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Anabela Mota Ribeiro

Sicília (c/ livro de Goethe)

22.09.18

Numa segunda feira de manhã, a primeira de Abril, Goethe estava em frente a Palermo. Tinha deixado Weimar havia muito e a sua viagem a Itália aproximava-se do fim. Era outro homem, este que chegava à Sicília, de tal modo que não foi reconhecido por um cavaleiro de Malta que lhe perguntou pelo jovem impulsivo, cujo nome não recordava, mas que era o autor do Werther... Goethe respondeu-lhe: «A pessoa por quem tendes a amabilidade de vos interessar sou eu próprio!». Muita coisa deve ter mudado, espantou-se o outro... «Certamente. Entre Weimar e Palermo passei por grandes mudanças».

Dois anos antes da Revolução Francesa, animado por um interesse enciclopédico, o génio alemão percorria a Itália. «A viagem pode comparar-se a uma maçã madura que cai da árvore: a queda da árvore significa, como esta viagem, uma libertação e o início de novo ciclo». Eu vivia com uma frase de Goethe, transformada em linha condutora da minha vida: «O alvo da viagem é viajar». Mas nos dois últimos anos propus-me visitar a Itália seguindo as suas anotações e cartografia. Talvez procurasse, como ele, esse instante arrebatador em que nos dissolvemos para nos voltarmos a achar.  

Cheguei a Palermo num sábado de manhã, vinda de Paris onde estava há mais de uma semana. Só percebi que o facto era relevante quando regressei a Paris e tudo me pareceu subitamente civilizado e limpo. Provavelmente o efeito não seria tão espectacular se voasse de Lisboa. Estava um calor de Agosto; absurdo, quero dizer. Que se entranha imediatamente no corpo e constitui um cheiro de que ficamos impregnados. Era um cheiro a suor, a vida vivida, a Verão, que persistiu dia após dia.

A cidade que se anunciava aos pés dos montes escarpados, despertou em mim o mesmo sentimento que Nápoles, um ano atrás, e que Goethe descrevia desta maneira: «Quando quero escrever palavras só me vêm imagens aos olhos. (...), e faltam-me os orgãos próprios para dar expressão a tudo isto».

Há um feitiço que nos faz aderir instantaneamente a esta terra. Suja, pobre, sanguínea. Talvez seja a síntese improvável de culturas (grega, romana, bizantina, sarracena, normanda, espanhola); o magnetismo da terra  imortalizada pelo cinema_ sentimos que fazemos parte de um filme de Visconti, que somos colegas de trapaça de Totó, que era napolitano, mas que encaixa no estereótipo siciliano. Talvez sejam as pessoas; a sua pele curtida pelo sol, a camiseta esburacada, o vinco das calças, o nariz adunco, a brilhantina que puxa o cabelo. O meu personagem favorito, antecipo desde já, é aquele que me recebe num modestíssimo hotel, em Messina, lá mais para o fim da semana: cabelo armado num balão de algodão doce, anel no mindinho e no anelar, casaca cinzenta debruada a ouro, botões redondos, a reluzir. Um aprumo de outros tempos. A surpresa foi imensa quando lhe vi a boca esburacada, os lábios presos por um dente em cima, um dente em baixo. Fellini tê-lo-ia aproveitado, e aos neons que, por trás, anunciavam o nome do hotel.

Na chegada à Sicília, Goethe sublinha a “fertilidade luxuriante”, enternece-se com “a pureza dos contornos”, “a harmonia do céu, do mar e da terra”, elege o “Monte Pellegrino como a mais bela das pequenas montanhas do mundo”. Deixara Nápoles havia poucos dias e escapara dos suplícios do enjoo, (e, já agora, de uma tempestade que quase deitava tudo a perder), no interior do navio. Daí a dias, recuperei a passagem em que ele falava de ter curado o enjoo com pão e vinho, imobilizado numa posição horizontal. Eu estava em Vulcano, entre barcos, e o vinho Malvasia, um vinho licoroso originário da ilha de Salina, combinava com brioches e o pôr do sol. Era uma perfeição de cartão postal, celebrada com vinho da casa.

Goethe teria gostado de Vulcano, e sobretudo de Stromboli, a mais distante das ilhas Eólicas. Da sua aspereza vulcânica, das casas brancas e pequenas, dos sardões que se escapam das pedras quentes e atravessam o caminho. Mas acredito que Stromboli lhe interessasse pouco, mesmo sendo um geólogo apaixonado. A resposta é simples: depois de visitar o “monte ígneo” que é o Etna, que figura na Odisseia como uma coluna que segura o céu, qualquer vulcão se assemelha a um vulcãozinho.

Se é certo que Goethe não conhecia Stromboli filmado por Rossellini, os percursos íngremes, as ruas “íngrides”, eu não podia recusar sentar-me na soleira da porta da casa em que viveram. «In questa casa...», atesta uma placa de mármore, em letra de namorados. Ingrid Bergman e Roberto Rossellini viveram ali na Primavera de 49, durante a rodagem do filme. Doravante, sempre que vir a Bergman no cinema, pensarei no dia em que tomei pequeno almoço num café com vista para o mar, porque ele se chamava «Ritrovo Ingrid».

Conto sumariamente a história a Mauro, ou Marco, o estudante de geologia que me mostra as diferentes camadas de lava do Etna, explica porque o rio de lava é tão preciso e não transborda (porque as extremidades arrefecem rapidamente, e desse modo fazem uma barreira que impede que a torrente de fogo extravase), faz-me percorrer o rebordo de diferentes crateras. Mauro, ou Marco, nunca viu o filme em que Ingrid sente a terra a tremer, mas sabe da viagem a Itália de Goethe e interessa-lhe saber porque é que o alemão considerava esta “a rainha das ilhas”. É um siciliano orgulhoso. Tento recordar a definição precisa, mas não a encontro. Poderia ter respondido isto: «Quanto a Homero, foi como se me caísse uma venda dos olhos. As descrições parecem-nos poéticas e afinal são extremamente naturais, embora criadas com uma pureza e uma autenticidade que nos assusta». Goethe diz também que com a Sicília a Odisseia tornou-se para ele palavra viva.

Esta impressão persiste, passados mais de 250 anos. É um pouco infantil, mas senti uma aceleração no peito quando vi uma placa a apontar para a Riviera dos Ciclopes, e idealizei a cena: criaturas medonhas empurrando pedras para impedir que Ulisses aportasse naquela encosta. (Li algures que os ciclopes dormiam dentro das bocas do Etna...). Foi uma emoção perceber a correspondência entre as palavras milenares de Homero e aquilo que se desenrolava ante os meus olhos. E imaginar Goethe a subir de mula, e a sentar-se para, em segurança,  poder ver toda a área. «O vento soprava de leste, varrendo toda a esplêndida região que se estendia a meus pés, até ao mar. Vi a olho nu toda a costa, de Messina a Siracusa, com as suas reentrâncias e baías». Hoje não se vê senão Catânia, rente ao mar e aos pés do vulcão, e em dias claros avista-se Taormina. Mas Siracusa, a 60 km a sul de Catânia, e Messina, sensivelmente à mesma distância, a norte, já não se alcançam.

A autora do guia Lonely Planet aconselha a organizar a viagem em torno de uma ideia. Conselho avisado. É tão extraordinária a oferta que é fácil dispersarmo-nos ou repetir percursos óbvios. Goethe abordou a Sicília com a mesma paixão com que percorreu toda a Itália. João Barrento, autor da tradução que sigo, condensou do seguinte modo os princípios que orientam o escritor alemão: «a abertura dos sentidos (do olhar em especial), a distância integradora (daí o hábito de subir às torres) e o diálogo com as coisas (particularmente a natureza, o que explica o lugar dominante da observação de fenómenos geológicos, mineralógicos e botânicos). (...) Por outro lado, o presente é a grande via de acesso e o ponto de chegada para toda a reflexão sobre a arte, a história e a natureza».

No essencial, refiz os passos de Goethe: Palermo, Catânia, Taormina, Messina. Sacrifiquei Agrigento e o vale dos Templos, de que Goethe falou com máximo prazer. «As uvas de mesa crescem em latadas apoiadas em pilares altos. Em Março plantam as melancias, que estão maduras em Junho. Crescem por todo o lado nas ruínas do Templo de Júpiter, sem ponta de humidade». Posso dizer que não quis decepcionar-me, que não cri que fosse possível encontrar um cenário igual... Melancias a crescer no Templo de Júpiter? Mas a verdade é que tenho ainda fresco o desconforto de ter visitado Pompeia a torrar ao sol, e não me apetecia engrossar as filas de visitantes que admiram o vale, o vale, o imperdível vale... Por último, o Toni insistiu comigo: que encurtasse caminho e não perdesse Siracusa.

O Toni, segundo a mãe, minha senhoria em Palermo, é arquitecto e trabalha na câmara: é político. Será vereador? Toni combina uns calções justos com uns ténis da Prada, usa um brinco na orelha e uma barbicha que cofia enquanto faz uns ares de sedutor. Um cromo de qualquer caderneta siciliana. Por acaso não fala uma palavra de inglês, e comunica através da mãe, que fala francês por ter trabalhado na Bélgica, a fazer bolinhas de açúcar para bolos de aniversário. Desdenha de Taormina, (como é possível?, Toooni?), põe as mãos no fogo por Siracusa (faz bem; Goethe não visitou a cidade, que Cícero dizia rivalizar com Atenas: afiançavam-lhe que perdera a sua glória e interesse. Foi uma pena não ter ido).

A conversa passa-se ao pequeno almoço, entre os ovos e o mangericão. Uma coisa muito fina, isto de comer ovos ao pequeno almoço. O bom siciliano come uma granita de café, com panna, e brioche. A granita come-se, aliás, o dia todo. Gelo moído, com o sumo e a polpa de limão, ou framboesa, ou café. No topo, uma camada de natas. O brioche, mergulha no copo e rapa o fundo. É um pão molhado em pouco mais que gelo, sim. Também há quem meta no pão uma bola de gelado! Mas isto são invenções de tempos abonados.

Quando o escritor alemão visitou a ilha, o que encontrava em abundância era aquilo que a terra dava. «Os frutos e legumes são deliciosos, em especial a alface, tenra e saborosa como um leite; entende-se a razão por que os Antigos lhe chamaram lactuca. O azeite, o vinho, é tudo muito bom, e poderia ser muito melhor se se desse mais atenção ao modo de preparar os alimentos. Os peixes são dos melhores, muito delicados.  Tivemos também boa carne de vaca, ainda que as pessoas a não apreciem muito».

Abundam as descrições sobre os campos e o modo como são semeados. Goethe chega mesmo a desconsiderar «o desastrado do guia» que lhe «estragava com a sua erudição» o prazer do que se via no vale, «sempre a contar como Aníbal travou aqui uma batalha». Mais adiante, fala da surpresa do outro, que não contava que um homem das letras pudesse desprezar a memória clássica. Talvez não seja tão surpreendente: se é verdade que atravessa o livro a ideia de reconstituir momentos clássicos através das ruínas, é mais forte a ideia de que a viagem convoca um renascimento interior.

Ocorre-me novamente a noção de viagem como sinónimo de descoberta no teatro grego de Taormina. Num gesto excessivo, procuro a vibração das pedras no contacto com os pés, recupero pedaços de tragédias que ali foram representadas, escrevo postais em diferentes pontos do anfiteatro, meço a imponência do Etna. É mesmo a «mais incrível obra da natureza e da arte». No palco preparavam uma versão de “Il Gattopardo”, a obra de Lampedusa que Visconti adaptou ao cinema. É uma obra sobre o fim de um tempo, que concentra, como a Sicília, a decadência e o desejo num mesmo plano. A explosão da vida e a inevitabilidade da morte. Arrisco que tenha sido essa pulsão, presente em cada instante, que tenha feito desta viagem um lugar de descoberta e reconhecimento para mim. Como para Goethe: «Sempre pensei que ia aprender aqui muita coisa; mas que teria de recuar tanto, que teria de desaprender e reaprender tanta coisa, isso nunca pensei». Pode ser que Goethe tenha procurado o caminho para casa. Como Ulisses, o mais mítico dos heróis. Como cada um de nós, errantes.

Não tenho uma única fotografia destes dias maravilhosos_ não tenho, sequer, máquina fotográfica. Não sinto necessidade de registar em imagens isto que (incompletamente) traduzo em palavras. Goethe fazia-se acompanhar por amigos que ilustravam aquilo que via. Foram vários, em diferentes pontos da viagem; por alturas da Sicília, Kniep era aquele que fixava a paisagem. O facto de nunca ter procurado esses desenhos (se existem, e onde?) não é senão revelador do seguinte: já me basta o tesouro da descrição de Goethe e de sentir, como ele, que uma viagem pode interpelar a nossa vida. O que isso convoca dentro de nós, não tem imagem precisa.

 

 

Onde ficar

 

Grand Hotel e des Palmes, Palermo

Via Roma, 398; booking-despalmes@amthotels.it

Quartos sumptuosos, lustres admiráveis, escadaria de mármores. Um cenário de filmes que foi palco de intrigas e negócios. Acolheu a elite que chegava à Sicília. Um cinco estrelas ideal, nem que seja para ler umas páginas num canto do bar. O mais certo é ter vizinhos ingleses. Entre 100 e 200 euros.

 

Bed and Breakfast, Sicília

São cada vez mais populares em toda a ilha. Existem às dezenas em todas as cidades e disponibilizam fotografias na net. A decoração é quase sempre kitsh e duvidosa. Mas em época alta um quarto custa em média 50 euros por noite, o mesmo que um hotel de duas ou três estrelas. Como o nome indica, oferece cama e casa de banho. Muitos facilitam, ainda, o acesso à cozinha.  

 

Onde comer

 

Trattoria la Foglia, Siracusa

Via Capodieci 21; www.lafoglia.it

É um restaurante que lembra os almoços de domingo em casa da avó. As duas salas têm naperons a fazer de toalhas de mesa, fotografias da família proprietária e louça que parece comprada na rua, em feiras de antiguidades. A cozinha, evidentemente, é boa _ é impossível comer mal na Sicília. O pão é feito na casa e o peixe é muito fresco. O espada é por excelência o peixe da região. Cerca de 30 euros.

 

Antica Focacceria di San Francesco, Palermo

Piazza San Francesco d' Assisi, telefone 091 32 02 64

Um clássico da cidade cuja história remonta à Idade Média: era o restaurante onde se encontravam viandantes, peregrinos, gente humilde. Pão com rim fatiado é a principal atracção. Mas também pão com gelado. A esplanada cresce na Piazza São Francisco de Assis. Sugere-se um esparguete com pesto de pistachio, (molho muito popular na Sicília). Cerca de 25 euros.

 

Como ir

 

A Tap e a Ali Itália voam para a Sicília. A maior parte dos voos têm escala. A ilha tem dois aeroportos: o de Palermo é o principal, o de Catânia fica na costa leste. O comboio é ainda o de linha estreita. O que quer dizer que 200 km pela costa (entre Messina e Palermo) demoram mais de três horas e meia a percorrer, em cima de malas e com passageiros pelos corredores. O autocarro é o mais usado. Barato, constante, com o senão de quase sempre parar em todas as pequenas localidades (60 kms podem representar uma hora e um quarto). Táxi a preços proibitivos.  

 

Quando ir

 

Os meses mais temperados são os mais indicados_ entre Abril e Junho e Setembro e Outubro. Mas mesmo em Agosto, sob um calor abrasador, milhares de turistas e a inevitável inflação de preços, a Sicília é um destino extraordinário.

   

 

Publicado originalmente na revista NS do Diário de Notícias em 2006

 

 

 

Feira do Livro do Porto 2018

12.09.18

Nesta festa do livro, em 2018, recordaremos os 50 anos das manifestações estudantis de maio de 1968, aproveitando para falar das revoluções mais urgentes para os dias de hoje.  Um tema à medida da cidade do Porto, palco da Revolução Liberal, de 1820 e de tantos outros movimentos de renovação e inovação, não menos importantes, no campo da literatura, das artes plásticas, das ciências e do pensamento em geral.

Conversaremos ainda sobre memória e reinvenção literária; sobre o sexo enquanto insurreição; sobre a ligação entre música e literatura, entre outros temas. 

Iremos juntar alguns dos nomes mais relevantes do universo literário em língua portuguesa, como Mário de Carvalho, Mia Couto e Bernardo de Carvalho, com autores mais jovens, nacionais e internacionais, que nos últimos meses surpreenderam o mundo editorial — com destaque para a romancista francesa, de origem marroquina, Leila Slimani, cujo romance “Canção Doce” (Alfaguara), foi premiado com o Goncourt, em 2016, sendo entretanto traduzido para mais de trinta idiomas. 

A literatura não copia a realidade — reinventa-a, e, dessa forma, ajuda-nos a vê-la melhor e a compreendê-la. Eventos como este permitem que autores e leitores se encontrem, num espírito de celebração, para, entre livros, discutirem o mundo. É uma outra maneira de promover revoluções. 

 

Este ano, organizamos um curso breve de literatura e tomamos de empréstimo, como título genérico, a pergunta de Calvino: "Porquê Ler os Clássicos?". A proposta é abordar o universo de autores como Dante, Cervantes, Shakespeare, Goethe, Flaubert, entre outros. Começamos nos Gregos, chegamos ao século XX com Fernando Pessoa, atravessamos vários geografias: vamos aos Estados Unidos com Walt Whitman e Emily Dickinson, à Rússia com Tchekov,  à América do Sul com Machado de Assis. 
Para dar as lições, convidámos professores que trabalham na academia estes autores clássicos e também leitores-amantes. Este curso foi pensado para um público variado, que tanto acolhe especialistas e interessados num autor específico como pessoas que gostam de ler e que encontram aqui uma visão introdutória a cada escritor. 
 
Nas sessões de Spoken Word, o ponto de partida é a relação entre a palavra escrita e cantada, o modo como isso foi trabalhado por autores como Chico Buarque, Jacques Brel, Leonard Cohen, Bob Dylan, Stevie Wonder, outros poetas e escritores. E há palavras que são simultaneamente uma granada e um aglutinador destas várias referências e caminhos: Utopia, Amor, Revolta e Melancolia.  
Ou seja, usando cada uma destas palavras nas quatro sessões, tomando-as como leitmotif, propusemos a vários intérpretes (escritores, músicos, artistas visuais, cineastas, actores) que fizessem uma viagem, que esculpissem a palavra de diferentes maneiras, que revisitassem o universo daqueles autores e outros. Onde vamos dar? Isso não sabemos. Esta é apenas a deflagração original. 
 
Bernardo Carvalho é escritor, nasceu em 1960 no Rio de Janeiro. É um dos autores mais fulgurantes da literatura brasileira contemporânea. O seu universo é urbano, a sua escrita, depurada, está traduzido em mais de dez idiomas. Autor de contos, teatro, romance, venceu prestigiados prémios, como o Jabuti, Machado de Assis ou o prémio Portugal Telecom. Fez uma residência artística de um mês na cidade, sendo o primeiro autor a ser convidado para esta estadia no contexto da Feira do Livro do Porto. Desta residência resulta um conto, distribuído gratuitamente na Feira do Livro do Porto, e a partilha da experiência numa conversa com Francisco José Viegas.

 

Dia 7 Set

19h Inauguração das exposições

 

Dia 8 Set

12h Dante: Mega Ferreira (lição)

17h A tília de José Mário Branco

18h José Mário Branco conversa com Anabela MR

 

Dia 9 Set

12h Cervantes: Perfecto Cuadrado

16h Afonso Cruz e Mia Couto – mod. JE Agualusa

21.30 Utopia por André Tentúgal, Capicua e Nuno Artur Silva (spoken word)

 

Dia 12

19h Fernando Pessoa: Pedro Eiras

 

Dia 13

19h Flaubert: Ana Paula Coutinho

 

Dia 14

19h Daniel Cohn Bendit conversa com Rui Tavares 

 

Dia 15

12h Os Russos: Ana Margarida de Carvalho

16h Filipa Martins e João Pinto Coelho - mod. Helena Teixeira da Silva

19h Como ler um poema? Pelo poeta João Luís Barreto Guimarães (oficina)

21.30h Revolta por Kalaf, Selma Uamusse e Miguel Januário (Mais Menos)

 

Dia 16

12h Machado de Assis: Abel Barros Baptista

16h Kalaf Ângelo e Telma Tvon - mod. Sheila Khan

19h Como ler um poema? Pela professora universitária Rosa Maria Martelo

 

Dia 18

19h Bernardo Carvalho conversa com Francisco José Viegas

 

Dia 19

19h Shakespeare: Luísa Costa Gomes

 

Dia 20

19h A ideia de América na poesia americana: Ana Luísa Amaral

 

Dia 21

19h Leila Slimani conversa com Helena Vasconcelos

21.30 Amor por Sónia Baptista, Raquel Melgue e Eduardo Raon

 

Dia 22

12h Goethe: João Barrento

16h Valério Romão e José Riço Direitinho - mod. Susana Moreira Marques

22h Melancolia por Cláudia Varejão, Nuno Rodrigues (Duquesa), Sara Carinhas

  

Dia 23

12h Os Gregos (teatro): Maria de Fátima Sousa e Silva

19h Ana Margarida de Carvalho e Mário de Carvalho - mod. Inês Fonseca Santos

 

Programação de José Eduardo Agualusa e Anabela Mota Ribeiro. Mais informação sobre outras actividades da Feira do Livro, cinema, exposições e outras, em http://www.cm-porto.pt/feiradolivro

 

Beatriz da Conceição

12.09.18

Quem é Beatriz da Conceição? Perguntem a Ana Moura e a Carminho. Perguntem a Camané. Perguntem a quem não gosta dela. Uma referência. Fadista de palavras que cortam como facas. A tia Bia tem 73 anos, nem amaciados nem derrubados pela vida. A Dona Bia exige ser tratada com respeito.

