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Anabela Mota Ribeiro

Berlim, cidade dos anjos

27.04.20

Começo por Potsdamer Platz. É um aglomerado de edifícios cuja arquitectura fere por ser tão exuberante. Não há vestígios do tempo (recente) em que esta era uma terra de ninguém. Nem do outro, mais longínquo, em que era uma das praças mais animadas da Europa, com os primeiros semáforos, automóveis e eléctricos. No cruzamento de linhas há hoje um pedaço do Muro, com inscrições nas duas faces – uma referência que serve a curiosidade dos turistas que querem saber onde acabava a Berlim Ocidental e começava a Oriental. Ver o muro de um lado e do outro, circundá-lo, parece o mais simples dos caminhos; e contudo, é o resumo de uma impossibilidade que se desfez.

Quando Wim Wenders filmou «As Asas do Desejo», o mundo terminava no Muro. Em 1987, dois anos antes do desmoronamento de um tempo, o realizador não podia prever a reunificação das duas Alemanhas e, sobretudo, que a topografia que o filme registava estava na iminência de desaparecer. Uma das cenas mais tocantes do filme é, justamente, quando um velho, narrador da História, vagueia por um imenso descampado, onde não existe nada, senão a sua memória do que ali se passava. Ele procura: «Não consigo encontrar a Potsdamer Platz, isto não pode ser Postdamer Platz». “Isto” é a terra devastada que percorre, ao mesmo tempo que lembra que ali, no centro fervilhante da Potsdamer Platz, ficava o Café Josty, onde à tarde se conversava e observava o público, e se fumava o tabaco comprado numa tabacaria de renome. «Não desisto enquanto não encontrar Potsdamer Platz».

Chego à Potsdamer Platz à hora de almoço. Talvez seja excessivo dizer que me parece um olho de vidro incrustado num lugar onde antes se via de verdade. Mas a Potsdamer é mesmo uma cidade de vidro que tem no centro o complexo Sony (a sede europeia é aqui), do outro lado da rua o edifício DaimlerChrysler, um centro comercial, um casino, a maior sala de espectáculos de Berlim, 17 salas de cinema e uma escultura de Jeff Koons dedicada a Marlene Dietrich (é uma flor azul fosforecente, como ela foi no cinema). O investimento que reconverteu a praça foi de 17 mil milhões de euros. Em nenhum outro lado se construiu tanto nos anos 90. Porque é que nada disto me espanta?

À hora do almoço, a Potsdamer está razoavelmente vazia. O Café Josty – outra incrustação, desta vez no interior na Praça Sony – tem uma esplanada pindérica e uma família a comemorar o facto de estar na esplanada do Café Josty, onde à tarde se conversava e fumava tabaco de renome.

Prefiro o café que fica no rés do chão do museu do cinema e que se chama Billy Wilder. A amostra não podia ser melhor: fotografias pelas paredes imortalizavam Charles Laughton e Marlene em «Testemunha de Acusação», Audrey Hepburn em «Sabrina», Shirley MacLaine, de meias verdes, em «Irma la Douce». Havia até um cocktail chamado «Sunset Boulevard». Mas a menina que me atendeu não tinha ideia sobre quem era Billy Wilder. Virei as costas ao “Willkommen, willkommen” da Potsdamer Platz e segui para o Monumento ao Holocausto, muito perto dali.

 

Se à época existisse, Wim Wenders teria escolhido este espaço para o encontro e desencontro de pessoas de carne e osso. É um labirinto ondulante, composto por 2700 blocos de pedra, que assinalou os 60 anos do fim da Guerra. Não há neles qualquer referência aos milhões de judeus que morreram naqueles anos – vozes discordantes criticam o facto de ser um memorial demasiado abstracto... Nem há nesta sequência uma ideia de pedras tumulares. O arquictecto americano que o criou gosta de pensar nele como espaço intregrante da vida dos berlinenses. Peter Eisenman preferia que fosse usado para encurtar caminho, por exemplo, mais do que “uma experiência sagrada”.

A minha primeira experiência foi arrepiante. Era quase escuro quando mergulhei no labirinto. À superfície vê-se uma sucessão de pedras desiguais, mas não se percebe que há um afundamento a seguir. Não se percebe que se cai no abismo (no horror de que somos capazes?). Podemos seguir o caminho que quisermos e fazêmo-lo com segurança, porque não temos dúvida de encontrar a saída, de nos salvarmos a qualquer instante. O que tornou a minha passagem sagrada foi o som de um violino que distingui ao fundo, e que me fez procurar por entre as pedras o ponto exacto de onde ele vinha. Era um som tristíssimo, que chamava e contagiava. Quando o encontrei, vi um jovem, parado, com uma criança que teria dois anos nas suas costas. A criança olhava para o céu de chumbo e o som era cada vez mais pungente. A perfeição daquele momento levou-me novamente ao filme de Wenders, à perseguição da inocência. Quase estraguei tudo quando lhe perguntei se o podia gratificar. Mas ele era apenas um rapaz americano, judeu, que prestava tributo à sua gente, e que, findo o prazer da música, enfiou o violino na caixa e partiu.

No dia seguinte, dia claro, voltei a mergulhar no Memorial. Devia escrever “atravessar” em vez de “mergulhar”, porque usei-o como atalho para chegar ao outro lado da praça.

Esta experiência, (corriqueira, mas sensorial), estaria vedada aos anjos de «As Asas do Desejo». Recupero um diálogo maravilhoso entre Damiel e Cassiel num descapotável que está para venda. «Mas às vezes farto-me desta existência de espírito. Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à terra. Sentir o agora, jogar cartas, ser cumprimentado, nem que fosse com um aceno, chegar a casa cansado, ter febre, ficar com os dedos sujos de ler o jornal. Supor em vez de saber sempre tudo. Comer borrego assado e beber vinho, sentir os pés descalços. Poder dizer “ah, oh”». Estes anjos querem experimentar o espanto, provar o sabor do café quente, sentir o vento frio na cara.

 

Há vinte anos, o realizador alemão Wim Wenders vestiu os seus anjos de sobretudo e pôs-lhes o olhar nostálgico de quem perde o caminho e se quer achar. A Berlim que então filmou já quase não existe. Persistem os fragmentos da vida de todos os dias: a discussão conjugal, a família árabe com crianças no banco de trás, aquele que no metro se preocupa com questões prosaicas, “Como vou pagar, com a pensão pequena que tenho...?”, aquele que se ocupa de questões existenciais, “Porque estou vivo?”. Ou aquele que se esvai em sangue, depois de um acidente, e enumera o que deixa por fazer ou aquilo por que vale a pena viver: “O cruzeiro do sul, Stromboli, as casas antigas de Charlottenburg, Albert Camus, a luz da manhã, nadar na cascata, os olhos da criança, o saltitar, os nervos das folhas, o ondular da erva, a paz do domingo, andar de bicicleta sem mãos, a bela desconhecida, o meu pai, a minha mãe...». Há uma parte de «As Asas do Desejo» que ficará para sempre, por mais que a cidade seja reconfigurada. Aquela que diz respeito à procura, à densidade que é própria do humano.

Todo o filme se passa na Berlim ocidental, erguida sobre os escombros da Guerra. Todos estamos ainda incrédulos_ como foi possível? A banalidade do mal doi. Se o povo alemão não fosse tão perseverante, tão organizado e tão rico não seria possível reconstruir a cidade em 60 anos, e agora, depois da queda do Muro, em 18 anos. Há nos mercados de rua vestígios dessa passagem do tempo e da abertura ao leste: candeeiros da Bauhaus a 70 euros, casacos de vison a 900 euros, mobiliário “vintage” em óptimo estado, talheres em prata, mapas antigos, medalhas e distinções militares (abundantes). Pergunto pelas obras de Marx e Engels e o alfarrabista diz que desapareceram. Deitaram-nas fora! Deixaram de as querer, de as procurar, de qualquer associação com esse tempo e o que isso produziu.

 

Não é só pelo desconhecido que a parte leste é a mais extraordinária de Berlim. Lá se conserva um tempo, austero, apesar de todos os sintomas da mudança. São muito visíveis os buracos das balas, as fachadas reconstruídas. Vem à memória a imagem do filme de Wenders quando uma mulher sacode o edredon na casa esventrada...Em Berlim, as pedras têm vida. Também há no lado ocidental avenidas praticamente refeitas. O tamanho da destruição percebe-se em coisas tão simples quanto: em dez casas, oito foram feitas de novo. E há a catedral a que os berlinenses chamam “dente furado”, a Kaiser-Wilhem, bombardeada em 43 e mantida tal qual. Mas na Berlim Oriental o tempo fechou-se sobre si e o mundo fechou-se em torno da ideia soviética de mundo.

Hoje, a zona oriental está transformada num centro nevrálgico, onde se instalam cadeias internacionais e artistas. É um novo mundo do qual se tem vontade de fazer parte. A par de Londres e Nova Iorque, Berlim é um ponto essencial no panorama da arte contemporânea. Noé Sendas, Filipa César, Rui Calçada Bastos, Nuno Cera, Gabriela Albergaria ou Adriana Molder são alguns dos portugueses que vivem em Berlim. Há um claro investimento do governo alemão na revitalização de Berlim como centro cultural europeu. E o custo de vida, ajuda. Um apartamento no centro de Berlim Oriental, com um quarto e uma sala custa cerca de 500 euros. Já não há existem os cabarés dos longínquos anos 20, cheios de fumo e luz difusa, embora tenha reaberto um dos mais famosos, com meninas vestidas a la Josephine Baker, para turista ver. Mas há o PergamonMuseum, com o colossal altar da cidade grega de Pérgamo, e as portas da antiga cidade de Babilónia – só para mencionar os “highlights”. Também há, num outro museu, o busto de Nefertiti, de uma elegância e beleza raras, que por si só justifica uma visita a Berlim. 

 

Passeio na Unter den Linden. Marlene cantou «Enquanto as tílias continuarem a florir na Unter den Linden, Berlim será sempre Berlim». A avenida, com tílias no corredor central, conduz à Porta de Brandemburgo – zona de fronteira onde a multidão celebrou a queda do Muro. Do outro lado, o Reichstag, (sede do Parlamento), é talvez o edifício mais visitado de Berlim. A renovação da cúpula, obra caleidoscópica de Norman Foster, atrai milhares de visitantes que esperam estoicamente, mesmo em dias de chuva miudinha, para subir uma rampa espelhada e ver uma boa parte de Berlim.

De um lado e do outro da Linden, há museus onde apetece passar o dia, a ópera nacional, jogadores de vermelhinha, vendedores ambulantes de gorros de pelo, bicicletas e bancas de salsichas.

A Linden está para a Berlim Oriental como a Kurfürstendamm está para a Berlim Ocidental: amplas avenidas, modelo glamoroso importado de Paris, intensa vida comercial e empresarial. Peço ao taxista que me deixe na Walter Benjamin Platz – a obra do filósofo alemão foi uma das influências de Wenders na criação d’ «As Asas do Desejo» -, e é aí que começo a andar pela Ku’damm.

Termino com um dos mais belos espaços da cidade, infelizmente vedado aos não-sócios: a biblioteca estatal de Berlim (Staatsbibliothek), um projecto de Scharoun que dialoga com a Philarmonie, do outro lado do passeio. (Deixaram-me entrar quando me apresentei como jornalista e expliquei estar a refazer o circuito do filme). São edifícios de cortar a respiração, integrados no Kulturforum, um complexo que inclui, também, museus como a Gemäldegalerie (colecção soberba, com Ticiano, Vermeer, Caravaggio...) ou a Neue Nationalgalerie, desenhada por Mies van der Rohe.

No filme de Wenders, uma longa sequência dá a conhecer esta biblioteca. Tenho alguma dificuldade em descrevê-la... Talvez me aproxime se disser que o espaço me pareceu, como n’“As asas...”, metáfora do tempo babélico que vivemos, de palavras cujo significado mais íntimo se esqueceu ou não se chega a compreender. E, ao mesmo tempo, da potencialidade absoluta contida nas palavras, da memória como núcleo da identidade, repartida por mil pessoas e mil livros.

Os diferentes espaços da biblioteca estavam ocupados por sócios. Depreendi que fossem, em grande parte, alunos de doutoramento, que anotavam, escreviam no portátil, “scannavam”, fotocopiavam. No filme, há 20 anos, ainda não se usavam os computadores, e todos estão recolhidos na leitura, no pensamento. Por entre os leitores, reconhecemos os anjos, que velam por eles. E no andar de cima, como eu previra, a partir do filme, estão os globos onde o narrador da História procura quem o queira ouvir. Li algures que o seu nome é Homero. Invoca a Musa, esclarece que os seus ouvintes são agora leitores. Era ele que ao princípio procurava Potsdamer Platz.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2006

 

 

Sicília (c/ livro de Goethe)

27.04.20

Numa segunda feira de manhã, a primeira de Abril, Goethe estava em frente a Palermo. Tinha deixado Weimar havia muito e a sua viagem a Itália aproximava-se do fim. Era outro homem, este que chegava à Sicília, de tal modo que não foi reconhecido por um cavaleiro de Malta que lhe perguntou pelo jovem impulsivo, cujo nome não recordava, mas que era o autor do Werther... Goethe respondeu-lhe: «A pessoa por quem tendes a amabilidade de vos interessar sou eu próprio!». Muita coisa deve ter mudado, espantou-se o outro... «Certamente. Entre Weimar e Palermo passei por grandes mudanças».

Dois anos antes da Revolução Francesa, animado por um interesse enciclopédico, o génio alemão percorria a Itália. «A viagem pode comparar-se a uma maçã madura que cai da árvore: a queda da árvore significa, como esta viagem, uma libertação e o início de novo ciclo». Eu vivia com uma frase de Goethe, transformada em linha condutora da minha vida: «O alvo da viagem é viajar». Mas nos dois últimos anos propus-me visitar a Itália seguindo as suas anotações e cartografia. Talvez procurasse, como ele, esse instante arrebatador em que nos dissolvemos para nos voltarmos a achar.  

Cheguei a Palermo num sábado de manhã, vinda de Paris onde estava há mais de uma semana. Só percebi que o facto era relevante quando regressei a Paris e tudo me pareceu subitamente civilizado e limpo. Provavelmente o efeito não seria tão espectacular se voasse de Lisboa. Estava um calor de Agosto; absurdo, quero dizer. Que se entranha imediatamente no corpo e constitui um cheiro de que ficamos impregnados. Era um cheiro a suor, a vida vivida, a Verão, que persistiu dia após dia.

A cidade que se anunciava aos pés dos montes escarpados, despertou em mim o mesmo sentimento que Nápoles, um ano atrás, e que Goethe descrevia desta maneira: «Quando quero escrever palavras só me vêm imagens aos olhos. (...), e faltam-me os orgãos próprios para dar expressão a tudo isto».

Há um feitiço que nos faz aderir instantaneamente a esta terra. Suja, pobre, sanguínea. Talvez seja a síntese improvável de culturas (grega, romana, bizantina, sarracena, normanda, espanhola); o magnetismo da terra  imortalizada pelo cinema_ sentimos que fazemos parte de um filme de Visconti, que somos colegas de trapaça de Totó, que era napolitano, mas que encaixa no estereótipo siciliano. Talvez sejam as pessoas; a sua pele curtida pelo sol, a camiseta esburacada, o vinco das calças, o nariz adunco, a brilhantina que puxa o cabelo. O meu personagem favorito, antecipo desde já, é aquele que me recebe num modestíssimo hotel, em Messina, lá mais para o fim da semana: cabelo armado num balão de algodão doce, anel no mindinho e no anelar, casaca cinzenta debruada a ouro, botões redondos, a reluzir. Um aprumo de outros tempos. A surpresa foi imensa quando lhe vi a boca esburacada, os lábios presos por um dente em cima, um dente em baixo. Fellini tê-lo-ia aproveitado, e aos neons que, por trás, anunciavam o nome do hotel.

