Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Anabela Mota Ribeiro

Cesária Évora

06.12.18

Cesária Évora canta desde que se lembra de si, e é também desde que se lembra de si que canta descalça. Já era mulher madura quando o acaso a trouxe a Lisboa e lhe marcou encontro com José da Silva. Ou Djô Silva, se preferirem, produtor e empresário. Foi também por essa altura que entrou em cena o instrumentista Paulino Vieira, que, digo eu do alto da minha autoridade musical (que por acaso é inexistente, mas não interessa), reformulou a sonoridade africana e se tornou numa peça fundamental dos discos de Cesária. Como sabem, o fenómeno explodiu primeiro em França, extravasou a seguir para o resto da Europa, os Estados Unidos logo depois.

No Mindelo já todos a conhecem, das serenatas e da paródia, animadas pelo grogue e por outras bebidas. Sabiam-na filha de um homem que se perdia no violão e sobrinha de um tal de B.Leza que lhe haveria de escrever parte das grandes canções. O que não poderiam imaginar: que aquela voz seria a voz de Cabo Verde e que o mundo inteiro a reconheceria no princípio de cada morna.

Ausência é uma palavra que vai bem com ela, com Cize. Há uma morna que leva este seu nome, este pequeno nome pelo qual Cabo Verde a chama e os músicos a cumprimentam, Bonjour Cize. Cize lê-se tal qual se escreve. Como se fosse um sussurrar que fica guardado entre os lábios. Experimentem silabar Cize e perceberão o que quero dizer. 

Há uma parte da entrevista em que se fala do fotógrafo Pedro Loureiro. A sua história com Cize é muito bela. Um dia ele vira-a, na soleira da porta, na sua casa em Cabo Verde. Tinha as chaves mergulhadas no regaço e sentenciou: «Entrevista não dou, mas se quiser entrar e comer cachupa, pode comer». Anos depois, já não lembrava se tinha falado ou não: tinha apenas a certeza de ter tratado bem, porque herdou isso da mãe e da avó.

Na tarde da entrevista, fumou sucessivos cigarros. Ao seu lado, copos altos para o leite e chávenas para o café. Os pés descansavam fora dos chinelos. O ouro enreda-lhe o pescoço e os pulsos. Prescindiu na quase totalidade da entrevista da assistente que lhe verte o discurso de crioulo para português. Nessa tarde Cesária estava deveras animada e apenas contou com ela para o riso solto que acompanhou as conversas. 

cesária.jpg

 Fotografia de Pedro Loureiro

 

Algum dos seus colares tem um significado especial?

Nem por isso. Compro qualquer coisa em ouro, primeiro, por gostar. Ou primeiro é por ter dinheiro para comprar, depois é por gostar. Amanhã, se tiver qualquer necessidade posso tirar e vender.

 

Um investimento, portanto.

Com certeza. Ou para vender ou para ficar, as duas coisas.

 

Os brincos parecem mais antigos. Foram herdados?

Tudo aqui foi comprado, não tem nada oferecido. Ofereceram outras coisas, mas ouro... Ah, em Argentina deram-me um fiozinho. Dei para a minha neta.

 

Quantos netos tem?

Dois, um rapaz e uma menina. O Adilson tem 15 anos, a Janete tem 8.

 

Acompanham de perto a sua carreira? Assistem aos concertos?

Quando são em Cabo Verde, eles vão. A Janete

tem a mania de ser modelo; gosta de fazer passagens de modelo, gosta de cantar e de dançar. Não sei se vai continuar amanhã quando for de mais idade; agora é muito criança e gosta. O Adilson gosta é de futebol. Disse que quer vir jogar no Porto. Eu sou Porto e ele também. Disse-lhe: «Um dia vais jogar lá, ainda és muito novo».

 

O Adilson é filho da Fernanda que nasceu de uma relação que a Cesária teve com um jogador de futebol.

É isso. Pode ser que saia ao avô.

 

Mantém alguma relação com os pais dos seus filhos?

Com o pai do Eduardo não; é um português que nunca mais vi. Fiquei à espera de bebé, e ele veio para Portugal. Não sei se é vivo ou morto. E não me interessa saber.

 

Que idade tinha? Era uma menina.

Era muito nova. Nasceu a 5 de Agosto e fiz 18 anos a 27 de Agosto. Eu, a minha filha, o meu filho e o meu neto somos do mesmo mês, tudo de Agosto.

 

Deve ter sido difícil ser uma mãe sozinha há quase 40 anos.

Não. Era nova, desenrascava-me muito bem. A minha mãe ajudava-me com os meus filhos. Era uma pobreza, mas assim não muito.

 

Viviam do quê?

Minha mãe era cozinheira. E eu cantava, tinha sempre algum troquinho. Troquinho é quando o dinheiro não é muito. Quando é um dinheiro bastante razoável a gente chama de dinheiro.

 

Quando é que passou a ter dinheiro?

A partir de 88 quando comecei a minha carreira na França. Ia para Cabo Verde, começava a contar tanto franco, quando cansava dizia: «Depois vou contar o resto».

 

Como é que lhe pagavam, entregavam-lhe um maço de notas ou faziam um depósito bancário?

As duas coisas. Levo uma parte comigo e depois fazem uma transferência e levanto lá no banco. Não posso levar muita quantidade comigo porque pode ser perigoso. José [Djô da Silva] disse que a gente não deve andar com muito dinheiro. Se perder uma parte, tenho a outra parte. Sempre foi assim.

 

Como pagou esse ouro, por exemplo?

Tenho mais [ouro]. Tenho coisas que nunca usei, porque são mais volumosas, etc., e não gosto muito.

 

A primeira peça que pôde comprar, deve ter sido uma espécie de concretização de um sonho.

Havia muita loja portuguesa em S. Vicente. Então, eu comprava. Anel, fio, brinco, tudo. Agora também vendem, mesmo que não seja mais a época colonial.

 

Em Portugal há quem venda ouro em pacotes de 6 ou 12 cheques pré-datados.

Que significa cheques pré-datados?

 

O comprador passa ao vendedor a totalidade dos cheques que vão sendo descontados mensalmente.

Comprar em prestações?

 

Sim.

Em Cabo Verde, no tempo colonial, usava-se isso: a pessoa marcava uma peça qualquer, depois dava um tanto e ia levando conforme pudesse.

 

Usam-se cheques?

Usam-se sempre, mas não está enraizado esse sistema dos cheques pré-datados, Compra-se aos poucos, quando der todo o dinheiro leva-se a coisa. Vivemos muito isso, em Cabo Verde. Mas agora gosto mais de pagar à vista porque tenho dinheiro para comprar. Não vou guardar o dinheiro em casa e dizer «Venho logo, ou venho amanhã». A pessoa fica sempre a ver e nunca leva. Eu não vivo assim. Prefiro comprar e pagar logo, fico sem a chatice.

 

Tentam impingir-lhe coisas, por saberem que pode comprar?

São pessoas amigas que não desconfiam. Querem deixar e eu é que digo que não. Quando estou interessada compro logo com o dinheiro à vista.

 

Além do ouro, quais são os seus gastos?

Compro em qualquer parte, em qualquer país. Hoje já fiz uma comprinha, não foi muito, mas... Três blusas, duas saias.

 

Alguma dessas peças é para usar nos espectáculos?

Tenho roupa de espectáculo. A roupa é minha; se a quiser vestir. Mas a roupa dos espectáculos tenho-a à parte: têm algum brilhante, ou um tecido que não dá para vestir todos os dias. Então, eu ponho de lado.

 

Gosta de comprar sozinha ou tem alguém que a aconselhe?

Não gosto muito do conselho de ninguém. Eu é que sei o que quero e o que não quero. Não vou tomar opinião.

 

Sempre foi assim?

Desde que era verde anos, antes de voltar madura. Hoje um moço que trabalha ali disse: «Ó Cesária Verde, queria um autógrafo». Eu disse: «já não estou verde, estou madura!; e não é Verde, é Évora [gargalhada].

