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Anabela Mota Ribeiro

Foi muito bonita a festa, pá!

30.10.18

1.

Salgueiro Maia exigiu ser sepultado em campa rasa e sem honras de Estado. Maia comandou a coluna de tanques que saiu de Santarém e que teve a delicadeza, o civismo, o sonho de parar num semáforo antes de derrubar a mais longa ditadura da Europa. Primeira imagem do 25 de Abril: a cara de menino de Salgueiro Maia. Primeiro gesto da dimensão do irreal: respeitar o vermelho, olhos postos no verde, numa noite ainda escura.

Poderia Salgueiro Maia adivinhar que passados 22 anos sobre a sua morte, e rentes aos 40 anos desse dia inaugural, falaríamos da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão? Porque foi tão explícita e veemente a decisão no seu testamento? Campa rasa e sem honras de Estado. Como quem quer deixar o Estado de fora disto. Ele que comandou no terreno uma operação genial para mudar o Estado e torná-lo, de novo, parte disto. E, sobretudo, a campa rasa, sem os arrebiques e salamaleques que também acompanham a morte, algumas mortes.

Uma campa de pessoa do povo. Maia tinha orgulho em ser povo. Foi por ele, povo, que disse as famosas palavras: “Como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos.”

Correram os anos. Maia recusou cargos e honrarias, o Estado recusou pensão à sua família. Estudou Ciências Políticas. Desiludiu-se com o outro estado a que chegámos, depois de tudo se ter levantado de uma folha branca, e ainda tão longe deste estado a que chegámos.

Mas os estados não podem senão mudar, e levar-nos na enxurrada da desilusão.

Não é crível que tenha lamentado por um momento os passos daquele dia longo em que era capitão. Nas fotografias parece um rapaz de uma sensatez de aço, elegante como um cavaleiro.

Maia é o povo, o povo que está no coração da História e que é herói. Qual é o lugar dos heróis? E qual é a sua, a nossa, a definição de herói?

Agora o povo está zangado. Com o péssimo que isto está, com o que fica por punir, com o que apanha no ar e não consta nas estatísticas. Zangado e com uma granada no lugar do peito que se chama injustiça. Qual foi o estado a que chegámos? Foi mesmo bonita a festa, pá?*

 

* Foi Bonita a Festa, Pá – de Tanto Mar, tema composto por Chico Buarque para a revolução dos cravos (primeira versão em 1975, segunda em 78).

 

2.

Vejamos as fotografias. A euforia que faz levitar é a do primeiro de Maio, dissipadas as dúvidas. Numa semana, o mundo parecia edificado em certezas.

Uma semana. O tempo que mediou o noivado e o casamento. Todos assistiram à festa. Uma gaivota voava, voava. Um milhão de pessoas na Alameda. Só não estavam os fascistas. Também já tinha diminuído drasticamente o número de fascistas. Porque no dia seguinte todos tinham sido opositores a Salazar, todos tinham sido perseguidos ou presos. A efabulação (de que Adelino Gomes fala numa entrevista com Alfredo Cunha ao PÚBLICO) tinha começado e era transversal. A memória colectiva, inevitavelmente reconstruída, tinha incorporado distorções, inexactidões. Mas eram boas memórias. E aquilo foi uma festa.

Agora lemos o que dizem Os Rapazes dos Tanques sobre o que está pior, e lemos sobre o abismo entre a classe política e o povo. A classe política dos últimos vinte anos. Lemos sobre “a cambada que nos está a dirigir”, “o descrédito da classe política”, “os governos que deram cabo disto, e o caraças”, a “a classe política mais ordinária da Europa”, “uma classe política sem nível e sem sentido de Estado”. Não só isto, mas constantemente isto. Não só isto porque, apesar disto, isto é melhor do que o que havia. Globalmente de acordo em relação a isto. Comprova-o uma sondagem do Instituto de Ciências Sociais (ICS). 58% dos inquiridos consideram o 25 de Abril mais positivo do que negativo. Da esquerda à direita.

Diz o então cabo apontador Vítor Ribeiro Costa no livro de Adelino Gomes e Alfredo Cunha: “O 25 de Abril não trouxe nada de pior. Para a maioria das pessoas, o pior que temos hoje é melhor do que tivemos com Salazar e Marcelo”.

Quando é que começou a aparecer o ponto de interrogação e, repetindo os versos de Chico Buarque, se procurou o restinho de alecrim, a semente esquecida nalgum canto do jardim?

 

3. 

- Quando é que o senhor começou a trabalhar?

- Aos 12 anos.

- Os seus filhos, quando é que começaram a trabalhar?

- Depois da faculdade, fez tudo a faculdade.

- E diz que antigamente é que era melhor?

Irene Flunser Pimentel (1950) travou esta conversa com um taxista, recentemente, em Lisboa. O discurso saudosista do antigamente é uma praga com que a historiadora (de esquerda) lida amiúde. “É verdade que hoje podem ir para a faculdade e ficar desempregados ou ter que emigrar. Mas é outra situação.”

Quão outra situação? Números. Em 1974, estavam inscritos no ensino superior 50 mil alunos, 7% daqueles que estavam em idade de o fazer. Tem-se noção da explosão quando comparamos com os dados de 94. Número de inscritos: 270 mil, 30% dos que tinham entre 18 e 22 anos. (Fonte: A Situação Social em Portugal, 1960-95, organização de António Barreto) Em 2000, eram 350 mil inscritos, 53% dos que tinham entre 18 e 22 anos.

Há um cifra que diz respeito à totalidade da população e que esmaga. Em 1981, quase metade da população com mais de 30 anos não tinha a quarta classe, e 28% não sabiam ler nem escrever. Já a revolução tinha sido e o caminho começado. E no bilhete de identidade carimbava-se “não sabe assinar”. E atestava-se que aquela pessoa era aquela pessoa pela impressão digital. Quase sempre um dedo grosso, pesado. Mão de quem trabalha. Do povo.

Não é novidade para ninguém quem é que ia à escola, quem é que prosseguia a escola, quem é que chegava à universidade. E por isso o 25 de Abril representa a ruptura com o “fatal como o destino”, permite “sair da cepa torta”.

Maria de Lurdes Rodrigues (1956), ex-ministra da Educação (2005/2009) e autora e coordenadora, entre outros títulos, de Políticas Públicas em Portugal (2012, com Pedro Adão e Silva): “O insucesso escolar, como conceito, não existia. A confirmação do acesso à escola como um direito de todos propicia a ascensão social. Numa sociedade estratificada como a portuguesa, onde as pessoas terminavam no ponto onde tinham começado, o conhecimento começou a contar como factor de mobilidade social.”

O taxista que transportava Irene Flunser Pimental falava com orgulho e zanga. Orgulho no esforço que fez para que os seus filhos conseguissem. Orgulho no que os filhos conseguiram. Talvez tenha esquecido o que o Estado fez para que os filhos tenham conseguido.

A educação, o acesso universal à educação, faz parte daquilo a que Tony Judt chamou a “banalidade do bem”, explica Irene Flunser Pimentel. A expressão de Judt é uma forma não poética, mas concreta de falar do Estado Social, conquista da Europa que se ergueu sobre as ruínas da Segunda Guerra e que em Portugal se cimentou no pós-revolução.

O Estado Social é a jóia que ninguém quer empenhar, quanto mais perder. É o anel que resta quando, a alguns, não resta a certeza de haver dedo. E é o anel que os mais jovens se habituaram a ter como uma espécie de sexto dedo.

Houve mesmo um tempo em que os nossos pais, os nossos avós não iam à escola ou começavam a trabalhar depois da quarta classe, a alombar madeira, pedra, por meia dúzia de escudos? Isto com dez, 14 anos. Parece um tempo tão longínquo como o tempo dos reis de Portugal.

O cientista político Pedro Magalhães (1970) contou aos filhos que o seu pai fazia cinco quilómetros a pé, todos os dias, para ir à escola. No profundo Trás-os-Montes. Cinco quilómetros, sob o sol, a chuva, o frio que se entranha nos ossos. “A sério?, mesmo com neve?” Miúdos incrédulos. Zero de atitude prosélita, zero do sermão “e têm muita sorte por não terem as mesmas dificuldades”. Foi só uma história espantosa para um coração esperançado (como deve ser o das crianças de dez anos). Em duas gerações, andou-se isto.

O Estado Social é o que podemos apontar quando nos perguntamos pelo que correu bem. Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio defenderam-no numa conferência na Gulbenkian sobre os 40 anos do 25 de Abril. No mesmo dia, na celebração organizada pelo Expresso, SIC e ICS, uma sondagem indicava que o povo – o povo-Salgueiro Maia que percebe muito bem o estado a que vamos chegando – considera que estamos melhor na assistência médica, na educação (70%) e na segurança social (46%). Melhor agora do que no antigo regime.

“A educação e a saúde foram as grandes conquistas da democracia. Não tem grande importância que o Estado Social esteja falido. Está em toda a parte”, afirma André Gonçalves Pereira (1936), advogado e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros (1981/83). “É melhor ter um Estado Social falido do que não ter Estado Social nenhum, obviamente”.

O programa estava no essencial escrito numa canção de Sérgio Godinho de 1972. “A paz, o pão, educação, saúde, habitação”. Arranque a seco, grito no refrão: “Só há liberdade a sério quando houver...”. O programa estava no texto (1942) de William Beveridge que serviu de matriz à criação do Estado Social na Europa. O economista apontou os núcleos: ensino, protecção na doença, protecção na velhice, protecção no desemprego e habitação.

Com isto fazia-se O Portugal Futuro do poema de Ruy Belo “aonde o puro pássaro é possível/ e sobre o leito negro do asfalto da estrada/as profundas crianças desenharão a giz (...) Mas desenhem elas o que desenharem/ é essa a forma do meu país/ e chamem elas o que lhe chamarem/ Portugal será e lá serei feliz”.

O poema de 1972 de Ruy Belo desenha uma ideia de felicidade, adivinha a cara que as pessoas vão ter em Abril de 74, a confiança ilimitada no futuro, o sorriso. Está tudo nas fotografias daquele tempo. Era uma vez um país.

 

4.

Toca a fazer. A partir daquele “dia inicial inteiro e limpo/onde emergimos da noite e do silêncio”, versos-síntese de Sophia de Mello Breyner, toca a fazer. Até porque “Quem não faz, não vive, apenas dura”, disse outro português (Padre António Vieira).

E outro disse “Quanto faças, supremamente faz” (Fernando Pessoa). Toca a fazer. Supremamente. Mas como se faz um país livre?, como se concretizam projectos díspares, contraditórios, o meu 25 de Abril e o teu 25 de Abril? Os caminhos do fazer dividem-nos.

Entretanto os soldados regressaram a casa. Não foi “nem mais um só soldado para as colónias” (frase do MRPP). Foi (acima de tudo) para acabar com esse estado de coisas – a guerra – que se fez esta revolução. O meu pai regressou a casa, o que não interessa senão para a minha história e a da minha família. Muitos pais regressaram a casa, o que interessa para as histórias de muitas famílias. O meu pai, que não tinha estado quando comecei a andar ou a falar, regressava. Os nossos pais, os da geração a que pertenço, nascida na década de 70, regressaram dos cus de judas marcados pela guerra. Muitos mais não chegaram a ir. No dia 25 de Abril acabou-se com a ditadura, acabou-se com a guerra. No dia 1 de Maio não se combatia. O meu pai contou-me que a 10 de Junho fizeram uma festa na messe em Angola, cantaram canções de Zeca Afonso. Regressou daí a cinco dias.

Entretanto os políticos e o povo gizaram no asfalto as grandes linhas do puro pássaro, respondendo ao momento.

 

5.

- Quais foram os momentos fracturantes destes 40 anos de democracia?

- As nacionalizações de 11 de Março de 75, as eleições para a Constituinte no dia 25 de Abril de 75, a chegada de meio milhão de retornados entre Abril e Novembro de 75, o 25 de Novembro de 75, a Constituição de 2 de Abril de 76, a revisão do Código Civil em 77, a extinção do Conselho da Revolução em 1982, a abertura do mercado bancário à iniciativa privada em 84, a entrada na CEE em 86, as privatizações a partir de 90, o Euro em circulação a 1 de Janeiro de 2002, a crise mundial de 2008.

As grandes fracturas que não têm data de ratificação: a criação do Estado Social, o desenvolvimento do país, o estatuto da mulher, a eclosão da classe média que solidifica a democracia.

A primeira de todas: o 25 de Abril, que permitiu liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres, direitos e garantias consagrados. Falar sem ter medo. Falar sem procurar escutas debaixo da mesa. Andar na rua sem procurar a sombra que vigia e delata. Poder espichar numa parede O Povo Unido Jamais Será Vencido. Ter voto na matéria, qualquer matéria.

Acreditar.

 

6.

As nacionalizações, pela historiadora (de direita, então feroz esquerdista) Maria de Fátima Bonifácio (1948). “Foi uma devastação da nossa economia. Custaram anos de atraso ao país. Não foi só a banca, e a banca foi um disparate. Nacionalizaram-se vãos de escada. Era jornalista. Cheguei a fazer a cobertura de uma tinturaria que tinha sido nacionalizada. A ideia de que no Alentejo se nacionalizaram grandes herdades abandonadas é falsa. Estabeleceu-se um método de calcular o valor das herdades através de uma pontuação que valorizava tudo o que era regadio, maquinaria, gado; e foram essas explorações, que estavam a ser bem exploradas, que foram nacionalizadas. O que não se nacionalizou foi o que estava ao abandono.”

Do outro lado: a terra a quem a trabalha, as fábricas a quem lá produz. Vamos corrigir o sofrimento e a injustiça. Socialismo aqui e já.

 

7.

As eleições, um ano depois da revolução. O cumprimento do D de Democracia. Filas intermináveis para votar. Afluência às urnas de 90%. Irene Flunser Pimentel: “É admirável que pessoas que estiveram tantos anos afastadas da política, debaixo de um regime ditatorial, votem em massa de forma entusiástica e organizada. Traduz uma aprendizagem da política muito repentina”.

Homens e mulheres. Agora também mulheres, quaisquer mulheres, e não apenas chefes de família e licenciadas. A emancipação começava. Mas do movimento tectónico que o 25 de Abril representou na vida da mulher fala-se mais à frente.

 

8.

“Então a metrópole afinal é isto” – escreveu Dulce Maria Cardoso no livro O Retorno.

Entre Abril e Novembro de 1975 chegaram 400 mil “retornados”, “a falar das coisas de lá, a minha casa isto a minha casa aquilo, deixei lá isto e aquilo, os tiros isto os morteiros aquilo”.

A grande equação desse tempo e do tempo futuro: e agora? Como se refaz a vida, como se lida com a perda? Uma mão à frente e outra atrás.

Descolonizar, o outro D, por André Gonçalves Pereira: “Muitas pessoas consideram que a descolonização foi o que correu pior. Não concordo inteiramente. A descolonização correu mal como não podia deixar de correr. Foi a descolonização possível, que começou com 15 anos de atraso”.

Quinze anos antes, a guerra.

Para muitos não era um retorno uma vez que nunca aqui, na metrópole, haviam estado. Era em todo o caso um exercício hercúleo para milhares de “desterrados”. É assim que Dulce Maria Cardoso lhes chama, é a eles que dedica o livro. “Três malas e vinte contos é tudo o que temos até resolvermos a vida. Resolver a vida é o que mais se ouve entre os retornados”.

Rui Pena Pires (1955), especialista em movimentos migratórios, chegou de Angola em Setembro de 75. Olha para o fenómeno com olhos de sociólogo. “Os retornados voltam ao seu ponto de origem, espalham-se pelo país. É o contrário do que acontece em França, com os pied noir a concentrarem-se em Marselha. A dispersão transforma o fenómeno num fenómeno nacional. Os retornados são em média mais qualificados, empreendedores. Houve um período em que um terço dos patrões (de indústria, comércio e serviços) em Trás-os-Montes eram retornados. Trazem diversidade religiosa (aparecem os primeiros grupos de muçulmanos). Quebram o grau de homogeneidade que havia (chegam mestiços). Constituem uma população maioritariamente de direita, furiosa com a descolonização. Mário Soares centraliza ódios.”

Ah, e os retornados aprenderam o que são frieiras e cieiro, lê-se em O Retorno. Trouxeram mini-saias, roupa descapotável, a liberalização dos costumes, a ideia de uma vida livre, com espaço a perder de vista, que tinham nas colónias. Uma certa forma de calor.

Integraram-se sem rupturas e convulsões sociais. Um êxito, também do novo poder local.

 

9.

O golpe militar contra-revolucionário de 25 de Novembro por Henrique Granadeiro (1943). “Foi o realinhar das coisas em conformidade com o projecto inicial. Havia um desvio que defraudava a generalidade das pessoas, que não queriam substituir uma ditadura por outra. A tentativa de implementação de uma sociedade socialista já tinha aspectos evidentes. Cartilhas, saneamento, violência.”

O que houve entre 25 de Abril de 74 e 25 de Novembro de 75? Num ano e meio fez-se a revolução, começou um novo calendário, e com ele a corrupção do sonho. As dificuldades típicas do momento em que a minha liberdade começa a ocupar o espaço da tua. As dificuldades típicas do momento em que a revolução é minha e faço com ela o que eu acho que deve ser feito. Eu e o meu grupo político. E toda a gente tinha um grupo político.

Ramalho Eanes foi o responsável pelo plano de operações do golpe, não deu espaço às pressões dos radicais. Rematou-se um Verão Quente. O PC saiu derrotado. Ideologicamente foi um marco.

Henrique Granadeiro foi chefe da Casa Civil de Eanes entre 1976/79. O seu discurso é o dos vencedores do 25 de Novembro.

O historiador Pacheco Pereira, que organizou na Assembleia da República uma exposição que comemora os 40 anos da democracia, considera que foi nesse período que nasceu a democracia. “Quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril. O PREC teve excessos e houve mortos e gente que mandou matar, mas a verdade é que foi naqueles anos turbulentos que nasceu a democracia portuguesa”, disse numa entrevista recente ao jornal i.

 

10. 

Constituição de 76. “É o primeiro instrumento organizador do que vamos ser”, sintetiza Maria Manuel Leitão Marques (1952), professora universitária e ex-Secretária de Estado da Modernização Administrativa (2007/11). “Tudo o resto é afinado a partir daí. Há coisas que são muito alteradas nas revisões constitucionais, mais na organização do poder político (sobretudo em 82) e da economia (em 89), menos nos direitos e deveres fundamentais.”

No princípio, nessa magna carta, estava escrito que devíamos caminhar para o socialismo. Que socialismo? Que caminhos? A questão não é despicienda, porque mexe com um entendimento do que a democracia deve ser. E porque, sustenta Pedro Magalhães, “a maioria das pessoas tende a associar – e intensamente – liberdade de expressão, liberdade de associação e eleições livres a justiça social, segurança e prosperidade económica.”

Esta era a promessa, reflectida na Constituição de 76.

Um equívoco, considera Maria de Fátima Bonifácio. “As pessoas habituaram-se a usar democracia e bem estar económico como sinónimos. No meu ponto de vista, democracia [corresponde] a liberdades, direitos, a um Estado de Direito, ao Serviço Nacional de Saúde (que é uma aquisição civilizacional, mesmo que não faça sentido eu pagar o mesmo que a minha empregada por uma radiografia). Mas a democracia não são os ténis da Nike. A democracia pode ser mais redistributiva ou menos, conforme o Governo for mais social democrata, menos social democrata. Em si mesma, não promove o crescimento e o desenvolvimento económico. A prova é que a Europa está em recessão há anos e promete continuar a arrastar os pés.”

Esta associação entre prosperidade, bem estar e liberdades cívicas não é exclusiva de Portugal. “É característica de democracias mais pobres e de democracias mais recentes” especifica Pedro Magalhães. “Os EUA, a Suécia, a Noruega dizem que democracia corresponde a liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres”.

Esta é uma das pistas para compreender a nossa zanga com a democracia. “As pessoas sentem que ainda não receberam dela o que estava prometido”, diz o cientista político. “As democracias nórdicas, que queremos ser há 40 anos, têm menos corrupção, melhor governo, são menos desiguais, têm nível de vida médio mais elevado. Têm o pacote completo.”

O pacote completo que o povo também quer. Não foi (também) para isso que se fez uma revolução, pá? Portanto porque é que não o temos, grita o povo. “Porque 40 anos é pouco tempo”, conclui Pedro Magalhães.

 

11.

A Revisão do Código Civil em 77 consagra a igualdade constitucional entre homem e mulher em toda a vida familiar.

