Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Anabela Mota Ribeiro

Paulo Pacheco (s/ Luiz Pacheco)

30.10.18

A entrevista ao filho do Luiz Pacheco é sobre o Luiz Pacheco. Estão à espera da grande figuraça, das pachecadas? Há disso. Há o tipo que deixa anotado numa tradução de Voltaire “sandes de merda”. Há o tipo que vai visitar os futuros sogros e foge com a irmã da noiva, então com 14 anos – a mãe do Paulo. Há também o tipo rigoroso, o que vive de corpo inteiro, sem segurançazinhas, o que escreve muito bem. Há o retrato íntimo.

Luiz Pacheco morreu em 2008. Tem desde o começo do ano uma rua com o seu nome em Marvila.

 

Paulo Pacheco nasceu em 1963. Formou-se em História, trabalha na Câmara de Palmela desde 1987 (actualmente é director de departamento, das áreas financeiras e dos recursos humanos). É casado, tem dois filhos (um de 23 anos, outro de 19). Toda a gente lhe pergunta como é que não saiu maluco. É filho de Luiz Pacheco, é a vez em que Luiz Pacheco se encheu de brio e decidiu que ia educar uma criança. É um homem estável que fala do pai com amor e admiração, e uma réstia de zanga, uma réstia.

Encontrámo-nos para evocar o Luiz Pacheco. O Pacheco pai, o Pacheco artista (e aqui se engloba a escrita, a edição, a tradução, a crítica), a figura apetitosa para os jornalistas e para os leitores (apetitosa é uma palavra de Paulo). Além da figura apetitosa que fazia manguitos para a fotografia, havia o escritor cru e valente, textos onde se lê a vida sem biombos. O Libertino, o Comunidade, o Teodolito...

Pacheco era uma espécie de urro que vinha de dentro da vida, coisa indómita e inclassificável, uma provocação ao sistema. A rua com o seu nome fica num bairro popular de Lisboa, em Marvila. O Crocodilo que Voa, um conjunto de entrevistas organizado pelo seu biógrafo, João Pedro George, foi agora reeditado. A biografia recomenda-se: Puta que os pariu.

Sobre Paulo Pacheco, o Paulocas: o pai dizia dele que era um factótum. Um faz tudo.

 

 

Como é que aprendeu a fazer a separação entre aquele que era o seu pai e o iconoclasta Luiz Pacheco?

Vivi com o meu pai dos seis aos 13 anos. Já foi há 46 anos. Não tenho os ódios, as reacções, os afectos tão apurados como tinha. Há uma fronteira muito distinta que é a passagem do filho ao leitor. Foi assim que fiz a história da relação. Conforto-me com ela. Comecei a ler muito cedo e compulsivamente. A minha relação com a literatura foi muito condicionada por ele. Olhar para o pai como se olha para um Mario Soldati, um Cholokov, um Dostoievski...

 

Olhar para ele como um escritor, objecto de admiração.

Fez toda a diferença. Nessa altura perdoei ao meu pai o que não correu bem enquanto pai. Passei a aceitar um conjunto de coisas que são inaceitáveis. Como é que eu vinha sozinho, com dois sacos de plástico, vender livros para Lisboa? Largar um puto de oito anos, sozinho, nas Caldas da Rainha, porque se esqueceu dele...

 

Com que idade começou a lê-lo?

Tinha 18, 20 anos. Quando comecei a descobrir o artista, a relação mudou completamente. Comecei por ler o Exercícios de Estilo (1971) todo. Depois fixei-me no Comunidade (1964), por razões óbvias.

 

As suas razões óbvias: é a história do seu núcleo familiar.

Estou lá, é o meu nascimento. Aquilo é a minha terra.

 

É a sua terra?, como assim?

Tive cinco famílias de acolhimento, dezenas de casas. Não tenho nenhum sentimento de pertença a uma terra. Quando pergunta onde é a minha terra, é aquilo. Naquele texto está tudo o que é relevante.

 

Não teve uma sensação de estranheza? Ou só teve uma sensação de pertença, quando leu o Comunidade? Do ponto de vista familiar, é fortíssimo: estão lá a sua mãe e a sua tia, com quem o seu pai teve uma relação, os seus irmãos/primos.

A Comunidade é um objecto literário com o qual tenho uma relação afectiva. Mas antes de mais é um grande objecto literário. A minha primeira abordagem: foi como se tivesse lido um livro de que gostava muito. Um Cesare Pavese.

 

Portanto, a partir daí não só passou a admirá-lo como se reconciliou com ele enquanto pai?

Sim. Não falávamos das coisas do passado. Falávamos de literatura, da vida dele. E fui ajudando a produzir livros. A fazer a paginação disto, a revisão daquilo. Coisas que eram cumplicidades nossas e tarefas nossas. Ele foi viver para Setúbal, depois esteve [num lar] em Palmela uns tempos. Fartou-se de produzir livros da Contraponto.

 

Ele referia-se a si como o Paulocas. Como se fosse o filho dilecto.

Ter encontrado um artista de que gostava, permitiu-me perceber as opções dele, as consequências que as opções têm, o risco, a diferença. Acabo por ter uma relação com o Pacheco-pai, que andou comigo às costas – ou eu andei com ele às costas – não sei quantos anos, e com o Pacheco-artista, para quem se olha com admiração, com estima.

Em relação ao folclore, também aí tudo se resolveu. Ele e eu sabíamos que aquela história era uma grande invenção, mas até era gira [risos].

 

Algumas histórias, inúmeras histórias, que circulavam sobre o Pacheco, eram uma espécie de enredo, para divertir o pagode e a ele mesmo?

Sim. E não eram muito relevantes. Também o mataram três vezes! Uma vez estávamos em Massamá, entraram em casa, “O teu pai morreu!”. E o contraponto? Eu sei que as pessoas ficam seduzidos pela historieta, pela coisa fantástica, mas vejam tudo o resto.

 

O contraponto é a força do escritor, a crueza da escrita?

Agora falo como leitor e conhecedor. O meu pai escreveu pouco, mas escreveu coisas muito acertadas, e tendem a desaparecer no meio do folclore. Fez aquela história do Voltaire, é verdade, mas tem traduções fantásticas. Passei fome em Massamá para ele poder traduzir umas porcarias.

 

Qual é a história do Voltaire?

Foi uma tradução em fatias. O Bruno da Ponte agarrou no Dicionário Filosófico de Voltaire, dividiu em três, uma para ele, uma para outro, uma para o meu pai. Cada um fazia uma parte e depois juntavam tudo. Aquilo foi traduzido pelo meu pai nas Caldas da Rainha, numa situação já de miséria, muito alcoólico. Acabou os prazos todos, a última parte traduziu directamente do livro. Assinalou a vermelho as palavras que não sabia bem, para ir ver ao dicionário. E nessas coisas estavam “merda”, “porra”. Mandou aquilo e esqueceu-se... Há uma edição do Voltaire em que aparece: “Era o que o autor diria, que seria uma verdadeira sandes de merda”!

 

Porque é que acha que era um excelente tradutor? Traduzia sobretudo do francês e do espanhol.

Era exigente, sabedor de que a tradução é a reinvenção de um texto, e que é preciso saber como é que se reinventa. Trabalhador, se o texto remetia para um conjunto de informação que não sabia, ia à procura. Comprou uma versão russa do Tchekhov quando fez a tradução do A Minha Mulher porque sabe que em todos os países os tradutores são mal pagos e esfomeados. E quando a fome começava a apertar e o tempo a acabar, comiam capítulos e punham páginas em branco. O meu pai comprou a versão russa só para contar os parágrafos, para verificar se a versão francesa que tinha como objecto para traduzir batia certo, ou se aquele tradutor francês não teria, com a fomeca, queimado uns paragrafozitos.

 

A parte folclórica tende a abafar essa preocupação, o brio. Na escrita, na tradução, na edição.

Sim. Outro dia, ao fazer uma pesquisa, no Google, apareceu uma tese de mestrado de uma rapariga, que não conheço de lado nenhum, sobre a crítica literária do meu pai. E aponta para um texto que eu não conhecia e que é um texto fundador da crítica literária em Portugal. Aquilo não é duas bicadas no Urbano [Tavares Rodrigues] porque está chateado. É uma reflexão profunda sobre a função social do crítico literário. E um programa completo sobre o que o crítico literário deve fazer. O que é que vai aparecer? Era um tipo horroroso, dizia mal de toda a gente.

 

Aparecem muito os ódios de estimação. Ao Urbano, ao Virgílio Ferreira, ao Ary dos Santos. Sempre na base da embirração.

O meu pai, como editor, como crítico literário e como escritor, tem um papel importante na cultura portuguesa. E marcou pontos essenciais. Num país em que ninguém revela as suas intenções – por cobardia, por cálculo – ter um gajo que diz o que pensa... Não é que o que ele diga seja verdade, seja justo. Não, é dizer o que pensa. Isso é deslumbrante. E continua a fazer muita falta.

 

Ele parece ter vivido contra a vida. No sentido de fazer o movimento ao contrário. E de não se importar de estar sozinho nesse movimento ao contrário. Contra o modo burguês, contra o conformismo, contra o respeitinho.

Completamente. Há uma dimensão positiva, o da pessoa que, correndo todos os riscos, com todo o desassombro, e muitas vezes acertando, diz o que pensou maduramente. Há também uma dimensão mais maldizente, da busca do conflito inútil. Dizia: “Preciso destas guerras”.

 

Precisava para quê, para se sentir vivo?

Para estar vivo. Guerras com as senhorias. Viveu anos em quartos. Aquilo começava sempre muito bem. “A casa é óptima, tem excelente luz, a senhora é simpatiquíssima”. Ao fim de três semanas ligava: “Vou matá-la”. E contava todos os pormenores dos conflitos. O conflito inútil, o reproduzir maledicência de terceiros (“Se me estão a dizer, é porque é verdade”), nunca percebi se era ingenuidade ou se era táctica. E nunca percebi aquela guerra com o Cardoso Pires.

 

Quando entrevistei Luiz Pacheco, em 1998, falámos de Cardoso Pires, que tinha morrido recentemente. Disse que tinham sido colegas de liceu e seguido percursos opostos. Reproduzo: “Uma vez encontrei na Estrela o Saramago, que vinha do hospital, e disse-lhe: ‘Não te deixes ir abaixo que temos de ir ao funeral do Cardoso Pires’”. Podia ser inveja? A inveja podia ser um motor para ele?

Não sei se tinha muito tempo para isso. A inveja implica uma disponibilidade para concorrer com o outro. Nunca o vi concorrer com ninguém. Concorrer no sentido de fazer o que o outro fez e melhor.

Parte dos conflitos com a geração dele – não sei se com o Pires é isso – resulta de um compromisso que foi abandonado. Uma espécie de traição. Há um aburguesamento, um acomodamento dos outros, e ele diz: “Então, isso não pode ser, o que é que a gente combinou?”. Aquelas coisas de o Mário Cesariny começar a ser artista mainstream, para ele não batiam certo.

 

Na mesma entrevista, dizia do Cesariny: “Nós tínhamos no grupinho umas certas regras em relação ao meio literário, em relação ao surrealismo, e ele entrou na grande bagunça, tornou-se pintor! Perguntarem-me porque é que eu me zanguei com o Cesariny, tem alguma coisa a ver com paneleiragem? Era uma questão de ética, estética, camaradagem, de ele ser um tipo exigentíssimo, contra o mercenarismo na arte e essa coisa toda.”

Nessas coisas, o homem era terrível.

 

E, à partida, como é que lidava com as pessoas?, aberto ou desconfiado?

Encontra-a, não a conhece de lado nenhum, acha-lhe piada: a maior das confianças, a maior das aberturas. Os meus amigos adoravam o meu pai! Estavam com um tipo escritor, falavam com ele, ele perguntava-lhes isto e aquilo.

 

Ele perguntava aos outros o que é que eles pensavam?

Sim, claro.

 

Não é nada claro. A maior parte das pessoas não pergunta aos outros o que é que pensam.

Dava livros. Depois estava ali a olhar para si, a descobrir os pequenos defeitos. Os lapsos de linguagem, as coisas comportamentais. De repente era um juiz a descascar todas as suas deficiências de humano. Por exemplo, na minha casa nova, chegou lá e descobriu que eu tinha posto a biblioteca no sótão. Crime. Nunca mais lá foi. Os livros não se põem no sótão. Os livros têm que estar na sala.

 

E com as coisas de carácter?

Todos temos pequenos deslizes de carácter, pequenas mentiras. É assim a vida do quotidiano. Ele estava atentíssimo a isso. Às vezes era um bocado chato. Especialmente quando entrava na dimensão aristocrata.

 

Nasceu ou não nasceu numa família aristocrata? Ele diz que não, que era uma casa de tesura, mas a armar ao pingarelho.

Claro. A informação que tenho disso é lateral, de conhecer a história do meu avô paterno. Havia um livro da família que remontava ao século XVIII, que passou de geração em geração. A família é de militares (generais, coronéis) ou poetas. Descambou tudo na geração do meu avô. (O meu avô dizia que era um poeta intimista. Fui à Biblioteca Nacional pedir o livro, era um poeta muito intimista, não se percebia nada [risos].) O meu avô queria ir para a carreira diplomática. Faz os dois primeiros anos do curso superior de Letras, o que coincidiu com a [Segunda] Guerra. Ninguém queria gente para a carreira diplomática. Quando a guerra acabou, já não foi acabar o curso. Fez aquela coisa nacional portuguesinha: arranjar um emprego. Mas era melómano. Organizava óperas no Coliseu, era músico amador e maestro. E vivia no mundo dele, de bon vivant. Também li a autobiografia dele – o primogénito fazia a autobiografia. Aquele homem faz todo o século XX, morre em 1959 ou 60, não tem uma referência à família, ao país, ao mundo!

 

O que é que fazia, afinal?

Acaba como oficial administrativo no Instituto Nacional de Estatística a fazer contas. A família vem de uma média burguesia rural. Tem uma casa, onde o meu pai nasceu, na Estefânia. Vive de pequenos rendimentos e da miséria nacional. Havia três empregadas lá em casa, mas nunca se pagou ordenado. Trabalhavam por roupa, cama, comida. Com poucos recursos podia-se dar um ar de rico.

 

E a aristocracia, algum fundo de verdade nisso?

Fala-se que havia uma descendência brasonada. O meu avô foi a Sintra buscar o brasão, mandou fazer um anel de ouro e platina. Claro que no dia seguinte estavam filho e pai a pôr aquilo no prego. Comecei a relacionar-me com o prego com o meu pai (púnhamos tudo no prego), mas o prego já era uma tradição familiar. Os castiçais iam diminuindo ao longo do mês, depois voltavam a aparecer.

 

O seu pai tinha gosto nessa ascendência aristocrata?

Não. Teve uma boa educação, muito clássica, e uma vantagem, ou desvantagem: ser muito doente. Faltava muito às aulas, mas tinha uma biblioteca fabulosa do meu bisavô. Sabia muito de latim, muito de português. Teve muito tempo para ler. Passava horas e horas deitado. Não imagina a capacidade de leitura dele. Absurda, doentia. E atento, sempre com a canetinha na mão para corrigir, mesmo que fosse um livro de cobóis. Ou o diário do Vergílio Ferreira, todo ele riscado.

 

Tinha um sentimento de superioridade?

Tinha brio profissional: “Eu sei escrever bem”. E dizia: “Eu tive 18, o Urbano teve 12”. Com o Vitorino Nemésio. Tinha consciência da qualidade intelectual de que era portador. E tinha consciência, ou achava que tinha, ou queria ter, de a sua opção de vida ser uma opção de coragem. Em contraciclo com o resto. Toda a gente quis arranjar-se, resolver-se.

Aquela boca dele: “Só entrei para o Partido Comunista quando isto começou a correr mal”: é verdade. O meu pai nunca entrou num partido antes do 25 de Abril porque não se achava digno nem capaz. Dizia: “Sou torturado e morro, não tenho hipótese nenhuma”. Tinha receio de falhar.

 

O lado político, comunista, era muito importante nele?

Não activa, mas filosoficamente, sim.

 

Tinge isso com folclore quando diz que quer ser enterrado com a bandeira do PC, que quer ter um enterro como o Ary.

E queria. Tinha acesso às obras completas do Marx e leu-as. Esteve envolvido no Mude Juvenil, nas candidaturas do Humberto [Delgado], do Norton de Matos. Para ele, e para a geração dele, o partido era o Partido Comunista. Não havia outro. O meu pai é da geração morta, nasce com o regime e vai vivendo com o regime. Tem uma leve esperança em 45, com os Aliados e a derrota das ditaduras, e depois aquilo tudo se esvai. O Salazar consolida-se. O meu pai nunca acreditou que em vida visse o regime cair. Quem começa a acreditar é a geração dos anos 60, que vai para Paris, que regressa.

 

Como foi no 25 de Abril?

Nessa altura, eu vivia com ele. Comprava os jornais todos! Chegava a uma banca e comprava O Diabo e o Luta Popular. Íamos aos comícios todos. Do MES, do MRPP, do PCP, do PS. Ou seja, uma enorme sede de perceber o que era isto. Uma descoberta incrível.

A seguir tem uma grande desilusão. Vê toda a intelectualidade entrar [para os partidos]. “Vão à procura do empregozinho.” Aí recolhe-se. “Não, não tenho nada a ver com isto”. Quando cai o muro de Berlim, e quando o interesse pelo emprego desaparece, diz: “Já posso ser [do partido]”.

 

Formalmente só se filiou depois de 1989?

Sim. É uma afirmação política. Claro que não valia a pena fazerem coisas como aquela de o convocarem para trabalho de célula [risos]. O meu pai começava a imaginar: “O quê, estão a contar que eu vá colar cartazes, estão malucos ou quê?”. Era a delícia dos controleiros que cobravam as quotas, porque queria pagar as quotas. E participava nas coisas políticas em que podia participar. Assinar papéis, votar, tomar posição.

 

O não-compromisso, essa atitude de vida ou morte, era marca dele. O que é que estava no cimo disso, a literatura? A família não era.

A família era numa dimensão utópica. Ele gostava de ter a família da Comunidade, e incentivava isso. A família: somos oito filhos, três ninhadas. O meu pai casou na prisão. A primeira mulher do meu pai, a Maria Helena, era uma das empregadas não pagas lá de casa. Os dois eram menores.

 

Ela tinha 15 e ele ainda não tinha 18.

Uma coisa assim. Um tio dela descobriu a coisa, achou que tinha ali um grande negócio. Para quem está de fora, era um menino rico a dormir com a empregada. E o meu pai foi preso, com a condescendência do meu avô, que achou que não tinha nada a ver com aquilo. O meu pai nessas coisas era muito recto: pediu a emancipação, para não afectar a família. A conclusão do juiz: ou casa ou fica preso. Levou dois anos de pena suspensa e casou no Limoeiro.