Na chegada à Sicília, Goethe sublinha a “fertilidade luxuriante”, enternece-se com “a pureza dos contornos”, “a harmonia do céu, do mar e da terra”, elege o “Monte Pellegrino como a mais bela das pequenas montanhas do mundo”. Deixara Nápoles havia poucos dias e escapara dos suplícios do enjoo, (e, já agora, de uma tempestade que quase deitava tudo a perder), no interior do navio. Daí a dias, recuperei a passagem em que ele falava de ter curado o enjoo com pão e vinho, imobilizado numa posição horizontal. Eu estava em Vulcano, entre barcos, e o vinho Malvasia, um vinho licoroso originário da ilha de Salina, combinava com brioches e o pôr do sol. Era uma perfeição de cartão postal, celebrada com vinho da casa.

Goethe teria gostado de Vulcano, e sobretudo de Stromboli, a mais distante das ilhas Eólicas. Da sua aspereza vulcânica, das casas brancas e pequenas, dos sardões que se escapam das pedras quentes e atravessam o caminho. Mas acredito que Stromboli lhe interessasse pouco, mesmo sendo um geólogo apaixonado. A resposta é simples: depois de visitar o “monte ígneo” que é o Etna, que figura na Odisseia como uma coluna que segura o céu, qualquer vulcão se assemelha a um vulcãozinho.

Se é certo que Goethe não conhecia Stromboli filmado por Rossellini, os percursos íngremes, as ruas “íngrides”, eu não podia recusar sentar-me na soleira da porta da casa em que viveram. «In questa casa...», atesta uma placa de mármore, em letra de namorados. Ingrid Bergman e Roberto Rossellini viveram ali na Primavera de 49, durante a rodagem do filme. Doravante, sempre que vir a Bergman no cinema, pensarei no dia em que tomei pequeno almoço num café com vista para o mar, porque ele se chamava «Ritrovo Ingrid».

Conto sumariamente a história a Mauro, ou Marco, o estudante de geologia que me mostra as diferentes camadas de lava do Etna, explica porque o rio de lava é tão preciso e não transborda (porque as extremidades arrefecem rapidamente, e desse modo fazem uma barreira que impede que a torrente de fogo extravase), faz-me percorrer o rebordo de diferentes crateras. Mauro, ou Marco, nunca viu o filme em que Ingrid sente a terra a tremer, mas sabe da viagem a Itália de Goethe e interessa-lhe saber porque é que o alemão considerava esta “a rainha das ilhas”. É um siciliano orgulhoso. Tento recordar a definição precisa, mas não a encontro. Poderia ter respondido isto: «Quanto a Homero, foi como se me caísse uma venda dos olhos. As descrições parecem-nos poéticas e afinal são extremamente naturais, embora criadas com uma pureza e uma autenticidade que nos assusta». Goethe diz também que com a Sicília a Odisseia tornou-se para ele palavra viva.

Esta impressão persiste, passados mais de 250 anos. É um pouco infantil, mas senti uma aceleração no peito quando vi uma placa a apontar para a Riviera dos Ciclopes, e idealizei a cena: criaturas medonhas empurrando pedras para impedir que Ulisses aportasse naquela encosta. (Li algures que os ciclopes dormiam dentro das bocas do Etna...). Foi uma emoção perceber a correspondência entre as palavras milenares de Homero e aquilo que se desenrolava ante os meus olhos. E imaginar Goethe a subir de mula, e a sentar-se para, em segurança,  poder ver toda a área. «O vento soprava de leste, varrendo toda a esplêndida região que se estendia a meus pés, até ao mar. Vi a olho nu toda a costa, de Messina a Siracusa, com as suas reentrâncias e baías». Hoje não se vê senão Catânia, rente ao mar e aos pés do vulcão, e em dias claros avista-se Taormina. Mas Siracusa, a 60 km a sul de Catânia, e Messina, sensivelmente à mesma distância, a norte, já não se alcançam.

A autora do guia Lonely Planet aconselha a organizar a viagem em torno de uma ideia. Conselho avisado. É tão extraordinária a oferta que é fácil dispersarmo-nos ou repetir percursos óbvios. Goethe abordou a Sicília com a mesma paixão com que percorreu toda a Itália. João Barrento, autor da tradução que sigo, condensou do seguinte modo os princípios que orientam o escritor alemão: «a abertura dos sentidos (do olhar em especial), a distância integradora (daí o hábito de subir às torres) e o diálogo com as coisas (particularmente a natureza, o que explica o lugar dominante da observação de fenómenos geológicos, mineralógicos e botânicos). (...) Por outro lado, o presente é a grande via de acesso e o ponto de chegada para toda a reflexão sobre a arte, a história e a natureza».

No essencial, refiz os passos de Goethe: Palermo, Catânia, Taormina, Messina. Sacrifiquei Agrigento e o vale dos Templos, de que Goethe falou com máximo prazer. «As uvas de mesa crescem em latadas apoiadas em pilares altos. Em Março plantam as melancias, que estão maduras em Junho. Crescem por todo o lado nas ruínas do Templo de Júpiter, sem ponta de humidade». Posso dizer que não quis decepcionar-me, que não cri que fosse possível encontrar um cenário igual... Melancias a crescer no Templo de Júpiter? Mas a verdade é que tenho ainda fresco o desconforto de ter visitado Pompeia a torrar ao sol, e não me apetecia engrossar as filas de visitantes que admiram o vale, o vale, o imperdível vale... Por último, o Toni insistiu comigo: que encurtasse caminho e não perdesse Siracusa.

O Toni, segundo a mãe, minha senhoria em Palermo, é arquitecto e trabalha na câmara: é político. Será vereador? Toni combina uns calções justos com uns ténis da Prada, usa um brinco na orelha e uma barbicha que cofia enquanto faz uns ares de sedutor. Um cromo de qualquer caderneta siciliana. Por acaso não fala uma palavra de inglês, e comunica através da mãe, que fala francês por ter trabalhado na Bélgica, a fazer bolinhas de açúcar para bolos de aniversário. Desdenha de Taormina, (como é possível?, Toooni?), põe as mãos no fogo por Siracusa (faz bem; Goethe não visitou a cidade, que Cícero dizia rivalizar com Atenas: afiançavam-lhe que perdera a sua glória e interesse. Foi uma pena não ter ido).

A conversa passa-se ao pequeno almoço, entre os ovos e o mangericão. Uma coisa muito fina, isto de comer ovos ao pequeno almoço. O bom siciliano come uma granita de café, com panna, e brioche. A granita come-se, aliás, o dia todo. Gelo moído, com o sumo e a polpa de limão, ou framboesa, ou café. No topo, uma camada de natas. O brioche, mergulha no copo e rapa o fundo. É um pão molhado em pouco mais que gelo, sim. Também há quem meta no pão uma bola de gelado! Mas isto são invenções de tempos abonados.

Quando o escritor alemão visitou a ilha, o que encontrava em abundância era aquilo que a terra dava. «Os frutos e legumes são deliciosos, em especial a alface, tenra e saborosa como um leite; entende-se a razão por que os Antigos lhe chamaram lactuca. O azeite, o vinho, é tudo muito bom, e poderia ser muito melhor se se desse mais atenção ao modo de preparar os alimentos. Os peixes são dos melhores, muito delicados.  Tivemos também boa carne de vaca, ainda que as pessoas a não apreciem muito».

Abundam as descrições sobre os campos e o modo como são semeados. Goethe chega mesmo a desconsiderar «o desastrado do guia» que lhe «estragava com a sua erudição» o prazer do que se via no vale, «sempre a contar como Aníbal travou aqui uma batalha». Mais adiante, fala da surpresa do outro, que não contava que um homem das letras pudesse desprezar a memória clássica. Talvez não seja tão surpreendente: se é verdade que atravessa o livro a ideia de reconstituir momentos clássicos através das ruínas, é mais forte a ideia de que a viagem convoca um renascimento interior.

Ocorre-me novamente a noção de viagem como sinónimo de descoberta no teatro grego de Taormina. Num gesto excessivo, procuro a vibração das pedras no contacto com os pés, recupero pedaços de tragédias que ali foram representadas, escrevo postais em diferentes pontos do anfiteatro, meço a imponência do Etna. É mesmo a «mais incrível obra da natureza e da arte». No palco preparavam uma versão de “Il Gattopardo”, a obra de Lampedusa que Visconti adaptou ao cinema. É uma obra sobre o fim de um tempo, que concentra, como a Sicília, a decadência e o desejo num mesmo plano. A explosão da vida e a inevitabilidade da morte. Arrisco que tenha sido essa pulsão, presente em cada instante, que tenha feito desta viagem um lugar de descoberta e reconhecimento para mim. Como para Goethe: «Sempre pensei que ia aprender aqui muita coisa; mas que teria de recuar tanto, que teria de desaprender e reaprender tanta coisa, isso nunca pensei». Pode ser que Goethe tenha procurado o caminho para casa. Como Ulisses, o mais mítico dos heróis. Como cada um de nós, errantes.

Não tenho uma única fotografia destes dias maravilhosos_ não tenho, sequer, máquina fotográfica. Não sinto necessidade de registar em imagens isto que (incompletamente) traduzo em palavras. Goethe fazia-se acompanhar por amigos que ilustravam aquilo que via. Foram vários, em diferentes pontos da viagem; por alturas da Sicília, Kniep era aquele que fixava a paisagem. O facto de nunca ter procurado esses desenhos (se existem, e onde?) não é senão revelador do seguinte: já me basta o tesouro da descrição de Goethe e de sentir, como ele, que uma viagem pode interpelar a nossa vida. O que isso convoca dentro de nós, não tem imagem precisa.

 

 

Onde ficar

 

Grand Hotel e des Palmes, Palermo

Via Roma, 398; booking-despalmes@amthotels.it

Quartos sumptuosos, lustres admiráveis, escadaria de mármores. Um cenário de filmes que foi palco de intrigas e negócios. Acolheu a elite que chegava à Sicília. Um cinco estrelas ideal, nem que seja para ler umas páginas num canto do bar. O mais certo é ter vizinhos ingleses. Entre 100 e 200 euros.

 

Bed and Breakfast, Sicília

São cada vez mais populares em toda a ilha. Existem às dezenas em todas as cidades e disponibilizam fotografias na net. A decoração é quase sempre kitsh e duvidosa. Mas em época alta um quarto custa em média 50 euros por noite, o mesmo que um hotel de duas ou três estrelas. Como o nome indica, oferece cama e casa de banho. Muitos facilitam, ainda, o acesso à cozinha.  

 

Onde comer

 

Trattoria la Foglia, Siracusa

Via Capodieci 21; www.lafoglia.it

É um restaurante que lembra os almoços de domingo em casa da avó. As duas salas têm naperons a fazer de toalhas de mesa, fotografias da família proprietária e louça que parece comprada na rua, em feiras de antiguidades. A cozinha, evidentemente, é boa _ é impossível comer mal na Sicília. O pão é feito na casa e o peixe é muito fresco. O espada é por excelência o peixe da região. Cerca de 30 euros.

 

Antica Focacceria di San Francesco, Palermo

Piazza San Francesco d' Assisi, telefone 091 32 02 64

Um clássico da cidade cuja história remonta à Idade Média: era o restaurante onde se encontravam viandantes, peregrinos, gente humilde. Pão com rim fatiado é a principal atracção. Mas também pão com gelado. A esplanada cresce na Piazza São Francisco de Assis. Sugere-se um esparguete com pesto de pistachio, (molho muito popular na Sicília). Cerca de 25 euros.

 

Como ir

 

A Tap e a Ali Itália voam para a Sicília. A maior parte dos voos têm escala. A ilha tem dois aeroportos: o de Palermo é o principal, o de Catânia fica na costa leste. O comboio é ainda o de linha estreita. O que quer dizer que 200 km pela costa (entre Messina e Palermo) demoram mais de três horas e meia a percorrer, em cima de malas e com passageiros pelos corredores. O autocarro é o mais usado. Barato, constante, com o senão de quase sempre parar em todas as pequenas localidades (60 kms podem representar uma hora e um quarto). Táxi a preços proibitivos.  

 

Quando ir

 

Os meses mais temperados são os mais indicados_ entre Abril e Junho e Setembro e Outubro. Mas mesmo em Agosto, sob um calor abrasador, milhares de turistas e a inevitável inflação de preços, a Sicília é um destino extraordinário.

   

 

Publicado originalmente na revista NS do Diário de Notícias em 2006

 

 

 

Itália low-cost (Veneza, Florença e Bolonha)

26.04.20

A experiência de visitar Veneza tem qualquer coisa de A Rosa Púrpura do Cairo. Há um cenário de beleza idílica, com a espessura de um cartão-postal, e de repente ele ganha forma, profundidade, temperatura, e nós cabemos nele. No filme de Woody Allen, o impossível também acontece: Cecilia, a empregada de mesa que se refugia nos filmes da vida atroz que leva com o marido, recebe, do lado de cá do ecrã – do lado da vida –, o seu herói do cinema, qual príncipe sem cavalo branco, que a resgata para o plano da felicidade. Ela recebe-o como quem recebe um presente. E nós entramos em Veneza como quem entra num sonho.  

Entre este parágrafo e o filme de Woody Allen deve estar uma frase de Goethe: “Veneza deixa de ser para mim mais uma palavra apenas”, escrita quando o poeta alemão chegou a Veneza em Setembro de 1786. Depois de ter sublinhado esta frase, e de ter anotado “30 Agosto de 2013; a quarta vez em Veneza, creio”, pensei que “uma frase apenas” é uma folha de papel. Lisa, em branco, anódina. O que muda tudo é a vida que fica inscrita na folha, na frase, que salta do ecrã e nos leva para o paraíso da infância. Só aí é que acontecem as coisas fantásticas que acontecem nos filmes e em Veneza – como ver uma mulher com um ramo de flores no vaporetto e perceber que vai visitar um ente querido ao cemitério de San Michele, pequena ilha em frente a San Marco. Visitar um ente querido de barco?, um cemitério numa ilha?

O encanto de Veneza talvez esteja em transportar-nos para esse território onde tudo é possível. A cidade, ela mesma, parece impossível (perguntamo-nos: Veneza existe, deveras?). No filme de Woody Allen, Cecilia acaba mais ou menos como começou: a apanhar do marido, a ouvir do chefe, fascinada pelo cinema. Mas enquanto dura o mistério, enquanto, de facto, o herói a leva a jantar (não importa que o dinheiro que usa para pagar a conta seja falso), nada mais é preciso.

Era, portanto, a quarta vez que eu estava em Veneza, e estava fascinada como se fosse a primeira. De certa maneira, é sempre a primeira vez que se vai a Veneza por causa deste carácter exorbitante da cidade.

Um parêntesis para contar a minha efectiva primeira vez em Veneza: aterrei no dia 24 de Dezembro, frio de neve, cidade deserta. Percebi mais tarde que os dias 24 e 25 de Dezembro são os únicos dias do ano em que a cidade está vazia. Os enxames de turistas começam a chegar no dia 26. E como a população de Veneza se fica pelas 58 mil pessoas, eram pouquíssimos os que se encontravam no labirinto de ruas, atarefados a resolver compras de última hora. Diziam uns aos outros, como uma senha: auguri! Eram pessoas com um ar burguês (quem mais tem dinheiro para ter casa em Veneza?), ligeiramente envelhecido ou completamente envelhecido. Devem ter encontrado um modo de coabitar com os 13 milhões de turistas que invadem Veneza todos os anos. Pouco mais de um milhão por mês.

