Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Anabela Mota Ribeiro

Ler no Chiado Pedro Mexia

01.12.18

A última sessão do ano do Ler no Chiado será dedicada a Pedro Mexia.

Nos seus poemas e crónicas encontramos Camões, Paolo e Francesca da Divina Comédia, Sandokan, Morrissey, vestígios de uma educação católica, Taxi Driver e outros filmes, retrato dos tios na parede da sala. Vamos falar sobre estes e outros encontros, fantasmas, obsessões, melancolia, sobre os poemas reunidos na antologia Poemas Escolhidos. 

O actor João Reis lê poemas e fragmentos de textos. Eu converso com Pedro Mexia. Dia 12 de Dezembro, às 18.30, na Bertrand do Chiado. 

Lilia Schwarcz e Heloisa Starling (s/ Brasil)

01.12.18

Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling quiseram, não “contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história”. Traçar uma biografia, destacar personagens que habitam uma casa grande (e não apenas os senhores), apontar datas fracturantes, movimentos subterrâneos, convulsões que mudam o mundo de lugar. Violência, mestiçagem, desigualdade, liberdade são alguns dos vocábulos centrais. “Brasil: uma Biografia” é um livro que nos permite olhar para o Brasil actual e perceber heranças, continuidades e rupturas.

  

“Deus é brasileiro”, como diz o ditado? O que quer isto dizer?

Lilia – Como diz Roland Barthes num livro chamado “Mitologias”, todo o povo é profundamente etnocêntrico. Os brasileiros também são. O ditado vem da ideia de que esse é um país sem furacões, terramotos, maremotos. Uma terra abençoada por Deus. O problema desse provérbio, que é muito usado no Brasil, é que pode causar uma grande acomodação. Não é preciso fazer muita coisa. Tudo se resolve no poder mágico das ideias.

 

É contar com uma força providencial, no fundo.

Lilia – É. Só muito recentemente os brasileiros se têm dado conta de que Deus pode não ser brasileiro.

Heloísa – Essa ideia de um país com uma natureza que tudo resolve, com a ausência de qualquer tipo de exigência porque tudo vai cair do céu, produz um povo que não actua no sentido de construir a sua própria história.

 

Qual foi o momento de viragem? Quando é que os brasileiros começaram a sentir que Deus podia não estar pondo a mão, resolvendo tudo?

Lilia – A noção de um país pacífico é um dos grandes mitos nacionais. O Brasil nunca foi pacífico. Vejamos o extermínio dos indígenas no primeiro encontro/desencontro com o mundo ocidental. Vejamos o sistema escravocrata que naturalizou um regime de trabalho forçado, cuja base é a violência. Existiram revoltas o tempo todo. O Brasil fez esse caminho inconcluso – a democracia é um projecto sempre em melhoramento, como Heloísa me ensina. Vem vivendo anos de democratização e isso tem dado aos brasileiros a oportunidade de vivenciar os seus direitos civis. Entrámos tarde na linguagem dos direitos civis, do direito à diferença na igualdade.

Heloísa – Construir uma democracia não é fácil.

 

Em nenhum país.

Heloísa – O povo brasileiro viu-se diante de algumas questões. Saiu de uma ditadura [1964/85], fez uma longa transição. O período dos dois últimos governos militares, do general Geisel [74/79] e do general Figueiredo [79/85], é muito engenhoso. A sociedade teve de se haver com uma escolha: ou temos um governo autoritário ou vamos ter que nos responsabilizar [por nós mesmo]. Foi um momento importante para deixar de pensar que Deus é brasileiro. O segundo momento: ao se deparar com a democracia, o povo tem que se reconhecer dentro de um catálogo de direitos em que todos são iguais. O que, para uma sociedade que tem uma raiz escravista, que passou séculos lidando com o privilégio, é dificílimo. Esta experimentação significa, já no século XXI, ter de reconhecer como meu igual as camadas pobres da população, o negro.

Lilia – É um país que continua sendo campeão de desigualdade. Que continua praticando homofobismos.

 

Sob vários pontos de vista, nomeadamente em questões ligadas aos costumes, é um país conservador.

Lilia – Muito conservador. É também um país de problemas ecológicos seriíssimos. Que faz uma discriminação silenciosa e perversa. O jogo de lidar com a experiência virtuosa da democracia... As eleições têm sido resolvidas na urna, absolutamente fiáveis, os resultados saem em poucas horas. As instituições democráticas estão consolidadas. Mas é um país com problemas de res-publica muito fortes.      

Heloísa – Talvez Deus tenha deixado o seguinte: “Vou ali, não volto já e deixo no meu lugar a democracia e a república para vocês se virarem”.

Lilia – E o jeitinho não funciona mais.

 

Não? Em Portugal usamos uma palavra equivalente ao jeitinho: desenrascanço (em que os portugueses são pródigos). Muitas das coisas que escrevem sobre o Brasil poderiam ser sobre Portugal. Por exemplo, a dificuldade em planificar, organizar, contar com uma presença salvífica, encarnada em Deus ou numa entidade exterior, que tudo resolve.

Lilia – Há um livro fundamental no nosso livro, do Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”, escrito em 1936. Parte da nossa origem portuguesa. E parte da figura do ladrilhador e do semeador. Usa estes termos dicotómicos que mostram certas tendências. É um modelo de colonização de que não se sai de forma incólume. Há muito em comum. Para voltar ao Sérgio Buarque de Holanda: brasileiros e portugueses têm um inflacionamento da esfera privada em detrimento da pública.

 

Aqui, tudo é fulanizado, tratado como se fosse uma questão pessoal.

Lilia – É o império da pessoa, do diminutivo.

 

Escrevem no livro que no Brasil até os santos são tratados pelo diminutivo.

Lilia – Exactamente. Os presidentes são chamados pelo primeiro nome.

Heloísa – Há um outro autor que também chama a atenção para a influência dos portugueses que incorporámos, o Raymundo Faoro. N’ “Os Donos do Poder” mostra o tipo de Estado – patrimonialista – que se produz a partir da relação com Portugal. Aqui também deve ser forte a burocracia. A quantidade de papel. O documentar tudo.

 

Traduz-se num controlo absoluto sobre todos os passos.

Heloísa – É uma dimensão importante, que não é exclusiva do brasileiro, e que mostra sociedades que tiveram um longo caminho para começar a pensar a democracia. A democracia é problemática para esse tipo de sociedade. Essa coisa de todo o mundo ser igual é muito complicada na cabeça dessa sociedade.

 

Ainda se ouve dizer, a propósito da igualdade: idealmente, sim, na prática, ainda não estamos preparados para isso?

Heloísa – No Brasil não se ouve mais isso. Mas ou essa cultura política começa a atravessar o quotidiano das pessoas, e nunca vai estar pronta porque a democracia não tem fim, e novos direitos vão ser colocados em cena, ou não vai caminhar.

Uma coisa [relacionada com a forma como os políticos são tratados]: os ditadores não têm um diminutivo.

 

Porque são figuras distantes, inacessíveis?

Heloísa – Exacto. Nenhum ditador foi chamado pelo primeiro nome. Nenhum deles tem apelido [alcunha].

 

Em Portugal, os políticos homens são tratados pelo apelido de família, as mulheres pelo primeiro nome. Normalmente é assim. A ministra das Finanças é a ministra Maria Luís. O seu predecessor era o ministro Vítor Gaspar.

Lilia – A Dilma [Rousseff] é Dilma. A Marina [Lima] é Marina.

Heloísa – O Aloizio é Aloizio Mercadante. O Levy é o Joaquim Levy.

Lilia – Não tem muita regra. Mas não é como com os militares.

 

Desigualdade, violência e mestiçagem são palavras nucleares para compreender a biografia do Brasil dos últimos 150 anos?

Lilia – Vamos aumentar essa conta.

Heloísa – Com este livro, o esforço que a gente fez foi dizer que o Brasil não é uma coisa ou outra. O Brasil é uma coisa e outra. Concordo com você: o Brasil tem uma sociedade muito violenta, muito desigual e isso tem a ver com a mestiçagem. Mestiçagem nas suas duas faces – que é um conceito importante que a Lilia trabalha de uma maneira nova. O que está faltando [nessas palavras nucleares] é que, simultaneamente, essa é uma sociedade que desde a sua origem, desde o encontro com os portugueses, luta desesperadamente pela construção da liberdade.

 

E são diferentes conceitos de liberdade.

Heloísa – Nas minas, no século XVIII, era autonomia. Em 1940, são os direitos civis. A forma como a liberdade vai aparecer, o nome que ela vai receber varia no tempo. O conteúdo é dado pelo tempo e pelas demandas das pessoas. Mas a liberdade é um traço de permanência.

Lilia – A mestiçagem é uma questão fundamental. Durante muito tempo, a noção oficial de mestiçagem teve a ver com mistura. É uma perspectiva. Eu acho que não há mestiçagem sem separação. É próprio da mestiçagem acumular mistura e separação.

 

Pode explicitar esses aspectos?

Lilia – O Brasil carrega modelos de inclusão muito claros. Sobretudo em termos culturais, somos um produto mestiçado. Desde que o Brasil não é Brasil. Desde antes de os portugueses chegarem. Essas populações praticavam a antropofagia, que era o contacto entre diferentes grupos que levava a um produto diferente. Antropofagia era um contacto ritual, comer o inimigo significava comer a sua alma, comer a sua força e deglutir algo novo. A entrada dos africanos de maneira compulsória (o Brasil recebeu de 40 a 48% das populações africanas que saíram para trabalhar nas plantações da América), gerou outro tipo de mestiçagem. Houve uma mestiçagem cultural desde esse momento? Claro que sim. Veja a nossa linguagem. Veja a nossa culinária. A nossa religião é profundamente mestiça. O candomblé não veio directamente de África, modificou-se no Brasil. A capoeira é uma criação brasileira resultado da mistura.

Ao mesmo tempo, excluiu-se muito. Não há como negar que a sociedade do açúcar é pautada pelo trabalho escravo. Isto criou sociedades profundamente divididas. O universo da casa grande: o Brasil exportou uma determinada arquitectura que separa rigidamente os espaços sociais dos espaços do serviço.

Heloísa – Tem no Brasil, até hoje, elevador de serviço.

 

Em Portugal, os prédios de há 50 anos tinham elevador de serviço.

Lilia – Nós continuamos a exportar [esse modelo]. Em Miami, onde estão os brasileiros agora, estão introduzindo o elevador de serviço.

Heloísa – Nos prédios que os brasileiros endinheirados estão fazendo em Miami, há o quarta da empregada e o elevador de serviço.

 

Como é que os empregados eram e são chamados no Brasil? Aqui, houve um tempo em que eram “criadas de servir”. Agora são “empregadas”.

Lilia – Nos inventários são os “bens semoventes”. Os bens eram divididos em bens imóveis (propriedades), móveis (ouro) e semoventes (os escravizados, com o gado). Os escravos podiam ser leiloados, penhorados, segurados, mortos.

Não se fala criado, hoje. É doméstica. O trabalho doméstico não era registado, não tinha limite de horas, a pessoa vivia no mesmo local mas apartada (na área de serviço).

 

Foi uma grande cartada de Dilma, no período que antecedeu as últimas eleições: o estatuto da empregada doméstica. Milhões de mulheres foram tocadas pela medida.

Lilia – Foi uma grande cartada da democracia. É um projecto que fomos criando no sentido de limitar o horário das empregadas domésticas.

 

É importante perceber como é que essa matriz se foi metamorfoseando nas últimas décadas. A abolição data de 1888. Na Constituição não há qualquer espaço para falar de escravidão. Mas há uma herança que está longe de desaparecer. Não podemos entender estes tumultos recentes sem perceber o subterrâneo, a história que lhe dá origem.

Heloísa – A escravidão continua. Não a escravidão do século XVIII, mercantil. Mas continua a ter formas de trabalho escravo no interior do Brasil. Há um esforço da polícia no sentido de o detectar.

Lilia – O trabalho com a borracha era um trabalho escravo. E era pós-abolição. Os trabalhadores eram colocados em locais isolados da Amazónia, sem nada, em regime de escravidão. Dito isto: 1888 foi nada? Não. Foi a lei mais curta e mais popular que existiu no Brasil.

 

Lei revolucionária. Não tendo resolvido tudo, marca um antes e um depois.

Lilia – Concordo totalmente. Sabe-se hoje que Pedro II não estava no Brasil e que fez isso tentando garantir um terceiro reinado para Isabel. Não conseguiu. Na batalha pela República, os negros foram leais a Isabel. “Sabemos que a Monarquia nos deu a abolição. Não sabemos o que a República fará.” O problema é que durante muito tempo essa lei foi vendida pelo Estado como um presente!, e não como um processo de luta. Muitas das cartas de alforria eram compradas pelo próprio escravo. E sabe qual era a primeira condição para ser reconduzido à escravidão? A infidelidade. A linguagem da dependência e a linguagem do favor perpetuou-se na lei da abolição. Isso sem esquecer os racismos que começam logo após.

 

O que é que fica de uma sociedade esclavagista, mais do que tudo?

Heloísa – Fica o nó da origem escravista. Que reaparece no Brasil contemporâneo das mais diferentes formas. Tem uma canção que Chico Buarque fez recentemente com João Bosco. “Sinhá”. Profundamente dolorosa. É bem o Chico filho do Sérgio Buarque falando.

 

Como é?

Heloísa – Chico flagra o momento anterior à tragédia. O escravo vai ter os olhos furados pelo senhor porque viu a mulher branca no açude. O escravo diz: “Não faz isso, não”. No final da canção, a gente descobre que o escravo é filho da senhora, da Iaiá.

Há um censo feito pela Lilia em que as pessoas dizem: “Eu não sou racista”. “Conhece alguém racista?” “Sim. Meu pai, minha mãe, minha avó...”. Todo o mundo é racista, menos o próprio.

 

O racismo é uma herança óbvia da escravatura, desse período. É a principal?

Heloísa – O racismo e a violência. A violência que, na sociedade brasileira, está cada vez mais escancarada. Não é que tenha aumentado. Está é para quem quiser ver.

 

As pessoas têm embaraço em dizer que são racistas?

Lilia – Nessa pesquisa, 97% diziam não ter preconceito e 99% diziam que conheciam alguém que tinha. O detalhe é que não pedíamos nomes, as pessoas é que queriam dar. E eram todos próximos. “A minha avó não entra no elevador com [um negro]”: era um clássico! O racista é o outro.