Ouvir a sua história é ouvir um puro grito. Ouvir um tempo e uma condição social. Ouvir uma cidade e um género. Um capítulo do salazarismo. Uma página do neo-realismo. E a revolta e o combate contra tudo isso. Beatriz da Conceição é do tempo em que as mulheres eram desonradas, as crianças davam de frosques da escola e as raparigas trabalhavam na costura até casar. (Quando foi pela primeira vez à televisão, empenhou-se e comprou a prestações um tecido de seda. “Fiz o vestido numa modista.”) Fala como quem sangra. Tudo nela é autêntico e singular. Tem qualquer coisa de personagem maldito. Escreveram-lhe estes versos: “Chamaram-me ovelha negra, por não aceitar a regra de ser coisa em vez de ser.”

Uma noite, por acaso, a vida mudou. Cantou uns fados. Achava que o que sabia dos fados era de ouvir. O que ela não sabia é que o que sabia dos fados era de viver. A Dona Márcia Condessa disse-lhe: “A menina não vai nada para o Porto, vai ser uma grande fadista”. Lucília do Carmo assinou por baixo. “Ó menina, você canta à sua maneira e muito bem. Assim é que é bonito”. Fez-se fadista.

Encontrámo-nos no Museu do Fado, em Lisboa. É tratada com uma deferência que a conforta. Do outro lado da rua, no largo que dá para Alfama, fazem-lhe uma festa. Um viola que vai para a Parreirinha, um fadista que é uma jóia e que se livrou da droga. Gente dali. Gente do fado que presta homenagem à Dona Beatriz da Conceição. À Tia Bia.

(Advertência: ela continua a falar como a rapariga do Porto que sempre foi. Isto é: preparem-se.)

 

 

Então benzeu-se… Porquê?

Porque sou uma rapariga crente. E para não dizer disparates. Asneiradas. Às vezes sai-me.

 

É do Porto, onde se dizem muitas asneiradas.

Cá também se dizem. E de que maneira. Mas as do Porto não magoam tanto como as de cá. Por exemplo, no Porto dizer: “Esta filha da puta está a irritar-me” não tem maldade. Diz-se sem ofender ninguém. É como dizer: “Vai à merda, não me chates”. Em Lisboa, não. Foi o que senti quando cheguei cá. No Porto, até as madames ricas da Foz dizem: [com voz afectada] “Ah, o menino vá para o caralho, não me chateie”.

 

Nunca ouvi uma madame rica dizer isso. Mas está bem.

Conheci uma data delas que diziam. Uma – não vou dizer os nomes – dizia do marido: “Este cabrão, ahhhh, o que me chateia este cabrão”. Mais tarde conheci-o. Monárquico. Era uma gente que gostava muito de mim.

 

Como é que os conheceu?

Iam aos fados.

 

Vamos começar pelo princípio, pelo Porto, onde nasceu em 1939. Beatriz da Conceição. Nome da Beatriz Costa. Tem que ver com isso?

Não. Que disparate.

 

Podia ser.

Porquê? Ela gostava mais de mim por causa disso. “Cabrona!, ainda por cima és Beatriz da Conceição”. Pensaria que não havia outra Beatriz da Conceição. Ela não pôs. Pôs Beatriz Costa. Mas eu sou do Porto e ela da Malveira.

 

Não é um nome vulgar, apesar da Beatriz Costa. Porque é que lhe puseram Beatriz da Conceição?

Ah minha querida, a minha madrinha já morreu.

 

Está a falar do tempo em que se punha às crianças o nome dos padrinhos.

Por acaso a minha madrinha não se chamava Beatriz da Conceição. Tenho uma irmã Maria da Conceição. A minha mãe chamava-se Joaquina. Nome que detesto. A minha mãe morreu era eu muito pequenina. Oito anos. Ainda hoje vejo a minha mãe na cama a morrer. [põe a mão nos olhos, testa franzida] “Tiz, Tiz, Tiz”. Chamava-me Tiz. Isto bateu-me mal muitos anos. Verdade. É uma história um bocado complicada.

 

Quer contar?

Posso contar. A minha mãe morreu com 29 anos. Está a ver. Era uma rapariga. Existia eu e um irmão mais novo. Também já está lá [levanta os olhos para o céu]. O meu pai era muito malandreco. Tinha a mania que era galã. Por acaso até era. Para a minha mãe foi muito bera. Arranjava amantes. O que é que lhe deu naquela corneta? Tínhamos uns vizinhos. A senhora tinha uma filha, que nem era do marido, e que estava num colégio de freiras. Quando fez 17 anos, saiu das freiras e foi para a mãe. O meu pai deitou-lhe a gadanha.

 

Gadanha?

Nem sei o que quer dizer gadanha. 

 

É um instrumento agrícola. Mas é também o que traz a morte quando vem ceifar vidas.   

Não sabia. A gente no Porto dizia [com tom guloso]: “Deitei-lhe a gadanha...”. Aquilo deu-se muito mal. A outra queria que o meu pai se casasse com a rapariga, não é? Foi para tribunal dizer que ele a desonrou. Essas tretas. Foi aí que a minha mãe se começou a enervar. Por causa do divórcio. Depois de isto começar, durou pouco tempo. Quando lhe rezo, estou a vê-la. Era muito bonita, a minha mãe. Deitada na cama. Deixou de falar. Só dizia: “Meus Deus” e o meu nome. Como quem: “Que vai ser feito de ti?”.

 

O que é que faziam os seus pais?

O meu pai era vendedor de sapatos. [Caixeiro-] Viajante. A minha mãe, fartou-se de trabalhar, como uma moura. Trabalhou numa fábrica. Uma viola que está aqui na Parreirinha [de Alfama], o Zé, andou comigo ao colo. “Esta cabrona já me fez xixi nas calças”, dizia para a Dona Argentina [Santos, fadista, dona da Parreirinha]. “A mãe da Tiz andou numa fábrica de botões, e a minha irmã trabalhava com ela”. Ele também era um rapaz. A minha mãe deixava-me no berço, ‘tadinha, enquanto trabalhava. Pirava-se do trabalho ou pedia ao patrão e ia lá dar-me o leitinho.

 

Onde é que moravam?

Na Rua do Alto da Fontinha. Está a ver a Rua Santa Catarina? Há ali uma transversal do lado direito, a Rua da Escola Normal. (Foi uma das minhas escolas. Fui de frosques das outras duas por ser refilona. Pá, quando se pegavam à porrada, havia uma desgraçada que levava de todas. Passava-me e ia eu para a tourada também.) Em frente a essa escola normal, fica a Rua da Fontinha. A minha, era se subisse por ali acima. Era uma ilha. Como é que aqui chamam às ilhas?

 

Vila.

Ainda sei a morada: 93, casa 18. Nunca mais me esquece. Sempre gostei do 18. Já morei em duas casas 18.

 

Acha que a sua mãe se matou?

[algo ríspida] Não! Não. Não foi do coração. Nem sei bem o que é que foi aquilo. Dos nervos. O meu irmão ficou muito doente. Foi para a casa de uns vizinhos. Eu fiquei a dormir uma data de dias na casa de um casal de lá da rua. Quando me lembro disto... Eu tenho estas insónias desde garota. O casal só tinha uma cama, não é? Dormia na cama com esse casal, nos pés. Levava com as pantufas deles nos cornos. Comecei a bater mal aí. Depois fui para casa de uma tia. Uma casa do tamanho da da Branca de Neve e dos Sete Anões. Tinha duas filhas e o marido tinha-se pirado para África. Eu gostava de estar com a minha tia, mas ela também me punha a trabalhar p’ra caraças.

 

A fazer o trabalho doméstico?

A minha tia tinha a mania da limpeza. Era histérica. Lembra-se daquelas máquinas a petróleo, amarelas? Tinha de limpar todos os dias. O chão era em pedra. Arrggg, passar o chão outra vez. Era tudo gente pobre. Tinha um larguinho cá fora onde estava o tanque da roupa. A minha tia também me punha muito a lavar a roupa. E eu começava a cantar. As vizinhas vinham para a janela. “Ó Alice”. Era a minha tia. “Ai a tua sobrinha canta tão bem.”

 

O que é que cantava?

Fados da Amália. E do Max.

 

“Pomba branca, pomba branca”. Quem diria que anos mais tarde gravaria essa música.

É verdade. O meu pai gostava muito do Max. O meu pai não sabia ler muito bem. Tirou a quarta classe quase com 40 anos. Mas eu sabia ler. Deitado na cama: “Anda lá, ensina-me, que eu dou-te cinco paus”. [Canta] “Na pequena capelinha, da aldeia velha e branquinha”. Cinco paus! Curiosamente o meu pai era muito parecido com o Max. O Max conheceu o meu pai no casamento da minha irmã no Porto. Olhou para o meu pai: “Ó pá, somos irmãos?” O casamento da minha irmã foi numa casa de fados. Foi o [António] Calvário. O meu pai tinha paixão por ouvir aquele senhor [Max].

Da Amália cantava marchas. Não cantava aqueles fados tristes. Eu na altura nem era assim muito triste.

 

Ia à escola?

Ia. Fiz a quarta classe. O que se segue: estou na minha tia uns anos. A minha madrasta, toda contente. Mas o senhor meu pai disse: “Não posso estar sem os meus filhos”. Foi-me buscar. Entretanto tinha arranjado um namorado. Era mais velho do que eu onze anos. Eu tinha 17. A família: era tudo gente dali. Gostavam muito de mim. “Tadinha da Tiz, a mãe morreu tão cedo”. Essas merdas. Coisa fantástica: fiquei grávida.

 

Foi ele que a desonrou?

Foi. Aos 18, fui logo mãe. A minha filha nasceu a 11 de Agosto, eu sou de 21. Disse-lhe a ele. “Eu não sei o que é isso de ter um filho”. A minha tia: “Vais fazer um aborto”. E eu: “O que é um aborto?”. Eu era assim muito chouriça na brincadeira mas nessas coisas era muito inocente.

 

Nunca tinha tido conversas com ninguém sobre sexo?

Não. Nada. Um beijinho quando andávamos lá no bailarico, e pronto. A minha tia com medo que o meu pai me desse uma grande tareia, ou ela, a minha madrasta. À noite, quando estavam a dormir, a roncar, fugi. Isto parece um filme.

 

Ele tinha modo de vida, como se dizia na altura?

Tinha. Duas mercearias. A família toda de Vila Real. Tinham dinheiro.

 

Tem um fado que diz: “Deste-me um beijo e vivi”. Foi o que sentiu quando o encontrou?

Não. Eu gostava muito dele, mas ele também era um grande malandro. Desculpa lá, ó António.

 

Casaram?

Não.

 

Estar amancebado era problemático?

Pois, mas eu estava-me cagando para isso. A casa era em Gaia, longíssimo. Quase ao pé da televisão [RTP]. Prédios novos. A minha sogra não fazia népia em casa. Cozinhava mesmo à moda de lá de cima. Também aprendi muito com ela. Mas não gostava de arrumar. Comiam e deixavam a mesa toda. “Mas que é isto, sou alguma escrava?”.

Eu, com uma grande barriga, ela tinha a mania de abrir a porta do meu quarto: “Menina, pino!”. Pino é: salta da cama. E eu a dormir tão bem... Tenho insónias desde essa altura. 

 

Trabalhava?

Trabalhava na costura. Depois, deixei. Fui com 13, 14, 15. Gostava muito de costura.

 

Percebe-se que tem gosto em arranjar-se. Ainda faz coisas para si?

Sei o que quero e sei o que compro e não preciso de estilistas. Há 30 anos, eu ia muito à televisão. Muita gente dizia: “Calada, que vai cantar a Beatriz”. E só olhavam para os meus vestidos. Pá, é assim: eu já tinha ido muitas vezes a Paris e a Londres.

 

Como é que tinha ido a Paris e a Londres?

Cantar, porra. Isto foi nos anos 70. Corria aquelas montras, armazéns. Nem era caro. Por 20 contos comprava vestidos lindíssimos, boas malhas e tudo. Tinha uma amiga que bordava. Começava logo a pensar: “Aquela gaja vai-me bordar aqui umas coisas”.

 

Era uma rapariga muito bonita?

Sim. Muito, muito... Era normal.

 

Sempre contou com a sua beleza? Tem um ar altivo.

Não era de propósito. Era assim. Tenho de ter medo porquê? Ia ouvir a Lucília do Carmo, que era a minha musa. Chorava que me fartava. Ia ouvir a Fernanda Maria. “Vou mas é fazer as malas e vou para o Porto”. Até elas me dizerem: “Ó menina, você canta à sua maneira e muito bem. Assim é que é bonito”. Estas gajas, agora, imitam todas. Umas imitam-me a mim.

 

Quem é que a imita?

[sorriso] Oh, é chato, porque elas gostam todas muito de mim. Outras imitam a Amália. A Mariza foi beber a alguém. Agora está menos. Eu, não. Criei um estilo meu. Podia gostar da letra que outra fadista cantava. Enquanto estivesse a cantar com ela [na mesma casa de fados], não cantava. Quando mudava para outra casa de fados, cantava. Sei que não cantava igual a ela. Foi um condão que Deus me deu. Toda a gente diz: “A Beatriz tem personalidade a cantar”. E podia ter imitado muita gente.

 

Por isso importa conhecer a sua história. É ela que lhe dá essa personalidade a cantar. Não é?

Pois. Eu a cantar sou muito emotiva. Até demais.

 

É uma emotividade contida, ao mesmo tempo. Os movimentos da sua boca, quando está a cantar, comprovam-no. Nunca é histriónica. É feroz.

Sou. Feroz com as palavras que digo.

 

Palavras ditas como se fossem facas.

Às vezes é qualquer poema que tem qualquer coisa que me magoa. Digo aquilo, mas não grito. Nunca gritei a cantar. E tenho raiva a quem grita. Mas pronto.

 

Não sabia que tinha uma filha.

Tenho dito em muitas entrevistas. Mas agora não quero dizer. Estamos numa muito má. Péssima. Ela odeia-me. Eu não a odeio. “Abandonaste-me...”. Diz isso para me machucar. “Não te abandonei. Ficaste com o teu pai. Que era rico e te pôs num colégio”. Fez mal foi em pô-la num colégio de freiras. Eu ainda tinha aquela revolta de o meu pai ter desonrado a rapariga do colégio de freiras. “As freiras são todas uma putas. E as meninas dos colégios de freiras, outras putas”. Isso era para a ferir a ela.

 

Deixou o pai da sua filha porque estava farta dele?, porque queria viver a sua vida?

Estava farta dele! Tinha 20 para 21 anos. Ele chegava todas as noites às três, quatro da manhã. E arranjava mulas. Notava pelo cheiro dele. Andava sempre a espiolhar as camisas. Uma vez cacei batom numa. Dei-lhe com aquilo com os cornos. Ia-me a ele. Engraçado, não me batia.

 

Não estou a ver um homem a bater-lhe.

Sim, é difícil. Eu lia muito. Romances de amor. Adorava. Pá, não me dava para ler coisas intelectuais.

([O fotografo chega com um café.] Ena pá. Então não trouxe para a menina? [Para o fotógrafo] Vou ficar tua fã pela tua simpatia. Julguei que já tinha dado de frosques, já nem me lembrava dele.)

 

Estava a dizer que lia romances de amor.

Era devoradora. Tinha uma amiga, rapariga estudada e letrada. “Lê este, que é bom”. Chorava como uma Madalena. Misturava a minha situação com certas romances. Também havia madrastas. Ou sogras. Levei com esses nomes.

Um dia disse-lhe: “Vou-te deixar”. Ele dava-me tudo o que eu precisava.

 

Era ciumento? Estamos a falar de fado e ainda não falámos de ciúme. Como é possível?

Sei lá se ele era ciumento. Não me levava a lado nenhum. Estava ali fechada em Vila Nova de Gaia. Um desterro. Ele gostava de mim, sei que gostava. Faltava ele portar-se bem.

 

Não andar com mulas.

Um dia, uma gaja que eu conhecia da costura, e que morava na Rua Escura (a rua das putas lá no Porto), viu-me na Baixa. “Ai mulher, esse gajo tem aqui na Rua Escura uma prostituta”. O quê?! “Chama-se Mariazinha. Até a tirou da rua”. Já não fiquei bem da cabeça. Quando chegou a casa: “Onde é que estiveste?”. Meu este, meu aquele – aqueles nomes bonitos. Antes que ele me deixasse, deixei-o eu a ele. “Ficas a falar com o senhor Daniel”.

 

Quem era o senhor Daniel?

Estes calões que se dizem. Em vez de dizer: “Ficas a falar com o caralho”, “Ficas a falar com o senhor Daniel”. Digo muito isso a algumas fadistas que me estão a chatear: “Ficas já a falar com o Daniel”.

Fui ver se era verdade. Já agora. Saio no autocarro, desço umas escadinhas, Rua Escura. Tum, tum, tum. Veio uma remelada à porta. Juro por Deus. Uma rapariga para aí com quarentas.

 

Isso é que foi humilhante? Tê-la trocado por uma mulher mais velha?

Pois foi. Se ela fosse uma Sofia Loren. Muito pequenina. Não me esquece a cara dela. Mandou-me entrar. Qual não é o meu espanto quando olho para cima de um móvel e vejo uma fotografia dele. Quando cheguei a casa, rasguei-lhe a roupa toda.

 

Isso parece uma letra de um fado.

Não tenho letras assim.

 

Coisas excessivas. No fado “A vida que eu sofro em ti” diz assim: “Por cantar este meu fado, que é teu corpo decepado, dentro do meu coração”. O corpo decepado? Lembrou-me a propósito da roupa rasgada.

Pois. Deixei a minha filha com o pai e os avôs ela não tinha dois anos. Era muito bonita quando era pequenina.

 

Essa é a grande dor da sua vida?

Já foi. Agora não. A minha filha é muito má para mim.  

 

Há quantos anos não fala com ela?

Há uns três. Às vezes falamos e ela começa logo a desconversar. Ela está metida nessa merda do Reino de Deus. E como sabe que jogo, [atira]: “Vais pôr o dinheiro no casino, nos chineses!”. “Queres que morra para herdares? Vais herdar merda!”.

 

Ricas conversas. Quando é que começou a jogar?

Tinha 25. Ia cantar ao Casino do Estoril e não jogava. Os croupiers: “Não joga, menina?”. Eu via a Simone entrar. A de Oliveira.

 

Parênteses: a Simone era uma rival?

De mim? Não! Puxa. Era [rival] da Celeste Rodrigues. “Vou jogar um bocadinho, filha”. O Varela [Silva] também jogava. Foi só no Algarve que me comecei a viciar. O raio de uma espanhola tinha um namorado que era croupier. “Eu pago o cartão”. Os músicos meus amigos diziam: “Não entres, Bia, que se entras nisto ficas marada como a gente”. Havia um homem dono de uma coisa de conservas que gostava muito de mim. “Dou-lhe dinheiro para jogar”. “Queres ver este velho que se está a amandar a mim?” E estava. Havia assim muitas xaropadas.

 

Tinha de apanhar com umas xaropadas?

Ah pois tinha. E eu que nunca gostei que ninguém me escolhesse. Oh pá, nunca gostei. Gostei de ser eu a escolher.

 

Quando é que se apaixonou? Quando é que teve de lutar por um homem?

Lutar, não lutei nada. Eu parece que tinha mel. Eles vinham.

 

Porquê? Porque tinha um ar fogoso?

Não. Eu não era atrevida nem nada. Apaixonei-me muito, e viveu comigo muitos anos, o Fernando. Nem sei se está vivo, mas acho que sim. Também era um malandreco. É a minha sina. Malandrecos com mulheres. Uma vez dei-lhe umas grandes mocadas com tachos – juro por Deus –, fechei-o à chave em casa e fui-me embora. Desapareci três dias. Um amigo meu disse-me: “Coitadinho do Fernando. Se calhar não tem nada para comer”. “Deixa-o estar.” “Pode estar morto.” “Não quero saber.” Quando abri a porta até fiquei com medo que ele se amandasse como um leão. Nem tinha cigarros nem nada, estava enlouquecido.

 

Jogar foi um dos problemas da sua vida?

Foi. Foi mesmo.

 

Como outros têm a droga?

Quase. Já me passou.

 

Quando é que deixou de jogar?

[Há] dois anos. Mas foram 30 e tal anos a pôr lá o dinheiro.

 

Roleta?

Banca francesa. Dados. Nunca tive assim um vício. Tenho outro: fumar. Mas nunca fumei outra coisa. [riso] É o cabrão do SG. No casino a jogar, não me lembrava de nada.

 

O que era aquilo para si?

Era um mundo. A minha cabeça não estava ali. Não pensava nisto nem naquilo. Ia lá cantar e eles pagavam-me assim: “Bia, queres em cheque ou em fichas?” “Ah cabrão, que já me deste azar.” Deixava lá o dinheiro, 200 contos.

 

Dívidas sérias, teve?

Hum. Dívidas, não tive. Vendi foi as jóias todas. 

 

Jóias que recebia dos apaixonados?

E que tinha comprado. Umas de um apaixonado, que era de Alfama. Comprava muitas jóias quando estava no teatro. A gente comprava a uma senhora que era do Porto, a Aidinha. A Florbela também comprava.

 

Qual Florbela?

A Queirós. “Biazinha, tenho aqui um anel”.

 

Esse anel que traz é bem giro.

