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Anabela Mota Ribeiro

Sicília (c/ livro de Goethe)

22.09.18

Numa segunda feira de manhã, a primeira de Abril, Goethe estava em frente a Palermo. Tinha deixado Weimar havia muito e a sua viagem a Itália aproximava-se do fim. Era outro homem, este que chegava à Sicília, de tal modo que não foi reconhecido por um cavaleiro de Malta que lhe perguntou pelo jovem impulsivo, cujo nome não recordava, mas que era o autor do Werther... Goethe respondeu-lhe: «A pessoa por quem tendes a amabilidade de vos interessar sou eu próprio!». Muita coisa deve ter mudado, espantou-se o outro... «Certamente. Entre Weimar e Palermo passei por grandes mudanças».

Dois anos antes da Revolução Francesa, animado por um interesse enciclopédico, o génio alemão percorria a Itália. «A viagem pode comparar-se a uma maçã madura que cai da árvore: a queda da árvore significa, como esta viagem, uma libertação e o início de novo ciclo». Eu vivia com uma frase de Goethe, transformada em linha condutora da minha vida: «O alvo da viagem é viajar». Mas nos dois últimos anos propus-me visitar a Itália seguindo as suas anotações e cartografia. Talvez procurasse, como ele, esse instante arrebatador em que nos dissolvemos para nos voltarmos a achar.  

Cheguei a Palermo num sábado de manhã, vinda de Paris onde estava há mais de uma semana. Só percebi que o facto era relevante quando regressei a Paris e tudo me pareceu subitamente civilizado e limpo. Provavelmente o efeito não seria tão espectacular se voasse de Lisboa. Estava um calor de Agosto; absurdo, quero dizer. Que se entranha imediatamente no corpo e constitui um cheiro de que ficamos impregnados. Era um cheiro a suor, a vida vivida, a Verão, que persistiu dia após dia.

A cidade que se anunciava aos pés dos montes escarpados, despertou em mim o mesmo sentimento que Nápoles, um ano atrás, e que Goethe descrevia desta maneira: «Quando quero escrever palavras só me vêm imagens aos olhos. (...), e faltam-me os orgãos próprios para dar expressão a tudo isto».

Há um feitiço que nos faz aderir instantaneamente a esta terra. Suja, pobre, sanguínea. Talvez seja a síntese improvável de culturas (grega, romana, bizantina, sarracena, normanda, espanhola); o magnetismo da terra  imortalizada pelo cinema_ sentimos que fazemos parte de um filme de Visconti, que somos colegas de trapaça de Totó, que era napolitano, mas que encaixa no estereótipo siciliano. Talvez sejam as pessoas; a sua pele curtida pelo sol, a camiseta esburacada, o vinco das calças, o nariz adunco, a brilhantina que puxa o cabelo. O meu personagem favorito, antecipo desde já, é aquele que me recebe num modestíssimo hotel, em Messina, lá mais para o fim da semana: cabelo armado num balão de algodão doce, anel no mindinho e no anelar, casaca cinzenta debruada a ouro, botões redondos, a reluzir. Um aprumo de outros tempos. A surpresa foi imensa quando lhe vi a boca esburacada, os lábios presos por um dente em cima, um dente em baixo. Fellini tê-lo-ia aproveitado, e aos neons que, por trás, anunciavam o nome do hotel.

Na chegada à Sicília, Goethe sublinha a “fertilidade luxuriante”, enternece-se com “a pureza dos contornos”, “a harmonia do céu, do mar e da terra”, elege o “Monte Pellegrino como a mais bela das pequenas montanhas do mundo”. Deixara Nápoles havia poucos dias e escapara dos suplícios do enjoo, (e, já agora, de uma tempestade que quase deitava tudo a perder), no interior do navio. Daí a dias, recuperei a passagem em que ele falava de ter curado o enjoo com pão e vinho, imobilizado numa posição horizontal. Eu estava em Vulcano, entre barcos, e o vinho Malvasia, um vinho licoroso originário da ilha de Salina, combinava com brioches e o pôr do sol. Era uma perfeição de cartão postal, celebrada com vinho da casa.

Goethe teria gostado de Vulcano, e sobretudo de Stromboli, a mais distante das ilhas Eólicas. Da sua aspereza vulcânica, das casas brancas e pequenas, dos sardões que se escapam das pedras quentes e atravessam o caminho. Mas acredito que Stromboli lhe interessasse pouco, mesmo sendo um geólogo apaixonado. A resposta é simples: depois de visitar o “monte ígneo” que é o Etna, que figura na Odisseia como uma coluna que segura o céu, qualquer vulcão se assemelha a um vulcãozinho.

Se é certo que Goethe não conhecia Stromboli filmado por Rossellini, os percursos íngremes, as ruas “íngrides”, eu não podia recusar sentar-me na soleira da porta da casa em que viveram. «In questa casa...», atesta uma placa de mármore, em letra de namorados. Ingrid Bergman e Roberto Rossellini viveram ali na Primavera de 49, durante a rodagem do filme. Doravante, sempre que vir a Bergman no cinema, pensarei no dia em que tomei pequeno almoço num café com vista para o mar, porque ele se chamava «Ritrovo Ingrid».

Conto sumariamente a história a Mauro, ou Marco, o estudante de geologia que me mostra as diferentes camadas de lava do Etna, explica porque o rio de lava é tão preciso e não transborda (porque as extremidades arrefecem rapidamente, e desse modo fazem uma barreira que impede que a torrente de fogo extravase), faz-me percorrer o rebordo de diferentes crateras. Mauro, ou Marco, nunca viu o filme em que Ingrid sente a terra a tremer, mas sabe da viagem a Itália de Goethe e interessa-lhe saber porque é que o alemão considerava esta “a rainha das ilhas”. É um siciliano orgulhoso. Tento recordar a definição precisa, mas não a encontro. Poderia ter respondido isto: «Quanto a Homero, foi como se me caísse uma venda dos olhos. As descrições parecem-nos poéticas e afinal são extremamente naturais, embora criadas com uma pureza e uma autenticidade que nos assusta». Goethe diz também que com a Sicília a Odisseia tornou-se para ele palavra viva.

Esta impressão persiste, passados mais de 250 anos. É um pouco infantil, mas senti uma aceleração no peito quando vi uma placa a apontar para a Riviera dos Ciclopes, e idealizei a cena: criaturas medonhas empurrando pedras para impedir que Ulisses aportasse naquela encosta. (Li algures que os ciclopes dormiam dentro das bocas do Etna...). Foi uma emoção perceber a correspondência entre as palavras milenares de Homero e aquilo que se desenrolava ante os meus olhos. E imaginar Goethe a subir de mula, e a sentar-se para, em segurança,  poder ver toda a área. «O vento soprava de leste, varrendo toda a esplêndida região que se estendia a meus pés, até ao mar. Vi a olho nu toda a costa, de Messina a Siracusa, com as suas reentrâncias e baías». Hoje não se vê senão Catânia, rente ao mar e aos pés do vulcão, e em dias claros avista-se Taormina. Mas Siracusa, a 60 km a sul de Catânia, e Messina, sensivelmente à mesma distância, a norte, já não se alcançam.

A autora do guia Lonely Planet aconselha a organizar a viagem em torno de uma ideia. Conselho avisado. É tão extraordinária a oferta que é fácil dispersarmo-nos ou repetir percursos óbvios. Goethe abordou a Sicília com a mesma paixão com que percorreu toda a Itália. João Barrento, autor da tradução que sigo, condensou do seguinte modo os princípios que orientam o escritor alemão: «a abertura dos sentidos (do olhar em especial), a distância integradora (daí o hábito de subir às torres) e o diálogo com as coisas (particularmente a natureza, o que explica o lugar dominante da observação de fenómenos geológicos, mineralógicos e botânicos). (...) Por outro lado, o presente é a grande via de acesso e o ponto de chegada para toda a reflexão sobre a arte, a história e a natureza».

No essencial, refiz os passos de Goethe: Palermo, Catânia, Taormina, Messina. Sacrifiquei Agrigento e o vale dos Templos, de que Goethe falou com máximo prazer. «As uvas de mesa crescem em latadas apoiadas em pilares altos. Em Março plantam as melancias, que estão maduras em Junho. Crescem por todo o lado nas ruínas do Templo de Júpiter, sem ponta de humidade». Posso dizer que não quis decepcionar-me, que não cri que fosse possível encontrar um cenário igual... Melancias a crescer no Templo de Júpiter? Mas a verdade é que tenho ainda fresco o desconforto de ter visitado Pompeia a torrar ao sol, e não me apetecia engrossar as filas de visitantes que admiram o vale, o vale, o imperdível vale... Por último, o Toni insistiu comigo: que encurtasse caminho e não perdesse Siracusa.

O Toni, segundo a mãe, minha senhoria em Palermo, é arquitecto e trabalha na câmara: é político. Será vereador? Toni combina uns calções justos com uns ténis da Prada, usa um brinco na orelha e uma barbicha que cofia enquanto faz uns ares de sedutor. Um cromo de qualquer caderneta siciliana. Por acaso não fala uma palavra de inglês, e comunica através da mãe, que fala francês por ter trabalhado na Bélgica, a fazer bolinhas de açúcar para bolos de aniversário. Desdenha de Taormina, (como é possível?, Toooni?), põe as mãos no fogo por Siracusa (faz bem; Goethe não visitou a cidade, que Cícero dizia rivalizar com Atenas: afiançavam-lhe que perdera a sua glória e interesse. Foi uma pena não ter ido).

A conversa passa-se ao pequeno almoço, entre os ovos e o mangericão. Uma coisa muito fina, isto de comer ovos ao pequeno almoço. O bom siciliano come uma granita de café, com panna, e brioche. A granita come-se, aliás, o dia todo. Gelo moído, com o sumo e a polpa de limão, ou framboesa, ou café. No topo, uma camada de natas. O brioche, mergulha no copo e rapa o fundo. É um pão molhado em pouco mais que gelo, sim. Também há quem meta no pão uma bola de gelado! Mas isto são invenções de tempos abonados.

Quando o escritor alemão visitou a ilha, o que encontrava em abundância era aquilo que a terra dava. «Os frutos e legumes são deliciosos, em especial a alface, tenra e saborosa como um leite; entende-se a razão por que os Antigos lhe chamaram lactuca. O azeite, o vinho, é tudo muito bom, e poderia ser muito melhor se se desse mais atenção ao modo de preparar os alimentos. Os peixes são dos melhores, muito delicados.  Tivemos também boa carne de vaca, ainda que as pessoas a não apreciem muito».

