de Helô Pinheiro, de corpo dourado do sol de Ipanema, muitas canções foram escritas. Tom e Vinícius formaram a dupla mais celebrada, mas bota no pacote Carlinhos Lyra, Newton Mendonça, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal. Maysa e Nara ficam para mais tarde, quando se tratar da cisão da Bossa Nova e quisermos saber porquê – cherchez la femme, como sempre.

Para os que estão perdidos na genealogia, para quem a Bossa Nova é uma musiquinha gostosa, que combina com o fim de tarde, um drink ou um elevador, aqui ficam alguns factos históricos: A Bossa Nova surgiu há 50 anos. O Brasil celebra a efeméride com o mesmo empenho que usa para assinalar a chegada da Côrte. Compilações distribuídas pelos jornais aos domingos, palestras em cada auditório, concertos irrepetíveis (como o de Caetano Veloso e Roberto Carlos, esta sexta feira, numa evocação de Tom Jobim).

Se estiver na situação do pai de Nara Leão, “Onde é que está a bossa? E o que essas músicas têm de diferente?”, a resposta pode ser arrancada das páginas de O Cruzeiro, a revista que vendia 700 000 exemplares e que estava interessado em saber como tudo tinha começado. O jornalista e compositor (e namorado de Nara, e flatmate de João Gilberto e mais tarde marido de Elis Regina) Ronaldo Bôscoli respondeu assim: “Filosoficamente, Bossa Nova era um estado de espírito”. A cantora Alayde Costa foi mais precisa: “Eu acho que Bossa Nova é toda a música em que entram bemóis e sustenidos”. A melhor é a do poeta Schmidt: “A Bossa Nova é o reencontro do Homem de hoje com o Homem eterno”. Se continua na situação do pai da Nara – o que é compreensível – talvez ir à etimologia da Bossa. Ruy Castro escreve no seu livro “Chega de Saudade”: “A palavra “bossa” estava longe de ser nova: era usada pelos músicos desde tempos perdidos, para definir alguém que cantasse ou tocasse diferente. (…) A origem da expressão nunca ficou esclarecida de todo e gastou-se mais papel e tinta com esse assunto do que ele merecia”.

A Bossa Nova era, então, uma música nova. Uma reacção à música interpretada por Anísio Silva ou Sílvio Caldas. Os cantores de que as empregadas lá de casa gostavam. Os que exumavam a dor de corno numa canção. Os que lastimavam “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amorrrrrrr”. Tudo dito num tom gongórico, pré-apopléctico, vertido com lágrimas. Noir, roufenho, como numa rádio onda média. Acompanhava com copos de uísque e cigarros fumados em boquilha – piteira, como se diz no Brasil. A mulher, essa malvada, espalhava os seus encantos e os seus venenos à noite, alta noite.

Jobim podia tocar em bares e puteiros – tinha uma guerra com o “aluguel” e uma família para cuidar. Jobim podia até perguntar com genuíno interesse a Vinícius quando este lhe falou de uma colaboração: “Tem um dinheirinho nisso aí?”. Mas a noite era uma contingência.

No dicionário de figuras de Ipanema, Ruy Castro descreve-o do seguinte modo: “Ele foi o paradigma do bairro, moleque de praia, adepto de esportes, homem de enorme beleza física, aberto à natureza e à vida, sedento de livros e de conhecimento, bom de copo, inestancavelmente criativo e com um senso de humor ideal para a grande especialidade de Ipanema: conversa fiada”. António Carlos Jobim foi criado com a Lagoa Rodrigo de Freitas aos pés, nadava do Arpoador a Copacabana e voltava. O cheiro a maresia corria numa veia paralela, atravessava-lhe o corpo todo. A sua música não podia deixar de reflectir isso. Deslizava de Copacabana, sombria, nocturna, para o bairro de Ipanema, solar, salgado.

O encontro desse moleque com um homem do mundo, um diplomata que abominava a burocracia, um poeta formado em Oxford, mudou o curso deste rio. No mesmo dicionário, Castro resume o one man show Vinícius de Moraes: “Encarnou a coexistência entre o [Palácio do] Itamaraty e o [bar] Veloso, o uísque e o chope, o asfalto e o morro, a poesia e a letra de samba. A influência dessa dualidade sobre os jovens que conviveram com ele em Ipanema nos anos 50 e 60 foi tremenda”. Do folclore em torno de Vinícius são obrigatórias frases como: “O uísque é o melhor amigo do homem: é o cachorro engarrafado”. Ou os seus nove casamentos. Ou o facto de receber todo o mundo, conhecidos ou não, na banheira.

Esta bandalheira ainda não era permitida quando a Bossa Nova se anunciou. Vinícius era o poeta diplomata que outorgava ao movimento o prestígio do Itamaraty e de Oxford. Versos pueris como: “Pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca” não eram menos que a sua alta poesia, já escrita. Eram, pelo menos, um indicador: No more blues.

Na família Bossa Nova, Bôscoli, Menescal, Nara, Lyra, podem ser lidos como os primos muito chegados e muito novos. Falemos de grana para falar de Nara. Parece injusto que a associação comece por ser esta. Mas a verdade é que este ramo da família não teria sobrevivido se não fosse o apartamento gigante que Nara tinha na Avenida Atlântica. Uma sala de 90 m2, um pai advogado e beneplácito, uma irmã (Danuza) que aos 15 anos tinha Di Cavalcanti por melhor amigo. Millôr Fernandes ia lá jogar póquer uma vez por semana; e nessa altura os meninos pegavam no violão e iam fazer Bossa Nova para outro lado. Fora isso, a casa era um entra e sai permanente.

Tom e João não estavam sempre lá – tinham mais que fazer, nomeadamente ganhar a vida. João vivia encostado na casa deste e daquele, meses e meses, até que simpaticamente, ou nem tanto, lhe apontavam a porta da rua. Não tinha um vintém. A ponto de bater à porta do abastado Menescal e perguntar: “Você tem um violão aí? Podíamos tocar alguma coisa?”. A ponto de usar uma camisola de Bôscoli na fotografia de capa de “Chega de Saudade”. Vivia na absoluta penúria.

Não ganhava a ninharia que os outros ganhavam porque não se dispunha a fazer figuras tristes – ainda fez algumas, apesar de tudo, como cantar fantasiado num programa de televisão. Diz-se que chegou a passar fome. As excentricidades de João são antigas, e não fazia nada que não faça hoje: levantava-se e ia embora quando faziam barulho na assistência, fumava maconha e esquecia-se das horas, exasperava orquestras e maestros por séries ininterruptas de gravação, e atrevia-se a dizer a Tom: “Puxa Tom, como você é burro”, porque Jobim não detectava o erro colossal (?) que aquele acorde continha.

Arrastava a fama de génio de ouvido absoluto. Tinha uma fala mansa. “A voz de João Gilberto era um instrumento (…). O homem cantava num andamento e tocava em outro. Na realidade não parecia cantar – dizia as palavras baixinho. (…) Para Menescal e Bôscoli, naquela noite, João Gilberto era a realidade encarnada do que até então, eles vinham procurando às cegas”. (“Chega de Saudade”). Tom pensou que João “deixara de ser o discípulo de Orlando Silva, com toques de Lúcio Alves. Cantava agora mais baixo, dando a nota exacta, sem vibrato, estilo Chet Baker, que era a coqueluche da época. Mas o que o impressionou foi o violão. Aquela batida era uma coisa nova”. O mundo inteirinho enchia-se de graça e ficava mais lindo por causa de João Gilberto. Muitos anos mais tarde, Caetano resumiria isto no verso: “Melhor do que o silêncio só João”.

Assistia-se a uma epifania. Mas pouco antes, o pai de João sentenciava a morte do género: “Isto não é música. Isto é nhém-nhém-nhém”. Talvez o abastado senhor Oliveira ainda tivesse esperança de ver o filho doutor, como vira todos os outros. Mas o altifalante de Juazeiro tocou mais alto.

“Canção de Amor Demais”, da “enluarada” Elizete Cardoso, materializou em vinil a novidade. A Bossa. Integralmente assinado por Tom e Vinícius, a álbum tinha como plus João Gilberto a tocar violão em duas faixas. Elizete era uma cantora da velha guarda, e o disco anunciava formalmente a mudança. Por causa do repertório. Elizete cantava à moda antiga, e um exercício eficaz para se perceber o que é a Bossa Nova e o que é o génio de João Gilberto é ouvir a versão que um e outro fizeram de “Chega de Saudade”. Três meses depois da diva, João gravou o seu 78rpm com “Chega de Saudade” de um lado e “Bim Bom” do outro. Pediu um microfone para o violão e outro para a voz – o que nunca tinha sido pedido. E fez uma novela em sucessivos capítulos da simples gravação das duas canções. Os jovens da Zona Sul, endinheirados e ensolarados, já conheciam “aquilo”, mas agora tinham um disco a partir do qual podiam tocar, tocar, tocar, até aprender.

Demorou até pegar. Mas transformou-se num fenómeno que não cabia na praia de Ipanema nem na de Copacabana. Dois meses depois, em Janeiro de 59, saiu o primeiro LP (long play, como se dizia, e é o que significa). O habilíssimo Tom Jobim, que além de bares e puteiros tinha um emprego fixo na editora Odeon, escreveu para a contra-capa de “Chega de Saudade” que João “em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. (…) João acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura. (…) P.S.: Caymmi também acha”. Ary Barroso, também. Cyro Monteiro, também.

O melhor da velha guarda “entendia” o que estava a acontecer. Lúcio Alves gravou um disco inteiro com composições desses garotos, Bôscoli/Menescal. A Elenco, editora dissidente da Odeon, do veterano Aloysio de Oliveira, lançava no mercado pérola sobre pérola. O grafismo era depurado, monocolor. Mas o que parece ser uma aposta arrojada resulta da escassez de dinheiro. Tudo em ebulição, portanto.

As canções eram tocadas por todos, compostas por Tom/Vinícius, Tom/Mendonça, Bôscoli/Menescal, e por Bonfá e Carlinhos Lyra. As canções eram cantadas por todos. Sylvia Telles (ao ouvi-la, é fácil perceber porque é que Marisa Monte a venera) gravou dois LP em quatro meses, com 24 canções. A safra era de cortar a respiração. “Samba de uma nota só”, “Dindi”, “Samba do Avião”, “A Felicidade”, “Desafinado”, “Insensatez” – por exemplo.

O disco da consolidação chamou-se “O Amor, o sorriso e a flor”. João Gilberto sugeriu a Jobim: “Tomzinho, essa coisa de “um cigarro e um violão”. Não devia ser assim. Cigarro é coisa ruim. Que tal se você mudasse para “um cantinho, um violão”?”. Ruy Castro explica as razões deste desconforto: “João tomara-se de tal horror pela maconha que passara a responsabilizá-la por todos os seus fracassos iniciais”. Ficou um cantinho e um violão (esse amor e uma canção, pra fazer feliz a quem se ama).

O que lhes aconteceu a seguir? Antes do grande cisma, uma nota sobre Helô, que inspirou “Garota de Ipanema”. Ao contrário do que se diz, não foi no bar Veloso, mais tarde denominado de Garota de Ipanema, que a música foi escrita. O que é facto é que Tom e Vinícius viam ali passar aquela garota, que coisa mais linda mais cheia de graça. Mas foi nas suas casas, e em separado, que criaram a celebérrima canção. Estava-se em 1962, e só anos mais tarde Helô soube que o seu balançado parecia um poema. Era filha de um general e tinha um noivo ciumento. Ia ao Veloso comprar cigarros para a mãe. Teve um destino de dona de casa, uma vida sem ponto de exclamação. Só quando os dias se amarguraram como um bolero dos anos 50, conheceu a libertação; e então pousou nua para a Playboy, cumprindo com décadas de atraso o sonho de muitos amantes da Bossa Nova. Hoje aparece na Caras a festejar o aniversário, estereotipada e loura, com sorriso postiço e corpo enxuto.

Quando Stan Getz, Astrud e João gravaram um disco para a Verve, e com ele bateram a beatlemania, ninguém poderia acreditar que poucos anos antes João Gilberto batia à porta de um desconhecido a perguntar se havia ali um violão. Ninguém apostaria que Astrud ficaria nos Estados Unidos até hoje a fazer carreira no circuito jazzístico. Em 1962 a Bossa estava moribunda, exaurida. Era um troço auto-fágico. Basicamente, já não se podiam aturar uns aos outros. As brigas tinham um aspecto raivoso e diluviano (como diria Nelson Rodrigues). Os namorados e as namoradas eram trocados de uns braços para outros. O dinheiro era incerto. O alcoolismo grassava em todas as frentes. Existia um excesso consanguinidade. E como é sabido, há um momento em que todas as famílias começam a apodrecer.

O concerto no Carneggie Hall deu o toque de debandada, e depois dele o núcleo duro da Bossa Nova “exilou-se” entre Manhattan e a Califórnia. Mas no seio da “turminha” a cisão aconteceu antes e, como seria de esperar, por um assunto de saias.

Primeiro, uma cantora extraordinária de nome Maysa anunciou no aeroporto, perante jornalistas, que ia casar com Bôscoli. Depois Nara rompeu com Bôscoli e decidiu não cantar os temas que ele tinha composto para ela. Por fim, ou se estava com Nara ou se estava com Bôscoli. Sequência: Nara reaproximou-se de Carlinhos Lyra, que já tinha rompido com Bôscoli, e fez uma abordagem à música do morro e à canção de protesto. Renegou tão enfaticamente o seu passado e a turminha que acabou zurzida de cima a baixo. O disco que punha o último tijolo no movimento e na relação foi “Opinião de Nara”. Continha sambas, marchas de Carnaval, canções de protesto. “Chega de Bossa Nova, chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro que tem muito mais a dizer. (…) Se estou me desligando da Bossa Nova? A Bossa Nova me dá sono” (Nara em entrevista, citada no livro do Ruy Castro). Foi acusada de ingratidão. Mas a pobre menina rica, sentia no ar o fim de um tempo. Esboroava-se a rêverie dos anos Kubitschek, o progresso estancava.

Longo sono. Um sono de Bela Adormecida.

Foram precisas décadas até que a Bossa Nova fosse reabilitada no Brasil. No circuito internacional, de modo irregular, sempre se ouviu e praticou. Em especial pelos parentes próximos do jazz. Moacyr Santos, o maestro que compôs obras primas como “Coisas”, fez toda a sua carreira nos Estados Unidos. Sérgio Mendes também. Para já não falar de Tom e João que viveram pelo menos 20 anos fora. Vinícius acabou expulso do Itamaraty – “expulsem esse vagabundo”, dizia o telegrama, corre a lenda. Por mau comportamento. Má imagem. Alcoolismo entre outros pecados – para dizer depressa.

Morreu antes de Tom.

Tom morreu antes de João.

João celebra esta noite os 50 anos da Bossa Nova no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Pensará nos outros dois antes de entrar em palco? Sentirá falta daquele longo e interminável dia das suas vidas? Um dia que durou alguns anos.

 

Publicado originalmente no Público em 2008

À volta dos livros: Flip, Feira do Livro do Porto, Saramago

17.07.18
Este ano vou estar novamente na Flip - Festa Literária Internacional de Paraty, a moderar uma conversa entre a sensacional Leila Slimani e o André Aciman, autor do livro (tão delicado quanto o filme) "Call me by your name". Também no programa oficial, vou falar com a escritora russa Liudmila Petruchevskáia, nascida em 1938, que estou a ler com assombro. Todos estes autores estão publicados em Portugal. Obrigada à curadora da Flip, Josélia Aguiar, pela renovada confiança em mim e convite para mediar estas duas mesas. 
Paralelamente vou estar na casa da Sesi - SP Editora, falando das Mulheres em Machado de Assis com o José Luiz Passos, estudioso de Machado, professor da Universidade da Califórnia (UCLA). 

