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Anabela Mota Ribeiro

Cesária Évora

06.12.18

Cesária Évora canta desde que se lembra de si, e é também desde que se lembra de si que canta descalça. Já era mulher madura quando o acaso a trouxe a Lisboa e lhe marcou encontro com José da Silva. Ou Djô Silva, se preferirem, produtor e empresário. Foi também por essa altura que entrou em cena o instrumentista Paulino Vieira, que, digo eu do alto da minha autoridade musical (que por acaso é inexistente, mas não interessa), reformulou a sonoridade africana e se tornou numa peça fundamental dos discos de Cesária. Como sabem, o fenómeno explodiu primeiro em França, extravasou a seguir para o resto da Europa, os Estados Unidos logo depois.

No Mindelo já todos a conhecem, das serenatas e da paródia, animadas pelo grogue e por outras bebidas. Sabiam-na filha de um homem que se perdia no violão e sobrinha de um tal de B.Leza que lhe haveria de escrever parte das grandes canções. O que não poderiam imaginar: que aquela voz seria a voz de Cabo Verde e que o mundo inteiro a reconheceria no princípio de cada morna.

Ausência é uma palavra que vai bem com ela, com Cize. Há uma morna que leva este seu nome, este pequeno nome pelo qual Cabo Verde a chama e os músicos a cumprimentam, Bonjour Cize. Cize lê-se tal qual se escreve. Como se fosse um sussurrar que fica guardado entre os lábios. Experimentem silabar Cize e perceberão o que quero dizer. 

Há uma parte da entrevista em que se fala do fotógrafo Pedro Loureiro. A sua história com Cize é muito bela. Um dia ele vira-a, na soleira da porta, na sua casa em Cabo Verde. Tinha as chaves mergulhadas no regaço e sentenciou: «Entrevista não dou, mas se quiser entrar e comer cachupa, pode comer». Anos depois, já não lembrava se tinha falado ou não: tinha apenas a certeza de ter tratado bem, porque herdou isso da mãe e da avó.

Na tarde da entrevista, fumou sucessivos cigarros. Ao seu lado, copos altos para o leite e chávenas para o café. Os pés descansavam fora dos chinelos. O ouro enreda-lhe o pescoço e os pulsos. Prescindiu na quase totalidade da entrevista da assistente que lhe verte o discurso de crioulo para português. Nessa tarde Cesária estava deveras animada e apenas contou com ela para o riso solto que acompanhou as conversas. 

cesária.jpg

 Fotografia de Pedro Loureiro

 

Algum dos seus colares tem um significado especial?

Nem por isso. Compro qualquer coisa em ouro, primeiro, por gostar. Ou primeiro é por ter dinheiro para comprar, depois é por gostar. Amanhã, se tiver qualquer necessidade posso tirar e vender.

 

Um investimento, portanto.

Com certeza. Ou para vender ou para ficar, as duas coisas.

 

Os brincos parecem mais antigos. Foram herdados?

Tudo aqui foi comprado, não tem nada oferecido. Ofereceram outras coisas, mas ouro... Ah, em Argentina deram-me um fiozinho. Dei para a minha neta.

 

Quantos netos tem?

Dois, um rapaz e uma menina. O Adilson tem 15 anos, a Janete tem 8.

 

Acompanham de perto a sua carreira? Assistem aos concertos?

Quando são em Cabo Verde, eles vão. A Janete

tem a mania de ser modelo; gosta de fazer passagens de modelo, gosta de cantar e de dançar. Não sei se vai continuar amanhã quando for de mais idade; agora é muito criança e gosta. O Adilson gosta é de futebol. Disse que quer vir jogar no Porto. Eu sou Porto e ele também. Disse-lhe: «Um dia vais jogar lá, ainda és muito novo».

 

O Adilson é filho da Fernanda que nasceu de uma relação que a Cesária teve com um jogador de futebol.

É isso. Pode ser que saia ao avô.

 

Mantém alguma relação com os pais dos seus filhos?

Com o pai do Eduardo não; é um português que nunca mais vi. Fiquei à espera de bebé, e ele veio para Portugal. Não sei se é vivo ou morto. E não me interessa saber.

 

Que idade tinha? Era uma menina.

Era muito nova. Nasceu a 5 de Agosto e fiz 18 anos a 27 de Agosto. Eu, a minha filha, o meu filho e o meu neto somos do mesmo mês, tudo de Agosto.

 

Deve ter sido difícil ser uma mãe sozinha há quase 40 anos.

Não. Era nova, desenrascava-me muito bem. A minha mãe ajudava-me com os meus filhos. Era uma pobreza, mas assim não muito.

 

Viviam do quê?

Minha mãe era cozinheira. E eu cantava, tinha sempre algum troquinho. Troquinho é quando o dinheiro não é muito. Quando é um dinheiro bastante razoável a gente chama de dinheiro.

 

Quando é que passou a ter dinheiro?

A partir de 88 quando comecei a minha carreira na França. Ia para Cabo Verde, começava a contar tanto franco, quando cansava dizia: «Depois vou contar o resto».

 

Como é que lhe pagavam, entregavam-lhe um maço de notas ou faziam um depósito bancário?

As duas coisas. Levo uma parte comigo e depois fazem uma transferência e levanto lá no banco. Não posso levar muita quantidade comigo porque pode ser perigoso. José [Djô da Silva] disse que a gente não deve andar com muito dinheiro. Se perder uma parte, tenho a outra parte. Sempre foi assim.

 

Como pagou esse ouro, por exemplo?

Tenho mais [ouro]. Tenho coisas que nunca usei, porque são mais volumosas, etc., e não gosto muito.

 

A primeira peça que pôde comprar, deve ter sido uma espécie de concretização de um sonho.

Havia muita loja portuguesa em S. Vicente. Então, eu comprava. Anel, fio, brinco, tudo. Agora também vendem, mesmo que não seja mais a época colonial.

 

Em Portugal há quem venda ouro em pacotes de 6 ou 12 cheques pré-datados.

Que significa cheques pré-datados?

 

O comprador passa ao vendedor a totalidade dos cheques que vão sendo descontados mensalmente.

Comprar em prestações?

 

Sim.

Em Cabo Verde, no tempo colonial, usava-se isso: a pessoa marcava uma peça qualquer, depois dava um tanto e ia levando conforme pudesse.

 

Usam-se cheques?

Usam-se sempre, mas não está enraizado esse sistema dos cheques pré-datados, Compra-se aos poucos, quando der todo o dinheiro leva-se a coisa. Vivemos muito isso, em Cabo Verde. Mas agora gosto mais de pagar à vista porque tenho dinheiro para comprar. Não vou guardar o dinheiro em casa e dizer «Venho logo, ou venho amanhã». A pessoa fica sempre a ver e nunca leva. Eu não vivo assim. Prefiro comprar e pagar logo, fico sem a chatice.