Abundam as descrições sobre os campos e o modo como são semeados. Goethe chega mesmo a desconsiderar «o desastrado do guia» que lhe «estragava com a sua erudição» o prazer do que se via no vale, «sempre a contar como Aníbal travou aqui uma batalha». Mais adiante, fala da surpresa do outro, que não contava que um homem das letras pudesse desprezar a memória clássica. Talvez não seja tão surpreendente: se é verdade que atravessa o livro a ideia de reconstituir momentos clássicos através das ruínas, é mais forte a ideia de que a viagem convoca um renascimento interior.

Ocorre-me novamente a noção de viagem como sinónimo de descoberta no teatro grego de Taormina. Num gesto excessivo, procuro a vibração das pedras no contacto com os pés, recupero pedaços de tragédias que ali foram representadas, escrevo postais em diferentes pontos do anfiteatro, meço a imponência do Etna. É mesmo a «mais incrível obra da natureza e da arte». No palco preparavam uma versão de “Il Gattopardo”, a obra de Lampedusa que Visconti adaptou ao cinema. É uma obra sobre o fim de um tempo, que concentra, como a Sicília, a decadência e o desejo num mesmo plano. A explosão da vida e a inevitabilidade da morte. Arrisco que tenha sido essa pulsão, presente em cada instante, que tenha feito desta viagem um lugar de descoberta e reconhecimento para mim. Como para Goethe: «Sempre pensei que ia aprender aqui muita coisa; mas que teria de recuar tanto, que teria de desaprender e reaprender tanta coisa, isso nunca pensei». Pode ser que Goethe tenha procurado o caminho para casa. Como Ulisses, o mais mítico dos heróis. Como cada um de nós, errantes.

Não tenho uma única fotografia destes dias maravilhosos_ não tenho, sequer, máquina fotográfica. Não sinto necessidade de registar em imagens isto que (incompletamente) traduzo em palavras. Goethe fazia-se acompanhar por amigos que ilustravam aquilo que via. Foram vários, em diferentes pontos da viagem; por alturas da Sicília, Kniep era aquele que fixava a paisagem. O facto de nunca ter procurado esses desenhos (se existem, e onde?) não é senão revelador do seguinte: já me basta o tesouro da descrição de Goethe e de sentir, como ele, que uma viagem pode interpelar a nossa vida. O que isso convoca dentro de nós, não tem imagem precisa.

 

 

Onde ficar

 

Grand Hotel e des Palmes, Palermo

Via Roma, 398; booking-despalmes@amthotels.it

Quartos sumptuosos, lustres admiráveis, escadaria de mármores. Um cenário de filmes que foi palco de intrigas e negócios. Acolheu a elite que chegava à Sicília. Um cinco estrelas ideal, nem que seja para ler umas páginas num canto do bar. O mais certo é ter vizinhos ingleses. Entre 100 e 200 euros.

 

Bed and Breakfast, Sicília

São cada vez mais populares em toda a ilha. Existem às dezenas em todas as cidades e disponibilizam fotografias na net. A decoração é quase sempre kitsh e duvidosa. Mas em época alta um quarto custa em média 50 euros por noite, o mesmo que um hotel de duas ou três estrelas. Como o nome indica, oferece cama e casa de banho. Muitos facilitam, ainda, o acesso à cozinha.  

 

Onde comer

 

Trattoria la Foglia, Siracusa

Via Capodieci 21; www.lafoglia.it

É um restaurante que lembra os almoços de domingo em casa da avó. As duas salas têm naperons a fazer de toalhas de mesa, fotografias da família proprietária e louça que parece comprada na rua, em feiras de antiguidades. A cozinha, evidentemente, é boa _ é impossível comer mal na Sicília. O pão é feito na casa e o peixe é muito fresco. O espada é por excelência o peixe da região. Cerca de 30 euros.

 

Antica Focacceria di San Francesco, Palermo

Piazza San Francesco d' Assisi, telefone 091 32 02 64

Um clássico da cidade cuja história remonta à Idade Média: era o restaurante onde se encontravam viandantes, peregrinos, gente humilde. Pão com rim fatiado é a principal atracção. Mas também pão com gelado. A esplanada cresce na Piazza São Francisco de Assis. Sugere-se um esparguete com pesto de pistachio, (molho muito popular na Sicília). Cerca de 25 euros.

 

Como ir

 

A Tap e a Ali Itália voam para a Sicília. A maior parte dos voos têm escala. A ilha tem dois aeroportos: o de Palermo é o principal, o de Catânia fica na costa leste. O comboio é ainda o de linha estreita. O que quer dizer que 200 km pela costa (entre Messina e Palermo) demoram mais de três horas e meia a percorrer, em cima de malas e com passageiros pelos corredores. O autocarro é o mais usado. Barato, constante, com o senão de quase sempre parar em todas as pequenas localidades (60 kms podem representar uma hora e um quarto). Táxi a preços proibitivos.  

 

Quando ir

 

Os meses mais temperados são os mais indicados_ entre Abril e Junho e Setembro e Outubro. Mas mesmo em Agosto, sob um calor abrasador, milhares de turistas e a inevitável inflação de preços, a Sicília é um destino extraordinário.

   

 

Publicado originalmente na revista NS do Diário de Notícias em 2006

 

 

 

Feira do Livro do Porto 2018

12.09.18

Nesta festa do livro, em 2018, recordaremos os 50 anos das manifestações estudantis de maio de 1968, aproveitando para falar das revoluções mais urgentes para os dias de hoje.  Um tema à medida da cidade do Porto, palco da Revolução Liberal, de 1820 e de tantos outros movimentos de renovação e inovação, não menos importantes, no campo da literatura, das artes plásticas, das ciências e do pensamento em geral.

Conversaremos ainda sobre memória e reinvenção literária; sobre o sexo enquanto insurreição; sobre a ligação entre música e literatura, entre outros temas. 

Iremos juntar alguns dos nomes mais relevantes do universo literário em língua portuguesa, como Mário de Carvalho, Mia Couto e Bernardo de Carvalho, com autores mais jovens, nacionais e internacionais, que nos últimos meses surpreenderam o mundo editorial — com destaque para a romancista francesa, de origem marroquina, Leila Slimani, cujo romance “Canção Doce” (Alfaguara), foi premiado com o Goncourt, em 2016, sendo entretanto traduzido para mais de trinta idiomas. 

A literatura não copia a realidade — reinventa-a, e, dessa forma, ajuda-nos a vê-la melhor e a compreendê-la. Eventos como este permitem que autores e leitores se encontrem, num espírito de celebração, para, entre livros, discutirem o mundo. É uma outra maneira de promover revoluções. 

 

Este ano, organizamos um curso breve de literatura e tomamos de empréstimo, como título genérico, a pergunta de Calvino: "Porquê Ler os Clássicos?". A proposta é abordar o universo de autores como Dante, Cervantes, Shakespeare, Goethe, Flaubert, entre outros. Começamos nos Gregos, chegamos ao século XX com Fernando Pessoa, atravessamos vários geografias: vamos aos Estados Unidos com Walt Whitman e Emily Dickinson, à Rússia com Tchekov,  à América do Sul com Machado de Assis. 
Para dar as lições, convidámos professores que trabalham na academia estes autores clássicos e também leitores-amantes. Este curso foi pensado para um público variado, que tanto acolhe especialistas e interessados num autor específico como pessoas que gostam de ler e que encontram aqui uma visão introdutória a cada escritor. 
 
Nas sessões de Spoken Word, o ponto de partida é a relação entre a palavra escrita e cantada, o modo como isso foi trabalhado por autores como Chico Buarque, Jacques Brel, Leonard Cohen, Bob Dylan, Stevie Wonder, outros poetas e escritores. E há palavras que são simultaneamente uma granada e um aglutinador destas várias referências e caminhos: Utopia, Amor, Revolta e Melancolia.  
Ou seja, usando cada uma destas palavras nas quatro sessões, tomando-as como leitmotif, propusemos a vários intérpretes (escritores, músicos, artistas visuais, cineastas, actores) que fizessem uma viagem, que esculpissem a palavra de diferentes maneiras, que revisitassem o universo daqueles autores e outros. Onde vamos dar? Isso não sabemos. Esta é apenas a deflagração original. 
 
Bernardo Carvalho é escritor, nasceu em 1960 no Rio de Janeiro. É um dos autores mais fulgurantes da literatura brasileira contemporânea. O seu universo é urbano, a sua escrita, depurada, está traduzido em mais de dez idiomas. Autor de contos, teatro, romance, venceu prestigiados prémios, como o Jabuti, Machado de Assis ou o prémio Portugal Telecom. Fez uma residência artística de um mês na cidade, sendo o primeiro autor a ser convidado para esta estadia no contexto da Feira do Livro do Porto. Desta residência resulta um conto, distribuído gratuitamente na Feira do Livro do Porto, e a partilha da experiência numa conversa com Francisco José Viegas.