E vou dar autógrafos dos meus livros "Paula Rego por Paula Rego" (Temas e Debates) e "A Flor Amarela - Ímpeto e Melancolia em Machado de Assis" (Quetzal) na livraria da Travessa de Paraty, depois da sessão com a Leila e o Aciman. 

Em Setembro, estarei no Porto, na Feira do Livro de que sou curadora com o José Eduardo Agualusa. Divulgaremos a programação em breve. É de 7 a 23, o autor homenageado é José Mário Branco.

Em Outubro, entre as iniciativas previstas para celebrar os 20 anos da atribuição do Nobel ao escritor português, está a publicação de um livro meu, "Por Saramago", com entrevistas a José e a Pilar e outros textos. À semelhança de "Paula Rego por Paula Rego", com o qual este livro tem afinidades formais, tem a chancela da Temas e Debates, e dezenas de fotografias da Estelle Valente (uma beleza!). Obrigada a tantos por ajudarem a que isto seja possível, em especial à Pilar, à editora Guilhermina Gomes, à Paula Barreiros, à Fundação José Saramago. 

 

A casa de Frida e Diego

15.07.18

Viva Frida!, viva a pintora mexicana, que viveu um período de efervescência cultural e política. Viva Diego, o muralista famoso, o amante que lhe provocava o tumulto e a devolvia inteira (para usar palavras de Frida). Viveram numa famosa casa azul, em Coyoacán. Uma casa museu que permite conhecer a vida de Frida, a de Rivera, a dos dois.

 

É uma casa mexicaníssima. Talvez não o fosse quando foi habitada pelos pais de Frida e a sua história se resumia a uma casa térrea de paredes brancas. Há uma fotografia que a mostra assim, nessas primeiras décadas do século XX. Uma fotografia a preto e branco onde tudo parece pálido. Sobretudo porque agora submergimos num azul profundo, de um pigmento puro. Lá chamam-lhe azul anil.

Foi Diego que a pintou desta cor magnética. Não é só não conseguir deixar de olhar quando estamos lá. Aquele azul vem à ideia quando pensamos nisso, já noutra latitude. Uma cor não é uma coisa menor – nunca. E aquela era uma casa de artistas.

Uma definição aproximada: dizer que é um azul cobalto. Azul profundo, que já usei, sugere um mergulho. Instala-nos noutra temperatura, numa essencialidade que nada tem que ver com a vida da rua. A rua Londres que cruza com a Ignacio Allende.

Foi nessa casa que Frida Kahlo nasceu. Estava hipotecada quando a pintora se mudou com Diego Rivera para lá. Os pais de Frida haviam sido obrigados a esta operação para fazer face às avultadas despesas médicas da filha.

O tremendo acidente de Frida foi tão tremendo que virou lendário. Ela era uma menina que seguia num autocarro e acabou com uma perfuração pélvica e a coluna partida em três. Em Setembro de 1925. Uma parte dela ficou incapacitada para o resto da vida. A impossibilidade de gerar filhos resultava daqui. A dor lancinante, também. Há um desenho, por exemplo, que parece um esboço de anatomia, cravado de setas. Frida desenhou-o para falar dos pontos do corpo em sofrimento. Um mapa triste, repleto de linhas que se cruzam.

Ademais, tinha poliomielite desde criança. O corpo não era um aliado. Foi notável o modo como o superou, como se inventou. Tem-se uma ideia rigorosa disso quando se vê uma página do diário, escrita e desenhada logo depois de lhe amputarem uma perna. Diz assim: “Piés para qué los quiero, si tengo alas pa´volar”, 1954. Asas para voar... O limite?, o que seria? Asas para voar...

Morreria nesse ano.  

Portanto a casa estava hipotecada. A primeira coisa que Diego fez foi reverter o processo, a dívida, comprar a casa. Os pais de Frida eram vivos e continuaram a viver ali. Mas aquela passou a ser a casa deles. Passou a ser a casa azul.

Hoje há uma parede transformada em pequeno altar, abençoado por deuses aztecas, altar onde se lê: “Frida y Diego vivieron en esta casa – 1929-1954”.

A casa azul fica num bairro do tamanho de uma pequena cidade na imensa Ciudad de México. Coyoacán é uma zona plana, gizada com régua, copas de árvores a tocar nos telhados. A burguesia vive confortavelmente neste perímetro, algo silencioso e discreto se comparado com o carácter sempre excessivo da capital. É o tipo de lugar que tem um coreto na praça principal. As fachadas das casas são muitas vezes intensas, de cores de Frida. Há uma harmonia que é manifesta, a pairar.  

É a casa-mundo de uma pessoa que não cabe no mundo e que, por isso, inventa um à sua medida. O processo de criação de si parece mais involuntário que voluntário. Em qualquer caso, é consciente. Era preciso sobreviver ao que a martirizava e estreitar o canal de comunicação com a vida. Era preciso afirmar a vida. Não esquecer nunca que o último quadro de Frida é uma natureza morta suculenta, de uma frescura que apetece, melancia cortada em pedaços. Tão simples como um dia de Verão. Pintado por uma mulher em agonia que deixa a inscrição “Viva la Vida!”. Como recado último. Apesar dos desenhos de cactos, fetos, corações que sangram, vida que está seca ou a deixar de ser que abundam na sua obra e de que há imensos vestígios nesta casa.

Singular é uma palavra que vai bem com Frida. Embora não chegue. Nem o superlativo singularíssima chega. Frida era singularíssima, pessoa inteira, maior do que o sofrimento. Tudo nela é uma epopeia. A começar no amor com Diego. “Es Diego nombre de amor”, disse ela. Epopeia no dicionário: poema de longo fôlego acerca de assunto grandioso e heróico. Diego para ela, dito como quem escreve uma carta de amor: “Colectiva e individual é a arte de Frida. Realismo tão monumental que no seu espaço todo possui inúmeras dimensões; em consequência, pinta ao mesmo tempo o exterior, o interior e o fundo de si mesma e do mundo”.

A relação foi conflituosa, tortuosa, todos os adjectivos desta família. E de outra: iluminante, instigadora. O que se vê na casa é uma fénix que renasce. Lá está Frida, transmutada em heroína que sobrevive ao acidente, politizada até à medula, amante. Ave fabulosa, emplumada de tonalidades raras, híbrido de dia e noite, alegria e morte, homem e mulher, folclore e Surrealismo. Frida e Diego.

E lá está Diego, homem imenso que a mãe de Frida comparava a um elefante (a filha, por oposição, era uma pomba). Vinte anos mais velho. A força vulcânica que teima: porque é que um mexicano não pode ser um grande artista? Um grande tão grande quanto os grandes que confluíam em Paris, onde Diego também esteve, anos a aprender, a discutir, a pintar primeiro imagens inócuas, e depois temas que incendeiam, a política. Regressou ao México depois da revolução zapatista para perguntar, justamente depois da revolução: “O que é ser mexicano?”. A sua obra é uma resposta a esta questão complexa, nunca completamente satisfeita. O ser mexicano é ser povo, é lutar pelo povo, é estar do lado desses. (Num documentário, a primeira mulher de Diego, mãe da sua filha, diz assim: “A única coisa que admirava em Diego era o amor que sentia pelo povo. E mais nada”.)  

É o povo que aparece nos murais, no México, nos Estados Unidos. O povo e quem o guia. Caso do famoso mural que foi destruído por causa da aparição de Lenine. Há limites – pensou Rockefeller – que contratava. Não há, não – pensava Rivera, o artista que reivindica liberdade ilimitada no acto de criação. Acabou destruído, o mural.

Ser mexicano é coleccionar adereços da vida simples de todos os dias. Uma taça pintada com singeleza. Diabolitos (esqueletos que simbolizam Judas e que hão-de ser queimados no Dia dos Mortos) nas paredes. Máscaras, estátuas, artefactos pré-colombianos. (No mesmo documentário, conta-se que num dia de tempestade conjugal, a primeira mulher de Diego partiu em cacos certas peças de arte pré-colombiana e as serviu no prato, no lugar da sopa. Aquele era o jantar. Para doer.)

Frida, que apareceu mais tarde, fez com ele esta revolução, ergueu a bandeira. Pintou a foice e o martelo no corset que usava para segurar a coluna, em inúmeras telas, pintou retratos de Marx, Estaline, todos os inspiradores. A luta era pelo povo.

A casa de Frida e Diego era um lugar de tumultos, constelação de pessoas bizarras, de estrelas, espécie de panteão privado, também de pessoas vivas. Toda a gente desaguava na casa azul. Trotsky que ali viveu meses. André Breton de passagem (disse dela: “Candura e insolência, crueldade e humor”). A pintora Georgia O’Keeffe e a fotógrafa Tina Modotti, com quem Frida teve romances (manda o bom senso botar “alegadamente teve romances”, ainda que a informação circule por tudo quanto é sítio). O cineasta russo Eisenstein, os fotógrafos Edward Weston ou Álvarez Bravo, o revolucionário Pancho Villa.  

Naquela casa de jantar, enorme, de chão amarelo e figuras pré-colombianas nas estantes, estava sempre alguém. Não há memória de terem jantado sozinhos. A mesa fez-se para os amigos e para a discussão. Eram os anos 40, era urgente mudar o mundo.

Pensemos ainda no panteão privado de Frida. Quem faz parte? Na tela «Moisés» (1945), estão Nefertiti, Lenine, deuses aztecas, Freud, Alexandre, Buda, deuses egípcios, Apolo, Cristo, e, em especial, o Sol, centro de todas as religiões e criador da vida.

O milagre em Frida era a maneira como fazia dialogar estes e os anónimos, ligando-os numa genealogia que só ela saberia estabelecer.

Ela mesma tinha uma genealogia incomum, filha da velha Europa e de um México a reinventar-se. A melhor apresentação está num quadro que Frida pintou e que se encontra, em jeito de legenda, numa das primeiras salas da casa: “Pintei o meu papá Wilhelm Kahlo de origem húngara-alemã, artista, fotógrafo de profissão. De carácter generoso e inteligente e fino e valente, porque padeceu durante 60 anos de epilepsia. Mas nunca deixou de trabalhar. E lutou contra Hitler. Com adoração, a sua filha Frida Kahlo”.

A mãe tinha a cor tisnada das mexicanas que crescem ao sol, a pilosidade abundante que Frida, não só herdou, como cultivou e transformou em estilo. Num álbum de família surge vestida de tehuana, ataviada de folclore e anos de história popular. Anos mais tarde, Frida pintar-se-á assim. Mas na mãe a tehuana era uma aparição única para a fotografia. Em Frida, o estilo tehuano era uma exaltação do que era povo e raízes. Era uma forma de agradar a Diego, era uma forma de esconder as mazelas do corpo, era sobretudo um gesto político.

A casa: é onde Frida e Diego viveram, mas o letreiro diz apenas museu Frida Kahlo. É para a ver que milhares de pessoas fazem fila. Diego é um grande pintor, mas Frida não pertence a nenhuma categoria. É tão fora do baralho que continua a falar connosco, a olhar-nos de uma maneira perturbadora passados todos estes anos. A pintura de Rivera é devedora de uma força diferença. O seu carisma, também. A diferença entre eles talvez esteja naquela linha de Rivera que já citei: ela pinta o fundo dela e nisto pinta o fundo do mundo. Rivera pinta o mundo em revolução, a cratera terrestre que mexe. A sua pintura é eminentemente um discurso, uma expressão de uma ideal político. Frida pinta (demasiados) retratos de Estaline, mas pertence a outra estirpe. O mais tocante nos seus quadros reside numa qualquer coisa que ela consegue captar e os outros não. Num mundo subterrâneo. Num olhar de quem está mudo e é capaz de comer o mundo.

Então, a casa é mais dela. O seu espaço de trabalho está lá, os seus dois quartos também, as suas cinzas dentro de um pote pousado no toucador, em forma de rã (uma referência a Diego que se designava assim: a rã), também. Diego trabalhava num atelier próximo, tinha uma outra casa próximo.

A casa azul tem uma estrutura em U e é virada para um jardim. De um lado, os muros azuis que dão para a rua. Do outro, vidraças e luz, um pequeno tanque de chão de mosaico e dois sapos a nadar. O jardim, uma pequena pirâmide que imita a pirâmide do sol, esta desmesurada, as estátuas.

Os compartimentos principais são o atelier de Frida e os seus dois quartos. Os espaços formam um contínuo, dão a ilusão de corpo único. Estão lá a cadeira de rodas em frente ao cavalete, as peças pré-hispânicas, os livros de Filosofia, literatura, o trabalho de artesãos populares. A paleta de cores e o significado de cada uma: azul, um certo azul, representava a electricidade e a pureza, o amor; o azul marinho era a distância, e podia ser também a ternura. O amarelo era a loucura, a doença, o medo, parte do sol e da alegria. O verde era a tristeza e a ciência; “a Alemanha inteira é desta cor”.

Os quartos eram dois porque Frida precisava de descansar durante o dia, próximo do atelier, e de um quarto para dormir, à noite. Os dois são dominados por camas com uma estrutura de madeira e um tecto onde está um espelho (numa) e borboletas (noutra).

A cama com um espelho no tecto era uma solução antiga. Praticada desde o tempo do acidente, para resolver as horas, os meses que Frida passava imobilizada. Há fotografias que a mostram a olhar-se ao espelho, a pintar-se, um olho na tela outro na imagem reflectida. Alguns críticos pensam que o olhar opaco e distante dos auto-retratos têm que ver com esta relação com o espelho. O que pinta é o que é devolvido no reflexo. O olhar é quase inexpressivo. A dor e o assunto do quadro quase nunca são dados pelo olhar mas pelo que Frida pinta em torno de si, pela circunstância em que está. Especula-se também que a dimensão reduzida dos quadros passa por esta limitação física. Era preciso que fossem portáveis, que lhe coubessem facilmente nas mãos.

Na outra cama, o tecto tem borboletas. Belas, já metamorfoseadas, a voar. Nos dois quartos há fotografias de Marx, Lenine, Estaline, desenhos eróticos. O mais importante para Frida?, a política e o sexo como motores de vida?

Lá estão também as muletas. E noutra parte da casa a prótese que usou depois de lhe amputarem a perna. As adoráveis botas cor de rosa, pé talvez de tamanho 35, com bordados. As botas com salto desigual por causa da poliomielite. Os corpetes em que Frida fazia desenhos, a foice e o martelo, inscrições amorosas, e que assim eram menos colete de forças. Uma força precisa para segurar a coluna em desequilíbrio.

Este é um espaço quase secreto e aberto há pouco anos. Diego exigiu que estes adereços da privacidade de Frida fossem mostrados tarde, muito tarde. Vinte anos depois da morte da amiga que ficou cuidadora da casa-museu. Grande gesto, penso eu, de respeito pela mulher amada.

É uma série de pequenas salas de luz diminuta, onde estão as roupas, as jóias, objectos pessoais, o perfume francês. Em nenhum outro lugar como aí se percebe o sofrimento físico em que viveu esta mulher. E como era valente: não permitiu que isto – que nada – a derrotasse. Ou sequer que isto fosse o centro do seu discurso. Ao contrário, tudo parecia ser uma exortação à vida. Viva la Vida!, viva Frida!

A visita a esta casa possibilita o mergulho no azul – eléctrico, terno, puro – da vida de Frida e Diego. Se exceptuarmos a cozinha e o “comedor” (sala de jantar) dominado por um amarelo girassol, é o azul que nos envolve, em forma de U. Os objectos revelam uma vida voltada para o coleccionismo (sobretudo de peças pré-colombianas e de arte popular), a política, a arte. Há também alguns quadros de Frida, desenhos, fotografias, a almofada bordada onde se lê “despierta corazon dormido”, os dois relógios na sala de jantar. Um cujos ponteiros pararam quando Frida e Diego se separaram (dessa vez, a relação adúltera de Diego foi com a irmã de Frida). O outro relógio tem um tempo que recomeça a contar, quando de novo se casaram.