 

Tentam impingir-lhe coisas, por saberem que pode comprar?

São pessoas amigas que não desconfiam. Querem deixar e eu é que digo que não. Quando estou interessada compro logo com o dinheiro à vista.

 

Além do ouro, quais são os seus gastos?

Compro em qualquer parte, em qualquer país. Hoje já fiz uma comprinha, não foi muito, mas... Três blusas, duas saias.

 

Alguma dessas peças é para usar nos espectáculos?

Tenho roupa de espectáculo. A roupa é minha; se a quiser vestir. Mas a roupa dos espectáculos tenho-a à parte: têm algum brilhante, ou um tecido que não dá para vestir todos os dias. Então, eu ponho de lado.

 

Gosta de comprar sozinha ou tem alguém que a aconselhe?

Não gosto muito do conselho de ninguém. Eu é que sei o que quero e o que não quero. Não vou tomar opinião.

 

Sempre foi assim?

Desde que era verde anos, antes de voltar madura. Hoje um moço que trabalha ali disse: «Ó Cesária Verde, queria um autógrafo». Eu disse: «já não estou verde, estou madura!; e não é Verde, é Évora [gargalhada].

 

Houve um momento em que tivesse deixado de ser verde e inocente e passasse a ser uma mulher madura?

Já estou madura, já tenho 57 anos. Uma pessoa vai apanhando idade, é nesse sentido que digo verde e madura. Sempre vivi da maneira que fosse o meu pensar. Desde criança, tive decisão sobre mim própria. Minha mãe dizia que eu não era de brincadeira. Era a filha que fazia a minha mãe mais coisas: saía de casa, o meu irmão mais velho ia à minha procura e levava uma boa sova; no dia seguinte, saía mais cedo! A minha mãe acabou par me pôr num orfanato! Mandei um recado à minha avó a dizer que todos os dias via fantasmas.

 

E via?

Tudo mentira! Minha avó falou com minha mãe. Ela era cozinheira do doutor e a mulher era directora do orfanato. Falou com a directora que não podia ficar lá por causa dessas coisas. Foi assim que consegui safar-me das freiras e padres e chatice. Eu queria ser qualquer coisa, queria fazer da minha vida o que bem entendesse!

 

Quanto tempo se aguentou?

Entrei com 10 e saí com 13. Saí do orfanato, dei mulher, aos 17. 18 tive filhos, etc., etc., a minha vida foi assim. Não tive paciência para estudar.

 

Foi uma má aluna?

Não era das piores, mas também não era assim muito boa! A minha avó e a Dona Maria Amélia [professora] eram muito amigas: tentavam pôr-me no caminho certo, mas eu não queria. Antes de entrar para o orfanato tinha andado na segunda classe. No exame de passagem para a terceira, nunca mais peguei num livro.

 

Sabe ler e escrever correctamente?

Muito pouco. Escrevo Cesária Évora, sei fazer uma conta de dinheiros.

 

Havia alguém que tinha mão em si?

O meu pai morreu tinha eu sete anos. A mãe do meu pai era muito nossa amiga, respeitava-a muito. Mas não me estorvava de sair de casa. O meu irmão era militar, quando saía do quartel ia pela casa da avó cumprimentar e ver se a gente se tinha comportado bem. Levei uma sova do meu irmão que nunca mais levei na vida, de cinturão! Ele foi para Dakar e eu fiquei contente! [risos] Depois a pessoa vai apanhando idade e tomando juízo.

 

O seu pai tocava violão e a Cesária cantava no colo dele.

Conheci bem o meu pai e lembro do dia em que morreu. Ele era estudante: deixou os liceus para se meter na paródia, para tocar violão. Deve ser o caso, herdei isso do meu pai.

 

Como é que soube que ele tinha morrido?

Estava na casa da minha avó na altura em que ele morreu. A minha mãe ia trabalhar e íamos para casa da mãe do meu pai. [Canta a estrofe: A minha vida foi sempre assim] Mas eu nunca chorei lágrimas de muita tristeza, só a morte, que é uma coisa à parte. Agora, chorar por um homem? Não, tenho um espírito muito forte, um espírito de combate. Quando um homem me deixa vou logo à procura de outro, não há tempo a perder! Se não ainda cria teia de aranha! Compreende? Não há tempo para teia de aranha!

 

A única coisa que a abala é a morte?

Se for disparate e coisa do mundo, não abala. Conhece as duas viúvas que se encontram no cemitério? Uma está a fazer xixi na cova do marido. A outra chora e visita o marido morto. Um dia, a que estava a chorar, chamou a atenção da outra e disse: «Todas as vezes que lhe encontro no cemitério, em vez de você chorar, você faz xixi». E a outra: «Cada um chora por onde sente mais saudade!» [gargalhada].

 

É uma história inventada.

Aconteceu com duas viúvas. Ela não tinha nada que tomar satisfação, aquela que chorava.

 

É assim tão namoradeira?

Sou viva, não sou morta! Quando era mais nova, sim; mas agora... Às vezes faço um casamento à espanhola. Depende do meu estado de espírito.

 

Casamento à espanhola?

Casar hoje, divorciar amanhã.

 

Houve algum homem de que tivesse gostado muito? Teve um amor da sua vida?

Gostei do pai da Fernanda. Ele veio para Lisboa e nos princípios escrevia e mandava para a filha. Deixou de escrever e deixou de mandar e a Fernanda cresceu sem a ajuda dele. Como não deu, paciência, nunca mais pensei. Eu gostava dele. Era bom futebolista, tinha bom físico, parecia o tronco de uma árvore. Quando veio, foi jogar para o Caldas da Rainha.

 

Desde aí nunca pensou casar?

Nem pensar nisso. Casar é bom, mas não casar é melhor! Sempre gostei de mandar em mim mesma.

 

Quando menina, não teve o sonho de casar e ter filhos?

Como, casamento é sonho? Vou ficar sem casar porque não acredito em sonhos.

 

Sonhava pelo menos ser cantora? Era menina e já fazia serenatas.

Ia para as serenatas, cantava em todos os cantos de S. Vicente. Mais tarde fui convidada para ir para a rádio gravar e disse que não, que não ia. Acabei por ir, para a Rádio Barlavento e para a Rádio Clube do Mindelo. Depois, comecei a cantar para os portugueses, na casa deles e nos navios de guerra. Foi assim, foi o meu começo.

 

Cantava para ganhar uns trocos?

Eu queria ser cantora, só que não tinha recursos. Quando cantava nos bares, davam-me dinheiro; mas os donos dos sítios não me davam nada. Uma pessoa para viver tem que ter dinheiro.

 

Por que é que tinha receio de ir à rádio gravar?

Não era questão de receio. Não queria ir. Quando comecei a pensar melhor, fui.

 

Não sentia que era um passo importante para a sua carreira?