As acções afirmativas não têm, por milagre, a possibilidade de acabar com o racismo num país que sempre foi racista. Mas é inegável que trouxeram isto: não é mais possível dizer “Eu não tenho esse problema”. Este é um turning point no Brasil. As acções afirmativas trouxeram o estudo de África nas escolas. “Para quê estudar África?” Houve um momento em que a elite achou que era desnecessário. Mas o Brasil é um país negro e mestiço, também.

 

E muito. Cerca de 60% a 70% da população é constituída por negro e pardo. Por pardo, deve entender-se mestiço?

Lilia – Não. É et cetera. Esse é um país que se define por cores. O que já é um problema. O Brasil é branco, até há pouco tempo era vermelho (agora é indígena), amarelo (os orientais), preto (negro). E aí vem essa quinta categoria que é pardo. Pardo: ninguém é. É categoria de acusação. Ninguém se autodefine como pardo. De novo, é o racismo silencioso. Pardo é: nenhuma das anteriores. Todos nós sabemos que pardo é moreno. Só que os morenos não dizem: “Sou pardo”. Dizem: “Você é pardo”. “Não, você é que é.”

Heloísa – Nas notícias policiais, até há pouco tempo, o criminoso era sempre pardo. Não era mestiço, não era mulato. Era pardo.

Lilia – Pardo vem de pardal. Pássaro vagabundo, sem cor.

 

A palavra que me ocorreu quando estavam a descrever pardo foi pobre. Pode ser o que sobra de todas as categorias e que, sobretudo pela pobreza, não cabe em nenhuma delas. Faz sentido?

Lilia – Todo.

Heloísa – Pardo e pobre: as duas coisas estão associadas.

Lilia – A sociedade constrói marcadores para determinar hierarquias. Se diz: “Só estudo o racismo”, está cristalizando o problema. Essas marcas de diferença estão associadas a outras. Raça associa-se com frequência a género e a classe social. Se fizer uma política de bónus (não de quotas), como fizemos na Universidade de São Paulo... “Pessoas que durante três anos estudaram na escola pública, ganha tantos pontos”...

Heloísa – Se fizer isto, muda a cor da universidade.

Lilia – Serão pessoas de classe social mais pobre e serão negros.

Heloísa – Em Medicina, você não via negro. A partir de políticas [de promoção dos que vêm] da escola pública, mudou a fisionomia.

Lilia – A convivência com a diferença não é só uma obrigação: é uma vantagem. Aumenta o seu repertório.

 

O outro, sobretudo se é pobre, sendo negro, sendo amarelo, é visto normalmente como uma ameaça. A atitude dominante não é a de achar que aumenta o meu repertório.

Heloísa – O desconhecido, o estranho é sempre uma ameaça.

Lilia – É uma ameaça, também, porque ele tira a minha vaga. Concordo com a ideia de que raça, existe uma, a humana. Raça é um conceito biologicamente falacioso. O que os homens fazem é construir em cima de raça, e constroem raças sociais.

 

Há uma canção escrita por Chico e Caetano e interpretada por Tom Jobim, Miúcha, também Chico e Caetano, “Vai levando”. Quando se olha para a fúria das manifestações recentes, a esperança de que “a gente vai levando”, já não funciona. Sobretudo depois de 20 milhões de brasileiros ascenderem à classe média. Parece que estamos numa situação pré-cataclísmica, que qualquer coisa vai mesmo ser mudada de lugar.

Heloísa – A gente só tem noção da História depois que ela passa. Mas quero arriscar dizer: talvez o Brasil esteja vivendo nesse momento o início de um novo capítulo da História do Brasil. Em 2013, as primeiras marchas talvez sejam o ponto de inflexão. O processo que começou em 88 com a redemocratização encerrou-se. O passado não é mais. Mas o futuro não é ainda. É para este tempo que os brasileiros têm que construir uma agenda – com ferramentas que a democracia os obriga a manipular. Como você disse, tem 20 milhões de brasileiros que saíram de uma posição...

 

Que querem manter.

Heloísa – Querem direitos. Que é que estava se reivindicando em 2013? Transportes, saúde. Que é que estava se dizendo? Que há um profundo gap entre o governo e a população.

 

O génio saiu da lâmpada, não quer voltar mais para o interior. E uma vez cá fora, exige direitos.

Lilia – Quem chegou num lugar, não volta [atrás]. Falamos tanto da ascensão da classe C... Tem consequências. Tem um filme muito bom, “A Família Braz” (de Dorrit [Harazim e Arthur Fontes], que acompanha uma família que faz esse caminho. Sai da favela, passa a comer comida japonesa, viaja para o exterior pela primeira vez, anda de avião pela primeira vez, entra na universidade pela primeira vez. Tem acesso. Tem o sonho da casa própria, o sonho do carro, o sonho da mobilidade.

Heloísa – Havia uma discussão recente que dizia assim: “Esses milhões de pessoas foram incorporados como consumidores”. Desde 2013 estão mostrando que não são consumidores. São cidadãos. Isso significa que querem que a agenda de direitos se expanda e se complete.

 

Os direitos têm que ver com o básico, a vida de todos os dias.

Heloísa – O transporte nas grandes cidades brasileiras é de facto apavorante. Lembro uma classe média tradicional nervosa, dizendo: “A gente agora vai para o aeroporto, parece rodoviária”. Mas não estamos lidando só com consumidores. O que é positivamente bom é o facto de estas pessoas se comportarem como cidadãos.

 

Brasil faz parte dos BRIC’s. No passado recente, o comportamento dos países emergentes tem sido muito diferente. O crescimento do Brasil não é o mesmo que era não há muitos anos. Por causa destas questões sociais e desta convulsão, há quem comece a desconfiar seriamente que o Brasil possa chegar onde prometia. Há um custo social que entra na equação de uma maneira muito forte.

Lilia – Sabe que há um bom tempo que dou aula nos Estados Unidos. Comecei em Brown, depois Columbia, agora Princeton. Vi essa emergência do Brasil e essa queda vertiginosa. Acho que não é nem o céu nem o inferno. Quando comecei a ser chamada para dar aula no exterior, eu causava uma profunda decepção. Não sou morena, não tenho tatuagem, não tenho pena no cabelo, não sou exuberante. Esperavam um Brasil exótico. A imagem do Brasil, antes dos BRIC’s, era a do país da capoeira, do candomblé.

 

E era uma imagem muito sexualizada? De corpo exposto.

Lilia – Muito. Sobretudo da mulher.

Heloísa – Era a mulata.

Lilia – A visão comum é a de que toda a brasileira tem uma coisa sensual. Depois disso virámos o país das favelas e só se falava da violência das favelas. Não digo que não somos. Assim como não digo que não somos o país do candomblé. Ao contrário: o meu argumento é que somos. Mas não somos só. Depois foi a voga dos BRIC’s. De repente, o país das favelas virou o país da solução. De repente éramos a solução criativa para o mundo. Eu já dizia que isso era uma bolha que ia estourar... Veja o movimento pendular. As pessoas não prestavam atenção ao facto de não termos enfrentado os problemas estruturais. Transportes, saúde, educação, desigualdade.

 

Portanto, o Brasil crescia, prometia, mas era um gigante com pés de barro.      

Lilia – Exactamente. Não tinha jeito de não estourar. Junto com isso, uma grande promoção do Brasil.

 

Com a Copa, as Olimpíadas.

Lilia – Parte das manifestações era para dizer: “Não queremos estádios, queremos dinheiro para professor”.

 

Também se considerou que, uma vez que havia esse comprometimento com o exterior, pelo menos até 2016, não havia outro remédio senão crescer. E que a bolha ia rebentar a seguir.

Lilia – A verdade é que a maquilhagem não dá conta. Para construir isso tudo, é preciso tirar de algum lugar. O cobertor era curto. O Brasil fez uma promoção para o exterior sem que existisse a compensação...

Heloísa – E não contaram com o povo brasileiro. Tem uma população que vai colocar uma agenda de direitos no lugar do estádio de futebol. Foi essa equação que, quando se vendeu o Brasil para a Copa ou para as Olimpíadas, não se considerou.

 

Grande erro?

Lilia – Penso que sim.

Heloísa – E teve consequências para os governos.

 

O livro é uma biografia do Brasil. Pensemos que é uma biografia de uma família. Quem é quem?

Lilia – O Brasil é a família composta e complexa. Este Brasil que estamos trazendo como biografia compõe o mando, géneros, gerações e trabalho.

Heloísa – E traz tanto os grandes personagens, o pai e a mãe, os personagens médios, os filhos, como traz os personagens que estão ao rés do chão, e que vão ser determinantes no momento em que o país tiver que fazer escolhas.

Lilia – E, como toda a biografia, traz a trajectória do imponderável. Terminamos desconfiados.

Heloísa – Por isso dizemos que achamos que vai começar um capítulo novo. O máximo que pode pensar é o seguinte: há uma agenda a ser construída. As questões dessa agenda estão colocando uma desfasagem entre o Estado e a sociedade. Os direitos. A luta contra a corrupção.

 

Por onde é que essa agenda vai?

Heloísa – Eu espero que vá pelos valores republicanos.

Lilia – Há um movimento (a gente é contra), que é forte, pelo impeachment, pela direita, pelo governo militar. Isto é muito plural.

 

Está tudo a acontecer – essa é a noção que fica.

Lilia – E isso é impressionante. Esses lados todos que não são convexos. O livro está em primeiro lugar no top de vendas há dez dias. Estando dividindo o primeiro lugar com os livros de colorir! [riso] Acho que é um livro republicano, indignado. E é um livro de duas mulheres. Os nossos historiadores são todos homens.

Heloísa – Vou roubar uma frase da Lilia. Ela fala que o nosso presente está carregado de passado. O passado fornece as ferramentas. Talvez o facto de o livro estar a receber essa aceitação do povo brasileiro tenha a ver com o momento que esse povo está vivendo e o desejo de saber mais da sua História. O Guimarães Rosa dizia que um livro é quase sempre maior do que a gente. Não sei se esse é maior. Se for, uma parte do tamanho dele vem de poder oferecer a um público não académico alguns elementos para pensar a sua própria história.

Lilia – Não é o [Jacques] Le Goff que diz que os historiadores voltam ao passado com as perguntas do seu tempo? Então acho que a gente está voltando com perguntas, que são minhas e da Heloísa, mas que são do nosso tempo.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2015

 

 

 

 

Frei Bento Domingues

01.12.18

Frei Bento Domingues sublinhou em Tomás de Aquino: “Se faço uma coisa porque está mandado, mesmo que seja por Deus, não sou livre, só sou livre quando faço, ou deixo de fazer, porque é mal ou é bem”. Quis ser um homem livre. Tinha pó a Salazar. Deu-se com Sá Carneiro ou Salgado Zenha. Acolheu membros das Brigadas Revolucionárias na clandestinidade. Vive num convento em Benfica. Nasceu em 1934 numa terra onde se “plantam carvalhadas”…

Este é Frei Bento no tempo em que ainda não era Frei Bento. O que nasceu nas Terras de Bouro, creu em bodes e bruxas no cruzamento de caminhos, leu às ovelhas orações em latim. E este é Frei Bento que fez discursos considerados subversivos, que foi apontado como persona non grata nos anos 60, que andou por África e pela América Latina. Este é Frei Bento, com quem muitos se enfureceram porque defendeu a ordenação de mulheres, e que esteve de costas para um baile porque um padre não podia assistir a um baile. Um heterodoxo. Colunista do Público. Conversador fascinante. Espírito livre. 

Serviu um lanche de pão com queijo e café. Confessou as mazelas físicas próprias da vida sedentária. Mostrou um curativo numa perna. Tudo coisas normais. Tudo coisas que fazem parte. Como Tomás de Aquino faz parte.

Parece mais novo do que é. Fala com sofreguidão. Acabou com a boca seca, três horas depois de termos começado. Sem tabus. “Eu até achava que se alguém me chamasse pai me insultava!”

 

Há quanto tempo não lhe chamam Basílio?

Desde 1953, quando entrei para os dominicanos, em Fátima. Antes de tomar o hábito prostramo-nos, pedimos a misericórdia de Deus. “A partir deste momento vais chamar-te Frei Bento”. Agora já não fazem isso, por causa das complicações com os documentos. Em relação a mim, teve a ver com o padroeiro da minha aldeia, São Bento.

 

A São Bento da Porta Aberta, perto da sua terra, milhares de pessoas vão em peregrinação. Muitas deles a cumprir promessas. A pé.

Foi o lugar onde chorei mais, meu Deus. Tinha para aí cinco anos, atravessámos a serra para ir ver “o fogo do lago”. Imaginava um lago a arder, para mim era ter uma visão. Cheguei lá, junto a uma vendeira que pôs cobertores no chão, sentei-me, e acordei no outro dia de manhã. Perguntei: “Quando é o fogo do lago?”, “Foi ontem”. Desatei a chorar, chorei até casa. Tinham-me roubado o paraíso.

 

Comoveu-se ao falar disso. Como se fosse o menino a quem roubaram o paraíso. Sabia que o seu nome ia ser mudado, tinha uma preferência, ou não pensava nisso?

Ao meu irmão, que se chamava Domingos, puseram-lhe o nome de Frei Bernardo. É mais velho que eu três anos e três meses. Somos da Ordem de São Domingos, dos Dominicanos, a ordem dos pregadores. Era um bocado arbitrário. Umas vezes iam ao calendário e punham um nome. Alguns pareciam anacrónicos, absurdos. Mas gostei. Na minha família havia duas listas de nomes. Os que eram da parte da minha mãe eram nomes pagãos, romanos (Leontina, César). Os que eram do lado do meu pai eram bíblicos (Abraão, Jeremias, David). Tinha um tio que também se chamava Basílio; entrou nos Dominicanos no Brasil e puseram-lhe o nome de Frei Bernardo.

 

Na literatura brasileira há um famoso Bento, personagem central do Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era tudo menos santo, e padeceu de ciúme.

Eu li. Muito bem escrito. Quando fui a primeira vez pregar à minha paróquia, um homem que se metia bastante nos copos, gritou: “Sr. Padre Basílio, não insista!, esta gente está como está, e assim vai morrer!” [riso].

 

A sua mãe chamava-lhe Basílio?