Nesse 24 de Dezembro a cidade estava silenciosa como nunca mais a encontrei. A acústica (tão particular em Veneza, por causa dos canais) permitia ouvir passos distantes, o rumor das águas, o deslizar de duas gôndolas. Comprei no mercado de Rialto iguarias para a ceia de Natal. Mais prosecco e panetone.

No dia de Natal havia o silêncio das manhãs de Natal (das casas onde não há crianças). Um silêncio que se prolonga pelo dia, quando as pessoas ficam mergulhadas no torpor que sucede aos grandes encontros. Foi no dia de Natal que percorri as ruas estreitas, transpus centenas de pontes, resisti à chuva de neve. Lembro-me de ter encontrado um café, um dos únicos abertos, e de ter tomado um expresso. Muito torrado e curto. Uma italiana é um café muito curto, não é? Pois então. Eu estava em Itália.

Ofereci-me de presente 20 minutos de gôndola. Um presente caro, mágico e triste. Triste porque sublinhou a impressão de que passeava por um cenário, como o de Morte em Veneza de Visconti. O gondoleiro estava, como eu, cheio de frio, e não cantou.

Mas Fábio, o gondoleiro desta quarta vez em Veneza, correspondia à imagem estereotipada do gondoleiro. Cantava O Sole Mio, apontava a casa de Marco Polo, a de Casanova, falava em português com sotaque do Brasil; é casado com uma brasileira, e esta “valência”, como se diz nos cursos de Gestão, tem sido muito útil para passear os milhares de brasileiros que, cheios de nota, aterram em Veneza. Eu não tinha muita nota, pelo contrário, e regateei o preço. Um passeio de 45 minutos, para quatro pessoas, custou 80 euros.

Talvez seja altura de dizer que o propósito desta viagem era adaptar a promessa de felicidade que Itália representa para mim ao orçamento low, mas mesmo low de que dispunha. E também é importante dizer que viajei com uma família que vive no norte, com uma criança de nove anos, e que todos os gastos, mas mesmo todos, foram objecto de discussão.

Estive quase a desistir da viagem quando choquei de frente com os preços dos voos. Veneza é capaz de ser a mais cara das cidades italianas (de todas as que visitei, é, sem dúvida), e o voo custava uma pequena fortuna. Mesmo comprando com um mês e meio de antecedência. Tive então a ideia de voar para Bolonha e fazer o resto da distância de comboio. Para terem uma ideia do quanto se poupou com esta manobra, passo a explicitar: numa companhia low cost, a partir do Porto, o bilhete para Bolonha andava pelos 140 euros (tudo incluído); na Tap, para Veneza, o preço era de 400 euros, também a partir do Porto. Acabei por voar na Tap, para Bolonha (opção muito acessível), a partir de Lisboa; e a família viajou com a RyanAir, do Porto.

Este impulso fez-me estender um mapa de Itália sobre a mesa e alargar horizontes. Se a opção era voar para Bolonha, talvez pudesse não me ficar por Veneza, que fica a uma hora e meia de comboio. Florença fica a meia hora de Bolonha (35 minutos, para ser exacta) e eu tinha muita vontade de ver o David de Miguel Ângelo, entre outras coisas.

Outro excurso para contar a primeira vez que fui a Florença. Eu era uma menina de 23 anos, fazia programas na televisão, o que me dava, facto novo, o conforto de não ter de esticar até ao fio o dinheiro do mês. Era um tempo em que se ganhava bem na televisão. Decidi ir sozinha para Florença. Não sei o que me passou pela cabeça para escolher Florença, e não Roma ou Veneza, para primeira cidade italiana. E sozinha, sim, porque gosto muito de viajar sozinha, do encontro a sós com uma cidade. É um diálogo íntimo como os diálogos íntimos que se têm com pessoas. Gosto de estabelecer um enredo e cumpri-lo com liberdade; é mais difícil consegui-lo quando temos de articular as nossas prioridades, ritmos e neuras com outras pessoas. Uma boa parte dos meus amigos não compreende o meu gosto de viajar sozinha. “E não tens pena de não partilhar o que estás a ver?” Não. Partilho de outra maneira, a posteriori, e depois de as coisas se sedimentarem em mim.

Nunca mais estive em Florença sozinha. Nem voltei a Siena, àquela magnífica praça onde me sentei e tive uma sensação de plenitude que ainda recordo. Achei que não precisava de mais nada para ser feliz. Olhava, sentada no chão, era tudo. Em Junho. Não tenho ideia do que comi (devo ter comido bem, porque só se come bem em Itália), mas não esqueço uma fachada amarela, da cor dos girassóis, que me apontaram como sendo a casa dos Médici. É a cor que não esqueço, mais do que a casa, porque tudo ficou guardado nessa tonalidade dourada e sonhadora.

Na viagem deste Verão, fim de Verão, não tive tempo para visitar Siena ou San Gimignano, a aldeia medieval que fica a dois passos de Florença. O dinheiro estava contado e o tempo também. Resumindo: a viagem durou de sexta à tarde a quarta. Apanhámos o comboio em Bolonha às seis da tarde. Assistimos ao cair da noite no vaporetto, ainda não eram oito da noite. Primeira imagem do que aquilo ia ser: águas azul indigo, reflexo pirilampo das luzes, casas terracota ou marmóreas nas margens.

Para a criança que estava comigo, além do deslumbramento de Veneza, havia a coincidência de num só dia andar de carro até ao aeroporto, de avião até Itália, de comboio até Veneza, de barco até ao centro de Veneza. Ela acrescentava, atenta: “E de táxi entre o aeroporto e a estação de comboio, em Bolonha. E de autocarro entre o avião e o aeroporto”. Os adultos não reparam nestas coisas. Mas uma criança olha para o que não foi ainda olhado, e essa foi uma das coisas mais extra-ordinárias de visitar Veneza com a Vitória. Ela transportou-me para o encantamento que é próprio da infância, sem reservas e sem medos, e que Veneza potencia por ser a tal cidade cenário de cartão.

Mas não é fácil ser criança em Veneza, vêem-se poucas crianças em Veneza, dou por mim a pensar que não vi nenhuma escola em Veneza – onde estão as crianças de Veneza? Não se vive em Veneza. Visita-se Veneza. Porém, e voltando ao meu ponto, todos somos crianças quando pomos o pé em Veneza. Não é preciso que esteja acqua alta, e que São Marco tenha água pelo joelho. O tempo estava glorioso.

Volto a Goethe. “A largura das vielas pode em muitos casos medir-se de braços estendidos, ou quase, e nas mais estreitas bate-se com os cotovelos nas paredes quando estendemos as mãos para os lados; há outras mais largas, aqui e ali também uma pracetazinha, mas em geral pode dizer-se que tudo é acanhado”. Desde a primeira viagem a Veneza que procuro estas vielas onde os meus cotovelos possam bater. Não as encontrei ainda. Mas desta vez encontrei uma onde os braços curtos da Vitória tocavam, sem dificuldade. Ficava perto da “nossa” casa, a dois passos da igreja e da ponte della Crocre, entre o Arsenale e São Marco. 

Era um piso térreo, construído à volta de um saguão, com um bom quarto de casal, casa de banho, cozinha, sala ampla (com sofá cama). Tinha também um pequeno jardim, impossível de usar por causa dos insectos. Bed and Breakfast, evidentemente, 200 euros por noite. Apesar de ser a parcela mais cara desta viagem, o preço não era absurdo se pensarmos que aí dormiam quatro pessoas. Se compararmos com os preços de Florença e Bolonha, era uma careza.

Em Florença o preço era 140, em Bolonha 109. Sempre para quatro pessoas, no centro da cidade, opções confortáveis. Encontrei-os no Booking.com. Só é preciso procurar com paciência e prestar atenção aos comentários que outros hóspedes fazem. Durmo frequentemente em B&B e posso dizer que estes eram melhores do que outros onde fiquei em Roma, em Paris ou em Madrid. E pela primeira vez os móveis não eram Ikea, ou desengonçados.

É fácil ser feliz em Itália. Tudo é superlativo em Itália. (“Boa noite é o que nós, gente do norte, dizemos sempre que nos separamos depois de escurecer; o italiano diz felicissima notte uma única vez, e no momento de nos trazerem a luz ao quarto, quando dia a noite se separam, e nessas circunstâncias a expressão tem um sentido completamente diferente”.)  Felicissima notte em vez de boa noite. Felicíssimo dia. Uma praça onde se encontram Neptuno, Hércules, David. As galerias Uffizi ao lado. Os tectos abobadados, pintados com esmero, no palazzo vecchio.  Ao dobrar da esquina, casas, igrejas, jardins, estátuas. Estupefacção permanente.

“Ali” morava Dante. O Dante (que estudei) e que começou um longuíssimo poema da seguinte forma: Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura. Todos nos encontrámos já numa selva escura, interrogando-nos sobre o caminho que fazemos, quando vamos a meio. Então “o meio” eram os 30 anos. Dante escolheu o poeta Virgílio para o acompanhar na viagem. Mas Dante, que amava muitíssimo os poetas, pôs Homero ou Horácio nos primeiros círculos do Inferno, e pôs um suicida, Catão, a guardar as portas do Purgatório. Porquê, que quer isto dizer? Porque é que os poetas não estão no Purgatório, ou mesmo no Paraíso?

Continuo a pensar nos enigmas de Dante, nos nossos enigmas – como não amar Dante? “Ali” é a ponte onde pela primeira vez Dante viu Beatriz.

Poderia visitar Florença apenas para seguir o seu rasto. E teria, a dois passos, o baptistério, com as portas do Paraíso esculpidas numa folha de ouro muito amarelo; a catedral de mármore verde e rosa, que naquele começo de Setembro tinha uma fila de centenas de pessoas para entrar. “Aqui” tudo é extático e de certo modo irreal. Mas muito diferente de Veneza. Em Veneza é o cenário que parece fictício e nos atrai. Em Florença estamos já dentro do labirinto e tropeçamos em tesouros, uns a seguir aos outros. Não queremos sair.

Dois tesouros: a biblioteca dos Médici (Biblioteca Medicea Laurenziana) e o David (Dávideee, chamam-lhe os florentinos) na Accademia (é melhor pagar quatro euros extra e marcar entrada na Accademia – ficam a ser 15 euros; de outro modo, perde-se uma manhã na fila. Porque é que é diferente da réplica que está na praça principal? Porque é o original, e porque, por sabermos disso, nos parece maior, e mais brilhante, e mais gracioso).

Não chegámos a estar dois dias completos em Florença. Eu gostaria de ter estado mais tempo, é claro; sobretudo quando se vai pela primeira vez, dois dias é pouco. Mas de repente pareceu-me que Veneza tinha sido há uma eternidade, e isso deu-me a noção de que a marca de Florença já se sobrepunha, e que tinha visto muitíssimo naquelas poucas horas. O tempo permitiria que as impressões se sedimentassem. Era terça-feira à tarde e era preciso apanhar o comboio de regresso a Bolonha.

Como já escrevi, a viagem tinha o dinheiro contado. Imaginem o meu horror quando percebi que comprei bilhetes de comboio de primeira classe e não de segunda! Os bilhetes já não eram propriamente baratos. Andavam pelos 25 euros (entre Bolonha e Florença) e os 40 euros (entre Veneza e Florença, duas horas de distância). Felizmente a Trenitalia estava com uma promoção para famílias e as crianças não pagavam (a CP não quer fazer o mesmo?). Em todo o caso, tanta poupança e de repente eram malbaratados uns 15 euros, em média, por bilhete. Disse entre dentes, danada: “Ao menos um prosecco, para afogar as mágoas”. Alguém ouviu as minhas preces. A CP oferece um café de termos e um biscoito. A Trenitalia oferece um prosecco e uns frutos secos. Faço daqui um brinde à Trinitalia!, e deixo um recado: a CP não quer fazer o mesmo?

Bolonha é uma cidade surpreendente. Era a única das três que não conhecia, e se não fosse este estratagema para poupar massas no bilhete de avião para Veneza, provavelmente não a visitaria. O que eu perderia... Foi em Bolonha que vi uma das homenagens mais tocantes de uma cidade aos seus heróis.

Está na praça principal. São três painéis com as fotografias e os nomes dos bolonheses que combateram na Segunda Guerra Mundial. Uma fotografia especifica: partigiani combatentes: 14425, dos quais mulheres: 2212. Partigiani mortos: 2059. Feridos: 945. Presos: 6543. Fuzilados por represálias: 2350. Mortos nos campos nazis: 829. O que é que revelam as fotografias: que eram pessoas como nós. Nem mais pobres, nem mais ricas, nem mais desesperadas, nem mais destemidas. Eram caras como as nossas, anónimas. E contudo, heróis. Que morreram a lutar. É muito inspirador, em tempos de crise, passar pela praça e ver aquelas fotografias. As circunstâncias são outras, bem entendido. Mas aquelas pessoas dão-nos ânimo para continuar, ajudam-nos a não baixar os braços. Grazie.    

Que mais há para ver em Bolonha? O museu arqueológico (é muito gabada a colecção de artefactos etruscos e egípcios, mas só tive tempo para ver a ala greco-romana). A biblioteca, o teatro anatómico onde se fazia dissecação de cadáveres. Um centro histórico onde se come genialmente. No Tamburini come-se salame, presunto de Parma, mortadela, carpaccio..., a dez euros a tábua; uma tábua dá, à vontade, para duas pessoas. Na taberna Il Sole só servem bebidas; é suposto que se comprem fatias de pizza e paninis nas lojas vizinhas e que se peça álcool ao balcão. Não é exactamente o sítio mais limpo do mundo, apesar de ter uma tabuleta que diz: é vietati sputare sul pavimento. Mas o ambiente é divertido, muito local a marimbar-se para o turista, e gostei mais desse prosecco, a dois euros a flute, do que daquele que bebi em Veneza ou Florença.

Goethe não gostou especialmente de Bolonha. Refere-se à cidade apenas em três entradas no seu livro-diário Viagem a Itália. O seu anseio era chegar a Roma. “O meu desejo é mais forte do que os meus pensamentos. Sinto-me irresistivelmente atraído para diante, e tenho dificuldade em me concentrar no momento presente”. Mas fala de pedras maravilhosas, que viu nos arredores da cidade, e de um sonho que tivera um ano antes e que lhe ocorreu nesses dias que passou em Bolonha. Sonho perturbador. Eu tive pena de não poder demorar-me no presente, naquele meu presente, que era Bolonha. Tenho de voltar. Quanto à pequena Vitória, depois de Veneza e Florença, Bolonha pareceu-lhe secundário. Ou então era só o cansaço. Nós, os adultos, esquecemo-nos de que uma criança, mesmo que seja muito curiosa e bem comportada, não tem pernas para andar de manhã à noite. E a única maneira de ver três cidades em seis dias (nem isso) é não parar. Parar? Parada estou eu agora.

 

 

Como chegar:

Viajar de comboio, em Itália, é uma bela experiência. É confortável, pontual, há espaço para as pernas. A informação horária que está no site é rigorosa: http://www.trenitalia.com

Mesmo que viaje em segunda classe e não tenha direito a prosecco, recomenda-se. Ao meu lado, numa das viagens estava um cão labrador. A passageira contava que o preço do bilhete do cão era carote, mas só num pequeno troço da viagem exigiram que pusesse açaimo.

É possível comprar bilhete em máquinas na estação ou em guichets próprios. Nestes últimos, as filas são exasperantes. Comprar na máquina é fácil. Pense duas vezes antes de alugar um carro. Caos absoluto na estrada, mesmo a auto-estrada para uma estrada nacional.