Para a minha carreira não, em S. Vicente já toda a gente me conhecia.

 

Sentiu uma emoção particular quando se ouviu na rádio pela primeira vez?

Já tinha ouvido a minha voz a cantar para as pessoas. É igual.

 

Fala como se tudo isto lhe fosse indiferente. Sente um genuíno prazer quando canta?

A minha maneira de expressar é assim. Sempre gostei da música. Quanto mais agora, que a música dá tutu [remexe o médio e o polegar em sinal de dinheiro]. Eu canto com prazer. Estou num outro meio em que quem canta tem sempre dinheiro. Tenho que ter um troquinho, ou não? Então, é isso.

 

Um dinheiro. Aliás, já concretizou o sonho de ter uma casa no Mindelo.

Não é questão de sonhar. É preocupação de qualquer cabo-verdiano ter uma casa para deixar de pagar renda. Comprei a primeira casa em 94, a segunda em 95.

 

Quem é que vive consigo?

A Fernanda mora numa casa que o Estado me deu para morar; nunca morei lá porque a casa era pequenina. A família são nove cabeças, nove pessoas. O meu filho ainda está comigo, já disse para ele levar nem que fosse um mongol para casa, que eu aceito! Sabe o que é um mongol?

 

Não.

Mongolóide. Como mais velho, já devia ter filhos.

 

Qual é a profissão dele?

Ele é um pé descalço como a mãe. Cozinha bem porque aprendeu com a avó. Chegou ao segundo ano de liceu, disse que não queria estudar mais, eu disse que era um problema dele. E assim ficou.

 

É verdade que a Cesária faz sempre comida a mais para as pessoas que vão chegando?

É uma tradição da minha avó. A minha avó era uma proprietária, tinha quintas fora da cidade. Na altura chovia, agora é que não há chuva em Cabo Verde. No meu crescimento havia muita chuva.

 

Trata-se mesmo de uma outra maneira de estar. Confia-se abertamente nas pessoas,

Com certeza. Não preciso saber quem é o pai ou a mãe para tratar bem.

 

Quando o Pedro Loureiro [fotógrafo] esteve em sua casa disse-lhe que entrevista não dava, mas que se quisesse podia entrar para comer.

Dei entrevista?

 

Deu.

Falámos muito ou pouco?

 

Muito. Mostrou os discos de ouro que estavam debaixo do sofá.

Agora tenho numa parede. Tenho um outro disco que foi sucesso na América, daquela música «Besame Mucho», sabe? Jaqueline, explica como é que o «Besame Mucho» foi feito! [Jaqueline, a tradutora, conta: «Besame Mucho» foi feito para a banda sonora de «Great Expectations». Atingiu o disco de ouro nos EUA] Disco de Ouro na América, sabe quanto é? 500 mil.

 

Sente-se muito orgulhosa quando pensa no sucesso?

Sou uma pessoa simples. Não acho que seja estranho. Era qualquer coisa que estava à minha espera.

 

Acredita no destino?

Não, destino é cair da rocha! Foi uma porta que se abriu para mim e para mais artistas africanos. Estive parada dez anos: não cantava, não ia para sitio nenhum. Saturei de tanto cantar que disse: «Vou parar». Em 1985 a Associação de Mulheres Cabo Verdianas convidou-me para cantar na festa, dia 8 de Março. E cantei no 5 de Julho, naquele pátio grande que eles têm. Então o primeiro-ministro Pedro Pires disse que íamos para Portugal gravar um disco [Cesária. Zenaide, Celina Pereira, Ana Emma].

 

Foi a primeira vez que saiu da sua terra.

Primeira vez, mesmo para qualquer ilha. Não gostava de ir para sítio nenhum. Tinha vontade era de estar lá. Não há ilha mais saborosa que S. Vicente. [começa a cantar «Mindelo Pequenino»]. Conhece essa morna?

 

Conheço. Deve ter sido difícil estar dez anos sem cantar?

Era também um capricho que estava a manter. Muita gente cá fora pensava que estava morta, outros pensavam que estava doente. O povo pensava o que queria pensar e eu cantava em casa. Às vezes as pessoas passavam e paravam a ver; e eu escondia a cabeça

 

Foi nesse período que deixou de beber?

Foi. Cigarro, nunca consegui. Deixei de beber porque deixei de frequentar bares, de ir para casas particulares ou não particulares.

 

Não foi particularmente difícil?

Não. Nem naquela época, nem agora que deixei também. Vai fazer cinco anos. As pessoas ficavam com dúvida: se era por motivo de doença, qualquer coisa.

 

Como é que começou a beber?

Nos bares, na influência de uma coisa e outra, uma pessoa aprende muitos vícios.

 

Parou de cantar, parou de beber.

Isso. Parei em 75, comecei em 85.

 

Porque é que parou há cinco anos? Problemas de saúde?

Se tivesse com problemas de saúde não estaria com uma carreira dessas. Vou sempre ao médico saber se estou a funcionar bem de dentro e de fora, principalmente de dentro. Tenho tensão normal e não tenho problemas de coração.

 

Então?

Deixei por uma questão de fastio. Bebi muito, nesse 85 até 94. Disse: «Vou parar». E parei.

 

Nunca mais bebeu?

Até hoje não. Pede ser que resolva de hoje para amanhã, não é? Não disse «Nunca mais»: disse «vou pôr stop». Em minha casa tenho toda a espécie de bebidas para os meus amigos.

 

Agora bebe leite e café.

Café, água, de vez em quando um refrigerante.

 

Fumar e cantar são os seus prazeres?

E perder a noite, na paródia. No entanto, sem álcool.

 

Já não se fazem serenatas nas noites de cabo Verde?

Muita coisa desapareceu, é verdade.

 

Tendo o estatuto que tem, se um amigo lhe pedir ainda faz uma serenata?

Claro que sim, se estou bem disposta eu canto.

 

É a Cesária que escolhe os músicos que a acompanham?

É o Djô Silva [José da Silva, o produtor]. Nós temos de chegar a um acordo, se quero ou não quero. Às vezes pode haver uma pessoa que não me agrade e a pessoa não vem. A atitude ou qualquer coisa que não vai bem comigo. Foi ao que aconteceu com o grupo do Bau.

 

O encontro com o Djô Silva mudou a sua vida.

A segunda vez que a Bana me trouxe para Portugal, em 87, cantava no restaurante dele. Na altura, o Djô estava com a mulher e disse que quando terminasse de cantar queria falar comigo. Em 88 podia tomar compromissos com ele. De 88 até agora estamos juntos, tudo corre lindamente.

 

O Djô Silva era agulheiro dos Caminhos-de-ferro. Tinha experiência como músico?

Trabalhava nos Caminhos-de-ferro e já antes tinha um grupo na França. Era manager dos Cabo Verde Show.

 

Foi na mesma altura que se cruzou com o Paulino Vieira [instrumentista]?