 

Houve um momento em que tivesse deixado de ser verde e inocente e passasse a ser uma mulher madura?

Já estou madura, já tenho 57 anos. Uma pessoa vai apanhando idade, é nesse sentido que digo verde e madura. Sempre vivi da maneira que fosse o meu pensar. Desde criança, tive decisão sobre mim própria. Minha mãe dizia que eu não era de brincadeira. Era a filha que fazia a minha mãe mais coisas: saía de casa, o meu irmão mais velho ia à minha procura e levava uma boa sova; no dia seguinte, saía mais cedo! A minha mãe acabou par me pôr num orfanato! Mandei um recado à minha avó a dizer que todos os dias via fantasmas.

 

E via?

Tudo mentira! Minha avó falou com minha mãe. Ela era cozinheira do doutor e a mulher era directora do orfanato. Falou com a directora que não podia ficar lá por causa dessas coisas. Foi assim que consegui safar-me das freiras e padres e chatice. Eu queria ser qualquer coisa, queria fazer da minha vida o que bem entendesse!

 

Quanto tempo se aguentou?

Entrei com 10 e saí com 13. Saí do orfanato, dei mulher, aos 17. 18 tive filhos, etc., etc., a minha vida foi assim. Não tive paciência para estudar.

 

Foi uma má aluna?

Não era das piores, mas também não era assim muito boa! A minha avó e a Dona Maria Amélia [professora] eram muito amigas: tentavam pôr-me no caminho certo, mas eu não queria. Antes de entrar para o orfanato tinha andado na segunda classe. No exame de passagem para a terceira, nunca mais peguei num livro.

 

Sabe ler e escrever correctamente?

Muito pouco. Escrevo Cesária Évora, sei fazer uma conta de dinheiros.

 

Havia alguém que tinha mão em si?

O meu pai morreu tinha eu sete anos. A mãe do meu pai era muito nossa amiga, respeitava-a muito. Mas não me estorvava de sair de casa. O meu irmão era militar, quando saía do quartel ia pela casa da avó cumprimentar e ver se a gente se tinha comportado bem. Levei uma sova do meu irmão que nunca mais levei na vida, de cinturão! Ele foi para Dakar e eu fiquei contente! [risos] Depois a pessoa vai apanhando idade e tomando juízo.

 

O seu pai tocava violão e a Cesária cantava no colo dele.

Conheci bem o meu pai e lembro do dia em que morreu. Ele era estudante: deixou os liceus para se meter na paródia, para tocar violão. Deve ser o caso, herdei isso do meu pai.

 

Como é que soube que ele tinha morrido?

Estava na casa da minha avó na altura em que ele morreu. A minha mãe ia trabalhar e íamos para casa da mãe do meu pai. [Canta a estrofe: A minha vida foi sempre assim] Mas eu nunca chorei lágrimas de muita tristeza, só a morte, que é uma coisa à parte. Agora, chorar por um homem? Não, tenho um espírito muito forte, um espírito de combate. Quando um homem me deixa vou logo à procura de outro, não há tempo a perder! Se não ainda cria teia de aranha! Compreende? Não há tempo para teia de aranha!

 

A única coisa que a abala é a morte?

Se for disparate e coisa do mundo, não abala. Conhece as duas viúvas que se encontram no cemitério? Uma está a fazer xixi na cova do marido. A outra chora e visita o marido morto. Um dia, a que estava a chorar, chamou a atenção da outra e disse: «Todas as vezes que lhe encontro no cemitério, em vez de você chorar, você faz xixi». E a outra: «Cada um chora por onde sente mais saudade!» [gargalhada].

 

É uma história inventada.

Aconteceu com duas viúvas. Ela não tinha nada que tomar satisfação, aquela que chorava.

 

É assim tão namoradeira?

Sou viva, não sou morta! Quando era mais nova, sim; mas agora... Às vezes faço um casamento à espanhola. Depende do meu estado de espírito.

 

Casamento à espanhola?

Casar hoje, divorciar amanhã.

 

Houve algum homem de que tivesse gostado muito? Teve um amor da sua vida?

Gostei do pai da Fernanda. Ele veio para Lisboa e nos princípios escrevia e mandava para a filha. Deixou de escrever e deixou de mandar e a Fernanda cresceu sem a ajuda dele. Como não deu, paciência, nunca mais pensei. Eu gostava dele. Era bom futebolista, tinha bom físico, parecia o tronco de uma árvore. Quando veio, foi jogar para o Caldas da Rainha.

 

Desde aí nunca pensou casar?

Nem pensar nisso. Casar é bom, mas não casar é melhor! Sempre gostei de mandar em mim mesma.

 

Quando menina, não teve o sonho de casar e ter filhos?

Como, casamento é sonho? Vou ficar sem casar porque não acredito em sonhos.

 

Sonhava pelo menos ser cantora? Era menina e já fazia serenatas.

Ia para as serenatas, cantava em todos os cantos de S. Vicente. Mais tarde fui convidada para ir para a rádio gravar e disse que não, que não ia. Acabei por ir, para a Rádio Barlavento e para a Rádio Clube do Mindelo. Depois, comecei a cantar para os portugueses, na casa deles e nos navios de guerra. Foi assim, foi o meu começo.

 

Cantava para ganhar uns trocos?

Eu queria ser cantora, só que não tinha recursos. Quando cantava nos bares, davam-me dinheiro; mas os donos dos sítios não me davam nada. Uma pessoa para viver tem que ter dinheiro.

 

Por que é que tinha receio de ir à rádio gravar?

Não era questão de receio. Não queria ir. Quando comecei a pensar melhor, fui.

 

Não sentia que era um passo importante para a sua carreira?

Para a minha carreira não, em S. Vicente já toda a gente me conhecia.

 

Sentiu uma emoção particular quando se ouviu na rádio pela primeira vez?

Já tinha ouvido a minha voz a cantar para as pessoas. É igual.

 

Fala como se tudo isto lhe fosse indiferente. Sente um genuíno prazer quando canta?

A minha maneira de expressar é assim. Sempre gostei da música. Quanto mais agora, que a música dá tutu [remexe o médio e o polegar em sinal de dinheiro]. Eu canto com prazer. Estou num outro meio em que quem canta tem sempre dinheiro. Tenho que ter um troquinho, ou não? Então, é isso.

 

Um dinheiro. Aliás, já concretizou o sonho de ter uma casa no Mindelo.

Não é questão de sonhar. É preocupação de qualquer cabo-verdiano ter uma casa para deixar de pagar renda. Comprei a primeira casa em 94, a segunda em 95.

 

Quem é que vive consigo?

A Fernanda mora numa casa que o Estado me deu para morar; nunca morei lá porque a casa era pequenina. A família são nove cabeças, nove pessoas. O meu filho ainda está comigo, já disse para ele levar nem que fosse um mongol para casa, que eu aceito! Sabe o que é um mongol?

 

Não.

Mongolóide. Como mais velho, já devia ter filhos.

 

Qual é a profissão dele?

Ele é um pé descalço como a mãe. Cozinha bem porque aprendeu com a avó. Chegou ao segundo ano de liceu, disse que não queria estudar mais, eu disse que era um problema dele. E assim ficou.

 

É verdade que a Cesária faz sempre comida a mais para as pessoas que vão chegando?

É uma tradição da minha avó. A minha avó era uma proprietária, tinha quintas fora da cidade. Na altura chovia, agora é que não há chuva em Cabo Verde. No meu crescimento havia muita chuva.

 

Trata-se mesmo de uma outra maneira de estar. Confia-se abertamente nas pessoas,

Com certeza. Não preciso saber quem é o pai ou a mãe para tratar bem.

 

Quando o Pedro Loureiro [fotógrafo] esteve em sua casa disse-lhe que entrevista não dava, mas que se quisesse podia entrar para comer.

Dei entrevista?

 

Deu.

Falámos muito ou pouco?

 

Muito. Mostrou os discos de ouro que estavam debaixo do sofá.