Este? Tem anos. E este [mostra] também é um anel, não é uma aliança. É um anel com um brilhantezinho. Sempre gostei de anéis grandes.

 

Que é que representavam?

Não sei. Em Londres é que apanhei essa tara. Via lá. Comprava em bom. Não era de plástico. Gostava de ouro, brilhantes e safiras. E tive muitos. Lindos, lindos.

 

Ganhou muito dinheiro?   

Ganhei. Mas estourei-o. Esse senhor com quem vivi e que era de Alfama, o Vítor, era joalheiro. Foi agora no fim da minha vida. Vivemos onze anos. Também um dia chateei-me. A casa era minha. “Faz as malas e vai-te embora.” Era amoroso para mim. Um bocado nariz empinado. “Vi uns sapatos, uma camisola...” Dava-me tudo. Vínhamos muito à Parreirinha. Ele gostava de ir ao Mónaco jantar e dançar um bocadinho. Também não havia muitos sítios para dançar, não é?

 

Como é que conseguiu libertar-se do vício?

Do casino? Não sei. Não tenho explicação. Tanto que pedia a Deus que me tirasse aquele vício. No jogo não pensava em nada. Não estava doente, não me doía a cabeça. Não tinha fome, não tinha insónias.

 

Durante anos bebeu bastante.

Também bebia.

 

Nunca foi um problema?

Não! Bebia com peso e medida. 

 

Ambiente boémio. Bebia-se a noite toda.

Sim. O meu champanhezinho. O meu Baileys. Descobri o Baileys ainda em Londres. Bebi garrafas daquilo. Depois enjoou-me tanto que deixei de beber. Como bebi Tia Maria. O Tia Maria era mesmo [um licor] de café. Agora não bebo nada. A jantar em casa bebo água. Quando vou jantar fora bebo um copinho de vinho branco.

O deixar de jogar foi uma felicidade. Deus devia dizer: “Estás a pedir, mas não tens vontade...”. 

 

Disse isso e levou a mão à cruz que tem ao peito.

Sim? Não foi de propósito. Já tenho pedido a Deus que me tire o vício de fumar. Um dia, não fumei. Um dia. Estava engripada. No outro dia apetecia-me andar por cima das paredes. Uma loucura. Que é que hei-de fazer?

 

Fale-me de Londres. Como é que lá foi dar? Quanto tempo lá esteve?

Ora bom. Londres: a primeira vez fui em passeio com um casal amigo. “Pá, vamos até Londres”. Eu já tinha estado em Paris. Ah, e já tinha estado em Londres. Cantar. O senhor [que me levou lá] fez o jantar num hotel. O pai dele foi um homem que fez um anúncio: “Quem casa, quer casinha. Mas só no Lapinha”. Era o Eusébio que fazia o anúncio. Não é do seu tempo. Dava na televisão. Eram uns apartamentos em frente ao Tejo. Como eram todos Benfiquistas, puseram o Eusébio. Os filhos dele (dois malucos) gostavam muito de me ouvir cantar. Um deles foi para Londres. Disse-me assim: “Tenho um espectáculo, para uns convidados. Queres ir?” “Se me pagares, vou”. “Não dás uma borla?” “Eu, porquê? Deves estar a reinar. Se fosse para alguém pobrezinho...” Lá fui. Já nem me lembro quanto é que me pagou. Pôs-me num hotel muito bom.

A segunda vez fui com esse casal amigo. Já conhecia muitos sítios onde ia às compras. Olha, ia muito àquele que o filho morreu, o da Lady Di. Como é que se chama aquilo?

 

Harrods.

Andava o dia todo lá. Adoro Londres, por acaso. A última vez que lá fui foi quando morreu uma amiga minha. Muita amiga. Tinha um restaurante numa rua pequena, mas rua chiquíssima. Pediram-me para cantar numa festa, ela estava mesmo a morrer. Não vai há muito, quatro anos. Quando comecei a cantar, ela era empregada de mesa na casa de fados da Severa.

 

Safa-se com o inglês?

Não. Por preguiça. Depois fui com os pais da Marie Myriam, aquela francesa que não é francesa. Mas pronto, não interessa. Aquela que ganhou um festival. Se calhar também não é do seu tempo. [trauteia] Os pais eram portugueses. Tinham uma casa de fados muito bonita [em Paris]. Eu ia para lá passar férias.                

 

Chegou a Lisboa com 23 anos. Muito rapidamente as pessoas gostaram de si.

Por acaso, foi. Foi muito rápido.

 

Era um estilo muito diferente do da Amália.

De todas. 

 

Como é que aprendeu a cantar fado?

Minha querida, eu ouvia rádio no Porto, não é? Essa casa, a Severa, dava às quartas-feiras. À terça, era o Carlos Ramos. Adega da Lucília. Estava sempre a pau.

 

Transmitiam na rádio os espectáculos?

Era. A Lucília, como era a dona, cantava em último. Nem fazia ideia de quantos anos é que poderia ter. Se era bonita, se era feia. “Ai esta, meu Deus, esta é que canta bem”. A Fernanda Maria: vi logo que era toda triques.

 

Viu pela maneira como ela cantava?

Não a estava a ver, não é? Diferente da Lucília. Achei a Lucília mais clássica. Havia outra, Maria José da Guia: também era fadista até à quinta casa. Foram rivais, ela e a Fernanda Maria.

 

A sua rival era quem, quando começou a cantar?

[peremptória] Ninguém! Era a Berta Cardoso [riso]. Não tinha rivais, mulher. A Dona Berta gostava muito de mim. Aprendi muito com ela. Chamava-me Lecas. “Lecas, anda cá”. Eu bebia as palavras que ela dizia. Uma senhora já de idade. Vê lá, ela cantava um fado que eu fartava-me de chorar. Foi a coroa de glória dela: [canta] “Quando vieram dizer à pobre mãe, que o filho tinha morrido lá na guerra. Ela ajoelhou, a tremer, sentindo bem o desgosto mais dorido que há na terra”. Não tive filhos que foram para a guerra. Mas ela emocionava.

 

O seu repertório vivia muito mais da relação amorosa, do desencontro amoroso e do corpo. O seu fado mais emblemático é “Meu corpo”. Os títulos de alguns fados: “Dei-te um nome em minha cama”.

Tinha outro muito bonito, com muita força, mas foi do teatro e não pegou tanto. “Fado para esta noite”.

 

Tudo isso é mais carnal.

[com troça] Carnal...

 

Então não é?

[riso] Não fui eu que escrevi. “Dei-te um nome em minha cama, aberta no meu Outono, depois amei-te em silêncio que é uma forma de abandono.” Isso é do Vasco Lima Couto. Que ia muito para minha casa. “Ouve lá, amorzinho, dás-me de jantar?”. “Dou. Porra. Então.” Ia, bebia uns grandes copos. Bebia o vinho e depois uns xixis, uns uísques. Uma noite apanhou uma cadela. “Vou dormir cá.” Começou a fazer-me um fado, “Dei-te um nome em minha cama”, para uma história que lhe contei. Houve uma frase qualquer que eu achei que não estava bem. “Pá, estás com uma grande cardina e isto não me cheira bem.” “Lá estás tu com as tuas merdas, ó intelectual!” Ele chamava-me..., aquela que está ali na fotografia...

 

A Natália Correia, cuja fotografia está entre outros poetas e fadistas, no corredor.

“Vai p’ro caralho. Nunca mais te dou de beber.” Pus o poema ao lado da mesinha de cabeceira. “Hás-de ver que tinha razão”. De manhã: “Ó Bia, ai que mal que estou.” Fiz-lhe um café. “Bebeste muito. Andas a curar alguma dor de corno que não me contas. ‘Tadinho.” [riso] A gente já se tinha encontrado em África. Também me fez lá um poema. “Isto não é poema para fado. É um soneto”. Qual soneto. Estava lá um guitarrista que tocava muito bem. “Anda cá, ó Toninho.” Quando não sabia o nome era Toninho. Eu já tinha metido a música.

 

Ou seja, encaixa numa estrutura de fado tradicional um poema.

Tinha a métrica do fado. “Conheces o Fado Súplica? Toma lá, que isto é fado”. É assim: [canta] “Não me peças amor, dá-me prazer. Com amizade se o quiseres, mas só. As palavras caíram sobre o corpo.” Já não canto isto. Quando acordou: “Eh pá, esta gaja é lixada. Esta quadra não tem pés nem cabeça.” Deu a mão à palmatória. “Chama-me agora outra vez Natália Correia!”

 

Porque é que não gostava da Natália?

Porque ela era uma petulante, uma estúpida. Tinha a mania que era a Sofia Loren. Uma pessoa está a cantar e aquela filha da mãe sempre a falar... Com a merda da boquilha, a fumar para cima da gente. Eu dizia assim: “Lá vem a chaminé.” Tinha aquele séquito todo atrás dela. E um senhor dizia: “Bravo, bravo. Bravo Beatriz da Conceição”.

 

Ou seja, rivalidades. Coisas de gajas.

Fui lá à mesa: “Minha senhora, a senhora pode ser escritora, poetisa. Mas eu sou fadista. A senhora respeita-me quando eu estiver a cantar. Senão um dia, quando estiver a dizer a merda da sua poesia, vou lá e cago em cima de si.” Deu-lhe o chilique. “Sérgio!”. Era o dono da Viela, na Rua das Taipas. “Sérgio! Esta mulher ofendeu-me.” Eu perdia a cabeça.

 

Contam-se muitas histórias dessas a seu respeito. As pessoas iam às casas de fado jantar e ouvir fado. Quando faziam barulho, mandava-os calar. E rapidamente incompatibilizava-se com as pessoas por causa do seu feitio.

Aos turistas, dizia: “Xarape, boy, ok?” Acabavam por se rir e calar. Nem eram os turistas que me ofendiam. Eram os portugas. Uma vez na Adega Machado estava numa mesa, ao cantinho, do lado esquerdo, um embaixador não sei de onde. Cantei o primeiro fado. O guitarrista ouviu-os falar. “Lá vai haver trolha.” Cheguei-me lá: “Oiça usted. Usted tiene que se calar. Isto é uma arte. Não é para hablar, ok?”. Si, si. Foram comprar os meus discos e pedir-me autógrafos. Eu estava mosca. “Não dou! Rua.” Levei logo uma bronca. E em África fiz o mesmo, numa casa de fados. Como é que se chama a mulher de um embaixador?

 

Embaixatriz.

Ai que puta. Aiii que puta. Aiiii o machimbombo. Era assim [abre os braços]. Falou, falou, falou. “Cala aí a boca, ó machimbombo!” Quase desmaiou. O marido começou-se a rir.

 

Nunca teve complexos do sítio de onde vinha.

Não! Porquê é que havia de ter?

 

Nunca tentou ser outra coisa, refinar-se.

Mas eu sou refinada, minha querida.

 

Refinar-se no vocabulário, nos modos.

Sou refinada. Mas estar a cantar um fado cheia de sentimento e estarem a lixar-me, passo-me. Fico desconcentrada. Hoje, nas casas de fado, cantam para o turismo. [canta e bate palmas num tom pateta] “Casa portuguesa, com certeza.” Eu???, cantar a “Casa Portuguesa” e a “Lisboa Antiga”? Isso é que era bom. Esse filme vai no São Jorge.

 

Que ambição é que tinha? Sabia que era boa.

Sabia. E boa rapariga. Mas não tinha ambições. As coisas aconteciam-me. Sabia que cantava bem. Não sou mouca, não é?

Surda.

 

Na contracapa do primeiro disco escrevia-se que era “jovem, turbulenta e irreverente”, com “pose altiva e quase sanguinária”. Passaram, a bem dizer, 50 anos desde esta descrição.

E eu continuo a ser assim. Quem é que escreveu isso na contracapa?

 

Continua a ser assim porquê? A vida não a amaciou?

Não. Nem me derrubou nem me amaciou. Quero dizer como o brasileiro: quero ser como eu sou.

 

A altivez é uma das suas características mais marcantes?

Não sei. Talvez. É assim porque sou assim. Não quero ser altiva. não faço de propósito. Sou muito dócil.

 

É dócil?

Mas altamente dócil.

 

O que é preciso é saber levá-la.

Está a ver? (Coisa engraçada para o fado: o que é preciso é saber levá-lo. Bom título.) Se me pisam os calcantes, não.

 

Um outro título bom, de um fado seu. “Ovelha Negra”.

Muito forte. “Passei fomes, passei frios, bebi água dos meus olhos”.

 

Viveu como quem está à beira do precipício? Como uma personagem trágica, que bebe água dos seus olhos. Tem também este verso: “... de ser coisa em vez de ser”. 

“Chamaram-lhe ovelha negra, por não aceitar a regra de ser coisa em vez de ser. Rasguei o manto do mito, pedi mais infinito, na urgência de viver.” Minha querida, não fui eu que escrevi. Os poetas é que me viam assim.

Tenho um amigo advogado, Dr. Fernando não sei de quê. Chamava-me camarada. Sentiu que eu era camarada. Muito amigo do Carlos do Carmo, o Charmoso. Nessa altura eu estava na Tipóia, uma casa de fados muito bonita no Bairro Alto. Ele ia ouvir-me e contava-me umas coisas sobre política. Sabia o que sentia desde miúda; [eu sabia] quem era o Salazar e essas coisas todas, mas profundamente, profundamente não percebia de política. Sabia umas merdas, como ainda hoje sei umas merdas. Embora agora me esteja cagando para a política. O primeiro-ministro, o secretário de Estado: quero que se lixem.

Esse sujeito, Fernando, disse-me: “Venho ouvi-la cantar para a levar no meu coração, que vou para Paris”. Ia dar o fora. A PIDE já andava em cima dele. Deixou-me um poema. “É como eu a vejo.”

 

Ainda o sabe?

“Mas porquê meu ser assim, porque trago dentro, em mim, tanta morte e tanta vida. Esta fogueira inconstante, ora chama crepitante, ora cinza arrefecida. Quase sempre esta descrença, este estado de indiferença pela verdade ultrajada. E de repente esta fé, esta ânsia de pôr de pé cada ilusão derrubada. E logo a fúria incontida, com que esbofeteio a vida quando ela humilha os vencidos. Ai quem me dera ter paz...”

 

Quem é que eram os seus grandes amigos no meio do fado?

Quase todos. Manuel Almeida, Manuel Fernandes. Já morreram.

 

Da Amália, alguma vez foi amiga?

Não. Ela não queria ser minha amiga, eu queria que ela se fodesse também. No entanto, as bichas amigas dela eram também amigas minhas. Diziam-me: “A Amália gosta de ti. Gooooosta! Ela adorava que tu aparecesses lá com a gente”. Mas eu, não. Quem é a Amália? A Amália é uma mulher como eu. Nem é mais, nem menos.

 

Nunca quis ter o sucesso da Amália?

Não. Estava-me cagando para o sucesso da Amália. Não queria ser como ela.

 

Tem de reconhecer que era boa cantora.

Claaaro! Puxa. Na minha casa, não me ouço a mim e ouço-a a ela.

 

Ainda hoje?

Sim. Estou sempre a ouvir um CD que um amigo dela me deu. Morro por aquele CD. Nunca canta da mesma maneira. Que mulher de um cabrão, esta... Dá umas voltas e depois já não é igual.

 

Numa só gravação do “Havemos de ir a Viana” canta de três maneiras diferentes o verso: “Se o meu sangue não me engana como engana a fantasia”.  

Pois. Isso é que é arte. Agora, Mariza, rrrggggg, que horror. Quando me dão discos dela – obrigadinha – passo logo para alguém.

 

A Mariza é das que dizem que a Beatriz é uma referência.

Espera aí que já me pisaste um calo.

 

Diz ela, diz a Ana Moura, diz a Carminho, diz a Cristina Branco. Dizem todas.

A Ana Moura e a Carminho, dizem de coração. Essa Cristina Branco, nem a conheço. 

 

Cantou com ela no outro dia, no Casino do Estoril.

Ou ela cantou comigo. Foi aí que ela disse: “Boa noite, Beatriz”. “Boa noite, dona Cristina”. Fodi-a logo, não é? E não lhe dizer: “Ouça lá, minha senhora: conhece-me de algum lado?”...

 

Porquê esse gosto pelo confronto?

Porque antigamente nós tínhamos muito respeito pelas fadistas. Fernanda Maria, trabalhei com ela. Não era por ser minha patroa, chamava-lhe Dona Fernanda. Ainda hoje continuo a chamar-lhe Dona Fernanda. Dona Celeste Rodrigues. As mais novas dizem: “Ó Celeste...”, e eu continuo a chamar Dona Celeste.

 

Da Celeste, é amiga?

Muito. Porra, adoro a minha querida Celeste. Mas adoro. E adoro ouvi-la cantar. Ouço a Celeste e choro.

 

Como é que quer que lhe chamem?

Dona Beatriz!   

 

E eu? [O fotógrafo pergunta: e eu, que lhe trouxe um cafezinho?]

Para nós, é Bia.

 

São mal educadas por não lhe chamarem Dona? Por todo o lado a elogiam.

É tudo mentira. São hipócritas. Palavra. Ai filha, não te quero ensinar nada sobre o fado, senão ficas a saber tanto como eu.

 

A Ana Moura convidou-a para cantar com ela no Coliseu.

Nos coliseus. Foi nos dois [de Lisboa e Porto]. A ela, gosto de ouvir. Puxo pela minha cabeça para ver quem é que ela imita. Quem? Mas quem? Ninguém. A Mariza começou por imitar a Dona Amália. Ainda hoje, quando canta a “Maria Lisboa” e outras merdas..., por acaso não são merdas que são bons poemas, [imita]. Lá fora, só canta coisas da Amália. “Ó gente da minha teeeeerra”. O poema até é bonito.

Ela vê-me: “Bia!”. Judas.

 

Ainda no outro dia me disse que ela é simpática. Porque é que diz essas coisas da Mariza?

A gaja tem tudo marcado no papel como deve fazer. Aqui é a altura de chorar. Acreditas? Fogo! Que jornalista do caralho me havia de sair. Para que é que havia de estar a mentir? Eu seiiie.

 

Seiiie. Disse isso mesmo à Porto, pondo um “e” no fim da palavra.

Sou de lá.

 

Quando canta...

Meu mal espanto. Vá.

 

Quando canta, pensa em quê?

Nada. Estou concentrada. Fico cinco minutos [sozinha], rezo um bocadinho. Pai Nosso, Ave Maria. E entro. Às vezes, de estar tão concentrada foge-me uma frase. Aconteceu-me no casino. Os guitarristas também estavam parvos. Os gajos agora não dormem. Vão para a América, se chegarem hoje vão logo trabalhar nessa noite.

 

Porque é que não se encontram os seus discos?

Sei lá. 

 

Que é que tem feito nos últimos tempos? Além de emagrecer.

Este ano fui aos Estados Unidos. Eu, o Camané e mais umas galinhas. Um mês e meio antes fui a Antuérpia.

 

Tem um agente que lhe arranja esses espectáculos?

É o Hélder [Moutinho, também fadista e irmão de Camané].

 

Vive bem? O que ganha é suficiente?

Sim. Às vezes... E tenho 300 euros de reforma.

 

Porque é que está a emagrecer tanto?

Isso queria eu saber. ‘Tou magra mas não é de tomar comprimidos. Foi de repente. Nem tenho forças nem nada. 

 

Quantos quilos emagreceu?

Dezassete. Pesei-me no hospital, em casa não tenho balança. Cinquenta quilos!

 

Vive sozinha?

Com um periquito. [riso] Não tenho. Nem gatos nem cães. Incomodavam-me. Estou a dormir; agora vem o cão para cima da minha cama? Não.

 

Continua a ter o ritmo da fadistice?

É. E não saio de casa.

 

Que é que fica a fazer?

A ver televisão. Como televisão. Falo sozinha: “Este programa, que coisa horrível.” E o canal Hollywood é uma grandessíssima merda. As séries, igual. Só monstros. Até sonho depois com isso. Só gosto de filmes de amor.

 

Deita-se de manhã, acorda as três da tarde. É isto?

Ontem deitei-me às duas e meia, para ver se hoje estava bem. Acordei. Fiz um chazinho. Tomei mais um Lorenin. Qualquer dia morro do Lorenin. Queria estar fresquinha hoje. Até queria ir ao cabeleireiro. Quando acordei e olhei para o relógio, foi um desassossego.

 

Qual é o seu maior defeito?

Tenho vários. Mas tenho mais virtudes que defeitos. Queres guerras, mas eu não te dou.

 

Não quero nada guerras. Depois também lhe pergunto pelas qualidades.

O meu maior defeito é ser teimosa. A minha maior qualidade é ser uma pessoa muito humana e amiga.

 

O que é que hoje em dia lhe dá prazer?

Nada. Nada me dá prazer. Já nem suporto ir aos fados. A não ser que me digam: “Vamos ouvir o Camané.” Isso vou logo. Até vou descalça. Ouvir a Ana Moura? Descalça vou, para a fonte, Leonor pela verdura.

 

Cantar, dá-lhe prazer?

Agora não. Agora é por obrigação, para ganhar dinheiro. 

 

Acabamos a entrevista.

Está feito?

 

Quer dizer mais alguma coisa?

Não.   

Publicado originalmente no Público em 2012

Fernando Pessoa (p/ Sr. Moitinho)

11.09.18

Vestia-se nos melhores alfaiates de Lisboa. No entanto, metia vales à caixa ou vendia livros para pagar as despesas. A Mensagem permitiu-lhe pagar todas as dívidas.

No escritório tratavam-no por Senhor Pessoa. Ali era o seu lar. Ali escreveu, à noite, Tabacaria e parte da sua obra, na mesma máquina onde, de dia, redigia cartas e anúncios comerciais. (Por exemplo, o slogan para a Coca-cola: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”; mas o Director Geral de Saúde não autorizou a importação do produto).