Esta casa de Coyoacán tem semelhanças com as casas ligadas de San Angel, um bairro vizinho. As casas ligadas são, na verdade, dois estúdios ligados. Uma tem o azul anil e pertence a Frida, a outra é cor de sangue e terra, um rojo por definir, e pertence a Diego.

Frida abandonou este estúdio, zangada com Diego, um dia. Todo o seu material de trabalho foi transferido para a casa de Coyoacán. Diego trabalhou aqui, o seu cavalete e pincéis e brinquedos e peças de arte e tudo o que aparece no seu caleidoscópio, permanecem aqui.  

As duas casas estão ligadas por uma ponte, um canal que lembra a artéria que liga os dois corações do quadro As Duas Fridas. Duas pessoas que se alimentam na sua especificidade, na diversidade, que se preenchem. Se a transfusão parar, uma delas morre?  

Frida morreu em 1954. O féretro foi acompanhado de cânticos da Internacional, cortejos de mulheres vestidas de tehuana, a bandeira comunista a cobrir o caixão, Diego inconsolável. O mito já estava vivo. Qualquer coisa nela não morre nunca.

  

Coyoacán está para a Cidade do México como Estoril está para Lisboa. Ou seja, pequena localidade, hoje engolida pela grande urbe. Ritmo de vida diferente. Para ir a Coyoacán, o mais fácil é apanhar um táxi. Não deve custar mais do que 20 euros. Não deve nunca apanhar um táxi na rua, por questões de segurança. Peça no hotel que chamem ou apanhe num ponto de táxis. A casa de Frida tem sempre uma fila para entrar. Pode ser de meia hora. Há autocarros que param aqui, é um dos pontos mais visitados do México. Enquanto se espera, há vendedores ambulantes que nos abordam. Podem vender vestidos bordados ou marcadores para livros, feitos em madeira. Uma senhora que me abordou, benzeu-se depois de lhe ter comprado marcadores. Outra fez o mesmo quando comprei barras de amaranto, um cereal muito comum e nutritivo.

Dentro da casa de Frida, há uma loja onde vendem adereços semelhantes aos que a pintora usava. Xailes, brincos, blusas. Preços bem razoáveis. Sobre horários de funcionamento e demais informações práticas, ver www.museofridakahlo.org.mx

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015 

Frida Kahlo

13.07.18

Frida Kahlo chora copiosamente. Chora o corpo martirizado, esventrado, prestes a desconjuntar-se, suspenso por uma coluna romana. A coluna (a espinha), igualmente em processo de desmoronamento, mantém-se erguida com a ajuda de um corset feito em aço. Esta mulher llorona, envolta num cenário de desolação_ a terra fracturada, o céu carregado de chuva_, retratou-se assim em 1944. O quadro «A coluna partida» pertence ao domínio do onírico, da liberdade absoluta dos Surrealistas que agitavam a Europa; mas Frida esclarece: «Eu nunca pintei os meus sonhos. Pintei sempre a minha realidade».

A realidade, então: Magdalena Carmen Frieda Kahlo Calderón nasceu em 1907 numa famosa Casa Azul em Coyoacán, Cidade do México, onde passaria o essencial da sua vida. Filha de um imigrante alemão, fotógrafo e amante de livros de arte, que idolatrava Schopenhauer, Goethe e Schiller; mantinha com ele uma relação estreita: retocava as cores das fotografias que saíam do seu estúdio e fazia de enfermeira nos ataques de epilepsia. A mãe era uma mestiça mexicana que dedicava à Virgem uma devoção efusiva, mas que era pouco dada a manifestações de afecto. Quando a filha penou na cama do hospital, na sequência de um acidente brutal, afectada pelo choque, não foi capaz de a visitar.

A herança é complexa. Frida será sempre uma tehuana de pilosidade abundante, de estilo “incultivado”, adornada pelas cores intensas da pátria. Será sempre a artista revolucionária que lê Marx, impressiona André Breton, se envolve amorosamente com Trotsky. É redutor pensar nela como uma intérprete avant la lettre de um realismo mágico que emergiu na literatura pela voz de García Márquez _ a despeito da profusão de referências pré-colombianas que é possível encontrar na sua pintura. A educação de Frida é enformada pelo que está em voga na Europa. Lê os clássicos, (Homero, Dante, Platão) que o filósofo e político revolucionário José Vasconcelos disponibiliza aos alunos do secundário. Admira a pintura de Botticelli ou Bronzino. O primeiro auto-retrato que pinta, em 1926, é devedor dos renascentistas: a figura é alongada, os gestos são delicados. Assume uma herança impura, sincrética, uma herança dual.

Mas tudo em Frida é dual: vida e morte, claro e escuro, masculino e feminino, antigo e moderno, México e Europa. Estes são os seus termos, e a síntese, peculiaríssima, é a sua vocação.

Ainda a realidade: em Setembro de 1925, Frida seguia num autocarro com um colega de escola, Alejandro. O aparatoso acidente que sofreram incapacitou-a para o resto da vida. É já lendária a perfuração do pélvis que terá ocorrido, a coluna vertebral partida em três, ou os nove meses em que permaneceu imobilizada na cama do hospital. Foi durante esse período que começou a pintar. Para escapar ao mutismo interior? Frida praticava desde cedo, e de modo exaustivo, a solidão. Quando lhe perguntaram porque pintava auto-retratos, ela respondeu que passava muito tempo sozinha, entregue a si. Bem vistas as coisas, ela era a pessoa que conhecia melhor.

Desde o acidente, a dor e a consciência da fragilidade do corpo passaram a fazer parte do seu quotidiano. A desintegração progressiva do corpo, a precariedade da vida, a mortalidade passaram a ser a sua coroa de espinhos. A morte rondava, e nestas condições impunha-se uma fúria de viver. O ímpeto com que pintou, amou, viveu são expressão de uma tentativa desesperada de se manter viva, de se saber viva. A sobrinha da artista, ouvida pelos curadores da exposição na Tate Modern, transmite essa impressão: «A minha tia Frida era apaixonada pela vida! Nas ocasiões boas e nas más, era muito positiva. Dizia sempre: «Viva la vida, viva!» 

O segundo dos acidentes que irromperam pela vida de Frida Kahlo foi, nas palavras da própria, Diego Rivera, o reputado muralista com quem casou duas vezes, a primeira das quais em 1929 e a segunda em 1940. A relação entre os dois amantes foi tumultuosa. Diego, 20 anos mais velho, de tamanho desmesurado, adúltero compulsivo, era «o seu Deus, o seu filho, o seu pai». Era a sua flor de obsessão, carnívora. A mãe de Frida, que nunca simpatizou com o genro, dizia do par que era o encontro de uma pomba com um elefante! Mas Frida, em cuja biografia a mãe é personagem ambivalente, passou a vida a tentar possuí-lo, certa de que a monogamia era um projecto absurdo. Lidou tão bem quanto possível com as infidelidades constantes. Verdadeiramente, só a relação que ele teve com Cristina, a sua irmã mais nova, conduziu ao divórcio.

Foi um período negro, auto-destrutivo. Despedaçou a farta cabeleira de que Diego tanto gostava num sinal de retaliação e de auto-mutilação, e numa tela exígua de 40 por 28 centímetros pintou-se assim: pelona. Andrógina. (A bissexualidade de Frida era antiga, e crê-se que a primeira experiência foi vivida com uma professora, ainda no liceu. Supostamente teve affairs com a pintora Georgia O’Keefe ou a fotógrafa Tina Modotti, para apontar apenas dois nomes sonantes.) Também é verdade que nesses anos se entregou à bebida e que, segundo Diego, pintou alguns dos seus melhores quadros. O mais famoso é «As duas Fridas».

Nessa tela de grandes proporções, Kahlo representa a dualidade da sua personalidade. De um lado, a Frida amada, vestida com o traje tradicional das tehuanas e com o coração intacto; na mão, segura um retrato do artista Rivera quando jovem, muito jovem. Do outro, tem o coração cortado ao meio e veste um traje colonial; o vestido está coberto de flores que esmaecem e se transformam em sangue. As duas Fridas estão ligadas por uma artéria, que parte da fotografia de Diego, se enreda no corpo, e termina abruptamente num bisturi. (Uma fotografia tirada quando o quadro parecia já completo, permite perceber que o pormenor das flores e do bisturi foi acrescentado mais tarde.) Frida sangrava, e a sua dor maior era o desamor.         

Quem é Frida Kahlo? A resposta, as respostas, podem ser encontradas na sua obra. Entre 1926 e 1954, a artista mexicana produziu pouco mais de uma centena de quadros em que explora aspectos relacionados com “o corpo, a genealogia, a infância, as estruturas sociais, a pátria, a religião, os contextos culturais, e a natureza”, como se lê no catálogo da exposição. Todos remetem, de modo quase sempre directo, para a sua vida. 

Frida é um ícone improvável, mistura explosiva de política, sofrimento e introspecção, combinação única de “candura e insolência, crueldade e humor” (Breton). Pintora de auto-retratos, inscreveu a sua biografia no centro da sua obra. Pintora de narrativas que deixam entrever uma cosmogonia privada. Em «Moisés» (1945), Nefertiti, Lenine, deuses aztecas, Freud, Alexandre, Buda, deuses egípcios, Apolo, Cristo, Hitler, (a quem chama “A criança perdida”), e, em especial, o Sol, como centro de todas as religiões e criador da vida, integram o seu panteão. Pintora de naturezas mortas, de frutos suculentos, entreabertos e explicitamente sexuais, narradores do seu amor pelo México, símbolos de fecundidade e do ciclo da vida.

Observemo-la nos auto-retratos. O olhar parece desconfiado, distante, inalterável. Frida pintava-se ao espelho, e esta circunstância pode explicar a “distância” dos auto-retratos. O que pinta é o que é devolvido no reflexo, e não o que lhe sai de dentro. O arrebatamento ou a dor raramente são dados pelo olhar, mas pelo espaço envolvente.

Cada quadro funciona como fragmento de uma anotação diarística, síntese da realidade vivida. Exemplo disto são dois quadros famosos, pintados na sequência de acontecimentos trágicos. Em 1932, no espaço de quatro meses, sofreu um aborto espontâneo e assistiu à morte da mãe.

O aborto revelou-se um momento especialmente traumático. Consta que quis ver o feto, que devorou livros de anatomia, que desenhou infatigavelmente até produzir «Henry Ford Hospital», o quadro que a expõe ensanguentada, a segurar o bebé, a zona pélvica, entre outros símbolos relacionados com a experiência. Alguns críticos consideram que o amor de Kahlo pelos animais (um cão irrequieto que levava o nome de um deus azteca, um macaco que se enredava no seu pescoço...) são uma solução possível para a impossibilidade de ter filhos. O corpo frágil da artista não consentia tamanhas aventuras...

A morte da mãe, ocorrida pouco depois do regresso de Frida ao México, impulsionou «O meu nascimento». É um quadro blasfemo, no qual quebra dois tabus: a exibição do sangue vaginal e da sexualidade da mãe. Um lençol branco tapa a cara da parturiente e uma Virgem dolorosa contempla a cena, da parede. Os dois quadros aproximam-se: cruzam a morte e a vida, a natalidade e a mortalidade. 

Mas há outros quadros que ilustram páginas do seu diário. Como aqueles que pintou nos anos em que viveram na América. Nesse tempo, gringos como Rockefeller estavam fascinados com Rivera, e Frida era “a mulher do artista, que também pinta”_ um papel que ela reclamava para si: quando retrata o casal em 1931, surge minúscula, com uns pés invisíveis que quase não tocam no chão; e ele é um gigante que segura na mão uma paleta com pincéis. Ela era a excêntrica a quem os miúdos perguntavam quando passava na rua: «Onde é o circo?». Era la mexicana, figura que adoptou depois do casamento para agradar ao marido e como declaração política_ viveu fervorosamente os ideiais da Revolução, a ponto de alterar a data de nascimento para 1910 de modo a coincidir com a data da Revolução mexicana.

Na América pintou o folclore mexicano, pintou as filas de desempregados, pintou Mae West que Diego adorava. Mas morria de saudades, e regressaram para viver na Casa Azul.

A casa era um museu vivo, pejada de objectos, retablos, e tralha, tralha que contava a história do México, as suas raízes e tradições. E acolhia refugiados políticos como Trotsky. Por lá passaram, também, o cineasta russo Eisenstein, os fotógrafos Edward Weston ou Álvarez Bravo, o revolucionário Pancho Villa.      

A Casa Azul assistiu ao recasamento de Frida e Diego e à morte da artista em 1954, aos 47 anos. Os últimos anos haviam de ser especialmente penosos. Em 1950 passou nove meses no hospital, durante os quais foi operada duas vezes à coluna, e em 53 foi-lhe amputada a perna direita. Apesar do sofrimento físico, Frida insistiu em comparecer à sua primeira, (e única em vida) exposição individual no México, em 53. Recebeu os convidados deitada na cama, plantada no meio do espaço expositivo. No convite escreveu: «Estes quadros que pintei, pintei-os com as minhas mãos. Eles esperam por si para lá destas paredes, para agradar, tal como planeei».

 

Nota: a exposição recém inaugurada na Tate Modern, em Londres, é a maior alguma vez dedicada a um artista latino-americano em Inglaterra. Aconselha-se a compra antecipada de bilhetes e o aluguer do guia áudio. Além da informação relativa aos quadros em questão, mostra num pequeno ecrã fotografias da pintora, quadros e estátuas que serviram de referência a algumas obras ou imagens da Casa Azul. A mostra quase integral é especialmente bem montada, em salas amplas e  inclui inúmeros desenhos. É emocionalmente forte, como a pintura de Frida. O merchandising da exposição é atraente: pulseiras, cintos, ganchos para o cabelo, inúmeros postais e bibliografia abundante. Caro. Disponível até 9 de Outubro.

 

 

Publicado originalmente na revista Grande Reportagem do Diário de Notícias em 2005

Fla-Flu no Maracanã, c/ Nelson Rodrigues

11.07.18

No último domingo de Agosto [de 2008], fui ao Maracanã ver o Fla-Flu. Na verdade, fui à bola com Nelson Rodrigues – que era tudo o que me interessava. Porquê? Porque o Nelson Rodrigues escreveu coisas deste calibre: “Pelé põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha”. “Pelé podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los com íntima efusão: “Como vai, colega?”. Ainda sobre Pelé: “Vá jogar assim no diabo que o carregue”. Cinquenta anos depois de Nelson ter eleito Pelé o seu personagem do ano, eu peguei no pesado livro de crónicas e sentei-me na bancada. A vibrar com o Nelson, a sonhar ver um Pelé.

Primeira coisa: por quem torcer? O futebol não tem graça se não nos fundirmos com o “time”, com a “torcida”. Para mim, o futebol não tem graça se não olhar para a cara das pessoas, para ver como se transformam em animais. Para assistir aos “espasmos colectivos que só o Tolstoi de “Guerra de Paz” ousaria descrever”. Eu preciso de detectar as “náuseas de pavor homérico”. De perceber como “sob o estímulo da pusilanimidade, tubarões e pé-rapados largam a mesma baba, elástica e bovina”. Perguntaram-me de quem eu era – é-se de alguma coisa, e o sentimento de pertença é vigoroso, exclusivista, definitivo. Mário Filho, irmão do Nelson, jornalista desportivo que deu o primeiro nome ao estádio do Maracanã, dizia que se podia mudar de país, de mulher, de emprego; menos de clube de futebol. Eu respondi: “Sou Flu”. Serei redundante se disser que torci pelo clube do Nelson Rodrigues.