 

Onde comer:

Esta é a secção mais fácil de escrever. Come-se tão bem em Itália, e em especial em Bolonha, que o difícil é que corra mal. Veneza, sendo tão turística e cara, exige escolha mais cuidadosa. No nosso caso, acertámos no primeiro dia com o restaurante e repetimo-lo todos os dias. Não fiquem horrorizados os gourmets: o propósito da viagem não era gastar fortunas à mesa. O restaurante, muito perto de São Marco, é uma extensão de um restaurante napolitano (bom argumento para nos fazer decidir): www.rossopomodoro.com. O preço médio das refeições: 15 euros por pessoa. Uma garrafa de prosecco honesto custa 10 euros. 

Em Florença, a média de preços manteve-se mas a qualidade subiu significativamente. http://www.trattorialemossacce.it tem pratos geniais, num ambiente só aparentemente modesto. É relativamente acanhado, por isso é preciso reservar. Mergulhar o biscoito em vin santo, um vinho entre o aguardente e o licor, que é bom demais!, é obrigatório.

Bolonha tem como alcunha a grassa. Os bolonheses levam muito a sério a relação com a comida. Por mim, continuava à mesa do Tamburini, a pedir carnes frias e queijos da charcutaria contígua. Cada prato, abundante, custa 10 euros. O serviço é um desastre absoluto. Desorganização que choca, até, um português (que tem fama de ser desorganizado, mas que ao pé de um italiano é um alemão). A qualidade compensa a espera de 45 minutos por um copo. Espreite no site http://www.tamburini.com

 

Onde ficar:

Além do Booking.com, sugiro os seguintes sites para encontrar soluções económicas: http://www.luxrest-venice.com e http://residenzaariosto.it/

 

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013 

 

 

Foi muito bonita a festa, pá!

23.04.20

1.

Salgueiro Maia exigiu ser sepultado em campa rasa e sem honras de Estado. Maia comandou a coluna de tanques que saiu de Santarém e que teve a delicadeza, o civismo, o sonho de parar num semáforo antes de derrubar a mais longa ditadura da Europa. Primeira imagem do 25 de Abril: a cara de menino de Salgueiro Maia. Primeiro gesto da dimensão do irreal: respeitar o vermelho, olhos postos no verde, numa noite ainda escura.

Poderia Salgueiro Maia adivinhar que passados 22 anos sobre a sua morte, e rentes aos 40 anos desse dia inaugural, falaríamos da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão? Porque foi tão explícita e veemente a decisão no seu testamento? Campa rasa e sem honras de Estado. Como quem quer deixar o Estado de fora disto. Ele que comandou no terreno uma operação genial para mudar o Estado e torná-lo, de novo, parte disto. E, sobretudo, a campa rasa, sem os arrebiques e salamaleques que também acompanham a morte, algumas mortes.

Uma campa de pessoa do povo. Maia tinha orgulho em ser povo. Foi por ele, povo, que disse as famosas palavras: “Como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos.”

Correram os anos. Maia recusou cargos e honrarias, o Estado recusou pensão à sua família. Estudou Ciências Políticas. Desiludiu-se com o outro estado a que chegámos, depois de tudo se ter levantado de uma folha branca, e ainda tão longe deste estado a que chegámos.

Mas os estados não podem senão mudar, e levar-nos na enxurrada da desilusão.

Não é crível que tenha lamentado por um momento os passos daquele dia longo em que era capitão. Nas fotografias parece um rapaz de uma sensatez de aço, elegante como um cavaleiro.

Maia é o povo, o povo que está no coração da História e que é herói. Qual é o lugar dos heróis? E qual é a sua, a nossa, a definição de herói?

Agora o povo está zangado. Com o péssimo que isto está, com o que fica por punir, com o que apanha no ar e não consta nas estatísticas. Zangado e com uma granada no lugar do peito que se chama injustiça. Qual foi o estado a que chegámos? Foi mesmo bonita a festa, pá?*

 

* Foi Bonita a Festa, Pá – de Tanto Mar, tema composto por Chico Buarque para a revolução dos cravos (primeira versão em 1975, segunda em 78).

 

2.

Vejamos as fotografias. A euforia que faz levitar é a do primeiro de Maio, dissipadas as dúvidas. Numa semana, o mundo parecia edificado em certezas.

Uma semana. O tempo que mediou o noivado e o casamento. Todos assistiram à festa. Uma gaivota voava, voava. Um milhão de pessoas na Alameda. Só não estavam os fascistas. Também já tinha diminuído drasticamente o número de fascistas. Porque no dia seguinte todos tinham sido opositores a Salazar, todos tinham sido perseguidos ou presos. A efabulação (de que Adelino Gomes fala numa entrevista com Alfredo Cunha ao PÚBLICO) tinha começado e era transversal. A memória colectiva, inevitavelmente reconstruída, tinha incorporado distorções, inexactidões. Mas eram boas memórias. E aquilo foi uma festa.

Agora lemos o que dizem Os Rapazes dos Tanques sobre o que está pior, e lemos sobre o abismo entre a classe política e o povo. A classe política dos últimos vinte anos. Lemos sobre “a cambada que nos está a dirigir”, “o descrédito da classe política”, “os governos que deram cabo disto, e o caraças”, a “a classe política mais ordinária da Europa”, “uma classe política sem nível e sem sentido de Estado”. Não só isto, mas constantemente isto. Não só isto porque, apesar disto, isto é melhor do que o que havia. Globalmente de acordo em relação a isto. Comprova-o uma sondagem do Instituto de Ciências Sociais (ICS). 58% dos inquiridos consideram o 25 de Abril mais positivo do que negativo. Da esquerda à direita.

Diz o então cabo apontador Vítor Ribeiro Costa no livro de Adelino Gomes e Alfredo Cunha: “O 25 de Abril não trouxe nada de pior. Para a maioria das pessoas, o pior que temos hoje é melhor do que tivemos com Salazar e Marcelo”.

Quando é que começou a aparecer o ponto de interrogação e, repetindo os versos de Chico Buarque, se procurou o restinho de alecrim, a semente esquecida nalgum canto do jardim?

 

3. 

- Quando é que o senhor começou a trabalhar?

- Aos 12 anos.

- Os seus filhos, quando é que começaram a trabalhar?

- Depois da faculdade, fez tudo a faculdade.

- E diz que antigamente é que era melhor?

Irene Flunser Pimentel (1950) travou esta conversa com um taxista, recentemente, em Lisboa. O discurso saudosista do antigamente é uma praga com que a historiadora (de esquerda) lida amiúde. “É verdade que hoje podem ir para a faculdade e ficar desempregados ou ter que emigrar. Mas é outra situação.”

Quão outra situação? Números. Em 1974, estavam inscritos no ensino superior 50 mil alunos, 7% daqueles que estavam em idade de o fazer. Tem-se noção da explosão quando comparamos com os dados de 94. Número de inscritos: 270 mil, 30% dos que tinham entre 18 e 22 anos. (Fonte: A Situação Social em Portugal, 1960-95, organização de António Barreto) Em 2000, eram 350 mil inscritos, 53% dos que tinham entre 18 e 22 anos.

Há um cifra que diz respeito à totalidade da população e que esmaga. Em 1981, quase metade da população com mais de 30 anos não tinha a quarta classe, e 28% não sabiam ler nem escrever. Já a revolução tinha sido e o caminho começado. E no bilhete de identidade carimbava-se “não sabe assinar”. E atestava-se que aquela pessoa era aquela pessoa pela impressão digital. Quase sempre um dedo grosso, pesado. Mão de quem trabalha. Do povo.

Não é novidade para ninguém quem é que ia à escola, quem é que prosseguia a escola, quem é que chegava à universidade. E por isso o 25 de Abril representa a ruptura com o “fatal como o destino”, permite “sair da cepa torta”.

Maria de Lurdes Rodrigues (1956), ex-ministra da Educação (2005/2009) e autora e coordenadora, entre outros títulos, de Políticas Públicas em Portugal (2012, com Pedro Adão e Silva): “O insucesso escolar, como conceito, não existia. A confirmação do acesso à escola como um direito de todos propicia a ascensão social. Numa sociedade estratificada como a portuguesa, onde as pessoas terminavam no ponto onde tinham começado, o conhecimento começou a contar como factor de mobilidade social.”

O taxista que transportava Irene Flunser Pimental falava com orgulho e zanga. Orgulho no esforço que fez para que os seus filhos conseguissem. Orgulho no que os filhos conseguiram. Talvez tenha esquecido o que o Estado fez para que os filhos tenham conseguido.

A educação, o acesso universal à educação, faz parte daquilo a que Tony Judt chamou a “banalidade do bem”, explica Irene Flunser Pimentel. A expressão de Judt é uma forma não poética, mas concreta de falar do Estado Social, conquista da Europa que se ergueu sobre as ruínas da Segunda Guerra e que em Portugal se cimentou no pós-revolução.

O Estado Social é a jóia que ninguém quer empenhar, quanto mais perder. É o anel que resta quando, a alguns, não resta a certeza de haver dedo. E é o anel que os mais jovens se habituaram a ter como uma espécie de sexto dedo.

Houve mesmo um tempo em que os nossos pais, os nossos avós não iam à escola ou começavam a trabalhar depois da quarta classe, a alombar madeira, pedra, por meia dúzia de escudos? Isto com dez, 14 anos. Parece um tempo tão longínquo como o tempo dos reis de Portugal.

O cientista político Pedro Magalhães (1970) contou aos filhos que o seu pai fazia cinco quilómetros a pé, todos os dias, para ir à escola. No profundo Trás-os-Montes. Cinco quilómetros, sob o sol, a chuva, o frio que se entranha nos ossos. “A sério?, mesmo com neve?” Miúdos incrédulos. Zero de atitude prosélita, zero do sermão “e têm muita sorte por não terem as mesmas dificuldades”. Foi só uma história espantosa para um coração esperançado (como deve ser o das crianças de dez anos). Em duas gerações, andou-se isto.

O Estado Social é o que podemos apontar quando nos perguntamos pelo que correu bem. Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio defenderam-no numa conferência na Gulbenkian sobre os 40 anos do 25 de Abril. No mesmo dia, na celebração organizada pelo Expresso, SIC e ICS, uma sondagem indicava que o povo – o povo-Salgueiro Maia que percebe muito bem o estado a que vamos chegando – considera que estamos melhor na assistência médica, na educação (70%) e na segurança social (46%). Melhor agora do que no antigo regime.

“A educação e a saúde foram as grandes conquistas da democracia. Não tem grande importância que o Estado Social esteja falido. Está em toda a parte”, afirma André Gonçalves Pereira (1936), advogado e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros (1981/83). “É melhor ter um Estado Social falido do que não ter Estado Social nenhum, obviamente”.

O programa estava no essencial escrito numa canção de Sérgio Godinho de 1972. “A paz, o pão, educação, saúde, habitação”. Arranque a seco, grito no refrão: “Só há liberdade a sério quando houver...”. O programa estava no texto (1942) de William Beveridge que serviu de matriz à criação do Estado Social na Europa. O economista apontou os núcleos: ensino, protecção na doença, protecção na velhice, protecção no desemprego e habitação.

Com isto fazia-se O Portugal Futuro do poema de Ruy Belo “aonde o puro pássaro é possível/ e sobre o leito negro do asfalto da estrada/as profundas crianças desenharão a giz (...) Mas desenhem elas o que desenharem/ é essa a forma do meu país/ e chamem elas o que lhe chamarem/ Portugal será e lá serei feliz”.

O poema de 1972 de Ruy Belo desenha uma ideia de felicidade, adivinha a cara que as pessoas vão ter em Abril de 74, a confiança ilimitada no futuro, o sorriso. Está tudo nas fotografias daquele tempo. Era uma vez um país.

 

4.

Toca a fazer. A partir daquele “dia inicial inteiro e limpo/onde emergimos da noite e do silêncio”, versos-síntese de Sophia de Mello Breyner, toca a fazer. Até porque “Quem não faz, não vive, apenas dura”, disse outro português (Padre António Vieira).

E outro disse “Quanto faças, supremamente faz” (Fernando Pessoa). Toca a fazer. Supremamente. Mas como se faz um país livre?, como se concretizam projectos díspares, contraditórios, o meu 25 de Abril e o teu 25 de Abril? Os caminhos do fazer dividem-nos.

Entretanto os soldados regressaram a casa. Não foi “nem mais um só soldado para as colónias” (frase do MRPP). Foi (acima de tudo) para acabar com esse estado de coisas – a guerra – que se fez esta revolução. O meu pai regressou a casa, o que não interessa senão para a minha história e a da minha família. Muitos pais regressaram a casa, o que interessa para as histórias de muitas famílias. O meu pai, que não tinha estado quando comecei a andar ou a falar, regressava. Os nossos pais, os da geração a que pertenço, nascida na década de 70, regressaram dos cus de judas marcados pela guerra. Muitos mais não chegaram a ir. No dia 25 de Abril acabou-se com a ditadura, acabou-se com a guerra. No dia 1 de Maio não se combatia. O meu pai contou-me que a 10 de Junho fizeram uma festa na messe em Angola, cantaram canções de Zeca Afonso. Regressou daí a cinco dias.

Entretanto os políticos e o povo gizaram no asfalto as grandes linhas do puro pássaro, respondendo ao momento.

 

5.

- Quais foram os momentos fracturantes destes 40 anos de democracia?

- As nacionalizações de 11 de Março de 75, as eleições para a Constituinte no dia 25 de Abril de 75, a chegada de meio milhão de retornados entre Abril e Novembro de 75, o 25 de Novembro de 75, a Constituição de 2 de Abril de 76, a revisão do Código Civil em 77, a extinção do Conselho da Revolução em 1982, a abertura do mercado bancário à iniciativa privada em 84, a entrada na CEE em 86, as privatizações a partir de 90, o Euro em circulação a 1 de Janeiro de 2002, a crise mundial de 2008.

As grandes fracturas que não têm data de ratificação: a criação do Estado Social, o desenvolvimento do país, o estatuto da mulher, a eclosão da classe média que solidifica a democracia.

A primeira de todas: o 25 de Abril, que permitiu liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres, direitos e garantias consagrados. Falar sem ter medo. Falar sem procurar escutas debaixo da mesa. Andar na rua sem procurar a sombra que vigia e delata. Poder espichar numa parede O Povo Unido Jamais Será Vencido. Ter voto na matéria, qualquer matéria.

Acreditar.

 

6.

As nacionalizações, pela historiadora (de direita, então feroz esquerdista) Maria de Fátima Bonifácio (1948). “Foi uma devastação da nossa economia. Custaram anos de atraso ao país. Não foi só a banca, e a banca foi um disparate. Nacionalizaram-se vãos de escada. Era jornalista. Cheguei a fazer a cobertura de uma tinturaria que tinha sido nacionalizada. A ideia de que no Alentejo se nacionalizaram grandes herdades abandonadas é falsa. Estabeleceu-se um método de calcular o valor das herdades através de uma pontuação que valorizava tudo o que era regadio, maquinaria, gado; e foram essas explorações, que estavam a ser bem exploradas, que foram nacionalizadas. O que não se nacionalizou foi o que estava ao abandono.”

Do outro lado: a terra a quem a trabalha, as fábricas a quem lá produz. Vamos corrigir o sofrimento e a injustiça. Socialismo aqui e já.

 

7.

As eleições, um ano depois da revolução. O cumprimento do D de Democracia. Filas intermináveis para votar. Afluência às urnas de 90%. Irene Flunser Pimentel: “É admirável que pessoas que estiveram tantos anos afastadas da política, debaixo de um regime ditatorial, votem em massa de forma entusiástica e organizada. Traduz uma aprendizagem da política muito repentina”.

Homens e mulheres. Agora também mulheres, quaisquer mulheres, e não apenas chefes de família e licenciadas. A emancipação começava. Mas do movimento tectónico que o 25 de Abril representou na vida da mulher fala-se mais à frente.

 

8.