 

Mas foi só um beijo, como ele diz?

Não, claro que não.

 

Ela estava grávida?

Estava quase. [O beijo] é o segundo processo do meu pai, com a Maria Eugénia. Deu um beijo na rua, teve um processo em tribunal e foi preso por isso. Uma coisa estúpida. No caso da primeira mulher do meu pai, não, já iam muito avançados. Casaram, tiveram três filhos.

 

Segunda mulher.

É a minha tia Maria do Carmo. Foi empregada do meu pai, quando vivia com a mulher e os três filhos. Depois fugiu com ela [tia] e teve dois filhos. E depois foi à terra da minha mãe, acompanhar a minha tia, futuro marido que vai visitar os sogros, e conheceu a minha mãe. Engravidou a minha mãe, nessa altura com 14 anos. Nasci eu.

 

A sua mãe tinha 15 anos quando nasceu. E o seu pai, tinha quantos?

Tinha 38. O único cimento que une estes rapazinhos e estas rapariguinhas é o meu pai. E ele fomentava esse cimento. Era uma coisa que eu odiava!, não tinha dinheiro para comer, mas ia pôr no prego a máquina de escrever para comprar uma prenda, 500 ou mil escudos, porque fazia anos um irmão meu. Mandava um vale. A história da Comunidade é assim mesmo. “Eu, chefe de família, com o meu rebanho em cima da cama”. Sei lá como é que isso se ia concretizar. A utopia não tem que se justificar.

 

É diferente ter um filho aos quase 40 anos ou aos 20.

Eu fui a experiência dele a querer ser pai. O Pacheco da minha irmã mais velha não é o meu Pacheco. Apercebi-me disso pouco tempo antes de o meu pai morrer. A minha irmã mais velha – mais velha que a minha mãe –, a Maria Luísa, quando ele estava em casa do meu irmão João Miguel e precisava de ajuda, ia lá limpar, dar banho. Eu às vezes vinha trazê-la a Lisboa, íamos conversando. A minha irmã tratava o pai por paizinho. “O paizinho era muito exigente com a roupa. Se uma camisa não estivesse bem passada mandava ir buscar outra”. Eu conheci um tipo que não comprava roupa. As meias, as calças, grandes, pequenas… O pior que podia acontecer: vestir as calças do Artur Ramos, que dobravam [em largura]. Não conhecia aquele pai que dizia: “Ninguém começa a comer sem estarem todos à mesa”.

 

Resquícios da educação burguesa, aristocrata...

É outro tempo histórico. Não sei explicar como é que uma personagem que se vestia escrupulosamente (quando era inspector de espectáculos, ia de gravata, fato completo), que pôs os meninos no Liceu Francês, como é que este pai é o mesmo pai que dormiu comigo nas escadas. São duas personagens completamente diferentes.

 

Não consegue perceber como é que se faz a transição?

Não faço ideia.

 

O álcool…

Pode ser indicador. Mas a ruptura é muito grande.

 

Ou seja, pode ser motor de degradação, mas não único.

Não sei. Se dou muita importância à gravata e de um dia para o outro deixo de usar gravata, há uma ruptura. Deixou de ser importante? Como é que essas duas personagens de repente saem de um lado para o outro?

 

Acha que houve algum momento em que ele enlouqueceu?

Andou sempre nas fronteiras. Ele próprio reconhece isso. Não se espeta uma faca na perna de um filho porque não se está sóbrio. Não é são. Mesmo que se esteja com os copos, não é uma coisa que se faça.

 

Tinha que idade quando ele lhe espetou uma faca na perna?

Onze. Há sempre uma insanidade ali metida. Aceite, tratada. É o primeiro da geração dele a reconhecer que o álcool é um problema. Só muito perto dos 80 é que se sentiu livre.

 

Mas o álcool é uma coisa e estar na franja da loucura é outra.

O álcool potencia, mas tem que se ter alguma coisa lá.

 

Alguma vez falaram sobre a faca espetada?

Que me lembre, não. Deixei passar. Ele também nunca perguntou.

 

De quem é que ele gostava? Por quem é que sentia amor?

Pelas três mulheres com quem viveu, sentiu. Teve outras paixonetas, não conheço as pessoas. E pelos filhos, sim, claro. Há um episódio muito giro. Fui conhecer os meus avós maternos, que são de uma aldeia no meio da serra da Sertã. Uma coisa que nos anos 60 era a Idade Média pura e dura. Tinham muitos filhos para ter mão-de-obra para cultivar os campos. Fui vê-los quando a minha mãe deixou lá ficar o meu irmão mais novo. O meu pai soube. Chego à Macieira e o meu avô, que nunca tinha visto na vida, exibia um casaco de bombazina. E agradecia-me muito, dava-me muitos beijos. Sabe porquê? Porque dias antes o meu pai agarrou numa cesta, andou a comprar roupa, pôs lá dentro um envelope com 500 paus e mandou para o meu avô em meu nome. “Então, ias ser recebido pelos teus avós, tinhas que ser bem recebido.” Ele tinha uma admiração enorme por eles, gente do campo.

 

Pergunto pelas pessoas de quem gostava porque parece sempre muito egocêntrico, megalómano e tomado pela ideia de que a vida é para viver consoante se é, sem condescendência. E não há nada que o ponha em causa, nem o amor por um filho.

Não sei como classifico isso, mas é assim mesmo. Aí é que me reconciliei. Isso que estou a contar, para um filho é uma tragédia, para um leitor é uma maravilha. “Este gajo tem uma pinta do caraças, não perdoa nada a ninguém.” Como filho, lá no meio, não acha piada nenhuma.

 

Refere-se especialmente a esse período em que viveram só os dois, entre os seis e os 13. Mas viveu com ele antes disso.

Vivi com o meu pai até aos três anos.

 

Nessa fase, que corresponde ao Comunidade, vivia também a sua tia com os seus primos/irmãos?

Éramos os que estão aqui [mostra uma fotografia em que está a mãe com os filhos e os primos/irmãos]. Depois vem O Caso das Criancinhas Desaparecidas. É essa comunidade a desaparecer. Sai um que vai para a Casa Pia, sai outro que é adoptado. Quando a minha mãe fugiu com o meu pai, os meus avós puseram um processo em tribunal por rapto e estupro. Esse processo nunca parou. Houve uma decisão do tribunal da Sertã, foi preso. Eu tinha três anos.

Separámo-nos todos. A minha mãe fica com o meu irmão mais novo, que vai depois viver com os meus avós. E depois casa e tem outros filhos, faz a vida dela. Eu venho para a casa da minha primeira família de acolhimento. Quando o meu pai saiu da prisão, foi-me buscar. Vivi com ele durante uns períodos em quartos, em Lisboa. Até que é preso outra vez. Fui viver com o poeta Fernando Saldanha da Gama, seis ou sete meses. Voltei porque o meu pai saiu e me foi buscar. Depois foi preso outra vez.

 

Sempre pelo mesmo motivo?

Variações. Fui viver com uma família, na Costa do Castelo, onde fiz a 1ª classe. Era uma família deliciosa, mas não podiam continuar comigo e começaram a tratar do processo para eu ir para a Casa Pia. O meu pai soube e conformou-se. E tudo rebenta porque o [editor] Vítor Silva Tavares lhe dá uma enorme descompostura. Que ele era um incapaz, que ia mais um filho para a Casa Pia. Encheu-se de brio: “Vou educar este filho”.

 

É então que vão para Massamá?

Fomos a Tercena e fomos a Massamá ver casas. Fomos para Massamá porque era 20 paus mais barato. A casa não tinha água, não tinha luz, não tinha mobília. Mas não podia contar nada a ninguém. Se contasse em Lisboa que havia aquela casa, toda a chusma ia lá parar. Como, aliás, aconteceu. Ao fim de seis meses já estava a casa cheia de bêbedos e malucos, e de confusão.

 

Como é se safaram?

Funcionam aquelas coisas de solidariedade à portuga. “Vizinho, não tem luz? Faz-se uma ligação clandestina.”

 

Ele escrevia todos os dias durante esses anos?

O diário tem isso tudo relatado. Quando estava com os copos, e estar com os copos podia durar semanas, não escrevia. Mas o regresso ao diário era a primeira terapia.

 

Escrevia para publicar?

Não. O meu pai teve sempre grande preconceito em publicar o diário porque o diário não foi feito para isso. Se se é um autor consciencioso e respeitador do seu público, tem que se ter cuidado com o que se publica. “Quem é que quer saber de 50 ressacas?”.

 

Percebia que nem tudo é bom. Há uma parte no diário que é terapia, mas nem tudo é bom para ser publicado.

Aquilo para ele era impublicável.

 

Em suma, viveu nessa casa com o seu pai entre os seis e os 13. Que aventura. Memórias?

O meu pai era um menino que tinha uma empregada para o vestir. Não sabe o que é um fogão. Comprámos uma frigideira para fazer uma omeleta. Primeiro obstáculo: quanto sal é que se põe numa omeleta? [risos]. Dedução cartesiana, uma colher de sopa de sal por ovo.

 

A literatura, a cultura, metia-se em expressões do dia-a-dia, em coisas que ele dizia? Ocorreu-me isto por causa da sua dedução cartesiana para falar de sal e ovos.

Dependia da pose. Se estivesse na dimensão aristocrata, era insuportável. Era capaz de começar a fazer citações de livros que nunca se lêem...

 

Mas que ele tinha lido.

Tinha lido tudo, mais que uma vez. Nisso sigo-o, gosto de ler um livro mais do que uma vez. A primeira leitura é sempre diferente, e há livros a que convém regressar.

 

E noutras alturas, não fazia citação nenhuma.

Se estivesse numa de disparatar, disparatava. Ordinarice, linguagem vulgar.

 

Sobretudo nas entrevistas percebe-se como gostava de fazer “pachecadas”, de usar linguagem vulgar. A conversa do sexo era uma espécie de arma fácil para perceber quem é que tinha à frente. Nessa entrevista que lhe fiz, decidiu descrever o que era um broche de pino.

Era para a provocar. Para o jornalista podia ser apetitoso. Mas o meu pai não gostava de dar entrevistas, tinha medo.

 

Medo?

A primeira entrevista, aquela do Expresso, demorou meses a negociar. E só se deixou seduzir quando disseram que pagavam. “Então quanto é que pagam?” E os gajos do Expresso: “Quanto é que você quer?” Tinha um enorme receio que a sua própria natureza levasse a entrevista para o disparate. Para lá da raiva por que a transcrição nunca saía muito bem. N’ O Uivo do Coiote (1992) as entrevistas são todas revistas por ele. E censuradas, alteradas. Não é só corrigir o vocábulo que foi mal interpretado. “Já agora, ponho isto um bocadinho melhor”.

Ir para o disparate era um jogo entre o entrevistador e ele próprio que servia para não estar com grandes conversas. Era completamente infantil.

 

Na minha entrevista diz: “Se leres O Libertino (1961), não há ali nada a não ser maluqueira na minha cabeça. Há uma punheta e mais nada”. Apesar do espalhafato, o sexo era um tema central?

O sexo é central porque é um acto de revolta e de contestação ao regime – pela cultura. Não se pode fazer uma contestação pela política, porque se tem cagufa. O regime detesta o sexo, vamos falar de sexo. A Comunidade é para ser um texto ofensivo, um texto anti-burguês. “Somos pobres, os putos dormem ali numa gaveta, cheira a mijo na cama, mas somos felizes. Não precisamos de ter emprego.” É uma série de bocas a um conjunto de malta, ao escritor que também era funcionário público das nove às cinco. Ou professor, como o Vergílio Ferreira. Nenhum deles apostava na literatura como projecto de vida. A Comunidade é para dizer: “Somos felizes. E se quiserem abdicar das vossas segurançazinhas, acabam aqui.”

 

Até onde estava disposto a levar a provocação?

A afirmação que irritou imenso o meu pai, do Cardoso Pires: “Publicas isso [O Libertino] e és logo preso”. Mas era essa a ideia! Se não se pode dar um beijo numa rapariga na rua sem ir para o calabouço e levar dois anos de pena suspensa, fazer uma coisa em que se diz mal da Santa Madre Igreja, fazer referência à guerra em Angola, falar em panasquices – que era uma coisa que não existia, não havia homossexuais em Portugal...

 

O texto era uma forma de combate.

Sim. Faz-se o combate ao regime pela cultura e contra os bons costumes. E faz-se de corpo inteiro. Naquilo que se escreve, na forma como se vive, naquilo que se diz. E sujeitamo-nos às consequências.

 

Qual é o mais provocador dos seus livros?

O Libertino. Não foi escrito para ser assim, inicialmente. O Comunidade é um texto orquestrado, foi escrito e reescrito, até à exaustão. Cada personagem é um instrumento. O Libertino, se for ver o manuscrito, está exactamente como foi publicado. Foi escrito num jacto, num café. E era um exercício de escrita directa.

 

O Teodolito (1962), também foi de jacto?

Não, é um texto orquestrado. Com uma provocação sexual brutal.

 

O grande tema dele é a morte ou é a provocação (usando o sexo)?

Não sei como é que a morte entra aí. A morte é o medo. Para perceber a morte, tem que perceber a doença. Tinha asma de três origens, tinha alergias que geravam ataques de asma fortíssimos. Confrontou-se com a morte quase toda a vida de adolescente, de adulto. Um ataque de asma é uma coisa violentíssima. Não conseguir respirar horas e horas seguidas.

 

A morte, na Comunidade: “Não me deixes morrer, não deixes. (...) Aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida”. N’ O Teodolito: “Vamos morrendo uns para os outros. E também vamos morrendo dentro de nós. Dou os bons dias a tipos que já matei; passo na rua por alguns satisfeitos fantasmas que se espantam (gritam-me: ó pá, ainda és vivo?)”.

O medo da morte era uma coisa que todos os asmáticos tinham. Hoje em dia já não, agarram numa bomba e está feito. Outra coisa distinta, e que está presente na intervenção do meu pai: vamos lá ser um bocadinho modestos, quando se morrer, acabou. O termos direito à história, que é uma coisa que marca muito os artistas, o meu pai tinha um profundo desprezo. Sabia que é falso, é muito efémero. Não somos assim tão importantes. O que fazemos e escrevemos, também não.

 

O seu pai falava da infância dele? No fundo, estou a perguntar se falava de um tempo em que foi feliz.

Nunca foi muito feliz. É filho único. Muito frágil, fisicamente. Muito tímido. Não tinha grandes amigos, a não ser os da escola.

 

A mãe, gostava dele?

A minha avó era maluca. Tinha alucinações, coisas místicas. E a relação entre os meus avós não era grande coisa. O espaço de brincadeira do meu pai era mesmo a biblioteca do avô.

 

É aí que ele se forja, na biblioteca.

É. É o seu espaço de descoberta. Tem uma profunda admiração pela cultura alemã, pelo Thomas Mann, pelo Stefan Zweig. Na Segunda Guerra, era germanófilo, levantava-se e fazia a saudação. Quando acaba a guerra e se percebe o que é a Alemanha e o que é o nazismo, começa a envolver-se nos movimentos de contestação à guerra.

 

Ainda sobre o medo de morrer. Foi ficando cada vez mais doente, percebeu que ia morrer...

Ele quis morrer. A partir de uma certa altura, desistiu. A última semana, já não tinha pachorra. Via mal, não se conseguia mexer.

 

Já não era medo, era fartura.

Era. Que se lixe.

 

Ele falava disso?

Comigo, um pouco. Mas não vou contar.

 

É um tipo muito estável.

A coisa podia ter corrido pior. Vou tentando perceber por que é que não correu pior. Houve três coisas que me agarraram. Uma, sempre soube a verdade. Sei quem é a minha mãe, sei que as famílias com quem vivi não eram a minha família biológica. Segunda, nunca fui rejeitado. A rejeição é das coisas mais terríveis numa criança. Em todos os sítios onde estive fui bem recebido. Fui mais um lá de casa. “É o filho do Pacheco que temos que ter cá em casa, é um miúdo porreiro”. E a terceira, a resiliência que fui construindo perante as tragédias do quotidiano. Com essas três ancorazinhas, safei-me.

 

Alguma vez o seu pai teve um gesto mais lamechas, assim do estilo de dizer que gostava muito de si?

Fisicamente não me lembro. Mas tenho cartas belíssimas dele. [pausa] Não tenho dúvida de que gostava imenso de mim.

Ele soube que aquela aventura em Massamá foi uma coisa muito complicada. Acabei aos 12 com uma tuberculose por sub-alimentação e uma hepatite C. Aquilo era uma javardice. Brinco com esta história das Caldas da Rainha, mas podia ter ficado na rua. Levou três ou quatro dias a lembrar-se de onde é que eu estava.

 

Também há memórias boas desse período, ou não?

Houve momentos em Massamá em que estávamos sozinhos e que éramos grandes companheiros. Grandes passeios. A posteriori posso dizer isto. Na altura, não apagava o resto. Até começar a lê-lo, era: “Tirem-me o homem da frente”.

 

É doloroso para si falar dele?

Tem dias. A seguir à morte custou-me um bocadinho. Depois fui-me habituando. Ainda não consigo ouvir a voz. Tenho muitas cassetes, mas não consigo. Já consegui começar a recuperar espólio que tinha para lá e que se estava a estragar. Já se vai vivendo.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015

 

Luiz Pacheco

30.10.18

Luiz Pacheco envia-me o exemplar 43 do seu último livro, uma compilação de crónicas que escreveu para o «Público», devidamente enfaixado em papel higiénico. Já estávamos no final da entrevista quando acabo por perguntar: «Então para que era o papel higiénico?» O Pacheco responde: «Sabes quanto é que custa cada envelope almofadado? Cento e quinze paus, menina, é quanto custa!».

Desnudado o mistério, abandonámos o quarto com vista para os lençóis dependurados nos estendais. Não estariam ainda acesas todas as luzes. Avança pelo corredor insistindo: «Aqui é onde se morre», e abre a porta de um quarto despojado e vestido de morte. Acompanha-me até à saída desfazendo-se em pormenores corrosivos, exercitando um estilo que desenvolvera pela tarde. Talvez extenuado, talvez prazenteiro.

Lembrou-me um amigo que corria dos funerais para se perder nos desmandos da carne. Para sobrepor o instinto da vida à crueza da morte. Como Pacheco que, na primeira página d’ «O Libertino», convoca a morte sob múltiplas e hipotéticas formas e se entrega a seguir à vida e ao corpo para melhor escapar ao horror da senhora da gadanha.