Estava desde logo em desvantagem. Porque o Flu estava no fundo da tabela (no momento em que escrevo, está em penúltimo lugar…), e porque a torcida do Fla é a maior do planeta. Mas o futebol interessava-me muito pouco; para ser franca: não me interessava absolutamente nada. Desconhecia em absoluto o nome dos jogadores, mas fiquei enfeitiçada com as categorias em que se subdividem: volantes são o quê?, zagueiros são os que fazem ziguezague pelo campo?, goleiros são guarda-redes – essa até eu entendo. Desconhecia as canções, mas fiz um esforço para aprender: “Eu canto ‘Nense quando o time está bem/ eu canto ‘Nense quando o time está mal/ um gol sofrido não vai me abalar/ não vou parar de cantar”. A dos outros era mais enfática e exortava à vitória: “Somos Flamengo/ Vamos ser campeão/ Vamos Flamengo/Amor e paixão”.

Desconhecia os insultos, mas rapidamente fiquei inteirada: vai tomar no cu é forte e é capaz de ser equivalente ao nosso filho da puta. Não é que não se use o filho da puta, mas essa não é uma fórmula de insulto preferencial.

Uma mulata que estava atrás de mim quase partiu as cordas vocais de tanto berrar. Ainda a estou a ouvir a pronunciar caralho, sílaba após sílaba, como se a estivessem a matar e ela cuspisse nos seus assassinos. Chamar-lhe histérica seria pouco. Estava endemoninhada. E nem o exorcismo do golo ou a sensualidade dos jogadores a acalmou. Fazia de caralho um sufixo, para gritar coisas tão simples quanto: solta, corre, chuta. Uma menina fina confidenciou-me em surdina: “Estava a pensar dar-lhe qualquer coisa para dormir… um pouco de veneno mesmo!”. Não era o facto de debitar o palavrão de forma incontinente que transtornava a bancada. Era porque a criatura impedia que cada um dissesse alto o seu palavrão – e que se ouvisse. E o palavrão tem um efeito libertador. Uma catarse que essa mulata não podia impedir. A outra razão, talvez principal, para que a bancada inteira lhe rosnasse, era a mulata torcer pelo Fla numa zona ocupada pelo Flu.

Para quem não sabe, e eu não sabia, “nenhum clássico se compara, em alma, chama, personalidade, ao Fla-Flu”. Era assim em 1958, e os adeptos do Benfica-Sporting deste fim de semana devem dizer o mesmo. Na verdade, equivalem-se: o Flamengo, como o Benfica, é o clube popular, sanguíneo. O Fluminense, como o Sporting, é o clube elitista, fleumático – se é que o adjectivo pode ser usado quando se fala de futebol; é aquele que tem classes AB, como as estratificam na televisão. É o clube dos intelectuais, que dominam a verve e que são capazes das maiores grosserias. Muito mais aterrador do que o caralho da mulata foi ouvir a claque gritar, a um minuto do fim, com vantagem no marcador: “Favela, favela, silêncio na favela!”. Um australopiteco levantou-se ainda para a última marretada: “Vai passar fome!”. Vermelho, ufano, fascista. Uma pessoa engole em seco e tem vergonha de torcer pelo Flu, apesar do Nelson… E não consegue não aplaudir quando “o Flamengo persegue a bola com fanática disposição” e marca golo logo a seguir. A justiça (social) divina, vinda do Cristo Redentor, que se via de todo o lado, ou dos Céus mesmo, repôs a igualdade. (Repôr a igualdade é tudo o que eu sei dizer em futebolês).

Nelson tinha simpatia pelo Flamengo. É muito estranho constatar isto. Não se imagina um adepto do Benfica a ter simpatia pelo Sporting. Conheço um troglodita que diz que não quer que o Sporting ganhe, quer é que o Benfica perca… Mas é normal que no futebol todos se transformem um pouco em trogloditas e digam idiotices chapadas. Quanto mais trágicas, espasmódicas, um pouco pulhas mesmo, as coisas que se dizem, tanto melhor. Menos saem cá fora, no emprego e na família. E se vamos ver o espectáculo, ao menos que ele contenha pathos

Mas Nelson Rodrigues, além de escritor genial, tinha gestos magnânimos. Poucos, mas tinha. E tinha simpatia pelo adversário. “A raiva dos 22 homens deu um colorido muito especial à batalha”. Oh, que saudades dos tempos em que o relvado era um campo de batalha, em que se jogava com raiva… Nunca vi o Cristiano Ronaldo jogar com raiva, mas posso estar a precisar de ir ao oftalmologista. Vi-o jogar com brio, com peneiras, com empenho. Mas nunca com raiva. Mourinho, que é tu cá tu lá com a raiva, sabe bem da importância de puxar pela besta que há em cada jogador. E pela do torcedor. É por isso que o Mourinho é o Mourinho. (Não levem a sério que eu nunca vi um jogo do Mourinho, mas é o que me parece numa análise comportamental de trazer por casa).

Como o Nelson, a mim interessam-me mais os estados de alma do que a condição física. “Uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocupou de uma dor-de-cotovelo que viesse a acometer um jogador e a incapacitá-lo para atirar um vago arremesso lateral. (…) Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha e perde as partidas é a alma. Teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse frequentado, previamente uns cinco anos, o seu psicanalista”. Ou seja, senhores técnicos do Benfica e do Sporting (não tenho ideia quem sejam): ponham os rapazes no divã que é tão importante quanto a marquesa e o relvado. Os rapazes podem estar machucados, mas é preciso saber se estão magoados.

No Maracanã, alguns jogadores saíram machucados, num carrinho que parece um papa-móvel. Eu gostava mais quando, na minha aldeia, se espatifavam todos no solteiros contra casados e iam de maca, a verter sangue, para os balneários. Ninguém diz que um jogador está magoado – porque isso seria dizer que ele tem os sentimentos feridos. Nem tão pouco aleijado – porque isso seria dizer que estava incapacitado (manco, estropiado, perneta, coisas assim).

Eu saí a cantar o “Cant take my eyes off you”, que o Flamengo adaptou. E cheia de sede. Por uma razão que não consigo descortinar, as mulheres não são obrigadas a passar pelo detector de metais – onde já se viu uma mulher usar arma de fogo??? – mas não podem levar para o interior do recinto uma garrafinha de água. Saí desiludida por não ter visto um jogador como aqueles que Nelson descreve: “Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”. Me desculpem, pô, depois de uma frase dessas não consigo escrever mais nada…

Apesar disso, consigo seguir o coração: desci as escadas e fui posar junto ao busto do irmão de Nelson, Mário Filho. Muito perto estavam as pegadas de Pelé e Garrincha. Muito perto estavam os milhares de pessoas que foram à guerra (uma guerrinha…) e voltaram. Extenuados. Felizes. Pais e filhos. Maridos e mulheres. Amigos e amigos. Muitos homens. Muitos mais homens que mulheres. Muita “camiseta” do Fla – eles são mais do que as mães. Os candidatos às eleições municipais aproveitaram para encher o ar com a sua música estridente. Silenciou-se a bateria do samba. Na verdade, o que ali se passou foi uma dança. Tribal.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008. 

 

 

 

 

 

Dolores Aveiro

11.07.18

Dolores Aveiro é a mãe de Cristiano Ronaldo, como toda a gente sabe. Tem uma história de pessoa humilíssima que sonhou o sonho de ser feliz. O discurso oscila entre o pungente e o cru. De uma violência de que parece não se dar conta ou, simplesmente, com que aprendeu a viver. E depois aconteceu um sonho.

Podemos chamar-lhe apenas D. Dolores? As coisas simples vão bem com ela.

Em resumo, foi esta a sequência: D. Dolores chega a casa, passa um iogurte grego e uma gelatina ao neto. Não tira os saltos de uns dez centímetros, apesar de ser fim da tarde e do cansaço. Pergunta: “Vai ser longa, a história? Por causa da garganta. E quero ver o jogo”. Não viu o jogo. O Real Madrid ganhou por quatro a zero, Ronaldo não marcou mas assistiu dois golos. A história, a entrevista foi longa. Estava quase sem voz. Continuou com a voz abafada quando terminámos, hora e meia depois.

Não parece ter 60 anos. A pele é bonita, lisa. Não exibe os sulcos de uma vida pobre e triste. Nem se apagou um sorriso e uma candura que pareceriam impossíveis (atendendo ao tanto por que passou, o orfanato, os maus tratos, a carestia). Há nela, quando fala do gosto de lavar o quintal, de mangueira, descalça, uma espécie de milagre. Como uma criança que chapinha na água e que não conhece maior prazer. A água da sua mangueira, o seu quintal. Qualquer coisa que é sua depois de uma vida espoliada.

Espoliar: tirar ilegitimamente.

Foi espoliada pela vida (passe o tom melodramático da frase). Então lutou, quase desistiu, lutou. O seu testemunho é um retrato do que a pobreza faz. Do que é sobreviver a partir do chão. Há nele uma humanidade que comove e que se sobrepõe ao grito, à urgência, ao rude.

No final da entrevista prestou-se às fotografias. Foi uma moça divertida com este papel. Uma vez ou outra brincou com o neto. “Como é que o pai faz quando marca um golo?” E o menino de quatro anos desliza pelo chão, de joelhos, como o pai, o melhor jogador do mundo, desliza pelo relvado, e culminam, um e outro, a celebração com um gesto de braço e punho erguido. Cristiano também imitou a pose do pai, aquela pose de gladiador, que antecede a marcação de um livre. Pernas abertas, cara furiosa, a arfar. A avó delirava. Este menino e o pai deste menino são os seus meninos d’oiro.

Não falámos de Messi nem de rivalidades. Não falámos dos outros filhos (além de pequenas referências). A entrevista foi combinada com as editoras da Matéria Prima, que lançou o livro Mãe Coragem, escrito por Paulo Sousa Costa. Foi com uma delas que chegou a casa, e seguiu directa para a cozinha e o iogurte e a gelatina. A outra estava lá, à espera. Vinham de um evento, fora de Lisboa. Tinha chorado um pouco e os olhos estavam esborratados. Não chorou nunca na entrevista.

No Facebook, onde é seguido por mais de cem milhões de pessoas (é mesmo isso, cem milhões de pessoas) Ronaldo escreveu, ao lado dela, erguendo o livro: “A minha mãe é, sem qualquer dúvida, uma mãe coragem. Sinto-me muito grato e orgulhoso por ser filho dela e tê-la na minha vida”.

Eis aqui a D. Dolores, esta terça-feira [de Dezembro de 2014, pouco antes do Natal].

 

Comecemos por uma recordação da infância do Ronaldo. Uma brincadeira consigo. Uma história. O que é que lhe ocorre?

[muito prontamente] Quando ele era pequenino, eu chorava muito pela vida que levava. Ele dormia na minha cama. Dizia: “A mãe que não chore. Quando for grande, vou ganhar bastante dinheiro. Vou comprar uma casa e tirar a mãe do trabalho”. E foi verdade.

 

Quantos anos tinha quando dizia isso?

Uns cinco, seis anos. Foi uma coisa que me marcou para sempre.

 

Já dizia que ia ser um grande futebolista?

“O que é que queres ser quando fores grande?” “Quero jogar à bola.” Mas nunca julguei que chegasse ao patamar a que chegou. Com o passar do tempo é que vi que o meu filho tinha dom para o futebol. Vi que ia dar alguém. Às vezes penso que é um sonho.

 

E ele, imaginava que ia chegar onde está?

Não, não. Diz que se eu não o deixasse vir para cá [Lisboa] não dava jogador. Trabalhava na construção civil ou aprendia uma arte. Como o irmão mais velho. O irmão trabalhava em alumínio. Fazer janelas, portas.

Dizia que ia jogar à bola, ganhar muito dinheiro e ajudar a mãe. Mas nunca lhe passou pela cabeça. Dizia por dizer.

 

O que quero saber: ele sempre acreditou? Vemos hoje que tem, como dizia o meu colega fotógrafo, Nuno Ferreira Santos, “um querer gigante”. Todo ele é força de vontade...

E trabalha muito. Quando veio aos 12 anos, passou por muito. A maneira de ele falar: gozavam.

 

Este sotaque que tem era o que ele tinha?

Sim, e talvez pior, como criança. Ele telefonava-me de uma cabine. Falava e chorava. “Mãe, vou desistir.” “Filho, se é disso que gostas, luta. Luta, que a mãe não te vai cortar [as pernas].” Ele foi percebendo aquilo que ele era. Havia um treinador que era da Madeira e comunicava-me: “O Ronaldo é um grande jogador. Tem vontade. Acaba o treino e vai outra vez para o ginásio. Criar músculo.” Quando ia à Madeira, de férias, pegava em baldes cheios de pedra para fazer musculação. Punha meias grossas cheias de pedra que amarrava contra as pernas [aponta para barriga da perna].

 

É uma mistura de talento, vontade e trabalho?

São essas três coisas. Ele é uma pessoa que quer sempre mais. Trabalha para mostrar sempre mais.

 

Para mostrar a quem?

A todo o mundo. A ele próprio. A pensar: “Sou capaz, vou fazer”.

 

Nunca duvida?

Não. Ele mete na cabeça que é capaz e consegue.

 

Quando é que foi inseguro?

No princípio, quando chegou aqui. Para se adaptar. Na escola. Eu dizia-lhe: “A mãe vai aí no fim de semana, vais ficar bem”. “Venha, venha ver o jogo.” Vinha. Ficava comigo à noite. Já ficava calmo. A vontade de querer vencer, mesmo: foi a partir dos 15, 16 anos.

 

Já foi duas vezes o melhor do mundo e agora está numa de bater records. Ser o melhor marcador... Fala desses objectivos?

Fala. Comigo, com os irmãos. O ano passado disse assim: “Bem, marquei 31 golos. Tenho esperança de receber a bota [de ouro]. Para o ano, a ver se consigo marcar mais.” A prova disso: ainda não está a meia volta dada e já tem 25 golos.

 

Sempre tiveram uma relação assim íntima? Para ele sempre foi fundamental tê-la por perto?

Sim. Um rapaz assim que tenha ao lado um bom pilar, ajuda muito. É um homem feito, hoje. Tem os pés assentes na terra. Mas gosta que esteja ao lado dele.

 

Porque é que acha que ele nunca se deslumbrou?

Porque dá valor aquilo por que passou. Foi uma criança que viu os outros ter coisas melhores do que as dele. Sabia que tinha consoante aquilo que eu podia dar. Tanto que disse: “Mãe, vou ser pai. Quero que a mãe dê uma educação ao meu filho como aquela que me deu a mim”.

 

Quando é que ele soube do tanto que a senhora passou na sua infância?

Sempre contei. Os meus quatro filhos e eu, à noite, quando se estava na cama, cantava para eles. Cantava músicas tristes. “Menina que estás fazendo, sentada no cemitério, sozinha...” Essas coisas assim. O Ronaldo sabia que eu tinha madrasta. Tratava-a por mãe, mas ele sabia que não era a minha mãe verdadeira. Nunca escondi nada dos meus filhos.

 

Dê-me um momento da sua infância com a sua mãe, feliz. Ela morreu quando tinha cinco anos.

Era bordadeira. Bordava com vizinhas, muitas senhoras. As toalhas eram muito grandes. Cada uma bordava numa ponta. Sentia-me feliz quando a minha mãe bordava e me punha no meio das pernas dela. Elas a cantar e a bordar. A minha mãe não tinha tempo de dar colo. Trabalhava muito para sustentar os filhos. O meu pai nunca foi um pai... São coisas da vida.

 

Sendo diferente, acabou por acontecer o mesmo consigo. Era a D. Dolores que levava o barco, que ganhava.

Pois. O meu marido não ganhava muito. Além de que, o pouco que ganhava, bebia. O ir para o Ultramar..., ficou revoltado. Tínhamos uma filha com um ano. Depois fiquei logo grávida do meu filho. Foi quando ele foi. Depois do 25 de Abril, quando a gente pensava que já não ia mais tropa. Para Angola. Treze meses. Foi o suficiente.

 

Era um homem que falava ou que metia para dentro?

Falava. Quando estava lá, escrevia-se telegramas. Chegou a escrever muita tristeza nos telegramas. “Dolores, fui a tal sítio.” Era primeiro cabo. “Fui buscar uma coisa e estava embrulhada a cabeça de uma pessoa.”