Agora tenho numa parede. Tenho um outro disco que foi sucesso na América, daquela música «Besame Mucho», sabe? Jaqueline, explica como é que o «Besame Mucho» foi feito! [Jaqueline, a tradutora, conta: «Besame Mucho» foi feito para a banda sonora de «Great Expectations». Atingiu o disco de ouro nos EUA] Disco de Ouro na América, sabe quanto é? 500 mil.

 

Sente-se muito orgulhosa quando pensa no sucesso?

Sou uma pessoa simples. Não acho que seja estranho. Era qualquer coisa que estava à minha espera.

 

Acredita no destino?

Não, destino é cair da rocha! Foi uma porta que se abriu para mim e para mais artistas africanos. Estive parada dez anos: não cantava, não ia para sitio nenhum. Saturei de tanto cantar que disse: «Vou parar». Em 1985 a Associação de Mulheres Cabo Verdianas convidou-me para cantar na festa, dia 8 de Março. E cantei no 5 de Julho, naquele pátio grande que eles têm. Então o primeiro-ministro Pedro Pires disse que íamos para Portugal gravar um disco [Cesária. Zenaide, Celina Pereira, Ana Emma].

 

Foi a primeira vez que saiu da sua terra.

Primeira vez, mesmo para qualquer ilha. Não gostava de ir para sítio nenhum. Tinha vontade era de estar lá. Não há ilha mais saborosa que S. Vicente. [começa a cantar «Mindelo Pequenino»]. Conhece essa morna?

 

Conheço. Deve ter sido difícil estar dez anos sem cantar?

Era também um capricho que estava a manter. Muita gente cá fora pensava que estava morta, outros pensavam que estava doente. O povo pensava o que queria pensar e eu cantava em casa. Às vezes as pessoas passavam e paravam a ver; e eu escondia a cabeça

 

Foi nesse período que deixou de beber?

Foi. Cigarro, nunca consegui. Deixei de beber porque deixei de frequentar bares, de ir para casas particulares ou não particulares.

 

Não foi particularmente difícil?

Não. Nem naquela época, nem agora que deixei também. Vai fazer cinco anos. As pessoas ficavam com dúvida: se era por motivo de doença, qualquer coisa.

 

Como é que começou a beber?

Nos bares, na influência de uma coisa e outra, uma pessoa aprende muitos vícios.

 

Parou de cantar, parou de beber.

Isso. Parei em 75, comecei em 85.

 

Porque é que parou há cinco anos? Problemas de saúde?

Se tivesse com problemas de saúde não estaria com uma carreira dessas. Vou sempre ao médico saber se estou a funcionar bem de dentro e de fora, principalmente de dentro. Tenho tensão normal e não tenho problemas de coração.

 

Então?

Deixei por uma questão de fastio. Bebi muito, nesse 85 até 94. Disse: «Vou parar». E parei.

 

Nunca mais bebeu?

Até hoje não. Pede ser que resolva de hoje para amanhã, não é? Não disse «Nunca mais»: disse «vou pôr stop». Em minha casa tenho toda a espécie de bebidas para os meus amigos.

 

Agora bebe leite e café.

Café, água, de vez em quando um refrigerante.

 

Fumar e cantar são os seus prazeres?

E perder a noite, na paródia. No entanto, sem álcool.

 

Já não se fazem serenatas nas noites de cabo Verde?

Muita coisa desapareceu, é verdade.

 

Tendo o estatuto que tem, se um amigo lhe pedir ainda faz uma serenata?

Claro que sim, se estou bem disposta eu canto.

 

É a Cesária que escolhe os músicos que a acompanham?

É o Djô Silva [José da Silva, o produtor]. Nós temos de chegar a um acordo, se quero ou não quero. Às vezes pode haver uma pessoa que não me agrade e a pessoa não vem. A atitude ou qualquer coisa que não vai bem comigo. Foi ao que aconteceu com o grupo do Bau.

 

O encontro com o Djô Silva mudou a sua vida.

A segunda vez que a Bana me trouxe para Portugal, em 87, cantava no restaurante dele. Na altura, o Djô estava com a mulher e disse que quando terminasse de cantar queria falar comigo. Em 88 podia tomar compromissos com ele. De 88 até agora estamos juntos, tudo corre lindamente.

 

O Djô Silva era agulheiro dos Caminhos-de-ferro. Tinha experiência como músico?

Trabalhava nos Caminhos-de-ferro e já antes tinha um grupo na França. Era manager dos Cabo Verde Show.

 

Foi na mesma altura que se cruzou com o Paulino Vieira [instrumentista]?

Eu e o Paulino já tínhamos tocado juntos em Lisboa. Ele formou o grupo que foi para França acompanhar a Cesária. Estivemos algum tempo; como ele tinha trabalho, tinha o disco que fez dedicado ao pai, teve que deixar. Depois foi o Bau e agora é outro grupo. Este grupo não tem nome, é o grupo da Cesária. São pessoas abertas: tem três cubanos e sete cabo-verdianos, dois técnicos de som e um de luz. Ah, a Jaqueline também trabalha connosco.

 

É a sua assistente pessoal?

Sim. A Jaqueline, conheço os pais antes dela.

 

Tem um orgulho patriótico?

Da minha parte, nem vou dar nem vou vender! A parte que me toca é minha. E cada um tem sempre um bocadinho lá, um bocadinho de chão de Cabo Verde.

 

É-lhe indiferente estar em França ou em Portugal?

Sou a mesma pessoa, nunca mudei Simples, como estou aqui.

 

Conhece a Amália?

Pessoalmente não conheço, mas sou uma grande fã há muitos anos. Também gostava do Alberto Ribeiro, o Rui Veloso, Vitorino, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, também conheço.

 

Gosta especialmente do fado?

Para falar verdade, gosto de Carlos do Carmo e Amália Rodrigues.

 

Também Amália era de uma família humilde e começou a cantar nas ruas.

É como o meu caso: comecei a cantar nos bares e em todos os cantos de São Vicente. Tudo tem um começo.

 

É verdade que vai fazer uma pausa na sua carreira e pode mesmo deixar de cantar?

[Para Jaqueline] Diz lá, ao menos faz uma vezinha! [Jaqueline responde: Ela não tem planos para parar. Em Dezembro vai descansar seis ou sete meses porque os últimos anos têm sido extenuantes. Jaqueline prossegue: Vou ter que lhe pedir que avancemos para as fotos].

 

Gosta de pintar as unhas?

Sim. Gosto de azul não muito claro, de preto, de castanho, são três cores que gosto no verniz.

 

Vai à manicura?

Arranjo a mim mesma. Quando calha gosto de ir para limpar os pés e fazer as minhas mãozinhas. Quando não dá para ir, tenho lima, tesoura, até lâmina para tirar calos nos pés, e tenho acetona e algodão.

 

Canta sempre descalça?

Sempre fui uma cantora descalça.

 

Sente-se mais confortável?

Não é questão de estar confortável. Gosto, gosto de estar descalça, como sempre.

 

Em Cabo Verde, passa os dias na soleira da porta com as chaves depositadas no regaço. De onde são as chaves?

Das minhas coisas importantes. Tenho dinheiro, tenho uma jóia, vou deixar ali em cima da mesa, em qualquer sítio?

 

Quem é a pessoa de quem mais gosta?

É a minha mãe, ela já morreu. Depois, os meus filhos. Depois, irmãos: e pessoa que não seja família que me trate bem, eu trato bem também.

 

Das suas canções, tem uma de que goste mais?

«Mar Azul» e «Miss Perfumado» são duas mornas que ficam escritas na história. Foi o pontapé de saída na França. Com o pé direito.