Foi o mesmo na conversa de uma tarde. Revolveu conversas de alcova, praticou uma inesgotável luxúria mental, estacionou, comovido, mesmo que se não desse conta, numa incontornável velhice. «Porque é que se deve ter pena de uma pessoa que está aqui, que não fala, que não sabe onde está, que se borra e se mija e que já não dá por isso?»

Que sempre o acompanhe a lucidez. E que deus, ou seja lá quem for, o proteja da decrepitude. Palpita-me ser este o seu último voto.  

 

 

É verdade que foi assediado sexualmente quando tinha onze anos?

Fui, que é que tem? Nunca foste assediada?

 

Não é de mim que estamos a falar.

Agora apareceu um novo inimigo público universal que é o pedófilo. Em relação aos homossexuais ser pró ou contra já não tem interesse nenhum. Já há paneleiros que casam e adoptam crianças, isso esgotou. De repente há aquelas raparigas da Bélgica que aparecem mortas, uma chatice, e então é a caça ao pedófilo.

 

E que tem a dizer sobre isso?

Estou a escrever sobre isso, vou fazer uma coisa chamada «O pedófilo perfeito». A aversão ao pedófilo não me ofende nada; o que me ofende é a hipocrisia do senhor Alberto João Jardim por não reconhecer que tem uma população miserável, tirando os turistas. Não se deixam morrer as pessoas à fome! Vamos lá a ver: há um mercado de rapazes na ilha da Madeira, há um mercado no nordeste brasileiro, há um mercado de rapariguinhas e de rapazinhos nas Filipinas, sei lá, naqueles países. E porque é que há mercado, essa capacidade de milhares e milhares?

 

Porque há quem procure.

Sim, isso é a lei da oferta e da procura... Mas é porque são zonas de grande pobreza e as famílias em vez de morrerem à fome mandam os meninos e os meninas para a rua.

 

Então qual é a sua posição sobre o assunto?

Ó pá, a minha posição... Eu tenho uma experiência repetida de ligações pederásticas, sexuais, esse género. Uma experiência como vítima, digamos.

 

Uma experiência como vítima e várias como agressor?

Não, como vítima tive mais experiências. Com velhas, com mulheres, com raparigas... Vinha ontem no Diário de Notícias, não sei se viste?, um inquérito de uma professora a 521 interrogados, rapazes e raparigas, sobre o assédio sexual no meio universitário de Braga e Viana do Castelo. As conclusões são que a rapariga assedia o rapaz e o rapaz assedia a rapariga.

 

É diferente. Numa situação de pedofilia existe uma criança que normalmente não tem vontade de participar.

O que é tu chamas uma criança, em relação ao sexo?

 

Alguém com dez, onze, doze anos.

Isso agora não é assim.

 

Não é assim? Então está a ver uma figura, normalmente um homem, de quarenta e muitos anos e outra de alguém que tem dez anos...

Mas isso é o que tu estás a ver diariamente na televisão e nos jornais. A ideia que está a ser instigada é a de que há um malandro, um grande malandro que anda a perseguir criancinhas, e é verdade, há alguns que andam.

 

Há ainda um outro pedófilo, o pai, o tio, o vizinho que se infiltra sorrateiramente na cama da criança. Provavelmente é mais fácil levantar o dedo ao pedófilo belga como inimigo público, mas são ambos pedófilos.

Aí está.

 

Concluindo, nem uma nem outra situação o chocam?

Não é nada disso. Mas aqui não posso ser pedófilo, com aquelas velhas queres que seja pedófilo? Aqui é o desgosto! Isto é um truque porque o que interessa é falar em sexo, sem sexo não há nada a fazer.

 

Lembra-se do que sentiu quando foi assediado sexualmente aos onze anos? Gostou?

Se não me queixei... Não sei se gostei ou não gostei, vou lá por isso. Ó pá, não é bem assédio, são encontros.

 

Foi alguém que lhe fez a iniciação sexual, digamos assim.

Ora aí é que está. Tu nunca leste A Vida Sexual do Egas Moniz, pois não?

 

Não.

Isso é ciência barata. Quando uma criança mama está a ter prazer. O Egas Moniz citava um caso de uma criança de poucos meses que se masturbava roçando-se. Havia crianças que retinham as fezes porque defecar dava-lhes prazer, isto era o que dizia o Egas Moniz, não sei hoje porque ele já está muito ultrapassado.

 

E?

Quando se fala de pedofilia é preciso ver a posição da criança. Mas agora há aquela maquinazinha que põe à frente de crianças de quatro, cinco, seis anos tudo e mais alguma coisa. Não vás atrás da conversa da super-vítima e do super carrasco.

 

Mesmo que não seja forçosamente desagradável no momento, há as marcas psicológicas que deixa para o resto da vida.

Não deixa marcas nenhumas, são casos banalíssimos. Faz favor, lá por ter sido enrabado pelo outro gajo duas vezes ou três não fiquei paneleiro. Aliás, vou-te dizer, deixou-me um bocadinho de sentimento de culpa.

 

É o que costuma acontecer.

Vou dar-te um exemplo de uma rapariga que costuma vir aqui. É uma rapariga normal, faz 28 anos para a semana. O pai forçou-a a ter relações uma porrada de tempo. Quando ela me contou, há anos, ainda me contou emocionadamente. Mas como ela é muito aldrabona, é uma mitómana, aquilo pode ser aldrabice. Esses processos não costumam ser abruptos, não é um gajo que entra ali e vai à cama da menina e estraga a menina toda. Ela teve relações com o pai durante um período grande e deve ter tirado daí algum proveito. Há umas ofertas, umas regalias. Mais tarde, deve ter-se chateado do pai, como as pessoas se chateiam do companheiro, e viu-se entre o assédio do pai e a chatice de aturar a mãe.

 

Essa pessoa que o assediou aos onze anos era próxima de si?

Estava lá em casa.

 

Nunca lhe passou pela cabeça ter uma relação desse tipo com uma filha ou um filho?

Não.

 

Nunca teve vontade?

Esse é o problema do incesto. O pai dessa rapariga não é um pai muito recomendável. Ela continua a dar-se com o pai, estava com o computador avariado e quem pagou foi ele. Não há uma repugnância total.

 

Sentiu-a em relação aos seus filhos?

Nunca me passou isso pela cabeça, nem filhos nem filhas.

 

É o seu último limite?

Estas coisas não são assim. Veio aí um tipo que me perguntou qual a diferença entre libertino e libertário. As palavras não querem dizer a mesma coisa, mas o libertino tem regras. Por exemplo, o libertino não se mete com a mulher do amigo, e aqui a mulher é casada ou namorada ou companheira, o libertino não se mete com o colega de trabalho, homem ou mulher.

 

Estava a lembrar-me da sua muito falada relação com o Cesariny.

Aí é que está giro, nunca percebi essa.

 

Nunca teve uma relação com o Cesariny?

Nunca [gargalhada].

 

Ainda hoje parece existir uma relação amor-ódio mal resolvida.

Telefonou-me para aqui uma sujeita por causa de um tipo que tem uma galeria de arte na Costa da Caparica, «Sabes que por baixo da galeria mora o Mário?» «Qual Mário?»

 

Não estava a fazer-se de desentendido, deveras?

Não, nem estava a ver o Cesariny com um andar na Costa da Caparica. O Cesariny é que é mesmo o paneleiro chapado. Agora fala-se de sexo oral e sexo anal e então há uma anedota que é assim: Uma fulana diz «Sexo oral e sexo anal» e a outra responde «Sexo oral? Também todas as horas acho muito, mas só uma vez por ano acho pouco!» [risos] Palavras vulgares como broche e levar no cu agora são sexo oral e sexo anal.

 

Voltando ao Cesariny.

Dessa eu quero falar porque aparece sempre. Há uns meses dei uma entrevista ao «Jornal de Letras», ao Rodrigues da Silva que me conhece há cinquenta anos do Café Gelo e ao tal outro gajo, o Ricardo, e estava aqui a rapariga do pai. Vieram-me com essa história do Cesariny. Julgam que tivemos relações um com o outro?

 

Sim, é o que se julga.

Ora pois não é! Porque é que não me perguntam porque é que me zanguei com a minha mulher ou com as mulheres que tive? Mais: quando o Cesariny com vinte anos – já eu era casado – não tinha tipo nenhum, não tinha aqueles ademanes, as mãozinhas, nada disso, vai a Paris e depois volta e começa a entrar no chamado paneleiro descarado, fiquei chocadíssimo! No meio de uma tradução que estávamos a fazer, passa um gajo na rua, perde a cabeça e vai-se embora, vá lá para o raio que o parta! Nós tínhamos no grupinho umas certas regras em relação ao meio literário, em relação ao surrealismo, e ele entrou na grande bagunça, tornou-se pintor! Perguntarem-me porque é que eu me zanguei com o Cesariny, tem alguma coisa a ver com paneleiragem? Era uma questão de ética, estética, camaradagem, de ele ser um tipo exigentíssimo, contra o mercenarismo na arte e essa coisa toda. As pessoas mudam muito. O Cesariny que eu conhecia já morreu há muito tempo. Tenho ali um livro do Cesariny, «O Virgem Negra», que estou farto de comprar e de oferecer, um livro de que nenhum paneleiro pode gostar, onde ele goza imenso com o Pessoa. Aquelas cartas do Pessoa à Ofeliazinha são uma baboseira pegada! Tu não conheces «O Virgem Negra»? Eu vou-to oferecer.

 

Sente muito a falta do sexo?

Não, nada [gargalhada]. Há umas raparigas que servem aqui, são mulheres casadas e avós, dão um bocadinho de animação porque aquelas velhas... Não faz falta nenhuma. Tens uma entrevista em que eu digo que desde o dia 31 de Dezembro de 1974, nunca mais dei uma foda.

 

Quantos anos tinha?

Ó pá, eu agora tenho 73. As famas são uma coisa e a realidade é outra, nunca fui um tipo muito sexuado.

 

Mais um bocadinho e diz que é pudico.

[risos] Uma coisa é luxúria mental... Leste «O Libertino»?

 

Li.

Não se passa nada, a não ser uma punheta. Não consegui engatar nenhuma miúda e não foi preguiça, estava era com uma grande dose de vinho verde, o magala ficou lá no mesmo sítio e a fama era que eu andava em Braga a engatar magalas.

 

Acha que durante este tempo todo foi mais fama que proveito?

É uma questão de capacidade física.

 

Não me diga que aos quarenta e tal anos deixa de ter capacidade física para continuar uma vida sexual.

A desproporção de gerações – tu tens o quê, ainda não tens 30? –, o abismo que há entre uma geração que nasceu sob o salazarismo, escolas só com um sexo, as putas e essa porcaria toda, e hoje, que eu faço ideia um pouco pelo que cá me chega, pelo que leio e vejo... Não faço ideia do que seria aquele encontro da juventude na Costa da Caparica, essas raves... Agora, eu dizer aqui a estas velhas que vivi no mesmo quarto com duas irmãs, que fornicava com uma na cama e ela fazia de propósito, fazia exageros para a outra ouvir; e essa ia para o emprego e a outra saltava para a cama... Eu aguentei isto oito ou quinze dias, não aguentei mais. Aquela velha que conheceste lá fora havia de dizer que isto é uma grande falta de respeito.

 

Vai dizer essas coisas às velhinhas?

Oh, divertimo-nos imenso.

 

Faz isso para chocá-las?

Chocá-las? Aquela velha é inchocável! Chocam-se agora! Aqui há uma população a quem nada choca, nem a eles nem a elas; ainda há uma minoria, muito, muito minoria, com quem se pode brincar. Os que entram agora, nem quero saber os nomes.

 

Para não se afeiçoar?

Ao fim de dois anos há aqui um pequeno núcleo de pessoas que quando morrem sinto um bocadinho. Não vou a uma coisa que acho idiota, mas são as regras da casa, que são as festas de anos, o Natal.

 

Como é que vai ser o seu próximo Natal?

Aqui! [quarto]. Não vou lá sequer.

 

Nenhum dos seus filhos o vem buscar para passar o Natal?

Não acho graça nenhuma.

 

Porquê?

Nunca festejei o Natal, acho uma festa de hipocrisia, vamos todos dar prendas, vamos todos ser amigos, vamos todos festejar o fim do século. O que é o fim do século? É uma noite e uma manhã. Achas que vai ser diferente?

 

Pelos vistos a sua passagem de ano de 74 para 75 foi diferente por ter tido a sua última relação sexual.

Isso era uma maluca de uma fulana, a tal que fazia broches de pino, fazes ideia o que é aquilo?

 

Não.

Ó pá, um gajo está deitado... Há bocado estavas a dizer sexo oral; é muito mais giro dizer broche, as palavras corriqueiras que as pessoas entendem. Olha, se fores ali à gaveta encontras um caralhinho que me ofereceram há dois ou três dias, tem sido aqui um corrupio, não é das velhas, é das criadas. Aqui não há privacidade possível, elas reviram tudo. Aqueles livros estão ali mas elas já os viram [livros de mulheres nuas posicionados na estante atrás das Contas Correntes de Vergílio Ferreira]. Deram-me aquela macacada com uma garrafa de vinho e têm vindo aí em grandes romarias. O tal de pino. Um gajo está deitado, não é?, e a rapariga faz o pino, encosta os pés à parede e começa a fazer o coiso normal. O pior é se ela se desequilibra.

 

Um número acrobático, portanto.

Um número acrobático, mas um gajo está a ver aquilo borrado de medo.

 

Porque é que nunca mais deu nenhuma?

Não calhou, não calhou. Eu tinha complicações cardíacas, tinha uma coisa muito chata: era estar na cama com uma rapariga, uma mulher casada, fosse o que fosse, e de repente ter um ataque cardíaco. Tive isso duas vezes! Não fazes ideia de como é desagradável para o tipo que está a ter o ataque e está a ver se se safa do ataque com qualquer pastilha que mete na boca e ao lado está uma pobre paciente que é interrompida e se vê na situação de ter de agarrar num morto ou fugir. Deu-me duas vezes, não me posso nem masturbar.

 

Então para que tem os livros com as mulheres nuas?

Julgas que é para ver? Tenho um gajo em Setúbal a quem vendo vinte livros. São vinte contos, faço 50% que ninguém faz, ele leva vinte livros e traz-me livros no valor de vinte contos, e o gajo é que escolhe.

 

O que significa que ter os livros das mulheres nuas ou as Contas Correntes do Vergílio ferreira é a mesma coisa?

 Isto [livros das mulheres nuas] é para me distrair daquele idiota. É que tu nunca o leste.

 

Li.

Por obrigação?

 

Não.

Mas que grande paciência, ainda tens mais paciência que eu, isso não está bem. Se pegasses nalguns exemplares ias ver comentários e anotações e perceber que ele é um idiota chapado.

 

Isto tudo vinha a propósito da masturbação. Nunca mais teve sexo na sua vida por problemas de saúde?

Ó pá, lê «O Libertino» com atenção e vês que ali há sempre maluqueira na minha cabeça. Sou um tipo muito mais sensual que sexual. O que eu arranjei durante a vida foram complicações sexuais que hoje eram inteiramente impossíveis.

 

Como beijar uma rapariga e ser preso?

São histórias do arco-da-velha em que fui sempre, mais ou menos, o estúpido da coisa. No Limoeiro apareço por um crime de estupro em que disse logo «Eu caso com a rapariga». Os padrinhos da rapariga, quando souberam que era um teso, já não queriam que ela casasse.

 

Mas a sua família tinha algum dinheiro, ou não?

Era um teso, desculpa lá, era um teso. O meu pai era um funcionário público de merda, em casa não se pagava às criadas, devia-se dinheiro à mercearia, era uma casa de tesura. Hoje os rapazes têm semanadas ou mesadas; o meu pai para me dar cinco paus era um caso sério. Eu era um teso e como tal os padrinhos da rapariga escreveram uma carta a dizer que ela era ainda muito nova e que ia tirar um cursozinho. Ela tinha catorze e eu tinha dezoito.

 

Foi o seu primeiro amor, a Helena?

Não foi amor nenhum, era a estopa ao pé do lume. Há uma rapariga de catorze anos, virgem, e há um rapaz de dezoito, pouco menos que virgem e com uma experiência sexual mínima e degradante.

 

Qual foi a sua primeira experiência sexual com mulheres?

Com uma puta de vinte escudos, com uma gaja do antigo Martim Moniz que tinha a alcunha de Arco Royal, sabes o que era um Arco Royal? Era um monstro, um porta-aviões americano por vinte escudos. Eu estava a fornicar a rapariga e ela estava a comer uma maçã, o que não é propriamente entusiasmante. Aquilo foi arquitectado com um colega de liceu.

 

Que idade tinha?

Tinha treze, catorze anos. Mas com essa idade batia-se muita punheta. Ao lado uma rapariguinha de muita mama, muito rabo... Ó pá, há uma atracção mútua, há um convívio que vai aumentar uma intimidade e chega-se a vias de facto.

 

Não fala com nenhuma das suas mulheres?

Esta já morreu, não fui ao funeral porque estava em Setúbal. A minha filha perguntou-me em que freguesia tínhamos casado por causa de umas papeladas. Casei no Limoeiro, não podia sair sem casar, era a freguesia da Sé ou coisa que o valha.

 

Como foi com os filhos?

Com os filhos foi muito mais grave. Hoje já não é: a fulana leva um filho ou dois da primeira organização, o fulano leva outro tanto. Naquela altura havia ciúme que não era ciúme de paixão, era ciúme de cagança. Sabes que o Casanova para o fim da vida estava num castelo, um príncipe qualquer pô-lo a comer e a beber lá na Boémia; então o Casanova, que era desprezado pela criadagem, estava lá no quarto a escrever as memórias para recordar os bons velhos tempos. E eu aqui também. E perguntam-me «Você está a escrever sobre isto?» Eu?, mas isto aqui é para esquecer. Há um ano decidi escrever sobre umas partes gagas que me aconteceram a ver se engreno.  

 

Voltando aos seus filhos. O Paulocas é com quem tem uma relação mais próxima, não é?

Devia ter, o Paulocas mora a cinco minutos; ele agora é assessor do presidente da câmara. Julgas que me aparece aqui? Passam-se meses que não o vejo.

 

Quem é que o vem visitar?

Filhos, eu não chamo cá ninguém. Eles fizeram-me uma macacada, uma experiência desagradável. Eu estava em Setúbal num apartamento e pagava cinquenta contos de renda. Para aqui trouxe esta cadeira, a televisão, aquele móvel e mais uma mesinha que está para aí caída.

 

Resume-se a isto o espólio de uma vida?