 

Conta no livro “Mãe Coragem” que sempre foi um bom pai.

Nunca foi de maltratar os filhos. Eu é que batia nos meus filhos. Quem dá o pão dá o ensino. Era assim: eles faziam qualquer asneira e eu castigava-os. Como trabalhava muito, sentia-me revoltada e batia.

 

Como é que lhes batia se tinha apanhado na infância?

Se tivessem de levar uma estalada na cara, levavam. Não era assim como eu levei, pancadas. Não tem comparação. Às vezes calhava tirar o cinto. Cheguei a dar, cheguei. Eu achava que se desse com o cinto, eles melhoravam, [aprendiam]. Para eles, os castigos eram piores do que o bater.

 

Que castigos?

Fechados dentro do quarto. A fazer os trabalhos da escola. Se o Ronaldo quisesse jogar a bola com os amigos do bairro, não deixava.

Quando lhes batia, acabava por me arrepender. “Credo! Levei tanta porrada, porque é que vou bater nos meus filhos?”

 

Levou sobretudo da sua madrasta. E no orfanato, das freiras?

Pelas freiras, nunca fui maltratada. Eram castigos. Davam com urtigas no rabo quando fazia xixi.

 

([Entra o neto Cristiano]

A avó está a falar com a senhora. Não pode brincar contigo. Vai lá para dentro.)

 

Os castigos: limpar os quintais. No ditado, se passava de cinco erros andava com o caderno pendurado nas costas toda a tarde. Para os outros colegas verem os erros. Ia-se à missa todos os dias, à tarde. Dava-me o sono. Na sala do convívio das crianças, punham-me num cantinho, com um saco de papel na cabeça. Como quem diz: “Dormiste na igreja, agora dorme aí nesse canto”.

 

Foi recentemente visitar o orfanato, com o seu neto. Como é que foi?

Gostei! Lembrou-me. Além de eu ser castigada, matei as saudades. Muita coisa mudou. O quarto de dormir existia. Era para vinte e tal. Agora só tem seis camas. A minha cama ficava ao pé da janela. Coisas felizes? Quando chegava a Páscoa, tínhamos uns saquinhos de amêndoas. Torrões de açúcar. O convívio. Quando chegava o domingo e não tinha visitas, as minhas amigas tinham, e dividiam aquilo que recebiam. Comigo e com a minha irmã.

 

O menino consegue perceber o que foi a sua infância?

Não. Com quatro anos, ainda não dá para explicar. Faz cinco em Junho do próximo ano.

 

No fundo, era pouco mais velha do que ele quando foi internada no orfanato.

A minha mãe morreu a 13 de Dezembro e fiz seis a 31 de Dezembro. Olho para ele e penso muito. Nos netos todos. Vou partir um dia. Quero vê-los grandes [para ter a certeza de] que não passam aquilo por que passei. Que ficam bem.

Mas, com a idade do Cristiano, lembro-me da minha mãe. Por exemplo, a minha mãe foi uma mulher que casou aos 16 anos. Ficou viúva duas vezes. O [primeiro] marido era pescador e morreu no mar. Casou segunda vez. O marido morreu no mar, também. Eu era criança e ouvia-os a falar. A minha mãe tinha cara de sofredora. A força que eu sinto, a mulher que hoje sou, tem a ver com a minha mãe.

 

Explique melhor isso.

A minha mãe foi para o hospital com o seu juízo. Morreu com a dor de deixar cinco filhos menores. Acho que pediu pela gente. Como eu era a mais velhinha, talvez tenha transmitido a força dela para mim. Ela apareceu-me. Dizia-me: “Olha sempre pelos teus irmãos.” Foi o que fiz.

 

Conte do momento em que ouviu a voz dela.

Foi no orfanato. Ouvi uma voz à distância. As freiras, no princípio, não acreditaram. No fim acreditaram. Quando fui para casa do meu pai é que passei a vê-la. Aquela voz: quanto mais me aproximava mais a ouvia falar. Era um eco.

 

Via-a como?

Na casa do meu pai não existia água canalizada. Íamos à fonte. Vi um vulto ao longe. Aproximava-se. De blusa branca e xaile escuro. O cabelo muito apanhado. A minha mãe usava assim. Dizia ao meu irmão: “Não estás a ver? É a mãe!”. E ele: “Que nada!” Ele não via. Mas acreditava pelo espanto que eu fazia. Em casa dizia ao meu pai. O meu pai batia-me. Um dia comentou: “A miúda, para estar sempre a dizer aquilo, é porque vê alguma coisa”. Falou com o padre. O padre disse que podia ser verdade. Para eu dizer: “Mãe, põe-te a sete léguas de distância, diz-me o queres e não me metas medo”. A minha mãe disse-me assim: “Diz ao teu pai para ir a Machico pagar um litro de azeite à Senhora dos Milagres. A mãe pediu, morreu e não pagou [a promessa]”. Fomos a Machico na altura da festa. O meu pai pagou. E dessa altura para cá nunca mais vi a minha mãe.

 

A sua mãe morreu aos 37 anos com um ataque de coração.

Deu-lhe uma dor e ficou muito negra. Levaram-na para o hospital. Morávamos no Caniçal. Chegar ao Funchal demorava muito tempo. Morreu três ou quatro dias depois de estar internada. Eu estava no quintal da minha avó a brincar. Uma vizinha disse assim: “A tua Matilde já lá foi”. Percebi o que tinha sido. O meu pai nunca foi um homem responsável pela vida. O padre da freguesia quis levar-nos para o orfanato. O meu pai: “Fico com o mais velho. Os outros quatro, o senhor padre faça o favor de os internar”. Comigo ficou a Laurentina. A Florentina e o Jorge ficaram noutro orfanato por causa da idade.

 

Nunca pensou desistir?

De?

 

Da vida.

Pensei. Passou-me pela cabeça dar fim à vida. Depois de ser mãe. Também quando vivia com a minha madrasta e ela me deu uma sova de fio de luz [com o fio eléctrico]. Pôs-me com o corpo todo cortado. Tive uma infância triste. Casei aos 18 e pensei que ia ter uma vida feliz. Depois não foi. Tinha uma filha, ia ter o segundo filho... Depois pensei: “Não. Não pedi para vir ao mundo, também não vou pedir para morrer”. Vou lutar enquanto puder.

 

A maior parte da sua vida foi de muito sofrimento.

É verdade. Só depois de o Ronaldo ir para Manchester é que a nossa vida mudou.

 

Antes de Manchester. Conte do tempo em que veio viver para Lisboa, para tomar conta ele.

Ele tinha 16 anos. Eu tinha 46. “Mãe, vou para a equipa A, a equipa principal. Vou ganhar mais qualquer coisa. Vai dar para orientar a nossa vida aqui e na Madeira”. Vivíamos numa casa da Câmara. “A mãe passa-me a ferro. Já não fico no Sporting. Tenho aquela coisa de ter ao meu lado a mãe.” Vim para este apartamento. Ele ia treinar. Vinha e tinha o almoço feito. Eu ia ao [centro comercial] Vasco da Gama às compras. O meu passatempo: bordava. Não foi fácil deixar o meu trabalho e pôr-me aqui, onde não conhecia ninguém.

 

A comida que fazia, almoço e jantar, era a sua comida ou tinha de ser de acordo com as indicações do clube?

Não, era a minha comida. O clube nunca disse o que é que ele devia ou não devia comer. Sempre tive boas mãos para cozinhar. O Ronaldo gosta de um bacalhau à Brás, cozido à portuguesa, feijoada à minha maneira.

 

Ainda continua a cozinhar?

Sim. Em Madrid, quem faz o meu comer sou eu. Vivo numa casa separada da do Ronaldo. Quando faço uma coisa diferente, vem à minha casa. “Filho, a mãe vai fazer bacalhau. Apetece-te?” “Faça, mãe. Faça que tenho saudades.” Ele agora tem mais cuidado com a alimentação e nem sempre come o que faço. É um atleta de alta competição.

 

E uma coisa é ter 18 anos, outra é ter 28.

Faz 30 para Fevereiro. Ele agora tem os empregados, que fazem [as refeições]. Cheguei a viver na casa dele. Em Manchester vivi com ele. Nunca tive empregados.

 

Naqueles anos, já de milhões, não tinha ninguém que a ajudasse?

Não! Não porque eu tinha que ocupar o tempo. Não sabia falar inglês, não conhecia ninguém. Sentia-me bem a fazer a minha vida. A empregada da casa era eu.

 

E hoje?

Tenho uma empregada que faz tudo em casa, mas o comer, eu faço. O meu comer é sagrado. Eles fazem o comer típico de Espanha. Eu faço à portuguesa. E faço a sopa para o meu neto como fazia para o Ronaldo. Uma massinha, um arroz.

 

Já viu a felicidade de ter um neto que é um filho, com esta idade...

É uma alegria. Não está o tempo todo comigo. Vai para a escola de manhã. Sai às quatro da tarde. Está um pedaço com o pai. Está um pedaço comigo. O Ronaldo está muito tempo ausente. E então fica comigo. Ele sente a minha falta. Quando vou à Madeira dois ou três dias noto o menino triste. Falamos ao telefone: “Anda. Senão não és mais a minha avó”. Magoa-me muito.

 

Ele às vezes chama-lhe mãe?

Não. Mas diz assim: “A minha mãe está no céu. E tu és a minha mãe. Podes ser minha mãe e avó”. Digo que sim.

 

A que é que ele gosta de brincar consigo?

À bola. Para fazer a vontade ao meu neto, vou dando uns pontapés na bola.

 

E com o Ronaldo, jogava?

Jogava.

 

Como é que lhes chama?

O neto é Cristiano, o filho é Ronaldo.

 

Cristiano ou Cristianinho?

Cristiano.

 

São os dois muito parecidos consigo.

Acha?

 

Acho. Sobretudo a boca.

Digo ao Ronaldo: “Estás dentro do campo. A cara que fazes lembra-me a minha cara”. Ele responde: “A senhora queria, mas não sou parecido consigo!” “Mas és parecido com a mãe...”

 

Gosta que ele seja parecido... Que cara faz dentro do campo que é parecida com a sua?

Quando marca o golo e faz aqueles gestos. Ou aquela cara carrancuda. Ou aquela cara de mau. Lembra-me de quando eu era jovem.

 

Mudaram-se para Manchester em 2003. Em dez anos, a vida deu uma volta.

Quando foi para Manchester, começou a ganhar bem. Com o primeiro ordenado que recebeu mandou-me escolher uma casa. Para comprar a casa à mãe, como tinha prometido. Não foi escolhida por mim, foram as minhas filhas que andaram vendo.

 

O que é que quis que a casa tivesse? Espaço?, uma vista bonita?

Tenho uma boa vista, mas não pensei nisso. Pensei num bom conforto. O conforto era ter casas de banho com chuveiro, que não tinha. Na casa onde vivia era preciso aquecer a água no fogão e tomar banho numa banheira. Sonhava ter uma casa de banho e tomar banho de chuveiro. Ter uma banheira. Um quarto de dormir grande. Ter uma cozinha grande. Adoro cozinhas grandes! Uma cozinha com azulejos. Ter a coisa de limpar os azulejos. A brilhar. O conforto vale muito.

 

A sua cara muda quando fala disso. Ilumina-se.

Ter aquele quintal que posso lavar de mangueira, descalça. Sentia um prazer enorme ao lavar o meu quintal. São coisas que não esquecem. A primeira casa que o Ronaldo comprou: a minha filha mais velha é que vive lá. Chego e se for preciso ligo a mangueira e lavo o quintal. No Natal, no Verão. Agora é raro. Mas no princípio fazia isso. Matava as saudades.

 

Já está habituada a esta vida de conforto em que o dinheiro não é um problema?

Claro que agora já posso ir jantar. Em jovem nunca ia jantar. Trabalhava na cozinha do hotel mas nunca tinha ido a um restaurante. Vou à Madeira e ligo a uma amiga: “Queres ir jantar comigo? Vai-se à espetada”. Pago de bom agrado. Posso. Se tiver de fazer bem, faço. Porque posso. Mas penso no dia de amanhã. Não sou mulher que abre a mão e derrete tudo. Podia comprar uma bolsa cara, e não faço isso.

 

Esta sua bolsa cara (a Birkin da Hermès), que está sobre o balcão o cozinha, quem é que a comprou?

Foi o meu filho. Tenho coisas de marca. Que eu compre?, não compro. Não tenho coragem. O Ronaldo amanhã vai fazer a vida dele. Penso que ele não muda, mas às vezes uma mulher muda um homem. Poupo. Não se sabe o dia de amanhã. O meu filho não me deixa faltar nada. Nada mesmo. Se me der mil euros, gasto 500 e guardo 500. Vai para o escuro! Está guardado no escuro, ninguém vê! [riso] De hoje para amanhã vou partir e tenho os meus netos para ficar [com o que poupei]. Têm alguma coisa para a universidade deles... Penso nisto. Ele diz: “Devia gastar mais. Gozar”. “Mas a mãe é assim.” A boca leva tudo.

 

“A boca leva tudo”?

Quer dizer: há pessoas que ganham cem e gastam 110. Eu vou ao supermercado e escolho as coisas mais baratas.

 

Compara preços para poupar dez cêntimos aqui, 30 acolá?

Faço isso. É a minha maneira de ser.

 

Pensei que procurasse os produtos de que gosta, independentemente do custo.

Antigamente dava aos meus filhos iogurtes naturais. Nem tinham sabor nenhum. Hoje não faço isso. Vou ao supermercado e compro aos meus netos iogurtes com aromas bons. Um bife: compro carne melhor do que antigamente. Mas o que puder poupar, poupo.

 

Ficou uma marca muito grande da fome e da pobreza.

Pois. E acontecendo alguma coisa – oxalá que não! [bate no sofá três vezes] – tenho ali o que poupei. E se acontecesse alguma coisa ao meu filho, ia buscar tudo o que poupei e dava-lhe. Tudo o que tenho ali foi ele que me deu. Digo aos meus filhos: “Está escondido em tal parte. Se acontecer alguma coisa à mãe, dividam por todos”. O Ronaldo oferece-me jóias de muito valor. Digo às minhas filhas: “Já têm a vida organizada. Se eu morrer, dêem aos vossos filhos. Não é para vocês!”. Já tenho tudo destinado.

 

Porque é que fala tanto da morte? Está a dias de fazer 60 anos.

Eu estava com aquela coisa que aos 37 morria. Ultrapassei. Faço 60. Agora vive-se um dia de cada vez.

 

Já lutou contra um cancro da mama. Teve muito medo de morrer?

Tive. Já era uma mulher feliz. Foi em Inglaterra que o descobri, fui operada na Madeira e vim fazer o tratamento ao Porto. “Meu Deus, tenho tudo agora. Será que Nosso Senhor se vai lembrar de mim e vou embora?”

 

Era muito injusto.

Pois era. Mas graças a Deus estou aqui. O Ronaldo diz que aguento até aos 90!

 

O que é que hoje lhe dá mais felicidade?

Os netos. Os filhos, bem ou mal, criei-os.

 

Acha que criou bem ou mal?

Criei bem. Porque lutei pelos meus filhos. Trabalhava as minhas horas de trabalho, chegava a casa e ainda ia a casa dos vizinhos passar a ferro, lavar quintais. Não era dinheiro o que me davam. Eram restos de comer deles. Sobras. Um quarto de quilo de massa. Duas ou três batatas. Umas cenouras. Para mim, tinha valor. Lutei para que nunca faltasse nada aos meus filhos. E para que eles nunca tirassem nada a ninguém. Os meus filhos às vezes iam para as fazendas roubar fruta. Também cheguei a fazer isso. Mas chamava-lhes a atenção [voz ríspida]: “O teu pai não tem fazenda!” Considerava um roubo ir a casa de uma pessoa roubar fruta.  

