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Anabela Mota Ribeiro

Sobre Mim

25.10.18

Anabela Mota Ribeiro nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa.

 

É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Filosofia (variante Estética) com uma tese sobre "A Flor da Melancolia e o Ímpeto Cesariano (ou a Negação e a Afirmação da Vida) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis". 

 

Publicou os livros “O Sonho de um Curioso” (2003), com 14 entrevistas, "Este Ser e não Ser - Cinco Conversas com Maria de Sousa" (Maio de 2016), "Paula Rego por Paula Rego" (Novembro 2016), "A Flor Amarela - Ímpeto e Melancolia em Machado de Assis" (Fevereiro 2017) e "Por Saramago" (Novembro 2018).

 

Jornalista freelance, colaborou com diversos jornais e revistas, entre eles, e de forma sistemática, DNa (suplemento do Diário de Notícias), Jornal de Negócios e Público.

Autora e apresentadora de programas de televisão na RTP. O mais recente, "Curso de Cultura Geral", teve exibição nos primeiros meses de 2017 e 2018 na RTP2. 

 

Foi comissária do festival Somos Douro, a convite da CCDR-N, no âmbito do selo atribuído pela UNESCO ao Alto Douro Vinhateiro. O programa foi desenvolvido, essencialmente, entre 1 e 17 de Junho de 2018 nos 19 municípios da CIM Douro. 

 

Entre Janeiro de 2017 e Novembro de 2018, conduziu no Centro Cultural de Belém o ciclo "(Quase) Toda uma Vida", composto de entrevistas a figuras seniores da sociedade portuguesa, de diferentes áreas.

Organizou e moderou durante dez anos um debate mensal sobre livros na Bertrand do Chiado, o Ler no Chiado.

 

Com José Eduardo Agualusa, assinou a programação da Feira do Livro do Porto (Setembro de 2017 e 2018). 

Foi curadora da Folia, a programação festiva do Folio, o festival literário internacional de Óbidos, em 2015 (com Nuno Artur Silva) e em 2016. 

 

Trabalhou em rádio e foi correspondente da Antena 1 em Londres entre 2007 e 2008. Na Primavera de 2017 teve na rádio pública um programa de entrevistas sobre felicidade, "Todos os Sonhos do Mundo". 

 

Entre Julho e Dezembro de 2017, colaborou com o Museu de Serralves no ciclo "Novas Perspectivas", centrado no diálogo entre arquitectos, artistas plásticos e autores de diferentes disciplinas artísticas. 

Conduziu o colóquio “Nós, a Cultura e eu” na Fundação de Serralves em 2003. Comissariou o ciclo de conferências "O que é a América hoje?", co-organizado pela FLAD e Casa da Música, em 2011, e o ciclo de cinema “Noite e Nevoeiro – Portugal e o Holocausto”, organização da Cinemateca com a Embaixada dos EUA, FLAD e Gulbenkian, em 2013.

 

Com André e. Teodósio, concebeu o projecto "Estar em Casa" para o Teatro São Luiz, em Janeiro de 2016.

 

O género a que mais se tem dedicado, enquanto jornalista, é a entrevista. 

 

Desde Maio de 2013 disponibiliza o seu arquivo no blog www.anabelamotaribeiro.pt. 

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Fotografia: Estelle Valente

 

Anabela Mota Ribeiro was born in 1971 in Trás-os-Montes, Portugal, and currently lives and works in Lisbon.

 

She graduated in Philosophy by the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, within the Universidade Nova de Lisboa, a Lisbon University. Master in Philosophy (Aesthetics variant), her thesis was named “A Flor da Melancolia e o Ímpeto Cesariano (ou a Negação e a Afirmação da Vida) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis”.

 

She has published the books “O Sonho de um Curioso” (2003), “Este Ser e não Ser – Cinco Conversas com Maria de Sousa” (May 2016), “Paula Rego por Paula Rego” (November 2016), “Por Saramago” (November 2018), all of which contain interviews, and the essay “A Flor Amarela – Ímpeto e Melancolia em Machado de Assis” (February 2017).

 

As a freelance journalist, Anabela has collaborated with several newspapers and magazines, among them the DNa (an appendage of the Diário de Notícias), the Jornal de Negócios and Público.

Anabela is also an author and presenter of television programmes at RTP. The most recent one, “Curso de Cultura Geral”, aired its second season in 2018. The first season aired during this same time period in 2017.

 

She was invited by CCDR-N to be a commissioner for the programme Somos Douro, in scope of the status given by UNESCO to the Alto Douro Vinhateiro sixteen years ago. The programme was developed throughout 2018 and took place over the course of 18 days in distinct locations, with the participation of many esteemed guests.

 

Since January 2017 Anabela has been managing “(Quase) Toda uma Vida”, a series of interviews done to high-status members of the Portuguese society, all with different areas of expertise. This takes place at the Centro Cultural de Belém.

She also organises and moderates a monthly debate about books called “Ler no Chiado”, at the Bertrand bookshop in Chiado.

 

With José Eduardo Agualusa, Anabela has participated in the programming of Feira do Livro do Porto, a book fair in the city of Porto which took place in September (2017 and 2018). She was curator for Folia, the festive programme for Folio, an international literary festival at Óbidos, in 2015 (with Nuno Artur Silva) and 2016.

 

Having worked in radio, Anabela was a correspondent of Antena 1 in London between 2007 and 2008.

During the Spring of 2017 she had a radio programme which consisted of interviews about happiness, named “Todos os Sonhos do Mundo”.

 

Between July and December 2017 she collaborated with the Serralves Museum on a project called “Novas Perspectivas”, centred in the dialogues between architects, plastic artists, and authors of varied artistic areas.

Anabela moderated the colloquy “Nós, a Cultura e eu” at the Fundação Serralves in 2003; was a commissioner at a circle of conferences named “O que é a América hoje?”, co-organised by FLAD and the Casa da Música, in 2011; and participated on the cinema cycle “Noite e Nevoeiro – Portugal e o Holocausto”, organised by Cinemateca and the USA Embassy, as well as FLAD and Gulbenkian, in 2013.

 

Alongside André E. Teodósio she has created the project “Estar em Casa” for the São Luiz Theatre, in January 2016.

 

The journalistic style she has dedicated herself to the most is interview.

 

Since May 2013 Anabela’s work has been available on archive at the blog www.anabelamotaribeiro.pt.

 

Coimbra de Matos (s/ Portugal)

25.10.18

Somos inseguros, imaturos, praticantes da transgressão na sombra, além de desorganizados, individualistas, garbosos, disponíveis. Nós, os portugueses, o que esperamos do chefe, do pai, do protector, é que decida por nós, que assuma a responsabilidade por nós, que saiba sempre a resposta. Mas que resposta para Portugal? O psicanalista António Coimbra de Matos faz o diagnóstico de um país deprimido, que, em crise, se olha desamparado.

Coimbra de Matos nasceu em 1929 numa aldeia do Douro. É um dos mais prestigiados psicanalistas portugueses. No seu consultório há uma fotografia dos vinhedos, da terra sulcada, mesmo em frente à porta de entrada. Depois, olhando à esquerda, há a secretária, o divã, o cadeirão onde ouve; e folhas e livros e jornais em quantidade e em desalinho. À direita há dois pequenos sofás onde nos instalámos. É um fumador inveterado, nas suas próprias palavras. Foi neste ambiente que em quase duas horas se falou de Portugal. Frequentemente parecia que estávamos a falar de pessoas que conhecemos de todos os dias. Pessoas como nós, de nós. Pode-se pôr um país no divã? O que constitui a nossa identidade? Coimbra de Matos começou por falar disto, antes mesmo da primeira pergunta.

 

Classicamente, a Psicologia e a Psicanálise descrevem um mecanismo de construção da identidade: por identificação de modelos. A pessoa identifica-se com o pai, com a mãe, o professor, um jogador de futebol, um grande filósofo. Fazemos mais dois processos de identificação que são mais importantes do que este. Um joga com a identificação imagoico-imagética, em que nos identificamos à imago e à imagem que os nossos pais e o mundo nos atribuíram.

 

Temos um desejo de corresponder a essa identidade?

Os portugueses têm muito isto. Vamos um bocado nessa cantiga – assimilar a identidade dos nossos políticos, dos nossos pais, o que a História nos vai infiltrando. O indivíduo assimila a imago, que é uma coisa menos consciente, e a imagem, que é uma coisa mais nítida, que o outro atribui.

 

E pretendemos transcender essa expectativa que têm em nós?

Isso já inclui outro aspecto, nem sempre lá vamos. Há outro processo de identificação, mais importante – a idiomórfica –, em que nos identificamos aos nossos projectos, àquilo que pensamos que somos, e fundamentalmente àquilo que desejamos ser.

 

Isso já tem muito de construção individual.

Tem. E aí talvez os portugueses falhem um bocado. Têm tendência a repetir, a ser conservadores. São inovadores em circunstâncias de crise, de stress, quando emigram. Sem dificuldades, não são muito inovadores.

Por exemplo, quando se diz que estamos a explorar o mar, está impresso que é uma coisa herdada da História. Somos um pouco marinheiro, emigrámos para a Índia, para África, para o Brasil. É quase uma continuidade do que fomos.

 

Foi no mar, ou através do mar, que nos transcendemos. Pode ser um pouco a herança desse mito.

Pois pode, mas também nos podemos transcender de outro modo. Sou apologista da inovação. A grande mudança que temos que fazer é inovar mais e repetir menos. Na vida pessoal também é isso.

 

Por que é que somos tão acanhados? Por que é que, se não em condições excepcionais, não ousamos, e preferimos qualquer coisa que, mesmo que limitado, não nos ameaça?

Não sei responder. Talvez uma das razões seja o facto de ser uma cultura mais dominada por influência materna do que por influência paterna. Os pais são mais ausentes, saíram de casa, iam para o mar. A influência materna é mais conservadora. Quando uma criança está com medo, aflita, a mãe dá-lhe uma mão, o pai dá-lhe um pontapé no cu.

 

Qual é que é a melhor maneira de aprender?

São as duas, deve haver um certo equilíbrio. Agora já é diferente, mas na nossa cultura o pai não intervinha muito. Ainda agora um cardeal português disse, com bestialidade, que as mães deviam ficar em casa porque eram as educadoras dos meninos.

 

Por que é que diz que isso é uma bestialidade?

Porque os pais também são educadores, também têm responsabilidades educativas. E a mãe, para educar, não precisa de ficar em casa. Pelo contrário, se fica em casa tem pouco mundo e transmite pouco mundo aos filhos. A mulher deve trabalhar e deve sair para poder trazer o mundo para casa. Um psicanalista francês com quem trabalhei, um tipo inteligente, também insistia nisso: dizia que a mãe ficava em casa e o pai trazia a realidade, era o representante da realidade.  

 

É sobretudo um tempo. A maneira como os nossos filhos e os nossos netos são educados é muito diferente daquela como os nossos pais e os nossos avós foram educados.

E o pai também é cada vez mais presente como educador. Mesmo a sociedade portuguesa avançou. No tempo em que era professor na faculdade de Psicologia, a maior parte dos meus colegas referia-se aos alunos assim: “No nosso tempo é que havia bons alunos, agora não estudam, não querem saber”. A minha percepção é muito diferente. Os alunos actuais são muito mais interessantes, cultos e curiosos do que os do meu tempo. Ainda estamos muito presos ao in illo tempore passado.

 

A pretexto do mar falou de preferirmos a repetição e a segurança e de arrojarmos pouco. Que outras características identificaria como sendo dominantes nos portugueses?

Portugal é e sempre foi um país pobre. Não é um país com grandes recursos naturais. Isso fez de nós nómadas, viajantes, andámos à procura de coisas melhores. Se entrarmos de carro ou de comboio em Portugal, vindos de Espanha, e de avião ainda se vê mais, vêem-se pedregulhos, terrenos incultos. Isto não nos permitiu virarmo-nos para nós próprios, desenvolver as nossas próprias capacidades, ver os nossos próprios recursos.

 

A Suíça também não tem grandes recursos naturais. É certo que a Suíça é uma construção recente e nós somos um país com quase nove séculos.

Era um território de passagem. Nós não somos um sítio de passagem. As pessoas vêm e atracam aqui. Temos uma posição estratégica extraordinária e não explorámos isso suficientemente.

 

A Suíça, a Alemanha, países do centro da Europa, têm uma enorme capacidade de se reconstruir. Nós temos um adiamento sucessivo desse projecto que é refazermo-nos, reeducarmo-nos, florescermos. Concorda com isto?

Talvez, mais nos últimos 100 anos. Somos um país pouco virado para o futuro. Recordo-me que no tempo do Salazar veio cá um ministro do Franco, que foi recebido no aeroporto por um ministro do Salazar. O ministro espanhol fez uma discursata dizendo que Espanha estava no bom caminho, a montar indústrias novas, a abrir o comércio com norte de África; o ministro português respondeu-lhe de uma forma pataroca, que vinha nos jornais no dia seguinte, num discurso inflamado: “Portugal pode não saber para onde vai, mas sabe como veio e onde está”. Claro que isto era numa altura diferente, mas estamos demasiado presos às glórias do passado. Mudámos pouco.