“Então a metrópole afinal é isto” – escreveu Dulce Maria Cardoso no livro O Retorno.

Entre Abril e Novembro de 1975 chegaram 400 mil “retornados”, “a falar das coisas de lá, a minha casa isto a minha casa aquilo, deixei lá isto e aquilo, os tiros isto os morteiros aquilo”.

A grande equação desse tempo e do tempo futuro: e agora? Como se refaz a vida, como se lida com a perda? Uma mão à frente e outra atrás.

Descolonizar, o outro D, por André Gonçalves Pereira: “Muitas pessoas consideram que a descolonização foi o que correu pior. Não concordo inteiramente. A descolonização correu mal como não podia deixar de correr. Foi a descolonização possível, que começou com 15 anos de atraso”.

Quinze anos antes, a guerra.

Para muitos não era um retorno uma vez que nunca aqui, na metrópole, haviam estado. Era em todo o caso um exercício hercúleo para milhares de “desterrados”. É assim que Dulce Maria Cardoso lhes chama, é a eles que dedica o livro. “Três malas e vinte contos é tudo o que temos até resolvermos a vida. Resolver a vida é o que mais se ouve entre os retornados”.

Rui Pena Pires (1955), especialista em movimentos migratórios, chegou de Angola em Setembro de 75. Olha para o fenómeno com olhos de sociólogo. “Os retornados voltam ao seu ponto de origem, espalham-se pelo país. É o contrário do que acontece em França, com os pied noir a concentrarem-se em Marselha. A dispersão transforma o fenómeno num fenómeno nacional. Os retornados são em média mais qualificados, empreendedores. Houve um período em que um terço dos patrões (de indústria, comércio e serviços) em Trás-os-Montes eram retornados. Trazem diversidade religiosa (aparecem os primeiros grupos de muçulmanos). Quebram o grau de homogeneidade que havia (chegam mestiços). Constituem uma população maioritariamente de direita, furiosa com a descolonização. Mário Soares centraliza ódios.”

Ah, e os retornados aprenderam o que são frieiras e cieiro, lê-se em O Retorno. Trouxeram mini-saias, roupa descapotável, a liberalização dos costumes, a ideia de uma vida livre, com espaço a perder de vista, que tinham nas colónias. Uma certa forma de calor.

Integraram-se sem rupturas e convulsões sociais. Um êxito, também do novo poder local.

 

9.

O golpe militar contra-revolucionário de 25 de Novembro por Henrique Granadeiro (1943). “Foi o realinhar das coisas em conformidade com o projecto inicial. Havia um desvio que defraudava a generalidade das pessoas, que não queriam substituir uma ditadura por outra. A tentativa de implementação de uma sociedade socialista já tinha aspectos evidentes. Cartilhas, saneamento, violência.”

O que houve entre 25 de Abril de 74 e 25 de Novembro de 75? Num ano e meio fez-se a revolução, começou um novo calendário, e com ele a corrupção do sonho. As dificuldades típicas do momento em que a minha liberdade começa a ocupar o espaço da tua. As dificuldades típicas do momento em que a revolução é minha e faço com ela o que eu acho que deve ser feito. Eu e o meu grupo político. E toda a gente tinha um grupo político.

Ramalho Eanes foi o responsável pelo plano de operações do golpe, não deu espaço às pressões dos radicais. Rematou-se um Verão Quente. O PC saiu derrotado. Ideologicamente foi um marco.

Henrique Granadeiro foi chefe da Casa Civil de Eanes entre 1976/79. O seu discurso é o dos vencedores do 25 de Novembro.

O historiador Pacheco Pereira, que organizou na Assembleia da República uma exposição que comemora os 40 anos da democracia, considera que foi nesse período que nasceu a democracia. “Quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril. O PREC teve excessos e houve mortos e gente que mandou matar, mas a verdade é que foi naqueles anos turbulentos que nasceu a democracia portuguesa”, disse numa entrevista recente ao jornal i.

 

10. 

Constituição de 76. “É o primeiro instrumento organizador do que vamos ser”, sintetiza Maria Manuel Leitão Marques (1952), professora universitária e ex-Secretária de Estado da Modernização Administrativa (2007/11). “Tudo o resto é afinado a partir daí. Há coisas que são muito alteradas nas revisões constitucionais, mais na organização do poder político (sobretudo em 82) e da economia (em 89), menos nos direitos e deveres fundamentais.”

No princípio, nessa magna carta, estava escrito que devíamos caminhar para o socialismo. Que socialismo? Que caminhos? A questão não é despicienda, porque mexe com um entendimento do que a democracia deve ser. E porque, sustenta Pedro Magalhães, “a maioria das pessoas tende a associar – e intensamente – liberdade de expressão, liberdade de associação e eleições livres a justiça social, segurança e prosperidade económica.”

Esta era a promessa, reflectida na Constituição de 76.

Um equívoco, considera Maria de Fátima Bonifácio. “As pessoas habituaram-se a usar democracia e bem estar económico como sinónimos. No meu ponto de vista, democracia [corresponde] a liberdades, direitos, a um Estado de Direito, ao Serviço Nacional de Saúde (que é uma aquisição civilizacional, mesmo que não faça sentido eu pagar o mesmo que a minha empregada por uma radiografia). Mas a democracia não são os ténis da Nike. A democracia pode ser mais redistributiva ou menos, conforme o Governo for mais social democrata, menos social democrata. Em si mesma, não promove o crescimento e o desenvolvimento económico. A prova é que a Europa está em recessão há anos e promete continuar a arrastar os pés.”

Esta associação entre prosperidade, bem estar e liberdades cívicas não é exclusiva de Portugal. “É característica de democracias mais pobres e de democracias mais recentes” especifica Pedro Magalhães. “Os EUA, a Suécia, a Noruega dizem que democracia corresponde a liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres”.

Esta é uma das pistas para compreender a nossa zanga com a democracia. “As pessoas sentem que ainda não receberam dela o que estava prometido”, diz o cientista político. “As democracias nórdicas, que queremos ser há 40 anos, têm menos corrupção, melhor governo, são menos desiguais, têm nível de vida médio mais elevado. Têm o pacote completo.”

O pacote completo que o povo também quer. Não foi (também) para isso que se fez uma revolução, pá? Portanto porque é que não o temos, grita o povo. “Porque 40 anos é pouco tempo”, conclui Pedro Magalhães.

 

11.

A Revisão do Código Civil em 77 consagra a igualdade constitucional entre homem e mulher em toda a vida familiar.

Era o momento das mulheres. “Os homens ganharam liberdade política. As mulheres ganharam tudo. Ainda me lembro que a minha mãe tinha que pedir autorização ao meu pai quando queria passar férias comigo, em Berkeley. Ou quando quis comprar um carro. A minha mãe era uma alemã que cresceu nos anos 20, em Berlim. Imagine.” Alexandre Quintanilha (1945), cientista. Os pais viviam em Moçambique. Lá como cá, o homem tinha o direito de ver a correspondência da mulher. Um contraste absoluto com o ambiente da baía de São Francisco, onde Quintanilha trabalhava e vivia.

Veio a Portugal em 1979 com o então namorado hoje marido Richard Zimler.

Entretanto a célula da família mudou tanto que é possível escrever banalmente “o então namorado hoje marido”. Como se o casamento homossexual não fosse um tema fracturante (expressão que não se usava e agora se usa).

Entretanto também o sexo deixou de ser um tema fracturante. “Já não passa pela cabeça de ninguém criticar uma mulher por ter tido relações sexuais antes do casamento. Há uns anos, se a mulher não fosse virgem, tinha um nome”, nota Quintanilha.

O casal mudou-se para Portugal em 1990. Casaram em 2010 poucos meses depois da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas quando vieram juntos pela primeira vez encontraram um país “medieval”.

Não havia jornais estrangeiros, levava-se um dia para chegar a um lugar mais recôndito, esperava-se meses – ou anos – que instalassem o telefone em casa. E ficava-se à mercê das pessoas que se conhecia e que podiam aligeirar o processo. “Eu telefono ao senhor não sei quantos e ele trata disso – diziam-me. Ou éramos ignorados porque ninguém nos conhecia ou éramos tratados como príncipes porque trazíamos recomendação.”

Diagnóstico: arbitrariedade e ineficiência do sistema. Palavra de todos os dias: meter uma cunha. Cunha em modo soft.

Mais à frente, quando o dinheiro começou a ser a sério, meteram-se cunhas a sério. Algumas eram tão a sério que passaram a chamar-se corrupção. Mas isso é mais à frente.

As mulheres, para já. Uma das primeiras manifestações, logo depois do 25 de Abril, teve que ver com a proibição do divórcio dos que eram casados pela igreja – a esmagadora maioria.

Irene Flunser Pimentel: “Fez-se um comício. Pela primeira vez uma mulher foi oradora principal. A questão do divórcio tocou homens e mulheres. Muitos deles tinham amantes, filhos ilegítimos”.

Porque é que isso constituía um drama? Porque homens e mulheres separavam-se e continuavam casados com os antigos maridos e mulheres; porque viviam com outros e continuavam casados com os anteriores; porque tinham filhos das novas relações e não os podiam perfilhar. Numa linha: não era possível dissolver uma família e constituir outra.

Em 1975, o ministro da Justiça Salgado Zenha reviu a Concordata com a Santa Sé. Passou a ser possível o divórcio entre casados pela igreja.

Número de divórcios em 1965: 600. Em 1975, há 1500. Em 1977, há 7700.

A completa igualdade entre filhos e entre homem e mulher, que resulta da Constituição de 76, é incorporada no Código Civil de 77.

 

12.

A extinção do Conselho da Revolução em 82 e a criação do Tribunal Constitucional. Henrique Granadeiro: “Do ponto de vista simbólico, é um grande momento. Do ponto de vista prático, nem tanto. O general Eanes era presidente da República e chefe do Estado Maior das Forças Armadas, era o vértice do encontro do poder militar com o poder civil. Foi enviando a tropa para os quartéis e valorizando a política nas instituições. A extinção do Conselho da Revolução foi a morte natural de um processo que veio a ser conduzido por ele desde o primeiro momento, de forma discreta e sistemática.”

 

13.

Um não momento: o bloco central liderado por Mário Soares e Mota Pinto pede ajuda ao FMI em 83. Os portugueses habituam-se a ver Teresa Ter-Minassian na televisão. José Mário Branco compõe o disco FMI.

Um não momento porque somos essencialmente os mesmos depois dessa passagem ou da passagem de 77. Ao contrário do que acontece com a presença da Troika desde Abril de 2011.

Então tínhamos moeda própria, inflação e desvalorização. E a Europa era um oásis próximo. José Medeiros Ferreira, sonhador da pertença à Europa e ao mundo, havia feito o pedido de adesão quando era ministro dos Negócios Estrangeiros (1976/78). Esse sim, um momento.

 

14.

Outros gráficos. Taxa de mortalidade infantil: 55 por mil nados-vivos em 1970. Oito por mil em 1994. Três por mil em 2008. A média da UE é superior a quatro por mil.

Número de pensionistas: em 1960 são 56 mil, em 1976 é um milhão. Pensão de sobrevivência: em 1960 são sete mil beneficiários, em 1976 são 125 mil. (Fonte: Eurostat e Pordata)

Em 1980, Cavaco Silva, na pasta das Finanças do Governo Sá Carneiro, faz um alargamento do regime não contributivo. Mulheres que foram domésticas toda a vida, agricultores e outros que nunca tinham contribuído passam a ter protecção social.

 

15.

Nick Racich (1952) chegou a Portugal há 30 anos, quando foram concedidas as primeiras licenças à banca privada. Banqueiro, vice-presidente do banco BIG, estudou na prestigiada Wharton School depois de abandonar um doutoramento em Dom Quixote de la Mancha de Cervantes. Um percurso banal num país como os Estados Unidos, improvável para não dizer impossível num país como Portugal.

Este americano de Filadélfia, trabalhava em Nova Iorque e tudo o que sabia de Portugal era que Lisboa era um jóia. Claro que sabia onde ficava Portugal, mas no banco onde trabalhava, em 1980, “em termos de organização, Portugal e Espanha faziam parte da América Latina. Em todos os bancos americanos era assim. Por causa da língua. Só em 86, quando integraram a Comunidade Económica Europeia, começaram a estar arrumados de outra maneira”.

Nick Racich falava espanhol por causa do cavaleiro da triste figura. Hoje fala um português sem mácula. Tem dupla nacionalidade e diz pá.

“O primeiro sector a ser aberto à iniciativa privada foi o bancário. Foi uma medida inteligente porque a banca é um motor da economia. Não havia mercado monetário, mercado cambial, bolsa, não havia produtos financeiros. Em poucos anos chegámos a ter 17 bancos estrangeiros. Começou a pensar-se na privatização de sectores chave da economia.”

A cerveja não é um sector chave, mas foi com a Unicer em 1989 que começaram as privatizações. Verdadeiramente só em Abril de 1990, com a lei das mesmas, começaram a ser levadas a cabo.

Outra palavra começava a ser usada: empreendedorismo. Com um significado que não coincide com o de um americano: “Empreendedorismo é pegar em capital – nosso, privado – e começar com esse capital, e não esperar patrocínios, dinheiro do Estado ou dívida bancária”.

Mas isto é um americano a falar, com uma aprendizagem diferente da nossa, que vive num país-continente onde é possível recomeçar no dia seguinte, várias vezes. A escala permite-o.  

Em Portugal, a democracia tinha pouco mais de dez anos. E o dinheiro da CEE estava a chegar. O país parecia de mangas arregaçadas, com condições para cumprir o D de desenvolvimento.

 

16.

Bem, não exactamente de mangas arregaçadas.

O que ficou no imaginário colectivo: betão, rotundas, infra-estruturas ruinosas. Recursos malbaratados, fraude com os dinheiros do Fundo Social Europeu e do PEDIP. Uma certa trafulhice e o início do folguedo.

É uma visão injusta, porque parcelar, dos anos que começavam com a adesão de Portugal à CEE. Essa foi a década da emergência da classe média, do alargamento do Sistema Nacional de Saúde, da estabilidade democrática. Mais do que tudo: essa foi a década em que deixámos de ser a choldra e passámos a fazer parte de um clube selecto. Ruy Belo, que parecia saber tudo, e antes do tempo, escreveu no poema Sexta-Feira Sol Dourado: “Agora é que vamos ser felizes (...) Portugal fica em frente.”

O Portugal triste fotografado por Victor Palla, a preto e branco, o português pobre encarnado por Belarmino no filme de Fernando Lopes (1964) pareciam de outro século. Tinham passado apenas 20 anos.

Nenhuma das pessoas ouvidas pelo PÚBLICO para a elaboração deste texto deixou de referir a entrada na CEE como momento chave de 40 anos de democracia.

O fiscalista e professor universitário João Taborda da Gama (1977) chamou-lhe “o mecenas do nosso 25 de Abril. Quer dizer, a Europa permitiu-nos ter o dinheiro para efectivar o 25 de Abril”.

 

17.

Quando é que começámos a ter um Estado gordo? Maria Manuel Leitão Marques: “Eu não sei se temos um Estado gordo. A questão é a de saber que Estado podemos sustentar e onde devemos concentrar a despesa. Mas no final dos anos 80, algumas das reformas nas carreiras da função pública efectuadas por Cavaco Silva, designadamente com a criação de promoções automáticas por tempo de serviço, aumentaram significativamente a despesa com funcionários. Mesmo que a intenção fosse boa, o resultado foi desastroso em termos de progressões não assentes em critérios de mérito e tornou o peso dos salários na administração pública muito elevado.”

Miguel Cadilhe, então ministro das Finanças, discordou e saiu do executivo.