Não, a partir de determinada altura também não. Chamava-me Bento. Com o “e” muito aberto, que é o costume no norte.

 

Nasceu Basílio de Jesus. Tem um irmão que é frei, e um tio. Esta via estava-lhe predestinada?

A minha mãe era profundamente cristã, e o meu pai também. Não eram convencionais, de um cristianismo sociológico. Coisa esquisita: o meu avô, o pai do meu pai, morreu muito cedo, e a minha avó tinha três filhos. Um deles era esse meu tio que depois de chegar ao Rio de Janeiro entrou nos Dominicanos. A minha avó tinha-o impedido de ir para os Franciscanos, em Braga.

 

Porquê?

Ela estava muito enraizada na mitologia local, terrível, que compaginava com a religião católica. Eram costumes de raiz pagã. Em pequeno tinha medo que os meus pais estivessem errados e que a minha avó é que estivesse certa. Eles não tinham medo daqueles bodes que apareciam de noite, nem das bruxas. Há lugares onde ainda hoje, de noite, não ia lá… Cruzamentos de caminhos, de ribeiros.

 

Uma fantasmagoria. O que é que a potenciava?

Aquilo só naquela geografia, acima da jeira, da estrada romana, em plena serra, penedos enormes. Era uma religião do medo. Cheguei a acompanhar um tio meu, ao moinho da água, no Verão, para as bruxas não se aproximarem, porque se fosse sozinho tomavam conta dele. O meu pai e a minha mãe achavam que era tudo treta. Quando andava com as ovelhas, e perdia ovelhas, tinha de ir procurá-las, porque a minha mãe não acreditava em visões, queria era as ovelhas na corte. Aquilo era para mim uma aflição louca.

 

A primeira coisa que marcou a sua infância foi o medo?

Não. Foi o espanto. “Como é que as pessoas ainda não tocaram o céu?”. Subia até ao cume para tocar, via um novo e dizia: “Acolá é que é, enganei-me”.

 

“Aquela coisa é que é linda”, como dizia o poeta. No monte é a mesma coisa, “acolá é que é”. Mas nunca se chega a tocar.

É evidente que era uma parvoíce. Era parvo, era pequeno. As faíscas rachavam penedos. As casas tinham latadas de uvas. Quem tinha viola em casa, por exemplo: [as faíscas] vinham e percorriam a viola – aconteceu isso com o meu pai. Recomendavam que não nos abrigássemos nem debaixo de árvores nem debaixo de penedos. E faziam orações a Santa Bárbara e a São Jerónimo. Havia um certo encantamento nisso.

 

Esteve para ser pastor ou desde sempre esteve para ser dominicano?

Dominicano foi uma coisa dos 13 anos. Um padre brasileiro, muito jovem, a estudar em França, passava as férias em Portugal. O Padre Adriano. O pároco [da terra] pediu-lhe para pregar a Nossa Senhora do Livramento, na romaria de Terras de Bouro, numa capela muito bonita. Durante oito dias, uma novena. Os padres tinham a mania de falar do inferno, de morrer em pecado mortal. É evidente que depois as pessoas faziam os descontos, não levavam aquilo muito à letra, mas era o tom.

Esse padre falava através das coisas da agricultura, via que as pessoas eram de trabalho. Estava vestido com um hábito branco. E falava-nos de como Deus nos tinha no seu coração, da graça de Deus. Deus não era temor, Deus era amor. Escolhi isso para a minha vida. Se Deus não nos amasse ia para o desemprego, porque Deus só sabe amar.

 

Deus no desemprego é uma ideia insólita.

Eu ficava a olhar para aquilo como para uma aparição. Fui-me confessar. “O que é que queres ser quando fores grande?”. E eu, não sei, aquilo saiu-me como uma bala, mas de dentro do coração: “Quero ser como você”. E assim foi. Fui para a Escola Apostólica fazer o liceu. Morreu aos 39 anos com um cancro. Ele era a alegria.

 

Acha que foi isso que o tocou?

Foi. Também não tinha a ânsia de que as pessoas se convertessem. É uma coisa muito chata, quando vejo padres que parece que só gostam das pessoas se elas se tornarem católicas.

 

A sua atitude não é essa, mas, senso comum, é isso que se espera de um clérigo.

Tenho convicções a partir da fé e procuro defendê-las; mas não me custa nada que outros tenham outras convicções, ou que não tenham nenhumas. Uma vez que não estraguem a vida a ninguém… Se pessoas, grupos, instituições estragam a vida aos outros, aí encolerizo-me.

 

Escreveu: “Não existe sagrado fora do homem”.

O que é que é sagrado? Há leituras do sagrado que em nome de Deus dão cabo dos homens, como fez a Inquisição, como fazem certas religiões, certos cultos. Quem for herético, uns são apedrejados, outros são mortos. O sagrado é o ser humano. O ser humano é que levanta a questão da divindade.

 

Reconheci nesta frase um leitor de Tomás de Aquino.

Estudei apaixonadamente, até hoje.

 

Lê ainda no latim, ou já numa tradução?

Leio sempre no latim.

 

O que é tão fundador em Aquino é uma relação umbilical entre a Teologia e a Filosofia, entre a revelação e a razão.

Aquino fez comentários de Aristóteles e comentários das Escrituras. E fez um grande guião, que era a Suma da Teologia, para as discussões que havia. Mudava muito de opinião segundo as bibliotecas por onde passava. Era um leitor inveterado. O problema: não podia ver as coisas pelo lado da razão serem uma, e pelo lado da revelação serem outras. Era uma escuta dupla, a escuta do mundo e a escuta da escritura. Teve 12 secretários exclusivos a quem ditava, para não se cansarem. Tinha uma letra muito má e depois as pessoas não entendiam; então ditava.

 

Não é espantoso sabermos que há tantos séculos – Aquino é do séc. XIII – um homem tinha 12 secretários, e que as suas palavras cheguem até nós? Diga-me uma frase dele que funcione para si como um leitmotiv.

“Como é que é verdade aquilo que dizemos que é verdade?” Se dizemos o credo, se não procuramos saber o que é que significa, qual é o seu alcance? São Tomás, nessa grande obra de síntese que fez, [tem uma atitude] muito interrogativa. Tudo o que digo da ordem da fé tem uma pluralidade de interpretações.

 

O problema é quando a interpretação é literal?

É a desgraça absoluta. É querer meter Deus num conceito. Tomás de Aquino dizia: “O credo é uma mediação para nos espraiar no mistério insondável de Deus”. O que é mais criminoso nas religiões são as afirmações apodícticas. Esse Deus não pode existir. Se Deus coubesse nos nossos conceitos era mais pequeno que os nossos conceitos. Os nossos conceitos, a nossa linguagem, evocam-n’O, misteriosamente. Como toda a linguagem da poesia.

 

Foi a base interrogativa de Aquino que o inspirou quando em 1962/63 fez no Porto a exposição O Mundo Interroga o Concílio?

A exposição foi concebida e montada pela Juventude de Cristo Rei, de idades, predominantemente, entre os 15 e os 20 anos. Já tinham estado com o meu irmão. Eles é que se organizaram, fizeram estatutos, uma revista, calendário de reuniões, cursos, actividades de cinema e teatro. Eu era, apenas, o assistente nomeado pelo Convento Dominicano. Como me chamava Frei Bento e o grupo tinha tendências inconformistas, chamavam aos seus membros “peixinhos vermelhos em água benta”.

 

Não é por modéstia que está a dizer isso? Não foi realmente o mentor do grupo?

Não. Vinham falar comigo, vinham confessar-se. Tinha pessoas ali à volta, o Dr. Sá Carneiro, uma classe média alta. Havia a avenida [do Marechal] Gomes da Costa, as moradias, as meninas da Foz, toda a elegância. E depois havia Xangai (onde agora está o [liceu] Garcia de Orta), um bairro de lata, os pobres. Queria que se encontrassem aqueles mundos e convidava tudo para o mesmo grupo. Fazíamos passeios juntos, pessoas muito ricas, pessoas pobres. Depois deu bronca.

 

A bronca era sobretudo política, ou porque desafiava as convenções sociais juntando essas pessoas?

Primeiro era social. Uma vez o meu prior agradeceu os bodos do Natal, bacalhau, isto e aquilo. Fiquei chateado de ele ter agradecido. A seguir era eu que fazia a homilia, e disse: “A comida de Natal desta gente [pobre] é a vossa dos dias de jejum”. A assistência às missas era classista. Às missas da manhã iam as empregadas. Esse mundo não tem nada a ver com o mundo evangélico.

 

A exposição, realizada no salão do convento, teve problemas com a PIDE.

Quando a exposição foi realizada, eu encontrava-me em pregação na Bemposta, Diocese de Aveiro. Os jovens tinham ido à Ferreirinha, das ferragens, levaram de casa revistas Paris Match e fizeram 12 painéis grandes com recortes. Eram todas as questões do salazarismo: as sindicais, da fome, da guerra colonial, o bispo no exílio. Coincidia com a estrutura da Encíclica Pacem in Terris de João XXIII.

A exposição tinha sido um êxito espantoso e os pro-associativos (estudantes do liceu que lutavam pelo direito a uma associação, considerados de esquerda) desejavam visitá-la no 1º de Maio. Espalharam muitos folhetos a anunciar a visita. O jornal Agora, de extrema-direita ou assim considerado, publicou um artigo com o título: “Pavilhão soviético no convento”.

De repente tenho informações de que a PIDE vai intervir. A praça junto ao convento estava pejada de gente, muito exaltada. Queriam que abrisse a porta: “Não, não, aqui a polícia não manda”. E levaram gente da extrema-direita, gente que era contra aquilo tudo. A polícia sentiu-se frustrada e foi-se queixar ao bispo e ao governador civil. O prior do meu convento obrigou-me a que dentro de 24 horas estivesse fora do Porto.

 

Foi para onde?

Vim para o convento de Queluz. Tinha já alguns contactos em Lisboa, com o Nuno Bragança, com gente que estava a começar O Tempo e o Modo. Houve uma conferência na Igreja de São João de Brito, na cripta, do Padre Manuel Antunes. Também intervim. Não sei a dizer o quê. Sei que quando cheguei ao convento, o meu superior disse: “Já me chegou cá que fizeste uma intervenção… Não podes ficar em Lisboa. Vai tirar o passaporte”. Só me deram o passaporte para Roma, o que foi um equívoco deles; Roma era onde estava o concílio.

 

Tinha 30 anos. Ainda no Porto: o que é que lhe provocou essa adversidade, face àquilo que era natural em si, e que era a interrogação?

Somos todos humanos, uns tão ricos, outros tão pobres, outros miseráveis. Nas homilias não podia não dizer o meu espanto por aquelas coisas. Já tinha estudado Teologia, em França, e assistido a uns debates acesos a esse respeito, por causa dos padres operários, da Jeunesse de L’Église. A problemática entre política e fé estava muito viva. O pânico dos pais era que houvesse rapazes ou raparigas que se entusiasmassem por outro que não era da mesma classe social. Era a primeira vez que havia em Portugal um movimento misto de rapazes e de raparigas.

 

 

A questão de fundo, para os pais, era o sexo?

Não queriam que se misturassem nas festas. Mas fazíamos passeios, excursões, algumas de três dias. Uma vez na Guarda, os rapazes e as raparigas calcorrearam os dormitórios uns dos outros; veio uma irmã dizer-me que estavam a dormir uns com os outros. Eu disse: “Se estão a dormir não há perigo” [riso]. Tinham essa obsessão. Em Marco de Canaveses fizemos um magusto, e as pessoas dançaram. Os padres não podiam participar em bailes. Então sentei-me num banquinho de costas para o baile [riso]! Não é que o administrador apostólico, aquele que substituiu o D. António Ferreira Gomes, quando ele foi para o exílio, fez muitas queixas de mim? “Você esteve num baile”, “Ai isso é que não estive, estive de costas para um baile”! Coisas ridículas.

 

De onde lhe vem essa têmpera? O normal na sua condição seria acatar as indicações superiores. Porque é que não via pecado onde os outros viam pecado?

As pessoas é que tinham os olhos cheios de pecados. No evangelho vem: “Se o vosso olhar for puro, tudo será puro”. Há todo um arsenal exterior em que nunca me reconheci. Ontem estava a ler uma coisa do Santo Inácio, As Regras Para Sentir com a Igreja [Concílio de Trento, século XVI]; “Se vês que é branco, mas a hierarquia da Igreja te diz que é negro, tens que dizer que é negro”. Disse para mim: “Este homem é doido”.

 

No seu caso, não sentiu sempre com a Igreja, no sentido em que não se conformou com a hierarquia.

A hierarquia é essencial à Igreja como serviço da comunidade, mas a comunidade é que é a Igreja. Santo Agostinho tinha dito, de uma forma genial: “Convosco sou cristão, para vós sou bispo. A primeira é a minha salvação, a segunda até pode ser a minha condenação, se não me portar bem como bispo”. Uma coisa é o serviço à comunidade que posso prestar, outra coisa é a graça de Deus, transformante da minha vida.

 

As contendas que foi tendo com a hierarquia ao longo dos anos, nunca o fizeram repensar a opção de fundo que tomou para a sua vida?

Não, ao contrário. Gostavam que fosse um menino mais bem comportado. Perante determinadas afirmações o que achava inaceitável, achava inaceitável. Se me demonstrassem que as coisas podiam ser de outra maneira, que estava a ver errado, melhor para mim. Kant dizia que a nossa razão levanta questões que ela própria não pode resolver. Estou aberto à revelação.

 

Deixe-me voltar ao Basílio, a biografia do Basílio. A formação daquela pessoa foi determinante para percebermos este Frei Bento e o modo como ele se integra na hierarquia da Igreja?

Há questões que vêm da infância. Meu Deus, estávamos numa aldeia onde éramos todos pobres. Não havia fome porque as pessoas trabalhavam, mas era uma vida terrível. Chovesse ou fizesse sol, descalço para a escola. Quase ninguém fazia a 4ª classe, os pais não estavam interessados nisso. Na minha família, os meus pais interessavam-se muito.

 

Sabiam ler e escrever, os seus pais?