 

Mudamos pouco porque não temos confiança em nós próprios? Estamos a falar das coisas de que os seus pacientes falam?, do medo, da falta de auto-estima.

Há outra coisa de que temos que falar: de países protestantes e de países católicos. Os protestantes são mais rígidos, mas introduzem mais mudança; aliás, produziram uma revolução dentro do próprio cristianismo. A religião católica é muito mais conservadora do que a protestante.

Um exemplo que conheço bem: a Psicanálise tem sofrido mudanças importantes principalmente nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Alemanha; nos países latinos, muito pouco, em França estão cristalizados, mais do que nós. Isto tem que ver com a cultura religiosa.

 

A religião contamina tudo, a maneira como estamos em família, como socializamos, a maneira como encaramos o trabalho, a vida. Que traços identificam a nossa matriz cristã?

Somos um povo que acredita facilmente em qualquer coisa. Quando se vai a congressos internacionais nota-se que quando aparece uma ideia nova, os franceses, os italianos, ficam surpreendidos e desconfiados. Os ingleses, os alemães, mais os americanos, ficam curiosos, têm maior apetência pela mudança. Perante o novo e diferente, temos sempre uma dupla atitude: por um lado receio e por outro lado fascínio. Quando somos mais doentes, predomina o receio, quando somos mais saudáveis, predomina o fascínio. Nós estamos mais do lado doentio.

 

Lidamos mal com o conflito e com a interpelação? Porque é que o outro discordar de nós é sentido pelos portugueses como uma forma de afrontamento, de intimidação? Tudo é demasiado pessoal.

Confirmo isso. Se fizer uma pergunta a um conferencista, discordando dele, num congresso em Portugal sou acusado de ser agressivo. Se for num congresso internacional, isso é completamente aceite. Aqui somos muito narcísicos, ficamos logo ofendidos. Discordar é ofender o outro.

 

Isso é um traço de narcisismo?

É, não aceitamos bem que o outro discorde de nós, sentimos isso como uma diminuição.

 

Como é que ficamos menos vulneráveis, menos narcísicos? Como é que aprendemos a lidar com a crítica e aquilo que sentimos como sendo a agressividade do outro?

A causa psicológica assenta num sentimento de inferioridade. Se a pessoa se sente inferior, qualquer discordância do outro é sentida como uma ofensa pessoal. Se está consciente da sua capacidade, se não tem complexos de inferioridade…

 

Como é que se trabalha este sentimento de inferioridade? É uma coisa importante na maneira como interagimos com o colectivo.

Começa na família e depois na sociedade em geral: os portugueses tornam-se autónomos muito tarde. Por razões financeiras e por razões culturais. Mesmo nos anos 60, em que se vivia relativamente bem, as pessoas saíam muito tarde de casa. É-se muito ligado à família de origem. Desde pequeno há uma cultura de concentrar, proteger, e não de fomentar a autonomia.

 

O que podemos extrair disso é a ideia de que todos juntos somos mais fortes? É por isso que devemos permanecer no espaço da família, resguardados? Por que é que não se incentiva a independência?

Vem da geração anterior. Os pais têm dificuldade em promover a independência dos filhos, sentem isso como uma perda da influência deles. Vê-se também ao nível pedagógico; a maior parte dos professores, se um aluno tem ideias diferentes das dele sente isso mal; gosta que o aluno copie as ideias do mestre. Não gostamos de ser contestados pelos mais novos.

 

Isso é considerado uma insolência. Temos um ditado que traduz isso bem: “Já a formiga tem catarro”.

Pois é, mas não devia ser. Os mais novos trazem ideias novas.

 

Então, somos inseguros, tememos perder a influência, que o outro saiba mais. Somos imaturos?

Suponho que temos uma circunstância cultural que não facilita a maturidade. No meio disto há pessoas que conseguem amadurecer, mas o ambiente não é facilitador dessa autonomia, dessa coragem, dessa vontade de inovar, de explorar, de ser diferente.

A progressão das pessoas e das sociedades depende das pessoas que estão na posição dos mais velhos – do animal alfa. Daquele que tem mais poder, mais conhecimentos, mais história. Não são os animais ómega, as crianças, que são menos audazes; são os pais que não lhes facilitam essa audácia. Somos uma cultura muito ligada aos sistemas de poder. [Numa hierarquia], a pessoa que está numa posição superior deve ser a mais responsável, não a que tem mais poder. Em relação à guarda e ao cuidado com as crianças, só há pouco tempo [a designação] mudou de poder parental para responsabilidade parental. Na Suécia, há mais de 50 anos que é assim.

 

Mas a seguir tornamo-nos nós nos mais velhos e replicamos o que vem de trás.

Isso é. Ficamos ligados às pessoas do passado, aos pais, aos avós, à primeira namorada. Somos o povo da saudade.

 

Ao mesmo tempo, temos a ideia de que a nossa identidade é constituída pela nossa memória e pela nossa história. O passado é aquilo que fomos e fizemos, é aquilo de que somos feitos.

Mas da nossa identidade, nesta minha teoria idiomórfica, faz também parte aquilo que construímos e imaginamos, segundo os nossos anseios, antecipações, projectos.

 

Essa construção e esse desígnio correspondem a um sair da casa dos pais, a uma libertação das referências do passado?

A evolução natural é mais pela conquista do que pela perda. Há tempos ouvi um colega meu que dizia que a adolescência era um período terrível, em que se tinha de fazer o luto da infância, uma série de lutos. Respondi-lhe dizendo que nunca vi os adolescentes vestidos de preto. Conquista-se autonomia, capacidade de decidir por nossa conta. O que nos deve entusiasmar é aquilo que não sabemos, não aquilo que sabemos. O verdadeiro cientista põe perguntas e tem poucas respostas, interessa-se por aquilo que não sabe e que quer descobrir, não por aquilo que já sabe.

 

Na adolescência, aliada a uma curiosidade e a uma turbulência instigadora, temos uma coisa preciosa: a rede, que sabemos que está lá para o caso de cairmos.

A adolescência é um período de autonomia assistida. Mas aí, mais uma vez, a geração dos mais velhos, aceita mal. “Se quiseste sair de casa, agora aguenta-te”. Há uma certa dificuldade em deixar partir e ficar como reserva de retaguarda.

Isto levanta outra perspectiva, que é a dificuldade de aceitar a morte. Não aceitamos a nossa decadência, temos de manter os filhos dominados. Permitir a liberdade dos filhos é sentir que já não estamos cá a fazer nada, que somos menos úteis. Somos o primeiro animal que tem consciência da finitude da existência, os outros têm medo da morte imediata. Só há um processo para ultrapassar aquilo a que chamo a angústia essencial, a angústia [que resulta da] consciência de que temos um prazo (apesar de nunca se ultrapassar totalmente, transcende-se um pouco isso): realizando alguma coisa, uma obra, transmitindo cultura.  

 

São pouquíssimos os casos de pessoas que acham que não se realizam através dos filhos e dos percursos dos filhos.

Ter gosto que o filho progrida é normal e saudável. Ter gosto que o filho continue a obra do pai, que seja médico como o pai, que trate da quinta como o pai tratava, ou que siga o mesmo partido político, que tenha as mesmas ideias sociais, é um disparate. Porque não permite a evolução. A evolução faz-se por fracturas. Há duas ideias sobre o progresso; há a ideia de que o progresso se faz na continuidade – acrescenta-se àquilo que já se sabe, na mesma linha, um exemplo disso era a evolução na continuidade do Marcelo Caetano; e há outra ideia de progresso, que é por ideias fracturantes. Sou apologista desta.

 

Para que haja uma revolução.

Sim. De facto, sou revolucionário. Há uma diferença entre revolução e revolta. Por vezes há apenas revoltas, mas depois volta tudo ao mesmo. Explosões de raiva. Com a revolução, as coisas não voltam ao mesmo sítio. Há aquela célebre expressão do ministro do Interior de Luís XVI, quando foi a tomada da Bastilha no início da Revolução Francesa: “Não é uma revolta, é uma revolução! Isto não vai ficar aqui”.

 

Há outra frase famosa no filme O Leopardo: “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”. É o oposto.

As revoltas muitas vezes são isso: dão-se uns tiros, matam-se umas pessoas e depois tudo volta ao mesmo. Mesmo na área científica, as grandes mudanças são revoluções. São “a mudança de paradigma” de que o filósofo [Thomas S.] Kuhn falava.

 

Insisto: o que é que tememos tanto nessa mudança de paradigma? Se quisermos levar isto até às últimas consequências, temos medo de desaparecer, de ser engolidos?

Insegurança, incapacidade de gostar do novo e do diferente. Há uma entrevista muito bonita de um professor de Física Teórica, brasileiro, um homem de 50 e tal anos. Às tantas diz: “Repare, o que é bonito não é o que é simétrico, regular. É o que tem assimetria, pequenos defeitos”. Tudo é impermanente, tudo é incerto, tudo é imperfeito. É isto que nos deve atrair. As pessoas mais conservadoras querem o permanente, a certeza, o perfeito.

 

Somos um povo conservador?

Não é só Portugal. A cultura europeia é mais conservadora, pelo peso da história, do que a cultura americana. Os brasileiros são muito mais abertos à novidade do que nós. É um fenómeno das culturas mais antigas que estão mais presos à história do que aqueles que têm uma história menor e que evoluíram mais depressa.

 

E somos um povo deprimido? Tem investigado especialmente o tema da depressão.

Há dois tipos de depressão: a depressão normal e a patológica. A depressão é sempre uma reacção, frequentemente diz-se que é à perda, mas eu penso que é à derrota. Perante a derrota todos nos deprimimos, ficamos mais abatidos, com menos iniciativa, menos motivados para fazer coisas. Na depressão normal isto é acompanhado por um sentimento de revolta. Na depressão patológica o indivíduo resigna-se. Quando não se culpa a si próprio. É o que estão a fazer com esta crise actual: a culpa foi nossa, e aceitamos [que assim seja].

 

Somos os da depressão patológica e os gregos são os da depressão “normal”?

Sim. Resta saber se eles são capazes de ultrapassar a fase de revolta e ir para uma revolução para mudar o sistema. É um escândalo aquilo a que assistimos, a nível mundial. Estas ajudas que se oferecem aos países periféricos, dizem eles, não são ajudas nenhumas; emprestam-nos o dinheiro e depois pagamos com um juro brutal.

É um pouco o que se passa no amor parental. Há um amor parental saudável, que é incondicional, que não está à espera de retribuição. E há um amor parental condicional: “Gosto muito de ti, meu filho, se prometeres proteger-nos, se não te esqueceres de nós”. Esse amor condicional é o que nos estão a fazer os países centrais, a Alemanha, a França. “Depois vocês compram os nossos automóveis e devolvem o nosso dinheiro com juros”.

 

Essa narrativa vingou porque inculcámos a ideia de que fomos os responsáveis pela crise. A verdade é que gastámos acima das nossas possibilidades.

Mas isso também nos foi facilitado por eles. As pessoas consumiam demais porque os bancos forneciam dinheiro barato com hipotecas fáceis.

 

Caímos num logro?

Sim, caímos na ilusão.

 

Na ilusão de que seríamos ricos como os outros, que viveríamos bem como os outros?

Pois, e que não precisávamos de trabalhar. Aproveitámos mal. Os primeiros subsídios que vieram da União Europeia foram aproveitados para fazer grandes estradas, algumas para sítio nenhum. Houve responsabilidades de um lado e do outro. Não nos ensinaram que devíamos gastar aquele dinheiro de outra maneira.

 

Falamos de Portugal como um filho a quem a educação não foi bem dada. Não nos ensinaram a gerir bem o dinheiro, não nos ensinaram a ser produtivos, não nos ensinaram a ser adultos e responsáveis. Mas estes que não nos ensinaram são a nossa família, os nossos antepassados.

O que não temos tido é governantes políticos à altura, nunca tivemos, pelo menos desde o pós 25 de Abril, e antes pior ainda.

 

Somos um povo dúplice, temos características muito contraditórias. Se por um lado somos pacíficos – os famosos brandos costumes –, revoltamo-nos pouco, por outro lado a agressividade há-de aparecer de alguma maneira… Como?

Mais passivos, mais agressivos… Uma das coisas que não se cultivam em Portugal é a coisa intermédia, a afirmação pessoal, aquilo a que os psicólogos gostam de chamar assertividade. A agressividade é uma coisa mais destrutiva. Na afirmação pessoal, na defesa dos interesses próprios, dos direitos de cada um, somos muito fracos. Se a pessoa se afirma, é sentida como agressiva.

 

A própria assertividade é considerada uma forma de agressividade. Onde é que o clínico põe as fronteiras? O que é uma pessoa passiva, o que é uma pessoa assertiva e o que é uma pessoa agressiva?