Era o momento das mulheres. “Os homens ganharam liberdade política. As mulheres ganharam tudo. Ainda me lembro que a minha mãe tinha que pedir autorização ao meu pai quando queria passar férias comigo, em Berkeley. Ou quando quis comprar um carro. A minha mãe era uma alemã que cresceu nos anos 20, em Berlim. Imagine.” Alexandre Quintanilha (1945), cientista. Os pais viviam em Moçambique. Lá como cá, o homem tinha o direito de ver a correspondência da mulher. Um contraste absoluto com o ambiente da baía de São Francisco, onde Quintanilha trabalhava e vivia.

Veio a Portugal em 1979 com o então namorado hoje marido Richard Zimler.

Entretanto a célula da família mudou tanto que é possível escrever banalmente “o então namorado hoje marido”. Como se o casamento homossexual não fosse um tema fracturante (expressão que não se usava e agora se usa).

Entretanto também o sexo deixou de ser um tema fracturante. “Já não passa pela cabeça de ninguém criticar uma mulher por ter tido relações sexuais antes do casamento. Há uns anos, se a mulher não fosse virgem, tinha um nome”, nota Quintanilha.

O casal mudou-se para Portugal em 1990. Casaram em 2010 poucos meses depois da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas quando vieram juntos pela primeira vez encontraram um país “medieval”.

Não havia jornais estrangeiros, levava-se um dia para chegar a um lugar mais recôndito, esperava-se meses – ou anos – que instalassem o telefone em casa. E ficava-se à mercê das pessoas que se conhecia e que podiam aligeirar o processo. “Eu telefono ao senhor não sei quantos e ele trata disso – diziam-me. Ou éramos ignorados porque ninguém nos conhecia ou éramos tratados como príncipes porque trazíamos recomendação.”

Diagnóstico: arbitrariedade e ineficiência do sistema. Palavra de todos os dias: meter uma cunha. Cunha em modo soft.

Mais à frente, quando o dinheiro começou a ser a sério, meteram-se cunhas a sério. Algumas eram tão a sério que passaram a chamar-se corrupção. Mas isso é mais à frente.

As mulheres, para já. Uma das primeiras manifestações, logo depois do 25 de Abril, teve que ver com a proibição do divórcio dos que eram casados pela igreja – a esmagadora maioria.

Irene Flunser Pimentel: “Fez-se um comício. Pela primeira vez uma mulher foi oradora principal. A questão do divórcio tocou homens e mulheres. Muitos deles tinham amantes, filhos ilegítimos”.

Porque é que isso constituía um drama? Porque homens e mulheres separavam-se e continuavam casados com os antigos maridos e mulheres; porque viviam com outros e continuavam casados com os anteriores; porque tinham filhos das novas relações e não os podiam perfilhar. Numa linha: não era possível dissolver uma família e constituir outra.

Em 1975, o ministro da Justiça Salgado Zenha reviu a Concordata com a Santa Sé. Passou a ser possível o divórcio entre casados pela igreja.

Número de divórcios em 1965: 600. Em 1975, há 1500. Em 1977, há 7700.

A completa igualdade entre filhos e entre homem e mulher, que resulta da Constituição de 76, é incorporada no Código Civil de 77.

 

12.

A extinção do Conselho da Revolução em 82 e a criação do Tribunal Constitucional. Henrique Granadeiro: “Do ponto de vista simbólico, é um grande momento. Do ponto de vista prático, nem tanto. O general Eanes era presidente da República e chefe do Estado Maior das Forças Armadas, era o vértice do encontro do poder militar com o poder civil. Foi enviando a tropa para os quartéis e valorizando a política nas instituições. A extinção do Conselho da Revolução foi a morte natural de um processo que veio a ser conduzido por ele desde o primeiro momento, de forma discreta e sistemática.”

 

13.

Um não momento: o bloco central liderado por Mário Soares e Mota Pinto pede ajuda ao FMI em 83. Os portugueses habituam-se a ver Teresa Ter-Minassian na televisão. José Mário Branco compõe o disco FMI.

Um não momento porque somos essencialmente os mesmos depois dessa passagem ou da passagem de 77. Ao contrário do que acontece com a presença da Troika desde Abril de 2011.

Então tínhamos moeda própria, inflação e desvalorização. E a Europa era um oásis próximo. José Medeiros Ferreira, sonhador da pertença à Europa e ao mundo, havia feito o pedido de adesão quando era ministro dos Negócios Estrangeiros (1976/78). Esse sim, um momento.

 

14.

Outros gráficos. Taxa de mortalidade infantil: 55 por mil nados-vivos em 1970. Oito por mil em 1994. Três por mil em 2008. A média da UE é superior a quatro por mil.

Número de pensionistas: em 1960 são 56 mil, em 1976 é um milhão. Pensão de sobrevivência: em 1960 são sete mil beneficiários, em 1976 são 125 mil. (Fonte: Eurostat e Pordata)

Em 1980, Cavaco Silva, na pasta das Finanças do Governo Sá Carneiro, faz um alargamento do regime não contributivo. Mulheres que foram domésticas toda a vida, agricultores e outros que nunca tinham contribuído passam a ter protecção social.

 

15.

Nick Racich (1952) chegou a Portugal há 30 anos, quando foram concedidas as primeiras licenças à banca privada. Banqueiro, vice-presidente do banco BIG, estudou na prestigiada Wharton School depois de abandonar um doutoramento em Dom Quixote de la Mancha de Cervantes. Um percurso banal num país como os Estados Unidos, improvável para não dizer impossível num país como Portugal.

Este americano de Filadélfia, trabalhava em Nova Iorque e tudo o que sabia de Portugal era que Lisboa era um jóia. Claro que sabia onde ficava Portugal, mas no banco onde trabalhava, em 1980, “em termos de organização, Portugal e Espanha faziam parte da América Latina. Em todos os bancos americanos era assim. Por causa da língua. Só em 86, quando integraram a Comunidade Económica Europeia, começaram a estar arrumados de outra maneira”.

Nick Racich falava espanhol por causa do cavaleiro da triste figura. Hoje fala um português sem mácula. Tem dupla nacionalidade e diz pá.

“O primeiro sector a ser aberto à iniciativa privada foi o bancário. Foi uma medida inteligente porque a banca é um motor da economia. Não havia mercado monetário, mercado cambial, bolsa, não havia produtos financeiros. Em poucos anos chegámos a ter 17 bancos estrangeiros. Começou a pensar-se na privatização de sectores chave da economia.”

A cerveja não é um sector chave, mas foi com a Unicer em 1989 que começaram as privatizações. Verdadeiramente só em Abril de 1990, com a lei das mesmas, começaram a ser levadas a cabo.

Outra palavra começava a ser usada: empreendedorismo. Com um significado que não coincide com o de um americano: “Empreendedorismo é pegar em capital – nosso, privado – e começar com esse capital, e não esperar patrocínios, dinheiro do Estado ou dívida bancária”.

Mas isto é um americano a falar, com uma aprendizagem diferente da nossa, que vive num país-continente onde é possível recomeçar no dia seguinte, várias vezes. A escala permite-o.  

Em Portugal, a democracia tinha pouco mais de dez anos. E o dinheiro da CEE estava a chegar. O país parecia de mangas arregaçadas, com condições para cumprir o D de desenvolvimento.

 

16.

Bem, não exactamente de mangas arregaçadas.

O que ficou no imaginário colectivo: betão, rotundas, infra-estruturas ruinosas. Recursos malbaratados, fraude com os dinheiros do Fundo Social Europeu e do PEDIP. Uma certa trafulhice e o início do folguedo.

É uma visão injusta, porque parcelar, dos anos que começavam com a adesão de Portugal à CEE. Essa foi a década da emergência da classe média, do alargamento do Sistema Nacional de Saúde, da estabilidade democrática. Mais do que tudo: essa foi a década em que deixámos de ser a choldra e passámos a fazer parte de um clube selecto. Ruy Belo, que parecia saber tudo, e antes do tempo, escreveu no poema Sexta-Feira Sol Dourado: “Agora é que vamos ser felizes (...) Portugal fica em frente.”

O Portugal triste fotografado por Victor Palla, a preto e branco, o português pobre encarnado por Belarmino no filme de Fernando Lopes (1964) pareciam de outro século. Tinham passado apenas 20 anos.

Nenhuma das pessoas ouvidas pelo PÚBLICO para a elaboração deste texto deixou de referir a entrada na CEE como momento chave de 40 anos de democracia.

O fiscalista e professor universitário João Taborda da Gama (1977) chamou-lhe “o mecenas do nosso 25 de Abril. Quer dizer, a Europa permitiu-nos ter o dinheiro para efectivar o 25 de Abril”.

 

17.

Quando é que começámos a ter um Estado gordo? Maria Manuel Leitão Marques: “Eu não sei se temos um Estado gordo. A questão é a de saber que Estado podemos sustentar e onde devemos concentrar a despesa. Mas no final dos anos 80, algumas das reformas nas carreiras da função pública efectuadas por Cavaco Silva, designadamente com a criação de promoções automáticas por tempo de serviço, aumentaram significativamente a despesa com funcionários. Mesmo que a intenção fosse boa, o resultado foi desastroso em termos de progressões não assentes em critérios de mérito e tornou o peso dos salários na administração pública muito elevado.”

Miguel Cadilhe, então ministro das Finanças, discordou e saiu do executivo.

A imagem não era a da grande porca de Bordalo Pinheiro, que serve para a expressão “mamar na teta do Estado”. Essa veio (voltou) mais tarde. A imagem era a de um Estado tentacular que dominava toda a economia (ainda que de 1990 a 95 o sector público tenha sido fortemente diminuído com as privatizações). A imagem era a de um Estado onde cabiam as clientelas políticas, a ineficiência, o manga de alpaca. O Estado dos tachos.

Contudo, as prestações sociais ainda estavam aquém da média europeia. O Estado Social era recente e insuficiente. Continuou necessariamente a crescer, na educação, na saúde, nas pensões. António Guterres fez da educação a sua paixão. Em 2002 Durão Barroso disse que o país estava de tanga.

A resolução do problema não se fez com uma diminuição da despesa nem com reformas estruturais dirigidas ao crescimento, mas com uma reforma da máquina fiscal. Cobraram-se impostos, muitas vezes devidos há anos e anos.

João Taborda da Gama: “É verdade que havia um sentimento de grande impunidade e de corrupção na administração fiscal. O momento marcante foi quando Paulo Macedo assumiu o lugar de Director Geral dos Impostos (2004/2007). Hoje esse sentimento de impunidade não existe.”

A confusão entre despesa com o Estado Social (pensões, educação, saúde) e peso da máquina administrativa é um preconceito antigo. No ano em que Portugal pediu ajuda financeira e a palavra de ordem era cortar nas gorduras do Estado, o nível de despesa pública no PIB era de 48,9%. A média da União a 27 era 49,1% e da Zona Euro 49, 4%. (Fonte: Eurostat). Grande parte da despesa pública estava concentrada em pagamentos de pensões e funcionalismo público – a fatia era de 65, 70%.

Segundo o livro de Emanuel dos Santos, Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental, em 2011, 47% da despesa pública consistia em redistribuição de recursos que o Estado operava de uns cidadãos para outros, incluindo pensões e outras prestações sociais. As despesas de funcionamento da administração pública (salários mais consumos intermédios) representavam 39% dos gastos totais. Mas como abrangiam a produção de serviços como a educação, a saúde ou a segurança, o custo da máquina burocrática do Estado central ficava-se pelos 15,5% da despesa pública ou 7,2% do PIB. 

 

18.

Uma confusão: despesa pública com o Estado Social e custo da máquina administrativa. Outra confusão: dívida interna e dívida externa. Outra confusão ainda: dívida e crescimento. Para Nick Racich, o problema não é o que devemos, o problema é o que não crescemos. “O endividamento externo português em 83/84 era qualquer coisa como 16 mil milhões de dólares. Em 2011 era 20 vezes superior. E o PIB apenas duplicou. Ou seja, o país produziu o dobro mas pediu emprestado 20 vezes mais.”

O que é que o país fez com o dinheiro que foi buscar? Entre 1998 e 2010, o investimento produtivo feito pelo sector financeiro baixou 20%, o financiamento ao consumo privado aumentou 19%. (Fonte: artigo de opinião de João Pinto e Castro no Jornal de Negócios a partir do livro de Emanuel dos Santos Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental).

“É um país extremamente endividado. Não mais do que os outros. A diferença está em que alguns conseguem dar a volta rapidamente. Portugal, não”, diz Nick Racich.

De novo gritamos, zangados com o nosso malfadado destino: porque é que não conseguimos dar a volta? Porque é que voltamos a ouvir Júlio César dizer que este é um povo que nem se governa nem se deixa governar? (É a elite ou o povo que não se governa nem se deixa governar?) Porque é que lemos Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871) de Antero de Quental e o texto nos faz sentido?

“É uma democracia muito nova”, continua o banqueiro. “40 anos é muito pouco. São duas gerações. Ainda temos muitas pessoas vivas que viveram o antes. E antes de décadas de ditadura estão séculos de monarquia, de paternalismo.”

João Constâncio (1971), professor universitário, autor, entre outros, do livro Nietzsche e o Enigma do Mundo, chama igualmente a atenção para este ponto. “Em 40 anos não se substitui a população de um país. A cabeça das pessoas não mudou o suficiente, apesar das transformações económicas e sociais. Em 40 anos não se transforma uma população em grande medida analfabeta numa população instruída.”

Pensemos nisto: quantos dos que estavam vivos em 1974, com uma identidade, um passado, uma raiz fizeram a transição para o Portugal democrático. Quantos dos que eram impreparados, iletrados aprenderam a viver num país novo. E pensemos nos que nasceram depois de 74 e nos filhos desses. Dir-se-ia filhos de um outro país. Contudo, os nossos pais ainda são aqueles.  

 

19.

Problema central: porque não crescemos? A resposta de Henrique Granadeiro: “Existe uma correlação directa entre instabilidade política e desenvolvimento económico. Tivemos 25 governos em 40 anos [seis governos provisórios e 19 governos constitucionais]. Com este vai e vem de governos é impossível gerar políticas de longo prazo. A primeira preocupação do governo seguinte é rectificar o [que considera] disparates do governo anterior. Isso introduz uma precariedade cujo resultado está à vista.”

Segundo dados do Eurostat, os ciclos políticos mais longos e com maior taxa de crescimento correspondem aos X, XI e XII governos (1985/95, governos de Cavaco Silva) com uma taxa de crescimento do PIB de 4,2%. Os XIII e XIV governos (1995/2002, governos de António Guterres) tiveram uma taxa de crescimento de 3%.

Na opinião do presidente da PT, “o sistema constitucional permite, e em certa medida encoraja, a existência de governos minoritários. Um exemplo: o presidente da República empossou um governo minoritário em plena crise mundial (2009). Foi um erro político de Cavaco, que o nomeou, e um erro político de Sócrates, que aceitou.”

O povo volta a perguntar: porque é que não crescemos, porque é que não damos a volta?

Ouçamos de novo as vozes dos Rapazes dos Tanques, das manifestações, dos que agora emigram. Ouçamos a zanga com a classe política, com essa elite. Com a elite que não dá a volta, que não nos faz dar a volta, que não nos deixa dar a volta. Uma elite pequena, pouco capitalizada e dependente do Estado.

O advogado Vasco Vieira de Almeida disse numa entrevista ao Jornal de Negócios (2012): “Em Portugal pertencer a uma elite nunca representou, como devia, uma fonte extra de obrigações, antes uma atribuição anormal de privilégios. O povo foi sempre melhor do que as elites”.

 

20.

Antes do leite derramado, há a Expo 98 e o orgulho numa obra com aquela dimensão, aquela beleza. Não é pouco porque um povo precisa de pão e circo.

Antes ainda privatiza-se a produção de informação. Aparecem as rádios e as televisões privadas. Não muda só a forma de comunicar. Muda, o que é fundamental, a forma de comunicar política e consequentemente a forma de fazer política.

Mudam os protagonistas. O povo aparece na televisão, a sua biografia importa. O povo vê e comenta o povo na televisão, a elite vê o povo na televisão e comenta o Big Brother de Orwell.

Nos anos 90 o mundo era tão estável que a geração nascida na década de 70, ou pouco antes, não sabia o que era o contrário de liberdade.

João Constâncio era um miúdo quando o pai, Vítor Constâncio, foi secretário-geral do Partido Socialista (1986/89). Acompanhava-os nos comícios, no fervilhar da política. Depois fechou-se a estudar. Grego antigo, alemão, Platão. “A minha geração foi a primeira que pôde viver acomodada no tipo de democracia ocidental que resultou do 25 de Abril. A política era uma questão que estava resolvida. Alguém já tinha feito o que era preciso fazer. Mais do que isso: a política tinha-se tornado uma questão burocrática. Não havia nada de heróico nem de decisivo nela. Como costumo dizer, não vivi os anos 90. Como se o mundo não existisse para mim. Eu podia estar alienado, para usar uma linguagem marxista, nas minhas preocupações existenciais.”

O poeta e cirurgião plástico João Luís Barreto Guimarães, nascido em 1967, diz o mesmo num dos poemas do livro Você Está Aqui: “Ninguém da nossa geração esteve na revolução; outros, antes de nós, fizeram as nossas guerras. Quando chegámos aos dias já a guerra havia sido (...) Para nós sobejou outra sorte de batalhas: levantar cada manhã o peso imenso das pálpebras, correr por um lugar na trincheira do balcão”.

O poema traduz um lamento, o individualismo, uma vida por vezes autómata. “Agora luta-se por o ter a casa, o ter o carro, o ter o telemóvel. Coisas concretas destituídas de idealismo”, diz Barreto Guimarães.

Algumas palavras caíram em desuso. Idealismo, por exemplo.

 

21.

Adeus escudo, willkommen Euro. As novas notas apareceram há 12 anos.

A vida subiu de preço. No supermercado e na bomba de gasolina, nos restaurantes e nos centros comerciais. Só uma coisa embarateceu, e muito: o preço do dinheiro. As taxas de juro eram tão baixas que só não tinha casa própria quem não quisesse (dizia-se). E já agora férias na República Dominicana (a crédito). E um segundo carro para a família (ainda a crédito). A banca, de motor da economia, passou a motor do consumo.

Foi o momento em que palavras como spread se começaram a usar todos os dias. E os bancos se sobre-endividaram (além do estabelecido nas regras de Basileia) a curto para emprestar a longo prazo.

O endividamento dos bancos portugueses no estrangeiro passou de 49% do PIB em 1999 para 96% em 2007.

Até que o Lehman Brothers tombou e a torneira estancou.

 

22.

Fomos nós que vivemos acima das nossas possibilidades? João Constâncio rejeita o que considera ser um discurso punitivo que se impôs depois da queda do gigante americano e em especial depois do pedido de resgate do Estado português. “Um discurso que faz as pessoas sentirem que desde a entrada na CEE até 2011 andaram a viver de uma herança de uma tia rica. E que têm de voltar a ser pobres porque Portugal é um país pobre.”

Do outro lado: os povos do sul são preguiçosos, desorganizados, perdulários. Há quem pense que, além destes atributos, são ignaros.

As crianças introduziram no seu léxico uma palavra nova: austeridade. E aprenderam, à força de ouvir os pais, os avós, a televisão, que o futuro podia não ser radioso. Que o mais provável é que não seja radioso.

Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se e empunharam cartazes onde se lia: queremos o nosso futuro de volta. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos. Reformados que se transformaram no esteio de milhares de famílias (apesar das pensões cortadas para metade). A classe média que vive no fio (por causa dos cortes para metade). Desempregados. Gerações à rasca. Não estavam as centenas de milhares que nos últimos anos tiveram que emigrar.

João Luís Barreto Guimarães especializou-se em reconstrução mamária de mulheres que tiveram cancro da mama. No hospital, no consultório, assiste a uma degradação rápida da jóia indiscutível que é o SNS, ao empobrecimento do povo. “É preciso saber ler os sinais. As pessoas andam tristes, estão a engordar, a envelhecer, têm sapatos cambados, roupa puída, semblantes zangados. Os doentes dizem: ‘Tenho diabetes, hipertensão arterial e insuficiência cardíaca. Deste três, qual é o menos grave? Porque só tenho dinheiro para comprar medicamentos para dois.’ A vida inteira trabalharam, confiando que o Estado era pessoa de bem e que um dia, quando precisassem da reforma, iam tê-la. O Estado pura e simplesmente está-lhes a falhar. Estica a corda sem introduzir o factor sentimental na regra económica.”

 

23.

- Onde é que falhámos?, o que é que correu mal?

- André Gonçalves Pereira: “Nada correu especialmente mal. A sociedade é o que é. Temos um regime aristocrático medíocre, em que o papel das famílias dominantes é desempenhado pelos partidos políticos. A nova aristocracia são os partidos políticos. É uma aristocracia de posição, não de ideias nem de nascimento.”

- Rui Pena Pires: “O que é que falhou no 25 de Abril? Nada. Nos últimos 40 anos, o que falhou mais foi o facto de continuarmos a ser o país mais desigual da Europa (agora menos do que a Bulgária e a Roménia – não é grande consolo).