Eu e o Paulino já tínhamos tocado juntos em Lisboa. Ele formou o grupo que foi para França acompanhar a Cesária. Estivemos algum tempo; como ele tinha trabalho, tinha o disco que fez dedicado ao pai, teve que deixar. Depois foi o Bau e agora é outro grupo. Este grupo não tem nome, é o grupo da Cesária. São pessoas abertas: tem três cubanos e sete cabo-verdianos, dois técnicos de som e um de luz. Ah, a Jaqueline também trabalha connosco.

 

É a sua assistente pessoal?

Sim. A Jaqueline, conheço os pais antes dela.

 

Tem um orgulho patriótico?

Da minha parte, nem vou dar nem vou vender! A parte que me toca é minha. E cada um tem sempre um bocadinho lá, um bocadinho de chão de Cabo Verde.

 

É-lhe indiferente estar em França ou em Portugal?

Sou a mesma pessoa, nunca mudei Simples, como estou aqui.

 

Conhece a Amália?

Pessoalmente não conheço, mas sou uma grande fã há muitos anos. Também gostava do Alberto Ribeiro, o Rui Veloso, Vitorino, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, também conheço.

 

Gosta especialmente do fado?

Para falar verdade, gosto de Carlos do Carmo e Amália Rodrigues.

 

Também Amália era de uma família humilde e começou a cantar nas ruas.

É como o meu caso: comecei a cantar nos bares e em todos os cantos de São Vicente. Tudo tem um começo.

 

É verdade que vai fazer uma pausa na sua carreira e pode mesmo deixar de cantar?

[Para Jaqueline] Diz lá, ao menos faz uma vezinha! [Jaqueline responde: Ela não tem planos para parar. Em Dezembro vai descansar seis ou sete meses porque os últimos anos têm sido extenuantes. Jaqueline prossegue: Vou ter que lhe pedir que avancemos para as fotos].

 

Gosta de pintar as unhas?

Sim. Gosto de azul não muito claro, de preto, de castanho, são três cores que gosto no verniz.

 

Vai à manicura?

Arranjo a mim mesma. Quando calha gosto de ir para limpar os pés e fazer as minhas mãozinhas. Quando não dá para ir, tenho lima, tesoura, até lâmina para tirar calos nos pés, e tenho acetona e algodão.

 

Canta sempre descalça?

Sempre fui uma cantora descalça.

 

Sente-se mais confortável?

Não é questão de estar confortável. Gosto, gosto de estar descalça, como sempre.

 

Em Cabo Verde, passa os dias na soleira da porta com as chaves depositadas no regaço. De onde são as chaves?

Das minhas coisas importantes. Tenho dinheiro, tenho uma jóia, vou deixar ali em cima da mesa, em qualquer sítio?

 

Quem é a pessoa de quem mais gosta?

É a minha mãe, ela já morreu. Depois, os meus filhos. Depois, irmãos: e pessoa que não seja família que me trate bem, eu trato bem também.

 

Das suas canções, tem uma de que goste mais?

«Mar Azul» e «Miss Perfumado» são duas mornas que ficam escritas na história. Foi o pontapé de saída na França. Com o pé direito.

 

 

Publicada originalmente no DNa, do Diário de Notícias, em 1999

Cesária Évora morreu em  2011 

 

 

Manuel António Pina

06.12.18

Manuel António Pina vive entre livros, papéis e gatos. Lembranças, palavras e um cão. Nasceu no Sabugal, há 65 anos. É poeta, escreve livros infantis (embora não goste da designação), é cronista. A sua obra está traduzida, foi premiada.

Pina é o tipo de homem que diz ao mesmo tempo coisas como: “Somos matérias de estrelas. Tenho um poema chamado “Matéria de Estrelas”; e oferece um doce: “Não quer tomar nada? Um bolo da minha sogra, bolo da mamã”. Cita T.S. Eliot e mostra fotografias antigas. Aponta para o casaquinho à grilo que usou num Carnaval e explica que religião e religare vêm do mesmo.

Para Manuel António Pina, isto anda mesmo tudo ligado. A comida que se come, a morte que se inflige às bactérias com o antibiótico, o taoísmo do urso Puff, a empregada de língua afiada que faz parte da família há 20 anos.

“Ler, como diz o Borges, é uma forma de felicidade”. Quando era pequeno, os outros miúdos faziam música, cantavam. Ele lia e escrevia versos.

 

Tem uma fixação no Winnie The Pooh

É um dos meus livros de referência. Nós somos o que lemos, e eu, não sei se sou alguma coisa ao Winnie The Pooh, mas gostava de ser… Ao [Jorge Luís] Borges, perguntaram assim: “Quem é afinal Borges?”; ele começou a responder como os futebolistas, na terceira pessoa, “Borges não existe” [risos]; depois passou para a primeira pessoa do singular: “Sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, todos os lugares que visitei, todas as pessoas que amei”. É verdade – agora digo eu.

 

Como se deu o encontro com o Winnie The Pooh, de Milne?

Descobri-o tarde, era um jovem adulto. Em casa dos meus pais havia poucos livros. O primeiro livro que li, tinha uns oito ou nove anos, emocionou-me imenso. Foi “A vida sexual”, do Egas Moniz. Comecei a ler livros por causa das bibliotecas da Gulbenkian que apareciam lá na terra.

 

Como o apresentaria? É improvável que um encontro com uma figura da infância se dê na idade adulta…

E de uma forma muito forte. É um ursinho com muito pouco miolo, que tem uma relação com o mundo e consigo dominada por uma nonchalance e pela bondade – que é a grande qualidade humana. É muito medroso, mas tem aventuras de grande coragem. Há uma nonchalance que há, ou que gostaria que houvesse em mim, ou que procuro que haja em mim, [um desejo de] deixar-me atravessar pelas coisas. O Ursinho Puff é uma imagem de um universo perdido, de um mito, de um passado dourado – que nunca existiu. É uma espécie de reencontro com a infância. E esse reencontro é uma necessidade natural em sociedades urbanas como as nossas, muito agressivas, competitivas e pouco espontâneas. É natural que em silêncio, na solidão, sintamos essa melancolia da infância.

 

Era à voz da infância que eu queria chegar, cruzando o Pooh com o título Um sítio onde pousar a cabeça.[1991] O Pooh simboliza o espaço mitificado da infância?, onde tudo era puro e onde podemos, pelo menos na memória, pousar a cabeça.

O Ursinho Puff não é propriamente puro, é espontâneo; tem uma relação directa e imediata com as coisas e com a palavra. Seduz-me a sua relação com as palavras, que é simultaneamente de inocência e de malícia. E seduz-me a capacidade formidável que têm as palavras de fazer sentido e de produzir sentido. A palavra “criar”, pelo menos em termos fonéticos, tem muito que ver com a criança; criança também é aquele que está em criação. No Pooh tudo é feito através do discurso.

