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Anabela Mota Ribeiro

Paula Rego p/ Fátima S. Cabral

09.02.20

O que sempre me interessou vivamente como psicanalista no trabalho da Paula Rego, foi, não o desejo de a analisar ou às suas obras, mas a qualidade do seu funcionamento mental que, em determinada altura em que esteve deprimida, foi ainda mais desenvolvida pela psicoterapia que fez; diz ela que ficou “com menos medo e menos vergonha de ser ela própria. Libertava-me a imaginação. A liberdade que cria é totalmente inconsciente. As coisas que aparecem!”, exclama, referindo-se à psicoterapia.         

         Sempre me impressionou a sua facilidade em ir com ironia, com humor e, também, com horror ao mais recôndito da sua mente, aos mistérios do ser humano, aos sentimentos mais terríveis – facilidade pelo menos aparente pois, como diz, “é com muito esforço e muita coragem que chego lá”.

         Sempre me fascinou o modo como é capaz de mergulhar nas suas entranhas, encará-las, contê-las e expô-las transformadas em desenhos, recortes, bonecos, pinturas. É que, para mim, o trabalho dela representa o que é raro e, possivelmente, de génios: conseguir um funcionamento psíquico capaz de ligar o inconsciente e o consciente, a fantasia e a realidade, transformando a dor, dando nome ao inominável, dando forma ao desconhecido, sonhando, pensando, criando e expondo-se.       

         Numa das entrevistas que compõem o livro "Paula Rego por Paula Rego", de que parto para a construção deste texto, ela diz: “Interessa-me pintar aquilo que dói, que me magoa, que arranha, que não é confortável a fazer… borro tudo mal e é preciso apanhar aquilo outra vez, puxar o que desconheço e fazer daquilo uma entidade”.

         E noutra entrevista: “O que interessa é o quadro, o trabalho. Entram coisas no trabalho que nos vêm informar do que se trata o que estamos a fazer. É só fazendo que se descobre o que estamos a fazer. Sobre o que somos e mesmo fora de nós próprios. O que nós somos não tem grande importância. Há mistérios e enredos que se passam no mundo imaginário, que são muito mais interessantes do que nós”. E Anabela Mota Ribeiro, a autora do livro, pergunta: “Esses enredos também fazem parte de nós?”. “Muitas vezes não. Têm mistérios e contam histórias que não ouvimos nunca. E isso é fascinante”.

         Este trabalho – a que os psicanalistas chamam “trabalho de sonho” - é também o que a psicanálise pretende ajudar as pessoas a fazer. Falando do funcionamento mental de uma forma muito superficial e esquemática, as pessoas ou funcionem estando completamente perdidas na fantasia, não tendo em conta a realidade (em que a área psicótica da mente predomina); ou, ao contrário, estando completamente presas à “realidade” (não sonham, uma mesa é apenas uma mesa, um cão é apenas um cão, tendo pavor à metáfora, à incerteza). O trabalho na análise será então o de tentar flexibilizar, de permeabilizar essa espécie de “pele psíquica”, a que chamamos “barreira de contacto”, permitindo o trânsito entre inconsciente e consciente, a comunicação entre fantasia e realidade, a transformação, a criatividade, o sonho e a realização. O “trabalho de sonho” da análise vai permitir a reconstrução ou a optimização da área transicional da mente: um espaço de ligação/separação, de jogo, de simbolização, de criatividade, de possibilidade de dar novos sentidos e perspectivas. Ou seja, ter um funcionamento mental mais saudável.

         Paula Rego confidencia: "O quadro oferece uma liberdade total. A pessoa pode estar a fazer uma coisa pavorosa e de repente começar a gostar da pessoa que faz coisas más. Há uma atracção pelo grotesco e pela maldade. Não é só não ter medo para não virar a cara. Não. É preciso ter curiosidade”.