Daquele escritório nasceram as personagens do Livro do Desassossego. A “Tabacaria do outro lado da rua” era a tabacaria que via da janela, a Havaneza dos Retrozeiros.

As tardes de trabalho eram marcadas pela ida ao Abel. Mas a verdade é que nunca ninguém o viu bêbedo.

Da sua vida íntima pouco se sabe. Pouco se sabe da sua relação com Ofélia Queiroz, o único caso amoroso que se lhe conhece.

Talvez Fernando Pessoa fosse um anjo. Um ser assexuado. Assim o define Luis Pedro Moitinho de Almeida, advogado, uma das poucas pessoas ainda vivas que privaram com o poeta. Filho de Carlos Moitinho de Almeida, o patrão de Fernando Pessoa, o Patrão Vasques do Livro do Desassossego, tornou-se seu amigo e admirador.

Em 32 Moitinho editou o livro de poemas «Acrónios», prefaciado por Pessoa e que encerra do seguinte modo: «São estas as considerações que submetto a Luiz Pedro, que m’as pediu. Submetto-as também a várias outras pessoas, que se esqueceram de m’as pedir».

Aos 91 anos, Moitinho de Almeida fala do convívio com Pessoa, do funeral deste com pouquíssima gente, dos percursos feitos até à Rua Coelho da Rocha onde o poeta habitava; mas onde, apesar da amizade entre os dois, o advogado nunca entrou.

 

A entrada era pela Rua da Prata, pórtico partido para o impossível. Consagrou a si mesmo um desprezo sem lágrimas. Um desprezo ainda escrito com S e circunflexo sobre o E.

Os versos que falam deste desespero, desta demissão, foram escritos numa Royal, a máquina que então dividia com Luís. A janela do gabinete era a terceira ou a quarta, qual delas?, seguramente a terceira ou a quarta, atirava para a Rua dos Retrozeiros, e a luz marcava um traçado rectilíneo sobre o passeio. Uma luz argêntea, uma luz baça, do candeeiro da frente ou da lua que seguia os passos de transeuntes tardios.

Pessoa conquistara o crédito do patrão, do Patrão Vasques, fora-lhe confiada a chave do escritório. Avançava pela noite debruçado sobre a máquina. Quando Luís irrompia pelo escritório, acompanhado de uma luz branca, as pontas de charutos denunciavam-lhe a presença do poeta na noite anterior.  

A tabacaria Havaneza ocupava nesse tempo o espaço da Casa Pampas, na quina da Rua da Prata com a Rua dos Retrozeiros. Mirava-o de frente, implacável na sua mudez e quietude pétrea. Em frente a ela começou por escrever num longuíssimo poema:

«Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo».

Quando Luís conheceu Pessoa, o Senhor Pessoa, a que hoje, volvidos os anos, e o subsequente peso dos anos, chama Fernando Pessoa, sempre que se lhe refere, era um rapaz. Teria 11 anos, o outro 35. Contas arrendondadas, o encontro terá sido em 23.

O Senhor Pessoa que dividia com ele o teclado da Royal era notado nos círculos. Quando ganhou o prémio do Secretariado Nacional, com a Mensagem, pagou dívidas, ganhou reconhecimento. O mancebo, que já lhe tinha afecto, experimentou admiração; laborava sobre os apontamentos da faculdade no escritório do pai, a juventude corria, fizera-se um homem dedicado às leis. Dactilografava com afinco, e assistia ao cortejo que visitava Pessoa para discutir política. Um cortejo reduzido, que quotidianamente acorria ao escritório.

Quando foi a enterrar, a meia dúzia de sempre circundou-lhe a campa. António Botto, Ferreira Gomes, Raul Leal, João Gaspar Simões. Bem como a irmã, o cunhado Coronel, a família confinada ao espaço físico da Rua Coelho da Rocha.

Luís estava já formado, visitava antigos colegas na faculdade de Direito, no Campo Santana. Corria que Fernando Pessoa falecera, o funeral seria nesse dia. Ainda pôde lançar-lhe terra.

Não há memória de lágrimas, estava pouquíssima gente. Novembro ia adiantado, o dia parece que era claro.

 

«Senhor Pessôa: 30 escudos. 22 de Junho de 1935». A grafia do guarda livros fazia cair sobre o O de Pessoa um acento circunflexo. O papel ordinário do escritório tem as pontas previsivelmente amarelecidas. Mas a rubrica que confere o assentimento do Patrão Vasques surpreende por manter uma cor viva, um vermelho cereja, posto a lápis de pau.

Luís não presenciou nunca os momentos em que o Senhor Pessoa, à rasca de massas, metia vales à caixa. Conserva numa pasta de papéis antigos as sucessivas notas que eram passadas no escritório. Afiança que o dinheiro, a massa, nunca lhe era recusado. Não esclarece do intrincado da relação: Pessoa dirigindo-se ao patrão, directamente, Pessoa dirigindo-se ao guarda-livros, na expectativa do visto do patrão.

O pai depositava nele uma confiança ilimitada. O pai de Luís, Carlos Moitinho de Almeida, homem avisado que não dissimulava a desconfiança em relação ao mundo, nele, no poeta, depositava confiança ilimitada, mercê do tino comercial que lhe era reconhecido. «O meu pai rendeu-se ao êxito de Fernando Pessoa. Os clientes e agentes admiravam o modo como lidava com a correspondência, louvavam o teor das cartas». Enalteciam a sua capacidade argumentativa, importante para as epístolas de carácter comercial. O pai sabia que Pessoa era um homem cheia de qualidades. Todavia, ignorava o seu talento literário. Não tinha ideia que ele pudesse ter escrito:

«Tudo isto é sonho e fantasmagoria. (...) Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo que somos é uma impresão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituimos nossos próprios espectadores activos».

Ou que Pessoa pudesse ver nele, que rubricava os vales a cor de cereja, que pagou a conta do Hospital de S. Luiz dos Franceses, a Vida. «O meu pai era o “Patrão Vasques”, evidentemente não era um intelectual». Não se sabia monótono e necessário, mandante e desconhecido. Anónimo.

O pai entregou na mão de Pessoa a chave do escritório, avalizava os papéis que o rapaz do escritório trocava por escudos, desapertava o laço da corda na garganta. Pessoa era tido em grande conta, confiavam absolutamente nele; entrava sem pedir licença e tomava a Royal para si pela noite adentro. A despeito dos livros e da cama e da irmã e do cunhado que habitavam o número 16 da Coelho da Rocha, o escritório era o seu lar.

 

Estes são os vales: 20 escudos, 30 escudos, 50 escudos. Sucessivos vales. Amontoados os papéis, o total de parcelas perfaz 510 escudos. «Não sei mesmo se chegou a pagar. A relação com o dinheiro era horrível. Como sabe, ele andava sempre à rasca de massa». Pessoa apoquentava-se com a falta de dinheiro e com as tempestades. Impressionava-se, sensibilizava-se. Todos os verbos são usados por Moutinho de Almeida para descrever a relação; por fim, recorre a sucumbir. Sucumbido pela falta de massa.

Os vales cobriam o luxo dos fatos talhados nos melhores alfaiates de Lisboa. Lourenço e Santos era um deles. Falta apurar se a carta da Procural a reclamar o pagamento de uns fatos era ratificada pela Lourenço e Santos. A Procural era uma agência que cobrava dívidas, um cobrador do fraque do início do século, quando a actividade era permitida.

Tinha a extravagância dos fatos e dos livros. Os livros, comprados em livrarias de Lisboa ou encomendados a estrangeiros, «Talvez contactos das traduções que fazia para vários escritórios», eram pagos a pronto, na urgência de serem comprados. Os fatos alinhavam pela moda dos anos 20, uma moda masculina a que chamavam Papo Seco. Casaco comprido, muito chegado ao corpo, calças apertadas e curtas. Usou sempre esses fatos, estruturados a três quartos, todo ele meticuloso. O vinco perfeito, a camisa impoluta. Era vaidoso com os fatos; os sapatos estavam sempre engraxados. Combinava-os com uma gabardina coçada, que envergava com displicência. Ou então era o dinheiro que não esticava - que é o mais certo. Displicente não vai bem com o formalismo de Pessoa.

Se vistas uma a uma, as folhas rubricadas a cereja permitem perceber os momentos de aperto. Moitinho desconhece o modo de pagamento; se à semana, se ao mês, quanto valia então o dinheiro. Para que serviam 30 escudos? Todos os meses, mais do que uma vez por mês, os vales eram submetidos à gerência. Quando recebeu o prémio do Secretariado Nacional de Informação pagou tudo. «Era um homem de contas direitas, o que não tinha era dinheiro».

 

«Você bebe que nem uma esponja...». Senhor Pessoa aguentava o embate da aguardente pelo meio da tarde. Levantava-se com ar solene e anunciava: «Vou ao Abel». Pegava no chapéu, compunha os óculos, não chegava a esboçar um sorriso.  

O Abel era uma sucursal do Abel Pererira da Fonseca. Uma fotografia tirada por Manuel Martins da Hora mostra-o «Em flagrante delitro», (assim se dedicou a Ofélia Queiroz no verso do exemplar que lhe ofereceu). Atrás de si as garrafas estão alinhadas em sucessivas prateleiras, ao encontro da cintura percebem-se os tonéis; uma mão apoia-se no bolso, a outra empurra o cálice de aguardente. Não se imagina que balbucie além do estritamente necessário com o empregado, dois dedos de trela. O empregado habituou-se ao modo solipsista dos botões da camisa de Pessoa. Estender-lhe-ia um cálice, outro ainda, então até mais logo? Ou as palavras seriam polidas, seixos de forma precisa, escrupulosamente escolhidos na imensidão da praia? Mas nunca além do estritamente necessário. «Era um novelo enrolado para o lado de dentro, como disse de si através de Álvaro de Campos».

Depois regressava ao escritório. Moitinho de Almeida tinha 16 anos, aos olhos de Pessoa era ainda o Luís, o outro era para ele o Senhor Pessoa. O senhor bebe como uma esponja... «Como uma esponja? Como uma loja de esponjas com armazém anexo!».

Era um irónico, resquícios da educação britânica. Tinha uma graça inusitada disfarçada de aparente sisudez. Nunca ninguém o viu bêbedo.

A verdade é que as repetidas idas ao Abel lhe deram cabo do fígado. «Não sei se a causa da morte foi cirrose, mas foi qualquer coisa ligada ao fígado». Contudo, não se lhe ouvia um queixume. Só dizia o que era preciso.

Uma vez almoçaram juntos na Rua do Comércio, senão essa, uma rua paralela à Rua da Prata. Trocaram olhares e impressões difusas. «Ele comia para se manter. Tenho a impressão que não era um gourmet».  

Sobre esse almoço pende um nublado de memórias imprecisas, Moitinho de Almeida procura-as, vasculha, não chega a encontrar o sabor do que comeram. Mas tem recortada a ausência de comentários, a improbabilidade que seria Pessoa dizer «Vou no peixe, disseram-me que está bom».

«Sei isso muitas vezes,

Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram

Dobrada à moda do Porto fria?

Não é prato que se possa comer frio,

Mas trouxeram-mo frio.

Não me queixei, mas estava frio,

Nunca se pode comer frio, mas veio frio».

 

O senhor Pessoa quer boleia até casa?

Luís Moitinho de Almeida era conduzido pelo motorista. O pai esmerara-se na sua educação, mandara-o para o Suíça um Verão aprender francês.

O Senhor Pessoa era de bom trato. Um gentleman educado em Durban, experiência de que não chegava a falar, a não ser para contar a seguinte história: um tipo atirou um tijolo à cabeça de um preto e o que se partiu foi o tijolo! Era a única história que contava da sua infância. Uma história disparatada de que podia rir-se um menino circunspecto.

Partilhavam a Royal e apertos de mão. A princípio era só simpatia, recorda Moitinho, «não me tinha apercebido da grandeza do Fernando Pessoa. Depois do meu quinto ano do Liceu, em contacto com meios literários, onde sabia que ele pontificava e era já consagrado, é que comecei a admirá-lo em grande». A relação respirava uma franqueza que ainda hoje agrada a Moitinho; o advogado respeitou a reserva do poeta. Sabia-o introvertido, não estranhava que no discurso não pontuasse nunca a mãe, a família, a infância na África do Sul. «Ele não era pessoa que se abrisse sobre os seus pensamentos íntimos». Não lhe causa por isso perturbação que, a despeito da proximidade que tinham, nunca o convidasse a subir. Só conheceu o espaço depois de ele se transformar em Casa Fernando Pessoa, anos após a morte do poeta.   

O carro parava frente ao número 16. Vivia com a irmã e o cunhado no primeiro andar direito.

«Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura»

Moitinho vê-o sair do automóvel e dirigir-se à porta de entrada. Desconhece a arca, desconhece o ser estilhaçado, desconhece o oceano ignoto que o habitava por dentro.   

Sabe da vastidão que desconhece depois da morte de Pessoa, aquando das descobertas arqueológicas que o revelaram no seu infinito.

O tamanho de Pessoa parece-lhe reconhecível, a partir do rectângulo de vidro da janela. Estava conectado com o Senhor Pessoa, tinha ao alcance da mão um número que o fazia comunicável. 41350. Chamam ao telefone o senhor Pessoa!

A vizinha do lado, Dona Virgínia Sena Pereira, era a mãe de Jorge de Sena. No cartão de apresentação que Pessoa distribuía podia ler-se: Pedir o favor de chamar, vírgula, ao lado, vírgula, o senhor Fernando Pessoa, Rua Coelho da Rocha, 16, 1º direito. A nota está escrita numa letra miúda e desenhada, quase feminina. No verso deste cartão, o nome e a morada do cunhado coronel, a direcção do hotel eborense onde ficava, iludiam quanto à possibilidade de encontrar Pessoa, descobrir Pessoa, saber dele, da vida que levava.

 

Ofélia. Não soube de Ofélia até todos saberem de Ofélia.

Olhou-a nas fotografias da exposição do S. Luiz, no livro que a sobrinha desta lhe dedicou.

«Achei-a bonita? Não achei nada. Não impressionava? Nunca a conheci pessoalmente. Que ela excitou o Fernando Pessoa, excitou. Se não fosse isso, não havia os beijinhos na escada. Ela trabalhava no escritório do Félix Ribeiro e ele fazia lá traduções. Mais do que isso, não posso dizer. Era uma mulher vulgar. Também ele, por fora, era um homem vulgar. Uma figura enigmática. Não acredito que fosse homossexual. O que era, era um ser assexuado».

O mais certo é que Ofélia não tenha tido um vislumbre de Pessoa. Entregavam-se a beijos na escada do escritório, e é tudo. Nenhum frémito o tomou. A voz continuou sumida, sobre o baixo, pausada. Uma voz de pessoa tímida que usa as palavras com solenidade.

«Quem é feliz? “O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Como todos os poetas, ele sofria. Os seus momentos de felicidade? Quando lhe deram o diploma na África do Sul e quando ganhou o prémio do Secretariado Nacional. São dois momentos positivos para a vida dele. Fui eu que percebi, ele nunca o disse, nunca expressava alegria».

 

 

 

Texto de Anabela Mota Ribeiro com Susana Sena Lopes, publicado originalmente na revista Tabacaria

Patrícia Pascoal

04.09.18

Patrícia Pascoal é sexóloga. Fala de fenómenos como as MILF (mothers I would like to fuck) ou de o sexo anal ser mais do que um jogo de dominação. Da hiper-vigilância em relação ao nosso corpo – “Ai, será que estou a ficar molhada”. Da instantaneidade e democratização no acesso a conteúdos sexuais. Usa palavras como “peniano” ou “socialização para o género”. A ela não a apanham a dizer que uma mulher deve vestir uma lingerie sexy e desinibir-se. Como num título de Woody Allen, eis um ABC do Sexo.

Fez a licenciatura e o mestrado em Psicologia Clínica em Coimbra. Uma pós-graduação em Estudos Femininos em Amesterdão. Outra pós-graduação em Sexologia Clínica na Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. É responsável pela primeira consulta de Sexologia Clínica na Faculdade de Psicologia de Lisboa. Está empenhada no doutoramento. Colabora com a imprensa (teve, por exemplo, um programa no extinto Rádio Clube Português com Aurélio Gomes). Dá aulas. Dá consultas. “Temos de perceber o passo gigantesco que é para as pessoas chegarem à consulta. Quando estava a coordenar uma linha de atendimento telefónico, as pessoas diziam que não conseguiam falar disto numa consulta. O enquadramento anónimo permitia-lhes falar, mas a ideia de ir, e dar a cara, era sempre complicada”. O sexo é ainda um tema complicado? E continua a ser o mais apetecível?

Patrícia Pascoal dá algumas respostas, levanta muitas questões, gosta de desinstalar o que está instalado. É casada e tem filhos.   

 

 

Numa sociedade hiper-sexualizada como a nossa, o sexo continua a ser uma obsessão colectiva? Nunca o sexo esteve tão visível, no cinema, na televisão, nas revistas, nos conteúdos veiculados nas redes sociais. Mas isto não conduz a uma banalização. Os conteúdos sexuais são sempre os mais vistos, os mais lidos, os mais procurados.

O sexo sempre esteve visível. O que talvez esteja [mais visível] são os genitais, a cópula, a nudez. Até na invisibilidade víamos alguma coisa. Tornou-se tudo muito mais rápido, à distância de um clique. Há consumo de informação, uma instantaneidade e uma democratização no acesso. Se procurar imagens de nudez, encontro. Mas se procurar informação sobre práticas sexuais seguras, locais de atendimento, linhas de informação, também encontro. A expansão não é só para a parte mais fácil, banal, espectacular. O difícil é perceber que critérios [usar para filtrar]. É o drama dos pais – os miúdos têm acesso à pornografia, à perversão, à informação. As pessoas procuram mais ajuda nesta área. Têm mais vocabulário para designar as coisas, questionam o que lhes é dito.

 

Exemplos.

“Existe mesmo um ponto G?”, “Não tenho orgasmo, será que tenho um problema sexual?”. Há dez, 20, 30 anos era inegável que isto seria um problema; hoje questiona-se. Há uma série de outros discursos que aparecem, comportamentos, testemunhos; e a partir deles as pessoas questionam-se. A sexualidade masculina está a mudar imenso. As pessoas dizem: “Agora há mais homens com falta de desejo”. O que há é mais homens a dizer quer têm falta de desejo.

 

O que era impensável. Um homem estava sempre pronto. Tinha sempre vontade.

Claro. Mas se um homem está sempre pronto, e a sua vida sexual não está ligada aos afectos, por que é que há tantos anúncios de prostituição a dizer “carinhosa, doce, meiga, conversadora”?

 

Há ou não Ponto G?

Parece haver uma forte evidência para a não-existência. Se meto o dedinho e vou lá à procura, aumento a probabilidade de me estimular, e de atribuir isso ao Ponto G. Será que as mulheres mais velhas são mais incompetentes e não o encontram, ou será que as mulheres mais novas encontraram nomes para dar às coisas? O que é que realmente interessa? É que as pessoas se permitiram procurar, estimular-se, tocar-se. A parte menos saudável disto é a procura da sensação máxima que nos torna hiper-vigilantes acerca do nosso corpo.

 

Em relação ao seu funcionamento, à prestação sexual?

E às sensações. “Ai, será que estou a ficar molhada?”, e verifico. “Será que os meus mamilos estão a ficar erectos?”. Mais vigilância em relação às sensações do próprio, mas também em relação às do outro. “Está a gemer; será porque está a gostar, será que estou a magoar?”.  

 

Aquilo que as pessoas procuram reproduzir ou praticar é o receituário disponível nesta enorme quantidade de informação.

É. Sou contra essas receitas. Mesmo em termos de terapia sexual, posso dizer: “Existe esta técnica, que tem uma taxa de eficácia alta, é feita assim. Mas vamos pensar se é esta a questão. Se implementar esta técnica e passar, por exemplo, a ser possível a penetração (porque antes não era), o que é que acha que vai mudar na sua vida, no seu prazer, na sua satisfação?”.

 

As receitas são bastante taxativas (e prometedoras…): dez passos para ter um sexo melhor…

Ou dez conselhos para comunicar no casal. Não consigo imaginar coisa mais anti-qualidade da comunicação do que seguir um receituário. “Não diga não”. Não diga não porquê? “Não acuse”. Não acuse porquê? Podemos evitar magoar o outro, mas também podemos pedir desculpa.

 

Quais foram, para mulheres e homens, as mais notórias conquistas das últimas décadas?

O pensar da sexualidade para além da genitalidade. O prazer já não é só sinónimo de orgasmo (para algumas pessoas eventualmente ainda é). A ideia de prazer ou satisfação é muito mais ampla. O verbalizar, o escrever sobre isso, é uma noção nova. A procura mais rápida de experiências intensas é também um ponto-chave. E passámos de um modelo em que as mulheres não têm vida sexual para um em que têm ejaculação feminina, Ponto G, multi-orgasmos, conseguem fazer sexo tântrico, têm prazer com o sexo anal...

 

O modelo dominante ainda é o monogâmico, do casaram-se e foram felizes para sempre. Mas a taxa de divórcios é altíssima. As pessoas não ficam na relação a qualquer preço. Apesar dos filhos.

Há o modelo da relação monogâmica, tida durante muito tempo e da qual se espera que venha tudo o que é bom. Há pessoas a quem isso não satisfaz; ou satisfaz durante um período da sua vida e depois deixa de satisfazer.

 

Este modelo não é forçosamente excludente de um outro: o da procura do prazer, da novidade, da transgressão.