 

Dia 7 Set

19h Inauguração das exposições

 

Dia 8 Set

12h Dante: Mega Ferreira (lição)

17h A tília de José Mário Branco

18h José Mário Branco conversa com Anabela MR

 

Dia 9 Set

12h Cervantes: Perfecto Cuadrado

16h Afonso Cruz e Mia Couto – mod. JE Agualusa

21.30 Utopia por André Tentúgal, Capicua e Nuno Artur Silva (spoken word)

 

Dia 12

19h Fernando Pessoa: Pedro Eiras

 

Dia 13

19h Flaubert: Ana Paula Coutinho

 

Dia 14

19h Daniel Cohn Bendit conversa com Rui Tavares 

 

Dia 15

12h Os Russos: Ana Margarida de Carvalho

16h Filipa Martins e João Pinto Coelho - mod. Helena Teixeira da Silva

19h Como ler um poema? Pelo poeta João Luís Barreto Guimarães (oficina)

21.30h Revolta por Kalaf, Selma Uamusse e Miguel Januário (Mais Menos)

 

Dia 16

12h Machado de Assis: Abel Barros Baptista

16h Kalaf Ângelo e Telma Tvon - mod. Sheila Khan

19h Como ler um poema? Pela professora universitária Rosa Maria Martelo

 

Dia 18

19h Bernardo Carvalho conversa com Francisco José Viegas

 

Dia 19

19h Shakespeare: Luísa Costa Gomes

 

Dia 20

19h A ideia de América na poesia americana: Ana Luísa Amaral

 

Dia 21

19h Leila Slimani conversa com Helena Vasconcelos

21.30 Amor por Sónia Baptista, Raquel Melgue e Eduardo Raon

 

Dia 22

12h Goethe: João Barrento

16h Valério Romão e José Riço Direitinho - mod. Susana Moreira Marques

22h Melancolia por Cláudia Varejão, Nuno Rodrigues (Duquesa), Sara Carinhas

  

Dia 23

12h Os Gregos (teatro): Maria de Fátima Sousa e Silva

19h Ana Margarida de Carvalho e Mário de Carvalho - mod. Inês Fonseca Santos

 

Programação de José Eduardo Agualusa e Anabela Mota Ribeiro. Mais informação sobre outras actividades da Feira do Livro, cinema, exposições e outras, em http://www.cm-porto.pt/feiradolivro

 

Placido Domingo

02.09.18

“Sou um apaixonado por Portugal. Há uma classe, uma elegância no português... E na cidade, Lisboa antiga, senhorial. Sente-se. Como terá lido noutras entrevistas, sou um apaixonado do fado. Tenho tanto respeito pelo fado que nunca gravei nenhum. Mas num concerto cantei o Foi Deus, um fado maravilhoso. Um dia espero ter o valor para poder gravar uns fados.”

Este é Placido Domingo. Um sedutor.

Começam por explicar-nos que Placido Domingo chegara às cinco da manhã, vindo de Berlim, num voo privado. Era quase hora de almoço. Na Gulbenkian era visível uma azáfama de pessoas. Decorria um congresso europeu sobre património. Nessa tarde, nos Jerónimos, seria atribuído o Grande Prémio Património União Europeia Europa Nostra, com a presença de Cavaco Silva e dos Príncipes das Astúrias, a Espanha. Foi na qualidade de presidente da organização que Plácido Domingo veio a Portugal. 

Combináramos sessenta minutos para a entrevista e as fotografias. Nessa madrugada, a assistente de Mr. Domingo mandara um email com o discurso que iria ser lido, para o caso de querer inteirar-me do seu conteúdo. Entretanto já lhe tinha chegado o meu currículo. Minutos antes de a entrevista começar, foi escolhida a sala, assegurado o recato. Já havia garrafas de água sobre a mesa. Cumprimentos formais.

Entretanto Mr. Domingo começa a descer a escada que dá acesso ao auditório 2 da Gulbenkian. Minutos antes, alguém informara que Mr. Domingo já deixara o hotel. Vem acompanhado de uma pequena corte, liderada por Guilherme d’Oliveira Martins, o presidente do Centro Nacional de Cultura. Mais cumprimentos, nada formais.

Mr. Domingo é um charme.   

“Voei esta noite de Berlim. Quando se chega a Lisboa, para aterrar, sobrevoamos o Atlântico. Damo-nos conta de que estamos no sítio mais ocidental da Europa. Lembro-me de uma ocasião em que estive aqui a cantar. Sou adepto da Fórmula 1 e vim ver os treinos que estavam a decorrer no Estoril, quando o Alain Prost corria pela Ferrari. Fui desde o Estoril até Cascais a ver as ondas do Atlântico. São tão grandes que por vezes chegam à estrada.”

Este é o começo da conversa. Mr. Domingo é sempre Placido Domingo. E Placido Domingo, um dos mais famosos tenores do século XX, é o oposto de uma diva, caprichosa e inacessível. Folheou a 2 durante uns segundos e fechou-a com o ar resoluto de quem percebe ao que vai. Respondeu a todas as perguntas, com enorme disponibilidade. Não quis saber antes o que lhe iam perguntar. Olhou para si próprio. Cantou. Cantou! Quando a entrevista terminou, riu-se imenso quando lhe disse que no dia seguinte ia ver Stevie Wonder, e que por isso não ia a Mafra, onde ele ia estar. Gracejou: I just called to say I love you.

No final, alguém comentava que é raro um artista como Placido ser tão simpático. De facto.

Nasceu em Madrid há 71 anos. Mudou-se para o México quando tinha oito anos. Os pais cantavam zarzuelas.

 

Percebe-se pelas fotografias antigas que, fisicamente, é muito parecido com o seu pai...

Sim.

 

É uma coisa que lhe dá prazer?

Dá-me prazer. Sobretudo, quanto mais passam os anos, mais me pareço com ele. A vida passa, os anos acumulam-se. Que os anos passem e não fiquem. Quando era jovem, era jovem, mas agora sou muito mais jovem porque tenho juventude acumulada! Há que afirmá-lo, ser optimista.

 

Isso quer dizer que tem vontade de viver e de fazer coisas.

Claro que sim. Com a minha idade, quase todos os cantores estão reformados. A maioria reforma-se quinze, dez anos antes... E eu continuo, com uma vontade...

 

Continua a cantar Wagner, exigentíssimo.

Um pouco de tudo.

 

Já falamos sobre isso. Para já: tal como o seu pai, o seu primeiro instrumento não foi a voz. O primeiro instrumento do seu pai foi o violino e o seu o piano.

Em todas as famílias onde se tem um amor pela música, ou, simplesmente, onde exista a vontade de transmitir algo aos filhos, escolhe-se um instrumento. Um cantor, não se sabe se vai cantar.

 

Como assim?

Em pequeno, pode cantar, mas não se sabe se vai ser cantor. Então escolhe-se um instrumento. A família do meu pai escolheu o violino para ele, e a mim puseram-me a estudar piano. Os meus pais cantavam zarzuelas espanholas e desejavam que eu viesse a ser pianista.

 

É um bom pianista? Até onde prosseguiu o estudo?

Efectivamente estudei, gosto e continuo a tocar piano. Mas sou um pianista normal. A voz surge depois, da inspiração de ouvir os meus pais. Era algo que tinha que ser.

 

Tinha que ser?

Tinha que ser! Há certas coisas na vida que sabemos que têm que acontecer. Porque era demasiado forte, dentro de mim, o amor e a paixão pelo canto – por ouvi-los cantar. E sem nos darmos conta, começamos. Um dia, de repente, eu estava a cantar, e vi que saltaram lágrimas dos olhos da minha mãe. “Essa nota que fizeste é lindíssima. Faz de novo”, disse-me. E eu fiz. Foi quando comecei a pensar que talvez pudesse cantar.

  

Há um documentário, de 1981, em que o vemos com um traje de folclore mexicano, a cantar canções rancheras. E a sua mãe aparece a ajustar-lhe o traje, a tratá-lo como se fosse um menino, e não um homem de 40 anos. Foi um menino da sua mãe até tarde?

O que eu vejo agora com os meus filhos é que os filhos, para nós, nunca crescem. Tenho filhos de quarenta e tal anos e continuo a tratá-los como crianças. São todos homens casados, tenho netos; quando não estamos juntos, eles vivem a vida deles, está tudo bem. Mas se estamos juntos, todos debaixo do mesmo tecto, se numa noite saem até tarde, se foram a uma festa, fico preocupado. A que horas vão chegar? Isto e aquilo. Temos sempre o sentido de protecção.

A minha mãe sentia isso, que o seu filho tinha começado a cantar, as coisas corriam bem; e aos quarenta anos continuava a ser o seu menino.

 

Ela não duvidava nem um pouco do seu talento e do seu sucesso? Imaginava que um dia viria a ser o Plácido Domingo?

Acho que ninguém podia imaginar. Não o imaginava eu nem ela, nem sequer a Marta, a minha mulher, que foi crescendo ao meu lado, ajudando-me. Podemos perceber que vamos fazer algo, mas onde vamos chegar, isso nunca se sabe. São tantos, tantos anos de preparação, tantos anos de dedicação... Não se saber como vai resultar. Felizmente resultou!

 

Estou a perguntar também se tinha ambição, e confiança em si mesmo. Estes dois elementos são fundamentais para a estruturação de uma carreira.

Sim, temos que querer, e também há um momento em que a confiança é indispensável. Mas isso é verdadeiro para um cantor ou para qualquer outro profissional. É o instrumento mais delicado que há, as cordas vocais. Vivem connosco, são afectadas por alegrias, são afectadas por tristezas.

 

Realmente?

Sim. São afectadas por dores de estômago, uma tosse, uma gripe. Tudo se reflecte, tudo.  Às vezes, a raiva também pode ajudar. Num momento em que nos sentimos decepcionados com qualquer coisa, descontentes. Vamos para o palco e dizemos: “Este é o meu momento, aqui ninguém me pára, aqui faço o que quero!” Mesmo que saibamos que temos algo que pode ser débil, manter a confiança na técnica que fomos adquirindo é também importante. Uma técnica que, aliada à paixão e àquilo que representa a responsabilidade de subir ao palco, certamente dá uma certa segurança em nós mesmos.

 

E os nervos, ao subir ao palco?

Mesmo que suba sempre nervoso, depois passa. Quando me perguntam, em dia de espectáculo: “Plácido, como estás?” Respondo sempre: “Pergunta-me depois!” Porque posso dizer que estou bem, mas o que interessa que esteja bem é isto. [aponta para garganta] A voz! É a mulher mais ciumenta do mundo! A voz... é feminino, não, em português?

 

Sim.

Há que tratá-la com um carinho enorme.

 

É caprichosa?

É caprichosa também.

 

A técnica é apenas uma parte. Para si, não é a parte mais importante.

Bem, a técnica é algo que se tem, mas as pessoas não têm que a ver. O importante é a entrega. O importante é que quando canto, o som da voz juntamente com o texto que estou a interpretar, cheguem às pessoas. Às vezes, o que é realmente palpável e fácil de identificar é a falta de técnica. Quando um cantor tem uma boa técnica e faz as coisas correctamente, as pessoas nem pensam nisso; e certamente a técnica está lá.

Se estamos bem fisicamente, surge dentro de nós uma coisa que é indomável. Todavia, as pessoas perguntam-se: “Como consegue fazer isto?” Se nos deixamos levar, podemos ficar sem voz. Portanto, há uma técnica.