- João Luís Barreto Guimarães: “Abril realizou-se? A resposta é não. Não se cumpriram os objectivos da revolução. A sociedade não cresceu como um todo. Aumenta o fosso entre os mais pobres e aqueles que enriquecem na proximidade do poder. Tenho a maior desconfiança da classe política. O pote vai voltar a encher? Temo que o regabofe volte.”

- Maria Manuel Leitão Marques: “Foi-se avançando com as maiorias políticas existentes. Seria bom que tivéssemos tido governos de maioria? Não os tivemos. Porque as pessoas não votaram assim nem obrigaram a que houvesse um pacto entre os principais partidos. Mas devíamos ter tido mais coragem e mais visão para em 1986 fazer reformas dolorosas. Por exemplo, de reestruturação empresarial (e não alimentar com fundos europeus empresas cuja competitividade era duvidosa, e que caíram agora como tordos). Isso tem custos. Há clientelas políticas que se perdem.”

- Irene Flunser Pimentel: “Correu-nos mal a Europa, como correu mal a outros países. Não foi a nossa inserção no projecto europeu. Foi o projecto europeu. Não fizemos uma união política europeia. Fomos pela via do dinheiro, e aconteceu o que aconteceu.”

- João Constâncio: “Até 2010, a evolução do país foi muito positiva. O que correu mal foi a resposta da Europa à crise das dívidas soberanas, que afectou em particular certos países da Zona Euro, entre eles Portugal. As coisas podiam ter tomado outro caminho. Um caminho que reconhecesse a assimetria que há desde início entre a periferia e o centro. As principais decisões foram tomadas segundo o princípio “cada um por si”.

- Alexandre Quintanilha: “Grande falhanço: é capaz de ser a justiça. Como se vê. Portugal continua a ser muito individualista e tem dificuldade na interdisciplinaridade. Pomos pessoas da Filosofia a falar com um cientista e há sempre um arrogante que faz troça, que acha que o outro não sabe o que está a dizer. Educação: é mentira que a escola pública seja má. Há de tudo, claro. Mas em todas as turmas que passaram por mim havia pessoas excepcionais.”

- Maria de Fátima Bonifácio: “A democratização do ensino foi calamitosa. Dizer que é a geração mais bem preparada de sempre dá-me vontade de rir. Fui professora universitária de 1980 a 2008. As pessoas podem ter diplomas que atestam a sua escolaridade, mas o nível de ignorância é assustador. Se houver 15% de alunos excelentes, é fantástico.”

- Nick Racich: “A confiança na justiça está abalada. Nos EUA, os Madoff vão para a prisão por 150 anos. Em Portugal, o povo tem a noção de que ao tubarão não acontece nada. Que o tubarão se safa. Os políticos estão a subestimar a importância da confiança na vida das pessoas. O sentimento de injustiça cria zanga, desapontamento.”

- Maria de Lurdes Rodrigues: “As ambições e expectativas vão sendo actualizadas, reajustadas. Todos os estudos apontam para ter sido o sector da justiça aquele em que a mudança falhou.”

- Pedro Magalhães: “É normal o cepticismo em relação à política, é saudável. Onde não vejo tanta saúde é na desconfiança em relação à justiça. Confiam na justiça 28% dos inquiridos. Na Dinamarca, confiam 84%. (Dados de 2010.) Isto é muito grave e preocupante. Tenho de confiar na justiça para resolver os problemas que tenho na relação com os outros, com o Estado. Se não confio na justiça, o que é que sobra? Na sondagem que se apresentou na Gulbenkian, 77% acham que estamos pior agora do que no antigo regime no que diz respeito à corrupção; 81% acham que estamos pior na criminalidade e na segurança.”

- João Taborda da Gama: “O 25 de Abril chega tarde. Se tivéssemos tido uma revolução dez, quinze anos antes tínhamos tido um desenvolvimento mais sustentado. Foi tudo feito muito à pressa porque teve de ser tudo feito muito à pressa. Por causa da Europa (que era o nosso quadro institucional e geoestratégico). Isso vê-se, por exemplo, no desastre urbanístico de Portugal. A marquise é o símbolo desse desenvolvimento.

Outros pés de barros: como povo, como comunidade, não fomos exigentes com o investimento público, as rendas excessivas, as instituições.”

- Henrique Granadeiro: “A classe média, conquista de Abril, está a sair pela porta dos fundos. O ar do tempo é claramente de fim de regime. As pessoas não têm confiança no Governo nem esperam grande coisa da oposição, e não olham para o presidente da República como defensor das instituições. Estamos a viver num puro sistema tecnocrático. Um sistema onde as decisões são tomadas mas onde não há política. Faz-me lembrar a frase que um anarquista mexicano pôs num mural: ‘Basta de realizações, dêem-nos promessas’. As pessoas precisam de um discurso político portador de alguma esperança. E mesmo de alguma ilusão.”

 

24.

Ainda que continuemos a ser Fátima, Fado e Futebol, não somos da mesma maneira Fátima, Fado e Futebol. O Fado é Património Imaterial da Humanidade, Camané, Carminho e Mariza enchem plateias no mundo todo. José Mourinho foi o melhor treinador do mundo, Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo. Fátima continua cheia, com uma basílica nova, mas o peso da religião é outro.

João Taborda da Gama foi discípulo de Saldanha Sanches, consultor de Cavaco Silva na presidência, tem cinco filhos. Não recebeu dos pais, Jaime Gama e Alda Taborda, uma educação religiosa. Converteu-se ao catolicismo na universidade. “Hoje a religião é um fenómeno mais reflexivo e menos ritualístico. Há uma queda dos níveis de participação religiosa, há uma secularização da sociedade, como em toda a europa. Mas aqueles que têm uma vivência religiosa têm-na de uma forma menos automática. É uma religião mais vivida, mais espiritual.”

E agora também temos Manoel de Oliveira, Paula Rego, Saramago, Siza projectados no mundo todo, cientistas entre os melhores do mundo. Em muitas disciplinas estamos entre os melhores do mundo.

João Constâncio: “Quando comecei a dar aulas, em 96, fazia o doutoramento quem era professor universitário. Tudo isso mudou imenso. A universidade produz uma elite, que é pequena, mas que apesar de tudo é muito maior do que era, e que tem uma dimensão internacional, está inserida em redes internacionais de investigação.”

 

25.                                                                                                      

O 25 de Abril foi a invenção do dia claro, para glosar o título de Almada Negreiros. Há muito que se perdeu a capacidade de sonhar, o impulso vital da juventude. O povo voltou a cantar Grândola Vila Morena. Lídia Jorge escreve em Os Memoráveis, livro-olhar sobre o 25 de Abril, que precisamos de uma nova canção. Escreve também: “Acha, então, que a mente humana está definitivamente formatada para se esquecer do bem? Para se esquecer dos momentos em que o anjo da alegria passa pelo mundo?”.

É isso. Passou por nós o anjo da alegria. Apesar de tudo, foi muito bonita a festa, pá. Resta saber como vamos cumprir o Portugal que falta.

 

  

Publicado originalmente no Público no dia 25 de Abril de 2014 

 

 

Jorge Silva Melo

25.10.18

“E os dias que não estive junto deles, a decifrar-lhes a letra miudinha, como os recuperar? Porque gostava de ser lembrado como alguém que, como os gatos, se passeou, um «flâneur». E gostava de escrever com a independência do Garret das «Viagens», também «flâneur», apenas porque me faltou a rosa da juventude”.

Jorge Silva Melo escreveu-se assim, frente ao espelho dos dias de 98. Uma biografia sumária perfumada pelo hálito da sua flor. Carnívora, passeante. Na infinita tentação do desejo. Na desmesurada vertigem da partida; ou seja, da dissolução. Perdeu-se amando. Como aprendeu com Camilo, que tanto ama. Como ama Pavese, Minelli, Brecht, Sara Montiel. O de fragrância mais intensa, não forçosamente pura, forçosamente impura, conspurcada de vida, do traço da quotidianeidade. 

Numa manhã de Junho, ele acordou pelas cinco e meia ou seis. O de sempre. Foi ver as pessoas à rua, assistir ao acordar das hordas inflamadas de patriotismo. O de sempre – quero dizer, o interesse pelas pessoas. As que dizem «Ou vai chover, ou então não sei», e as que festejam a glória e a felicidade da pertença.

Eu cheguei cedo, sem que fosse tão cedo. Sentámo-nos no recanto da sala onde, em menino, se instalava a pista de comboio. Esta é a casa da sua infância.

Experimentou outras casas, outras vidas. A pergunta é sempre: «Quantas vidas leva uma vida?». E no caso dele, há ainda vidas extra. As do teatro, vivenciadas ao correr do texto e da emoção – talvez não seja substancial, a diferença, em relação às vidas verdadeiras.

Jorge Silva Melo, 56 anos. Como apresentá-lo numa linha? Dizer que é encenador, que é realizador, que fundou a Cornucópia, que habita os Artistas Unidos? Que é um estrangeirado amante das artes? Um tutor? Um aglutinador? Um passeante? Coitado do Jorge, que ergue o corpo, espartilhado pelo fascismo, para acalmar a fúria da portada. Coitado do Jorge, que não soube nunca dançar. Coitado do Jorge, que espera ser abraçado e não consente que lhe expressem ternura. 

Numa das próximas páginas, diz-se que a conjugalidade com ele seria impossível. Mas é certo que os nossos dias não seriam os mesmos sem ele.

 

 

Usou como epígrafe no filme “Coitado do Jorge” um verso de Ruy Belo: “Triste é no Outono descobrir que era o Verão a única estação”. A ideia de nostalgia é essencial em si.

É uma daquelas hesitações que tenho sempre: porque é que vim parar a esta minha vida?, que escolhas fui fazendo?, não terei falhado as escolhas principais? Quando fundei a Cornucópia com o Luís Miguel [Cintra] e desisti de trabalhar no cinema, terei feito a escolha certa? Não teria sido o cinema o meu Verão, não teria sido a minha única estação? Quando saí da Cornucópia fiz bem, fiz mal? Essa vida que não vivi é a vida que me preocupa e o “Coitado do Jorge” era sobre esse assunto. Era sobre um homem de trinta e cinco anos, burguês, professor, casado, bem instalado, com uma bela moradia. De repente, há um miúdo que assalta a casa dele e ele fica perturbadíssimo.

 

O que é que mais perturba este professor?

A ideia de poder ser outro. Porque é que este rapaz faz isto, porque é que eu não podia ser ele? Essa ideia entusiasma-me também no teatro. Se calhar podia ter feito outro gesto, mas o gesto que fiz determinou-me. Acho que fiz escolhas certas. Mas, quando anoitece, (aquele quadro da Sofia Areal é sobre o anoitecer), às vezes penso: e se tivesse ficado em Paris, se tivesse arranjado trabalho com o Peter Stein?

 

O que é que, em última instância, define a escolha? Acossados até ao limite, o que é que nos faz decidir?

Não chego a perceber. Todos os filmes que fiz eram sobre o momento da escolha. É esse o momento que me interessa: aqueles 30 anos onde o resto da vida vai ficar definido. Tem a ver com um autor que muito amo, o Pascal, e sobre a hipótese de apostar. Eu aposto que vai ser assim. Aposto que existe Deus; se existir ganho, se não existir não perco.

 

Se não tiver a comprovação, não importa nada.

Não importa nada. Essa ideia da vida como uma aposta é muito importante. Como é que chego a ela? Não sei, vou chegando. Há determinantes e as escolhas são cada vez menos possíveis. Neste momento já não é possível voltar à Cornucópia, viver em Paris, viver em Berlim. A vida vai limitando as muitas hipóteses que tive a sorte de ter.

 

Mas essa obliteração de cenários, que é uma ideia muito heideggeriana, acarreta nostalgia ou até frustração?

É mais inquietação. Há uma frase no Rilke que a Glicínia [Quartin] cita muito: “Uma profissão é pouco para uma vida inteira”. Não esgota uma vida inteira. Tenho tentado viver assim. Este ano faço 56 anos e realmente não tive uma profissão. Fui jovem empresário quando fundei a Cornucópia, fui estagiário, fui bolseiro, escrevi uns artigos para os jornais, só no CCB é que tive um vago contrato de trabalho, durante quatro ou cinco anos.

 

Profissão itinerante.

Dessa ideia gosto, de ser vagabundo nestas coisas, não me fixar, não me determinar. Ver ao espelho, não uma determinação, mas uma série de possibilidades. Gostava que fosse assim.

 

Mas é muito «flâneur», naquele sentido baudelairiano de estar sempre entre a multidão...

Adoro estar na multidão.

 

... e de encontrar, apesar de tudo, a sua singularidade e um espaço para a dobra que lhe permite ver, retratar, situar a multidão. Não está nunca imerso e essa é também a dor.

Sim. Esse é o problema, não poder estar imerso. Lembro-me perfeitamente do primeiro 1º de Maio de 74: estava tão contente no meio daquela multidão, mas as cantigas que estavam a ser cantadas eram horríveis! Só pensava por que é que não se cantava a “Ode à Alegria” do Beethoven. Esse lado de não pertença é uma coisa que me marca.

 

Mas essa não pertença é essencialmente estética?

É muito estética e, pela estética, moral. Mas, olhando para o meu nariz, se calhar tem a ver com as heranças hebraicas de tudo isto, com este lado de incerteza.

 

A marca da genealogia?

Isso com certeza. Há uma incerteza e uma espécie de dúvida permanente. A cultura portuguesa é tão estranha, os nossos fundamentos, entre árabes e judeus, a mistura de tudo isto... A minha mãe tem origens no Algarve, o meu pai no Minho.

 

É capaz de me apresentar esta casa, a sua vida a partir destes corredores?

Os meus pais tinham estado em Angola, Silva Porto. A minha irmã é 12 anos mais velha que eu, entrou para a faculdade e vieram para aquilo a que se chamava metrópole. Nessa altura eu tinha cinco. Conheci os colegas de faculdade da minha irmã, que vinham aqui para casa estudar ou com quem ela ia ao cinema: o Pedro Tamen, o João Bénard da Costa, a Buchholz e todo esse ciclo cultural; o Manel de Brito, que era livreiro ali na Escola Politécnica, onde a minha irmã comprava os cadernos. O meu pai era funcionário dos correios, depois montou um negócio. A minha mãe era professora primária. Não eram católicos, embora eu tenha ido para os Maristas, aqui em frente, porque era uma boa escola. Como morávamos mesmo em frente do colégio, acabou por ser uma casa de convívio de todos os meus colegas. Brincávamos aqui, neste quarto, com um comboio eléctrico que ainda tenho ali guardado. Mas este prédio era engraçado! Aqui em cima morava o Senhor Muznick, pai da Esther Muznick.

 

Judeu.

Chefe da comunidade israelita. Mais em cima morava a família San Payo de Lemos, de onde vem a Vera. Vivia ali ao fundo a família do Arons de Carvalho. Havia também uma senhora belga, Francine Benoir, amiga do Lopes Graça, professora de piano; a Maria João Pires, o Emmanuel Nunes andavam por aqui a estudar. E o Almada [Negreiros] vivia um bocadinho abaixo. Havia o Liceu Francês, frequentado pela grande burguesia, mas também pelos filhos dos intelectuais que não queriam uma educação salazarista. É um bairro como uma certa tradição de modernidade.

 

É uma genealogia geográfica, que influencia, também.

Havia esta atmosfera um bocadinho cosmopolita. Depois havia dois colégios religiosos muito importantes, as Doroteias e os Maristas. E as madames. Aqui em cima, no terceiro andar, vivia uma senhora francesa, que dava aulas na Alliance Française.

 

Aprendeu a ler com a sua mãe?

Aprendi com ela e sozinho. Cheguei à escola a saber ler e o primeiro livro que li foi «Os Lusíadas», a edição de estudo da mesma, que era da minha irmã. Tinha quatro, cinco anos. A minha irmã estudava Germânicas, pertencia a movimentos de libertação colonial, aos Agostinhos Netos e Amílcares Cabral. Tudo o que ela fazia me interessava. Muito cedo fiquei a ver os livros sobre os campos de concentração que chegavam cá a casa. Queria imenso saber o que eram aqueles livros que eu não conseguia ler, os livros em alemão. Portanto, muito novinho, sabia o que eram os concertos onde a minha irmã ia, o Cineclube Católico... Nos Maristas, fui colega de alguns jovens, o principal foi o Zé Ribeiro da Fonte, que me levou para o São Carlos, tinha para aí oito anos, nove anos.

 

Tudo isso são referências culturais. Na relação com a sua irmã, onde é que cabem os afectos? Isso de que fala é qualquer coisa que consigo encontrar nos textos que escolhe, nos textos que escreve, e que até vão ao encontro da vida de todos os dias. Mas existe um pudor em falar de um modo mais explícito ou do sexo ou dos afectos.

Sim.

 

É evidente a relação de admiração pela sua irmã. Contudo, admirar é uma coisa, amar é outra.

A minha irmã, sendo de Germânicas, era alemã de espírito. O afecto era uma coisa que não existia em minha casa. Era disciplina, rigor, autoridade. Afecto havia com a minha mãe, que era muito calorosa. Só que eu estava numa posição extraordinária! Podia jogar com o poder das duas mães, ora estava zangado com uma, ora estava bem com a outra.

 

Elas disputavam a sua atenção e o seu afecto?

Isso com certeza. O meu pai era muito presente, regular, rigoroso e foi importante no amor aos livros. Tinha poucos estudos, era muitíssimo inteligente, de uma geração republicana que leu todo o Victor Hugo, o Zola, os grandes romances humanistas e que tinha uma biblioteca que comprava a muito custo, boa, sólida. E falava com entusiasmo do empenho do escritor em transformar a vida. Lembro-me, com muito afecto, de ele me falar de livros e de cinema. Nas horas vagas de Lisboa, quando era novo, tocou piano a acompanhar cinema mudo para ganhar uns tostões. Falava da sua actriz preferida, a Barbara Stanwick.

 

É, em si, uma cena muito cinematográfica: o seu pai a acompanhar filmes mudos ao piano. Ocorre-me um dos filmes mudos mais belos de todos os tempos, «Sunrise», de Murnau. Como é que um filme, como este, pode ser tão explicitamente emocional sem ser piegas? Para as pessoas que têm pudor em abordar os afectos deve ser a grande questão: como fazê-lo?

Os afectos não são piegas. Adoro chorar no cinema, no teatro não consigo; só de raiva, quando é muito mau. Adoro o “Esplendor na Relva”. Nunca consegui ver o final, vejo uma espécie de nevoeiro à minha frente. É sobre o mesmo assunto do Ruy Belo, aqueles dois perceberam que o Verão tinha sido a única estação e que a perderam. Gosto mais de analisar do que empolgar.

 

Porquê?

Tenho muito medo de empolgar e gosto de ver como é que as pessoas se aproximam, se afastam, se encontram, de um certo ponto de vista, que Nietzsche dizia que era “a meia encosta”. A meia encosta é que é ponto de observação certo, nem alto demais porque é longe, nem perto demais porque se está misturado na turbulência. Lucrécio também fala do ponto certo para se ver o barco na tempestade. Se estamos no barco e na tempestade não vemos nada, se estamos na costa, muito refastelados, vemos o acontecimento. É isso também o teatro. Gosto de estar sentado num sítio e ver, à minha frente, digladiarem-se forças opostas, que não se vêm meter comigo. Tenho algum receio quando os actores se vêm meter comigo. Daí uma certa frieza. Embora, pense que é uma frieza muito cálida, que deixa um espaço para a ternura.

 

Quando é que conseguiu abandonar a posição do voyeur e diluir-se?

Nunca consegui. Nunca consegui dançar. Nunca consegui embebedar-me sequer, por muito álcool que beba. Existe um controlo racional que me deixa muito pouco entregar-me.

 

E a dança?

Não saber dançar é a mesma coisa; ou seja, não permitir que o ritmo venha de outro. Sou eu que imponho o ritmo, não admito que seja a dança ou a música a dizer qual é o ritmo.

 

Há uma cena de dança no «Agosto», filmada no Portinho da Arrábida, também num Verão, num cenário que convoca uma perdição. O que é que pediu às pessoas que dançavam?

Eu adoro ver dançar. Foi dos dias mais felizes de filmagem que tive. Adoro filmar bailes. É muito imponderável o que pode existir no baile: fogem-nos do enquadramento... A dança é um jogo sexual muito nítido, mas também muito social, contido, condicionado perante as aparências.

 

Se fosse capaz de dançar, dançaria com quem?

Dançava com toda a gente. Devia ser a coisa que mais gostava de fazer.

 

No que estou a pensar é no amor, evidentemente. Na força do amor, que pode ser redentora e que permite o afogamento.