Posso dizer como costumava explicar aos alunos, servindo-me do exemplo da potência sexual. Uma coisa é ser impotente, outra coisa é ser omnipotente. O que é normal é ter a potência necessária, suficiente para a tarefa que se vai realizar. Num homem, ter potência sexual quando vai com uma mulher para a cama, está certo. Ficar em erecção enquanto está a conduzir um automóvel só serve para perturbar a condução. Se tenho que levantar um peso de um quilo não preciso de contrair os músculos todos.

 

Acha que somos de pavio curto, fervemos em pouca água?

Não sei se como povo seremos isso. Mas é uma característica de pessoas que têm sentimentos de inferioridade e de impotência, fervem em pouca água. Quando se tem uma maior afirmação pessoal, um maior sentimento de competência não se ferve em pouca água.

 

Também parece que estamos sempre enredados numa mesma narrativa. Temos dificuldade em olharmo-nos de fora e perguntarmo-nos de uma outra maneira.

Alguém dizia que o infortúnio da pergunta é a resposta [riso].

 

Mas há uma resposta da qual precisamos: como é que saímos desta crise, como é que vivemos melhor. Quando as pessoas o procuram querem viver melhor, não aguentam viver mais em depressão, em sofrimento.

Às pessoas deprimidas, que tentam suicídios, que não suportam a vida, uma das respostas que dou é: “O que você não suporta é a vida que leva, aquela que tem, porque é de facto insuportável. Isso não é a vida”. As pessoas mais imaturas, e nós, o colectivo, não pensamos num futuro a longo prazo, pensamos num futuro a curto ou médio prazo. É preciso pensar a longo prazo para organizar as coisas bem.

 

Por que é que somos tão pouco persistentes? No fundo, quando nos ocupamos do curto prazo, isso quer dizer que, ou não temos a persistência ou não temos a organização necessárias.

Uma das razões é porque acreditamos na Virgem. Acreditamos sempre que nosso Senhor ou a Virgem fazem milagres, que o Estado ou os papás vão resolver a situação. Acreditamos sempre que vem qualquer coisa que nos salva, que não o nosso esforço, o nosso trabalho, a nossa intervenção.

Somos educados na base da religião a sermos adaptados, a obedecer ao pai, ao chefe, ao polícia, a Deus, e a não interferir no meio.

 

Gostaria de explorar o tópico da nossa relação com a autoridade e com o poder. Somos uma gente treinada para obedecer, esse é um dos nossos traços mais evidentes?

Sim, somos um povo masoquista. Há duas grandes instituições que fazem estagnar as sociedades, a Igreja e as Forças Armadas (Freud falou disto em 1923). São instituições conservadoras e que se baseiam em obediência. Quando o chefe disser: “Atira-te para a frente”, as pessoas vão sem pensar. Na Igreja é a mesma coisa, todos de joelhos quando se levanta a hóstia.

 

Somos dados à transgressão?

Somos um povo obediente, e como a obediência não se pode conservar sempre, somos de transgressão clandestina. Transgredimos na sombra. Achamos que devemos pagar os impostos, mas fazemos tudo para não os pagar. Nos países nórdicos, de uma forma geral, as pessoas pagam os impostos porque têm consciência de que são utilizados de uma forma útil para todos. Aqui são utilizados para o BPN e outras coisas assim. Compreende-se que depois não apeteça pagá-los. É um ciclo vicioso.

 

Um ciclo viciosos que só se interrompe com uma revolução?

Sim, com uma mudança drástica.

 

Como é que reconhece imediatamente uma pessoa autoritária?

Não sei. Estou a lembrar-me de um caso que tinha, de um psiquiatra distinto, que se descrevia como um tipo muito generoso, nada autoritário. Eu notava que não era nada disso. Ele estava convencido que era um tipo muito inteligente, e era-o, mas não tanto como julgava; e docemente impunha sempre a sua vontade, quer na família quer no trabalho. Uma coisa que acontecia quase sempre é que eu fazia uma interpretação e ele dizia: “Estou de acordo consigo, mas...”. Um dia disse-lhe: “Já reparou que tem sempre que me provar que é mais inteligente que eu? Sempre que faço uma interpretação, a maior parte das vezes concorda, mas acrescenta sempre qualquer coisa. Para me mostrar que vai mais longe que eu”. Só aí é que ele percebeu esta omnipotência. A última palavra estava sempre do lado dele. Também me lembro de um colega psicanalista que não tinha opiniões, só convicções. Nunca dizia: “Penso que”, só dizia: “É assim ou assado”. Uma vez disse-lhe, ele até ficou zangado: “Não tens opiniões sobre nada, só tens convicções”. Isto é o núcleo do autoritarismo: está convencido de que a única verdade é a sua e mais nenhuma [é válida].

 

Isso é capaz de ser o primeiro elo da cadeia, mas logo a seguir vem submeter os outros, dominar os outros. Se a verdade é só uma, os outros têm de se submeter. Políticos autoritários, são quase todos?

São. O Mário Soares dá a volta, acaba por fazer o que quer. Mas em todo o caso tem um toque pouco autoritário. Como Presidente da República, uma vez recebeu-me oficialmente e quando vim embora acompanhou-me ao carro. “Senhor Presidente…” “Sou o anfitrião, a minha obrigação é acompanhar as visitas”. É a capacidade de ser chefe. Poucos o fariam.

 

E um marcadamente autoritário?

O Cavaco. Porque fica fixado naquelas posições, porque tem um medo enorme que o ponham em causa. Isto de não ter ido à escola [onde o esperava uma manifestação] é um exemplo. O autoritário tem muito isto, não permite que alguém o critique, que duvide da sua supremacia.

Em 1980, na faculdade de Psicologia, uma aluna disse-me no fim de uma aula: “O professor tem uma coisa a que aqui não estamos habituados: fazemos uma pergunta e muitas vezes responde que não sabe. Os outros dizem sempre qualquer coisa”.

 

Também já disse algumas vezes na entrevista que não sabia responder.

Talvez. Somos muito narcísicos e frágeis nesse aspecto. Não admitimos ser postos em causa.

 

Somos um povo deprimido? Ou estamos deprimidos?

Estamos deprimidos porque estamos em perda, em perda económica; a perda é sempre uma causa importante da depressão. E porque sentimos que estamos a ser tratados injustamente.

 

Tendencialmente, somos deprimidos?

Houve momentos em que não fomos um povo deprimido, mas na maior parte dos momentos históricos fomos. Não fomos um povo deprimido nas conquistas da primeira dinastia, na [aventura] expansionista, no tempo das descobertas. Fora isso, fomos um povo que perdeu quase sempre.

 

Ao mesmo tempo com um lado garboso, amável. Podemos dizer o pior de nós próprios, mas quando nos sentimos ameaçados, tal como numa família, não admitimos uma palavra mais acintosa.

Temos motivos para ser garbosos, para essa auto-estima. Temos factos importantes na nossa História, temos uma produção artística, literária importante, uma língua que se expandiu bastante para o tamanho do país. Mas fomos sempre um país mal governado.

 

E muito desorganizado, todos dizem. Por que é que temos tanta dificuldade em interagir com o outro de um modo organizado? Por que é que temos este individualismo?

Somos um país que não passou pelo feudalismo, pelas organizações em pequenos grupos. Fomos sempre um país de poder central, comandados pela corte, e o resto eram escravos. A nobreza portuguesa nunca teve grande força, a não ser a que vivia na corte, ou à custa da corte, como dizia o Francisco Sousa Tavares. E não fizemos a revolução industrial.

 

Se este país se deitasse no divã tinha emenda? O que é que precisaria, mais que tudo, de trabalhar?

Tinha de ter tempo e espaço para poder crescer por si próprio sem se apoiar noutros. A Psicanálise é uma auto-análise assistida, o analista só dá uns toques, o paciente é que faz a análise. Como num parto. Quem faz o parto é a mulher, a parturiente; o parteiro interfere se houver alguma coisa, se tudo correr bem não faz nada. Facilitar o crescimento pessoal, a auto-determinação, a identificação idiomórfica, segundo o seu próprio plano, o seu próprio projecto, e não seguir ideias do analista ou de outra pessoa qualquer. Sou a favor da imigração, de que as pessoas se movam, se cruzem. E sou a favor da depressão normal, com revolta e revolução! Devemos zangar-nos com os tipos que nos fazem mal.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2012

 

Ao Brás Cubas (que nasceu no mesmo dia que eu)

20.10.18

Nasci no mesmo dia de Brás Cubas, o personagem criado por Machado de Assis no final do século XIX.

No Rio de Janeiro é sempre calor quando Outubro vai alto, as magnólias floriram e os grilos zumbem às três da tarde. Mas quando penso em Brás Cubas não consigo pensar nessa estação em que tudo vivifica e o simples olhar a mata da Tijuca nos instala no milagre. A estação de Brás Cubas, a que vai com a flor “amarela e mórbida da melancolia” que o infecta, é a do Outono. O Outono que temos aqui, sob a forma de doce fim de Verão, em Lisboa, e de prenúncio de Inverno em Trás-os-Montes (cedo as árvores ficam nuas, varridas por um vento agreste). É ali que vivo, foi aqui que nasci (perdoem a frase desconjuntada).

Olho o Outono de Lisboa e ele não parece o Outono do tempo em que eu era criança. Parece-se mais com o Outono de Brás Cubas. Talvez o sentimento de fim de vida de Brás Cubas se pareça mais com o do Outono transmontano.

Lembro-me de identificar o Outono como o começo do ano por ser nesse tempo que tinham início dois ciclos importantes da minha vida: o escolar e o meu aniversário. Janeiro é uma maçada. Ainda sou contra Janeiro. Excepto (n)o Rio de Janeiro.

Muito antes de ler Machado de Assis e de me olhar com espanto na vida de Brás Cubas (vá, em frases inteiras da vida de Brás Cubas), eu já devia muita coisa aos escritores e aos seus livros e aos seus personagens. A minha dívida posta numa linha: sinto-me menos perdida quando me encontro reflectida no espelho. Mesmo que ali reflectida esteja a imagem de um personagem e não exactamente a minha.

Quando me acho naquele enredo – um achamento, neste caso, “no” Brasil – por instantes, e por causa da ficção, a realidade fica menos esdrúxula. Não é pouco.

Nunca me tinha cruzado com Brás Cubas quando li o verso de Ruy Belo que diz que “É triste no Outono concluir que era o Verão a única estação”. Brás Cubas poderia tomá-lo como seu  porque vive desfasado do tempo, de um projecto, do seu momento. Vive a sucumbir.

Era um homem que prometia ser tudo e que acaba confessando: “Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada!” Viveu uma vida sem grandeza, acabou preterido por um que “não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura”.

O “caro Borba” é Quincas Borba, o amigo de sempre, com quem mira, como se mira um filme, da plateia, a esperança de outrora e a realidade do presente. Ou seja, olham para tudo o que lhes era prometido e para a ruína das suas vidas, carcomidas como as árvores. No Inverno. 

Ouço muitas vezes dentro de mim a música de Brás Cubas. Os seus passos, os delírios, o êxtase, a frustração. A flor viçosa de tudo o que promete ser. A flor da melancolia. O olhar da plateia (no caso do personagem de Machado de Assis, ele faz-se enquanto defunto – ideia excêntrica! – e por isso o título, Memórias Póstumas de Brás Cubas).

Olharmo-nos de fora, esse dificílimo exercício de ubiquidade, já se sabe que não é fidedigno nem isento. Podemos olhar para quem fomos, para quem vamos sendo, para o legado que deixamos. Convém ir olhando. Mas não olhar sempre.

O exame de Brás Cubas é impiedoso:  “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Eu valorizo o seu destino errático, a sua demanda pelo sentido, o não se tratar com condescendência. Gostaria de aprender isto com ele.

Enquanto isso, quero continuar a fazer viagens à roda da minha cabeça, à roda da cabeça de outros. “De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida”, escreveu Machado de Assis no prólogo da quarta edição.

A vida roda, e uma árvore passa pelo vento e pelas cores que prometem um futuro. E de novo, e de novo. E nós com ela.

 

 

Publicado originalmente na revista Os Meus Livros, editada pela Bertrand, em 2013

 

 

 

 

António Coimbra de Matos

09.10.18

Oito e meia da noite. O cinzeiro está sobre a secretária. A janela, que rasga o compartimento para o saguão, desenha já a noite de Outono. Ao fundo, há um espelho, alinhado à altura de um adulto. E ao lado, numa sala relativamente grande, coberto por um tecido luminoso, o divã.

«Tenho um paciente marcado para as dez e um quarto; acha que dá?».

Seriam dez e 12, ou 13, ou 14 quando pela primeira vez olhou para o relógio. Quis o acaso que o paciente se atrasasse, a campainha se avariasse. Prosseguiu a conversa, mais distendida, para lá da meia-noite.

António Coimbra de Matos faz 72 anos no próximo Dezembro. Nasceu em Galafura, perdida nos vinhedos do Douro. É psiquiatra e psicanalista.