 

Disse uma vez que o mais importante não é a vocalização mas sim a expressão. Entendi que falava sobre o domínio da técnica, por um lado, e por outro sobre a entrega.

Estão unidos. Há, no entanto, um ponto determinante. As pessoas, cada vez mais, estão habituadas a ver grandes espectáculos, a toda a tecnologia moderna. Vêem o que querem na internet, teatro, filmes. E querem acreditar nos personagens. Ou seja, tenho que estar envolvido, dramaticamente, no papel que estou a representar. Para dar um exemplo que será familiar: cantei uma ópera em que fazia de Vasco da Gama. Mas posso ser um rei, um poeta, um bêbedo, um pintor, um conde. Os personagens são tão variados. Ontem cantei o doge de Génova, Simone Boccanegra, há dez dias cantei o Cyrano de Bergerac em Madrid, o Athanaël de Thaïs, fiz de Neptuno... Tantos, tantos papéis. E as pessoas têm que acreditar.

 

É importante conhecê-lo, a si, saber quem é, para compreender melhor por que interpreta desta maneira? A sua maneira particular de interpretar está enriquecida, encorpada, pela sua vida, pela sua natureza, pelo que sente.

Claro que sim.

 

Então, apresente-se. 

Como os personagens são tão diferentes, às vezes é necessário interpretar alguns sentimentos, coisas que não temos em nós. Sobretudo se são personagens históricos, uma pessoa tem que adaptar-se e tentar ser esse personagem. Se estou a interpretar uma canção, o importante é o que estou a dizer. Cantar é como falar.

 

Cantar é como falar?

É. É preciso ter uma naturalidade e chegar às pessoas. Se me quiser convencer de alguma coisa, tem que pensar muito bem no que me vai dizer – como expressar. Não só com a voz, mas com os olhos, as mãos. E então vai convencer-me. Desde a mais simples canção, que é o mais difícil, talvez, de interpretar...

 

Porquê?

Porque quando uma pessoa canta uma ária de ópera, não há muita gente que oiça o disco em casa que saiba cantar uma ária de ópera. Mas se canta um fado, qualquer pessoa pode dizer: “Eu também canto assim”. O mais difícil, para o público em geral, é a expressão do mais simples, do aparentemente simples. O fado é tremendamente difícil. Como terá lido noutras entrevistas, sou um apaixonado do fado. Tenho tanto respeito pelo fado que nunca gravei nenhum. Mas num concerto cantei o Foi Deus, um fado maravilhoso. Um dia espero ter o valor para poder gravar uns fados.

Em qualquer caso, o sentimento tem que estar de acordo com os personagens e com as situações em que estes se encontram.

 

E a sua vida, entra na composição dos personagens?

Tem que entrar. Há muitos personagens sobre os quais penso: “Se eu estivesse no seu lugar, os seus sentimentos seriam os meus, exactamente. Identifico-me com ele.” E uns sim, outros não. Tento não interpretar muitos personagens com quem não me identifico. Mas há que fazer excepções.

 

O personagem que mais vezes interpretou foi Cavaradossi, da Tosca, de Puccini. Porquê? É um artista, um apaixonado, como você?

Antes de tudo é um artista. É um homem muito decidido nas suas ideias políticas. É um homem apaixonado por uma mulher que intelectualmente é inferior. Ele é um cavalheiro e ela é uma cantora de ópera, com uma voz muito boa; uma mulher jovem e impetuosa, que não está preparada para a vida, que se apaixonou por ele e tem uns ciúmes tremendos; sobretudo quando vê o quadro da [marquesa] Attavanti, quando ele está a pintar a Maria Madalena na igreja de Sant’Andrea della Valle... Cavaradossi é um personagem muito positivo, heróico, e vemo-lo num momento em que está numa situação de perda. Perde pela maldade, pela crueldade de um vilão, Scarpi, que tem poder para matá-lo. É um personagem estupendo.

 

Mas porquê a predilecção por este personagem?

Cantei-o muitas vezes, tal como o Otelo. Foram, mais ou menos, as mesmas vezes, 225 e 223. Mas é um personagem cheio de paixão, que arrebata. Era muito adequado, no início da minha carreira. Eu chegava a um teatro e perguntavam-me o que queria cantar. Invariavelmente respondia: Cavaradossi, da Tosca. Eu sabia que tinha uma parte feita à minha medida. Taylor made, como se diz [nos Estados Unidos]. Sabia que as pessoas iam gostar. E a mim, enlouquecia-me, cantá-lo. Não havia dúvidas.

 

Utiliza palavras que traduzem sentimentos fortes constantemente. Como: enlouquecia, impetuosa, ciumenta...

Sim.

 

É porque a sua natureza é assim? O seu México é assim?

Creio que, simplesmente, a minha vida é assim. Eu vivo, cada três ou quatro dias, um personagem diferente. Todos são apaixonantes, são trágicos, são heróicos. Todas estas expressões chegam através deles. Na vida real sou bastante tranquilo.

 

O Plácido Domingo pode engolir o José?

José?

 

É o seu nome, José Plácido Domingo. A estrela conquista o espaço do homem?

É uma pergunta interessante. Muitas pessoas me dizem: “Plácido, tu não tens vida privada.” E têm razão. Felizmente tenho uma família maravilhosa que o soube entender. A minha mulher, como também foi cantora – é directora de cena, tem conhecimentos profundíssimos e uma cultura extraordinária de música, pintura, todas as artes –, fez grandes sacrifícios no princípio. Tinha que escolher entre estar com os nossos filhos ou ir comigo.

 

Como era a vossa vida?

Os nossos filhos também fizeram grandes sacrifícios. Vivíamos, quando estavam a crescer, em Barcelona. Eu passava a maior parte do tempo a cantar nos Estados Unidos ou na Europa. E ela estava duas semanas com os nossos filhos, depois vinha ver-me ou eu ia, de qualquer maneira, a Barcelona. Mas havia alturas em que não podia ir e ela levava os nossos filhos, para que estivéssemos juntos. Fosse a Hamburgo, a Viena, a Londres, a Milão, a qualquer um dos teatros onde estivesse a cantar. Essa é a vida que toda a minha família viveu. Uma vida de família normal, nunca tive.

Eu não fui o pai que se levanta e leva os filhos à escola e que depois de um dia árduo de trabalho se senta a jantar com eles, todos os dias. Mas tive a sorte de ter uma mulher que assumia que, não estando eu casa, estava sempre. Estava sempre. Tudo sempre girou em torno de mim.

 

Em torno de si e da sua carreira.

Comecei a vida como patriarca, desde muito jovem, e continuo a ser o patriarca, no sentido em que todos se voltam para mim, e toda vida é organizada em função daquilo que continuo a fazer. Nesta idade, já devia estar reformado. Mas não estou. O que quero dizer é que a minha vida continua a ser pública, completamente. Ontem estava a cantar em Berlim, hoje estou aqui, amanhã estou em Verona, porque se inicia a temporada e tenho que cantar e dirigir, depois de amanhã vou para Pequim, onde decorre o meu concurso, o Operalia. Os meus filhos já estão em Pequim, a minha mulher está em Frankfurt, de partida para Pequim. A vida é como um puzzle, um quebra-cabeças, onde todos se movem ao redor da minha vida pública.

 

Isso é pesado para si?

Às vezes, sim. Há vezes em que um dia extra de descanso...  Minha nossa senhora! Mas foi o que escolhi. E sinto-me recompensado quando interpreto o Simone, o Cyrano, ou a Thaïs, em dois meses e meio, e penso: “Como é possível, com 71 anos, que possa realizar tudo isto?” Percebi que só com a colaboração de todos [o posso fazer]. Dos meus ajudantes, que são amigos de verdade e que fazem tanto por mim. É toda uma cumplicidade.

 

O que disse liga com uma pergunta que trazia: num momento em que muitos cantores param, canta Wagner, que é uma coisa audaciosa, exigente. Porque é que não quis parar? Abrandar, pelo menos.  

A história de Wagner não é nova. Há vinte anos que canto Wagner, ou mais. Comecei a cantar o Parsifal e as Valquírias.

 

Começou a cantá-los quando outros estão numa curva descendente, com cinquenta anos. Fez um movimento contrário.

Ajustei o meu repertório, e tive a sorte de ter sucesso, cantando esse repertório alemão, tal como cantei A Dama de Espadas [de Tchaikovski], ou o Tamerlano [de Handel], um repertório barroco, ou um repertório desconhecido. Algumas estreias mundiais, como Il Postino [de Daniel Catán] ou A Ilha Encantada [obra de Jeremy Sams que combina música de Handel e Vivaldi, entre outros; interpretou Neptuno].

 

Voltou a fazer papéis de barítono, que foi o que começou por ser.

Sim. Como o Simone Boccanegra, como o Rigoletto [de Verdi], que filmei, como na Thaïs. Sempre segui um percurso que estava diante de mim, mas sempre soube adaptar-me, desde que iniciei [a minha carreira]. E em Setembro vou chegar às 140 óperas de repertório. É muito, muito amplo. A época wagneriana, podemos dizer que já passou. Agora estou a cantar algo de Wagner; mas pode ser que cante um barítono wagneriano.

 

Não é muito comum a transição, e a oscilação, entre os dois registos. É uma prova de versatilidade, mais que tudo?

A minha voz, especialmente nos últimos anos, cantando Wagner, adquiriu uma cor... E creio que se cantar cada vez mais um repertório baritonal vou estar muito confortável. Já estou muito confortável. Não quero dizer que seja um barítono, mas sei que estou a interpretar esses papéis correctamente. Algumas pessoas podem argumentar que não tenho uma voz tão escura como um barítono; mas se estiver a interpretar um personagem e o público estiver comigo, compenetrado no que estou a fazer, num teatro cheio, com as pessoas felizes, então faço-o. Quem sabe se não terminarei a minha carreira como barítono...

 

Como num círculo que se fecha?

Sim, sim.

 

E a cor da voz, própria da idade, também é mais escura?

Eu, para cantar como barítono, preciso de acordar a sentir-me tenor!

 

Explique isso.

Porque um tenor tem uma voz mais leve e pode escurecê-la. Mas se já tenho uma voz escura é muito mais difícil poder interpretar [essa mudança]. Posso colorir [a voz]. Não há um tom único. Pode-se procurar dentro da própria voz as várias cores. É como uma paleta e eu sou o pintor. Podem-se misturar as cores para alcançar diferentes resultados.