Acho que nunca me aconteceu e que nunca pensei muito nisso. Pensei sempre em relações de trabalho e em relações de cumplicidade. Porque a minha família é de professores, pensei sempre no ensino. Por ter sido um estrangeirado desde sempre, por ter tido esta educação entre o germanófilo e o francês, senti sempre muita culpa. Quando vou a um café em Lisboa e o empregado me trata mal, sinto-me culpado. A culpa é minha, fui eu que não o eduquei suficientemente bem. Se é um francês que me trata mal, não sinto culpa nenhuma. Lisboa é o sítio da minha culpa. Onde os passeios estão sujos, do cocó dos cães, sinto-me sempre culpado.

 

Não militou civicamente o necessário?

Exactamente. Esse é o meu sentido de pátria. A minha pátria é a minha culpa. O O’Neill diz isso: “O remorso de Portugal é o remorso de todos nós”. Há na cultura portuguesa uma vocação didáctica permanente. Vem de todos os estrangeirados que vão lá fora e depois dizem como é que há-de ser: escrever versos, fazer teatro, fazer cinema, portar à mesa. Isto marcou-me sempre. Liguei a vida dos afectos com a vida do trabalho, e nela me resolvo, ou com a vida do ensino. Um dos momentos mais felizes da minha vida foi quando fui com o Manuel Mozos ou o Edgar Pêra, que foram os meus primeiros alunos da turma, a formações e passarem afectos entre nós os três. Este é para mim o sentido do amor. Tem a ver com não encontrar pessoas da minha idade com quem me dê e gostar de partilhar tudo o que sei.

 

Nunca se deu com os da sua idade?

Dei-me com os da minha idade, mas sempre fui professor. Devo ter sido muito chato. Comecei a escrever sobre cinema aos 15 anos, no Juvenil do Diário de Lisboa, e depois n’“O Tempo e o Modo”, aos 16. Os meus pais, a partir dos sete anos, perguntavam-me: “Qual é o filme que devemos ver este sábado à noite?”. E só se zangaram comigo uma vez, quando os mandei ver o «Quanto mais quente melhor”; não gostaram nada porque não gostavam de comédias, gostavam de filmes para chorar.

 

Não chegou nunca a ser uma criança convencional?

Ainda sou. Sou muito infantil em aspectos de não entrada num mundo adulto, na vida prática; sei mal ir a uma repartição de finanças, é muito confuso. Mas desde muito cedo pus-me a dizer como é que devia ser. Em Silva Porto, morava numa moradiazita e ao lado vivia o bispo. Eu dizia que queria ser bispo. Se calhar, era para mandar nos outros. Não queria ser padre nem sacristão. O senhor era muito simpático, cordial, mas a ideia de saber e poder dar ordens, entusiasmou-me.

 

Sendo que as duas estão ligadas. O conhecimento revela uma superioridade e pode confirmar uma ascendência sobre o outro.

Acho que foi isso que imaginei desde muito novinho. No Juvenil devo ter escrito um poema ou dois; acima de tudo, escrevia textos sobre cinema. Havia uma vocação didáctica e de intervenção no gosto. Era mais uma vocação ensaística do que a expressão dos meus sentimentos juvenis de amor ou não sei quê. Manias como outras quaisquer.

 

Sobre o que é que fala com a Glicínia?

Falamos de tudo.

 

Uma coisa são os afectos, resguardados pelas referências culturais, pela atitude prosélita. Mas, com uma amiga tão íntima, com quem fala todos os dias, fala de quê?

Fala-se de tudo. E com a Glicínia é um prazer, porque ela contraria sempre. Basta eu dizer: “Hoje está a chover”, e ela diz: “Não, estou a ver aqui nuvens a afastarem-se”. Uma das coisas que mais nos entusiasmam nos últimos tempos é aquilo de que está a falar. Eu tenho realmente um corpo salazarista, fui educado dentro do salazarismo. A minha sensualidade é espartana, muito austera. O republicanismo dos meus pais, o catolicismo dos Maristas também marcaram isso. Um dia estávamos a ensaiar, a Glicínia veio para o balcão e os rapazes estavam a fazer uma dança qualquer no palco. E ela diz-me: “Estes corpos não podiam existir quando eras novo”. Ou seja, a sensualidade viva, vital era uma coisa que não podia existir. E ela dizia muito assim: “Isto é que foi a grande conquista do 25 de Abril, estes corpos estão livres, não são corpos salazaristas”. E é verdade. O meu corpo não é um corpo livre. Nasci em 48, no apogeu do Estado Novo e da educação muitíssimo puritana. Nunca consegui ultrapassar esse puritanismo.

 

Com a culpa dos católicos?

Vivo com a culpa de, se calhar, ser esse o meu Verão. Se soubesse dançar, se soubesse cantar... Eu adorava ser como o Dean Martin e cantar canções italianas em americano!

 

Adorava ser o Dino, o estróina do «Kiss me, stupid» do Billy Wilder, que o Dean Martin interpreta!

Adorava. Provavelmente era esse o meu Verão. E olho para o mundo sempre com essa hipótese.


No fundo, o seu Verão era «E se eu fosse livre».

E se eu fosse livre. Se eu tivesse sido livre.

 

Quando é que teve a impressão de que já não tinha essa possibilidade?

Foi para aí aos 35 anos. Houve dois anos absolutamente atrozes na minha vida, passados aqui em casa. Tinha estado a trabalhar na Alemanha, depois fui para França, fiz cinco ou seis espectáculos em França. A certa altura não conseguia viver mais entre Lisboa, Paris, não ter casa, a idade a avançar... Eu queria estar num sítio e continuar alguma coisa. E vim para Lisboa. Estive dois anos e meio no mais completo desemprego. Nem um artigo para o jornal, ninguém me aceitava nada. Vivi do que os pais me tinham dado. Foi assim até 96.

 

Sentiu-se proscrito?

Senti que tinha chegado ao fim, que não tinha utilidade para nada. Estava aí sentado no sofá, via televisão, esperava pelo programa da Teresa Guilherme, às sete da tarde, adormecia depois do programa, esperava pelo dia seguinte.

 

Na depressão absoluta.

Na depressão... Mata.

 

Foi antes do «António, um rapaz de Lisboa».

Foi antes de fazer o «António». Foi o Manel Wiborg quem me ajudou imenso, com a sua juventude e vitalidade.

 

Como é que o encontrou?

Foi o João Pedro Rodrigues, que fez os castings para o filme “Coitado do Jorge”. Eu não queria estar nos castings, é uma situação de que não gosto; fico com imensa simpatia pela pessoa que lá está, escolho logo o primeiro que me aparece porque me encanta. Nesse dia ele veio excitadíssimo, “Encontrei um com nome estrangeiro que me parece muito engraçado”. Curiosamente, Wiborg, ascendência norueguesa, a família morava também aqui durante a minha infância. O Manel estava no Conservatório, a Joana [Bárcia] estava no Conservatório, encontrava-me com eles uma vez por semana, a inventar uma história que dava origem ao “António, um rapaz de Lisboa”. E senti-me tão obrigado a fazer isso...

 

A fazer exactamente o quê?

A fazer uma coisa para eles. E volta a necessidade didáctica. Senti-me tão responsável por estar a afundar-me numa depressão e não estar a fazer nada para que os melhores anos da vida do Manel e da Joana pudessem ser filmados ou trabalhados... Conseguimos que a Gulbenkian pagasse, (agora veja o meu valor), sete mil contos, para fazer o “António”, que era um espectáculo de 30 actores! Nessa altura, um espectáculo normal, de seis, sete actores, era orçamentado em 12 mil e 13 mil contos! Se não tivesse agarrado a ocasião e se o Manel, a Joana, a Lia [Gama] não tivessem estado comigo, estava completamente acabado. Foi daí que voltei a fazer e que consegui impor uma série de jovens actores e uma série de outros valores dentro da modernidade portuguesa. Fiquei muito contente.

 

Não soçobrou e arrancou-se à sua depressão bebendo da juventude deles.

Nisso sou um vampiro. Encontrava-os: “O que é que faço, que peça é que hei-de fazer?”, “Eu quero escrever uma história para ti”. Eram as conversas. Se não houvesse um outro a quem queria dedicar o meu trabalho, não tinha feito nada.

 

Era a consciência do “Eu já não vou a tempo, já não tenho aquela juventude”.

Era.

 

Se penso no Wiborg, na Joana Bárcia, no Miguel Borges a ideia que me ocorre é a de explosão. Eles podem estilhaçar-se e estão sempre na iminência de o fazer. São «borderline». No fundo, quis estilharçar-se também, com eles.

Sim, aprendi isso com o Brecht. O Brecht nunca fez nada sozinho na vida, nem sequer escreveu uma peça, que é uma coisa bastante íntima, que se costuma fazer à máquina, mas que ele fazia com as namoradas. O diálogo é tão estimulante que estar sozinho é uma perda de tempo. Perceber o que é a vontade de vida do Manel, da Joana, do Miguel, do Zé Airosa e conseguir dar-lhes matéria para prosseguirem a sua arte, encanta-me. Permitir-lhes a libertação e aconchegar-lhes espaços. Mas também é isso que me dá um enorme conforto.

 

Sabe que me parece que é a mãe deles todos, e não o pai. A sua atitude é a da mãe.

É possível. Herdo muito da minha mãe, que era divertida e que adorava ter a casa cheia de gente. E há uma coisa que, de certeza, herdei da minha mãe e que tem a ver com o teatro: ela adorava nos sábados em que não tinha nada que fazer responder aos anúncios de casas para alugar; e íamos passar o sábado todo, ela e eu, a ver as casas. Sem nenhuma intenção de alugar, só para ver como é que a nossa vida seria se a sala de jantar fosse ali, que mobília é que compraríamos.

 

Esse exercício é extraordinário!

Mas fiz imensas vezes, a certa altura já estava farto de fazer aquilo. Ao domingo, no passeio, com o meu pai, a minha irmã, era o assunto da conversa: “Encontrámos uma casa muito gira na João XXI, mas tem cortiça até ali, tínhamos que mudar o quarto...”. Foi tal e qual o que andei a fazer na Capital. [espaço no Bairro Alto, sede dos Artistas Unidos até ao despejo]. Era um prédio vazio, andei a pôr as mobílias, a decorar aquilo e foi um dos momentos felizes da minha vida. É isso que gosto no teatro e no cinema. Só filmei duas vezes em estúdio e detestei, porque está lá aquilo que quero. O que é engraçado é debater-me com o que não quero. Era isso que a minha mãe fazia, “Como é que seria o Verão se a minha vida tivesse sido nesta casa e não na Artilharia Um?”.

 

Nunca houve nesta casa os fantasmas da solidão?

Já, já. Sempre. Vivo quase sempre sozinho, mesmo desde pequenino. Filho de pais mais velhos do que seria normal, a minha mãe tinha quarenta e tal quando nasci. Sempre rodeado de miúdos, a minha mãe fomentava uma espécie de companhia e colonização permanentes. Mas sempre também não me ligando. O meu amigo mais antigo é o Miguel Lobo Antunes.

 

Essa dificuldade em ligar-se às pessoas, em diluir-se, radica nesse espaço de solidão? Em estar sempre com outros sem conseguir estar completamente com outros.

O que tenho procurado e não tenho conseguido encontrar é interlocutores com quem possa discutir. É muito fácil fazer rupturas comigo, é muito difícil haver antagonismo. Tenho encontrado maravilhosos colaboradores com quem tenho conseguido trabalhar, mas que se fartam porque estão apenas a obedecer. Ou que se sentem presos pela demasiada protecção que eu, mãe judia, lhes dou. Tenho encontrado muito poucos a quem digo: «Gostava que fosse assim», e com quem fico a discutir até às cinco da manhã que podia não ser assim.

 

Tirando a Glicínia.

Mas a Glicínia é um exercício de discussão sem responsabilidades, é a conversa diária da contradição. Agora, no trabalho, quer com o Luís Miguel, quando dirigimos a Cornucópia, quer agora com os Artistas Unidos, tenho poucos interlocutores. Há uma opressão que exerço e que leva as pessoas a afastarem-se de mim com muita violência. As rupturas comigo são muito violentas, há imensa gente que não me fala e me acha a pior das pessoas. Amparo demasiado e abafo, não dou a liberdade de existir.

 

Uma vida conjugal consigo, não no sentido mais estrito, mas no sentido de ser quotidiana, de açambarcar todos os aspectos...

É quase impossível. Já estou resignado que não irá acontecer. Mas aquilo a que aspiro... Vou buscar uma citação do Montaigne: “Se tivesse a certeza que havia alguém que estava perto, que me era próximo, de certeza que iria o mais longe possível para o encontrar, pois a doçura de uma companhia não tem preço. Ai de um amigo...”. Li no domingo passado e tocou-me forte. O amigo que eu quereria seria um contraditor activo. Aquela ideia de estarem duas pessoas a olhar para o mesmo ponto, terem opiniões diferentes do mesmo ponto, mas conseguirem agir em relação a esse ponto...

 

Permanecerem nesse lugar apesar da discordância, não o abandonarem...

Exactamente.

 

É a coincidência na discordância?

Não abandonarem nem se sentirem menorizadas ou superiorizadas. Isto tem a ver com os cowboys. A minha educação é também feita pelos westerns e pelo Howard Hawks. A diferença que há entre o Dean Martin e o John Wayne no «Rio Bravo»...; mas perante uma acção específica, (combater os maus), embora venham de mundos diferentes, os dois estão do mesmo lado.

 

O seu papel é o do John Wayne, que quer redimir o amigo bêbedo Dean Martin.

E o bêbedo não quer ser redimido, é esse o meu problema. Mas nos filmes ele queria ser redimido.

 

Posso voltar à sua irmã, que tinha mais 12 anos e uma enorme ascendência sobre si? O que procurava era estar à altura dela?

Ela pôs-me sempre. Puxou por mim para dar opiniões, para eu dizer...

 

Ela considerava a sua opinião? Com que intenção é que pedia a sua opinião? Era para puxar por si ou estava realmente interessada no que pudesse dizer?

Muito cedo, dez,12 anos, já era para saber a minha opinião, mesmo para coisas práticas, como a escolha de filmes. Nas outras era para puxar por mim, com certeza.


Insisto: qual é a intenção? Porque fazem isto por nós? Consideram-nos realmente ou fazem-no numa atitude vampiresca, procurando aí a sua redenção?

A atitude vampiresca procurando a redenção sou eu, de certeza.  


Amá-los-ia da mesma maneira se não estivessem à altura?

Com certeza.

 

Mas eles duvidariam disso.

Claro. Mas isto desde sempre, mesmo no Juvenil. “Porque é que este gajo gosta de mim, porque é que me dá confiança? É um grande sacana, está-se a aproveitar de mim”. Porquê, porquê, porquê, é um assunto que me segue sempre

 

Ensina, ensina, ensina. Mas com quem é que aprende?

Em livros. A hipótese que tive de conhecer muitas línguas, pessoas muito engraçadas, como o Jacques Tati...

 

Deu-se com o Jacques Tati?

Conheci o Tati por sorte e graças à PIDE. Fui preso em 68 e quando saí da cadeia, o meu pai abraçou-me fortemente, muito honrado e comovido por eu ter estado preso; e eles rapavam o cabelo. Vejo no Diário de Notícias que havia uma recepção ao Jacques Tati, que vinha estrear o «Play Time». Despeço-me rapidamente dos meus pais e vou para a embaixada francesa! Não sei porquê, deixam-me entrar, não tinha convite. Estavam lá todas as velhas glórias de Portugal e o Tati olhou para mim, viu um homem completamente careca e achou-me mais graça do que às múmias que lá estavam. Não deu entrevistas a mais ninguém, só a mim e à Maria Antónia Palla. Durante os quatro dias que esteve em Lisboa estive sempre com ele.

Então, aprende com Tati, com Pascal, com Montaigne, com todos os filmes e com todos os livros.

Com o Peter Stein. Com o Giorgio Strehler. Os meus professores extraordinários: o Mário Dionísio, o João Bénard da Costa, a minha irmã, o Fernando Belo, o Padre Manuel Antunes.

 

A sua irmã foi sua professora? Ai que situação tão constrangedora.

Quanto aos afectos: vivíamos aqui em casa os dois e não me diz que vai ser minha professora. Entro às oito e meia, num sítio completamente desconhecido, ela faz a chamada, aluno número um, número dois, número três, número dezasseis, sou eu, tive que me apresentar, chamo-me Jorge Silva Melo, venho dos Maristas, como se ela não me conhecesse. Os meus colegas só descobriram três ou quatro aulas depois que era a minha irmã.

 

Chegou a fazer-lhe algum teste?

Sim. Sei que foi o António Reis do PS que teve a melhor nota, eu e o Miguel Lobo Antunes tivemos a seguir.

 

Confesse que ficou furioso porque outro foi melhor.

Não, não.

 

Não confessa?

Não confesso.

 

Para que é que lhe serve saber?

Para amar. Para dar. Para planificar.

 

E à Glicínia, o que é que lhe ensina e o que é que aprende com ela?

Ensinar muito pouco. O que aprendo com ela é uma liberdade de pensamento única que é essa capacidade de contradição, de análise, de respeito pelo outro e de indignação.

 

E o lado mais corriqueiro? Goldoni, que tanto ama, proclamava no século XVIII: «Tudo pode ser teatro». O que põe no teatro é a vida corriqueira. Mas essa vida corriqueira, existe deveras na sua vida?

Esse lado corriqueiro é muito solitário. É mesmo meu, só. Adoro ir à rua, é um acontecimento e vou sozinho. Adoro passear, sentar-me em cafés.

Porque é que vive solitariamente esse lado corriqueiro?

Tenho muito pouco contacto com outras pessoas. Afundei-me no trabalho. Se calhar o Verão era a última estação, se calhar não me devia ter afundado no trabalho. Comecei a trabalhar muito novinho, com responsabilidades. Fiz a Faculdade de Letras, depois fui para Londres fazer a escola de cinema. Quando voltei trabalhei em traduções. Fundei a Cornucópia em 73.

 

Quando fundou a Cornucópia achava-se ainda no Verão?

Eu achava que o Verão estava a vir, que ia vir, que ainda vinha. Estávamos no fascismo, sentia que os ventos estavam a mudar, preferi voltar para Lisboa a continuar em Londres. O Luís Miguel fez o curso mais ou menos ao mesmo tempo, mas ficou lá mais tempo.

 

O Luís Miguel foi o que mais se aproximou do interlocutor que procurava? Do interlocutor que está à sua altura, que discute e permanece, apesar da diferença?

Sim. Também a minha irmã foi professora do Luís Miguel, ainda eu não conhecia o Luís. Era o meu rival. Porque a minha irmã dava-me sempre como exemplo o Luís. Chegava a casa e dizia: “Ah, o Luís é que fez uma redacção maravilhosa. Ele é que sabe inglês, ele é que não sei quê...”. Já não podia com o homem!

 

Em suma, quis ser melhor que o Luís.

Não...

 

Tinha um misto de admiração e respeito...

Um enorme respeito, uma enorme admiração. Mas comecei logo a dar-lhe aulas! A primeira relação que tive com o Luís Miguel foi pedir-lhe uma redacção sobre os «Chapéus de Chuva de Cherburgo».

 

Que era protagonizado pela Catherine Deneuve. Tinha paixão por ela?

Absolutamente. Mas isso tem a ver com a tal frieza em relação às emoções. Sempre a achei uma actriz fantástica, o ideal de Hitchcock, que para mim era o mestre máximo. Foi o encontro falhado: como é que o Hitchcock nunca filmou com a Deneuve, quando sempre sonhou com a Deneuve?

 

E então?

Já não havia tempo. Nos últimos filmes dele, ela já existe, mas era muito novinha.


Já agora, se me puder esclarecer como é que Hitchcock filma com a Doris Day, agradeço. A Doris Day!!!

A Doris Day é horrorosa. Mas o filme é lindo. Ele devia achar graça filmar com a banalidade. Tem a ver com o tal lado corriqueiro. A Doris Day é a piroseira inglesa, embora seja americana.

 

É uma dona de casa.

É uma dona de casa que afinal é perversa.

 

A Doris Day é para aqui chamada porque me interessa a sua atracção pela vulgaridade. Quando assiste à conversa trivial do café, da senhora que pede o queque, embrenha-se nisso para elaborar a partir daí? Pergunta-se se a senhora é perversa?, se o vai surpreender?

Não. Isso seria o Hitchcock. O [Harold] Pinter tentaria observar nesses gestos a perversidade. Eu acho que é mais o calor e a vontade de comunicação. Nunca mais me esqueço, meti essa frase no «António»: um dia ia a descer a Rua do Salitre, era um fim de tarde, havia uma velhota que estava à janela e que disse: “Ou vai chover..”, pausa, pausa, pausa, pausa, “ou então não sei.” Acho genial que uma pessoa abra a boca para dizer uma coisa que não é nada.

 

De que é que está sempre à espera? É de ser abraçado?