 

E que tem isto a ver com os seus livros?

Escrevo o livro comigo mesmo, com o meu sangue, com a minha vida, com a minha memória. A minha escrita tem muitas alusões, frases. Tenho a cabeça cheia de frases!, do Eliot, do Rilke, do Alexandre O’Neil, do Ruy Belo e do Winnie The Pooh; para além de outras que não reconheço, e que se calhar são as mais importantes ou significativas. Quando falo na minha poesia do que está atrás dos cortinados, o que está debaixo da cama, esses medos infantis, tenho no horizonte relações com esses poemas do Milne.

 

O primeiro espaço da sua infância foi o Sabugal.

No dia 4 de Abril, vão-me fazer uma homenagem [entrevista realizada dias antes]. Vão pôr uma placa na casa onde nasci, e pediram-me um verso lá pôr. Andei à procura. Uma das ideias centrais da minha poesia é a morte, o sítio onde pousar a cabeça. O regresso a casa é a melancolia da infância e é também a morte. Do mesmo modo que nascemos do ventre da mãe, há um regresso, uma espécie de percurso circular, ao ventre da terra. Por algum motivo dizemos “a terra natal”.

 

E muita gente quer ser enterrada na terra onde nasceu, por mais voltas que tenha dado.

[afasta-se] Deixe ver se encontro aqui esse livro…, onde é que está isso agora? Deixei-o no carro. Aqui é onde tenho as coisas relativas aos meus livros, este armário todo… Vou dizer-lhe um poema: “Os homens temem as longas viagens, os ladrões da estrada, as hospedarias, e temem morrer em frios leitos e ter sepultura em terra estranha”. Começa assim. “Por isso os seus passos os levam de regresso a casa, às veredas da infância, ao velho portão em ruínas, à poeira das primeiras, das únicas lágrimas”. Continua por aí abaixo.

 

Vamos até à casa onde nasceu?

Nasci em casa. Era a casa dos meus avós. Tenho tantos poemas sobre aquilo… E, no entanto, saí de lá com seis anos. O meu pai era funcionário das Finanças. Só podia estar dois anos em cada terra para não fazer amigos. Isso foi horrível para mim, porque não fazendo ele amigos, eu também não fiz. Sair do Sabugal foi muito penoso.

 

Quando saiu do Sabugal, iniciou a sua viagem. Gosta de viajar?

Há uns anos, uma miúda perguntou-me: “Como é jornalista, viaja muito?”. “Não gosto nada de viajar!”. E ela: “Se calhar foi por viajar tanto quando era pequeno…”. Tinha uns dez ou 11 anos, e chamou-me a atenção para isso. Fui uma espécie de Sísifo: sempre a fazer amigos e a perdê-los. Quando os amigos estavam feitos ou a fazer-se, perdia-os de novo, e ia para outra localidade, e recomeçava a fazer, tudo do princípio, sabendo que os ia perder daí a três ou quatro anos, e que tinha de recomeçar de novo. Passei a infância nisto.

 

Mas não desistia?

Não. Estamos condenados a isso. Os meus amigos mais antigos são dos 18 anos, aqui do Porto. Não tenho amigos da instrução primária, mas tenho nomes: o Américo, o Pedro Matos Neves, (esse sei que morreu na guerra colonial). Tenho a cabeça cheia desses nomes, mas os rostos já se perderam. Eu tinha um pesadelo quando era miúdo, recorrente, que tinha que ver com o regresso a casa.

 

Como era?

Eu vivia numa casa e atravessava a rua para ir à escola; entretanto, começava a passar um comboio eterno, passava, passava, e não podia regressar a casa. Era horrível! É o problema do regresso a casa.

 

Há um poema seu que diz assim: “A alegria da viagem é o regresso a casa”.

A minha vida, na infância e juventude, foi uma permanente, uma eterna partida. É natural que tivesse a melancolia do regresso.

 

Era um menino triste?

Não. Essas coisas são profundas demais para terem expressão à superfície, na tristeza ou na alegria. São vivenciais; na altura não nos apercebemos delas, e são as que nos marcam mais.

 

Não desistia de fazer amigos, que era um modo de construir casa, mesmo sabendo que o desmoronamento era inevitável. Não criou um muro entre si e o mundo. Não o fez menos loquaz.

Se calhar até aumentou a minha loquacidade. A minha infância foi uma longa queda, com a minha existência a desmoronar-se permanentemente, a ter de ser recriada. Agarrar-me é uma forma de criar raízes.

 

Olhando à volta, percebe-se que acumula coisas.

Tenho muita dificuldade em deitar coisas fora.

 

Podia pensar, em função do seu passado, que o desprendimento lhe fosse mais fácil.

Foi exactamente isso que me fez ser mais agarrado às coisas. Sabe o que é isto aqui? São coisas importantes para tratar.

 

Tem uma pilha de um metro de coisas importantes para tratar!

Descobri que as coisas importantes, se as pusermos num monte, passados uns meses deixam de ser importantes [risos]. É tudo inútil!, são urgências que entretanto deixaram de ser urgentes. Mas nem calcula as coisas que tenho da infância. Tenho até um casaquinho preto que a minha mãe e a minha tia Céu me vestiram numa festa de Carnaval. [Afasta o cinzeiro da secretária apilhada de coisas] Eu quase não fumo. Sou muito inseguro. O cigarro também é uma forma de insegurança. Eu é que estou pendurado no cigarro, não é o cigarro pendurado em mim. As minhas amigas psicanalistas dizem que se eu não escrevesse poesia era um grande cliente delas.

 

Nunca foi cliente de psicanalista?

Não, e não gosto de psicanalistas.

 

Porquê?

Desconfio. São polícias das almas. Não gosto nada que me espreitem cá para dentro. [Mostra fotografias] Isto era a minha avó, o meu avô, a minha mãe e a minha tia Fernanda. Isto são as minhas filhas. Este é o Mário Cesariny. Isto sou eu e o meu irmão.

 

Sem o bigode, nem o reconheço. Deixe-me tentar perceber se é o mesmo.

Sou, sou. Sou o mesmo e outro. Estava a ver se encontrava as tais fotografias… Isto é a minha mulher. O meu avô. Tenho um poema, “O casaquinho preto”. Tenho esse casaquinho aí, vou buscar, tem de ser, está bem?

 

Está.

“Como é que eu podia saber na altura que eu era só uma memória do que sou hoje, de alguém que eu na altura desconhecia?”. Estava a falar da infância: tenho uma memória muito vaga daquela casa, tenho só sombras. A memória mais antiga que tenho é concreta, mas as outras não. “Ao fundo da escada havia uma floreira branca e lilás, com uma flor descolorida, talvez tenha sido um sonho a preto e branco e isto faça algum sentido, a avó morria de cancro no quarto de baixo, vomitando um líquido branco, andava por ali a morte, falando baixo, subindo e descendo as escadas. Vi-a muitas vezes hesitando, como se estivesse perdida também ela, ou como se estivesse viva…”.