É legítimo perguntarmo-nos se a banalização, o excesso, não leva a que as pessoas se tornem mais insatisfeitas, mais à procura da intensificação da experiência. Numa lógica consumista, faço com o sexo o que faço com os carros ou com os restaurantes: quero cada vez mais o extremo, o que me dá as sensações mais fortes.

 

Para elas, o sexo continua a ser o caminho a percorrer para chegar ao afecto e à relação companheira? Eles têm de as entreter com basófia amorosa para chegar ao que verdadeiramente querem, o sexo? Esta visão maniqueísta, redutora, deixou de vigorar ou não?

Há um cartoon que resume isso: “Faço sexo porque te amo, amo-te porque fazemos sexo”. O tipo ama a mulher porque faz sexo com ela, ela faz sexo com ele porque o ama. Se desmontarmos isso, temos de perguntar: a mulher que quer um amor companheiro, tem que ser para a vida toda? E se o sexo deixar de ser bom, quer ficar na mesma? O que é que espera disso? Se calhar uma mulher de 40 anos já não está à espera de ter uma grande vida sexual, porque não é representada nem se vê a ela própria como uma bomba que vai ter sexo muito bom.

 

No livro Sex, lançado nem há 20 anos, Madonna fazia a encenação das suas fantasias sexuais. Numa das fotografias, estava ao espelho a ver o genital. Na altura parecia uma cena especialmente audaz, provocadora.

E continua a ser. Onde é que vê genitais de mulheres hoje em dia? Só na pornografia. É escondido. Os próprios manuais têm quase sempre desenhos.

 

Porque é que se vêem os dos homens? E aí, pelo contrário, é quase sempre numa posição priápica.

Podemos dizer que é porque estamos numa sociedade falocêntrica. Porque está à vista. Porque é fácil. E depois, sempre foi condenada a expressão sexual das mulheres. Se emergisse, seria de uma forma desorganizada, histérica. Apesar dos anticoncepcionais orais, e do acesso à protecção do preservativo, feminino ou masculino, os riscos, os custos maiores são para as mulheres.

 

Por causa de doenças e porque engravidam.

E por causa da punição social que ainda existe.  

 

Se a pessoa apanhada no quarto de hotel em Nova Iorque fosse Anne Sinclair, e não Strauss-Kahn, a penalização social seria muito maior.

Claro. Nem conseguimos pensar nisso. Essas mulheres que têm carreiras em áreas tão masculinas são muito dessexualizadas, a começar pela forma como vestem. E normalmente, quando chegam a esses cargos, são mais velhas. Rapidamente passam o prazo de validade.

 

Os filhos são uma questão fundamental para a mulher de 40 anos. E é cada vez mais nessa idade que os têm. Depois da maternidade, tendencialmente deixa de ser a bomba sexual para passar a ser a mãe. Uma expressão muito sintomática disso: dentro do casal, o marido, pai das crianças, passa a chamar-lhe mãe.

O pai, as senhoras na maternidade, na escola…, deixa-se de ter nome. Passa a ser a mãe da Joana, a mãe do Carlos. E há uma pressão ainda maior sobre as mulheres. “Foi mãe há três meses e retoma a sua forma esplêndida”, “Mais sexy do que nunca agora que teve dois rebentos”. Porque é que tem que ser mais sexy? Os corpos, estes de que estamos a falar, das maternidades, que são tantas vezes dessexualizados, são muito erotizados nas representações antigas. As bacantes têm ancas largas e barriguinhas.

 

Mas isso hoje não é considerado sexy.

Voltámos à Lolita.

 

Isso de que falou é um símbolo da matrona, do que resulta da maternidade.

Há homens que desejam mulheres curvilíneas, com barriguinha. É engraçado olhar para os géneros na pornografia. Encontramos as MILF (mothers I would like to fuck). Dirige-se a um número de pessoas que sente desejo por corpos e mulheres que não são as teens, que é outro subgénero.

 

Quais são os grandes grupos, neste momento, na pornografia?

Gay, lesbian. Ebony (que é interracial). Os gang bang (as mulheres com múltiplos parceiros, em simultâneo). E depois os pequenos subgéneros, lesbian MILF, ebony MILF. Há uma indústria paralela, alternativa, com mulheres realizadoras, algumas ex-actrizes porno, outras não. Em termos das técnicas cinematográficas, não usam sempre o grande plano, andam entre o óbvio que não é óbvio, com temáticas, com narrativas.

 

É interessante que dêem a ver coisas diferentes, que romantizem o filme fazendo dele um objecto menos explícito.

Mas não tanto como estava à espera. Continuamos a estar no domínio, mesmo entre as mulheres realizadoras, dos jovens, belos, saudáveis, bem sucedidos e glamorosos.

 

Alguém que tem 60 anos, que observa ao espelho o seu corpo flácido, numa sociedade que faz o culto da juventude, quer ver num filme pornográfico outro como ele?

O que a pornografia e a observação da pornografia fazem aos homens em relação ao tamanho do pénis! Como a maior parte dos actores pornográficos tem pénis muito acima daquele que é o tamanho mais comum, muitos homens usam como referência aquela proporção; isto é causador de grande sofrimento. Mais do que a questão da imagem corporal global, que é a das mulheres, nos homens há uma preocupação com a barriga, com o tamanho do pénis. Há uma oferta de pornografia em que isto não acontece, e é mais tranquilizador. Mas há também muitos sites amadores, que cresceram imenso.

 

Porquê? As pessoas têm a ideia de que os filmes desses sites são mais “normais”?

Além da componente exibicionista de quem põe, diria que os sites cresceram porque as pessoas se identificam. O cinema facilita a identificação. O facto de não ser um tipo todo musculado, todo depilado, para muita gente é apelativo. Porque é mais próximo da vida que têm. Dá-lhes algum poder, sentem-se empowered.

 

A pornografia é olhada desde sempre como uma transgressão e uma explicitação de algumas das fantasias mais correntes. É interessante perceber quais são os géneros que aparecem. Dá-nos uma ideia do que paira na cabeça das pessoas.

O que é que é uma fantasia sexual? Todos temos uma espécie de entendimento sobre o que é isso. É um desejo recalcado? É uma ideia perseverante, só se quer fazer aquilo? Do que é que estamos a falar?

 

De um objecto não-concretizado ou concretizável?

Tenho muitas dúvidas. Diferentes fantasias nos filmes pornográficos? Aquilo não tem nada de fantasioso! Todos estes géneros são extremamente rígidos.

 

Mas são uma forma de consumação, e dão visibilidade a preferências.

Preferências, cenários, práticas. Não têm que ser necessariamente fantasias. Temos muitos discursos sobre fantasias, alguns culpabilizadores. Há pessoas que se sentem mal porque têm poucas fantasias, porque acham que a sexualidade boa é a de quem tem muita imaginação. Ou sítios muito exóticos, e muitas posições. A fantasia, uma definição possível: é um pensamento, uma ideia de conteúdo sexual, que pode ser, até, não necessariamente boa.

 

Essa definição parece do dicionário. Asséptica. Traduza isso.

Posso dar comigo a ter uma imagem de mim própria a ser violentada, que é uma coisa que não quero. Ou a violentar alguém. Nem todas as fantasias são sentidas pelas pessoas como boas. E muitas pessoas auto-observam-se e têm um deleite, gostam de falar sobre as fantasias que têm e não estão a pensar concretizá-las. Tentar perceber qual é o significado daquela fantasia, isso sim, é importante.

 

Duas das fantasias mais comuns, apontadas por homens e mulheres quando se fazem as inevitáveis listas, são, no caso delas, o sexo com desconhecidos, e que implique alguma força. Li um testemunho de um prostituto que dizia que recorrentemente as mulheres lhe pediam que criasse um quadro de quase violação, inescapável para elas. No caso deles, a fantasia apontada era ver duas mulheres.

E depois eles aparecem para aquilo ser bom!, só as duas não é bom [riso]. Os homens fantasiam com duas mulheres, mas fantasiam-se a eles em acção.

 

O homem é o salvador daquelas desviantes, aquele que finalmente pode dar prazer àquelas mulheres incompletas – é com isso que fantasiam?

Sim, são incompletas porque não têm o prazer da penetração do pénis. Outra ideia subjacente a essa fantasia é a das múltiplas fontes de prazer. Duas mulheres implicam uma variedade de estímulos em diferentes zonas do corpo.

Além da questão do falo reparador – o pénis que vai ali resolver o problema – também há a questão do poder. É um bocado difícil dissociar a sexualidade do poder. Isto leva-nos à fantasia das mulheres que apontou. Aquelas mulheres querem ser violentadas no sentido em que são agredidas? Ou pode ser interessante uma prática que, sendo imposta por fora, legitime que elas a façam?

 

Desculpabilizam-se porque foram forçadas. E por causa disso permitem-se fazer o que, em condições normais, não aceitariam.

É o descontrolo. As pessoas sabem que quando estão excitadas, e não estão demasiado controladas, deixam-se ir, deixam-se fotografar, fazem uma série de coisas incautas. O estado de excitação implica alguma perda de consciência, e legitima: “Ao princípio não queria, mas depois…”. Isto só é possível num contexto de duplo padrão moral. O discurso da sexualidade da mulher é muito pensado em função dos desejos masculinos. Isso continua a acontecer mesmo nos discursos mais libertadores. “Liberte-se, faça surpresas ao seu marido. Vista uma lingerie sexy para lhe agradar, seja ousada”. Isto é que é a liberdade? Libertar as mulheres é dizer-lhes como têm que ser?

 

Como têm que ser para agradar aos homens.

A socialização para o género ensina-nos a dizer: “Não consigo fazer amor se não estiver apaixonada. Não consigo ter prazer se não for com uma pessoa de que gosto”.

 

O que é a socialização para o género? Concretize.

Pequeninos. Se mexe as perninhas, e é rapaz, vai ser futebolista. Se mexe as perninhas, e é menina, vai ser fresca. Está a ver a diferença? Uma menina de quatro anos que ande a levantar as saias: “Tem que se ter mão nela”. Um rapaz que não queira jogar à bola, que não goste de jogos de competição com outros rapazes, vai ser maricas ou a mulher vai mandar nele. Nisto temos todos um papel. Montei uma consulta de sexualidade no espaço Diferenças, encaminhavam-me vários casos, alguns deste tipo. O menino tinha que ir à psicóloga porque não gostava dos brinquedos de rapaz, fazia desenhos com temática de menina. Fala com os pais, tenta perceber: “Mas a criança é feliz? É”. Então onde é que está o problema? Está a fazer aquisições, é autónomo. O problema está nesta ideia. Isto está tão enraizado que os homens dizem: “Tenho uma parte feminina, gosto de decoração”.

 

As mulheres são educadas para a monogamia, para a relação estável e duradoura.

Sim. Não se diz: “Quando fores crescida vais encontrar imensos homens de quem vais gostar, vais ter montes de experiências sexuais diversificadas”. Procurar actividade diversificada não é aceitável. Até porque vai ser mãe. Há todas estas ramificações, contágios. Está a construir um passado.

 

A reputação parecia um fardo pesadíssimo, do qual a mulher se libertou depois da pílula, da emancipação económica e profissional, quando caiu o fantasma da virgindade. Mas com as redes sociais voltámos à situação em que há um passado que nos persegue, sendo nós cúmplices desse processo: porque “postamos”.

“Posta” quem “posta”. Somos voyeuristas. No princípio era o olhar. Gostamos de ver ou imaginar o que poderíamos ver.

 

Isso é para ver como são os outros ou para nos confirmarmos na nossa normalidade/particularidade?

Por um lado isso – “Não sou assim, nunca faria aquilo”. Tapam-se os olhos com os dedos abertos [riso], para ver bem. “Postar” algo da intimidade de uma pessoa é uma violência enorme. Associa-se o prazer à violência.

 

Porquê esta associação? É a sensação de estar para lá dos limites?

Há um número restrito de pessoas que associa prazer e dor. Outra coisa são as pequenas agressões que as pessoas usam no seu erotismo. Os pequenos chupões, as mordidelas, a pancadinha no rabinho.

 

Quando vemos filmes dos anos 70, posteriores ao Maio de 68, à pílula, ao divórcio, assistimos a códigos libertinos, à experimentação. Um exemplo: festas nas quais se deixa a chave à entrada e se sai, não com o par, mas com outro cuja chave foi tirada à sorte. Estas imagens são a espuma de um tempo? Os filhos desses são mais conservadores?, procuram sexo com intimidade, encontros menos fortuitos?

As pessoas que punham as chaves para trocar de casal, se calhar também tinham relações íntimas. Não será isto um preconceito? Esta ideia de que a intimidade tem que ser a dois. Estou só a pensar, não estou a responder. Existe a norma, e a norma é sempre o caminho mais fácil. É mais fácil se uma pessoa se apresenta como casal; não é só socialmente, financeiramente também. As pessoas que optam por não seguir esse caminho têm que se confrontar com algumas dificuldades. E outras não optam, aconteceu assim. Hoje em dia isto não tem que ser tão pesado. Antigamente ficar solteirona era uma coisa horrível, era um atestado de incompetência.

 

As que ficam solteironas, se calhar não têm o mesmo atestado de incompetência; mas não sentirão culpabilidade por ter falhado uma dimensão importante nas suas vidas? Ou que a sociedade lhes ensinou que era importante nas suas vidas.

Sim. Como as mulheres que não têm filhos. É difícil perceber se realmente é o que querem ou se pensam que é o que querem porque lhes foi dito [que era assim que devia ser]. A pessoa sabe que não cumpriu o guião que esperavam de si, na sua intimidade, nas suas relações. Ao mesmo tempo, não sabe o que é que a vida lhe reserva; se calhar pertence a outros guiões e a outras histórias.

 

Essa diversidade de enredos ainda causa uma enorme estranheza nos próprios e nas pessoas à volta. O que é notório, por exemplo, quando alguém aos 30, 40, 50 anos revela ou descobre que tem uma orientação sexual diferente.

Ou tem ou mudou.

 

Muda-se? Também existe o preconceito de que essa orientação sempre esteve lá, a pessoa é que não tinha coragem para a assumir.

O que me parece é que há muitas sexualidades. Criámos esta divisão, homossexual, heterossexual, com a qual muita gente se identifica.

 

Os bissexuais, mais do que indecisos, são considerados pouco determinados ou incapazes de fazer uma escolha.

As histórias de vida das pessoas são muito mais ricas e diversificadas que estas divisões. Podemos encontrar pessoas que sempre se identificaram como heterossexuais e que têm práticas ou fantasias com o seu parceiro heterossexual que incluem a ideia de que estão a ter sexo com alguém do mesmo sexo. O que é isto? Será que aquela pessoa tem uma homossexualidade recalcada?

 

Dizer que uma pessoa tem uma determinada orientação sexual é um rótulo que se lhe cola. Ao colar o rótulo, o que se quer é que ela seja sempre a mesma coisa, uma coisa com a qual podemos contar?

O que se quer é uma cristalização. E há muitas pessoas que não são assim. Pensamos que uma pessoa, porque tem uma orientação sexual que não é maioritária, tem um problema associado. Depressões, que já tentou suicidar-se, deve ter sofrido muito. São anos e anos de processos internos da pessoa, da família, dos companheiros, da sua história de vida. Por outro lado temos tendência para pensar que se se libertou, se assumiu a sua identidade, agora está tudo bem.

 

E não está?

Esta questão dos rótulos é complicada. Dizemos não-heterossexual e estamos a dizer que o heterossexual é que é bom. Dizemos homossexual e estamos a utilizar um termo que foi utilizado para dizer que as pessoas são doentes. Mas um heterossexual pode ter problemas na sua sexualidade, pode ter dificuldades na sua intimidade, pode ter prazer, pode começar e acabar relações. Hoje em dia defendemos que é a pessoa que se auto-define.

 

Ainda na pornografia, uma das constantes é o sexo anal. Porquê?

É um género. A leitura mais imediata é a da dominação – colocar o outro no lugar do dominado e sentir-me como dominador. Mas se pensarmos bem, tem a ver com uma visão do que é o sexo anal – com o outro de costas para mim. Esta visão tem associado o não haver contacto visual, que é um aspecto que não podemos descurar. É um grande mistério, se por parte das mulheres que praticam, lhes dá ou não prazer. Há dados pouco conclusivos acerca disto, e muito contraditórios. É algo que se faz porque sabemos que dá prazer à outra pessoa, ou não? É uma prática de difícil execução. É difícil o relaxamento do esfíncter, e a contracção involuntária também.

 

Difícil, doloroso? Estamos a falar num quadro heterossexual, homossexual?

Em qualquer um. É uma prática que exige algumas condições, ao nível da intimidade, dos cuidados de higiene, da comunicação, para ser praticada; e que pode facilmente ver-se associada à violência, à agressão. É preciso o outro estar muito relaxado e muito à vontade para não ser desagradável.

 

O sexo anal e o sexo oral eram, aos olhos de uma prática conservadora, coisas que não se faziam com as mulheres legítimas. Por aí não passa de todo a procriação. Umas coisas faziam-se em casa, outras faziam-se com as amantes ou com as prostitutas. Isto faz ainda algum sentido?

Com a libertação de que falámos, com a igualdade do prazer, vimos a introdução dessas práticas dentro do contexto relacional, como potenciadoras do prazer, do conhecimento do outro e do próprio. O aparecimento do HIV mudou radicalmente o discurso da sexualidade para a liberdade, para a diversidade e para a experiência. Vemos isso na pornografia, começam a aparecer preservativos, fazem testes aos actores. Muita gente dentro da indústria morreu por infecção. E vimos práticas mudar. Vingou a ideia de que o sexo oral é seguro. A probabilidade, de facto, é muito diminuída, comparativamente ao coito. Então, algo [como o sexo oral], que se fazia depois de se conhecer a pessoa com quem se está, hoje em dia acontece antes.

 

Pratica-se como se fosse um preliminar?

Não é só um preliminar. Muitas pessoas que iniciam a sua vida sexual com penetração já fizeram sexo oral antes. Não é quando as duas pessoas estão juntas, é em termos de história da própria pessoa. As pessoas estavam muito focadas na virgindade, no romper ou não romper o hímen. Passavam essa barreira e depois começavam a explorar outras coisas. Hoje em dia o coito, a penetração, como tem mais riscos associados, fica para o fim. Não conheço os estudos feitos cá, mas no Canadá e nos Estados Unidos é isto que tem sido encontrado.

 

O sexo num quadro de conjugalidade é diferente daquele que se tem quando se tem relações avulsas.

Porquê?

 

Tenho ideia que uma das queixas mais recorrentes dos casais tem a ver com a falta de desejo, e isso muitas vezes acontece porque se cai na rotina.

Falta de desejo ou insatisfação? Tem-se confundido as duas coisas. Dizem que pode haver entre dez a 60 por cento de mulheres sem desejo.

 

O que é que pergunta para saber se as pessoas têm desejo?

Tem falta de desejo em relação a quê? Ao que gostaria de ter, ao que tinha no passado, ao que tinha com outro companheiro? Ao que o seu companheiro ou companheira tem, ou espera que tenha? Em relação ao corpo e à vida que tem? Às doenças e não doenças que tem? É preciso perceber isto. Há pessoas que gostariam que o desejo fosse exactamente como nos primeiros três meses de namoro.

 

Não é crível, apesar de desejável.

Falam da rotina, mas o que acontece é o acesso. O outro está ali, acessível. Não há a criação de expectativa. E depois, a própria sexualidade vai mudando de papel dentro da vida das pessoas. E há muitos encontros e desencontros. Como naquele verso do Sérgio Godinho: “À espera do comboio na paragem do autocarro”. Às vezes é mesmo isto. Estou à espera de ter um desejo imenso quando não me sinto desejada, ou quando a minha relação está deserotizada.

 

O que é que se faz quando as relações estão deserotizadas, ao cabo de dez anos de casamento e com dois filhos? Ter dois filhos que podem entrar no quarto dos pais num domingo de manhã inibe, por exemplo, a utilização de brinquedos sexuais?

Claro que altera, por isso mesmo não se pode ter o mesmo desejo que se tinha quando não havia putos. Se já não é a mesma coisa, que seja como pode ser. Se os putos podem entrar no quarto e mexer nos brinquedos, temos de os meter num sítio onde não estejam à mão. Ou vamos ter que ter relações quando não estão ali ao lado e sabemos que nos vão bater à porta de três em três minutos. É o ideal? Há um americano que diz: “The good enough sex”. Até acho um bocadinho conformista. Não podemos é, perante a dificuldade, cristalizar.

 

Muitas situações de separação e divórcio resultam de as pessoas não serem capazes de fazer aquilo que entendem como uma concessão em relação ao que é o seu ideal. Não se conformam que as coisas não sejam tão gloriosas como já foram, ou consentâneas com o que idealizaram. E vão ter relações extra-conjugais, vão ter relações virtuais, qualquer coisa que lhes dê essa dimensão que lhes falta em casa.

Isso é a tal questão da insatisfação. O divórcio ou a separação é muitas vezes visto como um fracasso, porque temos a ideia de que uma boa relação é a que dura sempre. Consideramos que a permanência na relação é o principal indicador de sucesso. E foi bom? Ou tinham uma relação muito boa, de grande qualidade, e quando começou a perder alguma qualidade acharam que era melhor acabar? As pessoas da terapia familiar muitas vezes dizem que quando os casais as procuram já estão muito perto do fim, que querem salvar o animal quando o animal está morto ou moribundo.

 

Porque não perceberam antes que estava moribundo? É porque um deles já decidiu que está morto e o outro quer ainda que ele ressuscite?