 

Está a dizer que se esforçou pelos seus filhos e lhes deu valores.

Sim. A coisa que eu mais queria era que estudassem. Essa era a herança que eu podia deixar – eles terem estudos. Qualquer um deles andou até ao nono ano. Não quiseram mais. Os dois mais velhos quiseram trabalhar porque eu não tinha televisão. Queriam ter melhor vida e ajudar-me a comprar coisas melhores para casa. Por isso considero-me uma mãe de coragem de lutadora.

 

O Ronaldo ainda passou por essas dificuldades?

Não passou tanto. Quando nasceu, as coisas já estavam melhor.

 

O seu pai e a sua madrasta ainda são vivos. Emigraram para a Austrália. Os seus filhos, o Ronaldo, perdoam-lhe o mal que (em especial a sua madrasta) lhe fizeram?

Perdoam! Ai, ele tem muita consideração pelos avós. Até eu, não tenho raiva à minha madrasta. Coitadinha. Hoje sou mulher: também lhe devo a ela. Quando saí do orfanato tinha onze anos. Além de ser maltratada, transmitiu-me muita coisa.

Quando dei a entrevista ao Manuel [Luís] Goucha e à Júlia [Pinheiro], o meu pai viu lá. “O pai gostou?” “Filha, estás tão bonita.” “O pai desculpe de eu ir buscar o passado.” “Não levo a mal porque aquilo que disseste é verdadeiro.”

Um dia disse à minha madrasta: “A mãe era muito má.” “Eu sei. Mas nunca me levantaste a mão. Nunca me faltaste ao respeito. E os meus próprios filhos já me faltaram ao respeito.” Para mim é um orgulho muito grande ela dizer isto.

 

O dia mais feliz da sua vida, qual foi?

Quando fui mãe. Todas as vezes. Falar a verdade: engravidei [quatro vezes] e nunca por vontade. Mas depois de dar à luz era a maior alegria. Quando vi o meu filho na selecção. Tocar o hino e vê-lo no meio daqueles jogadores. (Eu gostava, gosto do Luís Figo.) E o dia em que nasceram os netos.  

 

Conta no livro que pensou abortar quando estava grávida do Ronaldo. É muito duro para um filho ouvir isto.

Ele acha graça! Com o passar do tempo, viu o pai que tinha. Eu era muito maltratada. (Ele já morreu, não quero falar.) Quis abortar. Ele hoje diz, a brincar: “Já viste, mãe, tu quiseste abortar e eu agora é que os sustento a todos”.

 

Disse que isto tudo parece um sonho. Pesadelos, tem?

Não. Deito-me na minha cama tranquila. Se tiver de fazer bem, faço. Se tiver de dizer não, digo. Recebo muitas cartas a pedir ajuda. Quando vou à Madeira, vão muitas vezes a minha casa. Há pessoas que me fizeram mal que vêm à minha beira, pedir. Não esqueço. Digo que não. Para sentirem. Quando precisei viraram-me as costas. Deus não me castiga por causa disto.

 

Vou contar-lhe o começo desta entrevista. Foi em Junho. Em Nova Iorque, um taxista contou-me que o seu filho tinha pago a operação a uma criança. Que tinha bom coração. E pensei na mãe que o tinha educado. Foi então que pedi para a entrevistar.

Ele tem bom coração. Quando foi para Manchester, saía em muitas revistas que fazia isto e aquilo. Às vezes era mentira. Ganhou muito dinheiro em processos. Dizia: “Não quero este dinheiro. Pegue nele e faça o quiser.” Dei-o a instituições.

 

Quais são os maiores defeitos do seu filho? Só temos falado das qualidades.

O maior defeito dele é não gostar de perder.

 

Porque é que isso é um defeito?

Tem de compreender que não pode ganhar sempre. Estou dizendo uma coisa, e sei que tenho razão, e ele entende que é como ele está a dizer: teima! Tem que saber perder dentro e fora do campo. Era muito teimoso, muito teimoso.

 

E vaidoso?, que é aquilo de que as pessoas o acusam.

Vaidoso? Gosta de se arranjar. Se tem possibilidades de ter tudo de bom, porque é que não há-de ter?

 

Não é vaidoso em relação à imagem. É a maneira como no campo...

Sente orgulho quando marca. O Ronaldo não é essa coisa que dizem. O Ronaldo é muito humilde. Sente vaidade de mostrar aquilo que sabe. E que consegue fazer melhor do que fez.

 

E os seus defeitos, são quais?

Sou também muito teimosa. Sou amiga do meu amigo, mas quem me magoar no dedo mindinho que saiba que me magoa no resto [mostra a mão toda]. Perdoo. Mas não sou a pessoa que era dantes.

 

Quais são os seus medos?

O meu medo é morrer e deixar os que mais amo na vida.

 

O Natal, como é que vai ser? Imagino que vá para a cozinha...

Vou! E vão as filhas. Não passo o Natal com o Ronaldo. Ele vai para o Dubai, passá-lo com a namorada e o filho. Ele disse-me para ir, mas não vou. Quero passar o Natal na minha terra. O frio lembra-me o Natal. No Dubai está quente. Já estive lá. Gostei. O fim do ano também passo na Madeira. Depois então vou para Madrid, com ele. Faço os anos na Madeira.

 

Grande festa?

Ele já organizou a minha festa. É surpresa mas eu já sei. Vai ser num barco, em alto mar.

 

Chega aos 60...

Espero chegar. Como diz o outro, para morrer basta estar vivo.    

 

Chega aos 60 uma mulher feliz?

Sim, sim.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014

Manuel João Vieira

09.07.18

Isto não é uma entrevista a Manuel João Vieira, isto é uma entrevista aos heterónimos de Manuel João Vieira. O músico, o candidato presidencial, o artista plástico. Uma destas tardes, apareceram todos lá por casa (do Manuel João, em Campo de Ourique). Ele é muitos.

Nada fica de fora. Sócrates e as escutas, Manuela Ferreira Leite por falar em leite. A pedofilia. Do que gostam os católicos. Educação sexual forçada na terceira idade. Palavras como “singelo” e móveis antropomórficos. Maio de 68 que afinal é Maio de 78.

Beckett não é chamado ao barulho. Apesar do absurdo. Mas Agnès Varda, sim, e Bocage.  

Há uma radiografia do país feita por Elvis Ramalho, Lello Minsk, Candidato Vieira e Orgasmo Carlos. Há uma biografia sumária do homem por detrás dos personagens, Manuel João. 

O que é fazer uma entrevista a um heterónimo? É seguir o fio. E provocar. Jogar no escuro.

Aqui e ali há pequenas incongruências (uma vez diz-se que Elvis Ramalho é o irmão mais novo dos irmãos Catita, outra que é Lello Minsk). E responde como um músico azeiteiro faria (“O papá catita era alguém muito severo”), ou um artista (Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial e irradiante”).

A entrevista foi feita à tarde, depois de Manuel João dormir a sesta. Estado: absolutamente sóbrio. Com queixas de uma ressaca da véspera. A casa é a casa de um artista.

Bem vindo ao admirável mundo de Manuel João Vieira!

 

… O que interessa realmente nas entrevistas é identificarmo-nos com aquele que é entrevistado; saber por exemplo que é uma pessoa normal como nós. Muitas entrevistas tendem a ser como aquelas que se fazem aos ciclistas quando chegam à meta, ou aos futebolistas, esperanças para o futuro. Existe uma organização implícita.

 

Um enunciado?

Sim. As respostas também fazem parte de um pacto, e as coisas funcionam segundo esse código, e se funcionarem assim são entrevistas sérias.

 

Sérias porque ninguém fica defraudado?

Sérias porque é aquilo que é suposto fazer-se. Tudo corre como num filme de Hollywood: há um princípio, um meio e um fim, que é feliz.

 

Quem vamos começar por entrevistar para furar o enunciado?

Tenho comigo o Orgasmo Carlos, um génio da arte contemporânea, segundo ele próprio. Tenho o Candidato Vieira, que está a fazer uma travessia no deserto. Tenho dois cantores, um que canta nos Ena Pá 2000 e noutras bandas, o Lello Minsk; e um cantor da canção portuguesa, o Elvis Ramalho.

 

Vamos começar pelo autor da frase: “Se há coisa que me faz mal é a água mineral”.

Isso foi uma tradução que fiz para uma canção que se cantava nos Irmãos Catita. Posso falar imediatamente como Elvis Ramalho… No fundo sou um amante da canção latina como as que havia antigamente. Em Portugal tivemos aquele acidente que foi o Salazarismo, mas havia muita canção latina, lembro-me disso. E também era muito latino o facto de nos agarrarmos às canções anglo-saxónicas. Os Conchas, o Concerto Académico, todos esses, pegavam em músicas, tanto italianas como inglesas. A única coisa que me distingue do meu irmão, Lello Minsk, é o facto de me interessar por canções ainda mais foleiras do que ele. Já não o vejo há uns anos. Para mim, o importante é o sentimento, e vivo numa espécie de museu do lixo sentimental, rodeado das minhas próprias fotografias.

 

Narcisista, portanto.

Sim. Tenho fotografias minhas dos anos 70, em que ainda não pintava o cabelo, com um bigodinho. A minha vida, ao contrário da do Lello Minsk, tem sido uma bebedeira mais de martinis. Ele prefere o bagaço e o whisky, bebidas mais duras. Somos pessoas bastante transparentes. Como irmão dele, acho que é uma pessoa sem qualquer tipo de substância. É volátil como espuma do mar. É diferente de mim. Sou uma pessoa com mais carácter, um bocado mais de consistência.

 

Você, Elvis Ramalho?

Sem dúvida. Pelo menos foi o que me disseram. Estou a escrever as minhas memórias, mas não me lembro de nada. Quando começar a lembrar-me de qualquer coisa vou escrever. E tenho outro problema: não sei se estou vivo ou se estou morto, e se estou a sonhar ou se estou acordado.

 

Tiveram pai e mãe?

O Lello lembra-se disso. Sou o irmão mais novo, não me lembro. Vivíamos no Algarve. Somos familiares dos tipos do atum. O Atum Catita era uma parte da família que se dedicava à indústria conserveira; fez algum dinheiro, mas nunca deu um chavo à parte pobre da família, que éramos nós. Emigrámos muito cedo para Lourenço Marques para fazer fortuna, e conseguimos ter um lugar modesto dentro do meio vagamente analfabeto e mundano de Lourenço Marques. Depois voltámos para cá como artistas coloniais, mas nunca chegámos a ter qualquer sucesso.

 

Quando é que nasceram?

Quem é que se lembra de quando nasceu?

 

Há os álbuns do bebé, que ajudam a situar.

O papá Catita era alguém muito severo. Quando éramos muito novos, quatro anos de idade, dividíamos uma sardinha de uma lata entre 10 irmãos, e quando alguém tirava um bocado a outro, espetávamos um garfo na mão! É preciso dizer que houve fome em Portugal – há muita gente que não se lembra disso. Cresci e nasci para a música. Para mim, o mundo da canção e da música é mais importante do que a realidade. Na realidade vivo quando estou em palco (isto também se diz neste tipo de entrevista). O sentimento de entrega aos meus fãs seria o sentimento que normalmente um casal, que vive num filme de publicidade, tem um pelo outro. Imagine-se uma família num filme de publicidade, um pai, uma mãe, os filhos…

 

Um pai sem barriga, uma mãe com um pernão…

A característica em comum é a de serem todos lindíssimos, e estão todos numa casa que parece um catálogo da Moviflor. Para isso prefiro a vida de palco, e gosto de imaginar que vivemos num mundo maravilhoso. Ontem vi um filme da Agnès Varda, um documentário dos anos 60 sobre aquela região de Cannes e Nice; o meu mundo é assim: vivo nos anos 60, quando as cores da moda eram o azul e o amarelo.

 

Ficou aí cristalizado, no sol e no mar.

Sem dúvida, fiquei. E tenho muita sorte de não ter ficado cristalizado na Idade Média, como muita gente que anda por aí. Nesse aspecto considero-me mais avançado. Tenho o problema de achar que os móveis me ameaçam, que são antropomórficos, agressivos e cruéis, e vivo rodeado de móveis… De resto, sou uma pessoa normal.

 

Porque é que essa pessoa só existe no palco, ou só se sente bem no palco?

Existo também fora do palco, em fotografias, sobretudo dos concertos. Se for a minha casa, ela está habitada por imensas fotografias, referências, os meus discos de ouro, o meu toucador, as perucas, os bigodes falsos… Só eu é que não estou lá. Mas o que é uma pessoa senão os vestígios que deixa neste mundo?

 

Pergunta profunda. Qual é a resposta?

Quem sou eu para responder. Sou fundamentalmente uma pessoa muito modesta, de origens muito humildes, e apenas quero entreter as pessoas.

 

Lorpa: é acusado disso?

Há quem me diga que sou simples. Nunca me interessei pela complexidade. Gosto de coisas singelas. Acho o mundo um sítio maravilhoso, as crianças são maravilhosas, as mulheres são maravilhosas, Portugal é um sítio maravilhoso. Tenho a sorte e o privilégio de viver num dos sítios mais bonitos do mundo. E permita-me que lhe diga que a menina é muito bonita.

 

Um palavrãozito, nas suas canções, existe?

Sabe o que é? Tenho pessoas que me escrevem as letras, e às vezes sou obrigado a cantar aquilo. Não quer dizer que simpatize com esse tipo de utilização da língua portuguesa, embora entenda que exista essa tradição, desde a poesia medieval galaico-portuguesa, passando pelo Barbosa du Bocage. 

 

Quem é que escreve as letras?

As letras são do meu irmão, Lello Minsk. Eu sou só um cantor romântico. Já lhe disse que a menina é muito bonita? O Lello Mickey, acho-o repugnante!, é uma pessoa sem sentido moral, um bêbedo convulsivo. Tudo o que de mau aconteceu ao mundo, a partir de Maio de 1978, é de certa maneira encarnado nesse… Chama-lhe pessoa; não sei se é uma pessoa.

 

Antes de falarmos do Lello Minsk…

Ele é Minsk, mas às vezes gosta que lhe chamem Lello Mickey.

 

A idade mental dele não é a do Rato Mickey, ou é?

Não sei se o Rato Mickey tem uma idade mental. A idade mental do Rato Mickey é a idade mental de quem lê o Rato Mickey. E preferia não falar do meu irmão, se não se importa.

 

Têm uma relação assim tão atribulada? Temos aqui um Caim e um Abel?

Vivo num mundo maravilhoso e não me interessam as pessoas que vivem fora desse mundo. Pus uma cruz em cima delas. Ou as pessoas são maravilhosas e está tudo bem, ou se não são maravilhosas, com licença, tenho mais que fazer. Já tenho uma certa idade, já tive os meus sarilhos e neste momento gosto de cantar em bailes de debutantes e coisas assim.

 

Nunca fica com vontade de espreitar por baixo das saias das meninas?

Com certeza que também já fui jovem, e para dizer a verdade a beleza da mulher portuguesa é uma coisa que não pára de me confundir.

 

E uma trafulhice, nunca lhe passou pela cabeça?

Essas pessoas que pensam em trafulhices deviam emigrar para outros países. Acredito que as pessoas de bem devem entender-se e que o povo português é essencialmente gente trabalhadora e honesta.

 

Não reagiu quando o provoquei, querendo saber se estes dois irmãos tiveram uma contenda séria. Se se odeiam como Abel e Caim.

É um exemplo bíblico muito limitado, mas é um símbolo daquilo que existe de pior no ser humano, que é a luta fratricida. Quase todas as lutas são fratricidas, menos aquelas que não o são. Nunca entrei pela via da guerra. Sou diplomático a resolver as questões. O meu irmão: não falo com ele nem hei-de lutar com ele; quando muito contrato um tipo para lhe dar uma tareia.

 

Assim não suja as mãos.