A imagem não era a da grande porca de Bordalo Pinheiro, que serve para a expressão “mamar na teta do Estado”. Essa veio (voltou) mais tarde. A imagem era a de um Estado tentacular que dominava toda a economia (ainda que de 1990 a 95 o sector público tenha sido fortemente diminuído com as privatizações). A imagem era a de um Estado onde cabiam as clientelas políticas, a ineficiência, o manga de alpaca. O Estado dos tachos.

Contudo, as prestações sociais ainda estavam aquém da média europeia. O Estado Social era recente e insuficiente. Continuou necessariamente a crescer, na educação, na saúde, nas pensões. António Guterres fez da educação a sua paixão. Em 2002 Durão Barroso disse que o país estava de tanga.

A resolução do problema não se fez com uma diminuição da despesa nem com reformas estruturais dirigidas ao crescimento, mas com uma reforma da máquina fiscal. Cobraram-se impostos, muitas vezes devidos há anos e anos.

João Taborda da Gama: “É verdade que havia um sentimento de grande impunidade e de corrupção na administração fiscal. O momento marcante foi quando Paulo Macedo assumiu o lugar de Director Geral dos Impostos (2004/2007). Hoje esse sentimento de impunidade não existe.”

A confusão entre despesa com o Estado Social (pensões, educação, saúde) e peso da máquina administrativa é um preconceito antigo. No ano em que Portugal pediu ajuda financeira e a palavra de ordem era cortar nas gorduras do Estado, o nível de despesa pública no PIB era de 48,9%. A média da União a 27 era 49,1% e da Zona Euro 49, 4%. (Fonte: Eurostat). Grande parte da despesa pública estava concentrada em pagamentos de pensões e funcionalismo público – a fatia era de 65, 70%.

Segundo o livro de Emanuel dos Santos, Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental, em 2011, 47% da despesa pública consistia em redistribuição de recursos que o Estado operava de uns cidadãos para outros, incluindo pensões e outras prestações sociais. As despesas de funcionamento da administração pública (salários mais consumos intermédios) representavam 39% dos gastos totais. Mas como abrangiam a produção de serviços como a educação, a saúde ou a segurança, o custo da máquina burocrática do Estado central ficava-se pelos 15,5% da despesa pública ou 7,2% do PIB. 

 

18.

Uma confusão: despesa pública com o Estado Social e custo da máquina administrativa. Outra confusão: dívida interna e dívida externa. Outra confusão ainda: dívida e crescimento. Para Nick Racich, o problema não é o que devemos, o problema é o que não crescemos. “O endividamento externo português em 83/84 era qualquer coisa como 16 mil milhões de dólares. Em 2011 era 20 vezes superior. E o PIB apenas duplicou. Ou seja, o país produziu o dobro mas pediu emprestado 20 vezes mais.”

O que é que o país fez com o dinheiro que foi buscar? Entre 1998 e 2010, o investimento produtivo feito pelo sector financeiro baixou 20%, o financiamento ao consumo privado aumentou 19%. (Fonte: artigo de opinião de João Pinto e Castro no Jornal de Negócios a partir do livro de Emanuel dos Santos Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental).

“É um país extremamente endividado. Não mais do que os outros. A diferença está em que alguns conseguem dar a volta rapidamente. Portugal, não”, diz Nick Racich.

De novo gritamos, zangados com o nosso malfadado destino: porque é que não conseguimos dar a volta? Porque é que voltamos a ouvir Júlio César dizer que este é um povo que nem se governa nem se deixa governar? (É a elite ou o povo que não se governa nem se deixa governar?) Porque é que lemos Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871) de Antero de Quental e o texto nos faz sentido?

“É uma democracia muito nova”, continua o banqueiro. “40 anos é muito pouco. São duas gerações. Ainda temos muitas pessoas vivas que viveram o antes. E antes de décadas de ditadura estão séculos de monarquia, de paternalismo.”

João Constâncio (1971), professor universitário, autor, entre outros, do livro Nietzsche e o Enigma do Mundo, chama igualmente a atenção para este ponto. “Em 40 anos não se substitui a população de um país. A cabeça das pessoas não mudou o suficiente, apesar das transformações económicas e sociais. Em 40 anos não se transforma uma população em grande medida analfabeta numa população instruída.”

Pensemos nisto: quantos dos que estavam vivos em 1974, com uma identidade, um passado, uma raiz fizeram a transição para o Portugal democrático. Quantos dos que eram impreparados, iletrados aprenderam a viver num país novo. E pensemos nos que nasceram depois de 74 e nos filhos desses. Dir-se-ia filhos de um outro país. Contudo, os nossos pais ainda são aqueles.  

 

19.

Problema central: porque não crescemos? A resposta de Henrique Granadeiro: “Existe uma correlação directa entre instabilidade política e desenvolvimento económico. Tivemos 25 governos em 40 anos [seis governos provisórios e 19 governos constitucionais]. Com este vai e vem de governos é impossível gerar políticas de longo prazo. A primeira preocupação do governo seguinte é rectificar o [que considera] disparates do governo anterior. Isso introduz uma precariedade cujo resultado está à vista.”

Segundo dados do Eurostat, os ciclos políticos mais longos e com maior taxa de crescimento correspondem aos X, XI e XII governos (1985/95, governos de Cavaco Silva) com uma taxa de crescimento do PIB de 4,2%. Os XIII e XIV governos (1995/2002, governos de António Guterres) tiveram uma taxa de crescimento de 3%.

Na opinião do presidente da PT, “o sistema constitucional permite, e em certa medida encoraja, a existência de governos minoritários. Um exemplo: o presidente da República empossou um governo minoritário em plena crise mundial (2009). Foi um erro político de Cavaco, que o nomeou, e um erro político de Sócrates, que aceitou.”

O povo volta a perguntar: porque é que não crescemos, porque é que não damos a volta?

Ouçamos de novo as vozes dos Rapazes dos Tanques, das manifestações, dos que agora emigram. Ouçamos a zanga com a classe política, com essa elite. Com a elite que não dá a volta, que não nos faz dar a volta, que não nos deixa dar a volta. Uma elite pequena, pouco capitalizada e dependente do Estado.

O advogado Vasco Vieira de Almeida disse numa entrevista ao Jornal de Negócios (2012): “Em Portugal pertencer a uma elite nunca representou, como devia, uma fonte extra de obrigações, antes uma atribuição anormal de privilégios. O povo foi sempre melhor do que as elites”.

 

20.

Antes do leite derramado, há a Expo 98 e o orgulho numa obra com aquela dimensão, aquela beleza. Não é pouco porque um povo precisa de pão e circo.

Antes ainda privatiza-se a produção de informação. Aparecem as rádios e as televisões privadas. Não muda só a forma de comunicar. Muda, o que é fundamental, a forma de comunicar política e consequentemente a forma de fazer política.

Mudam os protagonistas. O povo aparece na televisão, a sua biografia importa. O povo vê e comenta o povo na televisão, a elite vê o povo na televisão e comenta o Big Brother de Orwell.

Nos anos 90 o mundo era tão estável que a geração nascida na década de 70, ou pouco antes, não sabia o que era o contrário de liberdade.

João Constâncio era um miúdo quando o pai, Vítor Constâncio, foi secretário-geral do Partido Socialista (1986/89). Acompanhava-os nos comícios, no fervilhar da política. Depois fechou-se a estudar. Grego antigo, alemão, Platão. “A minha geração foi a primeira que pôde viver acomodada no tipo de democracia ocidental que resultou do 25 de Abril. A política era uma questão que estava resolvida. Alguém já tinha feito o que era preciso fazer. Mais do que isso: a política tinha-se tornado uma questão burocrática. Não havia nada de heróico nem de decisivo nela. Como costumo dizer, não vivi os anos 90. Como se o mundo não existisse para mim. Eu podia estar alienado, para usar uma linguagem marxista, nas minhas preocupações existenciais.”

O poeta e cirurgião plástico João Luís Barreto Guimarães, nascido em 1967, diz o mesmo num dos poemas do livro Você Está Aqui: “Ninguém da nossa geração esteve na revolução; outros, antes de nós, fizeram as nossas guerras. Quando chegámos aos dias já a guerra havia sido (...) Para nós sobejou outra sorte de batalhas: levantar cada manhã o peso imenso das pálpebras, correr por um lugar na trincheira do balcão”.

O poema traduz um lamento, o individualismo, uma vida por vezes autómata. “Agora luta-se por o ter a casa, o ter o carro, o ter o telemóvel. Coisas concretas destituídas de idealismo”, diz Barreto Guimarães.

Algumas palavras caíram em desuso. Idealismo, por exemplo.

 

21.

Adeus escudo, willkommen Euro. As novas notas apareceram há 12 anos.

A vida subiu de preço. No supermercado e na bomba de gasolina, nos restaurantes e nos centros comerciais. Só uma coisa embarateceu, e muito: o preço do dinheiro. As taxas de juro eram tão baixas que só não tinha casa própria quem não quisesse (dizia-se). E já agora férias na República Dominicana (a crédito). E um segundo carro para a família (ainda a crédito). A banca, de motor da economia, passou a motor do consumo.

Foi o momento em que palavras como spread se começaram a usar todos os dias. E os bancos se sobre-endividaram (além do estabelecido nas regras de Basileia) a curto para emprestar a longo prazo.

O endividamento dos bancos portugueses no estrangeiro passou de 49% do PIB em 1999 para 96% em 2007.

Até que o Lehman Brothers tombou e a torneira estancou.

 

22.

Fomos nós que vivemos acima das nossas possibilidades? João Constâncio rejeita o que considera ser um discurso punitivo que se impôs depois da queda do gigante americano e em especial depois do pedido de resgate do Estado português. “Um discurso que faz as pessoas sentirem que desde a entrada na CEE até 2011 andaram a viver de uma herança de uma tia rica. E que têm de voltar a ser pobres porque Portugal é um país pobre.”

Do outro lado: os povos do sul são preguiçosos, desorganizados, perdulários. Há quem pense que, além destes atributos, são ignaros.

As crianças introduziram no seu léxico uma palavra nova: austeridade. E aprenderam, à força de ouvir os pais, os avós, a televisão, que o futuro podia não ser radioso. Que o mais provável é que não seja radioso.

Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se e empunharam cartazes onde se lia: queremos o nosso futuro de volta. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos. Reformados que se transformaram no esteio de milhares de famílias (apesar das pensões cortadas para metade). A classe média que vive no fio (por causa dos cortes para metade). Desempregados. Gerações à rasca. Não estavam as centenas de milhares que nos últimos anos tiveram que emigrar.

João Luís Barreto Guimarães especializou-se em reconstrução mamária de mulheres que tiveram cancro da mama. No hospital, no consultório, assiste a uma degradação rápida da jóia indiscutível que é o SNS, ao empobrecimento do povo. “É preciso saber ler os sinais. As pessoas andam tristes, estão a engordar, a envelhecer, têm sapatos cambados, roupa puída, semblantes zangados. Os doentes dizem: ‘Tenho diabetes, hipertensão arterial e insuficiência cardíaca. Deste três, qual é o menos grave? Porque só tenho dinheiro para comprar medicamentos para dois.’ A vida inteira trabalharam, confiando que o Estado era pessoa de bem e que um dia, quando precisassem da reforma, iam tê-la. O Estado pura e simplesmente está-lhes a falhar. Estica a corda sem introduzir o factor sentimental na regra económica.”

 

23.

- Onde é que falhámos?, o que é que correu mal?

- André Gonçalves Pereira: “Nada correu especialmente mal. A sociedade é o que é. Temos um regime aristocrático medíocre, em que o papel das famílias dominantes é desempenhado pelos partidos políticos. A nova aristocracia são os partidos políticos. É uma aristocracia de posição, não de ideias nem de nascimento.”

- Rui Pena Pires: “O que é que falhou no 25 de Abril? Nada. Nos últimos 40 anos, o que falhou mais foi o facto de continuarmos a ser o país mais desigual da Europa (agora menos do que a Bulgária e a Roménia – não é grande consolo).

- João Luís Barreto Guimarães: “Abril realizou-se? A resposta é não. Não se cumpriram os objectivos da revolução. A sociedade não cresceu como um todo. Aumenta o fosso entre os mais pobres e aqueles que enriquecem na proximidade do poder. Tenho a maior desconfiança da classe política. O pote vai voltar a encher? Temo que o regabofe volte.”

- Maria Manuel Leitão Marques: “Foi-se avançando com as maiorias políticas existentes. Seria bom que tivéssemos tido governos de maioria? Não os tivemos. Porque as pessoas não votaram assim nem obrigaram a que houvesse um pacto entre os principais partidos. Mas devíamos ter tido mais coragem e mais visão para em 1986 fazer reformas dolorosas. Por exemplo, de reestruturação empresarial (e não alimentar com fundos europeus empresas cuja competitividade era duvidosa, e que caíram agora como tordos). Isso tem custos. Há clientelas políticas que se perdem.”

- Irene Flunser Pimentel: “Correu-nos mal a Europa, como correu mal a outros países. Não foi a nossa inserção no projecto europeu. Foi o projecto europeu. Não fizemos uma união política europeia. Fomos pela via do dinheiro, e aconteceu o que aconteceu.”

- João Constâncio: “Até 2010, a evolução do país foi muito positiva. O que correu mal foi a resposta da Europa à crise das dívidas soberanas, que afectou em particular certos países da Zona Euro, entre eles Portugal. As coisas podiam ter tomado outro caminho. Um caminho que reconhecesse a assimetria que há desde início entre a periferia e o centro. As principais decisões foram tomadas segundo o princípio “cada um por si”.

- Alexandre Quintanilha: “Grande falhanço: é capaz de ser a justiça. Como se vê. Portugal continua a ser muito individualista e tem dificuldade na interdisciplinaridade. Pomos pessoas da Filosofia a falar com um cientista e há sempre um arrogante que faz troça, que acha que o outro não sabe o que está a dizer. Educação: é mentira que a escola pública seja má. Há de tudo, claro. Mas em todas as turmas que passaram por mim havia pessoas excepcionais.”

- Maria de Fátima Bonifácio: “A democratização do ensino foi calamitosa. Dizer que é a geração mais bem preparada de sempre dá-me vontade de rir. Fui professora universitária de 1980 a 2008. As pessoas podem ter diplomas que atestam a sua escolaridade, mas o nível de ignorância é assustador. Se houver 15% de alunos excelentes, é fantástico.”

- Nick Racich: “A confiança na justiça está abalada. Nos EUA, os Madoff vão para a prisão por 150 anos. Em Portugal, o povo tem a noção de que ao tubarão não acontece nada. Que o tubarão se safa. Os políticos estão a subestimar a importância da confiança na vida das pessoas. O sentimento de injustiça cria zanga, desapontamento.”

- Maria de Lurdes Rodrigues: “As ambições e expectativas vão sendo actualizadas, reajustadas. Todos os estudos apontam para ter sido o sector da justiça aquele em que a mudança falhou.”

- Pedro Magalhães: “É normal o cepticismo em relação à política, é saudável. Onde não vejo tanta saúde é na desconfiança em relação à justiça. Confiam na justiça 28% dos inquiridos. Na Dinamarca, confiam 84%. (Dados de 2010.) Isto é muito grave e preocupante. Tenho de confiar na justiça para resolver os problemas que tenho na relação com os outros, com o Estado. Se não confio na justiça, o que é que sobra? Na sondagem que se apresentou na Gulbenkian, 77% acham que estamos pior agora do que no antigo regime no que diz respeito à corrupção; 81% acham que estamos pior na criminalidade e na segurança.”

- João Taborda da Gama: “O 25 de Abril chega tarde. Se tivéssemos tido uma revolução dez, quinze anos antes tínhamos tido um desenvolvimento mais sustentado. Foi tudo feito muito à pressa porque teve de ser tudo feito muito à pressa. Por causa da Europa (que era o nosso quadro institucional e geoestratégico). Isso vê-se, por exemplo, no desastre urbanístico de Portugal. A marquise é o símbolo desse desenvolvimento.