O meu pai até saiu da aldeia, e esteve três anos fora para fazer a 3ªclasse. Lá não havia escola. Era juiz de paz, regedor, presidente da junta de freguesia. A minha mãe era muito mais convulsiva, extremamente racional. As raparigas do tempo dela iam a uma escola não-oficial, onde aprendiam. Havia um livro para todos, aí pelos anos 20. Uma vez, era o dia em que lhe calhava ter o livro para preparar a lição, estava comer papas de milho, pegou numa colher de papa, meteu no meio dessa página e fechou-a. Resultado, o professor nunca mais quis as miúdas na escola.

O meu pai recebia o jornal que lhe mandavam, havia dois ou três livros em casa, e os da escola. Mas ela dizia-nos: “Os livros têm o que lá põem, os jornais têm o que lá se escreve. Não se deve acreditar em tudo”.

 

De onde é que lhe vinha essa atitude dubitativa?

Creio que era a personalidade. Era uma mulher resolvida, congregava energias. Crescemos numa grande liberdade, questionávamos tudo, dentro de um universo muito fechado. Eu não tinha jeito nenhum para os trabalhos agrícolas, era um nabo. Os meus irmãos eram óptimos.

 

Quantos irmãos tem?

Um já morreu, éramos cinco. E os meus pais ainda adoptaram outro, a mãe tinha morrido quando nasceu. Foi tratado muito melhor que qualquer um de nós.

 

Para mostrar que não havia distinção?

Não era para mostrar, era assim – ele nem sequer tinha mãe...

Eu tinha um livro em latim, não sabia nada de latim, mas gostava muito dos sermões que começavam com uma frase em latim. E fazia sermões às ovelhas, quando ia com elas para os montes. O eco dos penedos, as ovelhas espantadas a ouvir latim… Íamos à escola aprender outra língua. A língua que falávamos todos os dias, na escola, não valia.

 

Como assim?

Cheguei à escola e o marido da primeira professora, que era legionário, mau como as cobras, mandou-me ler uma palavra. “Maçã”. Mas nós dizíamos “mação”. Deu-me uma bofetada. Maçã para mim não existia. Chegou o plural, dizíamos “maçães”. Deu-me outra. Cheguei a casa e disse: “Ó minha mãe, o Sr. Santos está a dar cabo da fruta toda” [riso]. De aldeia para aldeia, julgávamos que os outros eram estúpidos e falavam mal. Recordo-me de em criança me rir disso. Eram regionalismos, muito localizados.

 

Diga-me uma palavra que fosse mesmo própria da sua terra.

“Aproveita este bocanho”. Bocanho é aquele bocadinho de tempo entre uma chuva e outra. O “b” e o “v”: lá era tudo “b”. Só que as pessoas que vinham para Lisboa confundiam tudo. Daí é que vem o “voi”.

 

Lá era “baca”.

Lá não havia confusão, era tudo “b”, como em Espanha. Chegávamos à escola e não encontrávamos palavra nenhuma. Havia outra coisa, horrorosa: o palavrão.

 

Horrorosa?

É. Uma pessoa que vá de fora… Não há palavra nenhuma que não tenha um acompanhante. Senão não tem força! E as crianças? A minha mãe ouvia os vizinhos, quando estava a fiar à noite, a gritar, a discutir, a sonhar. Sonhavam em palavrão! Ainda não sabiam falar bem e já diziam palavrões. E até corruptelas de palavrões. Um miúdo estava na eira, quase não falava, a mãe chamava: “Abílio!”, e ele: “Xoda-se”. É feio pela abundância e pela ausência de vocabulário.

 

O que isso denota é uma deficiência de vocabulário. Não têm outras palavras/recursos para continuar a discussão.

Nem sequer precisa de discutir. Manda a pessoa para aqui, manda a pessoa para acolá, e pronto. Anda a discutir com o gado, a chamar palavrões às vacas. Não acho nada bonito. Havia um padre que dizia: “Não se confessem dessas coisas. Isso não é pecado, é feio”. Aquilo não tem intencionalidade nenhuma.

 

A maior parte do palavrão diz respeito a actos da sexualidade ou nomeia órgãos sexuais. Talvez essa carga de pecado tenha que ver com isso.

É quando noutros lugares lhe dão uma interpretação maliciosa que as pessoas acordam. Lá era um desafogar, ou então em admiração. Houve uma transmutação social do palavrão. Ao tornar-se tão habitual, tão constante, passa a ser algo sem conotação. Quase diria que é a retórica dos que não têm retórica. Era uma linguagem enfática. Havia pessoas conhecidas pela abundância com que repetiam e associavam uma série de coisas. Diziam: “Lá está aquele a plantar carvalhadas”.

 

Carvalhadas, ou carbalhadas, como lá se diz, bem como carbalho, são corruptelas do palavrão para o órgão masculino.

É necessário ver que havia uma distinção muito grande entre essas palavras e a realidade. Vou contar uma história que se passou comigo. Um vizinho que estava com as vacas num nevoeiro enorme passou o tempo à sacholada ao nevoeiro e a dizer palavrões. Cheguei a casa, contei à minha mãe, e ela disse: “Esse homem é assim, muitas asneiras, mas é uma jóia de homem; e tem uns filhos que não dizem uma palavra dessas e são uns sacanas”. Aquela abundância não revelava o coração, era só literatura. A maldade, a malícia, isso é que era a zona do pecado.

 

A sua mãe foi a pessoa que mais o marcou?

Nunca tive o temperamento dela, a capacidade de iniciativa. O meu irmão, o Frei Bernardo, tem muito mais isso que eu. Eu tinha era espanto pela minha mãe. O meu pai era a doçura, só me lembro de uma vez ficar furioso comigo. A minha mãe estava-nos sempre a ralhar, por tudo e por nada. Para mim, e para os meus irmãos, foi mais significativo a paixão que tinham um pelo outro, até ao fim, e que não escondiam. As pessoas lá nem mostram muito a ternura. Ainda hoje tenho-os muito presentes, sempre comigo. Essa maneira de matar os pais é muito má.

 

Qual maneira?

As pessoas morrem e querem é não se lembrar. Faz-lhes pena. Tive um problema com a morte da minha mãe. Fui visitá-la ao hospital, a Braga: “Ainda bem que vieste ver-me, é a última vez. Vens tão raras vezes”. Começou a fazer-me o sermão, mas não acreditei muito. A minha mãe era imortal. Na manhã seguinte foram os meus irmãos que estavam no Porto que me bateram à porta: “A mãe morreu”. Creio que não acreditei. O meu irmão e eu celebrámos a eucaristia do funeral. Não me lembro nada de a levarem para o cemitério.

Regressei a casa uns meses depois. O meu pai estava sentado à lareira e perguntei-lhe: “Onde é que está a mãe?”. Aquilo foi horroroso. Ele diz: “Então a mãe não morreu?”. [extrema comoção] Tinha vivido na ilusão. A partir dali comecei a dizer: “Se ela viveu comigo este tempo todo, vai continuar”. Foi uma transmutação interior. Anda sempre comigo. Lembro-me dela todos os dias, falamos todos os dias.

 

Que idade é que tinha quando isso aconteceu?

Foi em 80 e poucos.

 

Já era um homem feito, maduro.

Mas abalou-me muito o facto de ela morrer. Já tinha feito tantos funerais…, as pessoas morrem. Recusa. Não sei o que se passou. Percebi o que é a morte. É a gente não ter interlocutor. A não ser quando faz o ricochete, que fiz depois.

 

Vendo essa paixão entre os seus pais, não desejou replicar isso na sua vida? Quando era novo, não quis ter uma família, uma mulher?

O problema não era que não houvesse atracção por mulheres. Mas nunca tive essa ideia de constituir família. Às vezes encontro padres que dizem: “Dediquei-me a Deus, mas bem gostaria de ter filhos”. Eu até achava que se alguém me chamasse pai me insultava! Não fazia parte. Na família somos dois padres, o meu irmão mais novo não casou, e tenho uma irmã que tem 12 filhos e netos (já nem conheço os nomes deles todos). Há uma compensação da natureza.

 

Não ter pensado nessa vida para si tem uma relação com a sua decisão precoce? Foi como se se comprometesse com um futuro que inviabilizava qualquer outro.

Tenho a certeza. Nunca tive aquelas crises de vocação. Houve tantas convulsões na Igreja desde que me conheço…, nada, nunca passou por mim. Imaginar-me casado?, nem pense!

 

O que é que sacrificou ao assumir o sacerdócio?

Nada. O importante foi a profissão religiosa, os votos religiosos. Matavam-me se me dissessem: “Não podes ser um dominicano”. Foi a alma da minha vida desde que disse ao Padre Adriano: “Quero ser como você”. Foi uma coisa não imitativa.

 

Isso parece paradoxal. Como não imitativa se disse: “Quero ser como você”?

Era aquela alegria do mundo. Não era “agora vou configurar-me”. Nunca me passou pela cabeça andar à procura de um modelo. Ele era inspirador, mas o que eu queria era ter a liberdade que sentia nele. Andei por imensos países a fazer cursos, em contextos de guerra, quer na América Latina, quer em África. As pessoas hoje empregam sempre [a expressão] “um desafio”. Não sentia nada aquilo como “um desafio”. Era o que tinha que ser.

 

Esteve em Angola, no Peru...

Moçambique, Colômbia, Chile, Argentina. A primeira vez fui ao Brasil. Não havia ninguém para ir a uma coisa que fizeram sobre o Óscar Romero [Bispo salvadorenho; apelava nas suas homilias à não violência e denunciava violações dos direitos humanos. Acabou assassinado] e pediram-me para ir.

 

Nesses sítios, esteve porque escolheu ou porque o mandaram?

Ora aí está outra história: se não chamassem por mim estava sentado. Foram sempre os outros que me puseram perante coisas que era bom fazer. Mesmo hoje. Conferências, artigos, prefácios de livros. Quando comecei a escrever para o Público pensei que não aguentaria nem meio ano – foi em 1992. Mas se me dão a oportunidade de poder explicar, escrever, reagir da forma que penso, com toda a liberdade… Da parte da Ordem tive sempre toda a liberdade. Era uma traição a mim mesmo não o fazer.

 

Em quase todos esses cenários, o conflito estava à flor da pele. Já em Portugal, a sua relação com a PIDE tinha sido belicosa. Isto revela uma pessoa para quem a dimensão política é importante.  

Talvez sim, não sei. Quando cheguei a Lisboa, com o Nuno Teotónio Pereira, a mulher, mais um pequenino grupo, fundámos o [jornal] Direito à Informação. Foi clandestino até aos anos 60. Andei sempre em coisas. Porque havia pessoas que me diziam que era preciso, e eu sentia que era preciso.

 

É verdade que acolheu membros das Brigadas Revolucionárias clandestinos?

Sim. E pior, estavam outros, de outros movimentos, em quartos muito perto! Sabia que essas pessoas andavam envolvidas em coisas…

 

Ataques bombistas.

Não, não eram bombistas. Havia como objectivo nunca atingir nenhum alvo humano – digo, das Brigadas. E observaram isso. Havia ali uma ideologia. Mas não era isso que eu discutia, isso era um problema dos grupos. Eram pessoas que estavam em situação tal que se eram apanhadas iam para a cadeia. Escondia-os como a quaisquer outros perseguidos políticos. Não hesitava. Era também levar pessoas à fronteira, para fugirem à tropa.

 

Antes do 25 de Abril?

Sim. Depois não achei muita graça a nada. As pessoas partidarizavam demasiado as coisas. Vou à União Soviética em 1975 e publicam cá – o Saramago – uma entrevista minha a um tipo da Novosti [agência de notícias russa], entrevista que não fiz! Foi publicada dois dias seguidos no Diário de Notícias. Completamente inventada. Quando regressei mostraram-me aquilo, e publicaram um desmentido. Não vou dizer que Saramago é que tinha a culpa; certamente pediram-lhe, venderam-lhe a coisa. Conheço muito bem o fulano que andou atrás de mim o tempo todo na União Soviética. Eram as circunstâncias.

Mesmo quando tenho que ir responder à António Maria Cardoso, por causa de uma homilia a crianças…

 

Uma famosa homilia que foi lida como um ataque à guerra colonial.

Disse às crianças o que era o fundo da minha alma. O problema é que liam sempre as coisas como se andasse…

 

Como se fosse um subversor político.

Não é só isso. Como se tivesse alguma ambição no campo político.

 

Nunca teve?

Nunca me passou pela cabeça. Muitas vezes fui solicitado para ser deputado, sobretudo nos primeiros tempos: nunca [quis]. Era uma coisa em que me acharia ridículo. Havia coisas que apoiava – devia apoiar, pareciam mais interessantes que outras. Andava noutra, e continuo noutra.

 

Escreveu: “O desejo anuncia ao mesmo tempo o que nos falta e aquilo em que nos podemos perder”.

Claro. É mesmo isso. Porque somos seres imperfeitos. Não somos, vamos sendo. A filosofia alentejana é a melhor do mundo, é um verbo: “ir sendo”. E estamos sempre em transformação. As pessoas atordoam-se com ídolos, atordoam-se com realizações de nada, fixam-se, não viajam. A vida é mística, e o místico é aquele que nunca pode parar porque o seu desejo é mesmo de infinito. As pessoas chegam a determinada altura, incorporam esse desejo, e transformam o infinito numa porcaria. De serem ministro, de serem presidente. Não em estilo de serviço – isso acho bem, a política deve ser reabilitada. O que é que há de mais importante para nós? O que é que nos realiza mais? As pessoas perdem-se. Idolatram coisas que não valem um corno, como dizem na minha terra, e pronto.

 

Nesse envolvimento político, houve um tempo em que esteva mais com um pé na Igreja e outro fora da Igreja?

Não, nessas coisas julgo que estava na Igreja. Posso dizer [que acolhi membros das Brigadas] porque eles já o revelaram. Acolhi outros. Uns pediram-me, e os outros também me pediram. Estava numa zona em que havia dois quartos. Também era necessário arranjar comida.

 

Vivia em andares, sozinho?, como era?

Houve uma altura em que vivia só com outro [clérigo] num andar, na Conde de Almoster. Depois vivemos em oito apartamentos dos estudantes dominicanos, antes de construírem o convento. Eu tinha essa possibilidade, e achava que não a podia negar. Negar em nome de quê? Era uma questão de consciência. Estávamos dominados e era necessário da libertação do regime. O meu maior amigo político era o Sá Carneiro; quando formou partido disse-lhe que entre nós tinha acabado.