 

Vai insistentemente aos poemas… A poesia, como o cigarro, é um biombo que interpõe para evitar ou adiar o encontro com os outros?

Não. Quando começo a escrever um poema nunca sei o que vou dizer. O Eliot fala de um ser informe que se pergunta a si mesmo: “O que virei eu a ser?”. O Paul Claudel diz que sente qualquer coisa nele que se quer transformar em palavras. A poesia é uma busca da identidade, ou seja, de coincidência. Na busca dessa coincidência, é natural que cada um de nós construa uma narrativa, construa um passado. Os poemas sobre a infância são uma tentativa desesperada de construir um passado onde possa regressar, onde possa encostar a cabeça. Mas isso é comum a todos os seres humanos, quer tenham uma existência nómada, como foi a minha, quer tenham uma existência sedentária – a tentativa desesperada de se encontrar a si mesmos, de coincidir com o rosto que vêem diante do espelho.

Não sei como é que hei-de explicar isto…

 

Como foi o seu encontro com as palavras?

Aprendi a ler muito cedo. Os meus pais viviam com muitas dificuldades económicas. Tanto que fiz o curso todo sem assistir a uma aula de Direito. Fui para Direito porque era o único curso que se podia fazer sem ir às aulas. Tinha um primo numa república e às vezes conseguia estar um mês em Coimbra. Mas ia assistir às aulas de Literatura, do Paulo Quintela! Isto vinha a propósito de quê? Ah, não havia livros, mas o meu pai todos os dias, quando vinha da repartição, levava o jornal para casa. Aprendi a ler nos jornais. E sabe como são as mães… Tem filhos?

 

Não.

Mas tem mãe. As mães são os seres mais admiráveis que há. A minha mãe é que guardava essas coisinhas todas que eu escrevia. Desde que me conheço, escrevia todos os meus sentimentos, a minha relação com o mundo e com as coisas. Escrevia em verso.

 

Como é que um miúdo de seis anos escreve versos?

Os versos eram dísticos, o verso mais simples. Alguém me contou a história do milagre das rosas e eu pu-la em verso. “Nasceu um dia em lua-de-mel, uma princesa chamada Isabel”. O “que queres ser quando fores grande?”, fazia sempre em verso. Queria ser detective, aquelas coisas que os rapazes querem ser.

 

Os rapazes querem ser detectives? Essa nunca tinha ouvido.

Queria ser detective por causa dos livros de banda desenhada. O “Cavaleiro Andante” vinha aos sábados, chegava na camioneta, e eu andava com o meu irmão à pancada para ver quem lia primeiro. Queria ser padre.

 

Padre? Porquê?

Eu queria ser santo. Imaginava este mundo como sendo a barriga, o interior de um ser a quem chamamos Deus, que por sua vez era um habitante de outra terra, que vivia na barriga (que é o sítio onde está a alma) de outro ser que era o seu Deus, e assim até ao infinito. E para mim era a mesma coisa: na minha barriga viviam muitos pequenos seres que me designavam a mim, não sabendo quem eu era, por Deus.

 

Era um elo numa cadeia.

Uma cadeia para o infinitamente grande e para o infinitamente pequeno. Não está longe da verdade. De vez em quando, dava um soco na barriga, “ai, provoquei um terramoto nos universos inferiores todos”; imaginava os seres dentro da minha barriga atirados ao chão, a pedir piedade, piedade! [risos].

 

Donde veio a ideia de querer ser santo?

Queria ser bom até ao limite, ao extremo. Na Sertã, vivia num extremo da vila e a escola era noutro extremo; vinha a pé para a escola e aproveitava para rezar todo o caminho. Era investir na minha santidade.

 

Era também um desejo de agradar à sua mãe? A sua mãe era religiosa?

Era. O meu pai era anticlerical primário. Quando fiz o 7º ano do liceu, a alternativa para as pessoas com poucos meios era ir para a academia militar ou para o seminário. Para o seminário, nem pensar! O meu avô materno tinha todos os defeitos: era judeu, anarquista, republicano e anticlerical. Na minha família, eram todos judeus de origem; ele era Ismael, a minha mãe Sara.

 

Onde é que pára o judaísmo e o desejo de ser santo?

Eu, que já fui agnóstico, agora sou mesmo ateu. Mas tenho muita sedução por religiões e por livros religiosos. Sou um grande leitor da bíblia, embora leia aquilo como um romance.

 

A prosa nunca foi a sua forma?

Nunca. Ainda hoje leio pouca ficção, e leio sempre os mesmos: o Malcolm Lowry, o Conrad, o Melville, o Jack London, o Mark Twain. Li o Eça de Queirós porque tive um prémio literário no liceu de Aveiro. Era no valor de 500 escudos em livros, e comprei as obras completas do Eça. Passava o tempo metido na biblioteca; não era para me cultivar, era por prazer.

 

Porque aquilo era uma casa.

Talvez. Está a psicanalisar-me! [risos].

 

Fale-me da sua mãe, por falar em psicanálise.

A minha mãe também fazia versos. A minha mãe ficou muito magoada quando morreu o meu avô, pai dela, e eu não escrevi nenhuns versos. Tentou fazer uma fraude. “Sabes, escreveste uns versos tão bonitos sobre a morte do teu avô…”, “Não escrevi nada”, “Escreveste, escreveste, encontrei-os ali”. Queria convencer-me que era eu que os tinha escrito! E mostrá-los ao meu pai e às amigas. “Não escrevi nada, é mentira, foste tu”. Esses versos terminavam assim: “Estás no Céu avozinho, junto de Nosso Senhor”! [gargalhada] Fiquei furioso.

 

Ficou furioso porque lhe queria atribuir uns versos que não eram seus?

Sim. E fazia versos que queria que eu recitasse para as visitas: “Quero ser alferes, e de um lindo regimento de mulheres”. Um dia, o Tesoureiro da Fazenda Pública e a mulher foram visitar-nos e a minha mãe esteve a ensinar-me uns poemas que fez. Eu tinha vergonha de os ler. Finalmente acabei por fazê-lo escondido atrás da porta. Nunca contei isto a ninguém. Agora que me está a fazer a psicanálise, lembro-me destas coisas engraçadas. A minha mãe morreu há 10 anos.

 

E escreveu versos?

Não. Não escrevo poemas sobre nada.

 

A sua poesia escreve-se com memória, não com sentimentos.

Toda a poesia se escreve com memória de sentimentos, mas não com sentimentos. O Oscar Wilde dizia que “a má poesia normalmente é sincera”. Os sentimentos são maus conselheiros. Outro dia recebi um original do João Luís Barreto Guimarães sobre a morte do pai; peguei no livro com a maior das desconfianças, mas é admirável.