 

Como aprendeu a lidar com as pressões do mercado, das editoras, de estar hoje aqui, amanhã em Verona, ontem em Berlim, depois Pequim? Quando iniciou o seu percurso, há 50 anos, era normal um cantor fazer uma viagem de transatlântico para interpretar uma ópera nos Estados Unidos. Tudo era mais lento.

Sim. Mas protejo-me bastante. Estas coisas são excepções...

 

Esta entrevista?

Sim.

 

Obrigada.

Depois de um dia como o de ontem, no dia seguinte tento estar tranquilo. É uma alegria ser presidente do Europa Nostra; venho para dar prémios e para estar com as pessoas. Propõem-me entrevistas, conferências de imprensa... Uso a voz para falar nesta entrevista, em todos os locais onde tenho que falar. Uso mais a voz do que se fizesse dois espectáculos. Acho que sei cantar, mas não falar.

 

Sabe, sabe!

Não, tecnicamente, não sei falar. Cansa-me mais falar do que cantar. Mas faz parte de tudo o que faço.

 

Não é apenas cantor. É director da Ópera de Los Angeles e Washington, é condutor, fundou a Operalia, preside à Europa Nostra. Porquê esta multiplicação de actividades? Podia, simplesmente, tranquilamente, confortavelmente, cantar.

Essa é uma pergunta que me faço a mim mesmo todos os dias. Pergunto-me: “O que é que te dá mais gozo?” É o momento de estar em palco a cantar ou a conduzir – é a resposta. Mas depois pergunto-me se não é importante, também, preservar a nossa cultura, a herança de séculos e séculos, neste continente maravilhoso. Não é importante ter um concurso onde, desde há 20 anos, têm vindo a surgir as vozes mais maravilhosas da nossa época, os vencedores da Operalia? Tudo isto é importante. Se me dá mais trabalho? Claro que sim, não é nada fácil.

 

Quando começou, só cantava. O resto vem com o sucesso, com a responsabilidade?

Quando comecei, cantava, viajava, descansava, e era apenas isso. Hoje, o descanso é a parte mais difícil de encontrar. Mas no geral durmo bem. A minha garganta é excelente, recupera facilmente. Depois de um dia como o de hoje, sei que estarei mais cansado; mais do que fisicamente, vocalmente. Eu fazia assim: quando cantava o Otelo, quando cantava óperas tão complexas como Um Baile de Máscaras [Verdi], Aida [Verdi], Turandot [Puccini], passava um dia ou mais em silêncio. Estudava, via televisão, ouvia discos, passeava – calado. É um luxo que já não posso ter.

 

Que escolheu não ter.

Exactamente. Mas terei que deixar coisas, a pouco e pouco. Estou pelo segundo ano na Europa Nostra; é algo que espero encaminhar, virão outras pessoas, será necessário eleger outro presidente quando eu sair. Tenho que ser exigente, há certas óperas que não permitem viver uma vida assim. Por exemplo, se depois de amanhã tivesse que cantar um Simone Boccanegra, o dia de amanhã teria que ser um dia de silêncio absoluto, ou quase. Essa é a regra.

 

Queria saber se o cancro, em 2010, alterou a sua vida. De uma maneira muito directa, viu que o seu corpo lhe impunha limites?

Foi uma surpresa, como normalmente acontece com estas coisas. Quando ouvi a palavra, surpreendeu-me o facto de não sentir aquilo que era tabu para mim. Era uma palavra que era tabu. A pessoa não quer pensar. Sabe que é frequente, que infelizmente existe, que é uma das doenças mais terríveis e comuns. Mas tive fé. Foi identificado e localizado [cedo], os médicos disseram-me: “Plácido, se não se alastrou, tudo vai correr normalmente”. E o que aconteceu foi que, depois de cinco semanas, já estava a cantar novamente.

A idade, por si só, faz-nos pensar que resta muito menos tempo para viver do que aquele que já vivemos. Mas quando temos uma coisa assim, enfrentamo-nos com a realidade.

 

É como saber que já não é invencível.

Sim. Que estamos de passagem. No outro dia estava a falar com o meu querido amigo, o maestro [e pianista Daniel] Barenboim, que me dirigiu nessa noite, e ele dizia: Se eu pudesse falar com Deus dizia-lhe: Deus, eu, na minha vida, toquei piano tantas, tantas vezes, toquei notas falsas, esqueci-me de passagens; quando dirijo faço muitas coisas mal. A verdade é que passo mal porque não sou um músico como gostaria de ser. Mas peço-Te, de qualquer maneira, que me deixes ficar aqui muitos mais anos para que possa melhorar!” [risos] É uma frase muito Daniel, mas acompanha-me, absolutamente. “Deixa-me fazer as coisas melhor, deixa-me ficar aqui mais tempo!”

 

Você tem muita consciência dos seus fracassos, teme os seus fracassos?

Penso que é parte de tudo. Felizmente, tive uma carreira bastante estável.

 

Está a ser modesto ao dizer isso.

Não, bastante estável, porque as coisas correram bem. Não houve momentos demasiado difíceis, ainda que tenham existido alguns. Mas faz parte. Estamos na corda bamba, somos equilibristas. Especialmente o tenor. Ao cantor pode falhar uma nota, tal como uma bailarina pode cair. Somos humanos, acontece e há que aceitá-lo. É um acto de humildade saber aceitá-lo. Examinar o que se passou, esperar que não aconteça [novamente].

 

Mais uma pergunta, pode ser? Sei que passámos a hora combinada.

Sim, claro.

 

Na sua infância, os seus pais cantavam-lhe zarzuelas. Gostaria que me falasse dessa memória.  

A zarzuela foi a primeira música que ouvi na minha vida. Eram grandes cantores de zarzuela, inspiraram-me muito. Aprendemos sem querer. Não me apercebi [de que estava a aprender]. Tenho um filho que é cantor, música crossover, e que é compositor.

 

Que peso. Ser o filho do Plácido Domingo.

Não! Começou tarde. Tem agora 45 anos e está a começar. Mas muito bem, o disco está muito bem. Também os meus outros filhos, que não são músicos, sem querer, assimilaram todo o repertório. Sabem de memória as óperas. Ou seja, eu senti-o desde pequeno.

 

Se cantasse uma canção para a sua mãe ou para o seu pai, que canção seria?

Os meus pais conheceram-se numa obra que se chamava Sor Navarra, do maestro Frederico Moreno Torroba, que é o compositor de Luísa Fernanda, uma das zarzuelas mais famosas que sucede entre Madrid e Extremadura. (Estamos perto de Portugal!) Nesta obra, a minha mãe pedia ao meu pai... Ela estava apaixonada pelo meu pai na obra, e o meu pai disse: “Insistiu tanto comigo que depois de três meses disse-lhe que sim, e casámos.”

Havia uma canção que cantava [Plácido canta]: “No me abandones Navarra... ai ai ai... no me abandones Navarra, lucerico, palomica”. Ele dizia-lhe a ela: “Eu, uma vez, falhei, caí, tive uma queda, e não te esqueças que Jesus, no monte ao calvário, caiu três vezes, e Ele é Deus e eu sou homem, nada mais. Então perdoa-me”. Esta canção tem um sentido, tem um sentido na vida. Que todos nos enganamos e que temos que saber pedir perdão, e ser generosos também, ao dá-lo.

 

Cantava para a sua mãe?

Cantava.

 

Porque uma coisa é cantar, profissionalmente. Outra coisa é cantar pelo prazer de cantar.

Cantávamos. A minha mãe nasceu no País Basco, em Guetaria, onde nasceu Juan Sebastian Elcano, que foi quem terminou a viagem à volta do mundo, em que Magalhães morreu; e também Balenciaga, o grande designer de moda. Elcano, Balenciaga e a minha mãe [risos], nasceram no mesmo lugar. Para mim, claro, muito importante. Punham-me a dormir, a minha mãe e o meu pai, com uma canção em basco, que me tranquilizava muito. E depois, cantávamo-la os três.

 

Esta é provavelmente a entrevista 5438 da sua carreira. Todas as perguntas já lhe foram feitas. Pergunto-me sempre se há alguma coisa que o entrevistado quer dizer e que o entrevistador não perguntou.

Não. Penso que foi uma entrevista que me fez pensar acerca da minha vida, da combinação da vida pública que tenho com a vida privada.

 

Não estava a pedir elogios, mas obrigada.

Agradeço-lhe. Vai estar esta noite [na cerimónia de entrega dos prémios nos Jerónimos] e amanhã [em Mafra]?

 

Infelizmente não.

Há uma coisa que quero dizer. Estou muito feliz que um dos prémios que se vai dar é pelo restauro dos  [seis] órgãos [da Basílica] de Mafra. Por coincidência, ofereceram-me, já faz quase dois anos, [a possibilidade de fazer] um concerto com eles; e, na verdade, entusiasma-me muito. Será apenas uma questão de procurar o momento. Espero aproveitar muitíssimo amanhã em Mafra, e esta visita a Portugal que foi – tem que ser –  curta, mas muito intensa. Espero poder voltar muito em breve para cantar em algum concerto e cantar em Mafra. Tenho muita pena de não cantar lá, mas tenho que cantar em Verona amanhã à noite.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2012

 

 

Michelle sabe cantar a Grândola

01.09.18

Michelle e Evelyn conheceram-se na infância. Os seus pais, militares da Força Aérea, foram amigos próximos. A relação foi brutalmente interrompida em 1973. Alberto Bachelet foi acusado de traição à pátria e torturado por militares, Fernando Matthei aderiu ao golpe de Pinochet e integrou a Junta Militar. Quarenta anos depois, as duas mulheres defrontaram-se em eleições presidenciais. 

 

1. Ángela

Antes de Michelle Bachelet, foi Ángela Jeria, a sua mãe, que cruzou o átrio do hotel San Francisco. É um hotel de quatro estrelas, com veludos puídos e apliques de latão, que recebe tradicionalmente as campanhas dos candidatos de esquerda. Fica a dois passos do palácio presidencial La Moneda, numa zona da cidade onde as avenidas são largas e se encontram pobres duas ruas atrás. O ambiente não era eufórico. Às nove da noite já era seguro que haveria uma segunda volta das eleições presidenciais. Mas o contentamento de uma vitória folgada misturava-se no ar quente, ouvia-se nos brindes com pisco sour.