Absolutamente. Mais do que beijado, é ser abraçado de corpo inteiro, de fundir. Não é abraçar, é ser abraçado. Abraçar, abraço muito. Deve ser muito difícil abraçarem-me. Sei que espero, mas não acontece.

 

Porquê? Sente-se em perigo e foge?

Não sei dizer. Devo ser muito desagradável se alguém quer manifestar ternura.

 

Espreita algures, por aí, o puritanismo, o catolicismo?

O que é importante no catolicismo, que é a descoberta da responsabilidade perante o outro, não foi dado pelos meus pais. A ideia de amar o outro como a si próprio, a ideia de que há um próximo. Trabalho nas margens do catolicismo, trabalho na profissão mais odiada dentro do dogma católico, o teatro. Porquê?

 

Porquê?

Porque os corpos se metem uns nos outros, porque é demasiado próximo como matéria. Os padres da Igreja não queriam nem por nada que houvesse teatro, a Igreja proibiu o teatro.

 

Também porque é uma exposição a nu?

É uma exposição a nu e é uma exposição democrática. Os padres sempre gostaram de cinema. Há imensos prémios católicos de cinema, imensos cineclubes católicos. No cinema a luz vem do alto, como na igreja. No teatro estamos em comunidade, é uma comunicação política, da cidade, laica. Quando os padres na Igreja não gostavam daqueles arraiais que o teatro produzia não era só pelos maus costumes; era por esse sentido comunitário, sem Além. O teatro é terreno.


Viveu sempre mais ou menos arredado da força do dinheiro. Nunca teve o desejo de ganhar dinheiro?

Tenho uma péssima relação com dinheiro, não sei ganhá-lo. Tem a ver com uma infantilidade permanente. Como o meu pai tinha ganho algum dinheiro e me deixou numa posição relativamente confortável, nunca amadureci o suficiente. Continuo a viver à sombra dos meus pais. A casa foi comprada com o dinheiro deles. Se fui responsável, por exemplo, pela escolha do fim-de-semana de prazer dos meus pais, («Tu é que escolhes os filmes que vamos ver»), fui poupado, excessivamente, às coisas da vida prática. Havia empregada, não sei fazer a cama.

 

Se o reconhecimento do outro é uma ideia forte do catolicismo, a redenção não o é menos.

A redenção e o perdão. Nunca seria protestante, onde não há perdão! A ideia de ser perdoado por amor é inultrapassável. Arrepender, redimir, e isso ser a força criadora. Há no catolicismo um pensamento prático extraordinário, que é esse. Uma pessoa sente-se mal, fez uma data de coisas mal feitas, como é que há-de resolver? Sofrer sozinho como o protestante? Porquê? Dizer a outro: “olha, fiz mal”, já é o seu próprio perdão.

 

Gostava de ter uma morte católica?

Agora tenho pensado mais na morte, antes não pensava muito. Sempre disse que gostava de morrer devagarinho, precisamente por causa disso.

 

Para ter tempo para a reconciliação?

Sim, gostava de me preparar muito bem. Agora já não sei, já tenho mais medo da brutalidade da doença, da invalidez. Não gostaria..., mas também não tem qualquer importância..., não gostaria de morrer sozinho. Mas se morrer, também não me arrependo.

 

Esteve a vida toda a lutar contra o facto de estar sozinho. Esteve sempre rodeado de pessoas, mas sozinho.

Não gostava nada de ser como os elefantes que vão lá morrer escondidos. Não gostava que a morte fosse uma vergonha. A morte é um acto de vida.

 

Porque implica transição?

Implica transição, implica mudança.

 

Está a pensar na reencarnação, em vida depois da morte?

Não, não. Pertence à minha vida. Não é uma vergonha, não me vou esconder para essa parte mais frágil da minha vida.

 

Há sempre o exemplo muito tocante da Amália, que quando tem medo de morrer, vai para os Estados Unidos porque não quer que a pátria a encontre morta. Sobretudo morta de um modo despudorado.

É como os elefantes.

 

Depois, é maravilhoso que seja resgatada novamente para a vida pelos filmes do Fred Astaire.

Essa é genial!

 

No seu caso, também há um pudor em relação a esse momento?

Há. Ao mesmo tempo, a morte do Fernando Assis Pacheco na Livraria Buchholz... Uma pessoa que vai ao seu lugar de todos os dias e morre no seu prazer maior que é andar a ver livros... São as mortes mais teatrais a que não posso deixar de apreciar o lado público e sentimental.

 

O Luiz Pacheco, n’«O Libertino», pergunta-se como será a morte: síncope, loucura súbita... Quanto a si?

Morrer é devagarinho, como adormecer. Pensava sempre como uma lenta incapacitação, a pouco e pouco ir-me apagando. Pode ser que isso seja extremamente doloroso e extremamente doloroso para os outros. E como não tenho outros que me sejam próximos, imagino a complicação que não iria criar às poucas pessoas que ainda me aturarem por esses anos...

 

Já teve tantas estações, a sua vida em Paris, em Milão, em Berlim, a sua vida anterior à Cornucópia, os anos da Cornucópia, de 95 para cá, desde o «António», os Artistas Unidos...

É, mas ainda tenho medo de ter férias, por exemplo. Em Junho foram as férias de 90 por cento das pessoas da companhia e fui fazer uma peça só com três actores porque tenho medo. Sim senhor, podia ir de férias para o estrangeiro, mas não estou nada a ver-me sozinho a andar pela Grécia. Um mês? Para onde? Que chatice. Antes, ficaria excitadíssimo. Mas isto tem já a ver com um medo atroz de ficar sozinho. Sim, isto vincula-me à vida.

 

Já pensou matar-se?

Não.

 

Nem quando estava muito deprimido, na fase anterior aos Artistas Unidos?

Não. Aí só pensava em dormir, ver a Teresa Guilherme, dormir e esperar telefonema. Era a angústia. Com os Artistas Unidos e com o que precedeu os Artistas Unidos adquiri uma espécie de velocidade cruzeiro da felicidade. Por muito doloroso, dorido, combativo e às vezes insultuoso que tenha sido o meu percurso, sobretudo nestes últimos dois anos e meio, por muitas mentiras que me tenham feito, há uma espécie de “Eu não abdico de ser feliz”. Sei que tenho razão, e essa tranquilidade...

 

Chega a amargar?

Não. Então com A Capital, a ideia de amargura desaparece. Mesmo que me tratem mal, mesmo que não sei quê. Quando estive preso na PIDE, partiram-me a cabeça, meteram-me na carrinha ali na Almirante Reis, estava cheio de sangue e a primeira preocupação que tive foi encostar a cara ao vidro, para que as pessoas na rua vissem como eles tratavam. Há sempre um distanciamento em relação a mim ou à minha própria dor para testemunhar. Eu estava cheio de orgulho, estava como nos filmes, os filmes que mais amava. Sentia que o Rosselinni estava ali para me filmar e conseguia tratar os pides com desprezo. Eu tinha razão. É um sentimento de serenidade que nunca mais esquecerei.


E de orgulho.

De serenidade. Por mais miserável que estivesse, e estava em condições fisicamente também dolorosas, há uma dignidade que não é tocada. Naquela cadeia de Caxias, durante três semanas, contávamos anedotas nas celas e ríamos, ríamos. Isto é o que gosto nas pessoas: a capacidade de sobreviver.

 

E a vergonha?

A vergonha tem-se, e às vezes tenho muita vergonha. Vergonha de ser emocional.

 

O que suscita a vergonha?

Em certa despedida, o gesto que foi feito, e que não tem retorno. Ter sido fora do tom.   

 

 

Publicado originalmente no DNa, Diário de Notícias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Mim

25.10.18

Anabela Mota Ribeiro nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa.

 

É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Filosofia (variante Estética) com uma tese sobre "A Flor da Melancolia e o Ímpeto Cesariano (ou a Negação e a Afirmação da Vida) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis". 

 

Publicou os livros “O Sonho de um Curioso” (2003), com 14 entrevistas, "Este Ser e não Ser - Cinco Conversas com Maria de Sousa" (Maio de 2016), "Paula Rego por Paula Rego" (Novembro 2016), "A Flor Amarela - Ímpeto e Melancolia em Machado de Assis" (Fevereiro 2017) e "Por Saramago" (Novembro 2018).

 

Jornalista freelance, colaborou com diversos jornais e revistas, entre eles, e de forma sistemática, DNa (suplemento do Diário de Notícias), Jornal de Negócios e Público.

Autora e apresentadora de programas de televisão na RTP. O mais recente, "Curso de Cultura Geral", teve exibição nos primeiros meses de 2017 e 2018 na RTP2. 

 

Foi comissária do festival Somos Douro, a convite da CCDR-N, no âmbito do selo atribuído pela UNESCO ao Alto Douro Vinhateiro. O programa foi desenvolvido, essencialmente, entre 1 e 17 de Junho de 2018 nos 19 municípios da CIM Douro. 

 

Entre Janeiro de 2017 e Novembro de 2018, conduziu no Centro Cultural de Belém o ciclo "(Quase) Toda uma Vida", composto de entrevistas a figuras seniores da sociedade portuguesa, de diferentes áreas.

Organizou e moderou durante dez anos um debate mensal sobre livros na Bertrand do Chiado, o Ler no Chiado.

 

Com José Eduardo Agualusa, assinou a programação da Feira do Livro do Porto (Setembro de 2017 e 2018). 

Foi curadora da Folia, a programação festiva do Folio, o festival literário internacional de Óbidos, em 2015 (com Nuno Artur Silva) e em 2016. 

 

Trabalhou em rádio e foi correspondente da Antena 1 em Londres entre 2007 e 2008. Na Primavera de 2017 teve na rádio pública um programa de entrevistas sobre felicidade, "Todos os Sonhos do Mundo". 

 

Entre Julho e Dezembro de 2017, colaborou com o Museu de Serralves no ciclo "Novas Perspectivas", centrado no diálogo entre arquitectos, artistas plásticos e autores de diferentes disciplinas artísticas. 

Conduziu o colóquio “Nós, a Cultura e eu” na Fundação de Serralves em 2003. Comissariou o ciclo de conferências "O que é a América hoje?", co-organizado pela FLAD e Casa da Música, em 2011, e o ciclo de cinema “Noite e Nevoeiro – Portugal e o Holocausto”, organização da Cinemateca com a Embaixada dos EUA, FLAD e Gulbenkian, em 2013.

 

Com André e. Teodósio, concebeu o projecto "Estar em Casa" para o Teatro São Luiz, em Janeiro de 2016.

 

O género a que mais se tem dedicado, enquanto jornalista, é a entrevista. 

 

Desde Maio de 2013 disponibiliza o seu arquivo no blog www.anabelamotaribeiro.pt. 

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Fotografia: Estelle Valente

 

Anabela Mota Ribeiro was born in 1971 in Trás-os-Montes, Portugal, and currently lives and works in Lisbon.

 

She graduated in Philosophy by the Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, within the Universidade Nova de Lisboa, a Lisbon University. Master in Philosophy (Aesthetics variant), her thesis was named “A Flor da Melancolia e o Ímpeto Cesariano (ou a Negação e a Afirmação da Vida) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis”.

 

She has published the books “O Sonho de um Curioso” (2003), “Este Ser e não Ser – Cinco Conversas com Maria de Sousa” (May 2016), “Paula Rego por Paula Rego” (November 2016), “Por Saramago” (November 2018), all of which contain interviews, and the essay “A Flor Amarela – Ímpeto e Melancolia em Machado de Assis” (February 2017).

 

As a freelance journalist, Anabela has collaborated with several newspapers and magazines, among them the DNa (an appendage of the Diário de Notícias), the Jornal de Negócios and Público.

Anabela is also an author and presenter of television programmes at RTP. The most recent one, “Curso de Cultura Geral”, aired its second season in 2018. The first season aired during this same time period in 2017.

 

She was invited by CCDR-N to be a commissioner for the programme Somos Douro, in scope of the status given by UNESCO to the Alto Douro Vinhateiro sixteen years ago. The programme was developed throughout 2018 and took place over the course of 18 days in distinct locations, with the participation of many esteemed guests.

 

Since January 2017 Anabela has been managing “(Quase) Toda uma Vida”, a series of interviews done to high-status members of the Portuguese society, all with different areas of expertise. This takes place at the Centro Cultural de Belém.

She also organises and moderates a monthly debate about books called “Ler no Chiado”, at the Bertrand bookshop in Chiado.

 

With José Eduardo Agualusa, Anabela has participated in the programming of Feira do Livro do Porto, a book fair in the city of Porto which took place in September (2017 and 2018). She was curator for Folia, the festive programme for Folio, an international literary festival at Óbidos, in 2015 (with Nuno Artur Silva) and 2016.

 

Having worked in radio, Anabela was a correspondent of Antena 1 in London between 2007 and 2008.

During the Spring of 2017 she had a radio programme which consisted of interviews about happiness, named “Todos os Sonhos do Mundo”.

 

Between July and December 2017 she collaborated with the Serralves Museum on a project called “Novas Perspectivas”, centred in the dialogues between architects, plastic artists, and authors of varied artistic areas.

Anabela moderated the colloquy “Nós, a Cultura e eu” at the Fundação Serralves in 2003; was a commissioner at a circle of conferences named “O que é a América hoje?”, co-organised by FLAD and the Casa da Música, in 2011; and participated on the cinema cycle “Noite e Nevoeiro – Portugal e o Holocausto”, organised by Cinemateca and the USA Embassy, as well as FLAD and Gulbenkian, in 2013.

 

Alongside André E. Teodósio she has created the project “Estar em Casa” for the São Luiz Theatre, in January 2016.

 

The journalistic style she has dedicated herself to the most is interview.

 

Since May 2013 Anabela’s work has been available on archive at the blog www.anabelamotaribeiro.pt.

 

Coimbra de Matos (s/ Portugal)

25.10.18

Somos inseguros, imaturos, praticantes da transgressão na sombra, além de desorganizados, individualistas, garbosos, disponíveis. Nós, os portugueses, o que esperamos do chefe, do pai, do protector, é que decida por nós, que assuma a responsabilidade por nós, que saiba sempre a resposta. Mas que resposta para Portugal? O psicanalista António Coimbra de Matos faz o diagnóstico de um país deprimido, que, em crise, se olha desamparado.

Coimbra de Matos nasceu em 1929 numa aldeia do Douro. É um dos mais prestigiados psicanalistas portugueses. No seu consultório há uma fotografia dos vinhedos, da terra sulcada, mesmo em frente à porta de entrada. Depois, olhando à esquerda, há a secretária, o divã, o cadeirão onde ouve; e folhas e livros e jornais em quantidade e em desalinho. À direita há dois pequenos sofás onde nos instalámos. É um fumador inveterado, nas suas próprias palavras. Foi neste ambiente que em quase duas horas se falou de Portugal. Frequentemente parecia que estávamos a falar de pessoas que conhecemos de todos os dias. Pessoas como nós, de nós. Pode-se pôr um país no divã? O que constitui a nossa identidade? Coimbra de Matos começou por falar disto, antes mesmo da primeira pergunta.

 

Classicamente, a Psicologia e a Psicanálise descrevem um mecanismo de construção da identidade: por identificação de modelos. A pessoa identifica-se com o pai, com a mãe, o professor, um jogador de futebol, um grande filósofo. Fazemos mais dois processos de identificação que são mais importantes do que este. Um joga com a identificação imagoico-imagética, em que nos identificamos à imago e à imagem que os nossos pais e o mundo nos atribuíram.

 

Temos um desejo de corresponder a essa identidade?

Os portugueses têm muito isto. Vamos um bocado nessa cantiga – assimilar a identidade dos nossos políticos, dos nossos pais, o que a História nos vai infiltrando. O indivíduo assimila a imago, que é uma coisa menos consciente, e a imagem, que é uma coisa mais nítida, que o outro atribui.

 

E pretendemos transcender essa expectativa que têm em nós?

Isso já inclui outro aspecto, nem sempre lá vamos. Há outro processo de identificação, mais importante – a idiomórfica –, em que nos identificamos aos nossos projectos, àquilo que pensamos que somos, e fundamentalmente àquilo que desejamos ser.

 

Isso já tem muito de construção individual.

Tem. E aí talvez os portugueses falhem um bocado. Têm tendência a repetir, a ser conservadores. São inovadores em circunstâncias de crise, de stress, quando emigram. Sem dificuldades, não são muito inovadores.

Por exemplo, quando se diz que estamos a explorar o mar, está impresso que é uma coisa herdada da História. Somos um pouco marinheiro, emigrámos para a Índia, para África, para o Brasil. É quase uma continuidade do que fomos.

 

Foi no mar, ou através do mar, que nos transcendemos. Pode ser um pouco a herança desse mito.

Pois pode, mas também nos podemos transcender de outro modo. Sou apologista da inovação. A grande mudança que temos que fazer é inovar mais e repetir menos. Na vida pessoal também é isso.

 

Por que é que somos tão acanhados? Por que é que, se não em condições excepcionais, não ousamos, e preferimos qualquer coisa que, mesmo que limitado, não nos ameaça?

Não sei responder. Talvez uma das razões seja o facto de ser uma cultura mais dominada por influência materna do que por influência paterna. Os pais são mais ausentes, saíram de casa, iam para o mar. A influência materna é mais conservadora. Quando uma criança está com medo, aflita, a mãe dá-lhe uma mão, o pai dá-lhe um pontapé no cu.

 

Qual é que é a melhor maneira de aprender?

São as duas, deve haver um certo equilíbrio. Agora já é diferente, mas na nossa cultura o pai não intervinha muito. Ainda agora um cardeal português disse, com bestialidade, que as mães deviam ficar em casa porque eram as educadoras dos meninos.

 

Por que é que diz que isso é uma bestialidade?

Porque os pais também são educadores, também têm responsabilidades educativas. E a mãe, para educar, não precisa de ficar em casa. Pelo contrário, se fica em casa tem pouco mundo e transmite pouco mundo aos filhos. A mulher deve trabalhar e deve sair para poder trazer o mundo para casa. Um psicanalista francês com quem trabalhei, um tipo inteligente, também insistia nisso: dizia que a mãe ficava em casa e o pai trazia a realidade, era o representante da realidade.  

 

É sobretudo um tempo. A maneira como os nossos filhos e os nossos netos são educados é muito diferente daquela como os nossos pais e os nossos avós foram educados.

E o pai também é cada vez mais presente como educador. Mesmo a sociedade portuguesa avançou. No tempo em que era professor na faculdade de Psicologia, a maior parte dos meus colegas referia-se aos alunos assim: “No nosso tempo é que havia bons alunos, agora não estudam, não querem saber”. A minha percepção é muito diferente. Os alunos actuais são muito mais interessantes, cultos e curiosos do que os do meu tempo. Ainda estamos muito presos ao in illo tempore passado.

 

A pretexto do mar falou de preferirmos a repetição e a segurança e de arrojarmos pouco. Que outras características identificaria como sendo dominantes nos portugueses?

Portugal é e sempre foi um país pobre. Não é um país com grandes recursos naturais. Isso fez de nós nómadas, viajantes, andámos à procura de coisas melhores. Se entrarmos de carro ou de comboio em Portugal, vindos de Espanha, e de avião ainda se vê mais, vêem-se pedregulhos, terrenos incultos. Isto não nos permitiu virarmo-nos para nós próprios, desenvolver as nossas próprias capacidades, ver os nossos próprios recursos.

 

A Suíça também não tem grandes recursos naturais. É certo que a Suíça é uma construção recente e nós somos um país com quase nove séculos.

Era um território de passagem. Nós não somos um sítio de passagem. As pessoas vêm e atracam aqui. Temos uma posição estratégica extraordinária e não explorámos isso suficientemente.

 

A Suíça, a Alemanha, países do centro da Europa, têm uma enorme capacidade de se reconstruir. Nós temos um adiamento sucessivo desse projecto que é refazermo-nos, reeducarmo-nos, florescermos. Concorda com isto?

Talvez, mais nos últimos 100 anos. Somos um país pouco virado para o futuro. Recordo-me que no tempo do Salazar veio cá um ministro do Franco, que foi recebido no aeroporto por um ministro do Salazar. O ministro espanhol fez uma discursata dizendo que Espanha estava no bom caminho, a montar indústrias novas, a abrir o comércio com norte de África; o ministro português respondeu-lhe de uma forma pataroca, que vinha nos jornais no dia seguinte, num discurso inflamado: “Portugal pode não saber para onde vai, mas sabe como veio e onde está”. Claro que isto era numa altura diferente, mas estamos demasiado presos às glórias do passado. Mudámos pouco.

 

Mudamos pouco porque não temos confiança em nós próprios? Estamos a falar das coisas de que os seus pacientes falam?, do medo, da falta de auto-estima.