 

 

Publicada originalmente no DNa, do Diário de Notícias, em 1999

Cesária Évora morreu em  2011 

 

 

José Tolentino Mendonça

06.12.18

Fala como quem faz poesia, fala como quem ora. Esta é uma entrevista com um homem que é um padre e um poeta. Uma dimensão não é dissociável da outra. José Tolentino Mendonça foi ordenado padre em 1990. No mesmo ano editou o primeiro livro de poemas. No princípio, estava o desejo de uma relação. No princípio, era a ilha. A Madeira e Herberto Helder. A infância. O outro que nos escuta. Fernando Pessoa tem um verso que o explica: “E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre”.

Talvez não seja preciso escrever mais do que Tolentino. O padre, o poeta que respondeu ao chamamento – é um chamamento, são duas formas de expressão. Nenhuma está primeiro do que a outra. Nasceu em 1965 na Madeira. É, como as ilhas, um homem com uma tumultuosa vida dentro de si. Por vezes fecha os olhos quando fala. Quase sempre diz coisas assombrosas. Dirige-se aos não crentes. 

José Tolentino Mendonça acabou de lançar um livro que pretende “recolocar a amizade como um problema teológico e político”, Nenhum Caminho Será Longo. E um livro de poesia que fala de Pasolini, da estação central de Nova Iorque, de um centro para as rosas, do Chelsea Hotel, de Adília Lopes. Estação Central tem na capa uma naufrágio de um barco italiano. A ideia de naufrágio acompanha toda a entrevista. E, mais forte do que isso, do que é possível edificar depois da borrasca, do mal que a todos atravessa. De foragidos que têm vidas de santos. De a blasfémia não estar tão longe assim da santidade.

Conversámos no seu gabinete na Universidade Católica de Lisboa, de que é vice-reitor, uma tarde inteira. É também o responsável nacional pela Pastoral da Cultura. Há cerca de um ano foi nomeado consultor do Pontifício Conselho para a Cultura, no Vaticano. Quando acabámos, cá fora já era noite escura.

 

Apresentou a Bento XVI um poema que tem por título “O mistério está todo na infância” (por ocasião dos 60 anos da ordenação sacerdotal do papa). Porquê?

Acredito muito na infância espiritual. Que é, no fundo, a construção de uma inocência. A inocência não é o estádio antes. Antes da vida, antes da cultura, antes das decisões fundamentais. A inocência é uma descoberta, é um caminho, é uma decisão.  

 

Tem a ver com a perplexidade, com a capacidade de espanto?

Tem a ver com a possibilidade de permanecer com o espanto a vida inteira, e com uma simplicidade que nos desarma. Evidentemente essa infância espiritual liga-se à infância biográfica. A infância interessa-me não como um território que deixei, e a que só em memória posso regressar, mas como projecto. Aquilo que Jesus diz no Evangelho: “Se não fordes como crianças, não entrareis no reino dos céus”. Penso muitas vezes no que é ser uma criança.

 

Parece uma pergunta retórica, mas não é.

Não é, não é. Um mestre do judaísmo vem falar com Jesus à noite, para não ser detectado e apontado pelos outros; uma das perguntas que faz é esta: “Como é que eu, sendo velho, posso nascer de novo?”. Em S. Paulo é muito claro quando usa a imagem do parto, do nascimento perpétuo, dizendo que: “Hoje estamos a experimentar as dores de parto”. Penso o meu presente como o lugar onde experimento as dores do parto, um nascimento que vai acontecendo.

 

A infância pode ser uma espécie de casa? Quer a infância-território biográfico, quer a infância enquanto projecto. Uma casa onde se está, onde se volta para rememorar, para edificar. Nos seus primeiros livros a noção de casa era fundamental.

A casa é o lugar do estar, do ser. Embora, quando penso numa casa, penso muitas vezes na casa de que falava o Alberto Caeiro. A casa no cimo da colina onde vê o mundo e os poemas que partem. A casa é também uma espécie de observatório. Um lugar onde comunicamos – não é um lugar onde nos isolamos. Talvez porque tenha nascido numa família numerosa, e porque ao longo da minha vida tenha vivido quase sempre em comunidades, em casas com dezenas ou centenas de pessoas, a casa é sempre uma encruzilhada de encontros e de relações.

 

Voltemos à questão inicial para desenvolver o tópico do mistério.

O Prof. João dos Santos [psicanalista] dizia que o grande segredo do homem é a sua infância.

 

Essa frase está na estátua de João dos Santos no Jardim das Amoreiras. Parece que nos interpela.

O segredo, o mistério está na infância. Que é como quem diz: está nessa dimensão silenciosa, submersa, escondida que nós trazemos.

 

É o território do que não sabemos de nós?

É a nuvem do não-saber, para usar um título de um clássico da espiritualidade cristã. É esse não-saber que se torna no saber verdadeiro. Que se torna a porta para todos os saberes. É um vazio que nos interpela. Há dimensões da nossa vida que só são silenciosas porque não nos deixamos interrogar por elas.

 

Não nos deixamos interrogar por acanhamento, com medo do que lá está?

Já diziam os padres do deserto: “Só há um único pecado: é a distracção”. Não deixamos porque nos distraímos. O problema não é o medo. A haste, quando sobe, também treme ao vento. É impossível não ter medo de viver. É impossível não ter medo desta coisa espantosa e repentina que é a vida. Viver é perigoso, dizia o João Guimarães Rosa.

Mas o desencontro nasce da distracção. Não ouvimos porque nos dispersamos. Porque perdemos o sentido do essencial, do prioritário, e construímos tanta coisa e não nos construímos a nós mesmos. Ficamos adiados. Não percebemos que somos a nossa casa. Somos a nossa estrada.

 

Andamos constantemente fora de nós próprios?

A grande tentação é viver uma vida exilada. Os exílios acabam por, à primeira vista, ser lugares de apaziguamento ou de distracção. A nossa casa também nos coloca exigências, às quais nem sempre estamos disponíveis para responder.

 

Enquanto padre tem a noção que aquilo que mais persegue as pessoas é o medo? Falam-lhe mais do medo ou da distracção?

Não sei se é do medo. Há uma coisa muito inofensiva nas confissões. Quando não se tem muito para dizer, diz-se: “Eu distraio-me na oração”. Parece uma coisa banal, para começar uma conversa. Mas se formos olhar bem é a questão fundamental. “A atenção é a oração. A oração é a atenção”, dizia a Simone Weil. A atenção é que nos faz estar naquilo que fazemos, em cada gesto, é que nos faz habitar o presente.

 

Essa atenção implica um comprometimento. Com um projecto, uma ideia, uma pessoa, nós mesmos.

Implica também uma justiça, a exactidão. Se não estou atento, não vejo. Vivo do meu preconceito. Vivo das ideias adquiridas, tantas vezes falsas. E não acolho. Não pratico uma hospitalidade real. Penso que é isso que falha. Às vezes passam dias e dias e parece que nada acontece, ou que não somos visitados por nada, e isso tem a ver com o facto de não abrirmos o coração à música da alegria que nos visita.

 

É preciso saber reconhecer essa música, e abrir-lhe a porta. No ensaio sobre a amizade Nenhum Caminho Será Longo fala do desapontamento de um homem a quem Deus prometeu visitar. Ao crepúsculo o homem chora a desilusão da promessa não cumprida. Deus responde-lhe: “Por três vezes, hoje, tentei visitar-te e todas as vezes me disseste que não”.  

Esperamos sempre Deus no máximo e esquecemo-nos que ele nos visita no mínimo. Quando os monges budistas dizem que Deus está no grão de arroz, há nisso uma grande verdade. É no pequeno, até no insignificante, no mais quotidiano, que Deus nos visita.

 

Fale-me da sua infância biográfica no que isso importa para a pessoa em quem se tornou. E aqui estou a ir ao encontro da frase do Prof. João dos Santos.

A minha infância foi uma experiência que poderia descrever como uma experiência de espaços. Nasci na Madeira. Com um ano de idade fiz uma viagem com a minha mãe, no navio Príncipe Perfeito. Fomos para Angola onde o meu pai já estava. Fui com os meus irmãos, era o mais pequeno. Do Lobito, as recordações são da amplidão do espaço. As casas eram grandes. Os espaços onde brincávamos livremente eram enormes. O meu pai, os meus tios: uma família de pescadores.