A depressão, que se arrasta insidiosamente entre a espuma dos dias, e se afirma com particular voracidade com as folhas do Outono, é o tema da sua vida. Em Portugal ninguém trabalhou o tema tão afincadamente.

Como se sabe, é um médico afamado. Uma autoridade.

Dobrando a rua, a rua larga, quase deserta, eu pensava na confissão de um amor perdido, por alturas de faculdade. Quis o enguiço que a fita, aqui chegando, se espatifasse. Como pontas cortadas pelo destino. A confissão, feita de olhos marejados, dizia respeito a uma rapariga que o não amou, que o não amou suficientemente. Eu pedira-lhe pistas para melhor chegar à sua essência; ele recuara 50 anos e falara do caso. O que queria isto dizer, perguntei eu. Queria dizer que as relações afectivas eram importantes, respondeu ele.

 

 

A dor define a nossa vida, no sentido de nos esculpir?

Não tenho essa opinião. O que nos define é o prazer, a alegria, a felicidade. A dor, quer física, quer mental, é inevitável, mas não quer dizer que seja necessária. É sinal de qualquer coisa que não está a correr bem.

 

Inevitável mas necessária?

Porque é um aviso, orienta o diagnóstico. Estamos muito influenciados pela cultura judaico-cristã, médicos, psicólogos e psicanalistas, no sentido da vida de sangue, suor e lágrimas. Não estou de acordo. Entre os analistas, é frequente dizer que durante o tratamento analítico é preciso que o doente se deprima. Eu costumo dizer: «É preciso que se deprima se tiver algum traço depressivo. É preciso que ela apareça, a depressão».

 

Há pacientes que não têm traços depressivos?

Há, embora seja raro. Bom, os meus amigos dizem que sou um optimista.

 

Como é que um optimista escolhe a depressão como tema central de investigação e trabalho?

Tem sido, de facto, o que me tem interessado mais. Comecei a verificar que era uma perturbação central. Praticamente aparece em toda a patologia mental, e mesmo na patologia psico-somática. Comecei por não ter grande sucesso terapêutico com os pacientes. Tinha dificuldade em tratar a depressão, e as teorias que existiam não me davam saída. De maneira que comecei a investigar por conta própria. Hoje, estou à vontade com as depressões.

 

Mesmo antes de saber do optimismo, pensei no seu interesse pelo tema. Em instância última, não somos todos potencialmente depressivos?

 A depressão acontece sempre quando estamos numa situação em que damos mais afecto do que recebemos. É aquilo a que chamo Economia Depressiva, causa última e primeira da depressão.

 

Importa-se de esmiuçar?

Se tiver um namorado e se, a alturas tantas, começa a perceber que lhe está a dar mais do que a receber, deprime. Depressão normal. Na depressão patológica, ultrapassa o comum da reacção, dura mais e é mais intenso; o indivíduo não se apercebe das causas, e não se revolta. A reacção normal face ao abandono é um sentimento depressivo mas também raivoso, «Que raio de brincadeira, porque é que me abandonas, etc, estupor!». A pessoa com personalidade depressiva tem tendência para se culpar a si própria, «Fui eu que fui mau, há pessoas mais interessantes». O paradigma da depressão é a ruptura amorosa.

 

A etiologia da depressão é sobretudo amorosa?

Neste conceito de não receber resposta afectiva: ser amado, ser desejado, ser respeitado, ser admirado.

 

É inevitável haver, em todas as relações que estabelecemos, um desequilíbrio: numas damos mais, noutras recebemos mais?

Depende da importância da relação. 

 

Santo Agostinho escreve nas «Confissões»: «Eu ficara a ser para mim mesmo um lugar infeliz, onde não podia estar nem de onde me podia ir embora. Para onde fugiria de si mesmo o meu coração, para onde fugiria eu de mim mesmo?».

Descreve bem a depressão. O indivíduo sente que não está bem, mas pensa que é uma coisa com ele. Isto organiza-se normalmente na infância, depois é repetido, reactivado. Quando a infância se passa bem, o indivíduo normalmente não faz depressões patológicas. Aos mais pequenos sinais de que não está a receber afecto, negoceia a situação de uma forma mais cómoda. A criança, se a mãe não lhe dá muita atenção, imagina que é ele que não se comporta bem, que é ele que não gosta suficientemente do pai ou da mãe ou dos irmãos; fecha-se numa redoma de culpabilidade e inferiorização.

 

A infância é absolutamente matricial na vida da pessoa?

Matricial na organização de traços e atitudes mentais básicas. Depois há outras coisas, claro. Eu sou psicanalista, e os psicanalistas passam por uma análise pessoal. Quando fiz a minha análise, o meu analista interpretou isto de uma forma errada; vim depois, justamente através dos meus estudos sobre depressão, a perceber a situação. Quando tinha seis para sete anos, faleceu um irmão meu com dois anos de idade. Sou de uma aldeia do Douro. O meu pai, que era produtor de vinhos, foi ao Porto e trouxe-me um automóvel de pedais, uma oferta grandiosa demais para o habitual na família. Lembro-me de andar tempos e tempos no quintal de casa, às voltas. Como é que interpretei isto? O meu irmão faleceu, a minha mãe deprimiu, e seguramente deu-me menos atenção. As voltas e voltas no carro, não traduziam propriamente entusiasmo pelo carro: estava deprimido.

 

Mas parecia entusiasmado com o seu brinquedo.

Essa foi a interpretação do meu psicanalista. Penso que não era a correcta. Eu entusiasmava-me mais a andar na rua com os outros meninos, à procura de ninhos, a subir aos pinheiros, a entrar nos poços.

 

Quando é que formulou que queria ser psiquiatra, e depois psicanalista?

Foram vários os factores. Terá tido alguma influência que na minha família tenha havido sempre muitos médicos. Fiz a instrução primária na aldeia, fui para o Porto aos 10 anos onde fiz o liceu, a faculdade, a especialidade de Psiquiatria. Vim para Lisboa em 1960, instalei-me, e a psiquiatria começou a desiludir-me bastante.

 

Porquê?

Não me satisfazia o que se fazia com os pacientes, que não melhoravam, e os métodos não eram suficientes. De modo que me virei para duas áreas ao mesmo tempo: a neurologia e a psicanálise. Fiz neurologia quase até ao fim. Mas sempre me interessei muito pelas coisas da literatura, pela poesia, pela filosofia.

 

Há toda uma errância.

Alguma. Comecei a escrever um romance na terceira classe. Ficou pelos dois primeiros capítulos.

 

Era sobre quê?

É engraçado como às vezes a memória nos engana. Estava convencido de que era uma história de amor. Porque havia uma rapariga, Mariazinha, amiga da minha irmã, por quem tinha uma paixoneta. Mas a minha mãe guardou os papéis, e era fundamentalmente uma coisa mais de ordem organizativa e social. Inventava um conselho de aldeia, um parlamento.

 

É curioso que a memória o tenha recortado como uma história de amor. 

É. No liceu, andei no Colégio João de Deus, e no quarto ano escrevi o discurso de homenagem ao padre mais velho. Foi um sucesso, o padre chorou... Ainda me comovo... A seguir, comecei a ser convidado a escrever na revista literária do colégio.

 

Não teve pudor em comover-se, agora?

Não. Não. Os afectos são para se viverem. Portanto, a cirurgia pareceu-me demasiado mecânica, e as minhas entroncações intelectuais levaram-me para a psiquiatria. Era o pensamento, e o que fazia mover as pessoas.

 

Em todo o percurso errático, que tipo de criança ou jovem era? Reflexivo?

Não. Era extrovertido, gostava de festas, mas também me isolava, lia bastante. 

 

O que constitui uma originalidade. O interior era muito marcado pela iliteracia.

Nisso teve influência a minha mãe, que gostava de nos ler contos e poesia, ao serão. O meu pai andava mais entretido nos negócios, era um homem mais pragmático. A minha mãe era mais ligada aos afectos. Lia Júlio Dinis. O Eça não, porque era muito católica. Já o li aos 13, 14 por minha conta e risco.

 

Desenraízou-se da sua família quando foi estudar para o Porto. Era normal um rapaz fazer-se à vida e ficar entregue a si aos 14 anos?

Não era assim tão raro. As pessoas da aldeia iam para longe, trabalhar. Aquilo, à minha mãe, assustava muito; mas o meu pai tinha ficado orfão aos 12 anos, sozinho, com a mãe, uma pessoa deprimida, e uma irmã mais nova. Deixava-me ir sozinho. Uma história da minha vida, nesse primeiro ano no Porto. O meu pai ia negociar vinhos ao Porto, e hospedava-se no Hotel Peninsular. Por altura do Natal adoeceu com gota, chamou-me ao hotel e disse-me «Tens de ir receber à Casa do Douro, levas a pasta, falas com não sei quem, e depois entregas o dinheiro à mãe». Eram 40 contos, a venda de todo aquele ano de vinho. Eu tinha 10 anos. Fui do Porto à Régua, almocei, tratei do que tinha a tratar, e fui para a camionete, que me deixava a quatro km da minha terra. Não sei como arranjei, perdi a camionete. Tive de esperar pela das oito da noite, que não levava ninguém de Galafura, assustadíssimo, a pensar «Alguém me viu meter estas notas na pasta?».

 

Histórias como essa são essenciais para perceber o mapa identitário do indivíduo?

Uns forjam a sua identidade de uma maneira, outros de outra, conforme as experiências que tiveram. Penso que forjei a minha identidade com a minha família, os meus pais, e com a aldeia. Uma vida dura, mas também uma vida comunitária, com traços muito fortes.Tive sempre primos mais velhos com quem me dava, e tinha os meus amigos da minha idade. Isso também me puxou, ajudou a crescer

 

Se tivesse de eleger uma pessoa fundamental no seu processo de identificação, conseguiria?

Seguramente o meu pai. Era um homem pragmático, mais que eu até, trabalhador, rigoroso, destemido, empreendedor. A minha mãe era mais sonhadora, passava muito tempo em casa; deu-me outras coisas.

 

O seu interesse, dizia-o há pouco, é pelas letras, pela filosofia.

Mas também pelas coisas práticas. Quando me desencantei com a psiquiatria, fiz as duas coisas durante algum tempo: a psicanálise e a neurologia.

 

Ganhou a psicanálise.

Ganhou.

 

Conectaria a neurologia a um lado mais pragmático e a psicanálise a um lado mais especulativo?

Provavelmente. O meu pai também gostava de conversar, e conviver, e a investigação científica é mais isolada. Gosto da psicanálise mas faço outras coisas.

 

O quê?

Durante muito tempo trabalhei como psiquiatra dos hospitais – nos últimos anos dirigi um serviço de psiquiatria –, e gosto também de dar aulas.

 

Jubilou-se o ano passado.

Estou agora com o consultório e continuo como professor no ISPA e na faculdade com os mestrados.

 

Porque é que trabalha tanto?

Sou solicitado. E tenho a impressão de que gosto, gosto do que faço. Não há dia que não escreva qualquer coisa sobre uma sessão com um paciente, sobre o que isso me fez pensar. Escrevo muito. Tenho cerca de 400 e tal trabalhos que estão a ser publicados em colectânea, e agora por assuntos. E vou a imensos congressos, faço imensas conferências.

 

Aos 72 anos goza de uma reputação, entre pares e pacientes, e,  imagino, não sofre de uma necessidade financeira premente. A despeito disso, continua a trabalhar das oito da manhã às nove da noite. Insisto, porquê?

Não sei. Há coisas que gostaria de fazer: provavelmente escrever, provavelmente pintar – só pintei um quadro.

 

É o quê, se consegue reconstituí-lo?

O quadro começou por ser uma cena campestre. Há uma floresta, depois um rio, depois uma tempestade, depois um barco, depois uma mulher nua no barco. Chamo a isto sonho e pesadelo. Mas estava a dizer-lhe que gosto da terra. Fazer o vinho, provar os lotes, é uma coisa que aprecio. E motiva-me muito actualmente transmitir a minha experiência, escrever coisas.

 

Há um carácter quase testamentário nisso?

Mais organizar aquilo que tenho escrito, compilar, fazer arranjos. Os meus alunos solicitavam-me «Estas coisas em livros, davam-nos muito jeito».

 

Começou por falar do desencanto e insucesso profissional e agora fala do reconhecimento e solicitação.

Diria que o reconhecimento é importante, para toda a gente. Mas também, resultado das minhas investigações clínicas, as coisas começarem a fazer-me sentido, e isso deu-me um outro interesse pelo que faço.

 

Sim, mas há quem queira ser o melhor.

Não digo que não. Mas não me preocupei demasiadamente. Foi sempre cultivado à partida, fui sempre bom aluno. Eu mesmo tinha expectativas.

 

Quando acabou o curso, com 20 e poucos anos, o que queria da vida?