 

Porquê?

Ia começar outro jogo. Convidaram-me para a fundação do Partido Socialista.

 

Trabalhou com quem?

Com o Salgado Zenha, o Sottomayor Cardia, o Ribeiro Sanches. Os outros estavam no estrangeiro. Mas quando disseram para ir para a fundação, não fui.

 

Explique melhor porque é que, no momento em que se formaliza um grupo político, seja do seu amigo Sá Carneiro, seja dos socialistas, recua.

Não é um recuo. Era importante, quando caísse o regime, haver mais formações políticas. O Partido Comunista era o único organizado. O que era importante, do ponto de vista humano, era uma pluralidade de formações, que fossem alternativas umas para as outras, que fossem capazes de construir alguma coisa. Do ponto de vista pessoal, nunca tive nenhum interesse em coisas dessas. Quando chega o momento de me dizerem que podia aceitar este ou aquele cargo, zero, zero absoluto. Aí já me sentiria ao serviço de uma causa, quando o que quero é a causa das causas, a alma de todas causas.

 

Em termos de convicção pessoal, estava mais próximo da Ala Liberal, mais próximo do Partido Socialista? Ou a convicção pessoal entrava muito pouco?

A convicção pessoal entrava pouco. O que temos mais dentro de nós, quer seja do ponto de vista religioso, quer do ponto de vista cívico ou humano, é o sectarismo. O sectarismo cega. A pessoa já não vê nada ao lado, e também não pode ver nada para a frente, as transformações. Tenho amigos em posições políticas muito afastadas umas das outras. Quando conversamos, digo o que penso, mas é uma questão de sensibilidade. A pergunta que me fez, faziam-me muito na altura: “O que é que faz na Igreja?”. O que faço é para a comunidade, a da Igreja Católica e para as outras. Querer fazer da Igreja um partido, isso detesto.

 

Imagino que os seus colegas de “partido”, da Igreja, a hierarquia, não tenham visto com bons olhos isso que era a sua leitura.

Muitas vezes [a Igreja] negou-me a jurisdição, de não poder confessar nem pregar em determinadas dioceses, durante os anos 60.

 

Achavam que podia veicular uma ideologia vermelha?

Não era nada disso. Muitas vezes apreciavam-me quase como um rival. Eles sim, tinham apoios e queriam a vitória de determinadas forças.

 

Reduziam aquilo a uma disputa pelo poder.

Era. Diziam que eu queria construir outra Igreja.

 

Acusavam-no do pecado da soberba?

Era só ignorância, sou incapaz de construir seja o que for.

 

Como é que olhava para Salazar?

Na escola fiz mais de 50 redacções sobre Salazar e as estradas. Era uma mania de uma professora que tinha, muito engraçada. E para a minha aldeia não havia estrada. A minha aldeia, Travassos, só teve estrada, telefone e luz eléctrica em 1980. Muitas pessoas criaram uma ideologia: ou Salazar ou o caos. A minha ideia era que quanto mais tempo estivessem com Salazar, maior seria o caos. Só que também não tinha aquela coisa de dizer que só este caminho ou aquele. Por isso, a malta de esquerda nunca me achou sólido. Não suportava era a PIDE, as pessoas a ter medo. Isso sim, era de atirar tudo pelos ares.

 

Gosta muito de rezar missa?

Muito. Não sou “misseiro”, mas gosto imenso de celebrar a eucaristia, e com pessoas que também queiram. (Agora andam a dizer que os re-casados devem ir à eucaristia porque são católicos, mas que não devem comungar. Esta enormidade é chamar uma pessoa para jantar, “e agora não comes”. “É para que sintam que falharam a sua primeira aliança”. Deixem esse jogo com Deus.)

Há uma frase do evangelho: “Vinde a mim, vós todos que andais aflitos, cansados, e eu vos aliviarei”. Encontro na liturgia um lugar de alívio e de inquietação.

 

 

 

Publicado originalmente no Público em 2011

O mundo das pessoas de pernas para o ar

01.12.18

Começámos o ano acabrunhados. A eleição de Trump, o Brexit, as vagas de refugiados, as imagens de destruição na Síria, os ataques terroristas, o arbitrário, o mapa visível, o mapa subterrâneo... Geringonça foi a palavra do ano em Portugal, Pós-Verdade foi a palavra eleita pelos Oxford Dictionaries. A palavra que não se usa: Esperança. Estamos perante uma crise de identidade? E do futuro, o que podemos esperar? Falámos com pessoas da Filosofia, do teatro, da academia, da política. Pedimos que nos ajudassem a ler o mundo em que vivemos.

 

1.

Carmen Miranda gravou em 1938 um samba-choro de Assis Valente. "Anunciaram e garantiram que o mundo ia-se acabar. Por causa disso, a minha gente lá em casa começou a rezar. Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada. Por causa disso, nessa noite lá no morro não se fez batucada."

Um ano antes de rebentar a Segunda Guerra, com uma alegria feérica e uma graça mordaz, a cantora brasileira dava expressão a um sopro que era o do seu tempo. A um medo. O mundo ia-se acabar? Liberdade poética à parte, Assis Valente prenunciava que a ordem natural das coisas ia ser tão subvertida que até o sol ia nascer antes da madrugada?

O tal de mundo não se acabou, conclui-se na canção. Entretanto beijou-se a boca de quem não se devia, fez-se o excesso, o impensável. Recorreu-se à oração, a quem pode, a quem vale.

  1. Já estamos do outro lado da madrugada, o sol nasceu, o ano novo entrou. Uma certa ordem permanece intacta. Apesar dos balanços catastrofistas, dos presságios, da racionalidade que nos diz que Trump é Trump como dois e dois são quatro, da ameaça palpável, do medo que fustiga, da memória fresca dos atentados em Istambul, em Berlim, em França, uma certa ordem permanece intacta: temos de viver o dia presente, o dia seguinte, o outro. E, quem sabe, encontrar alegria, fazer batucada. Apesar de um tal de mundo, que conhecíamos desde o fim da Segunda Guerra, ter acabado, ou estar em ruínas. Falando da Europa, sobretudo, mas não só.

A atmosfera deste outro lado da madrugada não é de alívio ou de começo de mundo. Há poucos dias, todos trocámos mensagens (pífias), desejámos o melhor (o que quer que isso seja), fincámos os pés, queremos estar preparados, bem acordados. Já estamos no futuro, mesmo que não tenhamos futuro dentro de nós, mesmo que este não seja o futuro com que sonhámos. Nós somos estes que têm medo e não sabem o que esperar. Somos estes que não sabem bem quem são quando se vêem reflectidos no espelho, nem têm ferramentas para identificar o outro, o estrangeiro, o próximo, um outro diferente de si.

 

2.

O dia não é claro, há uma névoa que embacia, ares de pesadelo. O futuro é isso. Procuramos uma nova sintaxe que organize ou torne legível o novo caos. Procuramos entender.

Marina Costa Lobo, politóloga, investigadora do ICS. "A principal luta que vamos ter é a da defesa da democracia. Os desenvolvimentos recentes, sobretudo no mundo das democracias ocidentais, levam-me a acreditar que o que vai estar mesmo em causa é a defesa da democracia liberal, pluralista, assente em alianças internacionais. Inglaterra e EUA, deixaram de ser faróis, o que nos fragiliza enquanto grupo. Nos EUA elegeram alguém que é de fora dos partidos, que se propõe desfazer alianças internacionais que têm definido o século XX (nomeadamente a Nato ou a forma como ela está constituída, como é financiada). Também a relação com o México. O anúncio de construir um muro é simbólica de uma nova era.

Muro: é uma palavra que regressa."

O tempo é o da construção de muros. Mas como, se a queda do muro que separava as Alemanhas foi ontem? O horizonte temporal de que estamos a falar é estreito, muito estreito, e contudo inegável. Tudo ganhou aceleração. O tempo passou a ser uma matéria mais elástica, que nos escapa das mãos.

Prossegue Marina: "O Brexit é uma forma de construir muros, de limitar a livre circulação de pessoas. O que o Reino Unido está a dizer é que não quer participar do Mercado Único nos moldes em que ele existe. O que os que votaram no Trump e no Brexit estão a dizer é: 'Não nos revemos nisto, inventem outra coisa'. A crise da Zona Euro + Refugiados tem fragilizado muito a União Europeia. Crescem os partidos de extrema-direita. E este ano temos as eleições em França e na Alemanha. É fundamental, durante este período, manter princípios básicos do Estado de Direito. Pluralismo. Liberdade. Aceitação do outro."

 

3.

A terra treme. Pisamos território movediço. O antigo já não funciona e o novo ainda não é. Como é que nos aguentamos de pé durante o sobressalto? Um elenco de dificuldades por João Constâncio, professor de Filosofia da Universidade Nova.

"O actual estado do mundo é muito deprimente, e, de certa forma, muito óbvio, muito claro. Já muitas pessoas disseram que estamos a viver uma espécie de regresso aos anos 30 do século XX. Sentimos o regresso da ameaça nuclear. Sabemos da destruição ambiental, da extrema financeirização da economia, do crescimento das desigualdades. Acompanhamos a corrupção do sistema democrático americano, a crise das instituições europeias, os males da globalização, o terrorismo (incluindo o terrorismo de Estado). Sabemos da irrelevância do Direito Internacional. Da existência de cerca de 60 milhões de refugiados espalhados pelo mundo. E nada disto é novo: tudo isto é o que tem vindo a acontecer desde há muito tempo."

Não podemos dizer que fomos apanhados desprevenidos. Todavia, a montanha parece agora inultrapassável, e viver um exercício ciclópico. E o que resulta da conjugação de todos estes factores surge como um fenómeno recente, urgente, aflitivo. Uma arrepiante sensação de fim de mundo, sintetiza João Constâncio. "O que pode acontecer, e talvez esteja já a acontecer, é que, um pouco por todo o lado, as pessoas percam a esperança de que as coisas possam melhorar. Percam, no fundo, a ideia de progresso. Nesse caso, triunfará a lógica do pânico e do cada um por si. Isso bastará para que seja impossível resolver, por exemplo, a questão ambiental. (A possibilidade de tal acontecer foi recentemente pensada e muito bem descrita por uma pessoa muito inteligente, chamada Brian Eno)."

Ele tinha 18 anos em 1989, o ano em que caiu o muro de Berlim. Estudava Filosofia, interessou-se por Platão e Nietzsche, mais do que tudo. Lembra-se bem de como era fácil, nesse tempo e ao longo de todos os anos 90, acreditar na teoria do fim da História. A democracia liberal havia triunfado e, com ela, os direitos humanos, o direito internacional, a globalização e a liberdade individual. "Hoje, depois do 11 de Setembro, depois da invasão do Iraque, depois do que foram os anos Bush, depois da queda do Lehman Brothers e da crise financeira internacional, depois do Brexit e da vitória de Trump, não só essa visão dos anos 90 parece absurda, como é a própria ideia de progresso, a própria ideia de ser possível algum tipo de progresso e de fazer sentido pensar em algo como 'a humanidade', que está posta em causa." 

 

4.

A Europa. Os Estados Unidos. O mundo. Pedimos o auxílio de um verso de Manuel António Pina, para suster o pessimismo, ganhar fôlego: "Ainda não é o fim nem o princípio do mundo. Calma. É apenas um pouco tarde."

 

5.

O discurso é pré-apocalíptico, lúcido, sem exageros. São os fundamentos da democracia liberal que estão a ser abalados quando se elege um demagogo como Donald Trump (constatação que transparece de todas as conversas que tivemos). O único modo de o contrariar, defende o escritor Richard Zimler, é apostando na educação. Este americano-português, a viver em Portugal desde 1990, faz um longo excurso para falar de pilares da identidade europeia: a existência de uma rede protectora. Vale a pena acompanhá-lo nesta volta. "Os EUA têm uma cultura anti-intelectual. E os EUA têm as melhores bibliotecas, as melhores universidades, os melhores centros de investigação. Parece incompatível. Porém, para um americano de classe média, a palavra 'intelectual' tem uma conotação negativa. Significa uma pessoa longe da realidade quotidiana, que sabe alguma coisa sobre assuntos esotéricos. Esta tradição anti-intelectual nunca foi tão pronunciada. Ao contrário, em Portugal, é respeitado o saber. O professor é um senhor. Vejo isso quando as pessoas falam com o Alexandre [Quintanilha, o marido, professor catedrático]. É um respeito pelos anos que essa pessoa dedicou ao seu tema, ao aprender, e que está acima de discordâncias políticas ou outras.

Quando falo disto na Europa, as pessoas ficam estupefactas.

Mas pensemos bem. Nos EUA, as propinas de uma universidade privada custam 60 mil dólares por ano. Não inclui habitação e demais despesas. Quem é que pode pagar isto? A solução-sacrifício é contrair uma dívida gigantesca. Não é incomum uma pessoa passar os primeiros dez anos da vida adulta a pagar dívidas de 100 mil dólares, 300 mil dólares, refém de um sistema que não faz sentido.

Saúde. Vi isto com a minha mãe. Nos últimos anos de vida, as pessoas perdem todas as economias que acumularam ao longo dos anos para pagar despesas de saúde, para se manterem vivas. O Obama Care foi uma tentativa de criar um serviço de saúde público, mínimo, parece que Trump vai extingui-lo. Exemplo prático: a minha mãe e eu pagávamos a uma senhora que estava com ela mais de 3500 dólares por mês. São 40 mil dólares por ano. Fora o resto. Quem pode pagar isto? A minha mãe perdeu tudo o que tinha, felizmente não perdeu a casa.

Na Europa, temos uma rede protectora espectacular. Que se mistura com a identidade europeia. Os europeus nem são conscientes dos problemas provocados pela falta de uma rede protectora. Ainda bem que não compreendem, mas não compreendem. E têm a sorte de não ter de perder o seu tempo pensando nestas coisas. Dá uma liberdade... Como? Eu não tenho de fazer outros trabalhos para pagar o meu seguro de saúde privado."

 

6.

"Volver a los diecisiete

después de vivir un siglo

es como descifrar signos

sin ser sabio competente.

Volver a ser de repente

tan frágil como un segundo,

volver a sentir profundo

como un niño frente a Dios,

eso es lo que siento yo

en este instante fecundo."

Violeta Parra, cantora chilena, nasceu em 1917, matou-se em 1967.

 

7.