Isso é outro assunto. Com um bocadinho de lucidez percebe-se que a pessoa que mais tem não precisa de nada porque morre. Isso dá-me um grande desprendimento em relação à parte material. Eu não fazia isto [livros] se não tivesse de arranjar cinquenta contos por mês, que não tenho. Queria lá saber desta merda, estava a ler ou a reler o Vergílio Ferreira só para me chatear e sublinhar os livros. Isto, além de ser uma mola para eu pensar de noite, como é e como não é, é uma forma de estar cá e estar lá fora. Sabes como é que a enfermeira chama a um gajo que anda aí? «Ah, aquilo é como se fosse um vegetal»! Àquela sala que tu viste eu chamo a horta. Entre o gajo que está a dormir e o sofá a distinção não é muito grande. Pago 185 contos por mês. Mas não é só isso: os remédios são à parte, se for de ambulância ao hospital é à parte.

 

Como é que arranja os 185 contos?

Tenho 120 por mês da SEC.

 

Foi um subsídio conseguido pelo Mário Soares?

O Mário Soares não tem nada a ver, é tudo conversa de chacha. Desde o 25 de Abril que os partidos no poder ou próximos do poder começaram a arranjar dinheiro para pessoas amigas, para os militantes, para os menos militantes, para as clientelas partidárias. Então começou a haver subsídios mensais para escritores e artistas. A Natália [Correia] deu ao Herberto Helder, por exemplo. E quando o Balsemão foi para ministro tinha um saco azul no ministério da cultura de umas centenas de contos por mês; e o Alçada Batista que me tinha encontrado perguntou: «Ó Pacheco, a si não lhe dava jeito um subsídio?» Caramba! Oito contos em 1977, pensei logo que aquilo não me calhava a mim, se fossem dois ou um... A reforma que eu tenho é de funcionário público, dá-me trinta e dois contos e seiscentos. O subsídio da SEC por mérito cultural começou por ser de dez contos, depois quinze, quando vim para aqui era noventa e quem me arranjou uma diferença grande foi aquela Maria João Duarte. A Sociedade Portuguesa de Autores dá-me oito contos e quinhentos por mês e depois mandam-me o papel para eu assinar, só que este ano não devolvi os recibos porque me aumentaram quinhentos paus. Ó pá, das duas uma, ou o subsídio é fixo ou não aumentam quinhentos paus a um gajo que tem 73 anos! Uma casa daquelas que rouba à maluca nas cassetes, nos cafés e nos taberneiros?

 

É com isso tudo que paga o lar?

Quando vim para cá mandei o primeiro recibo para a SEC, vim em Outubro e mandei o recibo em Novembro. Em Janeiro estava com um ataque cardíaco ou diabetes ou uma quebra de tensão, telefonam e era uma rapariguinha cheia de emoção a comunicar que o ministro tinha assinado um despacho e que o meu subsídio tinha sido aumentado em trinta contos. Nessa altura escrevia crónicas para o «Diário Económico», pagavam-me trinta e cinco contos por crónica e havia meses de cinco quartas-feiras.

 

Como não está agora a escrever crónicas viu-se na contingência de compilar estas para fazer um dinheirinho?

Não foi bem contingência, também foi um bocado de gosto. Não estou nada preocupado, tenho aqui umas largas dezenas de contos em livros e ali estão centenas de autógrafos, de cartas.

 

Autógrafos de quem?

De toda a gente que neste país é gente. Queres ver o que me apareceu hoje no correio? Tenho um autógrafo do Ferro Rodrigues, o ministro, que vale dinheiro Eu era amigo do pai, nem pedi dinheiro nenhum pelo livro e ele mandou-me três contos. Isto vale dinheiro, se eu quiser vender; não vou vender, mas isto vale dinheiro.

 

Quem é que compraria isto?

Coleccionadores de autógrafos malucos. Vendi cartas que escrevi a um amigo a um gajo de Lisboa por cento e cinquenta contos; depois arranjei mais umas quantas e ele deu-me mais sessenta.

 

Ou seja, tudo é forma de ganhar dinheiro.

Fiz muita massa com o «Memorando» e comecei a ter uma conta no banco que nunca tinha tido, seiscentos, setecentos contos.

 

Nunca tinha tido tanto dinheiro?

Nunca tinha tido conta num banco! Ah, comprei um telemóvel daqueles de oitenta contos, está para aí, já não funciona. Mas o telemóvel é uma sujeição, um gajo está sempre ao dispor do outro que quer falar. Tive de comprar um multibanco por causa do telemóvel.

 

Como é que fazia para levantar dinheiro?

Ó pá, isto faz-vos muita confusão porque vocês vivem nos cartões de crédito.

 

Que fez aos setecentos contos?

Distribuí pelos filhos e comprei umas coisas para mim. Comecei a ficar chateado de estar ali sozinho, com falta de visão, com medo que o leite viesse por fora porque me distraía com qualquer porcaria que estivesse a dar na televisão. Quando o Paulo me mostrou isto, pensei: «Já está, é para ali que vou». Os meus filhos ficaram assustadíssimos, a não ser a minha filha mais velha. Antes de me dar uma congestão, de ficar cego, de ficar todo empenado, era preferível recolher-me numa casa destas onde há apoio permanente, dia e noite, eles vêm aqui de noite. Claro que se morre, morre-se à mesma, mas tem-se um amparo. «O pai tem dinheiro para isso»? Mas quando eu mandava o cheque não perguntavam se o pai tinha dinheiro. Tinha esta coisa de os filhos não serem criados comigo, não quer dizer que os desprezasse, mas tinha a minha vida de escritor ou de editor ou de maluco ou coisa que o valha.

 

Eles sempre o entenderam? Sente que gostam de si?

Gostam merda!, gostam tanto de mim como eu gosto deles.

 

Neste livro há uma crónica sobre o Miguel Esteves Cardoso onde diz que o lia porque queria perceber melhor os seus filhos e os seus netos.

Sim. Olha, li o Mário de Carvalho porque o Paulo gostava dele. Há um estilo de vida que eu conheço, um pouco através do que eles gostam, do que eles lêem. Uma está na Turquia, outro em França, há assim quatro ou cinco com quem tenho mais relações; e foram esses que a minha filha assustou dizendo «Vamos ajudar o pai». Por isso, a minha mudança de Setúbal para aqui foi feita com a ajuda dos camaradas do Partido Comunista, uns amigos e umas amigas.

 

Ainda sonha levar a bandeira do Partido Comunista sobre o caixão?

Por acaso achava graça mas agora devo lá quotas. Sempre tive muita inveja do Ary dos Santos (nós detestávamo-nos um ao outro). O caixão subiu com a malta a dizer «Ary amigo, o povo está contigo».

 

De quem é que sente mais inveja?

De ninguém. Morreu o [José Cardoso] Pires, para mim foi uma aposta: ou ele ou eu. Agora já posso morrer mais descansado, isso é que é importante, não é lá a bandeira.

 

Não ficou comovido com a morte do Cardoso Pires?

Fiquei satisfeito! Tudo na vida do Pires, desde há muitos anos, era o meu oposto. Nós éramos companheiros do Liceu Camões. O Pires era um tipo profissional, como escritor era de uma grande capacidade, de um esforço, isso faz favor. Nós éramos para ir para a Marinha Mercante os dois, o pai do Pires era um tenente tarimbeiro. Ele começou a escrever e a publicar muito primeiro que eu. Depois ele entrou para Ciências e para o Partido e as vidas separaram-se; e as vidas são encontros.

 

Ouvindo tudo isso custa a crer que não sentiu qualquer comoção com a notícia da morte dele.

Até te digo mais, uma vez encontrei na Estrela o Saramago, que vinha do hospital, e disse-lhe: «Não te deixes ir abaixo que temos de ir ao funeral do Cardoso Pires». A rapariga [animadora do lar] trouxe para aqui «O Delfim» e o «Alexandra Alpha». «O Delfim» comigo tem uma grande história porque levei-o para o Limoeiro e ninguém ficou com ele. Mas «O Delfim», em relação ao outro, é uma obra-prima; no «Alexandra Alpha», como escritor, ele já está morto.

 

Qual é o seu prazo de validade?

É o que estás a ver, tu é que podes dar uma ideia a esse respeito.

 

Logo na primeira página d’ «O Libertino» há uma referência à morte: «Como morrerei, colapso, desastre, loucura súbita e logo suicida?».

Isto é uma boa experiência, sabes porquê? Porque não dá vontade de viver muito tempo. A degradação física e mental a que aqui se assiste... Em três meses envelheci dez anos, é inevitável. Vais no corredor e vês um gajo numa cadeira de rodas ou um gajo com um passinho assim-assim e tens de fazer um passinho também assim. E depois não tenho dinheiro para me tratar! Precisava de ir a um bom médico dos ouvidos ou pôr um aparelho, ir a uma médica dos olhos e pôr dois pares de lentes novas.

 

Como acha que vai ser a sua morte: colapso, desastre, loucura?

Loucura, a que tenho é a que já tinha. Colapso, quando me deito tenho uma frase estúpida mas matemática: mais um dia, menos um dia. Nunca julguei aguentar aqui um ano.

 

Apesar de se sentir depauperado, este é, provavelmente, o sítio onde vai acabar os seus dias.

Sei lá, não me interessa pensar nisso.

 

Que coisas gostava ainda de fazer?

Não faço ideia. É a caminhar que se faz o caminho, não é? Um gajo chega à mesa e a conversa é: 13-7, 14-9, que são as tensões arteriais; o da frente não caga há quatro dias, sete dias, dêem-lhe um purgante ou um clister!; o outro está com a dentadura na mão, estou a comer a sopa e vejo ao lado um gajo a olhar para a dentadura. Que horas são?

 

Cinco e meia.

Tenho de tomar esta merda, este é para a asma e este é para a angina de peito.

 

Quem é que acha que vai chorar por si?

Ninguém vai chorar por mim, para que é que haviam de chorar? Um homem chora, não é? Com toda a franqueza eu ainda fico chocado, magoado, mas chorar não me é muito fácil. As pessoas têm pena quando alguém morre? Porque é que se deve ter pena de uma pessoa que está aqui, que não fala, que não sabe onde está, que se borra e mija e que já não dá por isso? Isso é que me faz impressão. Eu, por enquanto, ainda não cheiro a mijo. Mas arriscar-me a sair daqui? 

 

 

 

 Publicado originalmente no Diário de Notícias em Dezembro de 1998

Luiz Pacheco morreu em  2008

Foi muito bonita a festa, pá!

30.10.18

1.

Salgueiro Maia exigiu ser sepultado em campa rasa e sem honras de Estado. Maia comandou a coluna de tanques que saiu de Santarém e que teve a delicadeza, o civismo, o sonho de parar num semáforo antes de derrubar a mais longa ditadura da Europa. Primeira imagem do 25 de Abril: a cara de menino de Salgueiro Maia. Primeiro gesto da dimensão do irreal: respeitar o vermelho, olhos postos no verde, numa noite ainda escura.

Poderia Salgueiro Maia adivinhar que passados 22 anos sobre a sua morte, e rentes aos 40 anos desse dia inaugural, falaríamos da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão? Porque foi tão explícita e veemente a decisão no seu testamento? Campa rasa e sem honras de Estado. Como quem quer deixar o Estado de fora disto. Ele que comandou no terreno uma operação genial para mudar o Estado e torná-lo, de novo, parte disto. E, sobretudo, a campa rasa, sem os arrebiques e salamaleques que também acompanham a morte, algumas mortes.

Uma campa de pessoa do povo. Maia tinha orgulho em ser povo. Foi por ele, povo, que disse as famosas palavras: “Como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos.”

Correram os anos. Maia recusou cargos e honrarias, o Estado recusou pensão à sua família. Estudou Ciências Políticas. Desiludiu-se com o outro estado a que chegámos, depois de tudo se ter levantado de uma folha branca, e ainda tão longe deste estado a que chegámos.

Mas os estados não podem senão mudar, e levar-nos na enxurrada da desilusão.

Não é crível que tenha lamentado por um momento os passos daquele dia longo em que era capitão. Nas fotografias parece um rapaz de uma sensatez de aço, elegante como um cavaleiro.

Maia é o povo, o povo que está no coração da História e que é herói. Qual é o lugar dos heróis? E qual é a sua, a nossa, a definição de herói?

Agora o povo está zangado. Com o péssimo que isto está, com o que fica por punir, com o que apanha no ar e não consta nas estatísticas. Zangado e com uma granada no lugar do peito que se chama injustiça. Qual foi o estado a que chegámos? Foi mesmo bonita a festa, pá?*

 

* Foi Bonita a Festa, Pá – de Tanto Mar, tema composto por Chico Buarque para a revolução dos cravos (primeira versão em 1975, segunda em 78).

 

2.

Vejamos as fotografias. A euforia que faz levitar é a do primeiro de Maio, dissipadas as dúvidas. Numa semana, o mundo parecia edificado em certezas.

Uma semana. O tempo que mediou o noivado e o casamento. Todos assistiram à festa. Uma gaivota voava, voava. Um milhão de pessoas na Alameda. Só não estavam os fascistas. Também já tinha diminuído drasticamente o número de fascistas. Porque no dia seguinte todos tinham sido opositores a Salazar, todos tinham sido perseguidos ou presos. A efabulação (de que Adelino Gomes fala numa entrevista com Alfredo Cunha ao PÚBLICO) tinha começado e era transversal. A memória colectiva, inevitavelmente reconstruída, tinha incorporado distorções, inexactidões. Mas eram boas memórias. E aquilo foi uma festa.

Agora lemos o que dizem Os Rapazes dos Tanques sobre o que está pior, e lemos sobre o abismo entre a classe política e o povo. A classe política dos últimos vinte anos. Lemos sobre “a cambada que nos está a dirigir”, “o descrédito da classe política”, “os governos que deram cabo disto, e o caraças”, a “a classe política mais ordinária da Europa”, “uma classe política sem nível e sem sentido de Estado”. Não só isto, mas constantemente isto. Não só isto porque, apesar disto, isto é melhor do que o que havia. Globalmente de acordo em relação a isto. Comprova-o uma sondagem do Instituto de Ciências Sociais (ICS). 58% dos inquiridos consideram o 25 de Abril mais positivo do que negativo. Da esquerda à direita.

Diz o então cabo apontador Vítor Ribeiro Costa no livro de Adelino Gomes e Alfredo Cunha: “O 25 de Abril não trouxe nada de pior. Para a maioria das pessoas, o pior que temos hoje é melhor do que tivemos com Salazar e Marcelo”.

Quando é que começou a aparecer o ponto de interrogação e, repetindo os versos de Chico Buarque, se procurou o restinho de alecrim, a semente esquecida nalgum canto do jardim?

 

3. 

- Quando é que o senhor começou a trabalhar?

- Aos 12 anos.

- Os seus filhos, quando é que começaram a trabalhar?

- Depois da faculdade, fez tudo a faculdade.

- E diz que antigamente é que era melhor?

Irene Flunser Pimentel (1950) travou esta conversa com um taxista, recentemente, em Lisboa. O discurso saudosista do antigamente é uma praga com que a historiadora (de esquerda) lida amiúde. “É verdade que hoje podem ir para a faculdade e ficar desempregados ou ter que emigrar. Mas é outra situação.”

Quão outra situação? Números. Em 1974, estavam inscritos no ensino superior 50 mil alunos, 7% daqueles que estavam em idade de o fazer. Tem-se noção da explosão quando comparamos com os dados de 94. Número de inscritos: 270 mil, 30% dos que tinham entre 18 e 22 anos. (Fonte: A Situação Social em Portugal, 1960-95, organização de António Barreto) Em 2000, eram 350 mil inscritos, 53% dos que tinham entre 18 e 22 anos.

Há um cifra que diz respeito à totalidade da população e que esmaga. Em 1981, quase metade da população com mais de 30 anos não tinha a quarta classe, e 28% não sabiam ler nem escrever. Já a revolução tinha sido e o caminho começado. E no bilhete de identidade carimbava-se “não sabe assinar”. E atestava-se que aquela pessoa era aquela pessoa pela impressão digital. Quase sempre um dedo grosso, pesado. Mão de quem trabalha. Do povo.

Não é novidade para ninguém quem é que ia à escola, quem é que prosseguia a escola, quem é que chegava à universidade. E por isso o 25 de Abril representa a ruptura com o “fatal como o destino”, permite “sair da cepa torta”.

Maria de Lurdes Rodrigues (1956), ex-ministra da Educação (2005/2009) e autora e coordenadora, entre outros títulos, de Políticas Públicas em Portugal (2012, com Pedro Adão e Silva): “O insucesso escolar, como conceito, não existia. A confirmação do acesso à escola como um direito de todos propicia a ascensão social. Numa sociedade estratificada como a portuguesa, onde as pessoas terminavam no ponto onde tinham começado, o conhecimento começou a contar como factor de mobilidade social.”

O taxista que transportava Irene Flunser Pimental falava com orgulho e zanga. Orgulho no esforço que fez para que os seus filhos conseguissem. Orgulho no que os filhos conseguiram. Talvez tenha esquecido o que o Estado fez para que os filhos tenham conseguido.

A educação, o acesso universal à educação, faz parte daquilo a que Tony Judt chamou a “banalidade do bem”, explica Irene Flunser Pimentel. A expressão de Judt é uma forma não poética, mas concreta de falar do Estado Social, conquista da Europa que se ergueu sobre as ruínas da Segunda Guerra e que em Portugal se cimentou no pós-revolução.

O Estado Social é a jóia que ninguém quer empenhar, quanto mais perder. É o anel que resta quando, a alguns, não resta a certeza de haver dedo. E é o anel que os mais jovens se habituaram a ter como uma espécie de sexto dedo.

Houve mesmo um tempo em que os nossos pais, os nossos avós não iam à escola ou começavam a trabalhar depois da quarta classe, a alombar madeira, pedra, por meia dúzia de escudos? Isto com dez, 14 anos. Parece um tempo tão longínquo como o tempo dos reis de Portugal.

O cientista político Pedro Magalhães (1970) contou aos filhos que o seu pai fazia cinco quilómetros a pé, todos os dias, para ir à escola. No profundo Trás-os-Montes. Cinco quilómetros, sob o sol, a chuva, o frio que se entranha nos ossos. “A sério?, mesmo com neve?” Miúdos incrédulos. Zero de atitude prosélita, zero do sermão “e têm muita sorte por não terem as mesmas dificuldades”. Foi só uma história espantosa para um coração esperançado (como deve ser o das crianças de dez anos). Em duas gerações, andou-se isto.

O Estado Social é o que podemos apontar quando nos perguntamos pelo que correu bem. Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio defenderam-no numa conferência na Gulbenkian sobre os 40 anos do 25 de Abril. No mesmo dia, na celebração organizada pelo Expresso, SIC e ICS, uma sondagem indicava que o povo – o povo-Salgueiro Maia que percebe muito bem o estado a que vamos chegando – considera que estamos melhor na assistência médica, na educação (70%) e na segurança social (46%). Melhor agora do que no antigo regime.