Pode ser. Às vezes há uma pessoa muito motivada para a reconstrução do casal e da conjugalidade, e outra pessoa que já fechou. É preciso perceber quando é que acabou a relação amorosa enquanto projecto. A relação não acabou quando começou o divórcio.

 

Outro cliché: o sexo continua a ser um excelente indicador da saúde do casamento?

Dizem que a sexualidade é o barómetro. A satisfação com a vida sexual e a satisfação relacional estão muito relacionadas uma com a outra. É a história do ovo e da galinha: não sabemos se as pessoas têm vidas sexuais melhores se têm relações mais satisfeitas, ou se, por as relações serem melhores, têm relações sexuais mais satisfatórias. Há pessoas que têm uma relação altamente sexual, e há pessoas que têm poucas metáforas sexuais, actividade, frequência, mas que têm uma óptima relação.

 

O que é que é ser bom na cama?

Não faço ideia, não sei responder a isso. Mas posso dizer uma coisa: há tanta coisa que os homens e as mulheres têm em comum… Uma delas é o medo da incompetência sexual.

 

Eles e elas acham que não são bons o suficiente? Que o outro os deixou porque não são bons o suficiente, que o outro já não lhes liga porque não são bons o suficiente?

Acham que é muito importante ser competente sexualmente.

 

Vivemos sob o jugo da competência. Temos que ser competentes profissionalmente, competentes a ganhar dinheiro, competentes a criar uma família. E competentes na cama.

Estamos sempre sob avaliação. Portanto, fizemos, qual é o nosso rating?

 

“É melhor do que alguma vez foi? Se comigo for melhor significa que gosta mais de mim, que sou especial”?

Isso é uma coisa um bocado narcísica, de competição. Todos queremos sentir-nos especiais em alguma coisa. Adoro o título do Stieg Dagerman, A nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer. Sentimo-nos únicos e precisamos que o meio nos confirme isto. O meio não confirma nada disto. E então há pessoas que têm que confirmar isto. Que são reparadoras, validantes. Isto muda todo o discurso do prazer, do hedonismo, do sozinho.

 

Porque a confirmação vem do outro? Não nos bastamos.

Sim. Só sou bom se for avaliado por alguém. Temos Narciso estarrecido a olhar para a sua imagem, que é tão bonita. A analogia seria uma pessoa que tem a masturbação, só, a quem não interessa mais nada. Mas de uma forma geral ser bom é ser bom para o outro, implica sempre a relação, o feedback. Isto é vivido com angústia.

 

Muitas imagens do que é ser bom na cama, a que é que isso corresponde, são veiculadas pelo cinema e pela publicidade. No Nove semanas e Meia, Kim Basinger parece ter imenso prazer, mas sob o ponto de vista anatómico aquelas posições dificilmente provocam um prazer intenso; por exemplo, porque não há fricção clitoriana.

Estamos a falar de artes circenses, malabarismo, contorcionismo. Digo assim: “Alguém foi para a cama com alguém”. Quais são as imagens que tenho na cabeça? A cama. E que estão deitados. Não disse que estavam deitados. Temos estes guiões, muito reforçados por estas imagens repetidas constantemente nos filmes. As pessoas tentam diversificar, experimentar posições que são desconfortáveis, à procura do tal sexo perfeito.

Além do cinema e da publicidade, há uma coisa importantíssima, as pequenas narrativas dos videoclips. Observo as camadas mais jovens através destas coisas. Há micronarrativas muito sexualizadas, uma série de trejeitos corporais, quase um doutrinamento. O problema é que temos poucas narrativas e representações alternativas. Lembro-me de ter visto duas coisas em cinema que achei geniais. Uma é no Carne Trémula, do Pedro Almodovar; um indivíduo com deficiência motora a dar prazer a uma mulher. E outra no Fiel Jardineiro; ela está grávida mas é apresentada como uma mulher desejável, aparece no banho e ele está altamente estimulado pela sua nudez, e durante todo o filme ela é referida como alguém que podia ter tido uma relação extra-conjugal, durante a gravidez. Isto é raríssimo.

 

O Nove Semanas e Meia leva-nos para os tipos de orgasmos femininos. A mulher pode ter prazer se não houver um contacto clitoriano?

Não gosto de dizer coisas que levam as pessoas a andar à procura do Santo Graal. Se acontece, é muito difícil. Implica um treino muscular muito específico, uma grande concentração. Mas prazer e orgasmo não têm que ser sinónimos. O orgasmo é muito bom e as pessoas não devem desistir de ter, de procurar ter, de querer ter. Há a ideia conformista do “não tenho sempre, mas não faz mal”.

 

Os homens sentem-se incapazes pelo facto de elas não terem orgasmo sem estimulação manual ou fricção clitoriana? Como se a penetração não fosse suficiente para lhes dar prazer ou as fazer ter orgasmos. Como se eles não bastassem.

Só com a penetração é difícil. Por isso é que se sentem mal.

Os primeiros brinquedos sexuais, de uma forma geral, tinham uma forma de pénis. À medida que nos despimos dessa crença (que com a penetração a coisa vai lá), até os brinquedos sexuais mudaram. Hoje em dia temos uma série de estimuladores que têm a função de dar prazer às mulheres e que não têm nada da forma peniana.

Pode haver motivos muito diferentes que conduzem à sensação “não chego para ela”. Um pode dizer isso porque está aflito com o tamanho do pénis. Outro pode dizer isto porque ela sozinha masturba-se e com ele não consegue ter prazer. Ou pode ser uma pessoa que tem um problema de ansiedade social, de avaliação e desempenho, em todas as áreas, e esta é mais uma. Se calhar é um tipo que acha que tem de ouvir de todas as pessoas com quem está, 20 vezes: “És o máximo”. Ou que acha que dez vezes por noite é que é e só consegue cinco. O que é que está ali por trás?

 

 

Publicado originalmente no Público em 2011

 

Placido Domingo

02.09.18

“Sou um apaixonado por Portugal. Há uma classe, uma elegância no português... E na cidade, Lisboa antiga, senhorial. Sente-se. Como terá lido noutras entrevistas, sou um apaixonado do fado. Tenho tanto respeito pelo fado que nunca gravei nenhum. Mas num concerto cantei o Foi Deus, um fado maravilhoso. Um dia espero ter o valor para poder gravar uns fados.”

Este é Placido Domingo. Um sedutor.

Começam por explicar-nos que Placido Domingo chegara às cinco da manhã, vindo de Berlim, num voo privado. Era quase hora de almoço. Na Gulbenkian era visível uma azáfama de pessoas. Decorria um congresso europeu sobre património. Nessa tarde, nos Jerónimos, seria atribuído o Grande Prémio Património União Europeia Europa Nostra, com a presença de Cavaco Silva e dos Príncipes das Astúrias, a Espanha. Foi na qualidade de presidente da organização que Plácido Domingo veio a Portugal. 

Combináramos sessenta minutos para a entrevista e as fotografias. Nessa madrugada, a assistente de Mr. Domingo mandara um email com o discurso que iria ser lido, para o caso de querer inteirar-me do seu conteúdo. Entretanto já lhe tinha chegado o meu currículo. Minutos antes de a entrevista começar, foi escolhida a sala, assegurado o recato. Já havia garrafas de água sobre a mesa. Cumprimentos formais.

Entretanto Mr. Domingo começa a descer a escada que dá acesso ao auditório 2 da Gulbenkian. Minutos antes, alguém informara que Mr. Domingo já deixara o hotel. Vem acompanhado de uma pequena corte, liderada por Guilherme d’Oliveira Martins, o presidente do Centro Nacional de Cultura. Mais cumprimentos, nada formais.

Mr. Domingo é um charme.   

“Voei esta noite de Berlim. Quando se chega a Lisboa, para aterrar, sobrevoamos o Atlântico. Damo-nos conta de que estamos no sítio mais ocidental da Europa. Lembro-me de uma ocasião em que estive aqui a cantar. Sou adepto da Fórmula 1 e vim ver os treinos que estavam a decorrer no Estoril, quando o Alain Prost corria pela Ferrari. Fui desde o Estoril até Cascais a ver as ondas do Atlântico. São tão grandes que por vezes chegam à estrada.”

Este é o começo da conversa. Mr. Domingo é sempre Placido Domingo. E Placido Domingo, um dos mais famosos tenores do século XX, é o oposto de uma diva, caprichosa e inacessível. Folheou a 2 durante uns segundos e fechou-a com o ar resoluto de quem percebe ao que vai. Respondeu a todas as perguntas, com enorme disponibilidade. Não quis saber antes o que lhe iam perguntar. Olhou para si próprio. Cantou. Cantou! Quando a entrevista terminou, riu-se imenso quando lhe disse que no dia seguinte ia ver Stevie Wonder, e que por isso não ia a Mafra, onde ele ia estar. Gracejou: I just called to say I love you.

No final, alguém comentava que é raro um artista como Placido ser tão simpático. De facto.

Nasceu em Madrid há 71 anos. Mudou-se para o México quando tinha oito anos. Os pais cantavam zarzuelas.

 

Percebe-se pelas fotografias antigas que, fisicamente, é muito parecido com o seu pai...

Sim.

 

É uma coisa que lhe dá prazer?

Dá-me prazer. Sobretudo, quanto mais passam os anos, mais me pareço com ele. A vida passa, os anos acumulam-se. Que os anos passem e não fiquem. Quando era jovem, era jovem, mas agora sou muito mais jovem porque tenho juventude acumulada! Há que afirmá-lo, ser optimista.

 

Isso quer dizer que tem vontade de viver e de fazer coisas.

Claro que sim. Com a minha idade, quase todos os cantores estão reformados. A maioria reforma-se quinze, dez anos antes... E eu continuo, com uma vontade...

 

Continua a cantar Wagner, exigentíssimo.

Um pouco de tudo.

 

Já falamos sobre isso. Para já: tal como o seu pai, o seu primeiro instrumento não foi a voz. O primeiro instrumento do seu pai foi o violino e o seu o piano.

Em todas as famílias onde se tem um amor pela música, ou, simplesmente, onde exista a vontade de transmitir algo aos filhos, escolhe-se um instrumento. Um cantor, não se sabe se vai cantar.

 

Como assim?

Em pequeno, pode cantar, mas não se sabe se vai ser cantor. Então escolhe-se um instrumento. A família do meu pai escolheu o violino para ele, e a mim puseram-me a estudar piano. Os meus pais cantavam zarzuelas espanholas e desejavam que eu viesse a ser pianista.

 

É um bom pianista? Até onde prosseguiu o estudo?

Efectivamente estudei, gosto e continuo a tocar piano. Mas sou um pianista normal. A voz surge depois, da inspiração de ouvir os meus pais. Era algo que tinha que ser.

 

Tinha que ser?

Tinha que ser! Há certas coisas na vida que sabemos que têm que acontecer. Porque era demasiado forte, dentro de mim, o amor e a paixão pelo canto – por ouvi-los cantar. E sem nos darmos conta, começamos. Um dia, de repente, eu estava a cantar, e vi que saltaram lágrimas dos olhos da minha mãe. “Essa nota que fizeste é lindíssima. Faz de novo”, disse-me. E eu fiz. Foi quando comecei a pensar que talvez pudesse cantar.

  

Há um documentário, de 1981, em que o vemos com um traje de folclore mexicano, a cantar canções rancheras. E a sua mãe aparece a ajustar-lhe o traje, a tratá-lo como se fosse um menino, e não um homem de 40 anos. Foi um menino da sua mãe até tarde?

O que eu vejo agora com os meus filhos é que os filhos, para nós, nunca crescem. Tenho filhos de quarenta e tal anos e continuo a tratá-los como crianças. São todos homens casados, tenho netos; quando não estamos juntos, eles vivem a vida deles, está tudo bem. Mas se estamos juntos, todos debaixo do mesmo tecto, se numa noite saem até tarde, se foram a uma festa, fico preocupado. A que horas vão chegar? Isto e aquilo. Temos sempre o sentido de protecção.

A minha mãe sentia isso, que o seu filho tinha começado a cantar, as coisas corriam bem; e aos quarenta anos continuava a ser o seu menino.

 

Ela não duvidava nem um pouco do seu talento e do seu sucesso? Imaginava que um dia viria a ser o Plácido Domingo?

Acho que ninguém podia imaginar. Não o imaginava eu nem ela, nem sequer a Marta, a minha mulher, que foi crescendo ao meu lado, ajudando-me. Podemos perceber que vamos fazer algo, mas onde vamos chegar, isso nunca se sabe. São tantos, tantos anos de preparação, tantos anos de dedicação... Não se saber como vai resultar. Felizmente resultou!

 

Estou a perguntar também se tinha ambição, e confiança em si mesmo. Estes dois elementos são fundamentais para a estruturação de uma carreira.

Sim, temos que querer, e também há um momento em que a confiança é indispensável. Mas isso é verdadeiro para um cantor ou para qualquer outro profissional. É o instrumento mais delicado que há, as cordas vocais. Vivem connosco, são afectadas por alegrias, são afectadas por tristezas.

 

Realmente?

Sim. São afectadas por dores de estômago, uma tosse, uma gripe. Tudo se reflecte, tudo.  Às vezes, a raiva também pode ajudar. Num momento em que nos sentimos decepcionados com qualquer coisa, descontentes. Vamos para o palco e dizemos: “Este é o meu momento, aqui ninguém me pára, aqui faço o que quero!” Mesmo que saibamos que temos algo que pode ser débil, manter a confiança na técnica que fomos adquirindo é também importante. Uma técnica que, aliada à paixão e àquilo que representa a responsabilidade de subir ao palco, certamente dá uma certa segurança em nós mesmos.

 

E os nervos, ao subir ao palco?

Mesmo que suba sempre nervoso, depois passa. Quando me perguntam, em dia de espectáculo: “Plácido, como estás?” Respondo sempre: “Pergunta-me depois!” Porque posso dizer que estou bem, mas o que interessa que esteja bem é isto. [aponta para garganta] A voz! É a mulher mais ciumenta do mundo! A voz... é feminino, não, em português?

 

Sim.

Há que tratá-la com um carinho enorme.

 

É caprichosa?

É caprichosa também.

 

A técnica é apenas uma parte. Para si, não é a parte mais importante.

Bem, a técnica é algo que se tem, mas as pessoas não têm que a ver. O importante é a entrega. O importante é que quando canto, o som da voz juntamente com o texto que estou a interpretar, cheguem às pessoas. Às vezes, o que é realmente palpável e fácil de identificar é a falta de técnica. Quando um cantor tem uma boa técnica e faz as coisas correctamente, as pessoas nem pensam nisso; e certamente a técnica está lá.

Se estamos bem fisicamente, surge dentro de nós uma coisa que é indomável. Todavia, as pessoas perguntam-se: “Como consegue fazer isto?” Se nos deixamos levar, podemos ficar sem voz. Portanto, há uma técnica.

 

Disse uma vez que o mais importante não é a vocalização mas sim a expressão. Entendi que falava sobre o domínio da técnica, por um lado, e por outro sobre a entrega.

Estão unidos. Há, no entanto, um ponto determinante. As pessoas, cada vez mais, estão habituadas a ver grandes espectáculos, a toda a tecnologia moderna. Vêem o que querem na internet, teatro, filmes. E querem acreditar nos personagens. Ou seja, tenho que estar envolvido, dramaticamente, no papel que estou a representar. Para dar um exemplo que será familiar: cantei uma ópera em que fazia de Vasco da Gama. Mas posso ser um rei, um poeta, um bêbedo, um pintor, um conde. Os personagens são tão variados. Ontem cantei o doge de Génova, Simone Boccanegra, há dez dias cantei o Cyrano de Bergerac em Madrid, o Athanaël de Thaïs, fiz de Neptuno... Tantos, tantos papéis. E as pessoas têm que acreditar.

 

É importante conhecê-lo, a si, saber quem é, para compreender melhor por que interpreta desta maneira? A sua maneira particular de interpretar está enriquecida, encorpada, pela sua vida, pela sua natureza, pelo que sente.

Claro que sim.

 

Então, apresente-se. 

Como os personagens são tão diferentes, às vezes é necessário interpretar alguns sentimentos, coisas que não temos em nós. Sobretudo se são personagens históricos, uma pessoa tem que adaptar-se e tentar ser esse personagem. Se estou a interpretar uma canção, o importante é o que estou a dizer. Cantar é como falar.

 

Cantar é como falar?

É. É preciso ter uma naturalidade e chegar às pessoas. Se me quiser convencer de alguma coisa, tem que pensar muito bem no que me vai dizer – como expressar. Não só com a voz, mas com os olhos, as mãos. E então vai convencer-me. Desde a mais simples canção, que é o mais difícil, talvez, de interpretar...

 

Porquê?

Porque quando uma pessoa canta uma ária de ópera, não há muita gente que oiça o disco em casa que saiba cantar uma ária de ópera. Mas se canta um fado, qualquer pessoa pode dizer: “Eu também canto assim”. O mais difícil, para o público em geral, é a expressão do mais simples, do aparentemente simples. O fado é tremendamente difícil. Como terá lido noutras entrevistas, sou um apaixonado do fado. Tenho tanto respeito pelo fado que nunca gravei nenhum. Mas num concerto cantei o Foi Deus, um fado maravilhoso. Um dia espero ter o valor para poder gravar uns fados.

Em qualquer caso, o sentimento tem que estar de acordo com os personagens e com as situações em que estes se encontram.

 

E a sua vida, entra na composição dos personagens?

Tem que entrar. Há muitos personagens sobre os quais penso: “Se eu estivesse no seu lugar, os seus sentimentos seriam os meus, exactamente. Identifico-me com ele.” E uns sim, outros não. Tento não interpretar muitos personagens com quem não me identifico. Mas há que fazer excepções.

 

O personagem que mais vezes interpretou foi Cavaradossi, da Tosca, de Puccini. Porquê? É um artista, um apaixonado, como você?

Antes de tudo é um artista. É um homem muito decidido nas suas ideias políticas. É um homem apaixonado por uma mulher que intelectualmente é inferior. Ele é um cavalheiro e ela é uma cantora de ópera, com uma voz muito boa; uma mulher jovem e impetuosa, que não está preparada para a vida, que se apaixonou por ele e tem uns ciúmes tremendos; sobretudo quando vê o quadro da [marquesa] Attavanti, quando ele está a pintar a Maria Madalena na igreja de Sant’Andrea della Valle... Cavaradossi é um personagem muito positivo, heróico, e vemo-lo num momento em que está numa situação de perda. Perde pela maldade, pela crueldade de um vilão, Scarpi, que tem poder para matá-lo. É um personagem estupendo.

 

Mas porquê a predilecção por este personagem?

Cantei-o muitas vezes, tal como o Otelo. Foram, mais ou menos, as mesmas vezes, 225 e 223. Mas é um personagem cheio de paixão, que arrebata. Era muito adequado, no início da minha carreira. Eu chegava a um teatro e perguntavam-me o que queria cantar. Invariavelmente respondia: Cavaradossi, da Tosca. Eu sabia que tinha uma parte feita à minha medida. Taylor made, como se diz [nos Estados Unidos]. Sabia que as pessoas iam gostar. E a mim, enlouquecia-me, cantá-lo. Não havia dúvidas.

 

Utiliza palavras que traduzem sentimentos fortes constantemente. Como: enlouquecia, impetuosa, ciumenta...

Sim.

 

É porque a sua natureza é assim? O seu México é assim?

Creio que, simplesmente, a minha vida é assim. Eu vivo, cada três ou quatro dias, um personagem diferente. Todos são apaixonantes, são trágicos, são heróicos. Todas estas expressões chegam através deles. Na vida real sou bastante tranquilo.

 

O Plácido Domingo pode engolir o José?

José?

 

É o seu nome, José Plácido Domingo. A estrela conquista o espaço do homem?

É uma pergunta interessante. Muitas pessoas me dizem: “Plácido, tu não tens vida privada.” E têm razão. Felizmente tenho uma família maravilhosa que o soube entender. A minha mulher, como também foi cantora – é directora de cena, tem conhecimentos profundíssimos e uma cultura extraordinária de música, pintura, todas as artes –, fez grandes sacrifícios no princípio. Tinha que escolher entre estar com os nossos filhos ou ir comigo.

 

Como era a vossa vida?

Os nossos filhos também fizeram grandes sacrifícios. Vivíamos, quando estavam a crescer, em Barcelona. Eu passava a maior parte do tempo a cantar nos Estados Unidos ou na Europa. E ela estava duas semanas com os nossos filhos, depois vinha ver-me ou eu ia, de qualquer maneira, a Barcelona. Mas havia alturas em que não podia ir e ela levava os nossos filhos, para que estivéssemos juntos. Fosse a Hamburgo, a Viena, a Londres, a Milão, a qualquer um dos teatros onde estivesse a cantar. Essa é a vida que toda a minha família viveu. Uma vida de família normal, nunca tive.

Eu não fui o pai que se levanta e leva os filhos à escola e que depois de um dia árduo de trabalho se senta a jantar com eles, todos os dias. Mas tive a sorte de ter uma mulher que assumia que, não estando eu casa, estava sempre. Estava sempre. Tudo sempre girou em torno de mim.

 

Em torno de si e da sua carreira.

Comecei a vida como patriarca, desde muito jovem, e continuo a ser o patriarca, no sentido em que todos se voltam para mim, e toda vida é organizada em função daquilo que continuo a fazer. Nesta idade, já devia estar reformado. Mas não estou. O que quero dizer é que a minha vida continua a ser pública, completamente. Ontem estava a cantar em Berlim, hoje estou aqui, amanhã estou em Verona, porque se inicia a temporada e tenho que cantar e dirigir, depois de amanhã vou para Pequim, onde decorre o meu concurso, o Operalia. Os meus filhos já estão em Pequim, a minha mulher está em Frankfurt, de partida para Pequim. A vida é como um puzzle, um quebra-cabeças, onde todos se movem ao redor da minha vida pública.