A candidata da coligação de esquerda Nueva Mayoria tinha 46, 68% dos votos contra 25, 01% de Evelyn Matthei, a candidata da coligação de direita (Alianza). Os resultados eram avançados pela CNN Chile, visíveis em vários ecrãs.

Ángela Jeria descia do quarto andar onde Michelle Bachelet ainda se encontrava. Era abordada a cada passo, a cada olhar. É uma mulher tesa, de 87 anos, expressão corajosa, quase desafiante. “De Portugal? Vem de Portugal?”, perguntou à repórter da revista 2. “A Michelle sabe cantar a Grândola de cor”.

A Grândola Vila Morena aprendida do outro lado do mundo. Talvez entoada como uma oração. Ou um grito de resistência. Sabida verso a verso. De cor. Uma senha de liberdade. Um sonho.

Quando Portugal celebrava a democracia, Michelle Bachelet tinha 23 anos, estudava medicina e militava no Partido Socialista do Chile. O pai, um general da Força Aérea, havia morrido de ataque cardíaco na prisão, em Março desse ano, na sequência da tortura a que tinha sido sujeito. A fidelidade a Allende e à Constituição, após o golpe de Pinochet, custou-lhe a vida.

Foram a mulher e a filha que reconheceram o corpo nos calabouços do cárcere público de Santiago. As duas mulheres prosseguiram a luta num país em fogo e em Janeiro de 1975 foram presas no centro de tortura Villa Grimaldi. Um ano depois, exilaram-se, primeiro na Austrália, depois na Alemanha.

 

2. Michelle e Carolina

Michelle não é Carla nem Francisca nem Macarena, as personagens da peça de Guillermo Calderón de 2010. Villa é uma hora de agonia emocional e põe três mulheres de 33 anos (ou seja, nascidas no ano do golpe) a discutir o que fazer no espaço antes ocupado pela Villa Grimaldi. Um museu?, um parque?, um centro documental?

“Quando terminou o antigo regime, nenhum presidente foi a correr a Villa Grimaldi, dizendo deixem-me passar. Que crime espantoso. Ai. A partir deste momento, este vai ser o novo umbigo do mundo, o quilómetro zero da justiça. Esta terra. Neste país não se dança mais uma cumbia, não se constrói nenhuma escola, não se borda nenhum pano até que solucionemos o problema desta Villa. Mas não. É como se isto nunca se tivesse passado.”

O texto de Calderón, nascido em 71, um dos dramaturgos mais reputados da sua geração, é uma maneira de interrogar o passado e saber como fechar esta ferida na sociedade chilena.

Três anos após a estreia da peça, o problema a que alude uma das personagens não tem solução. Mas aqueles anos deixaram de ser uma sombra de chumbo de que os mais novos tinham uma notícia pálida.

Os mais novos: os que nasceram depois do plebiscito de 1988, que formalmente afastou Pinochet do poder, e que viveram toda a vida em democracia. Esses, diz Carolina Tohá, a actual presidente da câmara de Santiago, começaram a interpelar os pais. “Quiseram saber o porquê de esta história tão dramática estar tanto tempo submergida. Quando se comemoraram os 10 anos do golpe, estávamos ainda em ditadura. Quando se comemoraram os 20 anos, estávamos numa frágil democracia. Quando se comemoraram os 30, fizeram-se as primeiras acções públicas e abriu-se um debate político. Mas agora, que se comemoraram os 40 anos, abriu-se um debate na sociedade em geral, e em especial nas novas gerações”.

Carolina Tohá nasceu em 65. Tinha oito anos quando o pai, ministro do Interior e da Defesa de Salvador Allende, foi estrangulado, seis meses depois do golpe de Pinochet. Estrangulado. Carolina viveu boa parte da infância exilada. Quando terá adquirido a gravitas que acompanha o discurso, os modos, e que o sorriso constante não apaga? É uma mulher franzina e assertiva. Militou em acções políticas desde a juventude, doutorou-se em Ciência Política em Itália, foi ministra no primeiro mandato de Bachelet (2006/2010).

Se ela podia ser outra coisa que não política? “Podia. Mas teria de ser outra pessoa. Se eu fizesse cinema, seria um cinema político. Se fosse académica, faria uma reflexão política. O meu irmão vive nos EUA, é arquitecto, tem uma cabeça tão política como a minha. A política está entalada na nossa biologia.”

As histórias de Michelle Bachelet e Carolina Tohá não são a mesma história, apesar da cicatriz comum – os seus pais foram vítimas da ditadura. As duas podem encontrar do outro lado do passeio uma personagem sinistra da sua tragédia pessoal. “Antes de se tornar chefe de Estado, Michelle Bachelet costumava ver um dos seus torturadores no elevador do edifício em que morava. Um dia ela disse-lhe: “Eu sei quem o senhor é. Eu não esqueci”. Embora ele nada respondesse, todas as vezes que ela o via, depois disso, o homem baixava a cabeça e ficava olhando para os sapatos. Os tempos mudaram, e o indivíduo no elevador finalmente foi processado e preso”, lê-se no livro A Sombra do Ditador, do político e embaixador chileno Heraldo Muñoz.

Michelle e Carolina encarnam o novo Chile que acerta contas com o passado e consolida a história numa diferente direcção – a democrática. Mas tudo foi ontem e foi há uma eternidade. “Há maneiras distintas de viver a dor e guardar a memória. Quando alguém reconhece outro que o torturou e a sua reacção é encará-lo e gritar-lhe e agredi-lo, não podemos condenar. É humano, profundamente humano. Também é profundamente humano dizer: “A minha forma de julgar-te não é agredir-te. É olhar-te nos olhos e constatar como somos diferentes,” diz Tohá.

A sua voz tem força física, ocupa todo o gabinete de trabalho. Encontramo-nos num sábado de manhã, véspera do dia de eleições (16 de Novembro). A câmara municipal fica na Plaza de Armas, ao lado da imensa catedral e do Paseo de Ahumada. É um ponto nevrálgico da cidade antiga, ruidosa e pobre. Nas galerias comerciais vendem-se próteses, utensílios de todo o tipo, pilhas, relógios, correias de relógios. (Nada se perde, tudo se recupera.) No meio da praça há um coreto onde se joga xadrez ao fim da tarde. Dezenas de tabuleiros, só homens. Há um piano público que convida “Play me, I’m Yours”.

O tema da reparação tem diferentes reverberações quando vivido familiarmente ou no espaço público. Porém, a resposta de Tohá é unívoca. “Eu estou do lado dos que acham que o grande acto de justiça é uma aprendizagem cultural desta história. Que nunca mais possa acontecer que, com a condescendência da sociedade, se matem chilenos. Pinochet morreu sem ser julgado. É uma história com a qual vamos ter que viver. Há casos em curso, como o da morte do meu pai. Há tentativas de encerrar julgamentos. Ou de fazer uma espécie de amnistia. Mas o nosso drama não é só penal. Os nossos familiares morreram e os que os mataram conseguiram deixar uma marca de sangue no país por décadas. Esse é o seu maior triunfo. Eles e o seu projecto continuam a definir os limites do que o nosso país pode fazer, os sonhos que podemos ter.”

Era a primeira vez que ouvíamos a palavra sonho. Não pareceu uma palavra deslocada, mas uma palavra assombrosa. Como uma flor que irrompe do cimento. Onde cabe a palavra sonho no discurso de uma política que perdeu o pai por razões políticas e que fez da política o instrumento para falar da palavra sonho?

 

3. Heraldo

Heraldo Muñoz passou 17 anos a lutar. Participou na resistência à ditadura, foi um dos fundadores do movimento que restabeleceu a democracia no Chile, em 1990. Foi ministro do governo de Ricardo Lagos (2000/2006), publicou o livro de memórias políticas A Sombra do Ditador (2010), é subsecretário geral da ONU e responsável pelo PNUD (o programa da ONU para o desenvolvimento) para a América Latina e Caribe. Quando lhe perguntámos se o passado está enterrado, assumiu um tom contundente. “Não totalmente. É difícil dizer: acabou, esquecemos, olhemos o futuro. Evidentemente uma sociedade não pode viver no passado, e o Chile tem feito um bom exercício no sentido de avançar. Mas estes crimes foram crimes de lesa humanidade. São crimes que não podem ser amnistiados.”

Está em Santiago para votar, vindo de Nova Iorque, onde mora. Acompanha a noite eleitoral no hotel San Francisco. Troca impressões com velhos compagnons de route, com o ex-presidente da Guatemala (que dirá, dias mais tarde, que a grande vantagem de um ex-presidente é poder dizer tudo o que um presidente não pode dizer), circula com elegância entre as várias esferas do poder. Muñoz sabe que é um nome que conta. A participação no governo de Lagos liga-o a um momento histórico da vida do Chile. O lugar que ocupa na ONU destaca-o na esfera internacional. Três dias depois das eleições, apresentou um relatório sobre Crescimento e Insegurança na América Latina, na sede da ONU no Chile.

Ricardo Lagos foi o primeiro socialista a ocupar o palácio presidencial depois do golpe e depois de Pinochet ter garantido que nunca mais um socialista se sentaria em La Moneda. Em termos simbólicos, foi uma vitória retumbante sobre o pinochetismo. Em termos efectivos, foi um governo de mudanças substanciais nos planos político e valorico (como se diz no Chile). Foram expurgados da Constituição os elementos mais militaristas e restituída a autoridade presidencial em relação às forças armadas; foram eliminados os senadores vitalícios; foi introduzida a lei do divórcio, a sodomia deixou de ser crime. O mais importante: provou que era possível manter um bom desempenho económico em democracia. Desse modo derrotou a diabolização da besta comunista que Allende encarnava.

“Vivo no exterior há muitos anos e as pessoas continuam a dizer-me: “Houve assassinatos e violações dos direitos humanos. Mas não foi com Pinochet que começou o milagre chileno?” Em Setembro, quando passavam 40 anos sobre o golpe, escrevi uma crónica para o Washington Post deixando claro que Pinochet não mudou o Chile. O Chile tinha mudado há muito tempo. Antes da ditadura tínhamos um banco central sólido, tínhamos instituições, tínhamos níveis de educação dos mais altos da América latina”, detalha Muñoz em entrevista à revista 2. A ideia de que os resultados em termos económicos e sociais são melhores com um congresso a funcionar e uma imprensa livre tinham sido explicitados no seu livro de 2010: “Os custos sociais das políticas económicas de Pinochet foram imensos. Ele não construiu um único hospital enquanto esteve no poder. (...) O Chile é o país da América Latina que mais cresceu entre 1990 e 2006.”