Há outra coisa de que temos que falar: de países protestantes e de países católicos. Os protestantes são mais rígidos, mas introduzem mais mudança; aliás, produziram uma revolução dentro do próprio cristianismo. A religião católica é muito mais conservadora do que a protestante.

Um exemplo que conheço bem: a Psicanálise tem sofrido mudanças importantes principalmente nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Alemanha; nos países latinos, muito pouco, em França estão cristalizados, mais do que nós. Isto tem que ver com a cultura religiosa.

 

A religião contamina tudo, a maneira como estamos em família, como socializamos, a maneira como encaramos o trabalho, a vida. Que traços identificam a nossa matriz cristã?

Somos um povo que acredita facilmente em qualquer coisa. Quando se vai a congressos internacionais nota-se que quando aparece uma ideia nova, os franceses, os italianos, ficam surpreendidos e desconfiados. Os ingleses, os alemães, mais os americanos, ficam curiosos, têm maior apetência pela mudança. Perante o novo e diferente, temos sempre uma dupla atitude: por um lado receio e por outro lado fascínio. Quando somos mais doentes, predomina o receio, quando somos mais saudáveis, predomina o fascínio. Nós estamos mais do lado doentio.

 

Lidamos mal com o conflito e com a interpelação? Porque é que o outro discordar de nós é sentido pelos portugueses como uma forma de afrontamento, de intimidação? Tudo é demasiado pessoal.

Confirmo isso. Se fizer uma pergunta a um conferencista, discordando dele, num congresso em Portugal sou acusado de ser agressivo. Se for num congresso internacional, isso é completamente aceite. Aqui somos muito narcísicos, ficamos logo ofendidos. Discordar é ofender o outro.

 

Isso é um traço de narcisismo?

É, não aceitamos bem que o outro discorde de nós, sentimos isso como uma diminuição.

 

Como é que ficamos menos vulneráveis, menos narcísicos? Como é que aprendemos a lidar com a crítica e aquilo que sentimos como sendo a agressividade do outro?

A causa psicológica assenta num sentimento de inferioridade. Se a pessoa se sente inferior, qualquer discordância do outro é sentida como uma ofensa pessoal. Se está consciente da sua capacidade, se não tem complexos de inferioridade…

 

Como é que se trabalha este sentimento de inferioridade? É uma coisa importante na maneira como interagimos com o colectivo.

Começa na família e depois na sociedade em geral: os portugueses tornam-se autónomos muito tarde. Por razões financeiras e por razões culturais. Mesmo nos anos 60, em que se vivia relativamente bem, as pessoas saíam muito tarde de casa. É-se muito ligado à família de origem. Desde pequeno há uma cultura de concentrar, proteger, e não de fomentar a autonomia.

 

O que podemos extrair disso é a ideia de que todos juntos somos mais fortes? É por isso que devemos permanecer no espaço da família, resguardados? Por que é que não se incentiva a independência?

Vem da geração anterior. Os pais têm dificuldade em promover a independência dos filhos, sentem isso como uma perda da influência deles. Vê-se também ao nível pedagógico; a maior parte dos professores, se um aluno tem ideias diferentes das dele sente isso mal; gosta que o aluno copie as ideias do mestre. Não gostamos de ser contestados pelos mais novos.

 

Isso é considerado uma insolência. Temos um ditado que traduz isso bem: “Já a formiga tem catarro”.

Pois é, mas não devia ser. Os mais novos trazem ideias novas.

 

Então, somos inseguros, tememos perder a influência, que o outro saiba mais. Somos imaturos?

Suponho que temos uma circunstância cultural que não facilita a maturidade. No meio disto há pessoas que conseguem amadurecer, mas o ambiente não é facilitador dessa autonomia, dessa coragem, dessa vontade de inovar, de explorar, de ser diferente.

A progressão das pessoas e das sociedades depende das pessoas que estão na posição dos mais velhos – do animal alfa. Daquele que tem mais poder, mais conhecimentos, mais história. Não são os animais ómega, as crianças, que são menos audazes; são os pais que não lhes facilitam essa audácia. Somos uma cultura muito ligada aos sistemas de poder. [Numa hierarquia], a pessoa que está numa posição superior deve ser a mais responsável, não a que tem mais poder. Em relação à guarda e ao cuidado com as crianças, só há pouco tempo [a designação] mudou de poder parental para responsabilidade parental. Na Suécia, há mais de 50 anos que é assim.

 

Mas a seguir tornamo-nos nós nos mais velhos e replicamos o que vem de trás.

Isso é. Ficamos ligados às pessoas do passado, aos pais, aos avós, à primeira namorada. Somos o povo da saudade.

 

Ao mesmo tempo, temos a ideia de que a nossa identidade é constituída pela nossa memória e pela nossa história. O passado é aquilo que fomos e fizemos, é aquilo de que somos feitos.

Mas da nossa identidade, nesta minha teoria idiomórfica, faz também parte aquilo que construímos e imaginamos, segundo os nossos anseios, antecipações, projectos.

 

Essa construção e esse desígnio correspondem a um sair da casa dos pais, a uma libertação das referências do passado?

A evolução natural é mais pela conquista do que pela perda. Há tempos ouvi um colega meu que dizia que a adolescência era um período terrível, em que se tinha de fazer o luto da infância, uma série de lutos. Respondi-lhe dizendo que nunca vi os adolescentes vestidos de preto. Conquista-se autonomia, capacidade de decidir por nossa conta. O que nos deve entusiasmar é aquilo que não sabemos, não aquilo que sabemos. O verdadeiro cientista põe perguntas e tem poucas respostas, interessa-se por aquilo que não sabe e que quer descobrir, não por aquilo que já sabe.

 

Na adolescência, aliada a uma curiosidade e a uma turbulência instigadora, temos uma coisa preciosa: a rede, que sabemos que está lá para o caso de cairmos.

A adolescência é um período de autonomia assistida. Mas aí, mais uma vez, a geração dos mais velhos, aceita mal. “Se quiseste sair de casa, agora aguenta-te”. Há uma certa dificuldade em deixar partir e ficar como reserva de retaguarda.

Isto levanta outra perspectiva, que é a dificuldade de aceitar a morte. Não aceitamos a nossa decadência, temos de manter os filhos dominados. Permitir a liberdade dos filhos é sentir que já não estamos cá a fazer nada, que somos menos úteis. Somos o primeiro animal que tem consciência da finitude da existência, os outros têm medo da morte imediata. Só há um processo para ultrapassar aquilo a que chamo a angústia essencial, a angústia [que resulta da] consciência de que temos um prazo (apesar de nunca se ultrapassar totalmente, transcende-se um pouco isso): realizando alguma coisa, uma obra, transmitindo cultura.  

 

São pouquíssimos os casos de pessoas que acham que não se realizam através dos filhos e dos percursos dos filhos.

Ter gosto que o filho progrida é normal e saudável. Ter gosto que o filho continue a obra do pai, que seja médico como o pai, que trate da quinta como o pai tratava, ou que siga o mesmo partido político, que tenha as mesmas ideias sociais, é um disparate. Porque não permite a evolução. A evolução faz-se por fracturas. Há duas ideias sobre o progresso; há a ideia de que o progresso se faz na continuidade – acrescenta-se àquilo que já se sabe, na mesma linha, um exemplo disso era a evolução na continuidade do Marcelo Caetano; e há outra ideia de progresso, que é por ideias fracturantes. Sou apologista desta.

 

Para que haja uma revolução.

Sim. De facto, sou revolucionário. Há uma diferença entre revolução e revolta. Por vezes há apenas revoltas, mas depois volta tudo ao mesmo. Explosões de raiva. Com a revolução, as coisas não voltam ao mesmo sítio. Há aquela célebre expressão do ministro do Interior de Luís XVI, quando foi a tomada da Bastilha no início da Revolução Francesa: “Não é uma revolta, é uma revolução! Isto não vai ficar aqui”.

 

Há outra frase famosa no filme O Leopardo: “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”. É o oposto.

As revoltas muitas vezes são isso: dão-se uns tiros, matam-se umas pessoas e depois tudo volta ao mesmo. Mesmo na área científica, as grandes mudanças são revoluções. São “a mudança de paradigma” de que o filósofo [Thomas S.] Kuhn falava.

 

Insisto: o que é que tememos tanto nessa mudança de paradigma? Se quisermos levar isto até às últimas consequências, temos medo de desaparecer, de ser engolidos?

Insegurança, incapacidade de gostar do novo e do diferente. Há uma entrevista muito bonita de um professor de Física Teórica, brasileiro, um homem de 50 e tal anos. Às tantas diz: “Repare, o que é bonito não é o que é simétrico, regular. É o que tem assimetria, pequenos defeitos”. Tudo é impermanente, tudo é incerto, tudo é imperfeito. É isto que nos deve atrair. As pessoas mais conservadoras querem o permanente, a certeza, o perfeito.

 

Somos um povo conservador?

Não é só Portugal. A cultura europeia é mais conservadora, pelo peso da história, do que a cultura americana. Os brasileiros são muito mais abertos à novidade do que nós. É um fenómeno das culturas mais antigas que estão mais presos à história do que aqueles que têm uma história menor e que evoluíram mais depressa.

 

E somos um povo deprimido? Tem investigado especialmente o tema da depressão.

Há dois tipos de depressão: a depressão normal e a patológica. A depressão é sempre uma reacção, frequentemente diz-se que é à perda, mas eu penso que é à derrota. Perante a derrota todos nos deprimimos, ficamos mais abatidos, com menos iniciativa, menos motivados para fazer coisas. Na depressão normal isto é acompanhado por um sentimento de revolta. Na depressão patológica o indivíduo resigna-se. Quando não se culpa a si próprio. É o que estão a fazer com esta crise actual: a culpa foi nossa, e aceitamos [que assim seja].

 

Somos os da depressão patológica e os gregos são os da depressão “normal”?

Sim. Resta saber se eles são capazes de ultrapassar a fase de revolta e ir para uma revolução para mudar o sistema. É um escândalo aquilo a que assistimos, a nível mundial. Estas ajudas que se oferecem aos países periféricos, dizem eles, não são ajudas nenhumas; emprestam-nos o dinheiro e depois pagamos com um juro brutal.

É um pouco o que se passa no amor parental. Há um amor parental saudável, que é incondicional, que não está à espera de retribuição. E há um amor parental condicional: “Gosto muito de ti, meu filho, se prometeres proteger-nos, se não te esqueceres de nós”. Esse amor condicional é o que nos estão a fazer os países centrais, a Alemanha, a França. “Depois vocês compram os nossos automóveis e devolvem o nosso dinheiro com juros”.

 

Essa narrativa vingou porque inculcámos a ideia de que fomos os responsáveis pela crise. A verdade é que gastámos acima das nossas possibilidades.

Mas isso também nos foi facilitado por eles. As pessoas consumiam demais porque os bancos forneciam dinheiro barato com hipotecas fáceis.

 

Caímos num logro?

Sim, caímos na ilusão.

 

Na ilusão de que seríamos ricos como os outros, que viveríamos bem como os outros?

Pois, e que não precisávamos de trabalhar. Aproveitámos mal. Os primeiros subsídios que vieram da União Europeia foram aproveitados para fazer grandes estradas, algumas para sítio nenhum. Houve responsabilidades de um lado e do outro. Não nos ensinaram que devíamos gastar aquele dinheiro de outra maneira.

 

Falamos de Portugal como um filho a quem a educação não foi bem dada. Não nos ensinaram a gerir bem o dinheiro, não nos ensinaram a ser produtivos, não nos ensinaram a ser adultos e responsáveis. Mas estes que não nos ensinaram são a nossa família, os nossos antepassados.

O que não temos tido é governantes políticos à altura, nunca tivemos, pelo menos desde o pós 25 de Abril, e antes pior ainda.

 

Somos um povo dúplice, temos características muito contraditórias. Se por um lado somos pacíficos – os famosos brandos costumes –, revoltamo-nos pouco, por outro lado a agressividade há-de aparecer de alguma maneira… Como?

Mais passivos, mais agressivos… Uma das coisas que não se cultivam em Portugal é a coisa intermédia, a afirmação pessoal, aquilo a que os psicólogos gostam de chamar assertividade. A agressividade é uma coisa mais destrutiva. Na afirmação pessoal, na defesa dos interesses próprios, dos direitos de cada um, somos muito fracos. Se a pessoa se afirma, é sentida como agressiva.

 

A própria assertividade é considerada uma forma de agressividade. Onde é que o clínico põe as fronteiras? O que é uma pessoa passiva, o que é uma pessoa assertiva e o que é uma pessoa agressiva?

Posso dizer como costumava explicar aos alunos, servindo-me do exemplo da potência sexual. Uma coisa é ser impotente, outra coisa é ser omnipotente. O que é normal é ter a potência necessária, suficiente para a tarefa que se vai realizar. Num homem, ter potência sexual quando vai com uma mulher para a cama, está certo. Ficar em erecção enquanto está a conduzir um automóvel só serve para perturbar a condução. Se tenho que levantar um peso de um quilo não preciso de contrair os músculos todos.

 

Acha que somos de pavio curto, fervemos em pouca água?

Não sei se como povo seremos isso. Mas é uma característica de pessoas que têm sentimentos de inferioridade e de impotência, fervem em pouca água. Quando se tem uma maior afirmação pessoal, um maior sentimento de competência não se ferve em pouca água.

 

Também parece que estamos sempre enredados numa mesma narrativa. Temos dificuldade em olharmo-nos de fora e perguntarmo-nos de uma outra maneira.

Alguém dizia que o infortúnio da pergunta é a resposta [riso].

 

Mas há uma resposta da qual precisamos: como é que saímos desta crise, como é que vivemos melhor. Quando as pessoas o procuram querem viver melhor, não aguentam viver mais em depressão, em sofrimento.

Às pessoas deprimidas, que tentam suicídios, que não suportam a vida, uma das respostas que dou é: “O que você não suporta é a vida que leva, aquela que tem, porque é de facto insuportável. Isso não é a vida”. As pessoas mais imaturas, e nós, o colectivo, não pensamos num futuro a longo prazo, pensamos num futuro a curto ou médio prazo. É preciso pensar a longo prazo para organizar as coisas bem.

 

Por que é que somos tão pouco persistentes? No fundo, quando nos ocupamos do curto prazo, isso quer dizer que, ou não temos a persistência ou não temos a organização necessárias.

Uma das razões é porque acreditamos na Virgem. Acreditamos sempre que nosso Senhor ou a Virgem fazem milagres, que o Estado ou os papás vão resolver a situação. Acreditamos sempre que vem qualquer coisa que nos salva, que não o nosso esforço, o nosso trabalho, a nossa intervenção.

Somos educados na base da religião a sermos adaptados, a obedecer ao pai, ao chefe, ao polícia, a Deus, e a não interferir no meio.

 

Gostaria de explorar o tópico da nossa relação com a autoridade e com o poder. Somos uma gente treinada para obedecer, esse é um dos nossos traços mais evidentes?

Sim, somos um povo masoquista. Há duas grandes instituições que fazem estagnar as sociedades, a Igreja e as Forças Armadas (Freud falou disto em 1923). São instituições conservadoras e que se baseiam em obediência. Quando o chefe disser: “Atira-te para a frente”, as pessoas vão sem pensar. Na Igreja é a mesma coisa, todos de joelhos quando se levanta a hóstia.

 

Somos dados à transgressão?

Somos um povo obediente, e como a obediência não se pode conservar sempre, somos de transgressão clandestina. Transgredimos na sombra. Achamos que devemos pagar os impostos, mas fazemos tudo para não os pagar. Nos países nórdicos, de uma forma geral, as pessoas pagam os impostos porque têm consciência de que são utilizados de uma forma útil para todos. Aqui são utilizados para o BPN e outras coisas assim. Compreende-se que depois não apeteça pagá-los. É um ciclo vicioso.

 

Um ciclo viciosos que só se interrompe com uma revolução?

Sim, com uma mudança drástica.

 

Como é que reconhece imediatamente uma pessoa autoritária?

Não sei. Estou a lembrar-me de um caso que tinha, de um psiquiatra distinto, que se descrevia como um tipo muito generoso, nada autoritário. Eu notava que não era nada disso. Ele estava convencido que era um tipo muito inteligente, e era-o, mas não tanto como julgava; e docemente impunha sempre a sua vontade, quer na família quer no trabalho. Uma coisa que acontecia quase sempre é que eu fazia uma interpretação e ele dizia: “Estou de acordo consigo, mas...”. Um dia disse-lhe: “Já reparou que tem sempre que me provar que é mais inteligente que eu? Sempre que faço uma interpretação, a maior parte das vezes concorda, mas acrescenta sempre qualquer coisa. Para me mostrar que vai mais longe que eu”. Só aí é que ele percebeu esta omnipotência. A última palavra estava sempre do lado dele. Também me lembro de um colega psicanalista que não tinha opiniões, só convicções. Nunca dizia: “Penso que”, só dizia: “É assim ou assado”. Uma vez disse-lhe, ele até ficou zangado: “Não tens opiniões sobre nada, só tens convicções”. Isto é o núcleo do autoritarismo: está convencido de que a única verdade é a sua e mais nenhuma [é válida].

 

Isso é capaz de ser o primeiro elo da cadeia, mas logo a seguir vem submeter os outros, dominar os outros. Se a verdade é só uma, os outros têm de se submeter. Políticos autoritários, são quase todos?

São. O Mário Soares dá a volta, acaba por fazer o que quer. Mas em todo o caso tem um toque pouco autoritário. Como Presidente da República, uma vez recebeu-me oficialmente e quando vim embora acompanhou-me ao carro. “Senhor Presidente…” “Sou o anfitrião, a minha obrigação é acompanhar as visitas”. É a capacidade de ser chefe. Poucos o fariam.

 

E um marcadamente autoritário?

O Cavaco. Porque fica fixado naquelas posições, porque tem um medo enorme que o ponham em causa. Isto de não ter ido à escola [onde o esperava uma manifestação] é um exemplo. O autoritário tem muito isto, não permite que alguém o critique, que duvide da sua supremacia.

Em 1980, na faculdade de Psicologia, uma aluna disse-me no fim de uma aula: “O professor tem uma coisa a que aqui não estamos habituados: fazemos uma pergunta e muitas vezes responde que não sabe. Os outros dizem sempre qualquer coisa”.

 

Também já disse algumas vezes na entrevista que não sabia responder.

Talvez. Somos muito narcísicos e frágeis nesse aspecto. Não admitimos ser postos em causa.

 

Somos um povo deprimido? Ou estamos deprimidos?

Estamos deprimidos porque estamos em perda, em perda económica; a perda é sempre uma causa importante da depressão. E porque sentimos que estamos a ser tratados injustamente.

 

Tendencialmente, somos deprimidos?

Houve momentos em que não fomos um povo deprimido, mas na maior parte dos momentos históricos fomos. Não fomos um povo deprimido nas conquistas da primeira dinastia, na [aventura] expansionista, no tempo das descobertas. Fora isso, fomos um povo que perdeu quase sempre.

 

Ao mesmo tempo com um lado garboso, amável. Podemos dizer o pior de nós próprios, mas quando nos sentimos ameaçados, tal como numa família, não admitimos uma palavra mais acintosa.

Temos motivos para ser garbosos, para essa auto-estima. Temos factos importantes na nossa História, temos uma produção artística, literária importante, uma língua que se expandiu bastante para o tamanho do país. Mas fomos sempre um país mal governado.

 

E muito desorganizado, todos dizem. Por que é que temos tanta dificuldade em interagir com o outro de um modo organizado? Por que é que temos este individualismo?

Somos um país que não passou pelo feudalismo, pelas organizações em pequenos grupos. Fomos sempre um país de poder central, comandados pela corte, e o resto eram escravos. A nobreza portuguesa nunca teve grande força, a não ser a que vivia na corte, ou à custa da corte, como dizia o Francisco Sousa Tavares. E não fizemos a revolução industrial.

 

Se este país se deitasse no divã tinha emenda? O que é que precisaria, mais que tudo, de trabalhar?

Tinha de ter tempo e espaço para poder crescer por si próprio sem se apoiar noutros. A Psicanálise é uma auto-análise assistida, o analista só dá uns toques, o paciente é que faz a análise. Como num parto. Quem faz o parto é a mulher, a parturiente; o parteiro interfere se houver alguma coisa, se tudo correr bem não faz nada. Facilitar o crescimento pessoal, a auto-determinação, a identificação idiomórfica, segundo o seu próprio plano, o seu próprio projecto, e não seguir ideias do analista ou de outra pessoa qualquer. Sou a favor da imigração, de que as pessoas se movam, se cruzem. E sou a favor da depressão normal, com revolta e revolução! Devemos zangar-nos com os tipos que nos fazem mal.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2012

 

Ao Brás Cubas (que nasceu no mesmo dia que eu)

20.10.18

Nasci no mesmo dia de Brás Cubas, o personagem criado por Machado de Assis no final do século XIX.