Lembro-me de uma viagem que fiz com o meu pai. Na minha cabeça ia também pescar. Dei comigo, para lá dos enjoos típicos de um iniciante pelo mar fora, na borda do barco, a olhar as paisagens. Praias que ainda não tinham sido exploradas, rochedos, o azul do mar, o fundo do mar. Eu teria sete, oito anos. Essa contemplação despertava em mim uma emoção enorme, enorme. Ficava boquiaberto. Como se aquela vida intacta, da paisagem do mundo, tivesse em mim um impacto que não sabia expressar. Mas guardava aquelas imagens, coleccionava-as dentro de mim.

 

O que o impressionou foi o mundo, a beleza, a natureza poderosa?

Não sei se era a beleza. Era o mundo em si. O mundo como lugar encantatório, uma pureza original. Lembro-me daquele pequenino mundo, tão vasto, onde, sem saber, nos estamos a construir. De uma forma quase eventual.

Depois foi a mudança para a Madeira, que teve um dramatismo mais literário do que literal.

 

É uma atribuição do adulto que recupera aquele momento?

Senti que me estava a despedir daqueles lugares. Fui com o meu cão, sozinho. Digo que foi literário porque quis chorar, abraçado ao cão, sentindo que era a última vez que estava ali. Mas não tinha lágrimas verdadeiras. Tinha uma dor. Uma dor que um miúdo de nove anos pode ter, mas não eram lágrimas. Chorei lágrimas que não tinha [sorriso]. Essa despedida, talvez encenada, marcou-me.

 

Como foi o regresso à Madeira?

Para os meus pais, para pessoas como eles, que perderam determinado enquadramento do mundo e uma estabilidade económica, foi traumático. Mas os pais conseguem sempre colocar-nos, como no filme A Vida é Bela, [noutra realidade]. Passamos pelo campo de concentração como se fosse por um jardim. As coisas, que hoje relembro e que percebo que provocaram uma ansiedade enorme nos meus pais, foram vividas como uma aventura. Uma aventura no porão de um barco, numa cidade desconhecida.

 

A partida de Angola foi, num sentido simbólico, o seu primeiro naufrágio? Na capa do livro de poesia Estação Central está a fotografia do naufrágio do barco Torquato, junto ao Funchal, no fim do século XIX.

A Madeira, como os lugares da infância, não são lugares de desencantamento. Uma pequena ilha, a terra dos meus pais, dos meus avós, em condições muito difíceis. Mas a infância não sofreu uma fractura, nem sobressaltos. Essa capacidade de transformar as dificuldades em possibilidades – no fundo, uma enorme capacidade de sobrevivência que a vida da infância tem – protegeu-me. Quando penso na infância nem por uma vez me lembro de medo, de ansiedade. Recordo o embate do espaço da ilha. Tudo era diferente. Os cheiros. A forma como as coisas estavam organizadas. As ruas. As pessoas. Um admirável mundo novo para descobrir.

 

Falou da ausência de medo. Parece mágico na infância esse impulso de liberdade, a ausência de limites.

Recebi isso dos meus pais. Mantinham uma atitude de confiança que nos ajudou muito. Mesmo na escassez, na pobreza. Olhávamos para o dia de amanhã, para o futuro, com uma enorme confiança. Hoje pergunto-me: confiança em quê?, porquê? Confiança. Confiança na vida. Eram também pessoas religiosas. Confiantes na protecção de Deus, que o tempo ia ser melhor, e ao mesmo tempo muito gratos; apesar de tudo, estávamos todos juntos, ninguém se tinha perdido pelo caminho, não tinham acontecido coisas irrecuperáveis. E isso deixava um lastro de confiança que nos fazia olhar para a vida com serenidade.

 

O seu primeiro poema foi acerca de alguma destas coisas de que estamos a falar?

O meu primeiro poema foi “A infância de Herberto Helder”.

 

Não me refiro aos poemas publicados.

Esse foi o primeiro poema. Foi no tempo em que li Photomaton & Vox, o livro que me tocou mais fundo.

 

Herberto, outro madeirense. Uma filiação importante?

Claramente importante. Na infância dos outros, na efabulação dessa vida que julgamos existir nos outros, tocamos a verdade da nossa vida. Esse poema é sobre a minha infância. Uma infância que podia ter sido a de Herberto Hélder. Também no contexto insular. A dele, a vida numa pequena cidade, o Funchal.

 

Qual é o primeiro verso do poema?

“No princípio era a ilha”. Foi ali o meu princípio biográfico e o meu princípio como poeta. Nasci ali e ali comecei a escrever. São duas marcas, duas etapas que determinam um tempo arquetípico. O meu arché [palavra grega que significa “princípio”] foi aquele lugar.

 

Que idade tinha quando descobriu Herberto?

Tinha 16 quando o comecei a ler. Foi uma grande descoberta. Foi como se pudesse ouvir a música do mundo. Sentir que todas as coisas estavam vivas. Um lado orgânico do real. E aqueles advérbios que nele dão mais do que qualquer adjectivo.

A entrada no seminário, que aconteceu muito cedo (tinha 11 anos) foi a possibilidade de entrar dentro de uma biblioteca.

 

Vamos devagar. Espere lá.

Isso era o que o Wittgenstein dizia. Quando as pessoas se encontram devem dizer uma à outra: “Avança devagar”. [riso] A vida dele é a vida de um santo. Uma vida que me comove muito.

 

Porque é que a vida de Wittgenstein o comove?

Porque é a vida de um foragido. Há nele uma fome de humanidade, de anonimato, de transformação e de silêncio que se encontra nos santos.

 

Antes de voltarmos ao seminário, e ao princípio que era a ilha, falemos de um outro foragido de que fala nos seus poemas, Pasolini.

É outro foragido, é.

 

Pasolini parece encarnar uma figura maldita. É um epíteto que vulgarmente se aplica à sua figura e obra. Mas fala dele como quem fala de um santo.

Não serei o único. A blasfémia não está tão longe da santidade como se pensa. Na tensão daquela vida há uma dádiva, uma capacidade de entrega, um desejo de verdade que só um Absoluto é capaz de saciar. “Bem aventurados os sedentos, bem aventurados os que têm fome e sede.”

Quando cheguei a Roma pela primeira vez, em 1989, no Palácios das Exposições passou uma integral do Pasolini. Gratuita. O que, para um estudante, era irresistível. Eu tinha tempo, e tinha vontade de conhecer aquele universo.

 

O que é que aprendeu com Pasolini?

Acho que o Pasolini me ensinou e me ensina isto (continuo a ler, tenho uma biblioteca que vou construindo com tudo o que sai em torno à obra dele): quando fez o Evangelho Segundo Mateus pensou muito em como relatar a experiência do sagrado. Como? O primeiro caminho que tomou, a cena do baptismo que filma em Viterbo [zona de Lácio], é um modo tradicional. Com um carácter extático, solene, hierofânico. Filmou essa cena e entrou numa grande crise criativa. Até que percebeu que o único modo de filmar o sagrado era [fazê-lo] como se filmasse o profano. Como se descrevesse a realidade. Este passo foi decisivo. O que vemos no cinema de Pasolini é que ele filma o sagrado com um óculo do profano. E filma o profano com o óculo do sagrado.

 

E desse modo aproxima-os. 

Diz que é uma coisa só. Por exemplo, Accattone é a história de um marginal que ele filma como se fosse o sacrifício de um mártir.

 

Mas Accattone, nome do protagonista, é uma figura que facilmente odiamos. Capaz de coisas abjectas, como roubar os próprios filhos. Ao mesmo tempo há um amor e compaixão que nos inspiram.