 

Na infância escrevia em versos. Sobre quê?

Sobre sentimentos.

 

Escreveu versos sobre a morte da cadela Coquita e não escreveu sobre a morte do seu avô. Porquê?

Sabe-se lá porquê? Nunca me forcei a escrever. Não queria ser dramático, porque estas coisas são simples: mas é como se os poemas é que quisessem escrever-se em mim. Os sentimentos sentem-se, a poesia não tem nada que ver com isso.

 

Como naquele seu verso: “A palavra sangue não sangra”?

Se me dói uma coisa, dá-me para chorar, para gritar, e não para escrever. Agora já não choro há muito tempo, mas houve uma altura em que chorava imenso. Sem motivo. Já com 30 anos, 40 anos, fechava-me sozinho no quarto, agarrava-me à almofada e chorava. Saía dali com um conforto… A minha poesia, quando era miúdo, tinha que ver com efabulações, sonhos, desejos. Os temas de toda a arte reduzem-se à morte e ao amor.

 

Eros e Tanatos.

Eros e Tanatos, e o Tempo também. As questões fundamentais de todos nós, do Homem enquanto tal, são aquelas que os nossos filhos nos põem quando têm três anos. “De onde é que nasci? Onde é que eu estava antes de ter nascido? Para onde se vai quando se morre?”. Os sistemas filosóficos, as religiões tentam responder a essas perguntas. E no meio tempo: “Quem somos”, ou “O que somos”. É natural que à beira do abismo o Homem se interrogue, ou fique ansioso. Essa interrogação é o motor da arte, da filosofia, da poesia, da música.

 

Quis ser escritor?

Nunca. Os miúdos, nas escolas, perguntam-me se quando era pequeno queria ser escritor. Até costumo responder-lhes com um jogo de palavras: “Que o escritor é que quis ser eu”. E é verdade.

 

Não quis ser escritor, mas quis ser santo. Influências bíblicas abundam na sua poesia.

Quando era jovem, gostava do Cântico dos Cânticos. Tinha aquele conteúdo carnal… Eu tinha uma namorada e uma bíblia; Salomão fala dos seios de Sulamita: “Os teus seios são como duas pombas, para não falar do que está dentro”. E na minha bíblia tinha uma nota de rodapé: “Entenda-se os dois seios da Igreja, a Moral e a Doutrina”. Eu dizia à minha namorada: “Hoje tens mais Doutrina que Moral” [gargalhadas]. Depois também me interessei pelo Apocalipse. Mais velho, pelos livros do Antigo Testamento. O meu evangelho era o de São Mateus. O Pasolini é que fez um grande filme, Il vangelo secondo Matteo.

 

Além de ser belo, é um filme muito carnal.

Também. Agora, que já sou sexagenário, tenho uma certa preferência pelo Génesis e pelo Evangelho de São João, que acho que é o mais poético. Tenho a cabeça cheia de versículos da bíblia. “Podes ter o dom das línguas, mas se não tiveres o amor…” Conhece esse? Vou ler, desculpe lá, é comovente e tudo. É do São Paulo, e não gosto nada do São Paulo: é misógino.

 

Não gosta do São Paulo porque ele é misógino?

E por outras coisas. Mas esta é lindíssima. “Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência e de toda a fé, a ponto de transformar as montanhas, se não tivesse o amor, eu nada seria”.

 

O que seria da sua vida sem o amor?

Costumo dizer uma coisa: o amor é a bondade que se aplica a tudo. É a bondade, é a beleza. O amor é um conceito só. Sou um céptico, mas conheço duas ou três ou quatro pessoas bondosas. A minha sogra é uma pessoa bondosa, a minha mulher também é. O amor é o principal veículo de comunicação. [aproxima-se uma gata] (É a minha gatita, deve ter tropeçado). De maneira que o amor ou a bondade é tudo o que temos. Memória é tudo o que temos, palavra é tudo o que temos, e as palavras são a forma de podermos, eventualmente, tocar a fímbria do amor e da memória. Veja lá há que tempos estou com este cigarro sem o acender…, isto é insegurança.

 

Porque é que é inseguro?

Sei lá. Vou contar-lhe um segredo, mas não me importo que fique: eu escrevia com régua, à mão. Se eram coisas que podiam ser vistas por outra pessoa, escrevia com régua, e com hipocrisia. Ainda hoje faço as dedicatórias dos livros assim: uso o Bilhete de Identidade, [a fazer de régua].

 

Para quê?

Para ficar mais certinho, para não me mostrar em cuecas, para não mostrar a minha intimidade, a irregularidade.

 

Isso é irregularidade?

Tenho essa mania. O que é que quer?, é o mesmo motivo que nos leva a pentear ou a ajeitar a gravata – não uso gravata. Quando estamos em público não nos apresentarmos da mesma maneira que em privado. Gosto muito de um título do Alexandre O’Neil, que é um bocado a minha relação com as palavras: “O Abandono Vigiado”. Liberdade condicional. Senão as palavras começam a falar sozinhas. ([A gata mia] O que é que ela está a fazer?

 

Está a meter-se dentro da minha carteira.

Ela é muito brincalhona. Vai à tua vidinha. É muito gorda.

 

Enxotei-a. É como se fosse uma pessoa a mexer nas minhas coisas.

Fez bem. É intromissão.) As minhas amigas psicanalistas – são duas ou três – diziam que escrever com a régua era expressão de insegurança. Se sou inseguro, porque é que não mostro que sou inseguro?

 

Já disse pelo menos duas vezes que é inseguro.

Sou. Antes tinha vergonha, mas agora não – são os tais privilégios da idade. Lá está você a contar as vezes…, a psicanalisar!

 

Os psicanalistas contam?

Você repara. É perigosa. Porque é observadora.

 

Se sou isso, vou dizer que reparei que citou várias vezes o Borges e nenhuma o Mallarmé, que, segundo os escritos sobre a sua poesia, lhe é essencial. Nem a Odisseia.

Não é tanto a Odisseia, é mais a Ilíada.

 

O tema do regresso a casa e da memória, e mesmo do mito de Sísifo, estão na Odisseia. Por isso falo dela.

A Odisseia foi muito marcante. Até onde tenho consciência, os autores essenciais são todos aqueles gregos a quem chamamos Homero, o Eliot, o Rilke e o Borges. A ficção do Borges. Não gosto muito da poesia do Borges, curiosamente.

 

Estranho, porque Borges é um dos maiores poetas, e porque você é um poeta que quase não lê ficção.

Sinto-me mais consanguíneo com a ficção dele. E há Ruy Belo, Pessoa, Cesário Verde, Cesariny, e há muitas mulheres… Surpreende-me, em versos meus, reconhecer ecos da Sylvia Plath ou da Anna Akhmatova.

 

E a vidinha?