Pensemos simbolicamente no 17 como um ano inaugural, um momento em que a terra é fértil e o mundo uma aventura que queremos viver. Em que acreditamos. E, como uma criança, deciframos signos recorrendo à intuição, temos uma compreensão íntima das coisas, dominamos conceitos primordiais. Somos crianças e temos menos medo, temos um coração que não se parte na decepção.

Eduardo Paz Ferreira é professor catedrático de Direito na Universidade de Lisboa. Traz consigo um léxico de palavras-propostas para o novo ano. Palavras que caíram em desuso, assumiram tom moralista, e que são cada vez mais requeridas, como decente. (Por uma Sociedade Decente é o título do seu mais recente livro.) "John Le Carré resumiu assim: uma sociedade decente é uma sociedade que se ocupa em primeiro lugar dos derrotados e com a protecção dos mais vulneráveis. Cruza com a ideia de Estado Social, necessariamente.

Decente é a única coisa que podemos opor à barbárie."

Outras palavras: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. E luta. E esperança. E radicalismo, para dizer mais vigorosamente: NÃO! Nem é dizer, é gritar. Gritar não.

Comecemos o ano com vigor, observemos as linhas vermelhas que não podem ser pisadas. Por exemplo em matéria de refugiados. Os descartáveis de que falava o Papa Francisco, que foi a Lampedusa chorar os mortos no Mediterrâneo.

Francisco, líder inspirador, que toca em tudo o que é incómodo, considera Paz Ferreira. "Os imigrantes foram remetidos para a esfera da clandestinidade. São uma espécie de criminosos que andam a vaguear pelo mundo. É deplorável. O medo do outro é o resultado de políticas concertadas e activas no sentido de o estimular. Foi criado um inimigo comum, os índios que vêm assaltar o forte." Os índios são quem? Os que vêm da Síria?, os muçulmanos? "Os muçulmanos, de certa maneira, fizeram apagar o problema dos que vinham de África. O ódio está agora concentrado neles."

Os migrantes formam um corpo visível, doloroso, do desarranjo em que está o mundo. Não conseguimos esquecer a imagem do menino que dá à costa, naufragado, nem do menino coberto de poeira e sangue, em cuja cara está o absurdo de Aleppo, a violência, a destruição, o sofrimento. Vêm à memória imagens do filme de Rossellini Alemanha Ano Zero, rodado em 48, uma criança que vagueia pela Berlim de prédios esventrados, à cata de comida. Sabemos como termina esse menino.

Mas então, voltemos a citar Gramsci, exorta o advogado: contra o pessimismo da razão, o optimismo da vontade. Apesar de o velho custar muito a sair e o novo ter dificuldade em instalar-se. Vamos lutar. Vamos pensar em voltar aos 17 depois de viver um século, como na canção de Violeta Parra. Não nos deixemos apanhar na ratoeira do populismo, do apontar o dedo aos políticos, aos que estão na esfera do poder. O dedo que diz:

- Nós somos os sem mácula, os outros, os impuros. Nós somos a plebe honrada, a elite é uma corja que de alguma maneira se corrompeu. Nós somos os que não têm poder, os que querem destituir aqueles que detêm o poder. Seja de que maneira for. Mesmo que seja através de pessoas como Trump. Pessoas de poder que são diferentes das outras pessoas que têm poder.

Não nos deixemos apanhar em ratoeiras que nos gritam que são ratoeiras.

Ouçamos Paz Ferreira: "Não podemos não ver no populismo, de modo grosseiro, aquilo a que antigamente se chamava luta de classes. Ou seja, uma luta entre pobres e ricos. Os novos proletários são os excluídos da globalização. Estes anos de prosperidade e paz foram também anos em que a desigualdade cresceu brutalmente e a concentração de riqueza aumentou. Christine Lagarde [directora-geral do FMI] disse uma vez que 85 pessoas, ou seja, a lotação de um autocarro de Londres, de dois pisos, concentram uma riqueza igual à da metade da população mundial. Dado assustador. Carlos Farinha Rodrigues [professor do ISEG] fez um trabalho sobre os anos da Troika. Os mais sacrificados foram os mais pobres. Aos que seguem no autocarro?, ninguém lhes toca. E vemos Trump anunciar que vai desonerar ainda mais os impostos sobre os ricos, que já eram escandalosamente baixos!"

Inventemos novas narrativas. Participemos na res publica. É preciso meter as mãos na política. Não forçosamente nos partidos. "Mas não é opróbrio estar nos partidos. E nos partidos há outras condições de eficácia", sintetiza Paz Ferreira.

 

8.

"Eu não nasci para odiar, mas sim para amar" - Antígona, Sófocles.

Isabel Capeloa Gil é reitora da Universidade Católica. Na sua tese de doutoramento trabalhou três figuras femininas da tragédia grega, Antígona, Cassandra e Medeia. Pedimos-lhe que falasse de Antígona, partindo da afirmação célebre com que abrimos este capítulo. "O que leva Antígona a reagir não é a rebelião política. As suas motivações são de outra ordem. Assentam na defesa da coesão social, da esfera privada contra as intromissões de um Estado que sente como sendo ditatorial. O que a faz ir contra a lei da cidade é o desejo de sepultar o irmão (cujo corpo deve ficar fora dos limites da cidade, à mercê das aves de rapina). A lei de Creonte é a de punição do traidor (o irmão). Mas essa punição vai interferir na esfera da família. A lei da cidade contende com os sentimentos e com aquilo de define a humanidade e o bem comum (num sentido menos político e mais social).

Hoje em dia precisamos de nos reencontrar com os laços da nossa comunidade, com as formas de pertença. Não digo que sejam as tradicionais. Que nos entendamos a partir do que temos em comum. E isso não diz respeito apenas às pessoas do nosso grupo social, da nossa nação, que falam a nossa língua, que têm a cor da nossa pele. A tónica do discurso deve ser sobre o que o outro tem e que eu também tenho. Ou sobre o que o outro tem que é diferente de mim mas com o qual me posso relacionar. Isso é ser humanista. O problema é olhar para o outro como:

- Aquela gente que é etnicamente diferente, que me vai tirar o emprego, que vai pôr uma bomba, que ameaça o meu ecossistema, que eu não entendo.

Com estes medos estamos a perder-nos a nós próprios."

Uma das palavras que Isabel Capeloa Gil traz para a discussão é memória. Num cenário em mutação acelerada, ou mesmo voraz, falta espaço e distância para reflectir sobre os impactos das transformações a que assistimos. Ainda não decorreu tempo, por exemplo, para que as assimetrias entre alemães de leste e ocidentais fossem superadas. Ainda há, em certas atitudes, um muro. Mas o mais preocupante, para Capeloa Gil, é o esquecimento, é a ilusão de que todas as feridas estão cicatrizadas, é ver que um passado recente está tão enterrado que dele não resta memória. "Dou um seminário sobre Cultura Visual e mostro aos meus alunos um documentário feito pelo Billy Wilder, Moinhos da Morte, Die Todesmühlen, a partir de imagens recolhidas nos campos de concentração nazis. Este filme, durante um período de tempo, era de visionamento obrigatório para que os alemães pudessem ter acesso às senhas de racionamento. Era uma forma de reeducação pela imagem. Posso dizer que há nestes grupos muitos alunos que nunca tinham visto as imagens dos campos nazis. O efeito é de choque. O meu ponto: que tenhamos no século XXI uma geração de estudantes que vê na Segunda Guerra um acontecimento longínquo, distante, para quem o impacto daquele acontecimento, que representa uma cisão na História da Humanidade, está ausente, é preocupante. Representa o esboroar da História. Quando falamos com eles sobre o pós-Guerra, a construção da Europa assente numa ideia de pertença, igualitária, com justiça retributiva, uma partilha do mesmo ethos, estamos a falar com uma geração que não vê no projecto europeu um projecto salvífico, que não tem nem cultiva esta memória, que adultera a memória. E voltamos a ter narrativas semelhantes às que se urdem de ressentimento e desconhecimento. Ora esta dimensão contextual não pode perder-se para o cidadão comum."

 

9.

O escritor italiano Italo Calvino fez um conjunto de conferências em Harvard, em 1985. A sistematização dessas lições americanas resulta no livro Seis Propostas para o Próximo Milénio. No texto sobre a Leveza, falando sobre um mundo que já se amedrontava face à iminência de um novo tempo, podemos ler: "Em certos momentos parecia-me que o mundo estava a ficar todo de pedra: uma lenta petrificação mais ou menos avançada de acordo com as pessoas e os lugares, mas que não poupava nenhum aspecto da vida. Era como se ninguém pudesse escapar ao olhar inexorável da Medusa. O único herói capaz de cortar a cabeça à Medusa é Perseu, que voa de sandálias aladas [...]. Para cortar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu apoia-se no que há de mais leve, o vento e as nuvens; e fixa o olhar no que só poderá revelar-se-lhe numa visão indirecta, numa imagem captada num espelho." Calvino continua uma encantatória descrição do mito de Perseu e da Medusa, não nos deixa esquecer, por exemplo, que é do sangue da terrível Medusa que surge o cavalo alado Pégaso. Sobretudo, retira um ensinamento que importa para aqui: "Nas alturas em que o reino do humano me parece mais condenado ao peso, penso que como Perseu deveria voar para outro espaço. Não estou a falar de fugas para o sonho ou para o irracional. Quero dizer que tenho de mudar o meu ponto de vista, tenho de observar o mundo a partir de outra óptica, outra lógica, e outros métodos de conhecimento e de análise".

 

  1.  

Entrevista breve a Francisco Bethencourt, historiador, professor no King's College, em Londres, autor do livro Racismos: das Cruzadas ao Século XX.  

Estamos a viver uma crise de identidade? 

Não, estamos a viver uma crise política, na qual várias interpretações de identidade estão em conflito.

 

Apesar do nevoeiro denso, é possível perscrutar uma direcção em que avançamos? 

A História sempre desenganou os prognósticos.

 

Que palavras novas usamos para dizer a nossa vida? 

As palavras revelam mas também fluem de acordo com as circunstâncias e os grupos sociais envolvidos. Nova é a moda da vulgaridade e da ofensa em política, que deixou de estar ancorada no mínimo de consenso à volta de factos básicos. Outras dinâmicas irão resultar em novos equilíbrios. 

 

Reconhecemo-nos no outro ou temos simplesmente medo do outro?

O medo do outro cresce com a falta de contacto e de interacção. Quando estas condições existem, a compreensão aumenta.

 

Estamos mais isolados? 

Nunca tivemos este grau de interacção, sobretudo virtual. O que não significa que o isolamento tenha diminuído.

 

Os atentados terroristas, a conquista de espaço eleitoral por movimentos e líderes populistas, as sequelas deixadas pela crise económica: foi isso que nos trouxe aqui?

Há um cheirinho dos anos de 1920, mas as condições históricas não são as mesmas e o terrorismo fascista não está ao virar da esquina. Apesar de tudo existe uma sólida educação de boa parte da população e a capacidade de resistência a movimentos extremistas de extrema-direita é forte.

 

11.

Então. Discutimos o futuro? A identidade? Sentimo-nos a esfarelar? Perdemos horizontes, perdemos referências. É muita coisa. Tudo misturado. Mas evitemos as generalizações. E tenhamos claro que a memória que temos do mundo é sempre uma memória seleccionada. Seleccionada por alguns.

José Maria Vieira Mendes nasceu em 1976, é dramaturgo, membro de uma companhia que é também uma família artística, o Teatro Praga. Escreve, a páginas tantas, na peça Terceira Idade: "Então abandonamos este século e saltamos no tempo. Estou-me nas tintas. Estou farta de ser passiva, de aturar as palavras dos outros. A partir de agora só digo aquilo em que acredito. Poupem-me as máximas e dêem-me os mínimos. Vamos tratar de negócios. Temos de mudar o mundo. Alguma coisa havemos de conseguir. Quem é que escreveu isto?" (Esta é uma das peças coligidas no livro Uma Coisa.)

 

12.

O que caracteriza o nosso tempo? Uma ideia de velocidade. Que contrasta com a evolução lenta e silenciosa das coisas, no subsolo. Normalmente damos pela deflagração, a nossa reacção é imediatista, emocional, ao visível, o que nos ajuda a esquecer e ignorar esta ramificação e complexidade.

Outra ideia. A de abertura à informação. Uma fantasia de livre acesso às coisas, aos lugares, às pessoas, à informação (dominante e minoritária). Tudo potenciado pelas redes sociais. A visibilidade do que é alternativo passa muito pela internet. De certo modo, parece contraditório com o crescendo de discursos xenófobos, totalitários. Mas, muitas vezes, os próprios discursos xenófobos e totalitários vêm da alternativa, do underground, e sobrevivem à custa de redes sociais.

Outra e talvez decisiva ideia: a da manipulação da verdade. O conceito de pós-verdade [post-truth foi eleita pelos Oxford Dictionaries como uma das palavras do ano] é um modo de dizer que eu posso fazer o que eu quiser. Nesta, interessa o que a mim me parece, os sentimentos, há uma rejeição da informação factual. "É um discurso distinto do da pós-modernidade em que se diz que não há uma verdade, há pontos de vista sobre o mundo. É um discurso que aponta no sentido de abolir os totalitarismos, o é assim e acabou-se, abre espaço para a individualidade, para as minorias, para o que quer romper. A pós-modernidade é capturada por aqueles que proclamam o pós-verdade: se não há verdade, tu crias a tua própria verdade, e como crias a tua própria verdade, podes manipulá-la. Torna-se perigoso e perverso."

Estamos a voltar aos perigosos anos 30 do século passado? É possível estabelecer uma similitude ou ela é longínqua?, perguntamos. (José Maria Vieira Mendes viveu em Berlim.)

"Se quisermos podemos sempre estabelecer similitudes. Penso na crise financeira dos anos 30 e na emergência de populismos, de discursos anti-democráticos e xenófobos. Os pêlos começam a eriçar-se quando vemos discursos anti-refugiados, bloqueios, crise financeira. Mas depois, casos como o da Áustria, recentemente, em que o candidato de extrema-direita foi derrotado, fazem-nos dizer:

- Ah, espera aí.

Mesmo em Portugal, nunca vingaram movimentos populistas ou xenófobos. Mesmo quando tivemos imigração africana. Tivemos racismo, sempre, velado. Mas não a nível político.