Ah, tenho bem claro. Fui fazer o serviço militar e, passados esses anos, quis emigrar – cheguei a ter contrato com um hospital próximo de Nova Iorque. Simplesmente, o meu pai faleceu, subitamente, embora não fosse novo. Quando nasci ele tinha 50 anos e a minha mãe 30. Senti-me com uma responsabilidade muito grande: a minha mãe era um bocado dependente, os meus irmãos muito mais novos. Lisboa exercia uma grande atracção sobre mim, mas mudei o disco, fui para o Porto. Também nessa altura, namorei e casei com a Teresa, que é médica. Depois as coisas estabilizaram nas nossas propriedades. Houve uma vaga no hospital Júlio de Matos, e vim cá concorrer.

 

Porque é que Lisboa era atraente?

Gostava muito de Lisboa. Tinha outras possibilidades de desenvolver a profissão. Vim pela primeira vez aos 17 anos, fiquei encantado com a cidade. Uma grandiosidade que o Porto não tinha. Mais luz.

 

Disse luxo?

Luz. Lisboa é uma cidade luminosa. Luxo, no sentido de sofisticação e cosmopolitismo, também. Espaço, grandes edifícios, grandes possibilidades culturais.

 

Tudo isso contrasta com a pequena aldeia do Douro.

Ainda hoje, com a minha idade, é um bocado ridículo até, mas se vou a um congresso, normalmente para fazer uma conferência – para ouvir já quase não vou – , se for uma grande sala, um congresso internacional, com muita gente, sinto-me muito melhor e gosto muito mais.

 

É vaidoso?

Talvez.

 

Quem é que gostaria que estivesse nessas plateias grandiosas?

Provavelmente alguma mulher de que gostasse. Às vezes acontece. Há oito anos no Porto, num congresso da nossa sociedade de psicanálise, cujo título era «A Sexualidade», acabei a conferência e uma senhora, com bom aspecto, com certa idade, vem ter comigo, trata-me por tu, dá-me dois beijos, «Vim aqui para estar contigo»! Era a Guidinha, colega de liceu da minha irmã, que tinha ido para freira!

 

A sexualidade é um tema assim tão apetecível?

É um tema importante. É, enfim, o tema do amor. Nos anos 70 escandalizei as pessoas quando disse numa conferência: «Sexo sem amor é um bocado insípido, amor sem sexo é bom para os impotentes». Continuo a achar que é assim.

 

O Woody Allen tem um filme, «Another Woman», no qual uma mulher de 50 anos tem como vizinho do andar de baixo um psicanalista. A primeira conversa que ouve é a de um paciente gay que fala do seu impulso homossexual. Como o tema a desinteressa, encosta almofadões ao radiador. Quando se deslocam acidentalmente, ouve uma mulher com uma voz de uma pungente tristeza. Vicia-se na paciente, no seu sofrimento, e passa a ouvi-la todos os dias. Penso que a sexualidade e o sofrimento serão dois dos temas mais constantes que as pessoas lhe trazem. É assim? O sexo, tão exacerbado socialmente, não será uma forma de contrariar a tristeza?

A sexualidade, quando está muito desligada do afecto, na maior parte das vezes é uma forma de compensação. Um indivíduo que não consegue ter uma relação afectiva suficiente, arranja uma vicariância. Criei esse conceito, que vem da medicina: se cortar um vaso importante, começam-se a desenvolver os vasos que estão ao lado. É um reforço da parte sexual para tentar compensar a insuficiência afectiva. 

 

O analista, supostamente, está isento de desejo, de memória, de pressupostos morais. É uma entidade asséptica. O que transpira de si na relação com os seus doentes?

É a teoria clássica, não é a minha. Tenho artigos sobre isso. A doença mental resulta de relações perturbadas que o indíviduo teve e que na análise vão ser trabalhadas, no sentido de serem dissolvidas; depois, é construída uma relação diferente, mais saudável, com o próprio analista, que vai crescendo e sendo transferida para o exterior. Há uma certa remodelação da personalidade. E isso só se passa quando há uma relação afectiva forte.

 

Analista-analisado?

Mútua. Numa conferência internacional sobre depressão terminava assim a minha intervenção: «Eu só trato as pessoas de quem gosto e nas quais aposto». Pessoas que me dizem alguma coisa, porque têm qualquer particularidade que acho interessante. O doutor Mário Casimiro, psicanalista também, dizia com muita precisão: «A psicanálise é muito complicada para o paciente quanto se despe intimamente e julga que estamos vestidos. Mas quando repara que também estamos nus, a coisa começa a correr melhor».

 

Na especificidade do que são as relações, qual é a parte de si, homem, que transita para o espaço da análise?

Grande parte das relações são relações de identidade ou de não-identidade. Ligamo-nos mais a uma pessoa quando há traços comuns – o mesmo na relação com amigos ou objectos amorosos. O homem faz-se homem no convívio com os outros homens, na identificação com os seus pares. (A minha última aula na faculdade foi sobre isto). Numa identificação por similaridade com um homem. Numa identificação por complementaridade com uma mulher. É como um parafuso e uma porca.

 

Isso que diz tem que ver com a orientação sexual?

Com a identidade sexual. Mas há pouco falou no filme do Woody Allen. Tive um analisado, eventualmente o mais difícil, pelo menos o que fez uma análise mais longa – 14 anos, a quatro, cinco sessões por semana –, que tinha um problema homossexual. A alturas tantas apaixonou-se por uma mulher – actualmente é casado e tem dois filhos. Tive dificuldade em acompanhá-lo; percebia-o intelectualmente, emocionalmente, mas achava que estava doido! Já era um analista feito, ainda pensei em pedir supervisão, mas depois achei que os meus colegas não sabiam mais do que eu. Cheguei a pensar ir a Paris ou Madrid onde conhecia psicanalistas que admirava e que me poderiam ajudar. Só comecei a percebê-lo quando me lembrei de uma coisa passada pelos meus 16 anos, com uma rapariga... Andei transtornado, a ponto de apanhar um tiro numa perna!

 

Um tiro numa perna?

Um chumbo, lá numa aldeia próxima, de um rival. Foi numas férias de Natal, numa noite em que não estava bom da pinha.

 

Ela gostava mais de quem?

Suponho que era de mim, mas a gente supõe sempre isso.

 

Queria era dar uma prova de amor à rapariga!

Pois! Bom, mas foi nessa altura que me senti próximo dele, «Afinal, também tive um período em que andei maluco». Sentir e ser capaz de me colocar na situação do outro – vulgarmente chama-se empatia. Quando estou a tratar um depressivo; já tenho passado por momentos mais ou menos depressivos... Posso imaginar o que pensei e senti naquela situação. 

 

Quando recebe pessoas três, quatro vezes por semana, tem com elas uma relação quase conjugal.

É uma relação muito íntima, mas psicológica.

 

Faz tanta diferença que não haja uma intimidade física?

Na minha opinião, que não é a da maior parte dos autores, a coisa clássica da mulher que se apaixona pelo analista, ou do homem que se apaixona pela analista, ou mesmo parceiros do mesmo sexo, é um erro de técnica.

 

O que quer dizer com isso?

Se o analista conduzir bem a análise, na maior parte das vezes não acontece. É preciso algumas condições. A primeira é ser analisado e continuar em auto-análise. Depois, estar satisfeito amorosamente. Se estiver em frustração amorosa é mais fácil apaixonar-se. Lembro-me de um outro caso, de uma mulher, que começou a acusar-me de lhe suspender muitas sessões. Não estava nada consciente disso. Face à insistência dela, fiz uma estatística e, de facto, faltava muito mais do que faltava às outras pessoas. Aquilo trouxe-me embrulhado durante algum tempo. Depois percebi. Sabe como?

 

Diga.

Tive um sonho erótico com ela. Percebi que havia algo de sexual de mim para ela e que me estava a defender. A defender do avanço que aquilo podia ter dentro de mim.

 

Alguma vez se apaixonou, ou coisa parecida, por uma paciente?

Não. Pode acontecer. Mas não é conveniente. Há cerca de dez anos recusei acompanhar uma mulher porque, depois das duas primeiras sessões exploratórias, percebi que me atraía sexualmente. Estas coisas têm de ser vistas logo no princípio. Mas, em última análise, se há uma paixão, é melhor mandar para outra pessoa: «Passa-se isto, que vai estragar a relação terapêutica, e das duas uma: ou acabamos a análise e passamos a ser namorados...».

 

É possível?

É.

 

Dito assim, parece uma caricatura de um filme do Woody Allen.

Não me parece ser boa solução. Mas há casos conhecidos. Um grande analista suiço, que conheci, tinha cinco analisadas com quem foi para a cama, e depois viveu, e depois abandonou; com a última casou.

 

Teve casos de desamor pelo paciente?

Há um outro caso, um professor universitário, que tinha uma neurose obsessiva. Só me falava da importância dele, muito narcísico, eu, eu, eu, «Fui o melhor aluno, o melhor professor, tenho a mulher mais bonita, os melhores carros». Um exibicionismo que me começou a irritar. Comecei a reagir por sono, uma vontade de dormir que era uma coisa tremenda!, antes da sessão ia sempre tomar café.

 

Porque é que o irritou o narcisismo do paciente?

Chocava com a minha auto-estima, tinha ali um tipo a competir comigo. E pensei, «Isto está parado, isto não corre! Ouço-lhe as façanhas e penso que é um pobre coitado». Tinha casado virgem aos 36 anos, durante a adolescência discutia filosofia. Depois percebi-o melhor. Consegui que me fosse suportável; comecei a achar-lhe piada, à sua lógica de raciocínio. Outro aspecto foi dar-lhe a volta: mostrando-lhe que tinha aquelas coisas todas, mas que nunca tinha experimentado a vida. Mudou, mesmo na forma de vestir; andava de gravata e guarda-chuva enrolado e passou a andar em mangas de camisa. E começou a fazer coisas... Aos 50 anos, o tipo que tinha casado virgem, meteu-se com as alunas, com as mulheres dos colegas, roubou um automóvel! Comecei a assustar-me, «Isto ainda dá sarilho, para ele e mesmo para mim».

 

Para si?

Sentia que era um insucesso da minha parte. E o desprestígio, «Então este homem trata-se com o Coimbra de Matos e dá este escândalo...». E não seria o bom para ele, meter-se em sarilhos.

 

Qualquer relação, analítica incluída, está sujeita à erosão. Há flutuações, como nos casamentos? Nos casamentos, mesmo quando há um bom relacionamento, nem sempre é fácil as pessoas sobreviverem ao quotidiano.

Pois. Na relação analítica também acontece entrarmos num impasse, «O paciente não melhora, eu não o ajudo a melhorar». Para lhe dar um exemplo. Apareceu-me uma paciente, com uma depressão funda, que tinha um comportamento sexual promíscuo. Aquilo começa a rodar, e acontecem duas coisas importantes. Começa a ter uma relação comigo mais sólida e a abandonar o seu comportamento (houve uma altura em que praticamente só convivia comigo). Outro aspecto, não tinha orgasmo; era uma coisa que a afligia, que era muito falada. Fui percebendo lentamente, que tinha uma grande dificuldade numa relação mais íntima.

 

Mesmo consigo?

Sim. Houve uma altura em que senti aquilo a diluir-se. Estava mais distendida, totalmente à vontade: posso dizer tudo, pensar tudo, fantasiar tudo. Há um dia em que chega à sessão e está para aí um quarto de hora em silêncio. (Tenho um artigo só sobre o silêncio). Esta paciente, «Tive o meu primeiro orgasmo». E eu, «O primeiro não, o primeiro foi comigo, já há mais de um mês». Dá um salto no divã!... «Já há mais de um mês que sinto que está solta». Simbolicamente tinha tido um orgasmo comigo.

 

Como é assiste a este desfilar de emoções, as mais descontroladas, as insanas?

Procurando compreender. O princípio fundamental é esse. «O que quer isto dizer?» – a posição científica. 

 

Não é preciso um misto de impudicícia e coragem, para enfrentar a verdade?

É importante.

 

Ao longo desta conversa tenho pensado que o problema da confrontação pública com aquilo que é mais íntimo e verdadeiro, ou que possa parecer incorrecto socialmente, não é uma questão.

É corrente, nos analistas. Há alguns mais reservados, mas.

 

Em todo o caso não é comum, não ter medo da face da verdade.

É uma condição essencial, a da verdade. Outra é a da paciência; para esperar que as coisas se arrastem, que às vezes não corram bem. Outra qualidade importante que ensino aos jovens analistas é a impavidez: não ter medo. Se o doente se quer matar, ou matar alguém, «Qual é o problema?, não podemos resolver a situação. A sociedade tem soluções: se se matar vai para o cemitério, se matar alguém vai para a cadeia».

 

Vê isso assim? Intimamente não se preocupa?

Com certeza. Mas, sabe, é preciso encarar o problema de frente.

 

No começo da vida profissional, o quadro teórico que o analista usa para ler os pacientes é razoavelmente rígido. Numa outra fase, de vida e de carreira, funciona sobretudo a relação empática que se estabelece?