Não, lavo as mãos, mesmo, como Pôncio. Ele é mais novo. Quando éramos novos talvez eu lhe tenha dado carolos a mais e arrependo-me de o ter feito. Mas agora é um pouco tarde. Ele nunca ultrapassou o facto de a mamã gostar mais de mim. Sempre foi um rebelde e eu sempre fui o atinado.

 

Você nunca ultrapassou o facto de ele se divertir mais.

Não sei se ele se diverte mais. Para começar acho que ele se droga e devia fazer uma desintoxicação.

 

Que tipo de substâncias tóxicas é que ele ingere?

Sei lá!, droga.

 

Mas drogas há muitas. Até as mães tomam drogas em forma de comprimidos para dormir e calmantes.

Parece que sim, ouvi dizer. Tínhamos na nossa família uma senhora que tomava comprimidos, mas eram receitados pelo médico.

 

Cante-me uma música que seja a preferida do Elvis Ramalho.

Uma original? ”Portugal, terra maravilhosa” [canta], “Portugal, terra maravilhosa, terra do bagaço e da sardinha, de Guimarães, de Vila Viçosa, do Patilhas e do Ventoinha. Portugal, terra de cães vadios, terra de meus pais e meus avós, courela de primos e de tios, de marrecos e de Bijagós”.

 

É um bocado palerma, desculpe-me o insulto.

É, mas sabe que a palermice é muito saudável e põe as pessoas mais alegres. O grande defeito do mundo contemporâneo é que as pessoas são demasiado sérias, demasiado negras. Essa negritude, não no sentido africanista do termo, é como a anedota do sonho que tem um pontinho vermelho do lado esquerdo. Conhece?

 

Qual é a canção mais odiosa do seu irmão, Lello Minsk?

São todas más. Oh, meu Deus, prefiro nem cantar. Há uma que detesto que se chama “Canção conjugal”.

 

Como é?

Já não me lembro. E há outra: “Ó cona, a quanto obrigas”, que acho lamentável. Manifesta uma revolta da parte dele, talvez tenha tido falta de carinho. Ele nunca foi um bebé muito bonito, sabe? Ao contrário da minha pessoa. Não é para me gabar, mas ganhei o concurso de Bebé Nestlé, em 1952.

 

A canção.

“Ó cona, a quanto obrigas, fazes sangue às raparigas” – veja lá. E depois tem um refrão: “Cona, tu és a nossa mãe, cona, de ti a vida vem, estrela peregrina, perfumada e purpurina, amas analfabeto e doutor, patrão, tropa ou ardina, tu és a nossa sina, ó fértil divindade do amor”. Um disparate total, um tarado.

 

A dita, nunca o obrigou a nada? Como é que lhe chama?

Nunca a trato pelo nome. Acredito que a mulher portuguesa, aquilo que traz de mais secreto e mais belo em si, não é susceptível de ser expresso com uma palavra. Essa palavra é de ouro e morre na boca de quem a pronuncia.

 

Você andou na escola, e teve boas notas a português.

Estive num orfanato.

 

Num orfanato? O que é que aconteceu aos seus pais?

Ai não lhe disse? Morreram muito novos. A minha mãe morreu com 15 anos.

 

E teve-o com 13?

Começou a ter filhos com 11. Desconfio que alguns dos meus irmãos são meios-irmãos, senão não era possível haver tantos. Olhe, não sei, prefiro não pensar nisso. Quando começo a ver que as coisas são um bocado complicadas, prefiro não pensar.

 

Quem é que está a pedalar na bosta há 26 anos?

O meu irmão. Ele é que fez um concerto com esse nome. Devido ao tipo de vida que leva também não vai demorar muito tempo a bater a bota. Tem menos dez anos do que eu e parece dez anos mais velho.

 

Tem um bocadinho de inveja do seu irmão, não?

Nada, nada, zero, tenho pena.

 

Imagine que isto era uma daquelas peças de teatro foleiras, em que estamos a falar de uma pessoa e ela bate à porta… Essa pessoa é o Lello Minsk.

Posso ir à casa de banho e chamo-o, ele está ali na sala de espera. (De qualquer maneira tenho mesmo de ir à casa de banho). Não se importa?

 

[Levanta-se e sai]

 

O Lello faz-se acompanhar da stripper Nelita Bate-me Uma, da Domadora de Sardinhas Menstruadas, da Barracuda Transmontana. É verdade?

Não sei onde é que foi buscar essa informação, mas há aí uma confusão qualquer, é tudo completamente falso. Como diz Bibi, não deve ser a minha pessoa.

 

Quem é Bibi?

Bibi é um homem que está preso no escândalo da Casa Pia. A primeira coisa que ouvi o homem dizer na televisão foi isso; gostei dessa frase. Toco com os Ena Pá 2000. Sim, temos de vez em quando algumas raparigas, dançarinas exóticas, que se envolvem no nosso número. Temos um número bastante interessante, sexo, drogas e rock and roll.

 

Vamos hierarquizar: do que é que gosta mais?

Nem só de drogas vive o homem! Há também o sexo e o rock and roll. É indiferente, é conforme. Também gosto de comer, tipo feijoada e chili com carne, e grandes costeletas de vaca.

 

Abrimos esta caixa?

Qual caixa? Não vivo dentro de caixas.

 

Lello Minsk, também chamado de Lello Marmelo. Marmelo é por causa da marmelada?

Eu, Lello, gosto de dar a mim próprio vários nomes, porquê? Porque me chateia ter só um. É só isso, mais nada. Marmelo é apenas porque rima com Lello.

 

Pensei que fosse o gosto pela marmelada.

Não gosto especialmente de marmelada, também gosto de geleia.

 

Não estou a falar dessa, claro.

Sou muito estúpido. Minsk era o grito do amor em Campo de Ourique, em 1977 ou 1979. Era o grito que se dava quando se via uma tipa muita boa. E é difícil. O Minsk tem de ser gritado a 50 oitavas acima do Ré de porco, que é bastante grave como sabe.

[exemplifica] É um grito mais de leitão. Porque é que não me faz perguntas simples?

 

Do que é que quer falar?

Sinto-me bem com a minha vida, gosto daquilo que faço. De resto não tenho grande coisa a dizer. Sou uma pessoa bastante vazia.

 

As pessoas pensam que é um malcriadão, um bebedolas que diz palavrões.

Sou apenas um personagem grosseiro, obsceno, algo aviltante. Tenho orgulho em ser um bruto “cervejudo”. Bebo cerveja, bebo tudo. Criámos os Ena Pá 2000 de uma maneira muito esquisita. A Virgem Maria apareceu a todos os membros, não me lembro quando, a dizer que tínhamos de formar um grupo de rock. Acordámos ao mesmo tempo, como se tivéssemos estado num transe hipnótico profundo, dirigimo-nos para a frente da Igreja do Santo Condestável, aqui em Campo de Ourique, com as guitarras, e começámos a fazer música.

 

De adoração à Nossa Senhora, de agradecimento pelo chamamento?

De adoração, não. Esta não é a principal profissão de Nossa Senhora. Ela tem a profissão de ser Nossa Senhora. Mas além disso também é uma pessoa que gosta de música, e como tal “interviu”.

 

“Interviu”? Você dá mostras de ler Camilo Pessanha e diz “interviu”?

“Interview” é uma revista muito boa. Não sei se ainda existe. Intervir, “interviu”?

 

Interveio.

Interveio-se, pronto, é isso mesmo.

 

Nossa Senhora interveio.

Interveio-se. “Interviu-se”.

 

Os católicos, nunca lhe cospem em cima, nunca lhe atiram pedras por dizer essas coisas sobre Nossa Senhora?

Sim e não. Falo sempre da Nossa Senhora com algum respeito. O que os surfistas chamam “respect”. Os católicos são normalmente as pessoas mais obscenas e que mais simpatizam com este tipo de linguagem.

 

Às escondidas.

Sim, às escondidas ou quando bebem um copo. Existem dois tipos de pessoas: as que existem de dia e as que existem à noite. As que existem à noite são o contrário das que existem de dia. Vamos lá ver se explico isto. Há um filme do Chaplin em que há um bêbedo milionário que ajuda o Charlot; bebem copos e divertem-se à grande, mas no outro dia de manhã, quando está sóbrio, não o reconhece. As pessoas são assim. E também não se reconhecem a si próprias quando estão bêbedas. Inclusivamente há conflitos interiores dentro das pessoas. Nós estamos a tentar espremer isso tudo como se fosse uma almôndega. A nossa sociedade precisa de nós.

 

“Nós”, Ena Pá 2000?

Sim, sim, falo em nome do grupo, até porque os outros estão fechados num armário e normalmente só se abre esse armário quando há um concerto.

 

Estão fechados na caixa?

Sim, uma caixa muito grande em forma de armário. Mas é um armário com televisão, com várias coisas interessantes lá dentro.

 

É o maestro desse grupo?

Tento organizar aquilo, mas nem sempre consigo.

 

Você é sempre quem manda?

Não sei. Lá por organizar não quer dizer que mande. Por exemplo, temos um Primeiro-Ministro, não é? Ele tenta organizar, mas será que é ele que manda?

 

Quem é que manda?

Segundo o Jerónimo de Sousa, é o poder económico. Se perguntar a outros políticos, dirão outra coisa qualquer.

 

O João Pereira Coutinho, o colunista, também diz que manda quem tiver o livro de cheques.

É a mesma coisa, nisso estão todos de acordo.

 

Sendo que o João Pereira Coutinho é de direita, e o camarada Jerónimo…

É de direita também. São todos de direita. Ou são todos republicanos, ainda não percebi.

 

Eu ainda não percebi se os Irmãos Catita se dão bem com os Ena Pá 2000.

Nós já mandámos esses todos para o hospital. Quem está nos Irmãos Catita é o Elvis. Tenho agora um grupo chamado 4444, de rock sinfónico.

 

Já convidaram o José Cid e o Tozé Brito para o grupo?

Não, foleirada não queremos, obrigado. Somos um grupo dos anos 70, mas não somos foleiros. O José Cid fez umas coisas boas quando fez rock sinfónico, mas depois começou a fazer música comercial, e o Tozé Brito também.

 

O José Cid é melhor do que o Elton John.

Ai é, porquê?

 

Porque o José Cid o disse. E porque eu acho que toda a gente é melhor do que o Elton John.

Se você o diz, quem sou eu? Preferia não falar de colegas, embora colegas sejam as putas. Somos todos umas putas, a verdade é essa.

 

Quando precisa, vai às putas? Tem uma mulher, várias mulheres? Como é que resolve essa parte?

Todos nós, portugueses, vamos às putas de vez em quando. Por alguma razão elas existem. É mais uma daquelas coisas que tentamos pôr debaixo da cama mas que aparecem, sobretudo com uns copitos. E é uma maneira fácil de resolver os problemas conjugais. É mais barato, moralmente, arranjar uma prostituta do que uma amante. Uma amante tem direitos. Ao passo que uma profissional…

 

Dá menos trabalho, custa menos dinheiro?

De maneira que as profissionais existem para alguma coisa e infelizmente não são dignificadas como deviam ser. Acho que também devia haver Mães profissionais, assim como há prostitutas. Há uma agência na Alemanha que tem pessoas que fazem de conta que são Mães para homens de negócios. Prostitutas sentimentais, não sexuais. São amas-de-leite, no fundo.

 

Só que em vez de dar leite, dão sentimentos.

Também podem dar leite, mas é mais caro.

 

Viu esta notícia nesse jornal?

Sim, fui eu que a fiz. Tenho um pequeno fanzine, feito em fotocópias. Chama-se “O escarro ilustrado”. A minha ideia é que vivemos num país livre e temos que experimentar até que ponto é que é livre.

 

Nunca apanhou pela frente Manuela Ferreira Leite, que diz que a liberdade de expressão está ameaçada neste país?

Portanto, continuamos a falar em leite... Ela tem razão, ou então não tem, ou tem mais ou menos. Isto é, não compreendo porque razão algum governante, neste tipo de estado democrático em que vivemos, se há-de chatear minimamente com qualquer afirmação, por mais irresponsável e atrasada mental que seja, da parte da imprensa ou da televisão.

 

Tem políticos na audiência dos seus concertos. Eles abordam-no? Outros políticos que não o Candidato Vieira.

Não directamente. Mas já fiz algumas campanhas para o “Dr.” António Guterres, tocámos em alguns comícios do partido socialista, aqui há 10 anos. Também já toquei para o Dr. Alberto João Jardim. Tenho imenso respeito pelo Candidato Vieira. Sei que representa interesses obscuros, mas quem é que não representa interesses obscuros? No fundo, será que a menina não representa os seus interesses obscuros de vez em quando? Se não representa talvez devesse representar. O que é que nós representamos? O que é representar?

 

Não tem filhos, Lello?

Tive oito, mas morreram todos.

 

Que pena. Morreram de quê?

Foram atropelados por um camião escolar. Eram gémeos. É verdade, sémen dos meus testículos. Adeus. Por outro lado fiquei aliviado, era uma certa carga que tinha. Oito gémeos, mesmo com amas-de-leite, é complicado. E a mãe morreu com eles, também estava a atravessar a rua.

 

Ficou livre?

Fiquei livre de quê? O que é a liberdade? O que é a liberdade, diria o meu irmão, sem repressão? Nada. O que é a repressão sem liberdade? Nada.

 

Isso já é palavreado do Candidato Vieira. Aprendeu com ele?

Antes de mais nada, Anabela, gostaria de lhe desejar uma boa tarde e dizer que gosto muito de si e respeito muito o seu trabalho. Não sou um homem, sou um político, sou uma máquina de fazer propaganda, e sou sobretudo uma pessoa que acredita.

 

Acredita em quê?

Acredito em si, Anabela, assim como acredito em todos os portugueses e portuguesas. Acredito que vocês são capazes de fazer deste país um país melhor. Vocês, com a minha ajuda, com a minha modesta contribuição.

 

Conte-me o que é que o faz ter tanta confiança em si e achar que as pessoas podem votar em si.

Porque vivemos num país livre, em primeiro lugar. Dois, porque sou o melhor candidato. Três, porque os portugueses têm uma confiança muito grande em mim. Sabem do que sou capaz, sabem que neste momento sou a única alternativa à política tradicional. Sabem que tanto em Portugal como ao nível da política internacional vivemos num estado de absurdo, e apenas um discurso mais absurdo, ou aparentemente absurdo, poderá salvar a nação. Tudo pela nação, nada contra a nação, eu sou a nação, eu sou Portugal. A minha vocação é dar às pessoas o que elas querem. Sou um servidor público, não quero nada para mim.

 

O que acaba de dizer é o maior pacote de lugares comuns que ouvi nos últimos tempos.

Fico muito agradecido. Não sei se leu o meu programa. O meu programa é muito simples, tem 320 pontos essenciais, e cada um desses pontos tem 10 pontos acessórios, o que multiplica por 10 as possibilidades. Tem este livro? Vou-lhe dar este livro? Cada português devia ter um livro destes em sua casa.

 

Estava mais magro na capa do livro Vieira, Só Desisto Se For Eleito.

É Photoshop. O dente a mais também é Photoshop.

 

“Quero uma democracia toda aberta”?

É a chamada inclusão.

 

“A sua vida vai mudar este livro. Dedico este livro a todos os portugueses de alma e coração e a todas as portuguesas aquele abraço”.

No fundo sou também um ser humano, também tenho sentimentos.

 

O que é isto na página 36, “Pamela, a secretária traidora”?

Ela é capaz de me ter traído. Este livro tem um pouco de tudo. Esta é a parte mais importante, são as ideias. Essas, são umas crónicas que escrevi para uns jornais de Economia. Isto é o meu “Visionário programa político e social para um Portugal de sonho”.

 

Aquele onde Elvis Ramalho acha que vive.

“A arte em Portugal deve estar sempre 20 anos atrasada” – é uma máxima. “O burro deve ser um animal sagrado para o português, como o Burro de Barcelos”. Tive várias ideias originais, biotecnologias, história, futebol, sexo.