Que há uma relação entre pobreza e discursos.., chamemos-lhes de inimizade para com o outro, é óbvio. Basta ir à Segurança Social naqueles dias em que as filas são intermináveis. Começa toda a gente a barafustar com toda a gente, e toda a gente é culpada. Ou entrar num autocarro cheio. E há sempre vítimas, que são sempre as minorias."

Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

"Foi uma das grandes lições da austeridade: a de que não serviu para nada. Só serviu para as pessoas ficarem muito zangadas. E alguns enriquecerem.

Mas há sempre a possibilidade de desligar. Como com a televisão. A escolha é minha. Não somos autómatos que estão a receber. Tenho uma escolha e uma responsabilidade. Por exemplo a responsabilidade de dizer que o meu mundo é outro. Esta honestidade, de olhar para si próprio enquanto pessoa que investe sentido no mundo, é fundamental. Muitas vezes esquecemo-nos disso, da nossa possibilidade de desligar. De interpretar. Não há nada que seja inalcançável. Não existe a coisa absoluta a que só alguns têm acesso. Todos temos capacidades de relação e percepção do mundo. Obviamente por cansaço, perdemos muitas vezes a vontade de nos mexermos, de dizer:

- Ok, eu posso fazer. Eu posso mesmo fazer."

 

13.

Faranaz Keshavjee nasceu em 1968 em Moçambique, tem origem indiana, é muçulmana, mudou-se para Portugal em 1974. Estudou Antropologia, viveu em Inglaterra, é especialista em estudos islâmicos.

"Quando começamos a falar muito de identidade, estamos, peixes dentro de água, a questionar a água, o modo de respirar. Estamos a questionar o modo como pertencemos a uma coisa. E quem define isso? Identidade não é coisa estática. É mutante. O que é certo: a nossa identidade constrói-se em relação com outro. Se não definir quem é o outro, não consigo ver-me a mim mesma.

Talvez as sociedades contemporâneas precisem de um outro que tenha uma face homogénea, que não dê trabalho a desconstruir, que seja fácil arrumar numa categoria. Talvez esse outro tenha sempre uma carga negativa, e de há uns séculos para cá esse outro é alguém que segue uma religião diferente. Hoje em dia, esse outro é eminentemente o que segue o islão.

De uma maneira diferente, neste lado do mundo onde nos posicionamos, até há pouco, o outro era o inimigo soviético. Cai o império, tudo fica diluído, a guerra fria não chega a acabar, usa peões diferentes. No cair de um modelo ideológico, é preciso arranjar um outro outro. O 11 de Setembro marca-nos indelevelmente, e muito por acção dos média. Podia ter sido um filme e aconteceu deveras. A importação da ficção para a realidade tem um poder extraordinário, muda a nossa percepção do mundo, da ordem das coisas. Percebemos que somos vulneráveis. Todos alvo. A nossa vida de todos os dias pode transformar-se, acidentalmente, imprevistamente, num campo de batalha. E o alvo não é alguém que está envolvido num processo de guerra, é alguém que está a fazer o seu quotidiano.

Aprender: não isolar as coisas. Perceber a teia. Não discriminar. Os baixos, os gordos, os de cor. O meu filho, quando era pequeno e pintava, queixava-se de não ter cor de pele.

- Mas, filho, o que é cor de pele? Há muitas cor de pele.

Ele dizia de si que era castanho, e que os seus amigos eram todos cor de pele.

Eu acho mesmo interessante que sejamos todos diferentes. O desafio é saber conviver com essa diferença. Mais, é saber construir com essa diferença. Esse é para mim o cerne do cosmopolitismo.

Palavra que emerge com força, ao revés dessa: nacionalismo.

A minha mãe ensinou-me a estar atenta à diferença entre sabedoria e instrução. É uma diferença enorme em relação à qual somos desatentos. Resumia assim: ele é estudado mas não é conhecedor. Isto para dizer que há cada vez mais informação a circular e cada vez menos conhecimento. O problema dos nacionalismos é o desconhecimento. O filtro parece que desapareceu. Tinha um professor que dizia assim:

- Leio um livro de História. Pergunto quem é este investigador. Quem paga para ele investigar. De onde vem o dinheiro que paga a investigação. O que é que lhe foi encomendado.

Isto orienta a informação. Não podemos ser ingénuos. Ensino aos meus filhos e sobrinhos a serem críticos, a questionar, a procurar saber mais, a cruzar informação, porque as coisas não são o que está à superfície."

 

14.

Mário de Sá Carneiro, poeta português, viveu entre 1890 e 1916. Escreveu estes versos:

"Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o Outro."

 

15.

Num território de penumbra, ao contrário do poema de Sá carneiro, tendemos a afirmar-nos seres absolutos, margem de um rio que não se pode transpor. Não nos pensamos estrutura de uma ponte, uma ponte que liga margens como nós. Ficamos encapsulados, movimentamo-nos em círculos, os nossos círculos, que confirmam o que pensamos, quem somos. Adquirimos de facto informação nova?, estamos de facto abertos a discutir perspectivas diferentes ou até antagónicas?, estamos de facto disponíveis para rever o que pensamos? Consumimos informação no Facebook, prescindimos de peritos, de filtros, de testes mínimos. Medimos a nossa acção social pelo número de likes. Descremos do establishment, descremos do intelectual que está fechado na sua torre de marfim, como o americano de que falava Richard Zimler, descremos do inculto que nunca leu o New York Times. Ficamos circunscritos a determinados cubículos. Emparedados. Polarizamos o mundo. Os que pensam como nós. Os outros. Que é feito da palavra pluralismo ou mesmo diálogo?

 

2017, parece que no mundo as pessoas estão todas de pernas para o ar, para aludir a um texto antigo e para a infância de Manuel António Pina.

 

Mas depois somos como Cabíria, a prostituta interpretada por Giulietta Masina, no filme Noites de Cabíria de Fellini (1957). Somos essa mulher que acreditou num amante, que acreditou no paraíso, que descobre com horror que foi enganada, que quer morrer, ser lançada no precipício. E que depois, por um instinto vital que não se sabe de onde vem, talvez por milagre, regressa à estrada, ouve risos de jovens e uma música que convida. Regressa à estrada, esboça um sorriso tíbio. Pronta para acreditar e talvez ser enganada, de novo.

Assim estamos nós: pessimistas, pesadamente pessimistas, e prontos para apurar os ouvidos e ouvir uma música que nos permita calcorrear a estrada, alimentar o sonho de estar vivos e de querer o dia que vem.  

 

Publicado originalmente no Público, a 8 Jan de 2017.

 

 

 

 

50 anos de Bossa Nova

01.12.18

Dezembro de 1966. Chamam ao telefone o senhor Jobim. Não foi bem assim. No Veloso ele era “Seu Tom” e não se apregoavam frases de cafés lisboetas. O negócio era outro. E Arménio, o dono do boteco de esquina, conhecia-o de outros carnavais, de muitas rodas de chope. Ia dizer “Senhor António Carlos Jobim, estão lhe chamando ao telefone?” É verdade que Frank Sinatra estava do outro lado do fio. O maior cantor do mundo. Mesmo assim. Seu Arménio anunciou apenas: ligação dos Estados Unidos. Tem um gringo aí querendo falar. Foi então que Frank, Frankie, the voice, anunciou a boa nova:

- “Quero fazer um disco com você e saber se você gosta da ideia”.

Sinatra não falava português, mas Tom falava inglês. A resposta terá sido:

- “It’s an honor, I’d love to”.

Imaginemos um dia esplendoroso, como só podem ser os dias de Dezembro no Rio de Janeiro. Seu Tom estava de regresso ao Brasil e tomava chope pela tarde. Não é possível dizer cerveja, porque dizer chope já introduz toda outra coisa. O Verão a estourar, Tom prestes a fazer 40 anos, a Bossa Nova como um acontecimento de um passado longínquo, e Sinatra a acenar it’s now or never.

É provável que Tom ficasse para a história, e não apenas para os compêndios musicais, sem este encontro com Sua Eminência. “The Girl from Ipanema” tinha merecido 40 versões só no primeiro ano de vida. Nat King Cole tinha cantado no Copacabana Palace com Sylvinha Telles, a maior cantora do movimento. Miles Davis tinha assistido à apresentação formal da Bossa no Carnegie Hall. A Bossa não era mais Nova. Tinha sido dada como extinta no Brasil. Mas no resto do mundo, estava apenas a despontar. Num esplendoroso dia de Dezembro, Tom Jobim sabia que não era trote quando lhe disseram que Frank Sinatra queria falar. Talvez um génio saiba mesmo que é um génio.

Tudo começara muito antes. No Rio. Ou talvez em Juazeiro, terra recôndita da Baía, onde nasceu o homem que, mais do que Tom Jobim ou Vinícius de Moraes, revolucionaria a história da música brasileira. Os especialistas da Bossa Nova são os primeiros a prestar vassalagem ao génio de Jobim, a equipará-lo a Cole Porter ou aos irmãos Gershwin. É consensual que “Eu sei que vou te amar” é um hino do tamanho de “Everytime we say goodbye”. Mas o que mudou radicalmente o que até então se fazia foi a batida do violão de João Gilberto, em Juazeiro. A batida sincopada da Bossa Nova – como anos mais tarde diria Aloysio de Oliveira, em síntese.

Ruy Castro, biógrafo da Bossa Nova, começa o seu livro pelo altifalante pendurado num poste da Rua Apolo, em Juazeiro. A música era “Naná”, de Orlando Silva. Orlando Silva era quem João Gilberto queria ser. Como é que cantava Orlando Silva? Como cantavam os cantores da rádio desse tempo. Voz de veludo, cabelo lustroso, um punhal junto ao peito. Antes de João cantar do jeito manso que o mundo lhe conhece, por exemplo, quando cantava com o grupo vocal “Os Garotos da Lua”, ele cantava do jeito de Orlando Silva. Algumas fitas manhosas desse período atestam isso mesmo.

O altifalante, segundo Castro, passava de tudo um pouco; mas o tudo que passava era bom pra cacete. Tommy Dorsey (para os que estão muito fora, talvez dizer que Sinatra era o crooner da sua orquestra…), Duke Ellington, Charles Trenet, Carmen Miranda, Dorival Caymmi. Selecção irrepreensível, eclética. Os moços juntavam-se debaixo da árvore para tocar violão.

Ficaria bem no postal dizer que Joãozinho tocava violão e cantava às moças. Seria tão idílico quanto dizer: “Champanhe, mulheres e música, aqui vou eu” – que, segundo Ruy Castro, foi o seu grito de guerra quando rumou a Salvador. Mas não se lhe conheceu uma namorada na sua terra natal. Dir-se-ia que tocava e cantava para si próprio. Pelo prazer de tocar e cantar. O que não faz dele um monge. Antes de casar com Astrud, e depois com Miúcha, e depois com, e depois com, e agora com (de quem tem uma filhinha de três anos), João namorou com Sylvinha Telles, Marisa, e seguramente com outras mocinhas.

Era um sedutor de modos elegantes. Seduzia uma plateia com duas frases e uma canção, conquistava o pessoal dos hotéis e restaurantes ao fim do segundo pedido. (Consta que, durante os anos em que viveu em hotéis, quer dizer, muitos, e até há muito pouco, fazia das faxineiras, arrumadeiras e garçons os seus convidados de primeira fila nos raríssimos shows em que se apresentava).

Enquanto isso. Em 1949 e nos anos seguintes, ouvia-se Dick Farney. Nas boites, não nos puteiros – expressão insubstituível usada por Ruy Castro para definir os lugares em que Jobim se atirava ao piano. Dick Farney era o Sinatra brasileiro. Farney fez uma incursão nos Estados Unidos e dava-se com Stan Kenton, o director de orquestra venerado pelos meninos que cruzavam Copacabana e Ipanema. Mas também com Mel Tormé, Anita O’Day, e Sinatra, him self. “Aí eu disse ao Frank…”. Dick Farney era, além de cantor excepcional – para os que não tiveram ainda o prazer de um encontro, aconselha-se uma corrida imediata a uma loja online e subsequente encomenda – um grande pianista de jazz. Todo o universo, como facilmente se percebe, era o do jazz americano. Mais ou menos puro, mais ou menos duro. Mais para menos puro e duro.

Dick Farney não podia ser deixado fora da história da Bossa Nova porque ele era idolatrado pelos músicos que a fizeram. Pianistas como Johnny Alf (ainda vivo, também cantor, compôs “Eu e a Brisa”) ou João Donato (vivíssimo, com carreira pujante no Japão, autor do eterno “A Rã”/”The Frog”) seguiam-no com a um astro. No caso de Donato, apelidado de Judas Escariotes pelos outros meninos, seguia Dick Farney como seguia Lúcio Alves.

Ou se era de um ou se era do outro. Donato era dos dois. Depois de desfeitos os clubes de fãs que promoviam a rivalidade, também João Gilberto. Mas não foi por outra razão senão estar na Baía enquanto os garotinhos do Rio se entretinham com estas disputas. Acontece que João Gilberto tinha bom gosto musical e não podia prescindir de nenhum dos dois. Quando o seu primeiro disco foi gravado, quase dez anos depois do pico da rivalidade Farney-Alves, ele procurou Lúcio. Insegurança? Não. Este é um daqueles casos em que o génio sabe desde o começo que é um génio. Era, simplesmente, o desejo de receber a aprovação e o afago no pêlo do seu ídolo.

Porque é que ainda não se falou, senão de relance, da “Garota de Ipanema”? Um facto para arrumar desde já a questão: até que Vinícius e Tom celebrassem a beleza de Helô Pinheiro, de corpo dourado do sol de Ipanema, muitas canções foram escritas. Tom e Vinícius formaram a dupla mais celebrada, mas bota no pacote Carlinhos Lyra, Newton Mendonça, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal. Maysa e Nara ficam para mais tarde, quando se tratar da cisão da Bossa Nova e quisermos saber porquê – cherchez la femme, como sempre.

Para os que estão perdidos na genealogia, para quem a Bossa Nova é uma musiquinha gostosa, que combina com o fim de tarde, um drink ou um elevador, aqui ficam alguns factos históricos: A Bossa Nova surgiu há 50 anos. O Brasil celebra a efeméride com o mesmo empenho que usa para assinalar a chegada da Côrte. Compilações distribuídas pelos jornais aos domingos, palestras em cada auditório, concertos irrepetíveis (como o de Caetano Veloso e Roberto Carlos, esta sexta feira, numa evocação de Tom Jobim).