Estes foram os anos da transição para a democracia, de consolidação da democracia – o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros e que, no caso do Chile, tem sido “vigoroso, mas imperfeito”, na definição de Muñoz. “Não derrotámos militarmente o governo de Pinochet. Foi uma derrota política, num plebiscito. Uma situação idêntica à espanhola. Mas aqui “Franco” [Pinochet] ficou vivo. E não só ficou vivo como ficou chefe do exército. Imagina a transição em Espanha com Franco vivo e chefe do exército? Pinochet tentou ser o poder por trás do trono. Tivemos que negociar muito”.

 

4. Antonio

Foi em 1989, em plena transição para a democracia, que Antonio Skármeta regressou ao Chile. O autor do livro que deu origem ao filme O Carteiro de Pablo Neruda passara os últimos 15 anos exilado na Alemanha. Partira por razões políticas, com o propósito de voltar.

Santiago continuava repleta de ceibos, que em flor assumem uma cor escarlate, e de jacarandás iguais aos de Lisboa. A modernização era notória. Mas havia algo que não era o mesmo. A cara das pessoas tinha mudado. Estava mais crispada, menos exuberante, como se um manto de desconfiança as toldasse. “A energia espiritual, a espontaneidade, haviam sido mitigados. Pareceu-me que tinham transformado o Chile num país convencional. Era um período de uma repressão fina e cínica, mas sistemática, unida a uma abertura e tolerância, que trabalhei muito nos meus livros. Viver em águas turbulentas requer uma técnica muito especial...”

O que Antonio Skármeta viu quando regressou foi a expressão do medo. Um medo incorporado, nem sempre consciente, que ficou como uma membrana pela qual não se dá.

Passaram quase 25 anos desde o regresso. Falámos no seu gabinete de trabalho, ao lado do jardim, ao lado de casa. Cirandam por ali um gato que parece feroz e um cão que tem o pêlo de um peluche. Tudo ao contrário, uma estranheza boa. No gabinete há livros, memorabilia de O Carteiro, papéis.

“O medo era uma coisa que nós, os que vínhamos de fora, notávamos. Os que tinham ficado, acostumaram-se. Agora o país está estabilizado, a democracia está consolidada. Mas sabe como é uma casa que está degradada e que antes tinha uma cor colorida? É isso. É um país marcado pela prudência. Os chilenos puseram-se limites.” Os anos do governo de Allende foram o desregramento, a ausência de limites? “Não. Quando falava de energia criativa, não falava do período Allende. Os anos de Allende foram uma exacerbação disso. É preciso notar que o golpe de 73 é um golpe contra toda a tradição democrática chilena. Não é só um golpe contra um governo socialista que estava no poder há três anos.”

Skármeta também sabe cantar a Grândola, símbolo de terra de fraternidade. Canta alguns versos com a sua voz tonitruante, faz o corpo andar de um lado para o outro, como um pêndulo, como um alentejano da terra. Nesse momento ele é do povo, quer ser do povo. Alimenta-se de um “horizonte épico” que desapareceu da esquerda. “A palavra mais significativa que desapareceu do vocabulário político é “povo”. Desapareceu completamente! Agora diz-se “gente”. “É o que a gente quer”. “Há que estar ao lado da gente”. “Oiçamos o que a gente diz”. Recentemente escrevi um artigo e dei-me o prazer de escrever “povo” – conclui, com um riso provocador.

Povo é uma palavra com peso ideológico. Não é fácil encaixá-la no léxico reformista mas não revolucionário de Michelle Bachelet. Quem quer uma revolução no Chile? “Outra palavra que deixou de se usar: revolução”, aponta Skármeta. Ainda assim, a Alianza, a coligação encabeçada por Evelyn Matthei, usa esse fantasma para agitar o centro-direita que confia na temperança de Bachelet. É no centro que se joga o destino eleitoral. Não é despiciendo que na primeira volta um candidato à esquerda de Bachelet e um candidato à direita de Matthei tenham conquistado cerca de 10% dos votos, cada. Um quinto do eleitorado estava com eles, mas os dois juntos não obtiveram tantos votos quantos os de Matthei, e Matthei teve um dos piores resultados eleitorais da história da direita chilena (25, 01% foi a votação final).   

 

5. Victor

Skármeta saiu do Chile no ano em que se fundava em Portugal a Brigada Victor Jara. Saber da existência de uma banda que presta tributo ao músico e activista iluminou a cara do escritor. Foi quando cantou Grândola Vila Morena que lho dissemos.

Victor Jara morreu com 44 disparos no corpo no dia 15 de Setembro de 73. Quarenta e quatro. Quatro dias depois do golpe. Foi preso no Estádio Chile, com milhares de dissidentes, em grande parte estudantes e professores universitários, torturado e fuzilado. O seu corpo foi atirado para uma valeta. Tinha quarenta anos e um álbum chamado El Derecho de Vivir en Paz.

Oito oficiais foram acusados do seu assassinato. O principal vive nos Estados Unidos. A extradição foi pedida a despeito de o então tenente ser casado com uma americana (o que torna praticamente impossível a extradição). A acusação foi formalmente feita no final do ano passado, 39 anos depois. Trinta e nove anos.

O Estádio é um dos locais de voto mais populares de Santiago. Votam ali 68 mil eleitores distribuídos por 180 mesas de voto. São duas da tarde do dia 17 de Novembro, o calor está nos 26 graus. A circundar o estádio há militares de camuflado, postos da Cruz Vermelha, activistas que lembram os muertos invisibles. A afluência às urnas não é extraordinária. (A abstenção será próxima dos 50%.) Alguns poucos milhares de pessoas circulam com a descontracção de quem vai ao futebol. Votam porque querem votar. (É a primeira vez numas eleições presidenciais que o voto não é obrigatório.) Além das eleições presidenciais, há eleições para o senado, o parlamento e para conselheiros regionais. As urnas são de madeira, têm uma parede transparente e é possível ver a quantidade de votos que se amontoam. As mesas e as cabines sucedem-se ao redor do estádio, debaixo de um anel de betão. Lá dentro é o recinto de jogos, as bancadas, aquilo que há quarenta anos foi um campo de concentração. Mas é impossível visitá-lo naquele dia.

 

6. Pinochet e o pinochetismo

O golpe foi há 40 anos, o fim do pinochetismo formalmente aconteceu há 25 anos. Mas já aconteceu de facto? Desmontar pedra a pedra o pinochetismo teve marcos significativos. Um dos pilares, considera Heraldo Muñoz, derrocou em 2005 quando Pinochet foi preso por fraude fiscal e falsificação de passaporte. “Pela primeira vez, era processado e preso por acusações que nada tinham a ver com direitos humanos. Alguns pensaram estar testemunhando uma situação tipo Al Capone... (...) O caso custou a Pinochet grande parte do seu apoio entre políticos e empresários conservadores. No Chile, o país menos corrupto da América Latina, roubar era considerado um crime mais grave, digamos, do que ser indirectamente responsável pelo assassinato de presos políticos” (A Sombra do Ditador).

Antonio Skármeta destitui de importância real o pinochetismo. “Se houver uma missa para Pinochet, ainda encontrará 150 velhas e três jovens. Mas o pinochetismo acabou-se quando os partidos de direita aceitaram o jogo democrático. Falo dos grandes partidos, a UDI (Unión Demócrata Independente) e o Renovación Nacional. Há três, quatro anos, numas eleições municipais, neste bairro, que é um dos mais ricos do Chile, e completamente de direita, apresentou-se como candidato a um cargo de conselheiro um neto de Pinochet. O seu único lema era: sou neto de Pinochet. Não o aceitaram no Renovación Nacional nem na UDI. Apresentou-se isolado. Não conquistou mais do que 800 votos, coisa assim.”

Apesar desta recusa, sintomática de um desapego emocional que a classe abastada tem em relação ao pinochetismo, há uma sombra de Pinochet sobre a vida do Chile. Está expressa na Constituição e no sistema político binominal.

Resumido a traço grosso, este sistema eleitoral obriga a que haja dois candidatos por círculo. A coligação que tiver 33,4% tem tantos deputados e senadores eleitos quanto a coligação que tiver 66,6%. Na prática, o mecanismo impede que mudanças estruturais sejam aprovadas e concretizadas. Uma proposta menos consensual esbarra na força hercúlea da oposição.

O sistema político binominal foi imposto por Pinochet após a derrota no plebiscito de 88. O jogo continuou a ser jogado consoante as suas regras. “Foi o golpe legal de Pinochet. Um golpe genial”, acusa Skármeta. Um segundo golpe, depois do golpe militar de 73, que mantém a esquerda refém do seu jogo político 25 anos depois.

Carolina Tohá faz uma pequena pausa quando lhe perguntamos se o fim do pinochetismo já aconteceu. “Nos últimos meses viveu-se um dos capítulos mais importantes: a derrota do esforço que foi feito para matar a memória. Neste aniversário [Setembro 2013], o tema entrou massivamente nos meios de comunicação de todo o tipo”. O tema entrou inclusive em séries de televisão e documentários que abordavam o impacto emocional que o golpe teve nas famílias chilenas. Um passo na lua.  

Mas o grande passo talvez tenha sido dado pela direita, que começou a fazer um exame da herança pinochetista. Não a direita militar, mas a direita política, especifica Tohá. “Os protagonistas interpelados são os militares que exerceram directamente a repressão. Mas o suporte político deste governo ficou invisível. Esses políticos são os predecessores dos actuais políticos de direita. E alguns – muito poucos, mas relevantes – fizeram condenações categóricas. Afirmaram que havia uma responsabilidade por assumir.”

O presidente cessante Sebastián Piñera foi um desses quando falou de “cúmplices passivos” em Setembro passado. Um discurso audaz que não foi acompanhado pelo seu partido de centro-direita, o Renovación Nacional. “Nenhum dos candidatos de direita, nas primárias, se atreveu a dizer que o governo de Pinochet foi uma ditadura”, recorda a alcaldesa de Santiago tocando num ponto sensível. Falar de “ditadura” ou “governo militar” não é uma questão semântica.  