“A educação e a saúde foram as grandes conquistas da democracia. Não tem grande importância que o Estado Social esteja falido. Está em toda a parte”, afirma André Gonçalves Pereira (1936), advogado e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros (1981/83). “É melhor ter um Estado Social falido do que não ter Estado Social nenhum, obviamente”.

O programa estava no essencial escrito numa canção de Sérgio Godinho de 1972. “A paz, o pão, educação, saúde, habitação”. Arranque a seco, grito no refrão: “Só há liberdade a sério quando houver...”. O programa estava no texto (1942) de William Beveridge que serviu de matriz à criação do Estado Social na Europa. O economista apontou os núcleos: ensino, protecção na doença, protecção na velhice, protecção no desemprego e habitação.

Com isto fazia-se O Portugal Futuro do poema de Ruy Belo “aonde o puro pássaro é possível/ e sobre o leito negro do asfalto da estrada/as profundas crianças desenharão a giz (...) Mas desenhem elas o que desenharem/ é essa a forma do meu país/ e chamem elas o que lhe chamarem/ Portugal será e lá serei feliz”.

O poema de 1972 de Ruy Belo desenha uma ideia de felicidade, adivinha a cara que as pessoas vão ter em Abril de 74, a confiança ilimitada no futuro, o sorriso. Está tudo nas fotografias daquele tempo. Era uma vez um país.

 

4.

Toca a fazer. A partir daquele “dia inicial inteiro e limpo/onde emergimos da noite e do silêncio”, versos-síntese de Sophia de Mello Breyner, toca a fazer. Até porque “Quem não faz, não vive, apenas dura”, disse outro português (Padre António Vieira).

E outro disse “Quanto faças, supremamente faz” (Fernando Pessoa). Toca a fazer. Supremamente. Mas como se faz um país livre?, como se concretizam projectos díspares, contraditórios, o meu 25 de Abril e o teu 25 de Abril? Os caminhos do fazer dividem-nos.

Entretanto os soldados regressaram a casa. Não foi “nem mais um só soldado para as colónias” (frase do MRPP). Foi (acima de tudo) para acabar com esse estado de coisas – a guerra – que se fez esta revolução. O meu pai regressou a casa, o que não interessa senão para a minha história e a da minha família. Muitos pais regressaram a casa, o que interessa para as histórias de muitas famílias. O meu pai, que não tinha estado quando comecei a andar ou a falar, regressava. Os nossos pais, os da geração a que pertenço, nascida na década de 70, regressaram dos cus de judas marcados pela guerra. Muitos mais não chegaram a ir. No dia 25 de Abril acabou-se com a ditadura, acabou-se com a guerra. No dia 1 de Maio não se combatia. O meu pai contou-me que a 10 de Junho fizeram uma festa na messe em Angola, cantaram canções de Zeca Afonso. Regressou daí a cinco dias.

Entretanto os políticos e o povo gizaram no asfalto as grandes linhas do puro pássaro, respondendo ao momento.

 

5.

- Quais foram os momentos fracturantes destes 40 anos de democracia?

- As nacionalizações de 11 de Março de 75, as eleições para a Constituinte no dia 25 de Abril de 75, a chegada de meio milhão de retornados entre Abril e Novembro de 75, o 25 de Novembro de 75, a Constituição de 2 de Abril de 76, a revisão do Código Civil em 77, a extinção do Conselho da Revolução em 1982, a abertura do mercado bancário à iniciativa privada em 84, a entrada na CEE em 86, as privatizações a partir de 90, o Euro em circulação a 1 de Janeiro de 2002, a crise mundial de 2008.

As grandes fracturas que não têm data de ratificação: a criação do Estado Social, o desenvolvimento do país, o estatuto da mulher, a eclosão da classe média que solidifica a democracia.

A primeira de todas: o 25 de Abril, que permitiu liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres, direitos e garantias consagrados. Falar sem ter medo. Falar sem procurar escutas debaixo da mesa. Andar na rua sem procurar a sombra que vigia e delata. Poder espichar numa parede O Povo Unido Jamais Será Vencido. Ter voto na matéria, qualquer matéria.

Acreditar.

 

6.

As nacionalizações, pela historiadora (de direita, então feroz esquerdista) Maria de Fátima Bonifácio (1948). “Foi uma devastação da nossa economia. Custaram anos de atraso ao país. Não foi só a banca, e a banca foi um disparate. Nacionalizaram-se vãos de escada. Era jornalista. Cheguei a fazer a cobertura de uma tinturaria que tinha sido nacionalizada. A ideia de que no Alentejo se nacionalizaram grandes herdades abandonadas é falsa. Estabeleceu-se um método de calcular o valor das herdades através de uma pontuação que valorizava tudo o que era regadio, maquinaria, gado; e foram essas explorações, que estavam a ser bem exploradas, que foram nacionalizadas. O que não se nacionalizou foi o que estava ao abandono.”

Do outro lado: a terra a quem a trabalha, as fábricas a quem lá produz. Vamos corrigir o sofrimento e a injustiça. Socialismo aqui e já.

 

7.

As eleições, um ano depois da revolução. O cumprimento do D de Democracia. Filas intermináveis para votar. Afluência às urnas de 90%. Irene Flunser Pimentel: “É admirável que pessoas que estiveram tantos anos afastadas da política, debaixo de um regime ditatorial, votem em massa de forma entusiástica e organizada. Traduz uma aprendizagem da política muito repentina”.

Homens e mulheres. Agora também mulheres, quaisquer mulheres, e não apenas chefes de família e licenciadas. A emancipação começava. Mas do movimento tectónico que o 25 de Abril representou na vida da mulher fala-se mais à frente.

 

8.

“Então a metrópole afinal é isto” – escreveu Dulce Maria Cardoso no livro O Retorno.

Entre Abril e Novembro de 1975 chegaram 400 mil “retornados”, “a falar das coisas de lá, a minha casa isto a minha casa aquilo, deixei lá isto e aquilo, os tiros isto os morteiros aquilo”.

A grande equação desse tempo e do tempo futuro: e agora? Como se refaz a vida, como se lida com a perda? Uma mão à frente e outra atrás.

Descolonizar, o outro D, por André Gonçalves Pereira: “Muitas pessoas consideram que a descolonização foi o que correu pior. Não concordo inteiramente. A descolonização correu mal como não podia deixar de correr. Foi a descolonização possível, que começou com 15 anos de atraso”.

Quinze anos antes, a guerra.

Para muitos não era um retorno uma vez que nunca aqui, na metrópole, haviam estado. Era em todo o caso um exercício hercúleo para milhares de “desterrados”. É assim que Dulce Maria Cardoso lhes chama, é a eles que dedica o livro. “Três malas e vinte contos é tudo o que temos até resolvermos a vida. Resolver a vida é o que mais se ouve entre os retornados”.

Rui Pena Pires (1955), especialista em movimentos migratórios, chegou de Angola em Setembro de 75. Olha para o fenómeno com olhos de sociólogo. “Os retornados voltam ao seu ponto de origem, espalham-se pelo país. É o contrário do que acontece em França, com os pied noir a concentrarem-se em Marselha. A dispersão transforma o fenómeno num fenómeno nacional. Os retornados são em média mais qualificados, empreendedores. Houve um período em que um terço dos patrões (de indústria, comércio e serviços) em Trás-os-Montes eram retornados. Trazem diversidade religiosa (aparecem os primeiros grupos de muçulmanos). Quebram o grau de homogeneidade que havia (chegam mestiços). Constituem uma população maioritariamente de direita, furiosa com a descolonização. Mário Soares centraliza ódios.”

Ah, e os retornados aprenderam o que são frieiras e cieiro, lê-se em O Retorno. Trouxeram mini-saias, roupa descapotável, a liberalização dos costumes, a ideia de uma vida livre, com espaço a perder de vista, que tinham nas colónias. Uma certa forma de calor.

Integraram-se sem rupturas e convulsões sociais. Um êxito, também do novo poder local.

 

9.

O golpe militar contra-revolucionário de 25 de Novembro por Henrique Granadeiro (1943). “Foi o realinhar das coisas em conformidade com o projecto inicial. Havia um desvio que defraudava a generalidade das pessoas, que não queriam substituir uma ditadura por outra. A tentativa de implementação de uma sociedade socialista já tinha aspectos evidentes. Cartilhas, saneamento, violência.”

O que houve entre 25 de Abril de 74 e 25 de Novembro de 75? Num ano e meio fez-se a revolução, começou um novo calendário, e com ele a corrupção do sonho. As dificuldades típicas do momento em que a minha liberdade começa a ocupar o espaço da tua. As dificuldades típicas do momento em que a revolução é minha e faço com ela o que eu acho que deve ser feito. Eu e o meu grupo político. E toda a gente tinha um grupo político.

Ramalho Eanes foi o responsável pelo plano de operações do golpe, não deu espaço às pressões dos radicais. Rematou-se um Verão Quente. O PC saiu derrotado. Ideologicamente foi um marco.

Henrique Granadeiro foi chefe da Casa Civil de Eanes entre 1976/79. O seu discurso é o dos vencedores do 25 de Novembro.

O historiador Pacheco Pereira, que organizou na Assembleia da República uma exposição que comemora os 40 anos da democracia, considera que foi nesse período que nasceu a democracia. “Quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril. O PREC teve excessos e houve mortos e gente que mandou matar, mas a verdade é que foi naqueles anos turbulentos que nasceu a democracia portuguesa”, disse numa entrevista recente ao jornal i.

 

10. 

Constituição de 76. “É o primeiro instrumento organizador do que vamos ser”, sintetiza Maria Manuel Leitão Marques (1952), professora universitária e ex-Secretária de Estado da Modernização Administrativa (2007/11). “Tudo o resto é afinado a partir daí. Há coisas que são muito alteradas nas revisões constitucionais, mais na organização do poder político (sobretudo em 82) e da economia (em 89), menos nos direitos e deveres fundamentais.”

No princípio, nessa magna carta, estava escrito que devíamos caminhar para o socialismo. Que socialismo? Que caminhos? A questão não é despicienda, porque mexe com um entendimento do que a democracia deve ser. E porque, sustenta Pedro Magalhães, “a maioria das pessoas tende a associar – e intensamente – liberdade de expressão, liberdade de associação e eleições livres a justiça social, segurança e prosperidade económica.”

Esta era a promessa, reflectida na Constituição de 76.

Um equívoco, considera Maria de Fátima Bonifácio. “As pessoas habituaram-se a usar democracia e bem estar económico como sinónimos. No meu ponto de vista, democracia [corresponde] a liberdades, direitos, a um Estado de Direito, ao Serviço Nacional de Saúde (que é uma aquisição civilizacional, mesmo que não faça sentido eu pagar o mesmo que a minha empregada por uma radiografia). Mas a democracia não são os ténis da Nike. A democracia pode ser mais redistributiva ou menos, conforme o Governo for mais social democrata, menos social democrata. Em si mesma, não promove o crescimento e o desenvolvimento económico. A prova é que a Europa está em recessão há anos e promete continuar a arrastar os pés.”

Esta associação entre prosperidade, bem estar e liberdades cívicas não é exclusiva de Portugal. “É característica de democracias mais pobres e de democracias mais recentes” especifica Pedro Magalhães. “Os EUA, a Suécia, a Noruega dizem que democracia corresponde a liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres”.

Esta é uma das pistas para compreender a nossa zanga com a democracia. “As pessoas sentem que ainda não receberam dela o que estava prometido”, diz o cientista político. “As democracias nórdicas, que queremos ser há 40 anos, têm menos corrupção, melhor governo, são menos desiguais, têm nível de vida médio mais elevado. Têm o pacote completo.”

O pacote completo que o povo também quer. Não foi (também) para isso que se fez uma revolução, pá? Portanto porque é que não o temos, grita o povo. “Porque 40 anos é pouco tempo”, conclui Pedro Magalhães.

 

11.

A Revisão do Código Civil em 77 consagra a igualdade constitucional entre homem e mulher em toda a vida familiar.

Era o momento das mulheres. “Os homens ganharam liberdade política. As mulheres ganharam tudo. Ainda me lembro que a minha mãe tinha que pedir autorização ao meu pai quando queria passar férias comigo, em Berkeley. Ou quando quis comprar um carro. A minha mãe era uma alemã que cresceu nos anos 20, em Berlim. Imagine.” Alexandre Quintanilha (1945), cientista. Os pais viviam em Moçambique. Lá como cá, o homem tinha o direito de ver a correspondência da mulher. Um contraste absoluto com o ambiente da baía de São Francisco, onde Quintanilha trabalhava e vivia.

Veio a Portugal em 1979 com o então namorado hoje marido Richard Zimler.

Entretanto a célula da família mudou tanto que é possível escrever banalmente “o então namorado hoje marido”. Como se o casamento homossexual não fosse um tema fracturante (expressão que não se usava e agora se usa).

Entretanto também o sexo deixou de ser um tema fracturante. “Já não passa pela cabeça de ninguém criticar uma mulher por ter tido relações sexuais antes do casamento. Há uns anos, se a mulher não fosse virgem, tinha um nome”, nota Quintanilha.

O casal mudou-se para Portugal em 1990. Casaram em 2010 poucos meses depois da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas quando vieram juntos pela primeira vez encontraram um país “medieval”.

Não havia jornais estrangeiros, levava-se um dia para chegar a um lugar mais recôndito, esperava-se meses – ou anos – que instalassem o telefone em casa. E ficava-se à mercê das pessoas que se conhecia e que podiam aligeirar o processo. “Eu telefono ao senhor não sei quantos e ele trata disso – diziam-me. Ou éramos ignorados porque ninguém nos conhecia ou éramos tratados como príncipes porque trazíamos recomendação.”

Diagnóstico: arbitrariedade e ineficiência do sistema. Palavra de todos os dias: meter uma cunha. Cunha em modo soft.

Mais à frente, quando o dinheiro começou a ser a sério, meteram-se cunhas a sério. Algumas eram tão a sério que passaram a chamar-se corrupção. Mas isso é mais à frente.

As mulheres, para já. Uma das primeiras manifestações, logo depois do 25 de Abril, teve que ver com a proibição do divórcio dos que eram casados pela igreja – a esmagadora maioria.

Irene Flunser Pimentel: “Fez-se um comício. Pela primeira vez uma mulher foi oradora principal. A questão do divórcio tocou homens e mulheres. Muitos deles tinham amantes, filhos ilegítimos”.

Porque é que isso constituía um drama? Porque homens e mulheres separavam-se e continuavam casados com os antigos maridos e mulheres; porque viviam com outros e continuavam casados com os anteriores; porque tinham filhos das novas relações e não os podiam perfilhar. Numa linha: não era possível dissolver uma família e constituir outra.

Em 1975, o ministro da Justiça Salgado Zenha reviu a Concordata com a Santa Sé. Passou a ser possível o divórcio entre casados pela igreja.

Número de divórcios em 1965: 600. Em 1975, há 1500. Em 1977, há 7700.

A completa igualdade entre filhos e entre homem e mulher, que resulta da Constituição de 76, é incorporada no Código Civil de 77.

 

12.

A extinção do Conselho da Revolução em 82 e a criação do Tribunal Constitucional. Henrique Granadeiro: “Do ponto de vista simbólico, é um grande momento. Do ponto de vista prático, nem tanto. O general Eanes era presidente da República e chefe do Estado Maior das Forças Armadas, era o vértice do encontro do poder militar com o poder civil. Foi enviando a tropa para os quartéis e valorizando a política nas instituições. A extinção do Conselho da Revolução foi a morte natural de um processo que veio a ser conduzido por ele desde o primeiro momento, de forma discreta e sistemática.”

 

13.

Um não momento: o bloco central liderado por Mário Soares e Mota Pinto pede ajuda ao FMI em 83. Os portugueses habituam-se a ver Teresa Ter-Minassian na televisão. José Mário Branco compõe o disco FMI.

Um não momento porque somos essencialmente os mesmos depois dessa passagem ou da passagem de 77. Ao contrário do que acontece com a presença da Troika desde Abril de 2011.

Então tínhamos moeda própria, inflação e desvalorização. E a Europa era um oásis próximo. José Medeiros Ferreira, sonhador da pertença à Europa e ao mundo, havia feito o pedido de adesão quando era ministro dos Negócios Estrangeiros (1976/78). Esse sim, um momento.

 

14.

Outros gráficos. Taxa de mortalidade infantil: 55 por mil nados-vivos em 1970. Oito por mil em 1994. Três por mil em 2008. A média da UE é superior a quatro por mil.

Número de pensionistas: em 1960 são 56 mil, em 1976 é um milhão. Pensão de sobrevivência: em 1960 são sete mil beneficiários, em 1976 são 125 mil. (Fonte: Eurostat e Pordata)

Em 1980, Cavaco Silva, na pasta das Finanças do Governo Sá Carneiro, faz um alargamento do regime não contributivo. Mulheres que foram domésticas toda a vida, agricultores e outros que nunca tinham contribuído passam a ter protecção social.

 

15.

Nick Racich (1952) chegou a Portugal há 30 anos, quando foram concedidas as primeiras licenças à banca privada. Banqueiro, vice-presidente do banco BIG, estudou na prestigiada Wharton School depois de abandonar um doutoramento em Dom Quixote de la Mancha de Cervantes. Um percurso banal num país como os Estados Unidos, improvável para não dizer impossível num país como Portugal.

Este americano de Filadélfia, trabalhava em Nova Iorque e tudo o que sabia de Portugal era que Lisboa era um jóia. Claro que sabia onde ficava Portugal, mas no banco onde trabalhava, em 1980, “em termos de organização, Portugal e Espanha faziam parte da América Latina. Em todos os bancos americanos era assim. Por causa da língua. Só em 86, quando integraram a Comunidade Económica Europeia, começaram a estar arrumados de outra maneira”.

Nick Racich falava espanhol por causa do cavaleiro da triste figura. Hoje fala um português sem mácula. Tem dupla nacionalidade e diz pá.

“O primeiro sector a ser aberto à iniciativa privada foi o bancário. Foi uma medida inteligente porque a banca é um motor da economia. Não havia mercado monetário, mercado cambial, bolsa, não havia produtos financeiros. Em poucos anos chegámos a ter 17 bancos estrangeiros. Começou a pensar-se na privatização de sectores chave da economia.”

A cerveja não é um sector chave, mas foi com a Unicer em 1989 que começaram as privatizações. Verdadeiramente só em Abril de 1990, com a lei das mesmas, começaram a ser levadas a cabo.

Outra palavra começava a ser usada: empreendedorismo. Com um significado que não coincide com o de um americano: “Empreendedorismo é pegar em capital – nosso, privado – e começar com esse capital, e não esperar patrocínios, dinheiro do Estado ou dívida bancária”.