Sim. E há o plano da investigação. Se não estivermos numa posição de investigação, de procurar descobrir coisas novas e de ter uma outra compreensão das coisas, todas as profissões são más. Cito muitas vezes o senhor Arsénio, carpinteiro da minha terra, da idade da minha mãe, que nunca fazia um telhado da mesma maneira. Inventava, fazia à maneira dele. Era um verdadeiro investigador, e tinha a quarta classe.

 

Posso confessar-lhe uma coisa?

Diga.

 

Percebo que não me queira dizer. Mas não acredito que trabalhe tanto apenas pelo interesse na investigação. É quase uma insaciedade: conhecer mais esta pessoa, testar mais uma vez o sucesso. O grosso do seu dia, o grosso da sua vida, é isto.

É possível que haja outros aspectos, que eu próprio não saiba ver. Ver mais pessoas, não, mas compreender melhor os problemas, sim. A maior parte do meu trabalho são supervisões de análise e análises didácticas _ análises de pessoas que querem ser analistas. Como sabe, sou dos analistas mais conhecidos em Lisboa e há muitos psicólogos, médicos que me procuram.

 

Como lida com a circunstância de ser «O» Coimbra de Matos?

Com uma certa satisfação. Por outro lado sobrecarrega-me, (nem sempre sei dizer que não).

 

Mas tem quase 72 anos.

A minha mãe morreu com 101, o ano passado, e boa, de cabeça e do resto; tinha uma artrose no joelho, mas ainda subia as escadas lá da casa para ver as flores e as galinhas

 

Quer dizer que não se sente velho?

Não. Embora tenha feito duas coisas graves: tirei um rim há três anos (tinha um cancro), e fiz um enfarte.

 

Não tem medo de morrer?

Não penso muito nisso. Quando foi do rim, assustei-me um bocado. Deprimi. Antes de ser operado, chegou a passar-me, «E se me atirasse deste andar abaixo?» - moro no oitavo. Também tenho as minhas camoecas.

 

Que aparecem em situações limite como essa.

 

Sim, mas quando fui mobilizado para a guerra colonial... Tinha 40 anos, fui para Moçambique. Estava no apogeu da minha clínica, era conhecido, e aquilo foi uma bordoada grande. Ainda pensei fugir, mas depois tinha três filhos, uma complicação; de maneira que aceitei.

 

Seria uma ignomínia?

Não sou patriota... Fomos todos, eu, mulher, filhos. Passado um mês estava deprimido. Já tinha articulado que, numa depressão normal, o indivíduo revolta-se. Foi o que me aconteceu. Tinha dois inimigos: os militares e os colonos que não gramava; só gramava os pretos. Fiz uma luta e passou-me a depressão. 

 

Falámos de medo e de coragem. Perder o medo significa crescer. O senhor, como homem, quando é que deixou de ter medo?

Continuo a ter medo. Medo da morte, por exemplo – tenho uma teoria sobre isso. Medo. No outro dia apanhei um murro quando fui buscar o meu carro; ia a meter a chave, com a pasta na mão, e há um tipo que me dá um esticão. Acabou por fugir; deve ter percebido que não estava muito disposto a deixar-me roubar. Mas tive medo. Penso que também aí é importante a experiência infantil. A minha aldeia era muito agressiva; numa terra de 600 habitantes, havia um, dois assassinatos por ano. 

 

E medo de não ser amado, pelos pacientes, pelos pais, pela mulher, pelos amigos? As pessoas têm sobretudo medo disso. 

Com certeza que tenho. Embora não tenha assim muitas razões de queixa.

 

O que é que o afecta, verdadeiramente? Apesar do carácter lúdico da relação com a vida, parece haver uma imunidade em relação ao sofrimento.

Sou um bocado sensível aos conflitos de autoridade. Tenho ocupado cargos de chefia e as pessoas acusavam-me de ser intolerante. Uma colega minha chegou a chamar-me autoritário. E não cedia facilmente.

 

Tenho a impressão, depois destas horas de conversa, de não ter apreendido a essência de si. Resguarda-se.

É natural. Que coisas posso dizer para me mostrar? A minha mãe dizia, a minha mulher também, alguns dos meus amigos também: sou ciumento. Mais com mulheres. Provavelmente alguma insegurança. Profissionalmente creio que nunca senti. Como fui bom aluno, como fui considerado entre os colegas... 

 

Esse paciente, que aos 50 anos deu uma volta à vida; não tem por vezes o impulso de, ao invés de viver outras vidas na relação com os seus pacientes, transportar efectivamente para a sua vida uma outra vida?

Algumas coisas, gostaria de ter feito e não fiz. Pensei ir para os Estados Unidos... 

 

Porque, ouvindo-o, tenho a noção de, as histórias que conta e os seus pacientes, serem personagens do seu romance.

Claro! Costumo dizer que uma das dimensões da saúde mental é a capacidade lúdica. O brincar não é só da infância.    

 

 

 

Publicado originalmente no DNa, do Diário de Notícias em  2001

Ricardo Araújo Pereira (2009)

02.10.18

Quem é que ainda diz “eh pá” linha sim, linha não? E “gajo”, gajo para aqui, gajo para acolá? Quem é que diz que as suas filhas são o seu Jesus Cristo – mesmo assim, podia fazer troça se uma delas fosse coxa. Manquinha. E que chora lágrimas de sangue pelo seu Benfica? E que, sendo um palerma, conhece o Génesis? Quem é ele? «Eu faço um programa de televisão, escrevo textos de comédia e interpreto-os, não estou num concurso de popularidade». Mesmo assim, é muitíssimo popular. Ele é também o jovem bem sucedido, que mora numa casa com piscina, que tem um carro de alta cilindrada à porta, casamento religioso, duas filhas e uma estabilidade burguesa de que todos precisamos. Para a seguir subverter as regras.

Ricardo Araújo Pereira tem um registo inesperado. É um homem culto, criado em boas famílias (o pai é piloto, a mãe hospedeira), de educação esmerada. É de uma indubitável inteligência. Mas indubitável é uma daquelas palavras que ele usaria para fazer pouco de intelectuais de meia tijela. Digamos, então, de modo simples: ele é muito inteligente. E também: ele domina exemplarmente o português e conhece o significado íntimo das palavras. Acresce a isso um talento enorme para a representação.

Ele e os restantes Gatos põem o país a rir todos os domingos à noite. Ricardo diz assim a propósito do riso: «Quando uma pessoa se ri, pode não estar feliz, mas imita muito bem, parece mesmo que está, e pelo menos durante um centésimo de segundo está mesmo, não me lixem, está mesmo». Referia-se à avó. Foi a primeira pessoa que pôs a rir. Foi um acto de amor. Ela está naquilo que ele é hoje.

RAP 

Fotografia: Miguel Baltazar

 

Talvez começar por dizer que te conheço há muitos anos e que te entrevistei há três, quando estava a sair o primeiro DVD dos Gatos. Apanhei-te no começo da explosão; entretanto, foi uma deflagração absoluta!

Mudou muitíssima coisa. Estávamos a fazer um programa para um canal que tinha dez mil pessoas de audiência, de forma completamente amadora, tanto do ponto de vista da produção, como do nosso, que estávamos a fazê-lo nos intervalos do trabalho. Agora, estamos na estação pública, em horário nobre, a fazer um programa que tem um milhão e meio de espectadores e feito por uma produtora profissionalíssima. Em três anos isso aconteceu.

 

Podias prever isso?

Não, nunca. A gente farta-se de dizer isso. Sobretudo quando nos perguntam quais são os projectos para o futuro. É impossível estar a projectar quando há três anos seria ridículo ter feito estes planos.

 

Consegues perceber qual foi o elemento catalisador desta quase histeria que há à volta dos gatos? Têm um público tão transversal que vai dos miúdos de dez anos ao Jorge Coelho (julgo não cometer uma inconfidência se disser que ele é vosso fã...).

Não tenho nenhuma resposta para dar. Até porque aquilo que fazemos é aquilo que nos apetece. Quando saímos da SIC Radical tivemos propostas de vários canais. E a RTP foi provavelmente a única que disse: “Queremos contratar-vos para fazerem exactamente aquilo que estão a fazer”. Depois temos constatado, com muita felicidade, que isso agrada a algumas pessoas. Não escondo que é engraçado famílias virem ter connosco e dizerem: “É o único programa que vemos todos juntos”.

 

Esse tipo de unanimidade agrada-te? O Chico Buarque, a dada altura, não gostava de ser um artista consensual.

Eh, pá, isso é um artista, atenção. Eu tenho a certeza de que não somos unânimes. Estávamos a falar do efeito catalisador. Há um efeito que tem a ver connosco, porque outros produtos do canal não têm a mesma projecção. E há um efeito catalisador que tem a ver com as pessoas, que é o facto de porem aquilo na internet, de passarem uns para os outros. Esse fenómeno potenciou e continua a potenciar [a difusão do Gato Fedorento].

 

São razões exógenas ao fenómeno, mas fundamentais para o explicar.

São. Recebemos imensos e-mails a dizer: “No emprego, a primeira coisa que faço segunda-feira de manhã é falar com os meus amigos sobre o programa da véspera, e vamos ao Youtube e já lá estão os sketches do dia anterior”. É uma coisa divertida e que pode explicar a falta de produtividade do povo português: as pessoas estão entretidas a ver a internet em vez de trabalhar. Enquanto for para nos ver a nós, é simpático!

 

Têm uma máquina de promoção que trata disso? Quem é que disponibiliza os sketches no Youtube?

Há televisões nos Estados Unidos que põem, elas próprias, bocados de programas no Youtube para potenciar o marketing viral – aquela coisa que os gajos do marketing inventaram. A RTP não faz isso. São legiões de adolescentes, cheios de borbulhas, que no domingo de madrugada põem aquilo no Youtube. Enquanto isso pontenciar o nosso trabalho e a nossa exposição pública, adoramos essa gente. Quando percebermos que é uma forma de pirataria que nos prejudica as vendas, gostaríamos que fossem encarcerados.

 

Achas mesmo que não há unanimidade neste momento?

Um largo consenso, admito. É difícil haver um tipo com uma exposição pública continuada e um trabalho com repercurssão pública que não tenha um largo consenso.

 

É mais fácil ser polémico do que consensual. Estou a pensar em pessoas como o Vasco Pulido Valente ou o Pacheco Pereira.

Gosto dos dois. Toda a gente, não, mas um largo consenso de pessoas respeita-os, mesmo não concordando com eles. Aquilo é um negócio: se não encontrassem essa repercussão nas pessoas, não haveria procura para aquilo que escrevem.

 

Vou usar um palavrão para dizer qual é a minha impressão: vives numa espécie de ubiquidade permanente. Como se tu fosses este que é bem educado, que até banca o humilde, que quase pede desculpa por ter lido o Nietzsche – na entrevista à Judite de Sousa citaste o Nietzsche e o Freud; e fosses, ao mesmo tempo, aquele que toda a gente espera que sejas, ou seja, o Gato Fedorento, o elemento central daquele colectivo.

Eu não o elemento central daquele colectivo. Aquele colectivo é mesmo um colectivo. O Herman, (estávamos numa entrevista com a Maria João Avillez), fez uma pergunta que diz tudo: vocês ganham todos o mesmo? Claro que ganhamos todos o mesmo. É revelador da importância que todos temos no grupo.

 

No outro dia, eu perguntava a uma pessoa que vos conhece se vocês nunca se pegam... Porque um ocupa demasiado espaço, ou tem excessivo protagonismo. Nem em privado?

Nem em privado. Mas fartamo-nos de nos pegar: “Que estupidez, não faças isso assim, vamos fazer de outra maneira, eu não concordo nada com isto”. Pegamo-nos imenso até com coisas do dia-a-dia, como embirrar com a...

 

Com a namorada de não sei quem?

Exacto. Se esta vontade da imprensa escolher um líder tivesse recaído sobre um deles, se calhar eu levava isso a mal. Eles não levam nada a mal.

 

Por que é que levavas isso a mal? É o teu ego?

Pois, não ia achar graça. Tenho a sorte de eles serem óptimas pessoas e estarem-se borrifando para o assunto.

 

Portanto, é um acordo tácito: tu não és o líder, mas há uma figura que aparece, que está no pico da fama, e essa és tu.

Pois, mas não há nenhuma objecção a isso. É uma escolha da comunicação social e da imprensa, não nossa. Quando se trata de “vem cá o Gato Fedorento” e vou só eu, costumamos recusar. Se é “quero falar com o Ricardo”, à vontade. Estou a falar como o Jardel, já viste?  

 

A falar de ti na terceira pessoa! Já vais fazendo um desdobramento entre o personagem público Ricardo Araújo Pereira e o teu núcleo essencial?

Foi tudo muitíssimo rápido e eu não sabia, nenhum de nós sabia, como é que se lidava com a exposição pública. Receio que a falta de experiência me tenha empurrado para uma situação em que não tenho uma máscara pública. Quer dizer, tenho a máscara que toda a gente tem: em privado, em casa...

 

Damos arrotos.