Outros pés de barros: como povo, como comunidade, não fomos exigentes com o investimento público, as rendas excessivas, as instituições.”

- Henrique Granadeiro: “A classe média, conquista de Abril, está a sair pela porta dos fundos. O ar do tempo é claramente de fim de regime. As pessoas não têm confiança no Governo nem esperam grande coisa da oposição, e não olham para o presidente da República como defensor das instituições. Estamos a viver num puro sistema tecnocrático. Um sistema onde as decisões são tomadas mas onde não há política. Faz-me lembrar a frase que um anarquista mexicano pôs num mural: ‘Basta de realizações, dêem-nos promessas’. As pessoas precisam de um discurso político portador de alguma esperança. E mesmo de alguma ilusão.”

 

24.

Ainda que continuemos a ser Fátima, Fado e Futebol, não somos da mesma maneira Fátima, Fado e Futebol. O Fado é Património Imaterial da Humanidade, Camané, Carminho e Mariza enchem plateias no mundo todo. José Mourinho foi o melhor treinador do mundo, Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo. Fátima continua cheia, com uma basílica nova, mas o peso da religião é outro.

João Taborda da Gama foi discípulo de Saldanha Sanches, consultor de Cavaco Silva na presidência, tem cinco filhos. Não recebeu dos pais, Jaime Gama e Alda Taborda, uma educação religiosa. Converteu-se ao catolicismo na universidade. “Hoje a religião é um fenómeno mais reflexivo e menos ritualístico. Há uma queda dos níveis de participação religiosa, há uma secularização da sociedade, como em toda a europa. Mas aqueles que têm uma vivência religiosa têm-na de uma forma menos automática. É uma religião mais vivida, mais espiritual.”

E agora também temos Manoel de Oliveira, Paula Rego, Saramago, Siza projectados no mundo todo, cientistas entre os melhores do mundo. Em muitas disciplinas estamos entre os melhores do mundo.

João Constâncio: “Quando comecei a dar aulas, em 96, fazia o doutoramento quem era professor universitário. Tudo isso mudou imenso. A universidade produz uma elite, que é pequena, mas que apesar de tudo é muito maior do que era, e que tem uma dimensão internacional, está inserida em redes internacionais de investigação.”

 

25.                                                                                                      

O 25 de Abril foi a invenção do dia claro, para glosar o título de Almada Negreiros. Há muito que se perdeu a capacidade de sonhar, o impulso vital da juventude. O povo voltou a cantar Grândola Vila Morena. Lídia Jorge escreve em Os Memoráveis, livro-olhar sobre o 25 de Abril, que precisamos de uma nova canção. Escreve também: “Acha, então, que a mente humana está definitivamente formatada para se esquecer do bem? Para se esquecer dos momentos em que o anjo da alegria passa pelo mundo?”.

É isso. Passou por nós o anjo da alegria. Apesar de tudo, foi muito bonita a festa, pá. Resta saber como vamos cumprir o Portugal que falta.

 

  

Publicado originalmente no Público no dia 25 de Abril de 2014 

 

 

Bruno Nogueira

10.04.20

Tudo começou com um bastão, no Teatro S. Luiz. Se ele é capaz de se atacar com violência? Sim. Quantas vezes usa a palavra risível? Muitas. Como é que um rapaz que nem 30 anos tem é um dos maiores fenómenos da televisão portuguesa dos últimos anos? É o que vamos ver.

Bruno Nogueira nasceu em 1982. Um defeito? “Achar que todas as pessoas têm que pensar que tudo é risível como eu penso. Estar à vontade de mais. Ser teimoso. Ter muito pouca paciência para a burrice; não me refiro a pessoas que não sabem de política ou de história, mas a pessoas que fazem questão de complicar o dia a dia.”

Tem o descomplicómetro habitualmente ligado. Dizer que faz um humor corrosivo é pouco. É respeitador dos colegas (do estilo de dizer os nomes dos argumentistas que com ele habitualmente trabalham, e de sublinhar que provém do viveiro Produções Fictícias). Era possível entrevistar o Bruno Nogueira e o seu alter-ego Bruno Nogueira. Em qual é que ficamos?

  

Estamos no salão de Inverno do Teatro S. Luiz onde (mais a sério) apareceu. Aparecia com um bastão e dizia…

… “o meu nome é Bruno Nogueira e isso é uma coisa que me irrita.” Estávamos a começar o projecto Manobras de Diversão. Eu – se calhar tinha uma raiva contida que não percebia bem – começava sempre os meus textos assim.

 

Agora não usa o bastão, mas o seu humor tem uma violência indisfarçável. Não estamos tão distantes de alguns sinais que emergiam nesse Bruno de 18 anos.

A ideia do bastão terá sido minha. Era uma personagem que interrompia o espectáculo para expor as suas ideias mais controversas. No espectáculo funcionava. Na vida é mais perigoso.

 

No espectáculo continua a funcionar. N’Os Contemporâneos faz um arraso à Floribela-Luciana Abreu, que depois convida e recupera n’ O Último a Sair. É um exemplo do seu tipo de humor: violento, com nomes (o que é raro em Portugal), nada camuflado.

A Luciana, como o Roberto [Leal], como eu próprio, tem um lado muito risível. Havia nela coisas de tal forma expostas que servem o humor.

 

No youtube está o sketch no qual faz de Luciana, em África, à procura de uma criança descalça e faminta para adoptar.

Era um modo de levar até ao limite a ideia que se tem da Luciana. N’O Último a Sair, a Luciana, o Roberto são inteligentes o suficiente para usar isso em proveito próprio. O Roberto não precisava disto para nada, tinha a carreira mais do que feita. Aceitou porque percebeu que podia desmanchar a imagem preconcebida e cliché que tinha. Certinha, composta, o fato branco, Deus. O Roberto não deixa de ser isso, mas é outra coisa também – mais negro e divertido É um gesto de inteligência. Não sei se o teria.

 

Uma constante no seu trabalho, que tem n’O Último a Sair a sua máxima expressão: uma colagem entre a pessoa que é e a sua persona pública. Espreitamos pelo buraco da fechadura e aproximam-se a ficção e a realidade. Não sabemos onde está a barreira que as delimita.

Este paralelo entre a ficção e a realidade é o que me dá mais prazer fazer. Há um lado muito grande de improviso em que as pessoas estão a fazer delas próprias. Sempre conscientes de que aquilo é uma personagem. A linha entre a realidade e a ficção é tão ténue que é bom quando o espectador não percebe onde é que ela começa e acaba. Nós sabemos. Há coisas que digo que são apenas para servir o humor. Mas jamais serei capaz de fazer humor com uma coisa que é antagónica àquela que eu penso.

 

Se fosse um personagem como outro qualquer, e não o mentor do projecto O Último a Sair, como é faria o Bruno Nogueira?

Sempre trabalhei no campo de fazer de mim próprio. O achar que não há nenhum tema sagrado, que todas as coisas são passíveis de serem risíveis: a base da personagem seria essa.

 

Também nesta sala fez o seu primeiro espectáculo a solo. “Há imenso tempo que queria fazer um espectáculo no S. Luiz e ninguém me dava ouvidos. Comecei a namorar com a Maria Rueff e eis-me nesta sala, a fazer este espectáculo”. Porque é que diz estas coisas?

Seria estranho e delicado dizê-lo. Mas teria de ser eu a dizê-lo. Falando honestamente, acho que uma pequena percentagem de pessoas terá pensado isso, mas o objectivo era o humor. Não era uma boca. Como a Maria tinha notoriedade antes de eu ter começado, era uma realidade possível.

 

O público ainda não se tinha habituado a ouvi-lo dizer o pior sobre certas pessoas e às vezes sobre si próprio. Foi uma carreira planeada?, percebeu cedo que esse era o caminho?

Esse espectáculo, o Lado B e O Último a Sair foram planeados. Tudo o mais surgiu por acaso. A primeira vez que fiz stand up: no Chapitô, a mãe da Margarida Vilanova, que explorava o bar, queria fazer umas noites com leituras de textos. Fui lá fazer uma leitura em forma de stand up. Gostei da sensação, de ver como aquilo que eu dizia surtia efeito, provocava o riso. Tinha 16, 17. As Manobras: o Nuno Artur Silva tinha pedido a um colega meu textos, esse colega filmou-me a dizer esses textos. Textos sobre pacotes de abertura fácil. Não estavam à procura de actores, mas viram o vídeo e chamaram-me.

 

Ou seja, uma cassete que um amigo fez chegar ao Nuno Artur Silva fez com que fosse convidado para fazer as Manobras.

A partir daí, as coisas que foram surgindo foram sendo fruto umas das outras. A minha única regra, não só para trabalhar mas para a vida, foi só estar com pessoas em quem confio, acredito e com quem gosto de estar. E tenho de sentir que posso acrescentar alguma coisa.  

 

Mesmo não planeado, as marcas mais distintivas deste humorista já lá estavam. Como é que chegou a elas?

O meu pai tem o mesmo tipo de humor que eu tenho. Ou melhor, eu é que tenho o mesmo tipo de humor do meu pai.

 

Quando numa gala dos Globos de Ouro falou do Sr. do Bolo (Balsemão) e de puns, de quem falou foi da sua mãe, e não do seu pai.

Era como se fosse a minha mãe a dizer, mas não, [riso] era meu. O meu pai tem esse tipo de humor que não tem limites. A primeira vez que fui ao Levanta-te e Ri falei de nomes. Quando se falava de uma pessoa, dava-se sempre uma volta, arranjava-se um nome parecido. Não posso ser só bruto. Mas percebi que quando faço um discurso directo, quando chamo as coisas pelos nomes, [isso corresponde] à maneira como as pessoas pensam. Aquilo que dizem em casa, no carro, com a família, com os amigos, é trinta mil vezes pior do que alguma vez direi em palco. O pudor e os filtros que têm em público fazem com que sejam mais polidas.

 

Nesta altura da entrevista, quem está a ler, pode pensar que não tem sido senão polido.

Acha?

 

Muito cuidadoso, mais do que polido.

Se calhar. Inconscientemente. Estava a dizer que quando estamos em casa vemos uma notícia trágica e fazemos uma piada sobre o que se está a passar.

 

Já fez piadas sobre a morte de Angélico?

Não. Depende do bom gosto e do tempo. Está muito cru, ainda. Não há por onde pegar.

 

Quando foi a morte de Carlos Castro, no dia seguinte as anedotas eram às centenas. Isso tinha a ver com as pessoas em questão, com os contornos do crime? Simultaneamente estou a perguntar o que é que torna uma coisa imediatamente propensa à anedota.

Fiz um vídeo para agradecer os Monstros do [Fernando Alvim], disse uma piada: que tenho em relação ao Carlos Castro a mesma opinião que tenho acerca da aspirina: prefiro em pó. Depois disso veio um processo, da família. Há a ideia de beatificar uma pessoa depois que ela morre. Ou era um excelente actor ou uma excelente pessoa. Não ganho respeito a uma pessoa por ela ter morrido. Ponto. Não vale a pena estar a escarafunchar mais [a morte de Carlos Castro], mas é um tema tragicamente risível. Para mim e para milhões de pessoas. Não o dirão em público, certamente.

 

A partir do momento em que usa a palavra escarafunchar e o saca-rolhas foi uma das armas do crime…  

Para mim, todos os contornos são hilariantes. De a grande preocupação da família do Renato [Seabra] ser mostrar que ele não é gay, às correntes de apoio a um suposto assassino. A personagem [Castro], em vida, já era risível. O Angélico não era risível.

 

Foi no Levanta-te e Ri que se abriu ao público mainstream. Até aí estava no Curto-Circuito da SIC Radical, transformado em herói de malta nova. Voltando ao Angélico: o público que gostava de si podia ser coincidente com o público Morangos com Açúcar?

Há público que se cruza sempre. Há pessoas que gostarão de mim até eu falar de religião. Há pessoas que gostarão de mim até eu falar de gordos. Estamos sempre a ser avaliados. Estamos a ser avaliados à frase num espectáculo de stand up. N’O Último a Sair somos avaliados ao episódio. Pouco importa que o último tenha sido muito bom se o próximo for muito mau. A memória das pessoas fica no último. Essa pressão pode ser paralisante ou pode ser um motor.

 

A geração Morangos é conhecida pela preocupação com a imagem, o deslumbramento com a fama, a obsessão pelo sexo. No seu humor há um permanente ataque aos famosos. Eles parecem ser o seu alvo preferencial. Quando se inclui nessa categoria, pratica o género auto-depreciativo.

Em relação à geração Morangos: nada contra. Acho extraordinário se daí vierem mais talentos. Numa amostra tão grande, certamente não são todos canastrões. Há-de haver um ou outro que se salvará.

 

O Roberto Leal está a tomar conta de si. Essa seria uma resposta que ele poderia dar.

Acha? [riso] São caras com penteados estranhos (sou a pior pessoa para dizer isso), e mulheres com corpos já a aparecer. Passado um mês, todos dizem que não têm paciência para a fama, que os incomoda que os reconheçam na rua. Então não façam televisão! É um género.

 

Porque é que esse género o irrita tão particularmente, a ponto de sacar do bastão?

Porque são pessoas burras. Uma pessoa que não suporta ser reconhecida na rua não faz um trabalho visto por dois milhões de pessoas. Vai para um escritório, vai fazer teatro de rua, vai fazer o que quer que seja. Não é por serem figuras públicas que constituem um alvo; o que me faz comichão são aqueles que são famosos por serem famosos, como dizia o Sérgio Godinho. Porque aparecem. Porque não têm profissão. Porque são RP ou comentadores sociais. Não consigo conceber que ser comentador social seja uma profissão. A vizinha da minha mãe tem exactamente o mesmo trabalho. Só que não tem uma câmara à frente. Lado perverso: há público para isso. E a partir daí, fica-se desarmado. As pessoas querem ver os gordos a ser humilhados na televisão, pessoas a fazer figuras tristes numa tribo. Não consigo achar que muita gente a ver seja sinónimo de qualidade, ou que uma pessoa famosa que aparece na televisão tem mérito. Não tem mais mérito do que um sem-abrigo. 

 

Quis ser famoso?

Não. Quis fazer aquilo de que gostava, que era ser actor e fazer humor; e por acréscimo, e não me queixo disso, vem a fama.

 

Para estes que assistiam ao Bruno Nogueira no Curto-Circuito (esquecemo-nos que ainda não tem 30 anos…

Nem sei se vou lá chegar!, só faço anos em Janeiro.)

 

Para esses, era o “ganda maluco”. Deixou de ser o “ganda maluco” quando começou a fazer coisas nos canais generalistas e vocacionadas para um público mais abrangente?

A partir de certa altura, ser um “ganda maluco” deixa de ser um grande elogio para passar a ser meio-deprimente. Tive sempre a sorte tremenda de poder fazer na RTP aquilo em que acreditava. O Lado B não era um projecto para agradar a massas. N’Os Contemporâneos tentámos alargar mais o espectro. O Último a Sair tem o esqueleto de uma coisa generalista, de um Big Brother; mas o que se passa lá dentro é tal e qual o que eu gosto de fazer. Não facilitei. O João Quadros, o Frederico Pombares e eu escrevemos aquilo que achamos que tem piada. Posso dizer que até agora nunca ninguém tentou acalmar-nos.

 

Um projecto arrojado e com enorme violência de texto: Os Contemporâneos. Teria sido possível num canal que não o público? O seu humor é tão directo que tem consequências comerciais.