Mas isto é um americano a falar, com uma aprendizagem diferente da nossa, que vive num país-continente onde é possível recomeçar no dia seguinte, várias vezes. A escala permite-o.  

Em Portugal, a democracia tinha pouco mais de dez anos. E o dinheiro da CEE estava a chegar. O país parecia de mangas arregaçadas, com condições para cumprir o D de desenvolvimento.

 

16.

Bem, não exactamente de mangas arregaçadas.

O que ficou no imaginário colectivo: betão, rotundas, infra-estruturas ruinosas. Recursos malbaratados, fraude com os dinheiros do Fundo Social Europeu e do PEDIP. Uma certa trafulhice e o início do folguedo.

É uma visão injusta, porque parcelar, dos anos que começavam com a adesão de Portugal à CEE. Essa foi a década da emergência da classe média, do alargamento do Sistema Nacional de Saúde, da estabilidade democrática. Mais do que tudo: essa foi a década em que deixámos de ser a choldra e passámos a fazer parte de um clube selecto. Ruy Belo, que parecia saber tudo, e antes do tempo, escreveu no poema Sexta-Feira Sol Dourado: “Agora é que vamos ser felizes (...) Portugal fica em frente.”

O Portugal triste fotografado por Victor Palla, a preto e branco, o português pobre encarnado por Belarmino no filme de Fernando Lopes (1964) pareciam de outro século. Tinham passado apenas 20 anos.

Nenhuma das pessoas ouvidas pelo PÚBLICO para a elaboração deste texto deixou de referir a entrada na CEE como momento chave de 40 anos de democracia.

O fiscalista e professor universitário João Taborda da Gama (1977) chamou-lhe “o mecenas do nosso 25 de Abril. Quer dizer, a Europa permitiu-nos ter o dinheiro para efectivar o 25 de Abril”.

 

17.

Quando é que começámos a ter um Estado gordo? Maria Manuel Leitão Marques: “Eu não sei se temos um Estado gordo. A questão é a de saber que Estado podemos sustentar e onde devemos concentrar a despesa. Mas no final dos anos 80, algumas das reformas nas carreiras da função pública efectuadas por Cavaco Silva, designadamente com a criação de promoções automáticas por tempo de serviço, aumentaram significativamente a despesa com funcionários. Mesmo que a intenção fosse boa, o resultado foi desastroso em termos de progressões não assentes em critérios de mérito e tornou o peso dos salários na administração pública muito elevado.”

Miguel Cadilhe, então ministro das Finanças, discordou e saiu do executivo.

A imagem não era a da grande porca de Bordalo Pinheiro, que serve para a expressão “mamar na teta do Estado”. Essa veio (voltou) mais tarde. A imagem era a de um Estado tentacular que dominava toda a economia (ainda que de 1990 a 95 o sector público tenha sido fortemente diminuído com as privatizações). A imagem era a de um Estado onde cabiam as clientelas políticas, a ineficiência, o manga de alpaca. O Estado dos tachos.

Contudo, as prestações sociais ainda estavam aquém da média europeia. O Estado Social era recente e insuficiente. Continuou necessariamente a crescer, na educação, na saúde, nas pensões. António Guterres fez da educação a sua paixão. Em 2002 Durão Barroso disse que o país estava de tanga.

A resolução do problema não se fez com uma diminuição da despesa nem com reformas estruturais dirigidas ao crescimento, mas com uma reforma da máquina fiscal. Cobraram-se impostos, muitas vezes devidos há anos e anos.

João Taborda da Gama: “É verdade que havia um sentimento de grande impunidade e de corrupção na administração fiscal. O momento marcante foi quando Paulo Macedo assumiu o lugar de Director Geral dos Impostos (2004/2007). Hoje esse sentimento de impunidade não existe.”

A confusão entre despesa com o Estado Social (pensões, educação, saúde) e peso da máquina administrativa é um preconceito antigo. No ano em que Portugal pediu ajuda financeira e a palavra de ordem era cortar nas gorduras do Estado, o nível de despesa pública no PIB era de 48,9%. A média da União a 27 era 49,1% e da Zona Euro 49, 4%. (Fonte: Eurostat). Grande parte da despesa pública estava concentrada em pagamentos de pensões e funcionalismo público – a fatia era de 65, 70%.

Segundo o livro de Emanuel dos Santos, Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental, em 2011, 47% da despesa pública consistia em redistribuição de recursos que o Estado operava de uns cidadãos para outros, incluindo pensões e outras prestações sociais. As despesas de funcionamento da administração pública (salários mais consumos intermédios) representavam 39% dos gastos totais. Mas como abrangiam a produção de serviços como a educação, a saúde ou a segurança, o custo da máquina burocrática do Estado central ficava-se pelos 15,5% da despesa pública ou 7,2% do PIB. 

 

18.

Uma confusão: despesa pública com o Estado Social e custo da máquina administrativa. Outra confusão: dívida interna e dívida externa. Outra confusão ainda: dívida e crescimento. Para Nick Racich, o problema não é o que devemos, o problema é o que não crescemos. “O endividamento externo português em 83/84 era qualquer coisa como 16 mil milhões de dólares. Em 2011 era 20 vezes superior. E o PIB apenas duplicou. Ou seja, o país produziu o dobro mas pediu emprestado 20 vezes mais.”

O que é que o país fez com o dinheiro que foi buscar? Entre 1998 e 2010, o investimento produtivo feito pelo sector financeiro baixou 20%, o financiamento ao consumo privado aumentou 19%. (Fonte: artigo de opinião de João Pinto e Castro no Jornal de Negócios a partir do livro de Emanuel dos Santos Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental).

“É um país extremamente endividado. Não mais do que os outros. A diferença está em que alguns conseguem dar a volta rapidamente. Portugal, não”, diz Nick Racich.

De novo gritamos, zangados com o nosso malfadado destino: porque é que não conseguimos dar a volta? Porque é que voltamos a ouvir Júlio César dizer que este é um povo que nem se governa nem se deixa governar? (É a elite ou o povo que não se governa nem se deixa governar?) Porque é que lemos Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871) de Antero de Quental e o texto nos faz sentido?

“É uma democracia muito nova”, continua o banqueiro. “40 anos é muito pouco. São duas gerações. Ainda temos muitas pessoas vivas que viveram o antes. E antes de décadas de ditadura estão séculos de monarquia, de paternalismo.”

João Constâncio (1971), professor universitário, autor, entre outros, do livro Nietzsche e o Enigma do Mundo, chama igualmente a atenção para este ponto. “Em 40 anos não se substitui a população de um país. A cabeça das pessoas não mudou o suficiente, apesar das transformações económicas e sociais. Em 40 anos não se transforma uma população em grande medida analfabeta numa população instruída.”

Pensemos nisto: quantos dos que estavam vivos em 1974, com uma identidade, um passado, uma raiz fizeram a transição para o Portugal democrático. Quantos dos que eram impreparados, iletrados aprenderam a viver num país novo. E pensemos nos que nasceram depois de 74 e nos filhos desses. Dir-se-ia filhos de um outro país. Contudo, os nossos pais ainda são aqueles.  

 

19.

Problema central: porque não crescemos? A resposta de Henrique Granadeiro: “Existe uma correlação directa entre instabilidade política e desenvolvimento económico. Tivemos 25 governos em 40 anos [seis governos provisórios e 19 governos constitucionais]. Com este vai e vem de governos é impossível gerar políticas de longo prazo. A primeira preocupação do governo seguinte é rectificar o [que considera] disparates do governo anterior. Isso introduz uma precariedade cujo resultado está à vista.”

Segundo dados do Eurostat, os ciclos políticos mais longos e com maior taxa de crescimento correspondem aos X, XI e XII governos (1985/95, governos de Cavaco Silva) com uma taxa de crescimento do PIB de 4,2%. Os XIII e XIV governos (1995/2002, governos de António Guterres) tiveram uma taxa de crescimento de 3%.

Na opinião do presidente da PT, “o sistema constitucional permite, e em certa medida encoraja, a existência de governos minoritários. Um exemplo: o presidente da República empossou um governo minoritário em plena crise mundial (2009). Foi um erro político de Cavaco, que o nomeou, e um erro político de Sócrates, que aceitou.”

O povo volta a perguntar: porque é que não crescemos, porque é que não damos a volta?

Ouçamos de novo as vozes dos Rapazes dos Tanques, das manifestações, dos que agora emigram. Ouçamos a zanga com a classe política, com essa elite. Com a elite que não dá a volta, que não nos faz dar a volta, que não nos deixa dar a volta. Uma elite pequena, pouco capitalizada e dependente do Estado.

O advogado Vasco Vieira de Almeida disse numa entrevista ao Jornal de Negócios (2012): “Em Portugal pertencer a uma elite nunca representou, como devia, uma fonte extra de obrigações, antes uma atribuição anormal de privilégios. O povo foi sempre melhor do que as elites”.

 

20.

Antes do leite derramado, há a Expo 98 e o orgulho numa obra com aquela dimensão, aquela beleza. Não é pouco porque um povo precisa de pão e circo.

Antes ainda privatiza-se a produção de informação. Aparecem as rádios e as televisões privadas. Não muda só a forma de comunicar. Muda, o que é fundamental, a forma de comunicar política e consequentemente a forma de fazer política.

Mudam os protagonistas. O povo aparece na televisão, a sua biografia importa. O povo vê e comenta o povo na televisão, a elite vê o povo na televisão e comenta o Big Brother de Orwell.

Nos anos 90 o mundo era tão estável que a geração nascida na década de 70, ou pouco antes, não sabia o que era o contrário de liberdade.

João Constâncio era um miúdo quando o pai, Vítor Constâncio, foi secretário-geral do Partido Socialista (1986/89). Acompanhava-os nos comícios, no fervilhar da política. Depois fechou-se a estudar. Grego antigo, alemão, Platão. “A minha geração foi a primeira que pôde viver acomodada no tipo de democracia ocidental que resultou do 25 de Abril. A política era uma questão que estava resolvida. Alguém já tinha feito o que era preciso fazer. Mais do que isso: a política tinha-se tornado uma questão burocrática. Não havia nada de heróico nem de decisivo nela. Como costumo dizer, não vivi os anos 90. Como se o mundo não existisse para mim. Eu podia estar alienado, para usar uma linguagem marxista, nas minhas preocupações existenciais.”

O poeta e cirurgião plástico João Luís Barreto Guimarães, nascido em 1967, diz o mesmo num dos poemas do livro Você Está Aqui: “Ninguém da nossa geração esteve na revolução; outros, antes de nós, fizeram as nossas guerras. Quando chegámos aos dias já a guerra havia sido (...) Para nós sobejou outra sorte de batalhas: levantar cada manhã o peso imenso das pálpebras, correr por um lugar na trincheira do balcão”.

O poema traduz um lamento, o individualismo, uma vida por vezes autómata. “Agora luta-se por o ter a casa, o ter o carro, o ter o telemóvel. Coisas concretas destituídas de idealismo”, diz Barreto Guimarães.

Algumas palavras caíram em desuso. Idealismo, por exemplo.

 

21.

Adeus escudo, willkommen Euro. As novas notas apareceram há 12 anos.

A vida subiu de preço. No supermercado e na bomba de gasolina, nos restaurantes e nos centros comerciais. Só uma coisa embarateceu, e muito: o preço do dinheiro. As taxas de juro eram tão baixas que só não tinha casa própria quem não quisesse (dizia-se). E já agora férias na República Dominicana (a crédito). E um segundo carro para a família (ainda a crédito). A banca, de motor da economia, passou a motor do consumo.

Foi o momento em que palavras como spread se começaram a usar todos os dias. E os bancos se sobre-endividaram (além do estabelecido nas regras de Basileia) a curto para emprestar a longo prazo.

O endividamento dos bancos portugueses no estrangeiro passou de 49% do PIB em 1999 para 96% em 2007.

Até que o Lehman Brothers tombou e a torneira estancou.

 

22.

Fomos nós que vivemos acima das nossas possibilidades? João Constâncio rejeita o que considera ser um discurso punitivo que se impôs depois da queda do gigante americano e em especial depois do pedido de resgate do Estado português. “Um discurso que faz as pessoas sentirem que desde a entrada na CEE até 2011 andaram a viver de uma herança de uma tia rica. E que têm de voltar a ser pobres porque Portugal é um país pobre.”

Do outro lado: os povos do sul são preguiçosos, desorganizados, perdulários. Há quem pense que, além destes atributos, são ignaros.

As crianças introduziram no seu léxico uma palavra nova: austeridade. E aprenderam, à força de ouvir os pais, os avós, a televisão, que o futuro podia não ser radioso. Que o mais provável é que não seja radioso.

Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se e empunharam cartazes onde se lia: queremos o nosso futuro de volta. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos. Reformados que se transformaram no esteio de milhares de famílias (apesar das pensões cortadas para metade). A classe média que vive no fio (por causa dos cortes para metade). Desempregados. Gerações à rasca. Não estavam as centenas de milhares que nos últimos anos tiveram que emigrar.

João Luís Barreto Guimarães especializou-se em reconstrução mamária de mulheres que tiveram cancro da mama. No hospital, no consultório, assiste a uma degradação rápida da jóia indiscutível que é o SNS, ao empobrecimento do povo. “É preciso saber ler os sinais. As pessoas andam tristes, estão a engordar, a envelhecer, têm sapatos cambados, roupa puída, semblantes zangados. Os doentes dizem: ‘Tenho diabetes, hipertensão arterial e insuficiência cardíaca. Deste três, qual é o menos grave? Porque só tenho dinheiro para comprar medicamentos para dois.’ A vida inteira trabalharam, confiando que o Estado era pessoa de bem e que um dia, quando precisassem da reforma, iam tê-la. O Estado pura e simplesmente está-lhes a falhar. Estica a corda sem introduzir o factor sentimental na regra económica.”

 

23.

- Onde é que falhámos?, o que é que correu mal?

- André Gonçalves Pereira: “Nada correu especialmente mal. A sociedade é o que é. Temos um regime aristocrático medíocre, em que o papel das famílias dominantes é desempenhado pelos partidos políticos. A nova aristocracia são os partidos políticos. É uma aristocracia de posição, não de ideias nem de nascimento.”

- Rui Pena Pires: “O que é que falhou no 25 de Abril? Nada. Nos últimos 40 anos, o que falhou mais foi o facto de continuarmos a ser o país mais desigual da Europa (agora menos do que a Bulgária e a Roménia – não é grande consolo).

- João Luís Barreto Guimarães: “Abril realizou-se? A resposta é não. Não se cumpriram os objectivos da revolução. A sociedade não cresceu como um todo. Aumenta o fosso entre os mais pobres e aqueles que enriquecem na proximidade do poder. Tenho a maior desconfiança da classe política. O pote vai voltar a encher? Temo que o regabofe volte.”

- Maria Manuel Leitão Marques: “Foi-se avançando com as maiorias políticas existentes. Seria bom que tivéssemos tido governos de maioria? Não os tivemos. Porque as pessoas não votaram assim nem obrigaram a que houvesse um pacto entre os principais partidos. Mas devíamos ter tido mais coragem e mais visão para em 1986 fazer reformas dolorosas. Por exemplo, de reestruturação empresarial (e não alimentar com fundos europeus empresas cuja competitividade era duvidosa, e que caíram agora como tordos). Isso tem custos. Há clientelas políticas que se perdem.”

- Irene Flunser Pimentel: “Correu-nos mal a Europa, como correu mal a outros países. Não foi a nossa inserção no projecto europeu. Foi o projecto europeu. Não fizemos uma união política europeia. Fomos pela via do dinheiro, e aconteceu o que aconteceu.”

- João Constâncio: “Até 2010, a evolução do país foi muito positiva. O que correu mal foi a resposta da Europa à crise das dívidas soberanas, que afectou em particular certos países da Zona Euro, entre eles Portugal. As coisas podiam ter tomado outro caminho. Um caminho que reconhecesse a assimetria que há desde início entre a periferia e o centro. As principais decisões foram tomadas segundo o princípio “cada um por si”.

- Alexandre Quintanilha: “Grande falhanço: é capaz de ser a justiça. Como se vê. Portugal continua a ser muito individualista e tem dificuldade na interdisciplinaridade. Pomos pessoas da Filosofia a falar com um cientista e há sempre um arrogante que faz troça, que acha que o outro não sabe o que está a dizer. Educação: é mentira que a escola pública seja má. Há de tudo, claro. Mas em todas as turmas que passaram por mim havia pessoas excepcionais.”

- Maria de Fátima Bonifácio: “A democratização do ensino foi calamitosa. Dizer que é a geração mais bem preparada de sempre dá-me vontade de rir. Fui professora universitária de 1980 a 2008. As pessoas podem ter diplomas que atestam a sua escolaridade, mas o nível de ignorância é assustador. Se houver 15% de alunos excelentes, é fantástico.”

- Nick Racich: “A confiança na justiça está abalada. Nos EUA, os Madoff vão para a prisão por 150 anos. Em Portugal, o povo tem a noção de que ao tubarão não acontece nada. Que o tubarão se safa. Os políticos estão a subestimar a importância da confiança na vida das pessoas. O sentimento de injustiça cria zanga, desapontamento.”

- Maria de Lurdes Rodrigues: “As ambições e expectativas vão sendo actualizadas, reajustadas. Todos os estudos apontam para ter sido o sector da justiça aquele em que a mudança falhou.”

- Pedro Magalhães: “É normal o cepticismo em relação à política, é saudável. Onde não vejo tanta saúde é na desconfiança em relação à justiça. Confiam na justiça 28% dos inquiridos. Na Dinamarca, confiam 84%. (Dados de 2010.) Isto é muito grave e preocupante. Tenho de confiar na justiça para resolver os problemas que tenho na relação com os outros, com o Estado. Se não confio na justiça, o que é que sobra? Na sondagem que se apresentou na Gulbenkian, 77% acham que estamos pior agora do que no antigo regime no que diz respeito à corrupção; 81% acham que estamos pior na criminalidade e na segurança.”

- João Taborda da Gama: “O 25 de Abril chega tarde. Se tivéssemos tido uma revolução dez, quinze anos antes tínhamos tido um desenvolvimento mais sustentado. Foi tudo feito muito à pressa porque teve de ser tudo feito muito à pressa. Por causa da Europa (que era o nosso quadro institucional e geoestratégico). Isso vê-se, por exemplo, no desastre urbanístico de Portugal. A marquise é o símbolo desse desenvolvimento.

Outros pés de barros: como povo, como comunidade, não fomos exigentes com o investimento público, as rendas excessivas, as instituições.”