         Falando da fase do Pillowman, um boneco muito grande que construiu com meias e um edredon, tudo cosido, e que mais tarde descobrirá que era o pai disfarçado de boneco, diz: “É uma história terrível. Estive muito doente – uma depressão – não é a solidão a que já me habituei porque sempre a tive. É o escuro. Medo do escuro como as crianças que querem a luz acesa. Mas nós estamos sempre no escuro e os medos chegam muito perto de nós; não é medo de morrer; é medo do medo, de uma coisa indefinida. Se eu pudesse dar cara ao medo, estava bem, não havia perigo. Mas quando não se pode, é uma chatice. Os bonecos são sair, sair... Desenrolar as ligaduras e sair. Fiz muitas figuras ligadas e depois desliga-se e já se pode a pessoa mexer melhor. Oxalá, nunca se sabe...”.

         A sabedoria de Paula Rego fá-la afirmar ainda que “pintar é uma forma de contar histórias, de dar uma forma, uma ordem à vida. A natureza humana é o que está dentro de nós – zangar-se, ter raiva –, não pode sair por outro lado, então sai pelos quadros”.

         Sobre a dificuldade em começar um quadro, e chega a pedir que lhe dêem ideias, diz: “Quando a gente está a olhar para dentro é muito mais difícil, não é como desenhar à vista; e muitas vezes não se vê, nem vem nada à cabeça. Mas o que importa é o que se vai fazer a seguir. O encher-me de medo. Pode ser que saia alguma coisa brutal, interessante”. Há também, depois de começar a obra, um grande prazer no lado grotesco, cómico, sexual e nas contradições: “A beleza e o grotesco vêm do amor [...]. Há uma atracção, uma curiosidade pelo grotesco e pela maldade”. E mais à frente: “Há coisas perversas – [o quadro] "Salazar a vomitar a Pátria": não há explicação para a pena que eu tive do Salazar! A contradição está sempre presente, a compensação de sentimentos está sempre presente. O sentimento engana as pessoas permanentemente. É muito importante a pessoa ser honesta consigo própria, com o que sente. Por exemplo, detestarem a mãe ou o pai. Têm a liberdade de sentir, como compensação para a falta de liberdade que existe noutros terrenos”.

         Com a habilidade, a sensibilidade e a curiosidade contida da Anabela Mota Ribeiro, com a sua capacidade de não se impor, de dar espaço para compreender, possibilitando uma abertura mútua para a com-versa (a fala em comunhão) enquanto olhavam os quadros, Paula Rego vai-se abrindo, aparentemente repetindo o que já tinha dito. “Não tenho nada de diferente a dizer”: assim começa a última entrevista. Mas na continuidade das entrevistas nota-se uma intimidade cada vez maior, um encontro com a mudança – a idade, os temas dos quadros -, “o reencontro com coisas passadas e infantis que falam com aquela voz, com urros das crianças: os últimos que fiz vão outra vez buscar coisas aos sítios onde elas já estiveram. [...] Agora há menos sexo. É o tempo, o passado. Pintar salva-me da depressão”. E também, diria eu, o humor que Paula Rego sempre conservou e que salta como quando fala da sua própria “maluqueira”, ou da beleza dos grotescos contos tradicionais portugueses, dizendo, com uma gargalhada, que “é uma tradição um bocado masoquista a mulher cortar os seios para os dar de comer ao marido mas, pelo menos nesses contos, os pais não matam os filhos”.

         João Fernandes escreve no prefácio do livro: “Uma cadeia de simpatia e de curiosidade é gerada no leitor a partir destas entrevistas”. Cadeia essa que repete o que aconteceu ao longo das entrevistas, qual jogo de revelação-ocultação. Eu agradeço a oportunidade única de tentar perceber melhor a riqueza humana, poética e artística de um processo criativo genial, como é o da Paula Rego.

 

 

Texto de Fátima Sarsfield Cabral (psicanalista), lido na apresentação do livro "Paula Rego por Paula Rego", na Bertrand do shopping Cidade do Porto, em Novembro de 2016, e publicado semanas depois no Jornal de Letras.

 

 

 

Paula Rego p/ Manuela Correia

08.02.20

É tão difícil entrevistar como falar sobre Paula Rego. Falar sobre Paula Rego é falar da pintura de Paula Rego, que por sua vez é a vida de Paula Rego, que é a Paula Rego.