Os cristãos sabem que todos somos capazes de coisas abjectas. Detesto o moralismo. Penso que o moralismo falseia o encontro connosco próprios e com a humanidade. O que acontece aos outros acontece a cada um de nós. Dizia o cristianíssimo Dostoievski: “Somos responsáveis por tudo perante todos”. Não sinto que qualquer um de nós seja diferente de Accattone naquelas circunstâncias. Quero dizer: a experiência do mal atravessa todas as vidas. Todos precisamos de ser salvos. Daí também o naufrágio. Existe em nós a capacidade de construção, mas o remate final, aquilo que decide o que somos, só numa relação [é dado].

 

É perturbador o que diz. Porque tendemos a olhar para nós a partir de uma angular benevolente. Achamo-nos capazes dos melhores gestos, resistimos à ideia de que podemos ser Judas.

E somos tantas vezes. Somos mesquinhos, banais, egóticos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade. Gosto muito da Flannery O’Connor, que é para mim, ao lado do Pasolini, uma mestre espiritual. Ela mostra um mundo que se diria monstruoso. De assassinos em série. De gente capaz de tudo. “Esse mundo somos nós”. Até que acontece o encontro com a graça. É esse encontro que transforma a nossa vida. Penso que não se pode dividir [a humanidade] entre homens bons e homens maus. Não há rapazes maus – como dizia o Padre Américo (essa figura tutelar de um certo século XX português). Há a experiência do mal, que é comum a todos, que nos atravessa, corrói, domina em tantos momentos.

 

Falou da graça. E pergunto pelo momento anterior: o do encontro com o mal. Estamos prevenidos para o encontro?

Não estamos. Mas esse encontro com o mal que nos habita é absolutamente necessário para tomarmos consciência de nós. Senão somos uma ilusão. Lidamos connosco próprios numa idealização tal que nunca aterramos verdadeiramente na realidade. A Flannery O’Connor tem um livro de ensaios sobre literatura chamado No Território do Diabo. Digamos que a nossa vida é também no território do diabo. No território da tentação, da luta, do combate interior. O grito existencialista de S. Paulo... “Quem me livrará deste corpo de morte, que não faço o bem que quero e faço o mal que não quero?” Todos sentimos esta forma paradoxal em que a nossa existência se desenvolve. O moralismo faz-nos criar os bodes expiatórios. O filósofo René Girard diz que a nossa sociedade tem um sistema vitimário. Colocamos num bode expiatório tudo o que não queremos ver em nós próprios. Então, como os antigos judeus faziam (colocavam num bode todos os pecados e mandavam-nos para o deserto) colocamos numa pessoa só (o maldito, o criminoso) todos os males, excluímos essa pessoa; e isso dá-nos um alívio muito grande. É o sistema do beco sem saída.

 

Porque um dia o bode seremos nós?

Por um lado, isso. Por outro, é uma vida não salva, não redimida. Só quanto tocamos a fundo a nossa vulnerabilidade (e até quando a amamos) é que somos capazes de dar passos noutro sentido.

 

Voltemos a Herberto Hélder, onde estávamos no começo deste excurso. É interessante que, estando já no seminário, o seu primeiro poema tenha sido sobre um poeta. Não parecia assente na palavra divina.

Mas o verso “No princípio era a ilha” é embebido da palavra divina. Era a meditação sobre a palavra, uma ruminação, uma apropriação. Era um corpo a corpo com a palavra e com a poesia. 

 

É uma bela maneira de pôr a questão. Corpo a corpo. Com a palavra, que é uma coisa intangível. Ao mesmo tempo, sabemos que as palavras têm poder, são actos.

Foi o meu primeiro encontro poético com a palavra. Mas já antes escrevia. Foi muito importante a figura da minha avó materna, uma contadora de histórias. Ela sabia alguns romances orais de cor. Uma das coisas que me comovem muito: numa recolha recente que se fez do romanceiro oral da Madeira uma das pessoas que estão lá é a minha avó. A minha avó que não sabia ler nem escrever.

 

Comove-o porque é uma maneira de ela perdurar?

Não. Comove-me porque a minha avó foi a minha primeira biblioteca. Tive a sorte de receber a grande literatura – ela sabia um romance medieval – através da voz humana, através do embalo da minha avó. Um encantamento. Depois [esse encantamento] aconteceu na poesia do Herberto Helder. E em poéticas como a de Ruy Belo, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, o Pasolini traduzido pelo Manuel Simões. Fui encontrando um carácter – como dizer? – polifónico dentro de um mundo encantado. Era como se estivesse dentro de um instrumento musical cósmico que aquelas vozes me traziam.

Isso misturado com os cromos do futebol, com as brincadeiras, uma vida completamente normal.

 

Os romances orais que a sua avó contava: pode dizer mais disso?

Ninguém sabe, já, aqueles romances de cor. Estão num romanceiro, na minha estante. Mas nunca vou esquecer que tive a fortuna de os ter escutado. Como quem ouve uma música. A Sophia disse que o poema já estava feito, e que se nos sentássemos quietos o podíamos ouvir. Isso era verdade na minha infância. Os grandes poemas estavam feitos. Se me sentasse perto da minha avó podia ouvi-los.

 

Como é que se chamava a sua avó?

Maria. Como todas as mulheres da minha família.

 

Chama-se José como todos os homens da sua família?

É verdade. Isto quer dizer alguma coisa.

 

A sua avó era muito religiosa?

Era. De uma religiosidade muito arcaica.

 

Viu-o poeta e viu-o padre?

Viu, as duas coisas. Estava no curso de Teologia, na universidade, quando morreu. As nossas mães, as nossas avós, vêem tudo o que somos antes de sermos. Vêem o que somos mesmo que nunca o digamos. Achamos que somos opacos, mas se alguém nos olhar com atenção somos transparentes.    

 

Foi através dela que chegou até si o Cântico dos Cânticos?

Não. Ouvi o Cântico dos Cânticos, recitado por uma mulher também analfabeta, que era zeladora da igreja da paróquia onde vivia. Uma vez disse-me aquele poema e fiquei aturdido, extasiado, aquelas palavras apoderaram-se de mim. Nunca tinha ouvido nada assim fascinado. Há um antes e um depois daquele momento. De vez em quando pedia-lhe que repetisse. Ela não sabia o que era aquilo. Tinha aprendido de cor. Anos mais tarde descobri que era um texto bíblico. Estudei-o muito. Traduzi-o para português. 

O S. Tomás de Aquino dizia que, quando morresse, queria que lhe lessem o Cântico dos Cânticos, e assim aconteceu. Uma morte santa. [risos]

 

Neste livro de poemas põe a Patti Smith a explicar o Cântico dos Cânticos.

E ela explica tão bem... É outra foragida. Explica pelo desamparo, pela procura, por ser apenas uma criança.

 

Foi para o seminário com 11 anos, escreveu o primeiro poema aos 16. Quando é que percebeu que o caminho da Teologia e o da poesia eram os seus?

Penso que fui percebendo, estou a perceber. Aos 16 anos não sabia nada. Só sabia que amava o Herberto Hélder.

 

Conheceu-o?

Já me encontrei com ele. Mas não temos uma relação. Tenho a veneração que a maioria de nós tem por ele. É quanto baste.

Esse primeiro poema fala de coisas que fazia na infância. Deitar-me na terra para olhar as estrelas. Ordenar berlindes sobre a erva. Andar pelos baldios. Essa dimensão dos espaços...

 

Panteísta?

Não era panteísta, que engraçado. Era o esplendor do mundo. A infância expande os espaços. Se calhar há um sentido religioso em tudo isto, mas não o vivia assim.

 

Também se dá a coincidência de o seu primeiro livro de poesia ter sido editado no ano da sua ordenação. É mais uma coisa a firmar a indissolubilidade destes dois laços.

É verdade, 1990. Não pensei nisso assim, mas aconteceram ambas as coisas no mesmo ano. A poesia, como a vida religiosa, é uma vocação. O Rainer Maria Rilke descreve-a como um sacerdócio, como uma forma de religação. Não as sinto como duas vocações. Sinto ambas como uma única vocação. Como um caminho exigente, desafiador, apaixonado.