 

Isso é pesado para si?

Às vezes, sim. Há vezes em que um dia extra de descanso...  Minha nossa senhora! Mas foi o que escolhi. E sinto-me recompensado quando interpreto o Simone, o Cyrano, ou a Thaïs, em dois meses e meio, e penso: “Como é possível, com 71 anos, que possa realizar tudo isto?” Percebi que só com a colaboração de todos [o posso fazer]. Dos meus ajudantes, que são amigos de verdade e que fazem tanto por mim. É toda uma cumplicidade.

 

O que disse liga com uma pergunta que trazia: num momento em que muitos cantores param, canta Wagner, que é uma coisa audaciosa, exigente. Porque é que não quis parar? Abrandar, pelo menos.  

A história de Wagner não é nova. Há vinte anos que canto Wagner, ou mais. Comecei a cantar o Parsifal e as Valquírias.

 

Começou a cantá-los quando outros estão numa curva descendente, com cinquenta anos. Fez um movimento contrário.

Ajustei o meu repertório, e tive a sorte de ter sucesso, cantando esse repertório alemão, tal como cantei A Dama de Espadas [de Tchaikovski], ou o Tamerlano [de Handel], um repertório barroco, ou um repertório desconhecido. Algumas estreias mundiais, como Il Postino [de Daniel Catán] ou A Ilha Encantada [obra de Jeremy Sams que combina música de Handel e Vivaldi, entre outros; interpretou Neptuno].

 

Voltou a fazer papéis de barítono, que foi o que começou por ser.

Sim. Como o Simone Boccanegra, como o Rigoletto [de Verdi], que filmei, como na Thaïs. Sempre segui um percurso que estava diante de mim, mas sempre soube adaptar-me, desde que iniciei [a minha carreira]. E em Setembro vou chegar às 140 óperas de repertório. É muito, muito amplo. A época wagneriana, podemos dizer que já passou. Agora estou a cantar algo de Wagner; mas pode ser que cante um barítono wagneriano.

 

Não é muito comum a transição, e a oscilação, entre os dois registos. É uma prova de versatilidade, mais que tudo?

A minha voz, especialmente nos últimos anos, cantando Wagner, adquiriu uma cor... E creio que se cantar cada vez mais um repertório baritonal vou estar muito confortável. Já estou muito confortável. Não quero dizer que seja um barítono, mas sei que estou a interpretar esses papéis correctamente. Algumas pessoas podem argumentar que não tenho uma voz tão escura como um barítono; mas se estiver a interpretar um personagem e o público estiver comigo, compenetrado no que estou a fazer, num teatro cheio, com as pessoas felizes, então faço-o. Quem sabe se não terminarei a minha carreira como barítono...

 

Como num círculo que se fecha?

Sim, sim.

 

E a cor da voz, própria da idade, também é mais escura?

Eu, para cantar como barítono, preciso de acordar a sentir-me tenor!

 

Explique isso.

Porque um tenor tem uma voz mais leve e pode escurecê-la. Mas se já tenho uma voz escura é muito mais difícil poder interpretar [essa mudança]. Posso colorir [a voz]. Não há um tom único. Pode-se procurar dentro da própria voz as várias cores. É como uma paleta e eu sou o pintor. Podem-se misturar as cores para alcançar diferentes resultados.

 

Como aprendeu a lidar com as pressões do mercado, das editoras, de estar hoje aqui, amanhã em Verona, ontem em Berlim, depois Pequim? Quando iniciou o seu percurso, há 50 anos, era normal um cantor fazer uma viagem de transatlântico para interpretar uma ópera nos Estados Unidos. Tudo era mais lento.

Sim. Mas protejo-me bastante. Estas coisas são excepções...

 

Esta entrevista?

Sim.

 

Obrigada.

Depois de um dia como o de ontem, no dia seguinte tento estar tranquilo. É uma alegria ser presidente do Europa Nostra; venho para dar prémios e para estar com as pessoas. Propõem-me entrevistas, conferências de imprensa... Uso a voz para falar nesta entrevista, em todos os locais onde tenho que falar. Uso mais a voz do que se fizesse dois espectáculos. Acho que sei cantar, mas não falar.

 

Sabe, sabe!

Não, tecnicamente, não sei falar. Cansa-me mais falar do que cantar. Mas faz parte de tudo o que faço.

 

Não é apenas cantor. É director da Ópera de Los Angeles e Washington, é condutor, fundou a Operalia, preside à Europa Nostra. Porquê esta multiplicação de actividades? Podia, simplesmente, tranquilamente, confortavelmente, cantar.

Essa é uma pergunta que me faço a mim mesmo todos os dias. Pergunto-me: “O que é que te dá mais gozo?” É o momento de estar em palco a cantar ou a conduzir – é a resposta. Mas depois pergunto-me se não é importante, também, preservar a nossa cultura, a herança de séculos e séculos, neste continente maravilhoso. Não é importante ter um concurso onde, desde há 20 anos, têm vindo a surgir as vozes mais maravilhosas da nossa época, os vencedores da Operalia? Tudo isto é importante. Se me dá mais trabalho? Claro que sim, não é nada fácil.

 

Quando começou, só cantava. O resto vem com o sucesso, com a responsabilidade?

Quando comecei, cantava, viajava, descansava, e era apenas isso. Hoje, o descanso é a parte mais difícil de encontrar. Mas no geral durmo bem. A minha garganta é excelente, recupera facilmente. Depois de um dia como o de hoje, sei que estarei mais cansado; mais do que fisicamente, vocalmente. Eu fazia assim: quando cantava o Otelo, quando cantava óperas tão complexas como Um Baile de Máscaras [Verdi], Aida [Verdi], Turandot [Puccini], passava um dia ou mais em silêncio. Estudava, via televisão, ouvia discos, passeava – calado. É um luxo que já não posso ter.

 

Que escolheu não ter.

Exactamente. Mas terei que deixar coisas, a pouco e pouco. Estou pelo segundo ano na Europa Nostra; é algo que espero encaminhar, virão outras pessoas, será necessário eleger outro presidente quando eu sair. Tenho que ser exigente, há certas óperas que não permitem viver uma vida assim. Por exemplo, se depois de amanhã tivesse que cantar um Simone Boccanegra, o dia de amanhã teria que ser um dia de silêncio absoluto, ou quase. Essa é a regra.

 

Queria saber se o cancro, em 2010, alterou a sua vida. De uma maneira muito directa, viu que o seu corpo lhe impunha limites?

Foi uma surpresa, como normalmente acontece com estas coisas. Quando ouvi a palavra, surpreendeu-me o facto de não sentir aquilo que era tabu para mim. Era uma palavra que era tabu. A pessoa não quer pensar. Sabe que é frequente, que infelizmente existe, que é uma das doenças mais terríveis e comuns. Mas tive fé. Foi identificado e localizado [cedo], os médicos disseram-me: “Plácido, se não se alastrou, tudo vai correr normalmente”. E o que aconteceu foi que, depois de cinco semanas, já estava a cantar novamente.

A idade, por si só, faz-nos pensar que resta muito menos tempo para viver do que aquele que já vivemos. Mas quando temos uma coisa assim, enfrentamo-nos com a realidade.

 

É como saber que já não é invencível.

Sim. Que estamos de passagem. No outro dia estava a falar com o meu querido amigo, o maestro [e pianista Daniel] Barenboim, que me dirigiu nessa noite, e ele dizia: Se eu pudesse falar com Deus dizia-lhe: Deus, eu, na minha vida, toquei piano tantas, tantas vezes, toquei notas falsas, esqueci-me de passagens; quando dirijo faço muitas coisas mal. A verdade é que passo mal porque não sou um músico como gostaria de ser. Mas peço-Te, de qualquer maneira, que me deixes ficar aqui muitos mais anos para que possa melhorar!” [risos] É uma frase muito Daniel, mas acompanha-me, absolutamente. “Deixa-me fazer as coisas melhor, deixa-me ficar aqui mais tempo!”

 

Você tem muita consciência dos seus fracassos, teme os seus fracassos?

Penso que é parte de tudo. Felizmente, tive uma carreira bastante estável.

 

Está a ser modesto ao dizer isso.

Não, bastante estável, porque as coisas correram bem. Não houve momentos demasiado difíceis, ainda que tenham existido alguns. Mas faz parte. Estamos na corda bamba, somos equilibristas. Especialmente o tenor. Ao cantor pode falhar uma nota, tal como uma bailarina pode cair. Somos humanos, acontece e há que aceitá-lo. É um acto de humildade saber aceitá-lo. Examinar o que se passou, esperar que não aconteça [novamente].

 

Mais uma pergunta, pode ser? Sei que passámos a hora combinada.

Sim, claro.

 

Na sua infância, os seus pais cantavam-lhe zarzuelas. Gostaria que me falasse dessa memória.  

A zarzuela foi a primeira música que ouvi na minha vida. Eram grandes cantores de zarzuela, inspiraram-me muito. Aprendemos sem querer. Não me apercebi [de que estava a aprender]. Tenho um filho que é cantor, música crossover, e que é compositor.

 

Que peso. Ser o filho do Plácido Domingo.

Não! Começou tarde. Tem agora 45 anos e está a começar. Mas muito bem, o disco está muito bem. Também os meus outros filhos, que não são músicos, sem querer, assimilaram todo o repertório. Sabem de memória as óperas. Ou seja, eu senti-o desde pequeno.

 

Se cantasse uma canção para a sua mãe ou para o seu pai, que canção seria?

Os meus pais conheceram-se numa obra que se chamava Sor Navarra, do maestro Frederico Moreno Torroba, que é o compositor de Luísa Fernanda, uma das zarzuelas mais famosas que sucede entre Madrid e Extremadura. (Estamos perto de Portugal!) Nesta obra, a minha mãe pedia ao meu pai... Ela estava apaixonada pelo meu pai na obra, e o meu pai disse: “Insistiu tanto comigo que depois de três meses disse-lhe que sim, e casámos.”

Havia uma canção que cantava [Plácido canta]: “No me abandones Navarra... ai ai ai... no me abandones Navarra, lucerico, palomica”. Ele dizia-lhe a ela: “Eu, uma vez, falhei, caí, tive uma queda, e não te esqueças que Jesus, no monte ao calvário, caiu três vezes, e Ele é Deus e eu sou homem, nada mais. Então perdoa-me”. Esta canção tem um sentido, tem um sentido na vida. Que todos nos enganamos e que temos que saber pedir perdão, e ser generosos também, ao dá-lo.

 

Cantava para a sua mãe?

Cantava.

 

Porque uma coisa é cantar, profissionalmente. Outra coisa é cantar pelo prazer de cantar.

Cantávamos. A minha mãe nasceu no País Basco, em Guetaria, onde nasceu Juan Sebastian Elcano, que foi quem terminou a viagem à volta do mundo, em que Magalhães morreu; e também Balenciaga, o grande designer de moda. Elcano, Balenciaga e a minha mãe [risos], nasceram no mesmo lugar. Para mim, claro, muito importante. Punham-me a dormir, a minha mãe e o meu pai, com uma canção em basco, que me tranquilizava muito. E depois, cantávamo-la os três.

 

Esta é provavelmente a entrevista 5438 da sua carreira. Todas as perguntas já lhe foram feitas. Pergunto-me sempre se há alguma coisa que o entrevistado quer dizer e que o entrevistador não perguntou.

Não. Penso que foi uma entrevista que me fez pensar acerca da minha vida, da combinação da vida pública que tenho com a vida privada.

 

Não estava a pedir elogios, mas obrigada.

Agradeço-lhe. Vai estar esta noite [na cerimónia de entrega dos prémios nos Jerónimos] e amanhã [em Mafra]?

 

Infelizmente não.

Há uma coisa que quero dizer. Estou muito feliz que um dos prémios que se vai dar é pelo restauro dos  [seis] órgãos [da Basílica] de Mafra. Por coincidência, ofereceram-me, já faz quase dois anos, [a possibilidade de fazer] um concerto com eles; e, na verdade, entusiasma-me muito. Será apenas uma questão de procurar o momento. Espero aproveitar muitíssimo amanhã em Mafra, e esta visita a Portugal que foi – tem que ser –  curta, mas muito intensa. Espero poder voltar muito em breve para cantar em algum concerto e cantar em Mafra. Tenho muita pena de não cantar lá, mas tenho que cantar em Verona amanhã à noite.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2012

 

 

Michelle sabe cantar a Grândola

01.09.18

Michelle e Evelyn conheceram-se na infância. Os seus pais, militares da Força Aérea, foram amigos próximos. A relação foi brutalmente interrompida em 1973. Alberto Bachelet foi acusado de traição à pátria e torturado por militares, Fernando Matthei aderiu ao golpe de Pinochet e integrou a Junta Militar. Quarenta anos depois, as duas mulheres defrontaram-se em eleições presidenciais. 

 

1. Ángela

Antes de Michelle Bachelet, foi Ángela Jeria, a sua mãe, que cruzou o átrio do hotel San Francisco. É um hotel de quatro estrelas, com veludos puídos e apliques de latão, que recebe tradicionalmente as campanhas dos candidatos de esquerda. Fica a dois passos do palácio presidencial La Moneda, numa zona da cidade onde as avenidas são largas e se encontram pobres duas ruas atrás. O ambiente não era eufórico. Às nove da noite já era seguro que haveria uma segunda volta das eleições presidenciais. Mas o contentamento de uma vitória folgada misturava-se no ar quente, ouvia-se nos brindes com pisco sour.

A candidata da coligação de esquerda Nueva Mayoria tinha 46, 68% dos votos contra 25, 01% de Evelyn Matthei, a candidata da coligação de direita (Alianza). Os resultados eram avançados pela CNN Chile, visíveis em vários ecrãs.

Ángela Jeria descia do quarto andar onde Michelle Bachelet ainda se encontrava. Era abordada a cada passo, a cada olhar. É uma mulher tesa, de 87 anos, expressão corajosa, quase desafiante. “De Portugal? Vem de Portugal?”, perguntou à repórter da revista 2. “A Michelle sabe cantar a Grândola de cor”.

A Grândola Vila Morena aprendida do outro lado do mundo. Talvez entoada como uma oração. Ou um grito de resistência. Sabida verso a verso. De cor. Uma senha de liberdade. Um sonho.

Quando Portugal celebrava a democracia, Michelle Bachelet tinha 23 anos, estudava medicina e militava no Partido Socialista do Chile. O pai, um general da Força Aérea, havia morrido de ataque cardíaco na prisão, em Março desse ano, na sequência da tortura a que tinha sido sujeito. A fidelidade a Allende e à Constituição, após o golpe de Pinochet, custou-lhe a vida.

Foram a mulher e a filha que reconheceram o corpo nos calabouços do cárcere público de Santiago. As duas mulheres prosseguiram a luta num país em fogo e em Janeiro de 1975 foram presas no centro de tortura Villa Grimaldi. Um ano depois, exilaram-se, primeiro na Austrália, depois na Alemanha.

 

2. Michelle e Carolina

Michelle não é Carla nem Francisca nem Macarena, as personagens da peça de Guillermo Calderón de 2010. Villa é uma hora de agonia emocional e põe três mulheres de 33 anos (ou seja, nascidas no ano do golpe) a discutir o que fazer no espaço antes ocupado pela Villa Grimaldi. Um museu?, um parque?, um centro documental?

“Quando terminou o antigo regime, nenhum presidente foi a correr a Villa Grimaldi, dizendo deixem-me passar. Que crime espantoso. Ai. A partir deste momento, este vai ser o novo umbigo do mundo, o quilómetro zero da justiça. Esta terra. Neste país não se dança mais uma cumbia, não se constrói nenhuma escola, não se borda nenhum pano até que solucionemos o problema desta Villa. Mas não. É como se isto nunca se tivesse passado.”

O texto de Calderón, nascido em 71, um dos dramaturgos mais reputados da sua geração, é uma maneira de interrogar o passado e saber como fechar esta ferida na sociedade chilena.

Três anos após a estreia da peça, o problema a que alude uma das personagens não tem solução. Mas aqueles anos deixaram de ser uma sombra de chumbo de que os mais novos tinham uma notícia pálida.

Os mais novos: os que nasceram depois do plebiscito de 1988, que formalmente afastou Pinochet do poder, e que viveram toda a vida em democracia. Esses, diz Carolina Tohá, a actual presidente da câmara de Santiago, começaram a interpelar os pais. “Quiseram saber o porquê de esta história tão dramática estar tanto tempo submergida. Quando se comemoraram os 10 anos do golpe, estávamos ainda em ditadura. Quando se comemoraram os 20 anos, estávamos numa frágil democracia. Quando se comemoraram os 30, fizeram-se as primeiras acções públicas e abriu-se um debate político. Mas agora, que se comemoraram os 40 anos, abriu-se um debate na sociedade em geral, e em especial nas novas gerações”.

Carolina Tohá nasceu em 65. Tinha oito anos quando o pai, ministro do Interior e da Defesa de Salvador Allende, foi estrangulado, seis meses depois do golpe de Pinochet. Estrangulado. Carolina viveu boa parte da infância exilada. Quando terá adquirido a gravitas que acompanha o discurso, os modos, e que o sorriso constante não apaga? É uma mulher franzina e assertiva. Militou em acções políticas desde a juventude, doutorou-se em Ciência Política em Itália, foi ministra no primeiro mandato de Bachelet (2006/2010).

Se ela podia ser outra coisa que não política? “Podia. Mas teria de ser outra pessoa. Se eu fizesse cinema, seria um cinema político. Se fosse académica, faria uma reflexão política. O meu irmão vive nos EUA, é arquitecto, tem uma cabeça tão política como a minha. A política está entalada na nossa biologia.”

As histórias de Michelle Bachelet e Carolina Tohá não são a mesma história, apesar da cicatriz comum – os seus pais foram vítimas da ditadura. As duas podem encontrar do outro lado do passeio uma personagem sinistra da sua tragédia pessoal. “Antes de se tornar chefe de Estado, Michelle Bachelet costumava ver um dos seus torturadores no elevador do edifício em que morava. Um dia ela disse-lhe: “Eu sei quem o senhor é. Eu não esqueci”. Embora ele nada respondesse, todas as vezes que ela o via, depois disso, o homem baixava a cabeça e ficava olhando para os sapatos. Os tempos mudaram, e o indivíduo no elevador finalmente foi processado e preso”, lê-se no livro A Sombra do Ditador, do político e embaixador chileno Heraldo Muñoz.

Michelle e Carolina encarnam o novo Chile que acerta contas com o passado e consolida a história numa diferente direcção – a democrática. Mas tudo foi ontem e foi há uma eternidade. “Há maneiras distintas de viver a dor e guardar a memória. Quando alguém reconhece outro que o torturou e a sua reacção é encará-lo e gritar-lhe e agredi-lo, não podemos condenar. É humano, profundamente humano. Também é profundamente humano dizer: “A minha forma de julgar-te não é agredir-te. É olhar-te nos olhos e constatar como somos diferentes,” diz Tohá.

A sua voz tem força física, ocupa todo o gabinete de trabalho. Encontramo-nos num sábado de manhã, véspera do dia de eleições (16 de Novembro). A câmara municipal fica na Plaza de Armas, ao lado da imensa catedral e do Paseo de Ahumada. É um ponto nevrálgico da cidade antiga, ruidosa e pobre. Nas galerias comerciais vendem-se próteses, utensílios de todo o tipo, pilhas, relógios, correias de relógios. (Nada se perde, tudo se recupera.) No meio da praça há um coreto onde se joga xadrez ao fim da tarde. Dezenas de tabuleiros, só homens. Há um piano público que convida “Play me, I’m Yours”.

O tema da reparação tem diferentes reverberações quando vivido familiarmente ou no espaço público. Porém, a resposta de Tohá é unívoca. “Eu estou do lado dos que acham que o grande acto de justiça é uma aprendizagem cultural desta história. Que nunca mais possa acontecer que, com a condescendência da sociedade, se matem chilenos. Pinochet morreu sem ser julgado. É uma história com a qual vamos ter que viver. Há casos em curso, como o da morte do meu pai. Há tentativas de encerrar julgamentos. Ou de fazer uma espécie de amnistia. Mas o nosso drama não é só penal. Os nossos familiares morreram e os que os mataram conseguiram deixar uma marca de sangue no país por décadas. Esse é o seu maior triunfo. Eles e o seu projecto continuam a definir os limites do que o nosso país pode fazer, os sonhos que podemos ter.”

Era a primeira vez que ouvíamos a palavra sonho. Não pareceu uma palavra deslocada, mas uma palavra assombrosa. Como uma flor que irrompe do cimento. Onde cabe a palavra sonho no discurso de uma política que perdeu o pai por razões políticas e que fez da política o instrumento para falar da palavra sonho?

 

3. Heraldo

Heraldo Muñoz passou 17 anos a lutar. Participou na resistência à ditadura, foi um dos fundadores do movimento que restabeleceu a democracia no Chile, em 1990. Foi ministro do governo de Ricardo Lagos (2000/2006), publicou o livro de memórias políticas A Sombra do Ditador (2010), é subsecretário geral da ONU e responsável pelo PNUD (o programa da ONU para o desenvolvimento) para a América Latina e Caribe. Quando lhe perguntámos se o passado está enterrado, assumiu um tom contundente. “Não totalmente. É difícil dizer: acabou, esquecemos, olhemos o futuro. Evidentemente uma sociedade não pode viver no passado, e o Chile tem feito um bom exercício no sentido de avançar. Mas estes crimes foram crimes de lesa humanidade. São crimes que não podem ser amnistiados.”