Deve-se à inteligência, sensibilidade e intuição de Anabela Mota Ribeiro, a originalidade do dispositivo para construir este livro - cinco entrevistas contínuas ao longo de oito anos, que possibilitam pouco, algum, ou muito conhecimento, e ambicionam uma Revelação. Quem é Paula Rego?

O método para alcançar este fim, foi ouvir e deixar-se conduzir pelas múltiplas vozes de Paula Rego, para chegar à Voz de Paula Rego, num jogo de ocultação e revelação. A Voz está no seu território - o mundo da infância e a infância do mundo. A Voz fala e as histórias contam-se e recontam-se ao longo de oito anos e a entrevistadora deixa-se levar, escuta, habita esse lugar primordial - o espaço doméstico e a liberdade para sentir.

É aqui que o psicodrama se joga e revela - põe e tira, magoa e cuida, mostra e esconde, mata e ressuscita, salva ou condena. Salva-se!

Paula Rego coloca no palco os mesmos temas, recorrentemente - escuro, medo, dor, destruição, violência, vingança, morte, curiosidade, confiança, coragem, ambição, poder. Transgredir para prosseguir - sexo, família, infância, velhice, homem, mulher, amor. Trabalho, trabalho, trabalho. Fazer, fazer, fazer. “Fazer uma coisa que não se consegue fazer”, na fala de Paula Rego.

A persona são figuras, bonecos pintados, cozidos, ligados; imagens e papéis cortados, recortados, colados; bichos, hortícolas e seres biformes; são riscos, traços, posições, acções congeladas no tempo, estátuas emocionais. Tudo eu posso fazer e destruir, tudo eu posso matar. Tudo menos a Angústia.

O caminho das pedras é brutal, de “uma brutalidade sem filtro”, como refere Anabela Mota Ribeiro, pois ele emerge do pensamento mágico e concreto, onde o poder é total e absoluta é a Angústia. Não há filtros, não há pensamento abstracto, não há mentalização. Está sempre escuro, dentro e fora e há sempre uma saída de emergência - um cadeirão dourado para quando está ou se sente ameaçada. Aqui, a escatologia emerge, na forma falada, de uma transgressão total, como podemos ler na página 71 do livro, quando Anabela Mota Ribeiro fala do quadro “A Filha do Polícia”, que tem uma menina com o braço enfiado na bota do pai.

AMR - A aconchegar, seria uma posição mais amorosa. Assim, com a mão lá dentro, é mais uma penetração.

PR - Ok. Há um quadro do Mapplethorpe que mostra uma fist fucking, que é uma coisa homossexual com a mão dentro do rabo. Vem daí.

Um trovão, para continuar viva, para se defender do medo de ter medo, para se proteger da Angústia. Esta é Paula Rego - o mundo mágico, das coisas concretas, tenebroso, onde não há paz. Uma fala concreta para dizer quem é. “Não há nada de diferente para dizer para além dos seus desenhos e dos seus quadros”, diz João Fernandes no prefácio ao livro. E é verdade.

Não conheço todos os determinismos, acasos e circunstâncias que levaram ao seu nascimento. Mas conheço muito bem o lugar que Paula Rego habitou depois do seu Big Bang - um lugar escuro, onde está só, abandonada, possuída por um medo físico. Uma máquina biológica que comia, dormia, desejava e também riscava. A metamorfose do corpo pré-programado para explodir e romper para fora, atravessar o buraco negro “para o mundo, um lugar também escuro mas ainda maior”, sussurra Paula Rego.

Há duas Paula Rego - a que pinta para viver e a que vive para pintar. E para viver tem que pintar e para pintar tem que estar viva. A que vive para pintar, teve uma vida relativamente fácil até às primeiras mortes e à chegada da velhice. Agora tem um obstáculo intransponível que não pode controlar.Tem medo de não ter forças para continuar, para desenhar, desenhar, pintar. Fazer, fazer, fazer. A que pinta para viver, teve sempre uma vida difícil, dolorosa, transgressiva, impetuosa. Trabalho, trabalho, muito trabalho. “No quarto escuro é onde estou. E abrir a porta para ver lá para fora? Está outro escuro. Nem pensar nisso. Desde os três anos começaram a aparecer coisas desagradáveis - o abandono. A solidão. O porco que anda com o rabo de cá para lá a mexer a cabeça”, vai contando Paula Rego.