Eu sou muitos, como Pessoa ensina. Da multiplicidade todos somos desafiados a construir uma unidade. Mas sem dúvida que a experiência religiosa traz uma marca específica à minha experiência poética. Também a experiência poética desafia, por dentro, a experiência religiosa.

 

Explique-me melhor isso.

A experiência religiosa é uma experiência de relação, de procura. Às vezes é uma experiência fusional – sentimo-nos dentro do mistério. Outras vezes, porventura a maior parte das vezes, é uma experiência de interrogação, de deserto. Por vezes crucificante. Um permanecer apesar de. Ou contra o silêncio. Essa é a experiência da fé. E essa é também a experiência poética, de comunhão, tão profunda que parece que nos funde com a própria realidade. O mundo torna-se experiência. Ao mesmo tempo, nada é fácil para o poeta. Nada lhe é dado. Ele tem de fazer aquele caminho de pedras, de pergunta em pergunta, afinando, na dificuldade, os instrumentos da sua audição. O poema dá a ouvir o inaudível, e nisso ajuda-me na experiência religiosa. Diz, procura dizer, dá a ficção do dizer o indizível.

 

Cita Rilke no seu livro de ensaios: “Quase tudo o que acontece é inexprimível e passa-se numa região que a palavra jamais atingiu”.

É de um livro da formação da minha alma, Cartas a um Jovem Poeta. É logo na primeira carta: “Vire-se para si mesmo e perceba que o mais importante é esse corpo a corpo com o que ainda não está dito”. Mais à frente diz: “E coloque-se como se fosse o primeiro homem. A sentir, a dizer, a ver as coisas”. Há, digamos, um chamamento para a experiência. Senão, é um ornamento. O que mata a estético é o esteticismo.

 

Fez uma tese de doutoramento sobre versículos misteriosos de Lucas. O que se procura é uma decifração do que lá está e onde, apesar disso, as palavras não penetram. Estamos a falar de diferentes faces do mesmo poliedro?

A importância da decifração... Sim, isso conta um bocado de mim. Esse esforço de interpretar, essa paixão hermenêutica pelo mundo, pelo Homem, por Deus. Ao mesmo tempo, o hermeneuta, o intérprete sabe que o mundo é intraduzível. Há um lado da experiência humana que não é alcançável pelas palavras. Como aquelas paisagens que vi pela primeira vez no barco do meu pai. A vida, depois de dizermos tudo, há-de continuar a ser assim. Gosto de uma expressão do [filósofo Tzvetan] Todorov que diz que a interpretação é um naufrágio. Porque o intérprete é sempre vencido pelo texto. Acho que a nossa vida é o testemunho dessa derrota.

 

É descoroçoante lidar com essa derrota e com a evidência de o texto ser inexpugnável.

Acho que gera em nós a fome. Hoje entendo a vida como um lugar para termos a maior fome que pudermos, a maior sede de que formos capazes. A vida é uma máquina de construir desejo. Bem aventurados os que têm um desejo tão grande, tão grande, tão grande que nada pode responder. Isso faz-nos procurar outras respostas. Pessoa também diz: “Triste de quem está contente”, não é? A insatisfação é uma dor. Mas essa ferida torna-se fecunda, criativa.     

 

Esta conversa, muito poética e enredada nas questões do espírito, merece uma tradução prosaica. Uma coisa rente à vida de todos os dias. Para que não pareça simplesmente um consolo. Ouvimos as suas palavras e elas resgatam-nos. Talvez eu esteja a sentir um excessivo conforto com o que diz...

Olhe que eu estou muito desconfortável! [riso] Porquê? É sempre descer a regiões... Sou um bicho do silêncio.

 

Queria que se dirigisse para os não crentes, para os atordoados.

Dirijo-me quase sempre para esses. Não tenho um discurso para crentes. Acredito muito naquilo que Simone Weil diz: “Estão dois homens, um diz que é crente, o outro diz que é não crente. Este está mais próximo de Deus do que o crente”. O Prof. Eduardo Lourenço, há uns anos, quando lhe perguntaram o que pensava de Deus, disse: “O importante não é o que penso de Deus. É o que Deus pensa de mim. Essa é a questão. Hoje, mais do que uma crise do crer, há uma crise do pertencer. Onde é que as coisas em que acredito encontram uma comunidade, um ancoradouro? Vivemos a crise do pertencer.

 

Procuramos uma forma de pertença?

Há mais dificuldade na pertença do que na crença. Não é por acaso que hoje se fala dos crentes culturais. Portugal, culturalmente, é um país católico. O que não quer dizer que os católicos sejam a maioria da população. São uma minoria os católicos praticantes.

Sei que o que tem crescido é uma crise em relação à pertença; e uma crença que fica por esclarecer, aprofundar. Faltam interlocutores para essa crença. Esse é o grande desafio que hoje se coloca à igreja: a capacidade de dialogar com os crentes que não se reconhecem na pertença eclesial.

 

Parece ser, a esse nível, um interlocutor privilegiado. Os poeta que cita, os foragidos que traz, são frequentemente apelidados de ovelhas negras de um rebanho tresmalhado. O que é que Adília Lopes tem a ver com Deus?

Ah... A Adília tem um verso: “Deus é a mulher a dias”. Como tem o verso do Cristo osga. Usa a imagem dos bichos que estão presentes na casa e pelos quais não damos. São como os sinais religiosos. Diz que o crucifixo está na parede e que não o olhamos. Banalizamos a presença do sagrado. Ela, de uma forma irónica, e crente, é capaz de devolver-nos essa banalidade de Deus.

 

Banalidade?

Para os crentes, Deus não é um facto extraordinário. Quando Adília mistura Deus com o quotidiano mais banal do bairro da Estefânia... Não sei se há textos teológicos tão importantes como a poesia que a Adília Lopes está a escrever no Portugal contemporâneo.

 

O que diz parece estar entre o sacrilégio e a boutade. E pergunto-me se a cúpula eclesiástica não lhe cai em cima quando diz estas coisas. Ou aceitam a sua heterodoxia?

Isto não é uma heterodoxia. A Teologia tem consciência da sua miséria. Isto é, do seu carácter provisório, insuficiente. A Teologia é uma tentativa de uma palavra sobre Deus, construindo um património impressionante de sabedoria, de humanidade. Mas, em última análise, sabemos que é no silêncio, no símbolo, na metáfora, na parábola, no poema, que Deus se dá a ver melhor.

 

Os tratados de Teologia também estão cheios de parábolas. Basta ler a Bíblia.

A Bíblia é um grande poema. Tem uma dimensão literária. Isso também lhe dá uma grande carga revelatória. Torna-a um livro intemporal. A Bíblia não é um catecismo.

 

Tem agora 47 anos. As suas leituras são substancialmente novas em função do ponto do caminho em que está? Aquele que acabou o seminário, aquele que esteve em Roma a doutorar-se, aquele que passou o último ano em Nova Iorque a investigar o tema “Religião e Espaço Público”, não leu as mesmas parábolas da mesma maneira.

Hoje tenho vontade de ler coisas inactuais. Interessa-me muito a literatura cristã dos primeiros séculos. Autores como Tertuliano, Orígenes. Tem sido um alimento muito grande. Interessam-me os espirituais, os místicos, o Maître Eckhart, o João da Cruz, Teresa D’Ávila. Mas agora estou a ler tudo da Maria Gabriela Llansol. Essa visão de conjunto é o que considero uma possibilidade de leitura. Como se não me bastasse ler um fragmento. Como se precisasse de grandes sequências para colher o sentido.

 

Também as leituras que faz da Bíblia são diferentes, porque vai sendo outro. A paixão hermenêutica não se exerceu no mesmo sentido.

Completamente. A importância que hoje têm os salmos, o Livro de Job, S. Paulo... Em NY trabalhei um ano sobre a carta de S. Paulo aos romanos (que estou também a traduzir para uma nova tradução da Bíblia que se está a fazer). Esse texto, que é um dos grandes textos cristãos, um texto identitário por excelência, só nesta idade, a meio da vida, poderia perceber a sua centralidade.