Sim, é isso. E publicamente não o fazemos. Mas não tenho tido nenhum pudor em mascarar aquilo que penso. Isso tem-me trazido alguns dissabores, paradoxalmente. Às vezes as pessoas levam a mal que eu manifeste posições políticas.

 

Perdeste um pedaço da unanimidade quando fizeste campanha pelo Sim no referendo ao aborto?

Não faço ideia. O meu pai achou que sim. Do ponto de vista cívico não tenho feito nada, mas o problema do aborto era uma questão que me interessava e na qual gostaria de participar.

 

Os pais preocupam-se sempre com essas coisas. É por não gostarem que não gostem de nós.

Sim, mas não sei se isso deve nortear a minha conduta. Eu faço um programa de televisão, escrevo textos de comédia e interpreto-os, não estou num concurso de popularidade. Vale a pena ser pardo do ponto de vista político, ou outro, só para manter a afeição de pessoas que não toleram que eu pense de forma diferente?

 

Não estás para isso...

Acho que não faz sentido nenhum.

 

A tua participação cívica na campanha do aborto é uma réstia da tua militância comunista?

A militância comunista foi péssima.

 

É já uma coisa mitificada?

Sei que é. Há muitas coisas mitificadas entretanto. Uma coisa que ao princípio me fazia confusão, agora vai fazendo menos, é o facto de todas as semanas aparecer qualquer coisa na imprensa, que não é verdade, sobre mim. Coisas tão simples como: o JL fez 25 anos, e eu trabalhei lá...

 

Foi o teu primeiro trabalho, não foi?

Sim, assim que saí da Faculdade fui para lá. O JL fazia 25 anos e eu mandei um cesto, daqueles que se compram na internet, com flores, chocolates, uma garrafa de champanhe, com um cartão, para os meus camaradas de redacção.

 

“Os meus camaradas”?

Todos os jornalistas dizem camaradas, não me lixes!

 

Ah, é verdade, tudo menos “colegas”, porque colegas são as p....

Exacto. Um jornal descobriu que tinha mandado o cesto e publicou que eu gostava muito de champanhe! Podia ter posto que gostava muito de cestos, ou de fruta, ou de flores. As notícias vão para os arquivos e os jornalistas sempre que fazem uma coisa sobre mim, lêem aquilo e perguntam-me: “Gosta de champanhe?”. Neste momento, eu, que bebo champanhe como as pessoas bebem champanhe, nos aniversários, sou um gajo que gosta de champanhe francês!

 

Devassas à tua vida privada?

Imensas, pá, imensas coisas. No outro havia um fotógrafo a 20 metros do meu portão, dentro do carro, e outro para aí a 50, dentro de outro.

 

As tuas filhas e a tua mulher já começam a sentir uma afectação por serem as filhas e a mulher de?

Há uma tentativa de as dar a conhecer. Recusámos sempre, mas há coisas que não podemos evitar. Por exemplo, no aeroporto ou na rua.

 

Para as miúdas, no colégio, com os amiguinhos, o pai é aquele que aparece na televisão?

A minha filha mais velha percebe que os amigos e os educadores dizem: “Tu és a filha do Gato Fedorento”, mas ela ainda não percebe que isso, do ponto de vista social, é diferente do que acontece com os pais dos outros meninos.

 

Posso dizer que esta entrevista foi adiada porque nessa noite estavas a cuidar das tuas filhas?

Podes, à vontade.

 

Quando li a mensagem que me enviaste, pensei que as pessoas olham para ti como um ícone. E um ícone não tem filhos, nem tem noites mal dormidas porque as filhas estão com gripe.

Sem estar a expor a minha família, a minha mulher, as minhas filhas, nunca deixei de dizer que era casado e tinha filhos.

 

É certo que não tentaste esconder, mas as pessoas não querem ver essa parte. Porque corresponde a uma dimensão corriqueira.

É isso. É aquela coisa da pessoal fútil, casado e tributável... Uma coisa que o Pessoa diz: “Queriam-me fútil, casado e tributável”. Já sou as três coisas.

 

Tínhamos lá para trás a ubiquidade. Não é por acaso que agora trago a ubiquidade. Estás sempre entre estes dois desempenhos?

Acho curioso que digas “entre esses dois desempenhos”.

 

Refiro-me ao desempenho social e ao familiar.

Mas quando me dizes que são dois... Aquilo que tu dizes é bem observado. Há uma estratégia que é constante e que ao fim de um tempo começa a tornar-se aborrecida. Uma estratégia de auto-depreciação que fazemos enquanto grupo e individualmente também. É uma estratégia excelente de auto-defesa, para baixar as expectativas das pessoas...

 

Também para fazer um certo género... Cria-se uma ideia de: “Ai, sou palerma, ninguém me pode levar a sério”.

Tem esse lado positivo. Se tu te insultares a ti própria primeiro, os outros depois têm mais dificuldade em fazê-lo. Agora, quando tu dizes “bancar o humilde”... A imprensa está a tentar arranjar uma guerra entre nós e o Herman, acham que pode ser interessante do ponto de vista mediático; e se calhar é. Mas não há guerra nenhuma, nem nunca há-de haver.

 

Começaram por trabalhar com ele, na escrita dos textos, enquanto elementos das Produções Fictícias.

Trabalhámos com o Herman imenso tempo, tivemos esse privilégio, ele sempre nos tratou bem, não há razão nenhuma para andarmos armados em parvos a dizer: “Vamos à guerra das audiências”.

 

Pelos vistos, não precisam.

Não se trata disso, os programas são diferentes, o horário é diferente, os canais são diferentes. E não seriam as audiências a determinar se um programa é melhor do que outro ou não é. Dou sempre o exemplo do futebol: “Não vamos fazer concorrência ao Herman, só porque estamos a jogar à mesma hora. O Birgmingham não faz concorrência ao Chelsea”.

 

O Benfica e o Sporting?

Não, não, o Benfica e o Sporting é outra coisa.

 

“Lavo a boca para pronunciar a palavra Benfica?”, não é o que se diz em futebolês?

Houve gente que me censurou: “É falsa modéstia”. Comparar o maior humorista português de sempre, com a maior equipa do mundo, e quatro gajos que começaram há três anos, e há um ano tinham um produção amadora, é inaceitável. Esquisito acharem que é falsa modéstia. Para mim é uma coisa rigorosa.

 

Lamentas que as audiências do Herman neste novo programa sejam tão baixas? Sinceramente. É como se fosse uma injustiça?

Primeiro, não sei se são assim tão baixas. Segundo, não vejo justiça nem injustiça nas audiências. Não vejo que as audiências sejam prémio de qualidade, de competência. As audiências não significam nada a não ser “há muita gente a ver” ou “há pouca gente a ver”. Se calhar vai haver pouquíssima gente a ver o programa do António Barreto e tenho a certeza de que vai ser um belíssimo programa. Vai ter seguramente menos audiência que o nosso e vai ser seguramente melhor do que o nosso. O Herman tem 30 anos de carreira, duvido que esteja preocupado com a percentagem do share.


Pode estar preocupado com uma coisa, essa sim, significativa, que é envelhecer.

Mas isso não tem nada a ver com as audiências.

 

Envelhecer pessoalmente e envelhecer artisticamente. Estar desfasado destes novos tempos em que segunda-feira de manhã aparecem no Youtube as coisas mais engraçadas da véspera.

Essa é uma pergunta insidiosa.

 

Não é.

Em relação ao Herman, só tenho coisas boas para dizer. Não creio que esteja desfasado da realidade, antes pelo contrário. Sei que tem esse problema com o envelhecimento, como toda a gente. É uma coisa horrorosa, a aproximação da morte assusta qualquer ser humano, e não só os seres humanos de origem alemã. Nós só sabemos o que é um humorista por causa do Herman. O Herman é vítima de si próprio.

 

Como assim?

A Judite de Sousa perguntou-me sobre a imparcialidade do humorista: essa questão só se põe em Portugal porque o Herman nunca manifestou posições políticas, nem de clubes de futebol. E tem todo o direito de não as manifestar. O Herman é vítima de si próprio por ser o paradigma, as pessoas esperam dele muitíssimo mais do que parece ser aceitável. A própria memória dele está a assombrá-lo.

 

Chega de Herman. A não ser para perguntar se os Gatos podem ser apenas um epifenómeno. Isto vem a propósito da longevidade da carreira do Herman. Há três anos tu irrelevavas o vosso sucesso, achavas tudo aquilo improvável.

Neste momento particular não é um epifenómeno. Mas nada nos garante que daqui a cinco anos não tenha sido afinal. Sabemos que daqui a 50 anos as pessoas vão saber quem era o Herman José, assim como hoje em dia sabemos quem é o Vasco Santana, o António Silva. Mas não fazemos ideia se daqui a 50 anos as pessoas se vão lembrar de nós. Quando cheguei às Produções Fictícias, estava a acabar de acontecer um fenónemo humorístico na SIC, protagonizado por uma pessoa que dava autógrafos na rua, era considerado pelas revistas e jornais o novo Herman; hoje em dia ninguém sabe quem é. Acontece muito.

 

Isso ainda vos pode acontecer?

Acredito que o nosso trabalho tem sido um pouco mais consistente, até porque tem sido mais duradouro. Mas nada impede que daqui a cinco anos já não seja nada. As nossas ambições não passam exclusivamente pela televisão. Para já, é quase garantido que em 2008 não estejamos a fazer nada, saiamos da televisão. Depois, é possível que façamos mais dois, três, cinco anos de televisão e arrumemos as botas completamente – há essa hipótese.

 

Continuas a sonhar escrever como o Mário de Carvalho?

Quando disse que queria ser escritor e jogador do Benfica tinha seis anos, depois percebi que não tinha talento nem para uma coisa nem para a outra.

 

O que é que te custou mais?

Foi sem dúvida jogar à bola.

 

Para o resto, pelos vistos, tens talento.

Não se trata disso. Uma pessoa que escreve um grande livro não levanta o Estádio da Luz, se marca um golo, levanta. É uma questão de prioridade.

 

Mas como Gato, também levantas o Estádio da Luz.

Isso foi a melhor coisa da carreira até agora. O Benfica convidou-nos para fazer uns sketchs no Estádio da Luz e os nosso consócios estavam ali. Sinto aquela gente como da minha família, ter a família a rir daquilo que estou a fazer...


Explica-me melhor essa comoção de ter as 65 mil pessoas da família ali... Estranho, é como se estivesses a fazer um número cómico dizendo isso.

Percebo que as pessoas achem graça e achem que é rídiculo. Estou a falar a sério.

 

Por que é que isto te toca? Por que é que é comovente?

Há pessoas que conseguem ser primárias e irracionais na política, na religião, com imenso sucesso. Eu resolvi guardar a irracionalidade e o primarismo todo para o clubismo, para o Benfica. E atenção que a palavra primária também tem um lado bonito, um lado de primeiras coisas. Não choro com nada na vida a não ser com o Benfica – isso é uma coisa ridícula.

 

A sério?

Choro, choro, choro.

 

Não choras com mais nada? Era a outra coisa que me impressionava.

Não. É mesmo uma coisa irracional, de um domínio extraordinariamente primitivo. Lembro-me de ir ao Benfica com o meu primo António, foi ele que me meteu o bicho. Eu tinha para aí seis anos e o meu primo tinha tiques esquisitos, tremia todo, coçava o colarinho, coçava a nuca, cuspia e fumava. E lembro-me de olhar para ele e pensar: “É isto que quero para mim, é isto mesmo”.

 

O transe.

É aquele. Percebo que é absurdo uma pessoa sofrer da maneira que eu sofro, com o coração a bater nas costas, porque onze milionários dão pontapés num objecto esférico cheio de ar, vestidos com camisolas cuja cor me agrada. É aquela história do Herberto Hélder, “se eu quisesse enlouquecia”... Se eu quisesse “desenlouquecia”, sabia fazer o caminho ao contrário.

 

Impunhas a racionalidade. Serias capaz?

Só que não quero! Gosto imenso daquele sofrimento. A proximidade que sinto das pessoas que estão no estádio..., aquele é o público que realmente me interessa. Sei que na televisão, se faço uma coisa sobre o Marcelo, há pessoas que vão ficar desagradadas. Mas, eh pá, são ossos do ofício. Agora, pensar que qualquer coisa que eu faça no Estádio da Luz vai desagradar aquela gente, isso sim, transtorna-me.

 

Tenho uma pergunta algo delicada, e é só pela intuição...

Força.

 

Passaste a vibrar ainda mais com o Benfica depois da morte da tua avó?

Não, não. Por que é que achaste que essas coisas estavam associadas?

 

Tenho a impressão que a pessoa que mais amavas e de quem eras mais íntimo era a tua avó. E ela, pela sua simplicidade, personificava também esse lado familiar e espontâneo do Benfica. Ocorreu-me que podias transferir um pouco para a família indiferenciada que é a massa benfiquista aquilo que vinha dali e que foi um dos sustentáculos da tua vida.