No Rio de Janeiro é sempre calor quando Outubro vai alto, as magnólias floriram e os grilos zumbem às três da tarde. Mas quando penso em Brás Cubas não consigo pensar nessa estação em que tudo vivifica e o simples olhar a mata da Tijuca nos instala no milagre. A estação de Brás Cubas, a que vai com a flor “amarela e mórbida da melancolia” que o infecta, é a do Outono. O Outono que temos aqui, sob a forma de doce fim de Verão, em Lisboa, e de prenúncio de Inverno em Trás-os-Montes (cedo as árvores ficam nuas, varridas por um vento agreste). É ali que vivo, foi aqui que nasci (perdoem a frase desconjuntada).

Olho o Outono de Lisboa e ele não parece o Outono do tempo em que eu era criança. Parece-se mais com o Outono de Brás Cubas. Talvez o sentimento de fim de vida de Brás Cubas se pareça mais com o do Outono transmontano.

Lembro-me de identificar o Outono como o começo do ano por ser nesse tempo que tinham início dois ciclos importantes da minha vida: o escolar e o meu aniversário. Janeiro é uma maçada. Ainda sou contra Janeiro. Excepto (n)o Rio de Janeiro.

Muito antes de ler Machado de Assis e de me olhar com espanto na vida de Brás Cubas (vá, em frases inteiras da vida de Brás Cubas), eu já devia muita coisa aos escritores e aos seus livros e aos seus personagens. A minha dívida posta numa linha: sinto-me menos perdida quando me encontro reflectida no espelho. Mesmo que ali reflectida esteja a imagem de um personagem e não exactamente a minha.

Quando me acho naquele enredo – um achamento, neste caso, “no” Brasil – por instantes, e por causa da ficção, a realidade fica menos esdrúxula. Não é pouco.

Nunca me tinha cruzado com Brás Cubas quando li o verso de Ruy Belo que diz que “É triste no Outono concluir que era o Verão a única estação”. Brás Cubas poderia tomá-lo como seu  porque vive desfasado do tempo, de um projecto, do seu momento. Vive a sucumbir.

Era um homem que prometia ser tudo e que acaba confessando: “Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada!” Viveu uma vida sem grandeza, acabou preterido por um que “não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura”.

O “caro Borba” é Quincas Borba, o amigo de sempre, com quem mira, como se mira um filme, da plateia, a esperança de outrora e a realidade do presente. Ou seja, olham para tudo o que lhes era prometido e para a ruína das suas vidas, carcomidas como as árvores. No Inverno. 

Ouço muitas vezes dentro de mim a música de Brás Cubas. Os seus passos, os delírios, o êxtase, a frustração. A flor viçosa de tudo o que promete ser. A flor da melancolia. O olhar da plateia (no caso do personagem de Machado de Assis, ele faz-se enquanto defunto – ideia excêntrica! – e por isso o título, Memórias Póstumas de Brás Cubas).

Olharmo-nos de fora, esse dificílimo exercício de ubiquidade, já se sabe que não é fidedigno nem isento. Podemos olhar para quem fomos, para quem vamos sendo, para o legado que deixamos. Convém ir olhando. Mas não olhar sempre.

O exame de Brás Cubas é impiedoso:  “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Eu valorizo o seu destino errático, a sua demanda pelo sentido, o não se tratar com condescendência. Gostaria de aprender isto com ele.

Enquanto isso, quero continuar a fazer viagens à roda da minha cabeça, à roda da cabeça de outros. “De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida”, escreveu Machado de Assis no prólogo da quarta edição.

A vida roda, e uma árvore passa pelo vento e pelas cores que prometem um futuro. E de novo, e de novo. E nós com ela.

 

 

Publicado originalmente na revista Os Meus Livros, editada pela Bertrand, em 2013

 

 

 

 

Berlim, cidade dos anjos

18.10.18

Começo por Potsdamer Platz. É um aglomerado de edifícios cuja arquitectura fere por ser tão exuberante. Não há vestígios do tempo (recente) em que esta era uma terra de ninguém. Nem do outro, mais longínquo, em que era uma das praças mais animadas da Europa, com os primeiros semáforos, automóveis e eléctricos. No cruzamento de linhas há hoje um pedaço do Muro, com inscrições nas duas faces – uma referência que serve a curiosidade dos turistas que querem saber onde acabava a Berlim Ocidental e começava a Oriental. Ver o muro de um lado e do outro, circundá-lo, parece o mais simples dos caminhos; e contudo, é o resumo de uma impossibilidade que se desfez.

Quando Wim Wenders filmou «As Asas do Desejo», o mundo terminava no Muro. Em 1987, dois anos antes do desmoronamento de um tempo, o realizador não podia prever a reunificação das duas Alemanhas e, sobretudo, que a topografia que o filme registava estava na iminência de desaparecer. Uma das cenas mais tocantes do filme é, justamente, quando um velho, narrador da História, vagueia por um imenso descampado, onde não existe nada, senão a sua memória do que ali se passava. Ele procura: «Não consigo encontrar a Potsdamer Platz, isto não pode ser Postdamer Platz». “Isto” é a terra devastada que percorre, ao mesmo tempo que lembra que ali, no centro fervilhante da Potsdamer Platz, ficava o Café Josty, onde à tarde se conversava e observava o público, e se fumava o tabaco comprado numa tabacaria de renome. «Não desisto enquanto não encontrar Potsdamer Platz».

Chego à Potsdamer Platz à hora de almoço. Talvez seja excessivo dizer que me parece um olho de vidro incrustado num lugar onde antes se via de verdade. Mas a Potsdamer é mesmo uma cidade de vidro que tem no centro o complexo Sony (a sede europeia é aqui), do outro lado da rua o edifício DaimlerChrysler, um centro comercial, um casino, a maior sala de espectáculos de Berlim, 17 salas de cinema e uma escultura de Jeff Koons dedicada a Marlene Dietrich (é uma flor azul fosforecente, como ela foi no cinema). O investimento que reconverteu a praça foi de 17 mil milhões de euros. Em nenhum outro lado se construiu tanto nos anos 90. Porque é que nada disto me espanta?

À hora do almoço, a Potsdamer está razoavelmente vazia. O Café Josty – outra incrustação, desta vez no interior na Praça Sony – tem uma esplanada pindérica e uma família a comemorar o facto de estar na esplanada do Café Josty, onde à tarde se conversava e fumava tabaco de renome.

Prefiro o café que fica no rés do chão do museu do cinema e que se chama Billy Wilder. A amostra não podia ser melhor: fotografias pelas paredes imortalizavam Charles Laughton e Marlene em «Testemunha de Acusação», Audrey Hepburn em «Sabrina», Shirley MacLaine, de meias verdes, em «Irma la Douce». Havia até um cocktail chamado «Sunset Boulevard». Mas a menina que me atendeu não tinha ideia sobre quem era Billy Wilder. Virei as costas ao “Willkommen, willkommen” da Potsdamer Platz e segui para o Monumento ao Holocausto, muito perto dali.

 

Se à época existisse, Wim Wenders teria escolhido este espaço para o encontro e desencontro de pessoas de carne e osso. É um labirinto ondulante, composto por 2700 blocos de pedra, que assinalou os 60 anos do fim da Guerra. Não há neles qualquer referência aos milhões de judeus que morreram naqueles anos – vozes discordantes criticam o facto de ser um memorial demasiado abstracto... Nem há nesta sequência uma ideia de pedras tumulares. O arquictecto americano que o criou gosta de pensar nele como espaço intregrante da vida dos berlinenses. Peter Eisenman preferia que fosse usado para encurtar caminho, por exemplo, mais do que “uma experiência sagrada”.

A minha primeira experiência foi arrepiante. Era quase escuro quando mergulhei no labirinto. À superfície vê-se uma sucessão de pedras desiguais, mas não se percebe que há um afundamento a seguir. Não se percebe que se cai no abismo (no horror de que somos capazes?). Podemos seguir o caminho que quisermos e fazêmo-lo com segurança, porque não temos dúvida de encontrar a saída, de nos salvarmos a qualquer instante. O que tornou a minha passagem sagrada foi o som de um violino que distingui ao fundo, e que me fez procurar por entre as pedras o ponto exacto de onde ele vinha. Era um som tristíssimo, que chamava e contagiava. Quando o encontrei, vi um jovem, parado, com uma criança que teria dois anos nas suas costas. A criança olhava para o céu de chumbo e o som era cada vez mais pungente. A perfeição daquele momento levou-me novamente ao filme de Wenders, à perseguição da inocência. Quase estraguei tudo quando lhe perguntei se o podia gratificar. Mas ele era apenas um rapaz americano, judeu, que prestava tributo à sua gente, e que, findo o prazer da música, enfiou o violino na caixa e partiu.

No dia seguinte, dia claro, voltei a mergulhar no Memorial. Devia escrever “atravessar” em vez de “mergulhar”, porque usei-o como atalho para chegar ao outro lado da praça.

Esta experiência, (corriqueira, mas sensorial), estaria vedada aos anjos de «As Asas do Desejo». Recupero um diálogo maravilhoso entre Damiel e Cassiel num descapotável que está para venda. «Mas às vezes farto-me desta existência de espírito. Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à terra. Sentir o agora, jogar cartas, ser cumprimentado, nem que fosse com um aceno, chegar a casa cansado, ter febre, ficar com os dedos sujos de ler o jornal. Supor em vez de saber sempre tudo. Comer borrego assado e beber vinho, sentir os pés descalços. Poder dizer “ah, oh”». Estes anjos querem experimentar o espanto, provar o sabor do café quente, sentir o vento frio na cara.

 

Há vinte anos, o realizador alemão Wim Wenders vestiu os seus anjos de sobretudo e pôs-lhes o olhar nostálgico de quem perde o caminho e se quer achar. A Berlim que então filmou já quase não existe. Persistem os fragmentos da vida de todos os dias: a discussão conjugal, a família árabe com crianças no banco de trás, aquele que no metro se preocupa com questões prosaicas, “Como vou pagar, com a pensão pequena que tenho...?”, aquele que se ocupa de questões existenciais, “Porque estou vivo?”. Ou aquele que se esvai em sangue, depois de um acidente, e enumera o que deixa por fazer ou aquilo por que vale a pena viver: “O cruzeiro do sul, Stromboli, as casas antigas de Charlottenburg, Albert Camus, a luz da manhã, nadar na cascata, os olhos da criança, o saltitar, os nervos das folhas, o ondular da erva, a paz do domingo, andar de bicicleta sem mãos, a bela desconhecida, o meu pai, a minha mãe...». Há uma parte de «As Asas do Desejo» que ficará para sempre, por mais que a cidade seja reconfigurada. Aquela que diz respeito à procura, à densidade que é própria do humano.

Todo o filme se passa na Berlim ocidental, erguida sobre os escombros da Guerra. Todos estamos ainda incrédulos_ como foi possível? A banalidade do mal doi. Se o povo alemão não fosse tão perseverante, tão organizado e tão rico não seria possível reconstruir a cidade em 60 anos, e agora, depois da queda do Muro, em 18 anos. Há nos mercados de rua vestígios dessa passagem do tempo e da abertura ao leste: candeeiros da Bauhaus a 70 euros, casacos de vison a 900 euros, mobiliário “vintage” em óptimo estado, talheres em prata, mapas antigos, medalhas e distinções militares (abundantes). Pergunto pelas obras de Marx e Engels e o alfarrabista diz que desapareceram. Deitaram-nas fora! Deixaram de as querer, de as procurar, de qualquer associação com esse tempo e o que isso produziu.

 

Não é só pelo desconhecido que a parte leste é a mais extraordinária de Berlim. Lá se conserva um tempo, austero, apesar de todos os sintomas da mudança. São muito visíveis os buracos das balas, as fachadas reconstruídas. Vem à memória a imagem do filme de Wenders quando uma mulher sacode o edredon na casa esventrada...Em Berlim, as pedras têm vida. Também há no lado ocidental avenidas praticamente refeitas. O tamanho da destruição percebe-se em coisas tão simples quanto: em dez casas, oito foram feitas de novo. E há a catedral a que os berlinenses chamam “dente furado”, a Kaiser-Wilhem, bombardeada em 43 e mantida tal qual. Mas na Berlim Oriental o tempo fechou-se sobre si e o mundo fechou-se em torno da ideia soviética de mundo.

Hoje, a zona oriental está transformada num centro nevrálgico, onde se instalam cadeias internacionais e artistas. É um novo mundo do qual se tem vontade de fazer parte. A par de Londres e Nova Iorque, Berlim é um ponto essencial no panorama da arte contemporânea. Noé Sendas, Filipa César, Rui Calçada Bastos, Nuno Cera, Gabriela Albergaria ou Adriana Molder são alguns dos portugueses que vivem em Berlim. Há um claro investimento do governo alemão na revitalização de Berlim como centro cultural europeu. E o custo de vida, ajuda. Um apartamento no centro de Berlim Oriental, com um quarto e uma sala custa cerca de 500 euros. Já não há existem os cabarés dos longínquos anos 20, cheios de fumo e luz difusa, embora tenha reaberto um dos mais famosos, com meninas vestidas a la Josephine Baker, para turista ver. Mas há o PergamonMuseum, com o colossal altar da cidade grega de Pérgamo, e as portas da antiga cidade de Babilónia – só para mencionar os “highlights”. Também há, num outro museu, o busto de Nefertiti, de uma elegância e beleza raras, que por si só justifica uma visita a Berlim. 

 

Passeio na Unter den Linden. Marlene cantou «Enquanto as tílias continuarem a florir na Unter den Linden, Berlim será sempre Berlim». A avenida, com tílias no corredor central, conduz à Porta de Brandemburgo – zona de fronteira onde a multidão celebrou a queda do Muro. Do outro lado, o Reichstag, (sede do Parlamento), é talvez o edifício mais visitado de Berlim. A renovação da cúpula, obra caleidoscópica de Norman Foster, atrai milhares de visitantes que esperam estoicamente, mesmo em dias de chuva miudinha, para subir uma rampa espelhada e ver uma boa parte de Berlim.

De um lado e do outro da Linden, há museus onde apetece passar o dia, a ópera nacional, jogadores de vermelhinha, vendedores ambulantes de gorros de pelo, bicicletas e bancas de salsichas.

A Linden está para a Berlim Oriental como a Kurfürstendamm está para a Berlim Ocidental: amplas avenidas, modelo glamoroso importado de Paris, intensa vida comercial e empresarial. Peço ao taxista que me deixe na Walter Benjamin Platz – a obra do filósofo alemão foi uma das influências de Wenders na criação d’ «As Asas do Desejo» -, e é aí que começo a andar pela Ku’damm.

Termino com um dos mais belos espaços da cidade, infelizmente vedado aos não-sócios: a biblioteca estatal de Berlim (Staatsbibliothek), um projecto de Scharoun que dialoga com a Philarmonie, do outro lado do passeio. (Deixaram-me entrar quando me apresentei como jornalista e expliquei estar a refazer o circuito do filme). São edifícios de cortar a respiração, integrados no Kulturforum, um complexo que inclui, também, museus como a Gemäldegalerie (colecção soberba, com Ticiano, Vermeer, Caravaggio...) ou a Neue Nationalgalerie, desenhada por Mies van der Rohe.

No filme de Wenders, uma longa sequência dá a conhecer esta biblioteca. Tenho alguma dificuldade em descrevê-la... Talvez me aproxime se disser que o espaço me pareceu, como n’“As asas...”, metáfora do tempo babélico que vivemos, de palavras cujo significado mais íntimo se esqueceu ou não se chega a compreender. E, ao mesmo tempo, da potencialidade absoluta contida nas palavras, da memória como núcleo da identidade, repartida por mil pessoas e mil livros.

Os diferentes espaços da biblioteca estavam ocupados por sócios. Depreendi que fossem, em grande parte, alunos de doutoramento, que anotavam, escreviam no portátil, “scannavam”, fotocopiavam. No filme, há 20 anos, ainda não se usavam os computadores, e todos estão recolhidos na leitura, no pensamento. Por entre os leitores, reconhecemos os anjos, que velam por eles. E no andar de cima, como eu previra, a partir do filme, estão os globos onde o narrador da História procura quem o queira ouvir. Li algures que o seu nome é Homero. Invoca a Musa, esclarece que os seus ouvintes são agora leitores. Era ele que ao princípio procurava Potsdamer Platz.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2006

 

 

Kalaf Epalanga

17.10.18

Kalaf é esquisito. É aquele dos Buraka Som Sistema, a banda que está a bombar em todo o mundo. Poeta-cantor, imensamente cool, porte de quem vem do reino dos Ovimbundos, viajante. A melhor definição para dizer quem é e o que faz: agitador cultural. A esquisitice tem que ver com ser estas coisas todas, peças de um puzzle difícil de concatenar. E todavia, sim. Nasceu em Benguela em 1978.

Kalaf é um angolano de Benguela. Lançou recentemente um livro de crónicas de título provocador: O Angolano que Comprou Lisboa (por metade do preço). O CCB dá-lhe carta branca para fazer o show que quiser, dia 29 de Maio. Ele é o show. Não é provável que recrie os jardins do designer belga Dries van Noten, mas esse aroma, o das rosas, subtil, estará lá. Vão estar coisas que não se vêem mas que fazem parte de quem é, e desta viagem que se faz na entrevista. Vão estar sembas e kizombas, o que resulta de lugares onde se incubam ideias, espécie de estufa que frequenta e onde se inventa o mundo. É muito raro uma pessoa fluir entre assuntos e mapas, protagonistas e ficções com este movimento leve. Que nos faz crer que isto anda mesmo tudo ligado. Kalaf Epalanga é assim. (Esqueçam o Kalaf Ângelo: há uma história no nome Epalanga, que é por onde tudo passa. Epalanga não é um nome neutro.)

Pediu um arroz de pato porque estava cheio de fome. Quase não comeu. Trazia umas calças Dries.

  

Não me ocorre mais ninguém que numa frase conseguisse juntar o músico Terry Callier, o designer de moda Dries van Noten, o jornalista Rafael Marques, o político Rui Tavares, o activista Martin Luther King, que é o que posso fazer depois de ler coisas sobre si. É uma boa amostra de quem é?

Bastante. Podia acrescentar outros nomes fundamentais. [O escritor] James Baldwin, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade. E recentemente [o escritor e cronista] Ruy Castro, estou apaixonado por Ruy Castro. Tenho os cronistas em grande estima. Os brasileiros, então.

 

Porquê o seu fascínio pelos cronistas?

Porque a crónica ocupa um lugar na literatura que é um pouco periférico. Não é consagrada. O Miguel Esteves Cardoso é um grande cronista. O facto de serem muito atentos e assertivos nas análises que fazem, aproxima-os do mundano, do que é corrente, do que é agora. Gosto disso.

 

O sentido da urgência, do agora, é fundamental para si?

Sim. E também a ideia de memória. O cronista muitas vezes faz-nos viajar, mas o ponto de partida é sempre o presente.

 

Pode ser esse cronista, pode escrever este tempo e este lugar?

Só daqui a 20 anos teria substância suficiente. Estou em Lisboa há 20 anos. Mas a Lisboa realmente fascinante começou antes. Tem que incluir a Lisboa de [Fernando] Pessoa. A Lisboa de Almada Negreiros, de Almeida Garrett.

 

Tem a capacidade de estar em plataformas muito distintas. Se há coisa que está a acontecer em Lisboa é o cruzamento de linhas, que não há muitos anos não se cruzavam. Está num ir e vir constante. No espaço e no que faz.

Durante muito tempo, para facilitar a minha vida, dizia que era músico. Embora não me sinta músico. Trabalho com música, é o meu nine to five.

 

Porque é que a música é o nine to five? Normalmente é o depois das nove às cinco.

A minha vida mudou a partir do momento em que comecei a acordar às nove da manhã para estar no estúdio às 10h. A ideia de que os músicos só acordam às três da tarde é verdadeira. Mas o mundo não funciona a partir das três da tarde. Sempre que mandávamos um e-mail, eu e o meu cúmplice, o Branko...

 

(Branko?

O nome dele é Branco. Tem um daqueles nomes compostos. Para dar um swing, ficou Branko.) Estávamos a iniciar-nos nas lides da música. Se mandássemos e-mails de manhã, conseguíamos respostas às três da tarde. Quando mandávamos um email às três da tarde, as decisões passavam para o dia seguinte. Num dia de trabalho nine to five, consegue-se ser produtivo. Para nós era importante sermos produtivos e eficazes. Já nos bastava ser esquisitos [risos].

 

Defina esquisitos.

A nossa música é esquisita.

 

Está a pensar nos Buraka Som Sistema?