 

O que é que o Candidato Vieira tem a dizer sobre o sexo?

Temos uma educação sexual forçada para a terceira idade.

 

Porquê, acha que é preciso?

O sexo visa o prazer e o prazer é soberano. Temos uma conferência na universidade do Pico que vai falar sobre isso. Vamos promover as variedades de sexo regional. Cada localidade portuguesa, assim como tem o seu traje folclórico, também tem o seu estilo sexual. Temos o “ Broche ó da Guarda”, “Broche à Nacional nº 1”, “Minete à transmontana”, “Sexo com leitões”, na Bairrada, “Sexo castiço”, “Sexo em coro alentejano”. Se calhar vamos abolir as provas orais, este ano.

 

Essas coisas ocorrem-lhe quando está sob o efeito do ópio?

Só bebo água do Luso. Quer um copo de água? Neste momento o que me está a custar é não me candidatar às próximas presidenciais. Não vejo que estejam reunidas as condições e a minha fé na democracia está a vacilar. Não sei se um levantamento militar, um pronunciamento militar, não seria mais favorável à nossa saúde económica, e mesmo à nossa saúde sexual.

 

Não me diga que tenho um protofascista à minha frente… 

Digamos que todos os meios são legítimos para alcançar o poder. Se a democracia está de tal forma viciada e não podemos atingir o poder pela via democrática, devemos tentar outras formas. Devemos levar a bom cabo as nossas ambições.

 

Quais são as suas ambições?

Quero ser presidente absoluto de Portugal. Vou só beber um bocado de água.

 

Tem preocupação em relação às conversas que tem ao telemóvel? Acha que um dia as suas conversas mais íntimas podem aparecer transcritas nos jornais?

Já foram. O facto é que estou sob escuta. As pessoas utilizam aquilo que ouvem nas minhas conversas telefónicas para as atribuir a outros políticos, que me copiam sem qualquer tipo de pudor. Estou a ser roubado e vou falar com a SPA para saber se as escutas telefónicas também podem ser objecto de protecção.

 

Relate uma conversa que tenha sido apropriada por algum político.

Todas. Principalmente algumas. Tudo aquilo que neste momento tem vindo a lume sobre o Primeiro-Ministro, sei que não é sobre ele, porque as escutas foram feitas à minha pessoa e apropriadas pelo Primeiro-Ministro e pelas pessoas que rodeiam o Primeiro-Ministro. Mesmo o caso do Freeport não envolve o Primeiro-Ministro, envolve-me a mim. Eu é que sou a pessoa corrupta! Aliás, fiz tudo: corrompi-me a mim próprio, paguei-me a mim próprio. As pessoas precisam de movimentações. Os deslizes judiciários, ilegais, estão a ser utilizados para distrair o povo.

 

Distrair de quê?

Da realidade. A realidade é que só há uma força neste momento que pode melhorar as condições de vida neste país, que é o Vieira e o “Vieirismo” puro e duro. Tenho ideias muito boas para Portugal. Por exemplo, mudar o nome da capital para “Vieirópolis”. O Santana queria fazer o mesmo com “Santanópolis”, ou quase o fez, na Figueira da Foz.

 

Gosta de fazer campanhas eleitorais, não desiste. Porque é que faz isso?

O meu sangue bombeia a uma maior velocidade quando estou na estrada, em comício, é verdade.

 

Isso é porque é adorado.

Não gosto de dizer isto, mas sou idolatrado pelas multidões. Gostaria aqui de dizer também: as eleições nunca foram legítimas (ninguém sabe isto), e os resultados, a percentagem ridícula que me deram, é manifestamente falsa. Fui roubado!

 

Quantas pessoas oficialmente votaram em si?

Oficialmente, nenhuma. Mas sei de fonte segura que dois milhões de portugueses votaram em mim.

 

Se não votaram, gostariam de votar.

Aí está. Porque não um sistema de voto mais simples para os portugueses? Um sistema de voto em que basta uma pessoa pensar para que o voto… O voto pela internet tem de ser imediatamente utilizado. Temos de acabar com os formalismos legais, com toda a papelada que é necessária para legitimar um candidato. 7500 assinaturas é ridículo, porque pressupõe que existe um aparelho, um secretariado. Essa burocracia está ao serviço dos partidos, nitidamente. O homem das salsichas Nobre conseguiu-o, com certeza.

 

O homem das salsichas Nobre?

O senhor António Nobre é um exemplo.

 

É Fernando.

Esse mesmo, o Manuel Nobre. Acho muito bem que o Nóbrega tenha conseguido. As pessoas têm de compreender que chegaram ao fim de um ciclo, ao fundo do poço, e que já não há água. Só eu lhes posso dar a chuva. Isto é um ano um bocado especial em termos de pluviosidade, os políticos nunca falam disto, mas está a chover muito.

 

Vi-o num programa de televisão a meter-se com um papagaio; pensou em matá-lo e fazer com ele um arrozinho de papagaio.

Isso é totalmente infundado e falso. É uma afirmação sem pés nem cabeça. Receitas brasileiras, não tenho nada a ver com isso. Com todo o respeito, não estamos a falar dos problemas reais do país. Os portugueses precisam de amor-próprio e de dinheiro. E de satisfação sexual e sentimental nas suas vidas. Isso tudo dá saúde, lá está. A alegria de viver dá saúde. Temos de descobrir os “Brasis”, mas esses “Brasis”, essas terras, estão dentro de nós próprios, e nós podemos encontrá-las. Somos uma nação riquíssima, somos conquistadores. Temos de começar por nos conquistar a nós próprios.

 

Por falar em Brasis, falemos do Orgasmo Carlos, que imagino que conheça.

Orgasmo Carlos é uma pessoa que tem evidentes afinidades com Portugal.

 

É afilhado do Roberto Carlos?

Não, é filho do Roberto e do Erasmo Carlos. É um artista contemporâneo dos PALOP. Tanto é um artista africano, como português, como macaense. É um artista cuja obra universal exprime a sua profunda lusitanidade. E é um homem que tendo feito exposições nos principais museus e galerias da Terra e Marte, escolheu Portugal para viver – o que é, para nós portugueses, muito lisonjeiro.

 

Como é que ele agora se junta à conversa?

Ó Orgasmo, podias fazer o favor de cá chegar?

 

E nisto…

Em primeiro lugar queria pedir desculpa por estar atrasado. Estou a ser seguido na rua. Não é só o Candidato Vieira. Há pessoas que me querem liquidar – pelo menos duas. Existe uma máfia na Art World que quer acabar comigo, talvez por ser o maior artista vivo da actualidade. Vivo, por enquanto. Não sei se saio daqui e sou morto em dois ou três minutos. Estão a apertar o cerco. Ainda bem que estou a falar consigo, porque pode ser a minha última conversa. Não sei se viu as minhas exposições.

 

Não vi as suas exposições. Mas vi as exposições de pessoas que julgo que aprecia, o Manuel João Vieira, o Pedro Proença, o Fernando Brito, o Xana.

Não tem nada a ver. São artistas portugueses da década de 80. Faz parte, marcou uma época, mas estão ultrapassadas. Hoje em dia existem coisas mais importantes. Não digo que a arte deva ser pedagógica, embora a minha arte seja, e seja de certa maneira “explicadista”. A minha obra não se limita ao “explicadismo”. Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial e irradiante. Os raios de comunicação que partem desse sol central, que é a arte de Orgasmo Carlos, espalham-se um pouco em todas as direcções. Não como os tentáculos de um polvo, mas como os raios de um sol que contagia e inebria.

 

Como um orgasmo.

Um orgasmo é um momento.

 

Mas irradia.

Sem dúvida, é uma explosão. E vai tocar em vários pontos importantes. Já ouviu falar no orgasmo permanente? Gostava de ouvir falar? A noção de orgasmo permanente está na base das obras do Orgasmo Carlos; isto é, de mim próprio. E peço imensa desculpa, não consigo deixar de falar de mim próprio na terceira pessoa. Ajuda-me, porque não caibo em mim próprio. Recomendaria aos jovens artistas que olhassem para lá do seu mundo. Hoje em dia qualquer pessoa que pendura um cordel num armazém é um artista plástico. A vanguarda chegou a um extremo, chegou à fronteira do deserto. A vanguarda nunca acaba e a arte nunca deixa, como Saturno, de devorar os seus próprios filhos, e produzir nova arte. O canibalismo é arte, assim como o excremento é arte.

 

Gilbert & George fazem arte com o seu excremento.

Sim, e com algumas tecnologias um pouco mais modernas. O excremento é uma metáfora do corpo humano e do funcionamento do mundo da arte e da transmissão do conhecimento simbólico. Quando falo em irradiação, falo a todos os níveis. Quando, a partir do século XIX, se substituiu a religião oficial pela arte e pela literatura, (estamos a falar de uma elite), houve qualquer coisa que fracassou. Ainda existe um grande vazio na vida das pessoas a partir do momento em que Deus deixa de existir. Não é possível preencher esse vazio com obras de arte de nenhum artista, a não ser com as obras do Orgasmo Carlos. Não por ele ser um artista particularmente xamanista.

 

Particularmente o quê?

“Xamanistíco”. Ele é um xamã lusófono.

 

Xamã com “x”?

Com “sch”.

 

O que é um “schamã”?

É diferente de xamã com “x”. Eu diria mesmo que Orgasmo Carlos, em vez de “sch”, ou com “x”, será um “chamã”. Mesmo tipo “chamon”, porque é português e porque é lusófono. Toda a gente sabe que devemos ir às nossas raízes, porque são elas que nos permitem ser simultaneamente originais…

 

Estou um pouco embrulhada.

…e transcendermos essa originalidade e sermos universais.

 

Tem um discípulo que é um urso.

O Ricardo Rocha. É um jovem talentoso que encontrei nas montanhas, perto da Serra da Estrela. Estava preso a uma árvore e vivia mais ou menos de subterfúgios, pedia esmola. Eu estava a precisar de qualquer coisa de novo. Fui a Basel e não tinha nada. Não tinha um trabalho com profundidade suficiente e que ao mesmo tempo influenciasse as pessoas. Esse urso salvou uma parte da minha carreira. Nas nossas performances eu tocava realejo e o urso recitava de cor todos os textos de Marx. Isso tornou-se uma obra lendária no mundo da arte conceptual. Foi a partir daí que consegui reorganizar a minha carreira. Antes disso pintava velhos pescadores com cachimbo e mulheres nuas com vasos de flores.

 

Na parte das mulheres nuas com vasos de flores, m bocadinho como o Boticcelli?

Não, não, era mesmo muito mau aquilo que fazia.

 

O urso já participou naquela filmagem que fizeram no cemitério, em que havia uma stripper no lugar do morto? (Isto aconteceu.)

Esse filme é importante. Fala-nos da ressurreição, da morte, da vida e do amor. O script é simples: o herói vai ao cemitério colocar uma flor na campa dos pais, os pais ressuscitam, começam imediatamente a fazer amor, ele vai atrás deles, com o urso – aliás, o urso estava à espera na carrinha funerária. Os mortos vão para a carrinha funerária e vão circulando pela cidade de Lisboa enquanto fazem amor, no lugar do morto. Por acaso, o camião deita imenso fumo e essa parte é engraçada. (Depois vamos até à Gulbenkian, a uma exposição de arte moderna.

 

Não vos reconheceram e prenderam-vos.

Não, simplesmente ficaram inanes, e nós continuámos a desempenhar o nosso papel e a nossa performance até ao fim, e saímos sem qualquer problema). Foi um filme relativamente barato.

 

Concorreram ao subsídio?

Isso está viciado. Preferimos fazer as coisas por nós próprios, sem contar com ninguém. Conto com os fundos da Orgasmo Carlos Foundation, ou se quiser, da Colecção Orgasmo Carlos Foundation.

 

O Orgasmos Carlos é um pintor que se considera o maior do mundo, mas é também a cara de uma cooperativa de pessoas?

Não sei do que está a falar. O Orgasmo Carlos tem, é certo, como os anões do Pai Natal, ajudantes. Hoje em dia é raro o artista, o criador de obras de arte contemporânea, que utilize a sua mão nas suas obras; utilizam-se assistentes. O artista é uma espécie de general que fala com os coronéis e os tenentes para desencadear as operações militares.

 

O Orgasmo Carlos alguma vez fez alguma coisa com o urso?

Fez várias performances, e além disso há a história de vida do Orgasmo Carlos. A história, estamos a trabalhar nisso, os meus escritores estão a escrever. Tem uma estrutura parecida com “Assim falava Zaratustra”. Só que tem homens e ursos.

 

Não há relações bestiais?

Quase nenhuma. Mas o urso é pedófilo e de vez em quando anda com um ursinho de peluche mais pequeno que ele. O urso tem dois metros, anda com um ursinho para aí com 50 centímetros. Além de que ele é castanho-escuro e o outro é cinzento claro, quase azul. Eles viviam comigo numa vivenda no Algarve e cansei-me de ver aquilo à minha frente. “Meu amigo, se é para isso que estás aqui, se é esse o teu tipo de vida…”. Dei-lhe tudo, ensinei-lhe tudo, e ele começou a dar entrevistas e a falar da sua obra como se não tivesse havido qualquer influência da minha pessoa no seu trabalho.

 

Que relação existe entre estas pessoas com quem tenho vindo a falar e o Manuel João Vieira?

Nada. São exercícios de matemática, de xadrez, de álgebra, exercícios de natação.

 

Eles aparecem ao longo do dia do Manuel João Vieira, quando está a fazer uma torrada ou quando vai à fisioterapia?

Um dia é um holocausto, uma torrada é uma torrada. Eles desaparecem, aparecem. Às vezes tenho baratas em casa, não as tenho visto ultimamente. As baratas, as formigas, aparecem e desaparecem; essas pessoas também.

 

Os seus vizinhos, quando o encontram na rua, estão à espera de encontrar o Manuel João Vieira?

Não tenho vizinhos, vivo num hospital psiquiátrico há 20 anos. Estou a tentar sair daqui.

 

Agora estou a falar com quem?

Não sei.

 

Se quiser falar com o Manuel João Vieira, posso?

Olá Anabela, sou eu, está boa? Não tenho assim grande coisa para dizer, sou uma pessoa normal, vivo aqui neste sítio.

 

É verdade que não tem grande graça enquanto Manuel João Vieira?

É, lamento.

 

Dados biográficos do Manuel João Vieira.

Nasci em 1962, frequentei o Liceu Pedro Nunes e a Escola de Belas Artes, e outros sítios. Sou sócio minoritário de um espaço nocturno [Maxime]. A única coisa que gosto mesmo de fazer é pintar, desenhar. Sou um tipo de Campo de Ourique como outro qualquer, estou cá há 44 anos. Gosto de beber uns copos ao fim-de-semana, como toda a gente, e toco ao mesmo tempo. Como uns amigos que se encontram numa garagem para ensaiar. A única diferença é que gosto de ensaiar ao vivo porque sempre ganho algum, é mais prático.

 

Nas Belas Artes encontrou um grupo de amigos e formaram os Homeostéticos. Seria outro se não tivesse encontrado aquelas pessoas?

Talvez esse seja um ponto de viragem. Na verdade queria fazer banda desenhada, e estive a trabalhar nisso até entrar nas Belas Artes. O meu pai, sendo pintor [João Vieira], encorajou-me e tentou explicar-me as vantagens da arte com “A” grande. Mas eu estava obstinado em relação à banda desenhada. Depois houve uma transição entre a banda desenhada e a pintura, que aconteceu naturalmente e com a influência desse grupo. Foi bastante interessante, mas já foi há muito tempo.

 

Quando se vê o documentário do Bruno de Almeida sobre os Homeostéticos, o que se percebe é que se divertiram à grande.

Sim, mas tínhamos idade para isso. Uma pessoa pode divertir-se em qualquer idade. O Pai Natal também se diverte, o Pai Natal tem umas amiguinhas…

 

Publicado originalmente no Público. 

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