 

O que é que lá está que não poderia perceber com 20 anos?

Não poderia perceber o drama humano. O drama do crente que Paulo encena no seu corpo. Não poderia entender a divisão interior que Paulo vive entre cristianismo e judaísmo. E não poderia perceber a centralidade que Paulo dá à cruz  como lugar da salvação, da construção. Para entender os mistérios cristãos é preciso uma vida adulta. Madalena era alguém que vivia um exílio muito grande de si mesma. Esteve como morta e num encontro com Jesus renasceu. Não é por acaso que Jesus apareceu primeiro a Madalena. Porque só quem esteve como morto pode entender a ressurreição.  

Cada vez preciso menos da analogia e da metáfora.

 

Significa que devemos entender literalmente a maior parte do que aqui está a ser dito?

Não acho que se deva entender literalmente a Bíblia. A Bíblia precisa de interpretação. Mas o que estamos a dizer, sim, é bastante literal.

 

Alguma vez teve um grande naufrágio após o qual ressuscitou? E começou de novo. Não me refiro aos combates íntimos, diários.

A experiência do luto é sempre um naufrágio. A morte do meu pai foi uma experiência de desamparo, de interrogação muito forte. Mas uma vez fui ao cemitério, estive lá muito tempo. Estava sentado a olhar para o túmulo, numa conversa silenciosa. E ao meu lado puseram-se dois gatos. Aquilo fez-me muito bem.

 

O que é que isso quer dizer?

Não quer dizer nada. Quer dizer a doçura da vida. Mesmo no meio do luto, os sinais do presente, a narrativa da existência, continuam. Em pequeninas medidas, quando a gente sente que a vida se vem sentar ao nosso lado, mansamente, estamos a renascer. Que o processo do luto se torna um lugar de reaprendizagem, de reenvio para a própria vida.

 

Vou fazer uma pergunta íntima (espero não ser ofensiva). Depois da morte do seu pai, alguma vez lhe ocorreu ter um filho? Sendo que isso seria um desmantelamento de uma vida e a concepção de uma outra vida.

Sinto-me pai. Sinto que exerço a paternidade. É interessante, nos primeiros anos da ordenação fazia-me impressão que as pessoas me chamassem padre. Talvez tenha sido a minha geração que viveu assim a entrada no ministério. Pedia às pessoas que me tratassem pelo nome, e continua a haver muitas pessoas que me tratam pelo nome. Mas quando me chamam padre isso não é indiferente. Quando me chamam padre associo imediatamente a pai. Sou padre há 23 anos. Essa dimensão da minha vida também se cumpriu, mesmo não tendo nenhum filho biológico.

 

Ideia recorrente no seu universo poético: qual de nós é a sombra do outro?

É verdade, é. A Simone Weil propunha que se traduzisse “No princípio era o verbo” por “No princípio era a relação”. Acho que se devia traduzir assim.

 

Etimologicamente, a palavra permite essa tradução?

Numa tradução semântica, sim. Num sentido puramente etimológico, não. Há uns brasileiros que traduzem: “No princípio era o desejo de falar”. É uma tradução semântica. Acredito nisso. Não era só a palavra. Era o desejo de que a palavra fosse um elo.

 

A fala pressupõe um outro, um que escuta.

Claro. Mesmo quando falamos sozinhos é na expectativa de que exista um outro, mesmo que imaginário, que nos escuta. 

 

“Os verbos transitivos inscrevem-se no domínio do “isso”. Mas a verdade é que o “isso” não basta: precisamos de um “tu”. O “isso” é uma coisa que possuímos. Pelo contrário, quem diz “tu” não possui coisa nenhuma, e, a bem dizer, não possui nada: permanece simplesmente em relação. E a relação é o nosso princípio”.

Acredito muito nessas palavras. A relação exige um desprendimento muito grande. Como a liberdade. Hoje estamos nos lugares, e amanhã deixamo-los. Hoje estamos aqui, e amanhã partimos de viagem. Nessa arte do desprendimento o que fica é o que demos e o que recebemos dos outros. Fica o momento, fica a ressoar. O resto é para a grande História. Acredito muito no tráfico do dom.

 

Parecem duas palavras que não se podem justapor, tráfico e dom.

[riso] Gosto muito de ambas. Tráfico é ambivalente. É o fluir (o trânsito) e é uma certa ilegalidade. O dom, por natureza, é qualquer coisa que transcende a própria lei. O dom é da ordem do amor. Claro que me interessa um mundo justo e onde, no mínimo, há justiça. O máximo é o amor, como diz S. Paulo. E é isso que não passa, não acaba.     

 

Tem no seu livro um capítulo que se chama “Amar a imperfeição”. Contrasta com a conversa que esperamos ouvir dos padres (digo assim, assumindo a carga pejorativa que isto tem), cheia de bons sentimentos e de um desejo de perfeição.

Isso também me deixa amarelo.

 

Por isso se lê com surpresa este texto no qual se faz a apologia da imperfeição.

Ou faz a apologia da realidade. Deus ama-nos como somos. Sermos nós próprios é percebermos o caminho da imperfeição. O que nos mata é essa perseguição da perfeição. Não temos de ser perfeitos. Temos de ser inteiros.

 

Fustigamo-nos quando somos imperfeitos. A culpa é uma marca, aliás, da cultura judaico-cristã.

É um entendimento errado do que é a perfeição. A verdadeira perfeição é a de quem não tem pés e não desiste de andar. Este não desistir de si é o essencial. É preciso combater esta culpa, esta moralização em torno de modelos de perfeição que são inatingíveis, e que, muitas vezes, deixam submersa a vida como ela é. Depois acabamos por viver longe de nós mesmos.

 

Onde é que aprendeu isto tudo?

[sorriso] Num grão de arroz.

 

Conhece aquele filme de Abbas Kiarostami Onde fica a Casa do meu Amigo?

Ah, é tão bonito.

 

Acontece depois de um terramoto, no Irão. Gostava de o cruzar com o título do seu ensaio sobre a amizade, Nenhum Caminho será Longo, para lhe perguntar quem é o seu amigo e onde fica a casa do seu amigo.

Às vezes penso – é uma coisa tola, pode até parecer pretensiosa, mas são aqueles pensamentos que nos ocorrem em horas ociosas: se tivesse de escolher um epitáfio, o que é que escolhia? O epitáfio ajuda a perceber o que é a vida, e não a morte. Gosto muito do epitáfio do Mallarmé: “O que é verdade não morre”. Eu escolheria um verso de Alberto Caeiro: “E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre”. É um poema sobre a vinda do Menino Jesus até à vida do poeta.

Sei que estas palavras são um mapa. Um mapa que explica a minha vida.

 

Que versos sublinharia desse longo poema?

Quando eu morrer, filhinho, pega-me tu ao colo, despe o meu ser cansado e humano e leva-me até esse dia que tu sabes qual é.

 

Qual é?

É o dia da infância. Voltamos à conversa da infância.

 

Transformou-se numa presença importante, um farol para a comunidade católica, em especial para uma geração. Quem é que desempenha este papel junto de si? Quem é que lhe pega ao colo, como no poema? Usemos a imagem da Pietà, tão poderosa e comovente.

A Adília diz que é uma obra dos outros. É uma frase extraordinária. Sinto-me assim. Sinto-me uma obra dos outros no sentido em que sou construído pela ternura, pela confiança, pela esperança dos outros. Sinto-me muito amparado pelo amizade dos outros.

Quando se distribuiu o território de Israel pelas 12 tribos, todas tiveram um bocado de terra – menos uma. A tribo dos Levitas, que estavam ligadas ao exercício do sacerdócio no templo. A herança deles não era uma terra concreta, mas o que os irmãos lhes davam. Viviam da partilha dos outros. Eu também vivo assim. É uma vida pobre? É. É uma vida riquíssima? É. [sorriso] Sou assim.  

 

 

Publicado originalmente no Público em 2012