Em tudo o que fazemos na [editora] Enchufada, incluindo Buraka. Era extremamente esquisito. Não se fazia na altura. Muito poucas pessoas conheciam aquele género de música. Ouviam os singles e limitavam-se a isso. Pouca gente explorava os álbuns. Nós achávamos que os álbuns eram muito interessantes porque juntavam vários universos musicais, propunham coisas estimulantes. Insistimos muito que a kizomba, até mais que o kuduro, tinham um potencial de exportação.

 

O que é que faz a kizomba mais exportável?

Consegue casar melhor com o formato pop, com o formato canção, que se ouve na rádio a ir para o trabalho. O kuduro é essencialmente música de dança, e assim sendo está reduzida a um nicho. Os nossos discos sempre tiveram alguns apontamentos, algumas aproximações [a outros géneros]. A última aproximação, baptizámos de zuok bass.

O zuok é um primo da kizomba. É um ritmo das Antilhas francesas, é a kizomba que se ouve em Paris. Mas agora mudou-se para Lisboa um gigante do zuok francês, o congolês Kaysha. Lisboa transformou-se na capital da kizomba. Os músicos estão a mudar-se para cá. Nelson Freitas [músico holandês de origem cabo-verdiana] tem casa cá. A [cantora cabo-verdiana] Mayra Andrade está a considerar mudar-se para Lisboa.

 

Estava a dizer que a vossa música era esquisita.

Sim. Tivemos sorte no primeiro hit. O Yah!. Aquela canção conseguiu reunir toda uma comunidade de jovens. Toda uma geração que, não sendo do universo da kizomba, viveu exposta àquilo. De certa forma, reagiam contra, porque o kuduro, a kizomba sempre foi vazio, com pouca substância cultural. E nós, se calhar por estarmos envolvidos com toda essa coisa do Bairro Alto e da cena electrónica, abraçámos a fusão, o trazer a kizomba e o kuduro para o nosso mundo. Houve pessoas que reagiram bem. Logo na primeira semana tivemos enchentes. A seguir, a Red Bull fez uma coisa connosco nos Santos Populares. Depois o Lux chamou-nos. E no Verão, estávamos no Sudoeste. Tudo isto no espaço de seis meses, em 2006.

 

Disse que a música é o seu nine to five. Mas afinal quem é que é?

O Vítor Belanciano foi o primeiro jornalista que me deu tempo de antena. Chamou-me poeta-cantor. Embora nunca tenha editado nenhum livro de poesia. Eu vinha de uma escola de spoken word, fiz dois discos de spoken word em 2003. Esse era o meu métier. O meu sonho é resumir a minha biografia numa frase só, numa palavra, de preferência, duas, que provavelmente estarão, se um dia tiver uma página na Wikipedia...

 

Que são…?

Agitador cultural. É também do Belanciano. É a mais próxima daquilo que eu sou e do que faço. Tento não me levar a sério. Não me levando a sério consigo entrar e sair das caixas em que a sociedade nos coloca. Tanto posso estar com cronistas e com os da kizomba, e trazer tudo isso para as minhas crónicas, para a minha música, como posso estar com artistas plásticos ou com designers de moda.

 

Criou uma marca de roupa, mas falaremos da moda mais tarde. Para já, a relação com o artista plástico Nástio Mosquito.

A minha relação com o Nástio é engraçada. Conheci-o em Luanda. Fui para a primeira Trienal de Luanda, o primeiro evento de arte contemporânea na nossa capital. Tinha que estar, tinha que ver. E toda a gente me dizia: “Existe aqui um jovem igual a ti, com o cabelo em pé, óculos. Tens que conhecer”. Também lhe diziam o mesmo: “Está em Lisboa um gajo igualzinho a ti, diz coisas como tu, fala em cima das músicas”.

 

Quando o conheceu, teve a impressão de se olhar ao espelho? No sentido em que encontrou alguém que estava na mesma sintonia, que tinha um recorte aproximado.

Entendi porque é que as pessoas nos consideravam parecidos, mas estávamos em lugares diferentes. Temos alguns anos de diferença. Eu sabia mais ou menos ao que vinha e o que queria da música. Ele estava a dar os primeiros passos. Nasceu ali uma admiração, que acho que é mútua. Senti que não estava sozinho.

 

É uma coisa muito importante quando se tem essa estranheza.

É muito importante. Sempre disse que é impossível fazer revoluções com um soldado apenas.

 

Quaisquer revoluções?

Exacto. Precisamos de um exército. As revoluções não são feitas por generais. As revoluções são feitas por pessoas que sentem necessidade de mudança. E a mudança tem vários rostos. A minha agenda é diferente da agenda do Nástio, mas elas complementam-se. E aí está a importância de se estar em sintonia e em diálogo com a nossa geração. Com o nosso tempo.

O Nástio tem um sentido de urgência mais apressado que o meu. Desafia, exige de nós. É isso que é importante nas amizades: que nos provoquem.

 

É verdade que as revoluções não se fazem pelos generais. (Generais é uma palavra que tem uma certa conotação, ainda mais quando se fala com um angolano.) Mas precisamos de referências, de mentores. Precisamos de caras que liderem o processo. E aí voltamos a falar de Martin Luther King, Rafael Marques, Rui Tavares, Dries van Noten, Terry Callier. Porque é que aponta estas pessoas, que são agentes da sua revolução pessoal?

O Terry Callier foi a única pessoa a quem pedi um autógrafo. Minto, pedi a uma segunda pessoa, à [poeta-cantora] Ursula Rucker. O Terry Callier é como um herói. A dada altura da sua vida, não sei por que razão, desistiu da música e foi criar a filha. Acho que virou técnico informático. Até ser descoberto pelo Gil Scott Heron, que dizia que toda a gente devia ouvir Terry Callier. Sendo eu estudioso do género spoken word [que é também o de Gil Scott Heron], fui estudar Terry Callier. E tinha razão: toda a gente tem que ouvir Terry Callier. O que Terry Callier me obrigou a fazer foi a reconciliar-me com a minha cultura, com a minha música.

 

Com a cultura negra?

Também. O Terry Callier fez-me voltar a ouvir semba. De repente esbarramos com alguém que nos faz voltar para trás, identificar os pontos, ligar os pontos. O Terry Callier faz-me lembrar Rui Mingas, estranhamente. Aí está o meu segundo cantor favorito, o Rui Mingas. Sou um fã. Não do Mingas político. Ficou conhecido como o embaixador angolano em Portugal. O Mingas músico, o Mingas poeta, tem a mesma importância que um Tom Jobim para os brasileiros. E só tem dois discos.

 

E porquê o Terry Callier e não o Marvin Gaye ou o Stevie Wonder? Se o Terry Callier fosse tão conhecido como o Marvin Gaye ou o Stevie Wonder, gostaria dele da mesma maneira? Estamos a falar do seu interesse pelo que é periférico?

Talvez. Vi o filme Searching for Sugar Man, o documentário que ganhou o Óscar [2012] sobre o Sixto Rodriguez, que gravou dois discos e que desapareceu. Diziam que era tão bom, tão maravilhoso como o Bob Dylan. A profissão dele foi demolir casas, cuidar das filhas da maneira que podia. Uma história incrível. O Terry Callier merecia um filme, uma biografia. O que é que faz um músico desistir? Que mágoa é aquela, e como é que se carrega isso? Quando voltou, estava lá, na sua música, toda aquela dor.

Não sei se era [Fernando] Pessoa ou [Paulo] Leminski [poeta brasileiro] que dizia que admirava as pessoas que carregam uma certa dor, que lhes dá uma certa curvatura de ombros. Torna-nos mais sublimes e mais humanos. Mas também mais deuses. A dor tem essa capacidade.

 

Quem é que personificava, nos seus anos de formação, essa figura simultaneamente curvada pela dor e divina?

O meu avô materno. O meu nome Epalanga é herança do meu avô. Sou Kalaf Epalanga Alfredo Ângelo. Morreu recentemente, com quase 100 anos. Na família ninguém sabe bem a idade dele. A minha bisavó foi registá-lo numa paróquia, o senhor do registo perguntou: “Qual é a idade da criança?”, “Não sei, ele nasceu quando o milho estava dessa altura” [risos].

 

Conte a história do seu avô.

O meu avô decidiu ser padre. Estudou Teologia com os missionários, era a única maneira de se estudar no interior de Angola. Entretanto desistiu. Foi para Catumbela, estudou enfermagem, tornou-se enfermeiro do caminho-de-ferro da Catumbela. Depois, com a revolução, com o início da luta contra o colonialismo, 1961, abraçou o MPLA. Virou político e foi governador de uma vila da Catumbela. Era uma vila super importante, historicamente, que foi promovida a cidade.

Adoptou a doutrina marxista. Nunca mais voltou a pisar uma igreja. Era a pessoa mais honesta que conheci na vida. E todos temos essa referência, na família. Em Angola, uma pessoa ser muito honesta, é mau [risos].

 

Ai é?

Significa que as coisas vão passar por nós e não se vai pegar nada, não se vai ascender na sociedade.

O meu avô queria ser escritor, tinha um diário, que eu herdei.

 

De que é que fala? Dos demónios dentro dele, dos demónios cá fora? De coisas banais?

Da vontade de ser alguém melhor. De conduta. E isto num contexto de guerra. A guerra é terrível, destrói tudo, seca tudo, mesmo que não se esteja na frente de combate. Enquanto vimos essa sociedade a desmoronar-se, a relação humana a desfazer-se, está ali um homem, quase uma ilha, a tentar segurar-se. Essa era a dor dele. Tenho muitas perguntas.

 

Que perguntas é que gostava de lhe fazer?

Como é que conseguiu ser um político num país como aquele. E tentar saber se corrompeu, se foi corrompido, como é que resistiu. Se é que resistiu, não sei.

Depois há a minha avó, mãe da minha mãe, que era uma beata. Ia à igreja todo o dia, de manhã e à tarde. Os dois [avô e avó] eram muito engraçados.

 

Foi educado por eles?

Não, mas eram os pilares. Moravam perto, a 20 quilómetros de onde cresci, que foi em Benguela.

 

Porque é que Epalanga é uma homenagem ao seu avô?

O meu avô, por ser o filho mais velho, por ser muito culto e sensato, sempre foi tido como o soba. O soba é aquela entidade cacique, quase (para usar um termo próximo, via Brasil). Sempre teve essa coisa de conciliar, as pessoas iam pedir-lhe conselhos.

 

Ao perguntar pelo seu avô, estou a perguntar de onde é que vem.

Venho de uma região no sul de Angola, o reino dos Ovimbundos. Tenho uma origem, sou umbundo. O meu avô é do Huambo. O meu pai é da Ganda, já em Benguela mas na fronteira com o Huambo. No sul, nos Ovimbundos, “epalanga” é aquela pessoa que pode ser, ou não, familiar do monarca, mas que, na ausência do monarca, tem as suas funções administrativas. E, mais importante, é um conselheiro. O reino Ovimbundo tinha várias facções. Todas as facções e condados tinham um “epalanga” – um vice-rei. Às vezes, Epalanga virava nome de família. Tenho um primo que também é xará do meu avô.

 

O que é xará?

Aquele que tem o mesmo nome.

 

Como se escreve?

Nunca escrevi essa palavra. Há palavras que às vezes é com X, outras com CH. E às vezes trocamos. Por exemplo, tarrachinha. Nasceu como dança, depois virou género musical. Sub-género da kizomba. É uma dança super, ultra sensual. Os dançarinos não se movem e a mulher tem um movimento no quadril muito lascivo.

 

Todas as danças africanas, sobretudo para um europeu...

... são muito sexuais. Mas falamos de danças de família. Podemos estar num casamento e toda a gente dança daquela forma. Passa pela relação com o corpo.

 

Com que idade, em média, uma pessoa em Angola inicia a vida sexual?

Com 12, 13. Rapazes, essencialmente. Já ouviu falar das catorzinhas? Basicamente é pedofilia. Alguns senhores abastados seduzem adolescentes, de 13, 14 anos, namoram com elas. E isso é “permitido” por todos.

 

É uma coisa que se verifica agora?

Tornou-se um fenómeno, e encontrou-se nome para ele: as catorzinhas. A guerra consegue fazer-nos chegar muito baixo.

 

É uma marca da guerra?

Sem dúvida. Trata-se da miséria que a guerra transporta. Muitas vezes isto acontece nas barbas do pai dessa criança – não é outra coisa senão uma criança. A catorzinha sustenta toda a família. Se se torna namorada de um general, ele vai mimá-la.

 

Estamos a falar, também, de prostituição.

Sim. Eles seduzem essas miúdas. Chegam a ter quatro, cinco namoradas. Têm a esposa, a segunda, que é quase oficial e obrigatório [ter]...

 

A amante principal?

Sim. E têm as namoradas.

 

Disse que a iniciação sexual é cedo. Sobretudo para os rapazes. A transição para a idade adulta faz-se a partir do momento em que se tem uma relação sexual?

Sim. Mas o ritual da circuncisão é também uma passagem.

 

A circuncisão, é com quantos anos?

Varia. Geralmente 12, 13.

 

Aqui, na circuncisão, o menino vai ao médico, o médico faz a circuncisão. Não existe esse rito de passagem. Como é que é lá?

Obviamente não é num contexto urbano, nas cidades vai-se ao médico. Mas se se vive no reino, no interior, a 100 quilómetros, ou 50 da grande cidade, há pessoas que ainda vivem segundo uma tradição, e a circuncisão faz parte. Há uma figura, o xamã ou o curandeiro, alguém que tem essa responsabilidade. Juntam os rapazes, isolam-nos, há uns cânticos, fazem umas danças.

 

O que é que dessa coisa tribal, profunda, aparece na música que faz, na poesia que faz? Ao mesmo tempo, olhamos para si e vemos esta síntese urbana.

Sou totalmente urbano. Mas o meu primo, o Tininho, que foi quem me ensinou a diferenciar o certo do errado, aquela figura com 15 anos mais que eu, ou 20... Fala impecavelmente línguas tradicionais. Se há coisa que lamento é não falar nenhuma língua tradicional. Lembro-me de viajar com ele por Angola: uma bênção. Foi aí que decidi assinar Epalanga e acabar com esse Ângelo para o resto dos meus dias.

 

Houve uma fase em que assinava Kalaf Ângelo.

Encontrei vários epalangas naquela região. Pessoas iguaizinhas a nós, com os mesmos trejeitos, e a falarem outra língua. Sentimo-nos estrangeiros. Entendo, sinto, reconheço, mas está um vidro entre nós. Se existe a coisa tribal em mim é mais por essa ausência, por não conseguir tocar o outro lado.

 

Mesmo não compreendendo o que diziam, havia um reconhecimento mútuo, nos trejeitos.

Sofro dessa coisa terrível que é a saudade do futuro. Estou sempre a ir para a frente. Durante muito tempo, nunca voltei para a terra. Essencialmente sou lisboeta. Agora, a cada regresso a Angola, faço questão de mergulhar em lugares onde nunca pus os pés. Sinto uma religiosidade esquisita. Não é propriamente devota de Jesus Cristo, criador. É tão profundo que não consigo encontrar palavras para dizer exactamente como é que essa espiritualidade está em mim, como é que depois transborda para aquilo que faço.

 

Veio para Lisboa aos 17 anos com o sonho de ser escritor?

Não. Vim com 17 com vontade de pegar um curso muito prático que pudesse aplicar em Angola. No primeiro ano, ano e meio, nem desfiz a mala. A ideia era aprender o que tinha que aprender, voltar e viver a minha vida.

 

Queria fazer o quê?

Gestão. Queria saber como é que as empresas funcionam, queria trabalhar com empresas. Sentia que tinha algum jeito para comércio. Tenho um irmão pintor. Pinta muito bem, talentoso, péssimo a promover-se. Quando éramos miúdos, eu pintava o Bruce Lee, um ícone qualquer do momento, pegava naquilo, ia ao mercado e vendia o quadro. Não demorava lá muito tempo. Depois voltava e tínhamos dinheiro para o gelado, o cinema.

 

Viveram em que condições materiais? Sempre com a noção da privação?

O país estava em guerra e a guerra tem uma omnipresença. Meio que ali a pairar, nunca próxima. Só vi o que era uma cidade a ser atacada e bombardeada em 1992, com as eleições e o retomar da guerra civil. O meu primo Tininho foi militar, foi para a Rússia estudar no curso das forças armadas. Ao mesmo tempo tentava-se viver, ser feliz. Andar de bicicleta, namorar, ouvir música.

 

Os seus pais falavam muito de política, da guerra?

Aí está uma coisa engraçada do meu avô: sempre nos aconselhou, quase de forma violenta, a não nos metermos em política. Mais nenhum membro da nossa família é político. Na nossa família, política não era uma carreira [expectável]. Mas todos têm esse sentido de servir o próximo, é uma família de funcionários públicos.

 

O seu pai é médico.

Sim. A minha mãe trabalhava no Ministério do Trabalho (uma espécie de Segurança Social). Éramos classe média, não uma classe média alta, embora tivéssemos um avô político. Infelizmente o senhor era muito honesto [risos].

 

Volto a lembrar-me do que disse num tom meio irónico: em Angola não se pode ser muito honesto senão não se apanha nada. Pode-se ser meio honesto?

Sim.

 

Está a dizer que é preciso saber escapar entre os pingos da chuva?

Na contracapa do livro O Angolano que Comprou Lisboa (por Metade do Preço), tem uma frase: “Pior que não ter dinheiro, é não ter esquema para remediar a situação”. O esquema: é preciso arte. É preciso ter ginga. Os muito honestos não têm ginga nenhuma e sofrem com isso.

 

O Rafael Marques não tem ginga?

O Rafael tem ginga. Não sei se o Rafael Marques vive confortavelmente. O dinheiro não nos define. Sou a prova disso. Fui educado para trabalhar e ter um salário e pagar contas. Não tenho nada a que possa chamar meu, gasto tudo. Gasto em viagens, é o meu vício. Há, [num plano] inconsciente, essa ideia de servir uma causa maior, de servir algo mais importante. Mas é preciso ginga para viver numa sociedade como aquela. Quando digo ginga não é os esquemas, [num sentido] pejorativo. É uma questão de vida ou de morte. Não há outra forma de sobreviver numa situação tão extrema – tem que se saber virar, mesmo.

 

Ter ginga é sabermos virar-nos.

Sabermos desenvencilhar-nos. Imagine o que é estar numa sociedade onde uma aspirina custa mais do que uma cerveja. É uma sociedade que está constantemente a pôr-nos à prova. É impossível relaxar. É impossível tirar o pé do acelerador. Nem os que estão bem conseguem fazer isso. É uma sociedade que já tem alguns anos de paz mais que ainda não se conseguiu livrar desse fardo.

 

O que vemos são marcas do passado recente?

Na sociedade angolana, hoje, estamos a sofrer as sequelas desses mais de 30 anos de guerra civil. Não houve transição nenhuma, do colonialismo passou-se para a guerra civil. Pela primeira vez as pessoas estão a respirar, a respirar num pós-guerra que é também traumatizante. O mundo à nossa volta não ficou à nossa espera. O mundo não disse: “Reconstruam-se, invistam em cultura, em educação, em saúde, que ficamos aqui à espera”. Não, o mundo chegou lá, e disse: “Queremos petróleo, vamos negociar”.

Não fizemos uma auto-reflexão, não houve uma terapia social de como voltar a construir os pilares da sociedade. Como encarar a questão das catorzinhas, por exemplo. (Quem fosse apanhado, devia ir para a cadeia, ponto!) O que é que as pessoas fazem? Calam-se, anulam-se, escondem-se, curvam-se. Essa questão do Rafael Marques, da liberdade de imprensa, todas as fobias que os nossos dirigentes têm em relação à opinião, o direito à manifestação: tudo isso é herança. Há dez ou 15 anos, resolvia-se isto à bala.

 

De repente, o Dries van Noten, designer belga, parece uma coisa completamente diferente desta de que temos vindo a falar. De todas as coisas de que temos vindo a falar.

Não é. Na essência, é um artista. Acontece que usa o vestuário como tela. Ele é jardineiro. A minha mãe e as minhas tias têm uma relação com flores muito íntima, muito próxima. Há certas flores que dão na mão de uma e não dão na mão de outra. É muito esquisito, mas é verdade.

Quando observo o Dries, há sempre algo mais. É das pessoas mais misteriosas que conheço no mundo do design. O Margiela também é misterioso. Também belga. O Dries tem uma humanidade que só os jardineiros conseguem. Faz-nos reparar em detalhes que não vimos. Até ver os jardins e as flores do Dries, nunca me tinha perguntado porque é que as rosas funcionam com a minha tia Carmo e não funcionam com a minha mãe. E porque é que os lírios funcionam com a minha tia Bia e não funcionam com a tia Carmo.

 

Qual é a sua flor?

Não tenho, vivo em constante movimento. Não posso ter nada em casa.

 

Qual é aquela que gosta de contemplar?

Não sei se se chama assim. Em Angola chamava-se rosa de porcelana. [mostra no Google] É esta. Conhece?

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2015

 

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