Não passa nenhum dia sem eu me lembrar da minha avó. No outro dia estava a constatar isso. Isso não tem nada a ver com o Benfica, às vezes até tem a ver com o meu trabalho. Aprendi a valorizar mais aquela herança. As pessoas perguntam-nos quais são as nossas influências.

 

E quais são?

Há sempre influências de dois tipos: as técnicas, (o Woody Allen, o Herman, o Seinfeld, o The Office), e aquilo que nos fez ser aquilo que somos. Ela fez de mim aquilo que eu sou, mesmo sem querer. A maneira como se relacionava comigo e como achei que me devia relacionar com ela, fez de mim aquilo que sou. Isto tudo que me acontece também é ela.

 

Consegues explicar melhor o que é que ela te fez? Que milagre foi esse?

Não é bem um milagre, as pessoas são feitas dessa massa. Aquela tábua rasa que são ao princípio e depois leva várias marteladas... Ela tinha tido uma vida bastante madrasta. Qualquer outra pessoa que fica viúva com 30 anos provavelmente passados cinco, dez, um, volta a casar e refaz a vida. Para ela, ficar viúva com 30 anos significava a vida terminar quando estava a começar. Para as mulheres do Alto Minho significa vestir-se de preto até ao final da vida.

 

Tinha um daqueles corações com as fotografias roxas dentro? São de ouro e usam-se presos ao peito.

Tinha, tinha. E portanto, ela tinha uma má relação com a vida. Lembro-me sempre dela com o sobrolho franzido.

 

Engraçado, imaginava-a mais suave, mais ternurenta.

Mas isso era. Não sei se o General Ramalho Eanes é ternurento, mas é certo que aparece sempre com um ar sisudo. Aquilo é uma noção trágica da existência, um fatalismo incrível.

 

A tua avó dizia asneiras? No Minho dizem-se muito. Estou a pensar de onde é que vem o teu lado asneirento...

Se estivesse fora de si, dizia. Eu conseguia colocá-la fora de si, tinha algum talento para isso. Também não era difícil.

 

Quando fazes o campónio pensas nas descrições dela?

Penso. O Professor Lindley Cintra dividiu muito bem os sotaques: do Pombal para cima troca-se os “bês pelos vês”, nesta zona fala-se “assim”, na outra já os “esses” são mais molhados. A minha família, que é toda do Alto Minho, borrifou-se no Lindley Cintra! Uns falam com os “esses” mais molhados, outros não falam de todo. Eu, quando é preciso fazer um desses, basta pensar: “Hoje vou fazer o tio Manuel”, “Este vai ser o Aniceto”.

 

Tens no teu armário uma galeria desses personagens.

Sim, pá. É a aldeia da minha avó, basicamente. E mesmo da família.

 

Não é abusivo dizer que, de certo modo, és humorista por causa da tua avó?

Por causa da minha avó. A primeira pessoa que tive vontade de fazer rir foi ela. Havia em mim um fascínio imenso em relação às pessoas que conseguiam fazer isso a outro. Quando uma pessoa se ri, pode não estar feliz, mas imita muito bem, parece mesmo que está, e pelo menos durante um centésimo de segundo está mesmo, não me lixem, está mesmo. Uma das razões pelas quais há um preconceito, até religioso, em relação ao riso, à dimensão física do riso...

 

É pela descompostura, porque se desmancham?

De facto, durante uns segundos, o corpo está abandonado a uma outra coisa. Não se conseguir controlar o corpo é logo péssimo. Também o facto de uma pessoa conseguir interagir com a outra fisicamente, sem lhe tocar, causa uns engulhos grandes.

 

Gostava de recuperar uma pergunta que fiz há três anos: o que é que é sagrado? A avó é sagrada, as filhas são sagradas, a mãe é sagrada?

Exacto.

 

Ou seja, com o quê é que não se faz humor? Nem toda a impiedade é consentida. Isso estraga uma vida.

Uma coisa é perguntares-me o que é que é sagrado, outra coisa é perguntares-me com o que é que se faz humor. Toda a gente tem os seus sagrados, para umas pessoas é Jesus Cristo, para mim são as minhas filhas. Isso significa que não se pode fazer humor com Jesus Cristo ou com as minhas filhas? Eu acho que não.

 

Vamos imaginar que a tua filha tinha... estou aqui a imaginar uma coisa horrível... Vamos imaginar que era manquinha, que coxeava... Provavelmente nunca mais ias fazer o número do manquinho.

Não diria que isso é assim. Faço pouco das minhas filhas todos os dias. Uma das coisas de que elas mais gostam é quando as imito.

 

Isso é porque são perfeitinhas. Imagina que ela era mesmo manquinha...

Não sei se não podia ser sublimada através do riso. E não sei se não seria bom para ela se defender disso, justamente. Toda a gente tem o seu manquejar, mesmo que não esteja à vista de todos. A maneira de dominar e de conseguir superá-los, os meus, sempre foi através do riso e do humor. É um mecanismo de defesa como qualquer outro.

 

Raramente fazes humor com o sexo, que é um tema fácil. Ainda por cima, fizeste toda a escolaridade com freiras, frades, jesuítas, a universidade na Católica. A repressão sexual associada aos religiosos, é disso que estou a falar.

Ao princípio estavas a dizer que vou à Judite de Sousa e sou aquilo que as pessoas estão à espera que eu seja, mas que também sou outra coisa.

 

Tu és mais culto, mais humilde, mais controlado do que o que as pessoas estariam à espera.

Admito que haja uma parte que se surpreenda por o palerma que vê na televisão a fazer aquelas figuras ridículas saber...

 

Quem é o Nietzsche, e que o tenha lido.

Pois, ou quais são os momentos do Génesis em que há riso e a forma como foram sendo interpretados. Não faço nenhum esforço para ser de uma maneira ou de outra. Sou o palerma que quando a câmara está apagada diz imensos palavrões, faz piadas do mais básico e escatológico e também gosta de saber o que é que o Nietzsche pensa. Um tipo pode ser um palhaço e um idiota e gostar de ler livros. Não é surpreendente. As pessoas são mais do que uma coisa. Provavelmente o público está à espera que se seja só uma coisa.

 

O vosso humor não recorre a palavrões.

É um acordo tácito, nem sequer chegámos a discuti-lo. É relativamente fácil o humor com palavrões.

 

Na minha entrevista anterior dizias “puta cara”. Dizias que aquilo que incomodava as pessoas, quando fizeste o anúncio do “Eles falam, falam, falam...”, não era teres sido puta, era teres sido uma “puta cara”. Teres ganho uma pipa de massa.

Uma parte das pessoas fica sempre incomodada com isso.

 

Agora és uma puta cara, cara, cara.

[risos] Agora ninguém me chateia por causa disso.

 

Estás no pico da onda. O sketch do Marcelo é inesquecível. Já te encontraste com ele?

Não, não. Aqueles foram os minutos mais perigosos de sempre da minha carreira. Nunca recebi tantas ameaças.

 

Mas tu recebes ameaças?!

Ora aí está. Por carta, por mail. A mim, à minha família, às miúdas, informações sobre o colégio onde andavam. Uma coisa bastante assustadora. Esse momento do aborto fez-me reconsiderar o sítio onde vivemos.

 

Eu estava centrada na tal unanimidade dos Gatos, não tinha ideia que pudesse ter havido uma reacção tão visceral.

Se eu fizer uma bomba, se assaltar um banco, se matar alguém, admito que as pessoas me ameacem matar a mim. Agora, fazer uma rábula humorística de dois minutos e ameaçarem-me da mesma coisa?

 

Foi um assassinato político... Estava a pensar se devia dizer isto, mas é o sentimento colectivo. Aquela rábula foi mortal para o Professor Marcelo.

É possível que tenha sido atendido como isso.

 

As freiras e os frades, os religiosos e o sexo. Acho que era a ponta que tinha ficado solta lá atrás. Para terminarmos, a “punchline” do sexo funciona sempre bem.

O sexo é como a sogra, é um tema humorístico clássico. Se não for abordado de uma forma especialmente sofisticada, faz dele um tema pouco interessante.

 

Casaste pela Igreja. O Tolentino de Mendonça foi o padre do teu casamento.

Sim, num casamento misto. Como é que hei-de dizer? Não é a Igreja do César das Neves [aquela em que me revejo]. É na Igreja do Padre Tolentino. Há uma figura do direito canónico que prevê que um tipo que não é baptizado, como é o meu caso, ou que tenha outra religião, case com uma católica.

 

E acabamos nisto?

Só se disseer uma coisa bombástica para terminar. Vamos tentar fazer cair o governo! O que é que achas? Por acaso, eu gostava. Se tivesse um leque de recursos mais vasto, se conseguisse imitar, por exemplo, o Sócrates, que é muito difícil...

 

Tu treinas?

Treino imenso.

 

Vamos ao exemplo que toda a gente conhece: o Marcelo. Demoraste muito tempo a chegar lá?

Imenso. Treino em casa. Vejo imensos vídeos, vejo o vídeo sem som para ver os gestos, oiço o vídeo sem imagem para ouvir a melodia. “Assim que se apanha, é uma segunda natureza” [isto é dito no registo de Marcelo], mas primeiro que consiga apanhar, é uma chatice.

 

Disseste que podes ser inseguro? Vou testar a tua insegurança: posso dizer que não acho piada nenhum às crónicas que escreves para a Visão? Talvez sinta a falta da tua interpretação. Ao contrário do que dizes, tens imensos recursos enquanto actor.

Aquilo já dura há dois anos, e continuo à luta com a crónica. O Miguel Esteves Cardoso no outro dia dizia que uma pessoa faz uma crónica boa, depois é merda, merda, merda, merda, depois vem outra boa, e depois é outra merda, merda, merda, merda. Eu estou quase sempre na merda.

 

O que é que falha?

É uma coisa que não consigo compreender. Às vezes, até o sentido da responsabilidade me cerceia os movimentos. Lembro-me de estar a escrever para o blogue e ficar satisfeito com os textos... O problema principal é o tempo. Nunca tenho tempo para escrever tão bem quanto gostaria.

 

O que quero é saber se te custa muito admitir que não sabes fazer uma coisa. Ou vais tentando, tentando.

Sim, custa-me. E vou tentando. Não admito que não consigo fazer, eu hei-de conseguir. Estou a ser absolutamente sincero. Nas peças da escola eu era o pior gajo que ali estava, a minha família ria-se à gargalhada com a minha falta de jeito. A minha tia Lurdes ainda hoje fala nisso, “péssimo, péssimo”.

 

Quem te viu e quem te vê. Ao mesmo tempo, a insegurança é uma arma poderosa, porque é altamente estimulante.

Exactamente. Conheces a fábula do mocho e do leão?

 

Conta.

O mocho diz: “Pst, ó leão, eu vou sair agora de casa, estão lá as minhas crias, são bebezinhos tão bonitos e fofinhos, pedia-te que não lhes fizesses mal”, “à vontade, estás a pedir-me, por amor de Deus...”. E o mocho chega a casa e está tudo estraçalhado, “então, pá, tinha-te pedido...”, “disseste que eram bonitos!, eu comi uns que eram absolutamente horríveis”. O mocho acha sempre que os seus filhinhos são lindos. Tenho sempre esse pânico, de achar que estou a ser mocho em relação a uma rábula que acabei de fazer. O texto, controlo mais ou menos, sei ver que isto tem graça ou não tem. Uma imitação do ponto de vista da performance, tenho sempre muita dificuldade em saber se aquilo está bem ou está mal.

 

Pronto, está visto que a conversa não tem fim. Ficamos por aqui.

Ok.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009

 

Ler no Chiado Afonso, Djaimilia, Riço

01.10.18

Afonso Reis Cabral, Djaimilia Pereira de Almeida e José Riço Direitinho têm livros novos. No próximo Ler no Chiado vão falar de "Pão de Açúcar", "Luanda, Lisboa, Paraíso" e "Essa luz que te ilumina", vão falar do seu universo literário. No dia 11 de Outubro, às 18.30, na Bertrand do Chiado. Eu modero. Venham!

(Quase) Toda uma Vida - Alberto Pimenta

01.10.18

Alberto Pimenta, o que escapa à catalogação. Poeta, artista, ligado com hífen a palavras como experimental, irreverente, iconoclasta. O da poesia concreta. O das performances, como, a mais famosa, enfiar-se numa jaula do Jardim Zoológico de Lisboa, com macacos (Homo Sapiens, 1977). Autor do Discurso do Filho da Puta, quiçá a obra mais conhecida. Escreveu ficção, teatro, ensaio. Foi professor universitário em Heidelberg e na Universidade Nova de Lisboa.  

Edgar Pêra  fez sobre ele um filme, "O Homem-Pykante - Diálogos com Pimenta". E nós, vamos falar com canela e açúcar? Nasceu no Porto em 1937. Será o próximo convidado do (Quase) Toda uma Vida no CCB, dia 14 de Outubro, às 17h ("14 é um número bonito, é começo de soneto... 14 às 5, melhor do que 17...", anotou Pimenta na sua agenda de papel).