A vidinha, convivo bem com ela.

 

Estudou Direito porque era o que era possível. Quis ser santo e detective, entre outras coisas. Parece uma vida efabulada. E depois há uma vida que se impõe, com os pés na terra.

São vidas paralelas, convivem perfeitamente uma com a outra.

 

Como é que aprendeu a fazê-las conviver?

À própria custa!, é a única maneira. Isto é humano, demasiadamente humano. É natural que queiramos evadir-nos quando nos sentimos agarrados pela vida corriqueira. (Hoje estou com uma dor de dentes. Não posso tomar coisas, que tenho medo, estou a caminho da diálise, dá-me cabo dos rins. O dentista radiografou tudo e não tenho lá nada, mas dói-me!, não sou maluco completamente). Continuando: somos muitos ao mesmo tempo, somos aqueles que sonhamos, somos sobretudo aquilo que tememos e que desejamos.

 

Ainda não explicou como é que embrulha as várias camadas. A do poeta, a do que vive a vidinha, a do escritor de livros infantis que vai às escolas falar com miúdos e dizer-lhes que nunca quis ser escritor.

Acho que é fácil compatibilizar todos aqueles que nós somos ou vamos sendo. Vivo a tal vida corriqueira sem me comprometer. Consigo ser muito “forex”, como dizem os putos, mas ao mesmo tempo sou muito prático – é o tal espírito jurídico. Ainda agora tive uma guerra com a TMN por causa de umas facturas e acabaram por me indemnizar. Eu gosto de guerras perdidas, tenho mesmo vocação para santo! [gargalhada].

 

Essa com a TMN, pelos vistos, não foi perdida. E já agora, algum santo em particular?

Não. Queria ser santo, queria ser bom.

 

Santo Pina.

Há uns versinhos de um miúdo do Centro de Recuperação de Crianças Anormais – um nome horrível – o Manuel Ferraz, de 12 anos: “Eu quero ser bom, mas não bom de todo o meu coração”. Eu queria ser totalmente bom. Embora hoje já só queira ser bom mas não de todo o meu coração – como o Manuel Ferraz.

 

Pelo meio, exerceu advocacia durante nove anos, que abandonou para ser jornalista.

[De novo a gata] Anda cá Bézinha! Ela é muito simpática, é muito cordial.

 

Era um advogado de causas perdidas?

Também. As pessoas confiam no advogado a sua liberdade ou a sua fazenda. O mínimo exigível era uma entrega total. Tinha de poder dormir comigo mesmo todas as noites. Podemos dormir com A ou com B, mas connosco temos sempre que dormir. É bom a pessoa dormir tranquilamente, poder não dizer: “Sou um sacana”. Somos o nosso pior juiz. Em relação a amigos que tive na juventude, o Alberto Martins, o Jorge Strecht, digo-lhes muitas vezes: o que é que pensariam das pessoas que são hoje as pessoas que vocês eram quando tinham 20 anos?

 

Andou metido na política?

Pouco. No outro dia encontrei no Alfa o Januário Torgal Ferreira, o bispo, “olha o padre Januário!”. Continua a dizer hoje o que dizia quando tinha 20 anos. As pessoas mudam, mas fundamentalmente os valores são os mesmos.

 

E no seu caso?

Acho que continuo a dizer o mesmo. Mudei muitas coisas. Para ser fiel aos valores fui obrigado a mudar. Por exemplo, a seguir ao 25 de Abril, cheguei a ser candidato a deputado pelo MES e pela UEDS. Fiz sempre questão de não ser militante de coisas nenhuma; como se costuma dizer em linguagem popular, eu mijo fora do penico. Esse militante, foi o homem que nunca quis ser. Vamos sendo outros; alguns por imperatividade da vida biológica (não quer tomar nada?), outros por imperatividade afectiva, outros moral, e nesse grande painel de identidades, o militante é perfeitamente dispensável.

 

Aproximou-se da política numa altura em que em Portugal toda a gente fazia política.

Foi a seguir ao 25 de Abril. Acreditei e envolvi-me mesmo. Eu não sou muito hipócrita, sou o suficiente para conseguir viver em sociedade. Acreditei que vinha aí o socialismo, que podia ser uma forma de felicidade colectiva. Eu andava à procura de casa, estava para nascer a minha filha mais nova, a Sara. O obstetra dela, que era um famoso professor da Faculdade de Medicina, nas consultas só falava nos comunistas, estava preocupado que lhe levassem as pratas. As pessoas fugiram em debandada final como se fossem umas baratas, e abandonavam coisas que vendiam por tuta e meia. Estava à venda uma casa que eu cobiçava imenso, por 600 contos, que era muitíssimo barato. Sabe porque é que não a comprei?

 

Porquê?

Estava sinceramente convencido de que vinha aí o socialismo e que não precisava de comprar casa! A militância não foi só por causa de l’air du temps. Eu acreditava mesmo no poder popular. Tentei ser candidato duas vezes. A proximidade com a militância e com a política partidária revelou-me aspectos da natureza humana e das próprias organizações partidárias revoltantes. De maneira que afastei-me completamente. Hoje tenho até uma hostilidade em relação à política.

 

Foi em 74 que editou o seu primeiro livro. O título é: “Ainda não é o princípio nem o fim do mundo, calma, é apenas um pouco tarde”.

Foi nas vésperas da revolução, acho que o livro saiu mesmo em Abril.

 

É um título profético, de certa maneira.

Tinha editado um livro infantil em Dezembro de 73, chamava-se “O país de pessoas de pernas para o ar”.

 

Sei que não gosta da designação, mas é um dos autores mais conceituados de literatura infantil.

Não faço distinção entre a literatura e a poesia infantil. Tenho exactamente a mesma atitude. O Paul Valéry diz que o primeiro verso nos é dado e os outros têm de ser conquistados. Aquele que me é dado, nunca me é dado como um verso infantil para crianças ou um poema para os adultos; é-me simplesmente dado. Depois, os versos seguintes, conquistados, têm alguma penosidade. O próprio texto é que se vai escrevendo como texto, eventualmente legível ou publicável como livro para crianças ou como poesia para adultos.

 

Lembra-se muitas vezes da criança que era?

Recordo-me. Mas de uma forma engraçada: como se essa criança nunca tivesse existido, a não ser fora da minha lembrança.

 

Por fim, os gatos. Porque é importante ter esta gataria perto de si?

Dou-me bem com os gatos porque eles, os animais em geral, estão muito próximos do Ser. Como estão alguns personagens literários.

Relaciono-me com eles com alguma melancolia, porque “quem me dera ter a tua inconsciência, e a consciência dela” – como escreve Pessoa. (Não quer tomar nada, um doce? Um bolo da minha sogra, bolo da mamã).

 

 

Publicada originalmente na Revista Pública, em Abril de 2009

Manuel António Pina morreu em Outubro de 2012