- Henrique Granadeiro: “A classe média, conquista de Abril, está a sair pela porta dos fundos. O ar do tempo é claramente de fim de regime. As pessoas não têm confiança no Governo nem esperam grande coisa da oposição, e não olham para o presidente da República como defensor das instituições. Estamos a viver num puro sistema tecnocrático. Um sistema onde as decisões são tomadas mas onde não há política. Faz-me lembrar a frase que um anarquista mexicano pôs num mural: ‘Basta de realizações, dêem-nos promessas’. As pessoas precisam de um discurso político portador de alguma esperança. E mesmo de alguma ilusão.”

 

24.

Ainda que continuemos a ser Fátima, Fado e Futebol, não somos da mesma maneira Fátima, Fado e Futebol. O Fado é Património Imaterial da Humanidade, Camané, Carminho e Mariza enchem plateias no mundo todo. José Mourinho foi o melhor treinador do mundo, Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo. Fátima continua cheia, com uma basílica nova, mas o peso da religião é outro.

João Taborda da Gama foi discípulo de Saldanha Sanches, consultor de Cavaco Silva na presidência, tem cinco filhos. Não recebeu dos pais, Jaime Gama e Alda Taborda, uma educação religiosa. Converteu-se ao catolicismo na universidade. “Hoje a religião é um fenómeno mais reflexivo e menos ritualístico. Há uma queda dos níveis de participação religiosa, há uma secularização da sociedade, como em toda a europa. Mas aqueles que têm uma vivência religiosa têm-na de uma forma menos automática. É uma religião mais vivida, mais espiritual.”

E agora também temos Manoel de Oliveira, Paula Rego, Saramago, Siza projectados no mundo todo, cientistas entre os melhores do mundo. Em muitas disciplinas estamos entre os melhores do mundo.

João Constâncio: “Quando comecei a dar aulas, em 96, fazia o doutoramento quem era professor universitário. Tudo isso mudou imenso. A universidade produz uma elite, que é pequena, mas que apesar de tudo é muito maior do que era, e que tem uma dimensão internacional, está inserida em redes internacionais de investigação.”

 

25.                                                                                                      

O 25 de Abril foi a invenção do dia claro, para glosar o título de Almada Negreiros. Há muito que se perdeu a capacidade de sonhar, o impulso vital da juventude. O povo voltou a cantar Grândola Vila Morena. Lídia Jorge escreve em Os Memoráveis, livro-olhar sobre o 25 de Abril, que precisamos de uma nova canção. Escreve também: “Acha, então, que a mente humana está definitivamente formatada para se esquecer do bem? Para se esquecer dos momentos em que o anjo da alegria passa pelo mundo?”.

É isso. Passou por nós o anjo da alegria. Apesar de tudo, foi muito bonita a festa, pá. Resta saber como vamos cumprir o Portugal que falta.

 

  

Publicado originalmente no Público no dia 25 de Abril de 2014 

 

 

Millôr Fernandes

30.10.18

Tudo se passou em três semanas de Agosto. Primeira dificuldade: encontrar o número certo para falar com Millôr Fernandes. Passo seguinte: deixar recados no gravador ao longo de dez dias. Diários. Sem resposta. O gravador atendia assim: “Fale ou fax”. Num tom de sentença. Numa voz de velho irado. Uma vez atendeu. Que maluca era eu que lhe entupia o gravador com um pedido de entrevista que ele iria recusar? Iria oferecer-me um cafezinho, e era tudo. Decidi ser assertiva: “Vai dar-me a entrevista, sim!” E Millôr obedeceu: “Adoro mulheres autoritárias, se chegar muito perto peço você em casamento…”. Após o que nos escangalhámos a rir, que era a única coisa a fazer. Houve ainda aquela angústia do guarda-redes antes do penalty, sentada na entrada, ao lado do segurança, e o Millôr atrasado, atrasado quase uma hora. Finalmente chegou: “Ah, você veio mesmo?”

Ele manda e-mails nos quais assina: O Millôr. Porque o O é um personagem. Millôr é uma daquelas figuras que só poderiam ter nascido no Rio de Janeiro. Cartoonista, caricaturista, humorista, escritor, dramaturgo, jornalista, tradutor, director de revistas míticas da história brasileira do século XX. Autor de frases famosas.

“A verdade é que na vida nos dão muito enredo e muito pouco tempo”. A vida dele tem enredo para uma telenovela de cinco mil novecentos e quarenta e oito capítulos, pelo menos. Porque, além do que acima se disse, foi um amoroso. Queria ter sido atleta. Não quis ser atleta sexual. Mas da fama não se livra. Deu-se com toda a gente, pertence a uma geração mítica de sul-americanos que viveram muito intensamente.

Já escreveu o seu epitáfio: “não contem mais comigo”!

 

 

Ouvi dizer que chegava ao Pasquim e vangloriava-se de ter comido cinco mil. Confirme ou desminta.

O termo vangloriar é inexacto. Tinha dado cinco mil trepadas. E não estou me vangloriando, não. O homem casa, come aquela mulherzinha dele, e depois não está mais nem aí. Sempre fui uma pessoa, sob este aspecto, livre. Nessa altura, [do Pasquim], tinha apenas 30 anos de sexo. Se botar uma incidência sexual de três vezes por semana, que não é nada de extraordinário – quando tem 15, 18, 20, 30 anos às vezes faz isso numa noite – se fizer três em 30 anos, no fim de um ano tem 150, no fim de dez anos tem 1500, no fim de 30 anos tem cinco mil.

 

Pensei que se vangloriava de ter comido cinco mil mulheres.

Imagina!, imagina. As pessoas assumem as coisas pelo lado vulgar. Não estou interessado, nem nunca estive, em ser atleta sexual. O meu interesse foi sempre, e consegui isso inúmeras vezes, comer a alma da mulher.

 

Comer a alma da mulher…

Um homem com algum dinheiro: se quiser uma mulher de 20 anos, olho azul, paga duzentos, e ela está aqui, às sete horas da noite. Resolve o problema de alguém? O problema anímico, o problema maior, não. Passaram pela minha vida mulheres extraordinárias, e não foram cinco mil.

 

Isto, no fundo, é um intróito, um preliminar...

Então esquece, apaga! [risos]

 

O sexo, na escrita ou sob a forma de caricatura, surge como linha principal daquilo que faz. O que me interessa é saber o que é tem de irresistível para comer tanta mulher. E porque é que o sexo é a linha principal.

A linha principal, não. Não sei qual é a linha principal. Uma das linhas principais, tenho a palavra exacta em inglês, é contempt [desprezo]. Eu não sou conquistador, mas não sou mesmo. Ou por outra, sou conquistador quando, estando diante de uma mulher, se me sinto atraído, sem querer faço gracinha, sem querer sou interessante. O Vinicius de Moraes?, o Vinícius é um amador! Quem quer casar, tem cem mulheres! Para mulher, “casar” é uma palavra mágica, até hoje. Não me lembro de ter falado em casamento com nenhuma mulher.

 

É casado.

O primeiro casamento da minha vida, eu preservei: me livrou de todos os outros!

 

Porque é que casou?

Eu era muito jovem, fazia parte da prática. As mulheres com quem tive coisas intensas são minhas amigas, a vida inteira.

 

Amigas é um eufemismo para dizer “lovers”? Amantes.

Amantes durante um certo período, sem nenhuma promessa de fixação, de casamento. Chega um momento em que uma pessoa se cansa, naturalmente; porque aparece um mais curioso, um mais bonito. Sofre. Mas uma pessoa como eu acha que isso faz parte do jogo.

 

Sofrer por amor? Cansar-se do outro?

Sofrer por amor só existe quando a pessoa, de uma forma ou de outra, é afastada, é abandonada. Agora cansar-se do outro, meu Deus do céu, é universal! Não há hipótese! Eu tenho uma frase que é muito aplicada a isso: “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!” O casamento é isso. Como é que um casal, duas pessoas, se sustentam vivendo num quarto e sala conjugado? No fim de um mês, um quer matar o outro! Evidente.

 

Não há relações sem esse enfastiamento? Felizes.

Quando entra o valor do espírito. Quando tem um outro tipo de relação em que o sexo passa a ser uma coisa ocasional – porque um homem sofre de problemas hidráulico-mecânicos. [risos] Mas aquela mulher se estiolou, se exauriu para ele.

 

Iniciou-se aos 15 anos. Como é que um rapaz do subúrbio, há 70 anos, se iniciava sexualmente?

Eu sou do Meyer. Vivi lá até aos 12 anos. Com 15, já vivia na cidade [Rio], em pensão. A relação sexual: ou começava com uma pessoa muito inferior, que eram as empregadas domésticas, ou na prostituição.

 

Vamos lá à história da sua vida…

Se você quiser eu mudo!

 

Inventa já outra biografia?

Uma outra...

 

Você mente?

Não. Meu pai era espanhol, minha mãe era de família italiana. Eu podia ter nascido em Madrid, em Nápoles, e meus avós vieram trepar aqui, para que eu nascesse aqui. O meu pai veio muito moço da Espanha, com 24 ou 25 anos, era formado em engenharia – não que fosse engenheiro, mas quando chegou tinha um aparato intelectual maior do que o dos nativos. Ele devia ser muito malandro... Sabe o que é malandro?

 

Dê-me a sua definição de malandro.

O malandro antigo era o vagabundo que andava com navalhas. O malandro é aquela pessoa que percebe a realidade do mundo, que dá um jeitinho nas coisas. Meu pai, com esse aparato…, nós éramos de classe média por causa dele. A nossa casa no Meyer era muito boa, com um belo terreno; devia ter sete, oito metros de frente por vinte de fundo, quatro quartos enormes. Tenho muitas fotografias do meu pai – tinha, na gaveta; ele próprio se fotografava. Com uma farda bonita, branca.

 

O seu pai era garboso?

Era. Quando morreu, aos 36 anos, descemos para o proletariado. Na família, se fala que foi envenenado. Encontraram o cofre da firma comercial aberto, tinham roubado coisas. Mas essas lendas de família, sabe como é que se formam... Por outro lado, dizem que teria morrido com uma intoxicação alimentar, que naquela época era coisa séria. Eu tinha um ano, ou não tinha nem um ano.

 

A imagem do seu pai foi-lhe passada pela sua mãe, pelos familiares?

Não tenho essas recordações ou relatos romanescos. Não tinha ninguém proustiano na minha casa! Minha mãe tinha 27 anos, quatro filhos; que educação é que ela tinha? Nenhuma. Então, começou a costurar para fora e alugou metade da casa a uma irmã. Com isso, nos sustentava. Essa irmã trouxe minhas primas, com quem muito cedo entendi que prima não é irmã! Já começa... Aquelas experiências vagas, mas já começa!

 

A sua mãe morreu muito cedo, também. Tinha 36 anos.

Por exorcismo, não se falava da doença. “Deu uma coisa, deu um tumor nela...”. Possivelmente teria sido câncer.

 

Quem é que se ocupou das crianças?

Minha irmã casou, foi viver a vida dela, e levou a [irmã] menor. Eu, eu comecei a trabalhar na imprensa com 13 anos. Curiosamente isso está registado na minha carteira de trabalho. Era um menino louco, eu era louco...

 

É surpreendente que não tenha querido saber exactamente de que morreram os seus pais.

Acho que as pessoas morrem. Depois disso, fui morar com um tio num subúrbio bem mais distante. Era um tio pobre, também. Evidentemente, eu comia mal… Fui para o cemitério, não chorei. Voltei para casa, depois do enterro, entrei em baixo de uma cama, numa esteira; lembro que era fim de semana, normalmente se lavava a casa, o chão estava húmido. Ali, comecei a chorar. Mas feito um desesperado. E sentindo a injustiça do mundo. Dizia “Que Deus… Sem mãe, sem pai, não tenho nada”. Senti uma coisa que designei de a paz da descrença.

 

Habituou-se a não desejar nada? A não esperar nada, senão aquilo que ia conquistando?

Nunca pensei o que é que ia ser quando crescesse. Nunca pensei qual seria a minha profissão. Quando vi, estava trabalhando nos jornais. Já é uma fortuna extraordinária fazer aquilo que gosto de fazer. Cada vez mais me convidam para fazer uns negócios, e eu faço.

 

Gosta de ser adulado?

Desde que comecei, sempre fui tão adulado que me acostumei. E só penso: “E se não fosse? E se cessasse de repente?”. É feito o telefone: toca, às vezes toca o tempo todo; e se não tocasse? A pessoa que envelhece, está sozinha em casa, o telefone toca, ele vai a correr, e a pessoa fala: “É engano!”

 

Está a falar de solidão. Mas sempre andou muito acompanhado…

Vou te contar uma história: eu estava em Roma, na casa de um amigo; algumas semanas depois, a mulher do meu amigo pegou o avião e veio para cá, para se entregar para mim. Pensa que é uma doidivanas, uma louca? Pensa que fiz alguma graça especial? Não! Eu estava lá, simplesmente vivendo.

 

O que é que fez? Deu-lhe atenção?    

Não, não é atenção. Tem um escritor, que morreu há alguns anos, morreu jovem, Carlinhos de Oliveira, pequenininho, vesgo: impressionante o número de mulheres que teve. Porque ele tinha vontade! E aquela vontade reflectia.

 

O que é que disse à mulher do seu amigo quando ela desembarcou no Rio?

Não disse nada, fui vivendo com ela. Um tempo assim adobedebeubeudedede... Porquê não sei. Vamos mudar de assunto. Isso aqui vai ficar uma conversa que é uma parte pobre da minha personalidade. Já me pediram para escrever a minha biografia, me ofereceram dinheiro – eu não quero. Tenho umas notas que escrevi através da vida. Não toco no assunto mulher pelo seguinte: qualquer coisa que diga a respeito de uma pessoa estou, sem querer, ferindo outra.

 

Vamos voltar ao menino que chora, zangado com o mundo, e depois conhece a paz. Foi a primeira vez e a última que chorou? Parece uma coisa diluviana, definitiva.

É, eu não choro. Mesmo quando tenho um sentimento que me levaria a chorar, não choro. Quando comecei a trabalhar, ganhava cem reais por mês – não dava… Com essa coisa que eu tinha de menino louco, não tendo ninguém por trás de mim, um dia cheguei na empresa e disse: “Só fico se me derem trezentos reais”. Aí, deram.

 

Antes dos jornais: como é que aprendeu a ler e a escrever?

Estudei em colégio público; no meu tempo e na minha recordação era muito bom. Tudo o que sei, aprendi no curso primário. Tinha uma professora velha, velha, que depois descobri que tinha 21 anos! Mulata, uma criatura de uma ternura formidável. Me lembro do dia em que ela me ensinou, no relógio, como os ponteiros marcavam as horas; foi um deslumbramento! Tinha uma varanda que circundava o colégio e eu saí pela varanda para ver os outros relógios; de repente percebi que um relógio não era igual ao outro, e que aquilo era o tempo que passava [risos]! Se me perguntar quais são as preposições, eu digo. Definição: deve ser clara, breve, geral e verdadeira. Não é bom?

 

São princípios que seguiu a vida toda?

Pois é. Uma frase deve ter sujeito, verbo, predicados na ordem directa – a ordem indirecta deixa pró Camões. Fiquei uns dois anos ou três sem estudar, fui morar na cidade. Quando recomecei, ganhava já trezentos reais. A primeira coisa que fiz: entrei para colégio nocturno. Eu trabalhava das oito da manhã às seis da tarde, sábado também. Pagava para estudar. Quando saía do colégio, andava um quilómetro até pegar um bonde, andava uns três, quatro quilómetros de bonde, depois andava num trem uns vinte minutos até chegar em casa. Eu me chamava a mim mesmo de “piscina”, porque chegava, batia na parede e voltava para o trabalho!

 

Já nessa altura produzia as frases, os aforismos que foram ficando famosos pelos anos?

É, é uma coisa natural. Eu não paro e digo: “Vou fazer uma frase”. Ou faço ou não faço. Fazia, sem querer.

 

Era um menino espirituoso, que fazia rir os colegas? Como é que era quando a sua mãe era viva? E depois?

Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos, minha recordação com ela é uma recordação de carinho.

 

Duas frases: “Mãe, que é a carreira mais difícil do mundo e para toda a vida, não precisa de exame psicotécnico, nem curso de faculdade nem atestado de bons antecedentes.” “Super mãe é uma mulher que corta um “petit-pois” [ervilha] em dois para o filho não ter que mastigar.”

Tou achando bom!

 

A sua mãe fazia-lhe isto?

Não tenho ideia como é que escrevi isso. Não sou muito biógrafo, não. (Olha, e antes que me esqueça: considero o Ivo Pitanguy o homem mais realizado que conheço. Ele percorreu o mundo de cima para baixo. O pai dele já era médico, era prestigiado; Ivo entrava no palácio de Buckingham para operar uma terceira prima da rainha, e quando entrava, era esperado, era o Dr. Ivo! Ele fazia tudo, fazia esporte, fazia natação… Na casa dele, tem Picasso, Dalí… Mas não comprou, não: Dalí deu pra ele.)

 

Falamos mais tarde da geração notável a que pertence e das pessoas com quem se deu, entre eles Pitanguy. Mas sobre o seu pai, escreveu: “O Noel Rosa diria hoje que o vizinho rico morreu. Eu tinha um ano”. Noel é um dos maiores compositores da história da música brasileira. O seu bairro era Vila Isabel, e o vosso era ao lado.

Meu pai morava na Rua Teodoro da Silva. Noel era um homem pobre, baixa classe média. Chegou a estudar. Era um génio.

 

Evoco o seu pai e a sua mãe para perguntar pelas suas memórias de infância.

Tenho fotografias, uma ou outra, poucas com minha mãe. Me lembro de uma coisa de afecto, de carinho. Também tinha muita tia, porque meu pai trouxe duas irmãs; depois que envelheceram ficaram reaccionárias, chatas, e nunca mais quis ver. Você fica falando de relação com mulher e eu vou te dizer: minha avó materna foi a primeira mulher realmente apaixonada por mim.

 

Como sentiu esse amor?

Ela tinha 72 netos e bisnetos, teve dez filhos. Quando fiquei nessa fase de miséria, e fui morar nessa casa longínqua, com meu tio, eu tinha um quarto no quintal. Essa mulher largou tudo e foi morar comigo. Quando eu chegava, a altas horas da noite, às vezes sem comer, dizia: “Milton...” – me chamava Milton – “Tem uma sardinha no fogão”. Reservava uma sardinha para mim. De onde é que vem isso? Porquê essa preferência? É misterioso.

 

E nesse gesto sentiu o amor da sua avó.

Quando você é um menino, como se diz em inglês, “take for granted” [toma como garantido]. Foi o que foi. A relação com mulher: uma prima de 18 anos ia tomar banho ali; tinha um daqueles guarda roupas com um espelho enorme, não tinha nem banheira, era uma bacia; ela ficava se ensaboando e eu ficava para morrer! Mas para morrer! Para mim, aquilo era o mundo!