Se estiver na situação do pai de Nara Leão, “Onde é que está a bossa? E o que essas músicas têm de diferente?”, a resposta pode ser arrancada das páginas de O Cruzeiro, a revista que vendia 700 000 exemplares e que estava interessado em saber como tudo tinha começado. O jornalista e compositor (e namorado de Nara, e flatmate de João Gilberto e mais tarde marido de Elis Regina) Ronaldo Bôscoli respondeu assim: “Filosoficamente, Bossa Nova era um estado de espírito”. A cantora Alayde Costa foi mais precisa: “Eu acho que Bossa Nova é toda a música em que entram bemóis e sustenidos”. A melhor é a do poeta Schmidt: “A Bossa Nova é o reencontro do Homem de hoje com o Homem eterno”. Se continua na situação do pai da Nara – o que é compreensível – talvez ir à etimologia da Bossa. Ruy Castro escreve no seu livro “Chega de Saudade”: “A palavra “bossa” estava longe de ser nova: era usada pelos músicos desde tempos perdidos, para definir alguém que cantasse ou tocasse diferente. (…) A origem da expressão nunca ficou esclarecida de todo e gastou-se mais papel e tinta com esse assunto do que ele merecia”.

A Bossa Nova era, então, uma música nova. Uma reacção à música interpretada por Anísio Silva ou Sílvio Caldas. Os cantores de que as empregadas lá de casa gostavam. Os que exumavam a dor de corno numa canção. Os que lastimavam “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amorrrrrrr”. Tudo dito num tom gongórico, pré-apopléctico, vertido com lágrimas. Noir, roufenho, como numa rádio onda média. Acompanhava com copos de uísque e cigarros fumados em boquilha – piteira, como se diz no Brasil. A mulher, essa malvada, espalhava os seus encantos e os seus venenos à noite, alta noite.

Jobim podia tocar em bares e puteiros – tinha uma guerra com o “aluguel” e uma família para cuidar. Jobim podia até perguntar com genuíno interesse a Vinícius quando este lhe falou de uma colaboração: “Tem um dinheirinho nisso aí?”. Mas a noite era uma contingência.

No dicionário de figuras de Ipanema, Ruy Castro descreve-o do seguinte modo: “Ele foi o paradigma do bairro, moleque de praia, adepto de esportes, homem de enorme beleza física, aberto à natureza e à vida, sedento de livros e de conhecimento, bom de copo, inestancavelmente criativo e com um senso de humor ideal para a grande especialidade de Ipanema: conversa fiada”. António Carlos Jobim foi criado com a Lagoa Rodrigo de Freitas aos pés, nadava do Arpoador a Copacabana e voltava. O cheiro a maresia corria numa veia paralela, atravessava-lhe o corpo todo. A sua música não podia deixar de reflectir isso. Deslizava de Copacabana, sombria, nocturna, para o bairro de Ipanema, solar, salgado.

O encontro desse moleque com um homem do mundo, um diplomata que abominava a burocracia, um poeta formado em Oxford, mudou o curso deste rio. No mesmo dicionário, Castro resume o one man show Vinícius de Moraes: “Encarnou a coexistência entre o [Palácio do] Itamaraty e o [bar] Veloso, o uísque e o chope, o asfalto e o morro, a poesia e a letra de samba. A influência dessa dualidade sobre os jovens que conviveram com ele em Ipanema nos anos 50 e 60 foi tremenda”. Do folclore em torno de Vinícius são obrigatórias frases como: “O uísque é o melhor amigo do homem: é o cachorro engarrafado”. Ou os seus nove casamentos. Ou o facto de receber todo o mundo, conhecidos ou não, na banheira.

Esta bandalheira ainda não era permitida quando a Bossa Nova se anunciou. Vinícius era o poeta diplomata que outorgava ao movimento o prestígio do Itamaraty e de Oxford. Versos pueris como: “Pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca” não eram menos que a sua alta poesia, já escrita. Eram, pelo menos, um indicador: No more blues.

Na família Bossa Nova, Bôscoli, Menescal, Nara, Lyra, podem ser lidos como os primos muito chegados e muito novos. Falemos de grana para falar de Nara. Parece injusto que a associação comece por ser esta. Mas a verdade é que este ramo da família não teria sobrevivido se não fosse o apartamento gigante que Nara tinha na Avenida Atlântica. Uma sala de 90 m2, um pai advogado e beneplácito, uma irmã (Danuza) que aos 15 anos tinha Di Cavalcanti por melhor amigo. Millôr Fernandes ia lá jogar póquer uma vez por semana; e nessa altura os meninos pegavam no violão e iam fazer Bossa Nova para outro lado. Fora isso, a casa era um entra e sai permanente.

Tom e João não estavam sempre lá – tinham mais que fazer, nomeadamente ganhar a vida. João vivia encostado na casa deste e daquele, meses e meses, até que simpaticamente, ou nem tanto, lhe apontavam a porta da rua. Não tinha um vintém. A ponto de bater à porta do abastado Menescal e perguntar: “Você tem um violão aí? Podíamos tocar alguma coisa?”. A ponto de usar uma camisola de Bôscoli na fotografia de capa de “Chega de Saudade”. Vivia na absoluta penúria.

Não ganhava a ninharia que os outros ganhavam porque não se dispunha a fazer figuras tristes – ainda fez algumas, apesar de tudo, como cantar fantasiado num programa de televisão. Diz-se que chegou a passar fome. As excentricidades de João são antigas, e não fazia nada que não faça hoje: levantava-se e ia embora quando faziam barulho na assistência, fumava maconha e esquecia-se das horas, exasperava orquestras e maestros por séries ininterruptas de gravação, e atrevia-se a dizer a Tom: “Puxa Tom, como você é burro”, porque Jobim não detectava o erro colossal (?) que aquele acorde continha.

Arrastava a fama de génio de ouvido absoluto. Tinha uma fala mansa. “A voz de João Gilberto era um instrumento (…). O homem cantava num andamento e tocava em outro. Na realidade não parecia cantar – dizia as palavras baixinho. (…) Para Menescal e Bôscoli, naquela noite, João Gilberto era a realidade encarnada do que até então, eles vinham procurando às cegas”. (“Chega de Saudade”). Tom pensou que João “deixara de ser o discípulo de Orlando Silva, com toques de Lúcio Alves. Cantava agora mais baixo, dando a nota exacta, sem vibrato, estilo Chet Baker, que era a coqueluche da época. Mas o que o impressionou foi o violão. Aquela batida era uma coisa nova”. O mundo inteirinho enchia-se de graça e ficava mais lindo por causa de João Gilberto. Muitos anos mais tarde, Caetano resumiria isto no verso: “Melhor do que o silêncio só João”.

Assistia-se a uma epifania. Mas pouco antes, o pai de João sentenciava a morte do género: “Isto não é música. Isto é nhém-nhém-nhém”. Talvez o abastado senhor Oliveira ainda tivesse esperança de ver o filho doutor, como vira todos os outros. Mas o altifalante de Juazeiro tocou mais alto.

“Canção de Amor Demais”, da “enluarada” Elizete Cardoso, materializou em vinil a novidade. A Bossa. Integralmente assinado por Tom e Vinícius, a álbum tinha como plus João Gilberto a tocar violão em duas faixas. Elizete era uma cantora da velha guarda, e o disco anunciava formalmente a mudança. Por causa do repertório. Elizete cantava à moda antiga, e um exercício eficaz para se perceber o que é a Bossa Nova e o que é o génio de João Gilberto é ouvir a versão que um e outro fizeram de “Chega de Saudade”. Três meses depois da diva, João gravou o seu 78rpm com “Chega de Saudade” de um lado e “Bim Bom” do outro. Pediu um microfone para o violão e outro para a voz – o que nunca tinha sido pedido. E fez uma novela em sucessivos capítulos da simples gravação das duas canções. Os jovens da Zona Sul, endinheirados e ensolarados, já conheciam “aquilo”, mas agora tinham um disco a partir do qual podiam tocar, tocar, tocar, até aprender.

Demorou até pegar. Mas transformou-se num fenómeno que não cabia na praia de Ipanema nem na de Copacabana. Dois meses depois, em Janeiro de 59, saiu o primeiro LP (long play, como se dizia, e é o que significa). O habilíssimo Tom Jobim, que além de bares e puteiros tinha um emprego fixo na editora Odeon, escreveu para a contra-capa de “Chega de Saudade” que João “em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. (…) João acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura. (…) P.S.: Caymmi também acha”. Ary Barroso, também. Cyro Monteiro, também.

O melhor da velha guarda “entendia” o que estava a acontecer. Lúcio Alves gravou um disco inteiro com composições desses garotos, Bôscoli/Menescal. A Elenco, editora dissidente da Odeon, do veterano Aloysio de Oliveira, lançava no mercado pérola sobre pérola. O grafismo era depurado, monocolor. Mas o que parece ser uma aposta arrojada resulta da escassez de dinheiro. Tudo em ebulição, portanto.

As canções eram tocadas por todos, compostas por Tom/Vinícius, Tom/Mendonça, Bôscoli/Menescal, e por Bonfá e Carlinhos Lyra. As canções eram cantadas por todos. Sylvia Telles (ao ouvi-la, é fácil perceber porque é que Marisa Monte a venera) gravou dois LP em quatro meses, com 24 canções. A safra era de cortar a respiração. “Samba de uma nota só”, “Dindi”, “Samba do Avião”, “A Felicidade”, “Desafinado”, “Insensatez” – por exemplo.

O disco da consolidação chamou-se “O Amor, o sorriso e a flor”. João Gilberto sugeriu a Jobim: “Tomzinho, essa coisa de “um cigarro e um violão”. Não devia ser assim. Cigarro é coisa ruim. Que tal se você mudasse para “um cantinho, um violão”?”. Ruy Castro explica as razões deste desconforto: “João tomara-se de tal horror pela maconha que passara a responsabilizá-la por todos os seus fracassos iniciais”. Ficou um cantinho e um violão (esse amor e uma canção, pra fazer feliz a quem se ama).

O que lhes aconteceu a seguir? Antes do grande cisma, uma nota sobre Helô, que inspirou “Garota de Ipanema”. Ao contrário do que se diz, não foi no bar Veloso, mais tarde denominado de Garota de Ipanema, que a música foi escrita. O que é facto é que Tom e Vinícius viam ali passar aquela garota, que coisa mais linda mais cheia de graça. Mas foi nas suas casas, e em separado, que criaram a celebérrima canção. Estava-se em 1962, e só anos mais tarde Helô soube que o seu balançado parecia um poema. Era filha de um general e tinha um noivo ciumento. Ia ao Veloso comprar cigarros para a mãe. Teve um destino de dona de casa, uma vida sem ponto de exclamação. Só quando os dias se amarguraram como um bolero dos anos 50, conheceu a libertação; e então pousou nua para a Playboy, cumprindo com décadas de atraso o sonho de muitos amantes da Bossa Nova. Hoje aparece na Caras a festejar o aniversário, estereotipada e loura, com sorriso postiço e corpo enxuto.

Quando Stan Getz, Astrud e João gravaram um disco para a Verve, e com ele bateram a beatlemania, ninguém poderia acreditar que poucos anos antes João Gilberto batia à porta de um desconhecido a perguntar se havia ali um violão. Ninguém apostaria que Astrud ficaria nos Estados Unidos até hoje a fazer carreira no circuito jazzístico. Em 1962 a Bossa estava moribunda, exaurida. Era um troço auto-fágico. Basicamente, já não se podiam aturar uns aos outros. As brigas tinham um aspecto raivoso e diluviano (como diria Nelson Rodrigues). Os namorados e as namoradas eram trocados de uns braços para outros. O dinheiro era incerto. O alcoolismo grassava em todas as frentes. Existia um excesso consanguinidade. E como é sabido, há um momento em que todas as famílias começam a apodrecer.

O concerto no Carneggie Hall deu o toque de debandada, e depois dele o núcleo duro da Bossa Nova “exilou-se” entre Manhattan e a Califórnia. Mas no seio da “turminha” a cisão aconteceu antes e, como seria de esperar, por um assunto de saias.

Primeiro, uma cantora extraordinária de nome Maysa anunciou no aeroporto, perante jornalistas, que ia casar com Bôscoli. Depois Nara rompeu com Bôscoli e decidiu não cantar os temas que ele tinha composto para ela. Por fim, ou se estava com Nara ou se estava com Bôscoli. Sequência: Nara reaproximou-se de Carlinhos Lyra, que já tinha rompido com Bôscoli, e fez uma abordagem à música do morro e à canção de protesto. Renegou tão enfaticamente o seu passado e a turminha que acabou zurzida de cima a baixo. O disco que punha o último tijolo no movimento e na relação foi “Opinião de Nara”. Continha sambas, marchas de Carnaval, canções de protesto. “Chega de Bossa Nova, chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro que tem muito mais a dizer. (…) Se estou me desligando da Bossa Nova? A Bossa Nova me dá sono” (Nara em entrevista, citada no livro do Ruy Castro). Foi acusada de ingratidão. Mas a pobre menina rica, sentia no ar o fim de um tempo. Esboroava-se a rêverie dos anos Kubitschek, o progresso estancava.

Longo sono. Um sono de Bela Adormecida.

Foram precisas décadas até que a Bossa Nova fosse reabilitada no Brasil. No circuito internacional, de modo irregular, sempre se ouviu e praticou. Em especial pelos parentes próximos do jazz. Moacyr Santos, o maestro que compôs obras primas como “Coisas”, fez toda a sua carreira nos Estados Unidos. Sérgio Mendes também. Para já não falar de Tom e João que viveram pelo menos 20 anos fora. Vinícius acabou expulso do Itamaraty – “expulsem esse vagabundo”, dizia o telegrama, corre a lenda. Por mau comportamento. Má imagem. Alcoolismo entre outros pecados – para dizer depressa.

Morreu antes de Tom.

Tom morreu antes de João.

João celebra esta noite os 50 anos da Bossa Nova no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Pensará nos outros dois antes de entrar em palco? Sentirá falta daquele longo e interminável dia das suas vidas? Um dia que durou alguns anos.

 

Publicado originalmente no Público em 2008