A sabedoria para sobreviver foi sendo construída, passo a passo, através da pintura, das histórias, das metamorfoses, do mundo mágico que convoca o irracional com um sentido e um devir.

Na vida lá fora estão os objectos de Adoração e Admiração. Os adorados, os do amor incondicional - O avô José e o Vic, seu marido. Já todos morreram. Mesmo, mesmo. Os admirados, os do amor condicional - o bisavô, a avó Gertrudes, a tia, a tia-madrinha, o pai, a mãe. Morreram também, mesmo, mesmo. Só lhe resta os transitivos - a Lila e por vezes outros objectos afectivos, como alguns familiares.

O enigma Paula Rego - “Eu se tivesse de morrer, levava o Anjo comigo. Se eu morresse, morria com ele”. Se, condição de Paula Rego. O Anjo mensageiro, divino e incorpóreo que não está sujeito à dissolução. Nunca morre, é eterno. O Anjo com duas faces - vingador e protector. A espada, a esponja e a ausência de desejo animal.

“Tenho medo da morte tenho.Tenho desde pequenina, não é só de agora. Tinha medo da morte quando entrava pelo meu quarto dentro, aquela morte tradicional”

Eu não sei o que vejo quando estou a olhar para a minha imagem. Só vejo as máscaras. Não sei quem sou. Preciso de atravessar o espelho. Preciso de uma idéia para me salvar. É isso que me dá a vontade de viver, diz a Voz - o que posso fazer a seguir. “Toda a gente precisa, não sou só eu. Toda a gente precisa de encorajamento para conseguir fazer aquilo que gostava de fazer”

Paula Rego necessita hoje, mais do que nunca, de ser surpreendida, ter uma Visão, uma Aparição, de ser salva e cuidada pelo Anjo, precisa de acender a luz - já não há ninguém para o fazer. Necessita urgentemente de uma ideia, de uma outra Voz, de se ver sem máscara, não esconder os verdadeiros pensamentos e sentimentos e de olhar para a Angústia mortal. Dor, medo, muito medo. É preciso muita curiosidade, imaginação e ímpeto. É preciso superar-se. Riscar, riscar, desenhar, desenhar, desenhar. Ver-se, reconhecer-se e suspirar - voar e regressar para dentro dos porcos e coelhos, para dentro do escuro imortal.

T. S. Eliot, “Burnt Norton” - 1º Quarteto

O tempo presente e o tempo passado, estão ambos talvez no tempo futuro. E o tempo futuro contido no tempo passado. Se todo o tempo é eternamente presente todo o tempo é irredimível.

Memória, tempo, passado. Conflitos do futuro. O corpo-máquina gasto, vai um dia parar. Apoptose - morte celular. Agora enrola-se para dentro, fundo, mais e mais fundo. É preciso reconstruir, reparar, refazer, reinvestir. É preciso ter uma ideia, uma liberdade, ter um nome, um coração, uma história para contar. É preciso ter assunto. Tem que ser uma surpresa, pode ser um conto de fadas, uma aparição, uma visão, uma revelação. “É importante ter uma história, pois a parte final é suspiro”, diz Paula Rego. Este quadro ainda está por fazer. Riscar, desenhar, magoar. Ter esperança, ímpeto e continuar sem paz. Quando não pintar a Voz acaba e a vida também. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Agora espera o seu último milagre. A linha invisível de tensão no céu azul, que vai do seu rosto ao do Anjo. A bela e brutal catarse da tragédia da condição humana.

 

PINTO LOGO EXISTO - O MILAGRE PAULA REGO, de Manuela Correia (psiquiatra), foi lido na apresentação de "Paula Rego por Paula Rego", na Casa das Histórias, em Novembro de 2016, e publicado semanas mais tarde na revista digital Blimunda, da Fundação Saramago.