 

Mais tarde, desenharia muitas mulheres nuas. Quando começou a trabalhar, desenhava. Como era O Cruzeiro, a famosa revista onde se iniciou?

A revista era uma sala, a sala teria três metros por seis ou sete; isto era O Cruzeiro. Foi meu primeiro emprego. A revista vendia dez mil exemplares por semana, quando vendia dez mil e quinhentos era um sucesso. Eu era contínuo, carregador, ia fazendo tudo o que aparecia; e do lado – para ver a pobreza – tinha o director da revista, no fundo tinha uma prancheta em que o desenhista fazia o que se chama hoje design. Isto me deu uma grande oportunidade.

 

Como?

Eles não tinham dinheiro nem para comprar envelope, e recebíamos envelopes bonitos, de companhias americanas, que mandavam fotografias. Eu pegava as fotografias, arquivava, e nos  envelopes botava “Praia”, botava “Moda”, botava “Políticos”. Não vai acreditar: isto se transformou no maior arquivo da América do Sul! Foi crescendo, crescendo. A revista explodiu. Aparecia uma história de quadradinhos para traduzir, e eu traduzia.

 

Como é que um rapaz do Meyer aprendia inglês?

Dicionário!

 

Anos mais tarde traduziu Shakespeare. Como é que aprendeu inglês?

Sei lá como é que a gente aprende! Como é que a gente aprende as coisas? Devo ter lido dez mil livros. Eu não sei nada, eu aprendo lendo. Inclusive, esta é a minha definição de cultura – sei que vai concordar com ela... “Cultura é aquilo que amplia a nossa ignorância”. Não estou fazendo uma frase, não. O idiota que leu duas coisas acha que sabe tudo! A nossa ignorância é maravilhosa.

 

O Cruzeiromudou a sua vida, porque lhe deu espaço para aprender, expandir o seu mundo.

Assim como eu tive a sorte de perder os pais...

 

A sorte de perder os pais?

É, não fui massacrado pelo sistema familiar, não fui massacrado pelo sistema religioso.

 

Deu-se com toda a gente, conhece toda a gente.

Pois é. Uma das primeiras pessoas que vi entrar, [Dorival] Caymmi, dizia que a primeira pessoa que conheceu fui eu. Era menino, chegou, foi procurar um desenhista que o iria apresentar ao director da Rádio Tupi, também baiano, para dar uma oportunidade para ele. Outra pessoa, Gago Coutinho! O Gago Coutinho, no ano 40, tinha atravessado o Atlântico; era almirante, com aquele dólman, aqueles botões; fez uma entrevista. Mais tarde é que vi a importância dele. Em dez anos, a revista estava vendendo 750 mil. Todas as pessoas, as vedettes, as pessoas importantes, não há um nome da imprensa brasileira, actualmente, que não tenha passado por lá.

 

Foi um sobrevivente, com uma vontade de aço.

Não era vontade. Eu estava vivendo. Eu ambicionei ou a vida me arrastou? Não sei.

 

Não sabe? O que é que aconteceu aos seus irmãos? Tiveram uma carreira tão fulgurante quanto a sua? Uma vida tão entusiasmante quanto a sua?

Fulgurante, gostei! Minha irmã trabalhou no Ministério de Educação; a minha irmã menor era uma mulher bonita e se casou com um diplomata equatoriano; e Hélio, meu irmão, que era mais aventureiro do que eu, pegou um jornal chamado Tribuna de Imprensa, do político Carlos Lacerda, e escreve editorial todo o dia.

 

Num dos seus livros, faz uma dedicatória à sua irmã: que continua a acreditar na bondade do ser humano. Quando é que deixou de acreditar na bondade do ser humano?

Quem deixou de acreditar na minha bondade foi você! Pelo contrário: a coisa que mais admiro no ser humano não é a cultura, não é o carácter, é a capacidade de ser bom. Mas quando encontro uma pessoa boa, quando acredito que ela é boa, a bondade já está fugindo.

 

Qual é a sua definição de bondade?

Não é Madre Teresa de Calcutá – essa é uma exploradora da bondade, não toma banho e cheira mal; aquilo é o cheiro da santidade; quer ser boa em Calcutá, depois quer ser boa em Nova Iorque…

 

Sobre a bondade.

Quero ver o que é que eu disse!

 

Num livro que reúne as mil citações mais famosas diz o seguinte: “Pode ser engano, mas pela situação do mundo parece que o leite da bondade humana azedou de vez”. Estava num dia mau…

Não, não...

 

“O génio do ser humano não é o talento, é a bondade”. E ainda: “Só vi a bondade uma vez, tem muitos anos”.

O facto de estar decepcionado por não encontrar a bondade, não quer dizer que não preze isso.

 

Que vez foi essa, há muitos anos, que encontrou a bondade?

Não sei! Deve ser poético! [risos]

 

Definição de bondade: respondeu com uma negativa, disse que não é a Madre Teresa de Calcutá. Nesta tarde, neste momento, que definição de bondade é que lhe ocorre?

Quer que eu seja definitivo…

 

Ao contrário: se é a definição para esta tarde, para este momento, só pode ter um carácter pontual.

O que está mais perto da bondade é uma coisa que se chama humanismo. Por exemplo, todas as pessoas que trabalham comigo, trato como se fossem pessoas da minha casa. Talvez por isso consiga conviver com elas tanto tempo. Não gosto da palavra respeito, mas há esse sentimento humano. (Como é que vai ouvir isso depois?

 

Ouço, transcrevo e edito.

Sabe que tenho horror de dar entrevista? A pessoa vai me ouvir duas ou três vezes e vai passar a me odiar, não vai mais nem me cumprimentar...

 

Há quanto tempo não dava uma entrevista assim?

Há muito tempo.

 

Obrigada. Decidiu-se por causa da minha persistência?

Foi a sua persistência, e porque é em Portugal. Aqui não, aqui tem uma repercussão negativa). Então você quer saber do desenho e da escrita… Fui fazendo. Nunca tive essa consciência de “vou ser escritor”. Derivando um pouco, há uns duzentos anos descobri o haikai [forma poética oriental]; peguei o haikai e comecei a fazer haikai à minha maneira. A noção de desconstruir é minha, sempre. Você pega os idiotas que continuam a fazer haikai falando de Primavera, de colibri, de pirilampo… Eu peguei e fiz um negócio carioca! Fiz mais de 400 haikais, mais do que o Bashô [poeta japonês]! Fábulas? Fiz mais de 300 fábulas. O que é o instinto…

 

Fez por instinto? Começou por ser só um instinto de sobrevivência?

Uma naturalidade minha. Pode pegar as fábulas: não tem uma fábula moralista!

 

Muito me surpreenderia se resultasse de si alguma coisa moralista.

Pega La Fontaine, pega os outros, são todos moralistas. O desenho: eu tinha dez anos quando apareceram aqui no Rio as histórias em quadrinhos que começavam a fazer sucesso nos Estados Unidos. Como é que se chama em Portugal?

 

Banda desenhada.

E apareceu aquela figura... Foi a maior relação do desenho intelectual comigo: Flash Gordon! Eu copiava aquilo. Era um desenho infantil, claro. Minha irmã, durante anos, guardava, depois se perdeu. Gostaria muito de ver hoje.

 

E foi assim que começou a desenhar? Copiando o Flash Gordon.

É. Para mim, a minha coisa mais essencial, mais orgânica, é o desenho. Desenho a bico de pena. Fazia árvores de dois metros a bico de pena, fiz meia dúzia. Tem mais de 30 anos que não faço exposição. Para quê expor? Expor porquê? Tenho horror, acho muito engraçado: o ser humano sacrifica a sua vida toda, fica quatro, cinco anos estudando um salto, para brilhar um minuto. Não quero sacrificar a minha vida.

 

Viveu a vida muito intensamente?

Sim. Fazia tudo quanto era esporte. Comecei a praticar depois dos dez anos, quando já era tarde. Antes, não tinha tempo nem ocasião.

 

Correr na praia é gratuito.

Sim, mas naquela época eu morava no Meyer, não tinha praia... E era tudo muito longe.

 

O que é que representou para si a vinda do Meyer para o Rio?

Era uma cidade pacífica. Não foi um grande acontecimento. Vim morar numa rua que não existe mais, Rua São Pedro, onde é a Avenida Presidente Vargas, numa pensão. Uma pensão muito boa: tinha uma sala ampla, tinha comerciários, tinha motorista de táxi e tinha empregadinha deliciosa...

 

Ficou sozinho? Ou já antes tomava conta de si?

Enquanto minha mãe era viva, era ela. Não me vem ideia nenhuma de sofrimento. A vida era cheia, fazendo coisas, estudando. Entrei no Liceu de Artes e Ofícios; o curso era de seis anos, estudei quatro ou cinco. Saí, porque, entre aspas, já era famoso, e não tinha mais sentido estar naquele colégio... Se quiser saber do meu temperamento, não posso lhe dizer. Esse colégio era um edifício art noveau, tinha umas escadarias de mármore; uma noite, um professor, no meio do patamar das escadas, com todos os alunos ouvindo, me parou e disse assim: “Olhe aqui, nunca mais me faça isso na aula, o que você fez é imperdoável, você zombou do seu colega”. O pessoal riu e ele achava isso imperdoável.

 

Alguma vez se riram de si?

Que eu sentisse, não. Quando se faz humor, provoca-se o riso. É uma matéria muito delicada, sobretudo quando nos pomos nesse lugar, o do alvo... Existe uma frase que acho idiota: “Você perde um amigo, mas não perde uma piada.”

 

Nunca tomou essa frase como sua?

Não tem nenhuma necessidade.

 

Está muito mais dócil do que eu imaginaria. Esperei encontrar o Millôr de faca espetada!

Mas de maneira nenhuma.

 

O que é que fez de si famoso? O humor?

A grande coisa que tenho é a capacidade de processamento. Qualquer coisa que me falam, sou capaz de processar de dez maneiras diferentes. Com meu irmão, que é muito hábil também, começávamos a brigar, e quando a briga chegava a um certo ponto, ele falava: “Agora vem para o meu lado e eu vou para o teu!”

 

Quando é que deixou de ser o Milton para passar a ser o Millôr?

Precisei tirar uma carteira. Devia ter 17 ou 18 anos, e vi que estava Millôr na certidão. O tabelião escreveu Milton na boa caligrafia daquele tempo: o R, com a rapidez de escrever, ficou solto, o N ficou solto, e traçou o T em cima do O. Millôr, não tem mais dúvida. Todo o mundo passou a me chamar de Millôr!

 

Como é que a sua mulher lhe chama?

Eu já era Millôr... Ninguém me chama de Milton. Quem me chamava, morreu. É isso. Não tenho mais nada a dizer, já que descobriu que não sou aquilo que você pensava...

 

Quero que me conte o seu encontro com o Walt Disney.

Normal, normal. Nesse tempo, não havia essa coisa desta estrela ou aqueloutra. Aquilo era uma tropa de elite. As pessoas eram as pessoas que se conheciam do botequim ou da praia. Fui para os Estados Unidos, estive três vezes lá, tinha 24 anos. Eu era famoso – como dizia você – e fui fazer algumas entrevistas. Quando cheguei a Los Angeles, Hollywood, o Vinicius de Moraes, que já conhecia daqui, era cônsul; o César Lattes, cientista, ficou meu amigo, e duas ou três vezes fomos para casa da Carmen Miranda.

 

Carmen Miranda era uma espécie de embaixatriz da comunidade brasileira em LA. Eram amigos?

Jogávamos cartas com ela. Uma noite olhei para uma estante e vi 13 volumes pequenos, livros de capa dura, com A História Universal do Humor. “Você me dá?” Está aqui, nessa estante. São livros ingleses, perfeitos, têm cem anos e ela me deu. Nadava na piscina dela com César Lattes, ele nadava melhor do que eu. Atravessei os Estados Unidos de onibus, parava onde queria, descia no Grand Cannyon. Vim de navio de lá para cá, demorava 12 dias; namorei uma moça alemã, e a viagem foi tão divertida que o comissário de bordo me emprestou o apartamentozinho dele para conversar melhor com a moça! [risos]

 

Pergunto-lhe pelo Walt Disney e acaba por falar das moças… A punchline são sempre as moças.

Eu já disse: até a minha avó, porquê me preferiu? Não tenho a menor ideia.

 

O Cruzeiro, O Pasquim, O Pif Paf são grandes momentos da sua vida ligada à comunicação social. Foram os anos gloriosos?

Posso te botar a Veja, entrei na Veja no início.

 

Além das revistas e jornais, onde fez caricatura, cartoonismo e escreveu, fez peças de teatro e tradução. Face a esta versatilidade, importa saber se a qualidade é constante, ou se considera que algumas destas coisas são menores.

Não acho que seja bom em tudo, talvez eu seja melhor em tudo... Vamos falar de teatro: pensa que eu queria fazer teatro? As pessoas dizem: “É apaixonado por teatro...”. Não sou.

 

Porque é que fez teatro?

Um casal de actores chegou ao pé de mim e pediu para fazer uma peça. Como sou uma pessoa gentil, aceitei e fiz a peça. E como sou uma pessoa muito gentil, para não ficarem envergonhados, fiz uma peça boa! [risos] Depois fiz outras.

 

Entra o brio…

Brio é uma corruptela de brilho? Comecei a fazer teatro, chegou um amigo ao pé de mim e me pediu para traduzir uma peça. Traduzi. Era um trabalho profissional, porque o teatro tinha um público razoável e a gente recebia pela bilheteira. Fiz essa tradução, depois fiz outra; em pouco tempo, no panorama de teatro, tinha 30 peças, cinco com traduções minhas. [O encenador] Gianni Ratto me pediu que traduzisse “A Megera Domada” do Shakespeare.

 

“A Fera Amansada”, em Portugal.

Como é que é?, “The Taming of the Shrew”. “Negócio de traduzir essa peça, não sei...” – para você ver a minha atitude. À terceira vez, ele jogou na minha prancheta a peça, “Quem vai traduzir é você!”. Peguei 20 traduções já existentes, em várias línguas, incluindo português; fiquei impressionado com a mediocridade das outras, a mediocridade pretensiosa, uma merda aquilo tudo. Se pegar a peça e comparar, vai ver que a minha é mais perto do original do que a deles.

 

O tamanho do génio do Shakespeare não foi dissuasor?

Chega um momento em que não tenho medo do Shakespeare. Comecei a traduzir. “Hamlet” vendeu 80 mil, “A Megera Domada”, não sei, o “King Lear” 60 mil...

 

Não tem medo do Shakespeare. Não se deixa intimidar por ninguém?

No papel, não. Se aparecer um negão, tenho medo!

 

Quem é que admira?

Literatura, não sou especialista, não quero ser. O meu negócio é uma opinião de pessoa que lê. Só gosto do que gosto. Não tem esse negócio de fulano. Pode ser Confúcio, pode ser quem for. No Brasil, quais são os grandes escritores? Guimarães Rosa, Euclides da Cunha. Machado de Assis não é meu preferido. Tenho uma tendência natural para escritores difíceis. Eu escrevia no jornal Brasil e botei um Top: “Amor nos Tempos de Cólera”, de Garcia Márquez, é um livro admirável, “Memorial do Convento”, de José Saramago, é definitivo. Gosto muito do Saramago, Rubem Fonseca, João Cabral de Melo Neto, Drummond. Portugal tem poetas sensacionais.

 

“Requiem: Quem matou Millôr Fernandes? Perguntará a manchete do dia, enquanto o assassino vai ao enterro disfarçando a alegria.” Disse isto em 1971. Como é que imagina a sua morte?

Tenho grande dificuldade em imaginar a minha morte porque não sou muito bom em ficção!

 

Escuda-se nos aforismos, não é?

Não! O que é que vou dizer? Que estou chorando? Não sei.

 

Está com 84 anos, pensa muito na morte?

Talvez. Quem sabe se chego aos 85... Sabe aquelas pessoas de 80 anos que ficam indignadas porque um cara botou no jornal que estava com 81? Que diferença faz um ano?

 

E faz?

 Ué, talvez seja o último! Não faz diferença quando uma pessoa tem 18 anos, ou 30, 40. Na verdade, nem gosto de falar nisso. Aquelas figuras admiráveis do Cruzeiro, meninos como eu, quase todos morreram. Você está sendo esperado, a qualquer momento… Como é que vai ser? Conhece aquela coisa anedótica, que diz assim: César morreu, Jesus Cristo morreu, Lincoln morreu, e eu não estou me sentindo muito bem!

 

Quando é que o dinheiro e a necessidade deixaram de ser uma coisa premente na sua vida?

Não posso dizer nada, porque eu estava vivendo. Primeiro, não tinha dinheiro, não tinha dinheiro para comer. Com exactamente 20 anos, fui morar na Avenida Atlântica com um amigo meu chamado Fred; tinha dinheiro para morar num apartamento de seis quartos, eu ficava com os dois de baixo. Lidando comigo todo o dia, foi meu admirador até ao fim da vida. Uma vez, apareceu lá um jornalista, brilhante esse jornalista, ele se voltou, na frente de todo o mundo: “Oh Artur, você pensa que é muito brilhante?, eu também sou! Mas não vai se comparar com o Millôr, não!”

 

A Avenida Atlântica é a mais cara e exclusiva do Rio. Confere status. Ganhava bem, tão jovem?

Ganhava o maior salário da imprensa. Passei desses cem para doze e quinhentos, que nem sei nem o que é que é. Dava para comprar automóvel, que ninguém tinha na época, dava para ajudar as minhas irmãs (pagava um apartamento para morarem).

 

O dinheiro muda a vida das pessoas?

Muda, mas apesar do tempo breve, muda paulatinamente. Você conhece todo o mundo. A cidade era pequena, amabilíssima; chegava às dez horas da noite, sabia qual era o bar em que os amigos estavam. O Di Cavalcanti, que era o grande pintor, tinha uma namorada muito bonitinha, e comecei a namorar ela. A irresponsabilidade do jovem: eu ia para o estúdio dele e ficava namorando com ela na frente dele! Um dia ele me botou para fora! Achei que era um açougueiro! Mas é isso, dona Ana... Sabe que traduzi cento e dez peças? Quando as pessoas levam cinco anos para traduzir o “Hamlet”, eu sou bonzinho de julgamento: acho que o cara é bicha, que o cara é homossexual. Eu tinha um ímpeto de fazer. Enquanto isso estava jogando frescoball na praia – que fui eu que inventei.

 

Desportista era o que gostaria de ter sido?

Atleta, né? Talvez fosse correr. Quando a polícia proibiu o frescoball, comecei a me aborrecer. Eu corria oito quilómetros todo o dia, na praia, porque eu morava em frente. Está bem, senhora Anabela?

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008

Millôr Fernandes morreu em 2012