Está em Santiago para votar, vindo de Nova Iorque, onde mora. Acompanha a noite eleitoral no hotel San Francisco. Troca impressões com velhos compagnons de route, com o ex-presidente da Guatemala (que dirá, dias mais tarde, que a grande vantagem de um ex-presidente é poder dizer tudo o que um presidente não pode dizer), circula com elegância entre as várias esferas do poder. Muñoz sabe que é um nome que conta. A participação no governo de Lagos liga-o a um momento histórico da vida do Chile. O lugar que ocupa na ONU destaca-o na esfera internacional. Três dias depois das eleições, apresentou um relatório sobre Crescimento e Insegurança na América Latina, na sede da ONU no Chile.

Ricardo Lagos foi o primeiro socialista a ocupar o palácio presidencial depois do golpe e depois de Pinochet ter garantido que nunca mais um socialista se sentaria em La Moneda. Em termos simbólicos, foi uma vitória retumbante sobre o pinochetismo. Em termos efectivos, foi um governo de mudanças substanciais nos planos político e valorico (como se diz no Chile). Foram expurgados da Constituição os elementos mais militaristas e restituída a autoridade presidencial em relação às forças armadas; foram eliminados os senadores vitalícios; foi introduzida a lei do divórcio, a sodomia deixou de ser crime. O mais importante: provou que era possível manter um bom desempenho económico em democracia. Desse modo derrotou a diabolização da besta comunista que Allende encarnava.

“Vivo no exterior há muitos anos e as pessoas continuam a dizer-me: “Houve assassinatos e violações dos direitos humanos. Mas não foi com Pinochet que começou o milagre chileno?” Em Setembro, quando passavam 40 anos sobre o golpe, escrevi uma crónica para o Washington Post deixando claro que Pinochet não mudou o Chile. O Chile tinha mudado há muito tempo. Antes da ditadura tínhamos um banco central sólido, tínhamos instituições, tínhamos níveis de educação dos mais altos da América latina”, detalha Muñoz em entrevista à revista 2. A ideia de que os resultados em termos económicos e sociais são melhores com um congresso a funcionar e uma imprensa livre tinham sido explicitados no seu livro de 2010: “Os custos sociais das políticas económicas de Pinochet foram imensos. Ele não construiu um único hospital enquanto esteve no poder. (...) O Chile é o país da América Latina que mais cresceu entre 1990 e 2006.”

Estes foram os anos da transição para a democracia, de consolidação da democracia – o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros e que, no caso do Chile, tem sido “vigoroso, mas imperfeito”, na definição de Muñoz. “Não derrotámos militarmente o governo de Pinochet. Foi uma derrota política, num plebiscito. Uma situação idêntica à espanhola. Mas aqui “Franco” [Pinochet] ficou vivo. E não só ficou vivo como ficou chefe do exército. Imagina a transição em Espanha com Franco vivo e chefe do exército? Pinochet tentou ser o poder por trás do trono. Tivemos que negociar muito”.

 

4. Antonio

Foi em 1989, em plena transição para a democracia, que Antonio Skármeta regressou ao Chile. O autor do livro que deu origem ao filme O Carteiro de Pablo Neruda passara os últimos 15 anos exilado na Alemanha. Partira por razões políticas, com o propósito de voltar.

Santiago continuava repleta de ceibos, que em flor assumem uma cor escarlate, e de jacarandás iguais aos de Lisboa. A modernização era notória. Mas havia algo que não era o mesmo. A cara das pessoas tinha mudado. Estava mais crispada, menos exuberante, como se um manto de desconfiança as toldasse. “A energia espiritual, a espontaneidade, haviam sido mitigados. Pareceu-me que tinham transformado o Chile num país convencional. Era um período de uma repressão fina e cínica, mas sistemática, unida a uma abertura e tolerância, que trabalhei muito nos meus livros. Viver em águas turbulentas requer uma técnica muito especial...”

O que Antonio Skármeta viu quando regressou foi a expressão do medo. Um medo incorporado, nem sempre consciente, que ficou como uma membrana pela qual não se dá.

Passaram quase 25 anos desde o regresso. Falámos no seu gabinete de trabalho, ao lado do jardim, ao lado de casa. Cirandam por ali um gato que parece feroz e um cão que tem o pêlo de um peluche. Tudo ao contrário, uma estranheza boa. No gabinete há livros, memorabilia de O Carteiro, papéis.

“O medo era uma coisa que nós, os que vínhamos de fora, notávamos. Os que tinham ficado, acostumaram-se. Agora o país está estabilizado, a democracia está consolidada. Mas sabe como é uma casa que está degradada e que antes tinha uma cor colorida? É isso. É um país marcado pela prudência. Os chilenos puseram-se limites.” Os anos do governo de Allende foram o desregramento, a ausência de limites? “Não. Quando falava de energia criativa, não falava do período Allende. Os anos de Allende foram uma exacerbação disso. É preciso notar que o golpe de 73 é um golpe contra toda a tradição democrática chilena. Não é só um golpe contra um governo socialista que estava no poder há três anos.”

Skármeta também sabe cantar a Grândola, símbolo de terra de fraternidade. Canta alguns versos com a sua voz tonitruante, faz o corpo andar de um lado para o outro, como um pêndulo, como um alentejano da terra. Nesse momento ele é do povo, quer ser do povo. Alimenta-se de um “horizonte épico” que desapareceu da esquerda. “A palavra mais significativa que desapareceu do vocabulário político é “povo”. Desapareceu completamente! Agora diz-se “gente”. “É o que a gente quer”. “Há que estar ao lado da gente”. “Oiçamos o que a gente diz”. Recentemente escrevi um artigo e dei-me o prazer de escrever “povo” – conclui, com um riso provocador.

Povo é uma palavra com peso ideológico. Não é fácil encaixá-la no léxico reformista mas não revolucionário de Michelle Bachelet. Quem quer uma revolução no Chile? “Outra palavra que deixou de se usar: revolução”, aponta Skármeta. Ainda assim, a Alianza, a coligação encabeçada por Evelyn Matthei, usa esse fantasma para agitar o centro-direita que confia na temperança de Bachelet. É no centro que se joga o destino eleitoral. Não é despiciendo que na primeira volta um candidato à esquerda de Bachelet e um candidato à direita de Matthei tenham conquistado cerca de 10% dos votos, cada. Um quinto do eleitorado estava com eles, mas os dois juntos não obtiveram tantos votos quantos os de Matthei, e Matthei teve um dos piores resultados eleitorais da história da direita chilena (25, 01% foi a votação final).   

 

5. Victor

Skármeta saiu do Chile no ano em que se fundava em Portugal a Brigada Victor Jara. Saber da existência de uma banda que presta tributo ao músico e activista iluminou a cara do escritor. Foi quando cantou Grândola Vila Morena que lho dissemos.

Victor Jara morreu com 44 disparos no corpo no dia 15 de Setembro de 73. Quarenta e quatro. Quatro dias depois do golpe. Foi preso no Estádio Chile, com milhares de dissidentes, em grande parte estudantes e professores universitários, torturado e fuzilado. O seu corpo foi atirado para uma valeta. Tinha quarenta anos e um álbum chamado El Derecho de Vivir en Paz.

Oito oficiais foram acusados do seu assassinato. O principal vive nos Estados Unidos. A extradição foi pedida a despeito de o então tenente ser casado com uma americana (o que torna praticamente impossível a extradição). A acusação foi formalmente feita no final do ano passado, 39 anos depois. Trinta e nove anos.

O Estádio é um dos locais de voto mais populares de Santiago. Votam ali 68 mil eleitores distribuídos por 180 mesas de voto. São duas da tarde do dia 17 de Novembro, o calor está nos 26 graus. A circundar o estádio há militares de camuflado, postos da Cruz Vermelha, activistas que lembram os muertos invisibles. A afluência às urnas não é extraordinária. (A abstenção será próxima dos 50%.) Alguns poucos milhares de pessoas circulam com a descontracção de quem vai ao futebol. Votam porque querem votar. (É a primeira vez numas eleições presidenciais que o voto não é obrigatório.) Além das eleições presidenciais, há eleições para o senado, o parlamento e para conselheiros regionais. As urnas são de madeira, têm uma parede transparente e é possível ver a quantidade de votos que se amontoam. As mesas e as cabines sucedem-se ao redor do estádio, debaixo de um anel de betão. Lá dentro é o recinto de jogos, as bancadas, aquilo que há quarenta anos foi um campo de concentração. Mas é impossível visitá-lo naquele dia.

 

6. Pinochet e o pinochetismo

O golpe foi há 40 anos, o fim do pinochetismo formalmente aconteceu há 25 anos. Mas já aconteceu de facto? Desmontar pedra a pedra o pinochetismo teve marcos significativos. Um dos pilares, considera Heraldo Muñoz, derrocou em 2005 quando Pinochet foi preso por fraude fiscal e falsificação de passaporte. “Pela primeira vez, era processado e preso por acusações que nada tinham a ver com direitos humanos. Alguns pensaram estar testemunhando uma situação tipo Al Capone... (...) O caso custou a Pinochet grande parte do seu apoio entre políticos e empresários conservadores. No Chile, o país menos corrupto da América Latina, roubar era considerado um crime mais grave, digamos, do que ser indirectamente responsável pelo assassinato de presos políticos” (A Sombra do Ditador).

Antonio Skármeta destitui de importância real o pinochetismo. “Se houver uma missa para Pinochet, ainda encontrará 150 velhas e três jovens. Mas o pinochetismo acabou-se quando os partidos de direita aceitaram o jogo democrático. Falo dos grandes partidos, a UDI (Unión Demócrata Independente) e o Renovación Nacional. Há três, quatro anos, numas eleições municipais, neste bairro, que é um dos mais ricos do Chile, e completamente de direita, apresentou-se como candidato a um cargo de conselheiro um neto de Pinochet. O seu único lema era: sou neto de Pinochet. Não o aceitaram no Renovación Nacional nem na UDI. Apresentou-se isolado. Não conquistou mais do que 800 votos, coisa assim.”

Apesar desta recusa, sintomática de um desapego emocional que a classe abastada tem em relação ao pinochetismo, há uma sombra de Pinochet sobre a vida do Chile. Está expressa na Constituição e no sistema político binominal.

Resumido a traço grosso, este sistema eleitoral obriga a que haja dois candidatos por círculo. A coligação que tiver 33,4% tem tantos deputados e senadores eleitos quanto a coligação que tiver 66,6%. Na prática, o mecanismo impede que mudanças estruturais sejam aprovadas e concretizadas. Uma proposta menos consensual esbarra na força hercúlea da oposição.

O sistema político binominal foi imposto por Pinochet após a derrota no plebiscito de 88. O jogo continuou a ser jogado consoante as suas regras. “Foi o golpe legal de Pinochet. Um golpe genial”, acusa Skármeta. Um segundo golpe, depois do golpe militar de 73, que mantém a esquerda refém do seu jogo político 25 anos depois.

Carolina Tohá faz uma pequena pausa quando lhe perguntamos se o fim do pinochetismo já aconteceu. “Nos últimos meses viveu-se um dos capítulos mais importantes: a derrota do esforço que foi feito para matar a memória. Neste aniversário [Setembro 2013], o tema entrou massivamente nos meios de comunicação de todo o tipo”. O tema entrou inclusive em séries de televisão e documentários que abordavam o impacto emocional que o golpe teve nas famílias chilenas. Um passo na lua.  

Mas o grande passo talvez tenha sido dado pela direita, que começou a fazer um exame da herança pinochetista. Não a direita militar, mas a direita política, especifica Tohá. “Os protagonistas interpelados são os militares que exerceram directamente a repressão. Mas o suporte político deste governo ficou invisível. Esses políticos são os predecessores dos actuais políticos de direita. E alguns – muito poucos, mas relevantes – fizeram condenações categóricas. Afirmaram que havia uma responsabilidade por assumir.”

O presidente cessante Sebastián Piñera foi um desses quando falou de “cúmplices passivos” em Setembro passado. Um discurso audaz que não foi acompanhado pelo seu partido de centro-direita, o Renovación Nacional. “Nenhum dos candidatos de direita, nas primárias, se atreveu a dizer que o governo de Pinochet foi uma ditadura”, recorda a alcaldesa de Santiago tocando num ponto sensível. Falar de “ditadura” ou “governo militar” não é uma questão semântica.  

 

7. Lily e Evelyn

A senadora de direita Lily Peréz usa a expressão “governo militar” para se referir aos anos de Pinochet. Vamos ao seu encontro na sede de campanha de Evelyn Matthei, no hemisfério da cidade onde se situa o poder económico. É aí que ficam os bairros Providencia, Vitacura e Las Condes, com os seus edifícios espelhados e vivendas resguardadas por um muro. Nas ruas não se encontram índios mapuches nem homens pobres a engraxar sapatos. As pessoas têm (ou gostariam de ter) o ar lustroso de Evelyn Matthei. Os cartazes dependurados nas árvores ou nos edifícios são quase exclusivamente de candidatos de direita. Não é raro ver um cartaz de Michelle com a cara desta recortada. Explicam-nos que o vandalismo eleitoral é frequente e acontece dos dois lados da barricada.  

A sede é uma casa alugada para o efeito, com dois pisos, em frente à sede da UDI, o partido de Matthei. Lily é a porta voz da campanha e dá uma conferência de imprensa quando chegamos. Explica qual vai ser o calendário da sua candidata e tenta disfarçar o desalento que está no ar. As sondagens são catastróficas.

A entrevista com Lily não era sobre Evelyn. A senadora do Renovación Nacional, que proclama ser a mais liberal dos senadores do seu partido, não tentou desviar a conversa para a campanha ou para questões políticas imediatas. O grande tema era o momento de definição que a direita atravessa. “O mês de Setembro e estas eleições, independentemente dos resultados, vão implicar uma crise profunda e uma revisão sobre o lugar onde nos encontramos” começa por dizer.

Talvez por ser uma entrevista a um órgão de comunicação estrangeiro, Lily foi especialmente crítica em relação ao seu partido e à UDI, os partidos que apoiam a candidatura de que é porta-voz. “O que me decepcionou nos últimos anos foi o meu sector político.” Parece uma pessoa que traz um fato que sabe que não é o seu, mas que não pode despir completamente. Cola-se “100%” a Piñera no tom que o presidente assumiu em Setembro (além de falar de cúmplices passivos, Piñera encerrou a Penal Cordillera, uma cadeia exclusivamente dedicada a militares acusados de violação dos direitos humanos) mas não é capaz de usar a palavra “ditadura” para se referir ao pinochetismo.

A escolha de palavras não é aleatória. Mas o fervor com que é discutida diz respeito sobretudo ao sector político, pensa Lily. “As pessoas estão mais reconciliadas do que a sua classe política. Há pessoas de direita que votam em Bachelet. Houve pessoas de esquerda que votaram em Piñera (que ganhou com 53% em 2010).” O que falta então fazer para sanar este conflito ideológico? “É preciso que tenhamos um diagnóstico comum. Que não existe, de todo. Um diagnóstico que explicite que existiu violência política, que o golpe militar produziu violação de direitos humanos, que houve tortura, exílio, prisões. Há elementos de esquerda que justificam as acções de luta armada [nos anos subsequentes ao golpe]. Já são poucos os elementos de direita que justificam a violação de direitos humanos.”

O discurso da senadora Lily Peréz aponta numa direcção: destrinçar pinochetismo e direita. Não são equivalentes, mesmo que tenham coincidido ou que episodicamente coincidam. “O pinochetismo não é a direita. É um sector da população. É um sentir de algumas pessoas que viveram em carne viva os maus momentos do governo de Allende. Mas não são pessoas que ideologicamente sejam de direita. Não sei qual é o voto que identifica o pinochetismo duro... O voto é um fenómeno muito mais social do que político. No fundo, depende do candidato.”

Lily Peréz e Evelyn Matthei não defendem uma nova Constituição. “As reformas constitucionais que se fizeram foram as necessárias”, defende a senadora. Todas as intervenções da candidata presidencial são no mesmo sentido.

A esquerda considera que esta Constituição, no essencial, e apesar de todas as alterações que foram introduzidas, continua a ser a que Pinochet escreveu. Michelle Bachelet fez desta uma das linhas do seu discurso eleitoral. Os outros dois pontos foram reforma tributária e educação gratuita. (Na apresentação do relatório da ONU que coordenou, Heraldo Muñoz foi minucioso: “A educação universitária chilena é a mais cara do mundo! Os protestos [dos últimos anos] não são só dos estudantes, são também dos pais dos estudantes, que se endividam para pagar uma educação tão cara e de má qualidade.”)  

Há um aspecto em que Lily está ao lado da esquerda: a urgência de mudar o sistema político: “Os círculos binominais têm artificialmente dividido o país em duas metades”. Porque é que não se muda? Porque para isso é preciso ter uma maioria altamente qualificada (26 em 38 senadores e 81 em 120 deputados) para mudar a lei e a Constituição.

 

8. Michelle

Este domingo, 15 de Dezembro, é a primeira vez na história do Chile que duas mulheres estão na segunda volta das eleições presidenciais. É também a primeira vez que a direita está nas eleições presidenciais com uma candidata mulher. Não é um detalhe num país que tem “cafés com pernas”. Quer dizer, cafés frequentados por homens onde as mulheres atendem com micro-saias e sapatos vertiginosos.   

Um taxista explica-nos porque são duas mulheres que concorrem. “Porque as mulheres não roubam. Os homens roubam um bocadinho”. A mulher é a mãe de família, e numa sociedade tão tradicional e machista quanto a chilena, esse valor é importante. O taxista votará em Evelyn, ainda que considere que Michelle fez um bom trabalho no primeiro mandato (a Constituição não permite que os mandatos sejam consecutivos). “Pero a mí me encanta la derecha.”

Pode não ser só conversa de taxista. Pode ser que estas eleições, onde duas mulheres se apresentam, representem também a derrota de um período militar, masculino, com mácula. O que fica desses anos? Fica a perda da inocência para milhares de chilenos, cicatrizes emocionais que acompanham milhares de famílias. Segundo os relatórios da Comissão de Verdade e Reconciliação (conhecido como relatório Rettig) e a Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (relatório Valech), o número de vítimas directas da violação dos direitos humanos no Chile ascende aos 35 mil. Trinta e Cinco mil. Presos, perseguidos, desaparecidos, torturados, mortos. Camponeses, professores universitários, estudantes, militares, donas de casa. Pessoas iguais a outras pessoas.

Quando Michelle surgiu no espectro político, era uma pediatra socialista que Ricardo Lagos convidava para o Ministério da Saúde. Lagos lançou-lhe um repto impossível: terminar com as listas de espera nos hospitais públicos em 90 dias. No nonagésimo dia, Michelle reconheceu não ter sido capaz de acabar com o problema. Havia 750 mil operações em espera, baixou o número em 90%, ainda assim não cumpriu o pedido. Pôs o lugar à disposição. De repente, os chilenos deram por esta mulher que renunciava ao cargo por não ter sido capaz de resolver integralmente um problema que se tinha proposto resolver.

Depois houve a transição para a pasta da Defesa e uma fotografia que se converteu num símbolo da reconciliação nacional. Michelle, a pediatra socialista, torturada em Villa Grimaldi, filha de um militar morto pelos militares, chefia os militares, e está, num cenário de catástrofe natural, ao lado de militares, envergando um fato militar, num carro militar. Era uma metáfora do tempo que aí vinha. Que já era, incipientemente. Mas que já era, e que prometia muito. Não tudo, mas muito.

No táxi, o rádio emite anúncios das candidatas. A voz de Evelyn tem uma tonalidade dura e metálica, uma oscilação nervosa. A voz de Michelle é quente e maternal. “Chamo todas as pessoas moderadas, que não acham que é preciso fazer uma reforma completa da Constituição, que não acham que é preciso deitar abaixo a casa, a votar no número 7”, diz a candidata de direita. Michelle não se desvia do seu âmago e faz com que só se ouça a palavra desigualdade. O crescimento económico imparável, situado entre os 5 e os 6%, não é suficiente para resolver o problema – “a principal ferida do nosso país”, diagnosticou ela no comício de encerramento da campanha.

(A América Latina, diz Heraldo Muñoz, é região mais desigual do mundo. Não a mais pobre, mas a mais desigual. E ainda que o Chile seja o menos desigual dos países da América Latina, é mais desigual do que Portugal, que até à entrada da Bulgária e da Roménia era o país mais desigual da União Europeia.)

A não ser que se abata um cataclismo sobre a Primavera chilena, não é expectável que Michelle Bachelet não saia presidente destas eleições. Além de cumprir as promessas eleitorais, tem como tarefa para os próximos anos devolver o sonho a diferentes gerações de chilenos.

O sonho. Palavra assombrosa. Que durante anos pareceu deslocada. 

O dramaturgo Guillermo Calderón, a quem o teatro serve para pensar, resume o sentimento de muitos. “A diferença que tenho com a geração dos meus pais é que eles, sim, conheceram a democracia. Eu, ao contrário, cresci em ditadura. Eles queriam recuperar algo perdido. Mas eu sempre quis algo imaginário, que nunca vivi. Talvez por isso, o Chile nunca chegará a ser o que eu quero”.  

O que quer Michelle para o Chile? Talvez seja o mesmo que Michelle quer para si, honrando o pai, suturando o passado. A sua provável vitória não será uma vitória de uma mulher sobre um homem..., e talvez sim, talvez seja, se esse homem for Pinochet. Também é a vitória de uma mulher sobre outra mulher que tem manchas do passado. É seguramente a vitória de um tempo que supera outro. Uma forma de continuar a dizer “No”.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

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