 

7. Lily e Evelyn

A senadora de direita Lily Peréz usa a expressão “governo militar” para se referir aos anos de Pinochet. Vamos ao seu encontro na sede de campanha de Evelyn Matthei, no hemisfério da cidade onde se situa o poder económico. É aí que ficam os bairros Providencia, Vitacura e Las Condes, com os seus edifícios espelhados e vivendas resguardadas por um muro. Nas ruas não se encontram índios mapuches nem homens pobres a engraxar sapatos. As pessoas têm (ou gostariam de ter) o ar lustroso de Evelyn Matthei. Os cartazes dependurados nas árvores ou nos edifícios são quase exclusivamente de candidatos de direita. Não é raro ver um cartaz de Michelle com a cara desta recortada. Explicam-nos que o vandalismo eleitoral é frequente e acontece dos dois lados da barricada.  

A sede é uma casa alugada para o efeito, com dois pisos, em frente à sede da UDI, o partido de Matthei. Lily é a porta voz da campanha e dá uma conferência de imprensa quando chegamos. Explica qual vai ser o calendário da sua candidata e tenta disfarçar o desalento que está no ar. As sondagens são catastróficas.

A entrevista com Lily não era sobre Evelyn. A senadora do Renovación Nacional, que proclama ser a mais liberal dos senadores do seu partido, não tentou desviar a conversa para a campanha ou para questões políticas imediatas. O grande tema era o momento de definição que a direita atravessa. “O mês de Setembro e estas eleições, independentemente dos resultados, vão implicar uma crise profunda e uma revisão sobre o lugar onde nos encontramos” começa por dizer.

Talvez por ser uma entrevista a um órgão de comunicação estrangeiro, Lily foi especialmente crítica em relação ao seu partido e à UDI, os partidos que apoiam a candidatura de que é porta-voz. “O que me decepcionou nos últimos anos foi o meu sector político.” Parece uma pessoa que traz um fato que sabe que não é o seu, mas que não pode despir completamente. Cola-se “100%” a Piñera no tom que o presidente assumiu em Setembro (além de falar de cúmplices passivos, Piñera encerrou a Penal Cordillera, uma cadeia exclusivamente dedicada a militares acusados de violação dos direitos humanos) mas não é capaz de usar a palavra “ditadura” para se referir ao pinochetismo.

A escolha de palavras não é aleatória. Mas o fervor com que é discutida diz respeito sobretudo ao sector político, pensa Lily. “As pessoas estão mais reconciliadas do que a sua classe política. Há pessoas de direita que votam em Bachelet. Houve pessoas de esquerda que votaram em Piñera (que ganhou com 53% em 2010).” O que falta então fazer para sanar este conflito ideológico? “É preciso que tenhamos um diagnóstico comum. Que não existe, de todo. Um diagnóstico que explicite que existiu violência política, que o golpe militar produziu violação de direitos humanos, que houve tortura, exílio, prisões. Há elementos de esquerda que justificam as acções de luta armada [nos anos subsequentes ao golpe]. Já são poucos os elementos de direita que justificam a violação de direitos humanos.”

O discurso da senadora Lily Peréz aponta numa direcção: destrinçar pinochetismo e direita. Não são equivalentes, mesmo que tenham coincidido ou que episodicamente coincidam. “O pinochetismo não é a direita. É um sector da população. É um sentir de algumas pessoas que viveram em carne viva os maus momentos do governo de Allende. Mas não são pessoas que ideologicamente sejam de direita. Não sei qual é o voto que identifica o pinochetismo duro... O voto é um fenómeno muito mais social do que político. No fundo, depende do candidato.”

Lily Peréz e Evelyn Matthei não defendem uma nova Constituição. “As reformas constitucionais que se fizeram foram as necessárias”, defende a senadora. Todas as intervenções da candidata presidencial são no mesmo sentido.

A esquerda considera que esta Constituição, no essencial, e apesar de todas as alterações que foram introduzidas, continua a ser a que Pinochet escreveu. Michelle Bachelet fez desta uma das linhas do seu discurso eleitoral. Os outros dois pontos foram reforma tributária e educação gratuita. (Na apresentação do relatório da ONU que coordenou, Heraldo Muñoz foi minucioso: “A educação universitária chilena é a mais cara do mundo! Os protestos [dos últimos anos] não são só dos estudantes, são também dos pais dos estudantes, que se endividam para pagar uma educação tão cara e de má qualidade.”)  

Há um aspecto em que Lily está ao lado da esquerda: a urgência de mudar o sistema político: “Os círculos binominais têm artificialmente dividido o país em duas metades”. Porque é que não se muda? Porque para isso é preciso ter uma maioria altamente qualificada (26 em 38 senadores e 81 em 120 deputados) para mudar a lei e a Constituição.

 

8. Michelle

Este domingo, 15 de Dezembro, é a primeira vez na história do Chile que duas mulheres estão na segunda volta das eleições presidenciais. É também a primeira vez que a direita está nas eleições presidenciais com uma candidata mulher. Não é um detalhe num país que tem “cafés com pernas”. Quer dizer, cafés frequentados por homens onde as mulheres atendem com micro-saias e sapatos vertiginosos.   

Um taxista explica-nos porque são duas mulheres que concorrem. “Porque as mulheres não roubam. Os homens roubam um bocadinho”. A mulher é a mãe de família, e numa sociedade tão tradicional e machista quanto a chilena, esse valor é importante. O taxista votará em Evelyn, ainda que considere que Michelle fez um bom trabalho no primeiro mandato (a Constituição não permite que os mandatos sejam consecutivos). “Pero a mí me encanta la derecha.”

Pode não ser só conversa de taxista. Pode ser que estas eleições, onde duas mulheres se apresentam, representem também a derrota de um período militar, masculino, com mácula. O que fica desses anos? Fica a perda da inocência para milhares de chilenos, cicatrizes emocionais que acompanham milhares de famílias. Segundo os relatórios da Comissão de Verdade e Reconciliação (conhecido como relatório Rettig) e a Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (relatório Valech), o número de vítimas directas da violação dos direitos humanos no Chile ascende aos 35 mil. Trinta e Cinco mil. Presos, perseguidos, desaparecidos, torturados, mortos. Camponeses, professores universitários, estudantes, militares, donas de casa. Pessoas iguais a outras pessoas.

Quando Michelle surgiu no espectro político, era uma pediatra socialista que Ricardo Lagos convidava para o Ministério da Saúde. Lagos lançou-lhe um repto impossível: terminar com as listas de espera nos hospitais públicos em 90 dias. No nonagésimo dia, Michelle reconheceu não ter sido capaz de acabar com o problema. Havia 750 mil operações em espera, baixou o número em 90%, ainda assim não cumpriu o pedido. Pôs o lugar à disposição. De repente, os chilenos deram por esta mulher que renunciava ao cargo por não ter sido capaz de resolver integralmente um problema que se tinha proposto resolver.

Depois houve a transição para a pasta da Defesa e uma fotografia que se converteu num símbolo da reconciliação nacional. Michelle, a pediatra socialista, torturada em Villa Grimaldi, filha de um militar morto pelos militares, chefia os militares, e está, num cenário de catástrofe natural, ao lado de militares, envergando um fato militar, num carro militar. Era uma metáfora do tempo que aí vinha. Que já era, incipientemente. Mas que já era, e que prometia muito. Não tudo, mas muito.

No táxi, o rádio emite anúncios das candidatas. A voz de Evelyn tem uma tonalidade dura e metálica, uma oscilação nervosa. A voz de Michelle é quente e maternal. “Chamo todas as pessoas moderadas, que não acham que é preciso fazer uma reforma completa da Constituição, que não acham que é preciso deitar abaixo a casa, a votar no número 7”, diz a candidata de direita. Michelle não se desvia do seu âmago e faz com que só se ouça a palavra desigualdade. O crescimento económico imparável, situado entre os 5 e os 6%, não é suficiente para resolver o problema – “a principal ferida do nosso país”, diagnosticou ela no comício de encerramento da campanha.

(A América Latina, diz Heraldo Muñoz, é região mais desigual do mundo. Não a mais pobre, mas a mais desigual. E ainda que o Chile seja o menos desigual dos países da América Latina, é mais desigual do que Portugal, que até à entrada da Bulgária e da Roménia era o país mais desigual da União Europeia.)

A não ser que se abata um cataclismo sobre a Primavera chilena, não é expectável que Michelle Bachelet não saia presidente destas eleições. Além de cumprir as promessas eleitorais, tem como tarefa para os próximos anos devolver o sonho a diferentes gerações de chilenos.

O sonho. Palavra assombrosa. Que durante anos pareceu deslocada. 

O dramaturgo Guillermo Calderón, a quem o teatro serve para pensar, resume o sentimento de muitos. “A diferença que tenho com a geração dos meus pais é que eles, sim, conheceram a democracia. Eu, ao contrário, cresci em ditadura. Eles queriam recuperar algo perdido. Mas eu sempre quis algo imaginário, que nunca vivi. Talvez por isso, o Chile nunca chegará a ser o que eu quero”.  

O que quer Michelle para o Chile? Talvez seja o mesmo que Michelle quer para si, honrando o pai, suturando o passado. A sua provável vitória não será uma vitória de uma mulher sobre um homem..., e talvez sim, talvez seja, se esse homem for Pinochet. Também é a vitória de uma mulher sobre outra mulher que tem manchas do passado. É seguramente a vitória de um tempo que supera outro. Uma forma de continuar a dizer “No”.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

Ler Eça de Queiroz no Chiado

01.09.18

Carlos da Maia e Maria Eduarda, o Conselheiro Acácio e a Criada Juliana, Amaro e Amélia, Jacinto, uma pele com a "brancura tenra e láctea das louras", o incesto, o escândalo, a Lisboa do século XIX, uma pena corrosiva, o Eça. Passam 130 anos desde a publicação de Os Maias: bom pretexto para fazer um elenco de personagens queirosianas, para falar do estilo e do legado de Eça de Queiroz. Com Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra, e a leitura de excertos das obras por Isabel Abreu, actriz.

Não perca o próximo Ler no Chiado, dia 26 de Setembro, às 18.30, na Bertrand do Chiado. Eu modero.