Num canal do Estado estou mais a salvo, por um lado; por outro lado estou mais sensível às críticas das pessoas do grande enigma que é o serviço público. (Ainda estou para tentar perceber, tal como o bom gosto, o [conceito de] serviço público). Provavelmente por ser na RTP tinha mais liberdade. Posso dizer que me ligaram uma vez de uma empresa e outra para a TSF [onde faço o Tubo de Ensaio]. Se eu podia repensar o texto que tinha escrito e no dia a seguir pedir desculpa... Eu disse que sim, à vontade, se pudesse dizer que tinha havido aquele telefonema.

 

Esses nomes é que nunca aparecem. Está muito dinheiro em jogo.

Estará? Mas posso dizer: ligaram-me da TV Cabo.

 

Todos nós já dissemos mal da TV Cabo.

Fiz um texto porque o serviço de apoio a clientes era mau. Paga, não consegue ver, está uns dias sem ver televisão, mas paga a factura integral; dizem que vão descontar, mas depois nunca descontam, e depois enganam-se outra vez, e depois… Às vezes, as pessoas põem-se um bocadinho a jeito. Têm de perceber que não há nada intocável, seja uma empresa, seja uma pessoa.

Há pouco tempo fui fazer uma gala da Liga Portuguesa de Futebol. Nunca na vida tinha visto tantas pessoas numa sala com tão pouca vontade de viver. De viver, de rir, de tudo. Reinava o medo! O medo do que se iria dizer a seguir.

 

O patrocinador zanga-se e corta – é isso?

É-me indiferente. As pessoas estavam era com medo que se falasse delas. Tanto que depois houve queixas sobre o tipo de humor. Uma coisa é estarem cem pessoas e serem três assim. Outra coisa é estarem cem pessoas e serem 95 assim, sem o mínimo espaço para rir.

 

Uma situação idêntica à de Ricky Gervais, quando apresentou os Globos de Ouro de 2011 e foi acusado de ter ido longe demais. Parece certo que não o convidam no próximo ano. Acha que o vão convidar para apresentar a gala da Liga Portuguesa de Futebol no próximo ano?

Se me convidarem para fazer o tipo de humor em que acredito, sim, se for para passar paninhos quentes em pessoas que não conheço de lado nenhum, não, não me interessa nada. O Ricky Gervais fez uma coisa inteligentíssima. Ali estavam 300 pessoas a assistir; em casa estavam milhões. Ele estava a fazer para casa. Em casa, adoraram. Disse as coisas que nós dizemos em casa. As pessoas que estavam na sala estão habituadas a que lhes passem a mão pelo pêlo. Mas não precisam. São famosas, têm dinheiro.

 

Têm segredos. Esse é o busílis?

Têm segredos e pontos fracos que acham que ninguém vê. Há coisas que, mesmo sendo muito transparentes, não gostamos que toquem nelas.

 

Começa a olhar para onde, para fazer a desconstrução e ver o potencial cómico de uma pessoa?

Se for uma figura pública, são uma série de antecedentes que são risíveis. Quando fiz um sketch a brincar com o Jorge Jesus n’O Último a Sair, toda a gente sabia que o Jorge Jesus se ia espetar ao comprido no português. Cada pessoa será diferente, não há uma regra. O José Rodrigues dos Santos pisca o olho no fim.

 

Confesse que em casa lhe chama “orelhas”.

Orelhas. Já chamei? É provável. Mas ele fez uma operação, dá-me ideia que sim, preste lá atenção no Telejornal, tem as orelhas no sítio. Mas por acaso não chamo “orelhas”. Não me é hostil. Irrita-me o piscar de olho, pronto.

 

Convenhamos, “orelhas” é muito soft.

Bem, em casa não sou um estivador! [riso] Sendo o humor a minha profissão, não quer dizer que em casa esteja sempre a praticá-lo.

 

O Dinis Machado tem no livro Reduto Quase Final uma crónica com um título que se transformou numa divisa perante a vida: “Qual é o lado mais cómico disto?”. Subscreve-la?, está sempre à procura do lado mais cómico de uma situação?

Sim. O humorista deve ter a capacidade de ver tudo através de (acho que era o Raul Solnado que dizia isto) uma lupa que torne as coisas normais em coisas risíveis. Uma pessoa que olhe para uma cadeira e um extintor não percebe que haverá um potencial cómico nelas.

 

Numa cadeira?

Pode haver. Se se dedicar a isso, acredite que pode fazer um texto de humor sobre uma cadeira.

 

Nessa crónica, Dinis falava de coisas como tropeçar e partir o dente da frente, de ficar nessa linda figura.

O grande triunfo do Obama, não em termos políticos mas em termos carismáticos, é ser uma pessoa descontraída. Passa a imagem de quem não tem um lado cinzento, quadrado. O que torna risíveis muitos políticos é o facto de se levarem tão a sério, não saberem sair de certas perguntas e situações com que são confrontados. As pessoas já não têm paciência para este tipo de políticos.

 

Acha Passos Coelho um pitéu em termos humorísticos?

Um pitéu?, agora fiquei assustado…

 

Por ser composto, engomado.

Menos composto e menos engomado do que José Sócrates. Sócrates é um personagem muito fácil de caricaturar. Pela intransigência, pela falta de jogo de cintura. Passos: ainda é muito cedo. A classe política está sempre exposta a levar tareia.

 

Está a ser muito politicamente correcto. Não se acredita que olhando para os novos ministros não tenha esfregado as mãos de contente com um ou outro.

Não tenho necessidade nenhuma de ser politicamente correcto. Ainda não me inteirei da pasta [risos]. O caso Fernando Nobre é um caso risível.

 

Na tarde em que falamos, segunda-feira, renunciou ao seu cargo de deputado.

Foi? Devia ter sido há mais tempo. Tinha uma grande estima por ele. Quando passou a ser político, houve qualquer coisa que se desmanchou.

 

É verdade que os políticos não são um alvo constante.

Nem política, nem futebol, nem sexo.

 

Porque não? São temas inesgotáveis.

Política é um tema chato. Sexo é um tema fácil demais. Já sei que se for para uma sala no norte e fizer um texto em que digo mal do Benfica, está ganho. Mas não me interessa.

 

O verdadeiro artista é o que é exigente consigo?

Não estou a dizer que escolho temas melhores. Interessam-me outros. 

 

O verdadeiro artista é o que escolhe temas desafiantes, campos adversários?

Não pego nesses temas porque, enquanto espectador, não os acho risíveis.

 

Segundo a wikipedia, mede 1.94.

Cuidado com a wikipedia. Há uns tempos dizia que eu vivia com dois gatos. Não suporto gatos! Mas um metro e 94, está certo.

 

A tradição dos humoristas em Portugal era baixinhos e gordinhos. Solnado, Nicolau Breyner, Herman.

Fernando Mendes.

 

Os dois humoristas mais notados da sua geração são altos e magros. Onde quero chegar é à utilização do seu corpo como matéria para o humor. Não é exactamente o seu tipo de humor. Buster Keaton fazia-o mais. Mas conta sempre com o impacto físico que causa.

Não só isso, como uma série de situações em que me vejo envolvido e onde a minha altura constitui um problema. Desde andar de avião a estar numa cozinha de uma maneira normal. Mostrar o ridículo do tamanho destas pernas é um tema que domino. Também a magreza. Bato-me pelo tema: porque é que não se pode chamar gordo a um gordo?

 

No programa chamavam gorda a uma gorda.

Porque é que é de mau tom chamar a uma pessoa gorda?

Ser gordo não era sinal de formosura?

 

Mas agora que dizer que se pode ter ataques do coração.

E eu posso morrer de fraqueza! [riso]

 

Um dos gangsters d’Os Sopranos tinha uma mulher muito gorda, mas muito gorda. Estavam a jogar cartas e ficou danado porque fizeram troça do tamanho da mulher. Ficou ainda mais danado quando chegou a casa e viu que andava a matar homens, ou em vias disso, e que ela furava a dieta!

E comia! A desculpa tem sempre a ver com o metabolismo, com qualquer coisa assim. O mundo é feito para as pessoas emagrecerem. A seiva, os comprimidos…

 

Mas como é que sabe da seiva?

Porque sei! Porque é um assunto que me incomoda. Quem é gordo tem mais opções para resolver a sua gordura do que quem é magro. Todas as pessoas que se queixam do peso comem que nem uns animais. Também me vai perguntar se como mal? Não, como que nem um animal. O meu metabolismo é assim.

 

Quando era criança, como é que seduzia as pessoas à volta?, pela graça?

Sim. Era muito tímido. Seis, sete, oito, nove anos, era gordinho, tipo bolinha.

 

Era “o badocha” apontado pelos colegas da escola?

Era bochechinhas, mas não fazia pregas nos braços. De repente, aos 16, houve uma coisa estranha no meu corpo e cresci. Parei no um metro e 94. Mas sim, era com o humor [que seduzia as pessoas à volta]. É um cliché, todos os humoristas dizem isto. Era um cartão de visitas para angariar mais amigos, para me safar de situações. Eu era aquele que provocava um amigo, que fizesse coisas parvas, que o punham de castigo. Do tipo: ver quem é que consegui dar com mais força um pontapé numa mesa onde estava um aquário. Ficaram cerca de 40 peixes espalhados pela sala, a morrer. [tosse seca] Era a minha forma de interagir. Não sabia fazer de outra maneira. Tenho dificuldade em ter uma conversa sem recorrer ao humor. Escudo-me. Dá-me a impressão de tornar a conversa mais interessante.

 

Conversa interessante?

Como dizer? Era como se eu fosse mulher e me viessem falar de roupa ou sapatos. Teria de recorrer a outra coisa para não ensandecer. São temas que não me interessam. Mas não é de bom tom terminar a conversa e dizer: “Essa conversa não interessa naaaada. Mas a ninguém, no mundo. Muito menos a mim. Portanto vou-me embora. Quando houver um tema interessante voltamos a falar.”

 

Só seria anti-social fazer isso. Mas não insano.

Tenho um bocado disto. Toda a vida vivi e trabalhei com pessoas mais velhas. Para os temas de que falavam as pessoas da minha idade, não tinha paciência.

 

Se as pessoas estão à espera do Bruno Nogueira, dá-lhes o Bruno Nogueira? Confesso que estava à espera que fosse mais o personagem, que tem muita graça e mete a punch line nos momentos certos.

Tem duas pessoas que pode entrevistar: pode entrevistar-me a mim ou a ideia que têm de mim. A ideia que têm de mim corresponde a isso. Isto sou eu sem pensar na ideia que têm de mim. Se me entrevistasse durante as gravações d’O Último a Sair, em que estava a fazer de mim, provavelmente seria outro tipo de discurso. Seria mais interessante? Se calhar. Mas não seria uma entrevista a mim.

 

Aquele que é, tanto quanto se vê, não quer ser apenas o humorista…

A atirar ao intelectual. [riso]   

 

Não por acaso, quando faz uma peça com a Cornucópia interpreta textos de Aristófanes. Com muito palavrão e tal. Mas Aristófanes. E sob a direcção de Luís Miguel Cintra.

Disse “intelectual” a brincar. Gosto como espectador, mas não era uma coisa que andasse desalmado para fazer.

 

Não precisa da caução dos intelectuais, da Cornucópia?

Não. Fico muito contente se vier, mas não me move. Assim como eles não precisam da caução da comédia para nada.

 

Em todo o caso, raras vezes um público tão jovem lotou o S. Luiz para ver Aristófanes. Evidentemente, era também um público que ia ver o Bruno Nogueira. 

Muitas pessoas iam para ver uma coisa e acabaram a ver outra. Não era uma coisa que ambicionasse. Claro que ter o Luís Miguel Cintra a encenar é um grande privilégio, aprende-se imenso, acrescentou-me muito enquanto actor. Mas foi pela experiência que fiz. Se o convite não tivesse nenhum, não faria.

 

Foi um actor dramático, e aplaudido, numa peça encenada por Beatriz Batarda, Azul Longe nas Colinas. Interessa-lhe não ser apenas o humorista?, quer ser o actor completo?

Interessava-me experimentar. Foi um convite. Jamais teria a iniciativa de fazer uma coisa dramática. À partida, não é por fazer uma peça dramática que se prova alguma coisa a alguém. Prova-se que se consegue fazer aquilo, mais nada. O risco é em grande parte da Beatriz. O papel mais sensível da peça é feito por uma pessoa que tem o carimbo da comédia. Ser no Nacional [Dona Maria] ganha outro peso. Mas ter conseguido extrair de mim aquilo é mérito dela. Fico orgulhoso de o ter feito.

 

Tem uma mãe como a do Herman que assiste na primeira fila e diz: “És um bom artista, não tinhas necessidade”? A sua mãe pergunta-lhe porque é tão violento?

A minha mãe e as vizinhas gostam muito d’O Último a Sair. É um barómetro para perceber coisas. Às vezes tem medo que me aconteça alguma coisa. Que alguém se passe e me dê com um barrote na cabeça. Tudo pode acontecer. Sei lá. Na gala da TV 7Dias, como estava um ambiente estranho, agradeci o prémio a uma pessoa que já tinha falecido, mas que ia ficar muito feliz por eu estar ali, que era a minha mãe. Fiz aquilo só pelo gozo de perceber a reacção das pessoas. [riso] Ficou um gelo na sala. Um silêncio de cinco segundos. Depois disse: “Estava a brincar, era só para aliviar o ambiente”.

 

Terão pensado: nem a mãezinha poupa.

Sim, sim. A minha mãe adorou!, fartou-se de rir. Contei-lhe, podiam ligar-lhe. Tenho muita sorte, não me lembro de uma única vez me terem censurado. O núcleo duro sou eu, o meu pai, a minha mãe e a minha irmã. Entre nós não há qualquer espécie de pudor.

O meu pai tem 69 anos. Plantou recentemente um jacarandá. Que demora uns certos anos a dar flor… Disse-lhe que era arriscado plantar um jacarandá aos 69 anos à espera de ver as flores… Seria o mesmo que o Manoel de Oliveira pôr um aparelho nos dentes. Já não faz sentido. Tudo bem, mas que faça primeiro o testamento. Digo isto obviamente a brincar.

 

O testamento? Deve ter mais dinheiro do que o seu pai. Ganhou montes de massa. Está rico?

Estou bem. Não estou rico. Ser rico é outra coisa. Ser rico é olhar para uma casa e comprá-la. Ser rico é o Ronaldo. Apetece-lhe uma casa para os seus pais, e nem olha [para o preço]. A extravagância que fazemos – ir a um supermercado, comprar uns iogurtes e não olhar para o preço – é o que ele faz com carros.   

 

O seu pai tem também dinheiro? Situe socialmente a sua família.

Uma família de classe média. O meu pai trabalhou durante muito tempo numa empresa que representava a Philips em Portugal, a minha mãe trabalhava na Gás Portugal. A minha irmã ficou a trabalhar onde o meu pai trabalhava e foi modelo durante muito tempo. Não tem 1.94. São os três muito, muito bonitos. Fui o único a degenerar na família.

 

Diz isso a sério?, sentiu-se o patinho feio?

Não, estava só a fazer género. Mas houve uma fase complicada em que o meu pai me levava a um barbeiro que me cortava o cabelo à Beatriz Costa. Era uma taça na cabeça e era gordinho e não escolhia as minhas roupas. [diz num tom gozão] Vejo fotografias e percebo alguma coisa da minha exclusão pelo ar que tinha. Um ar de demente, de pató, um nerd. Depois passei por uma fase bimba em que usei champô de camomila porque queria ficar louro. Devo ter usado demais e fiquei com o cabelo cor de laranja.

 

Já estamos na personagem Bruno Nogueira.

Não, não, é verdade. Foi uma fase muito estúpida em que pensei que o estilo estava ligado à cor de cabelo. Depois passei pela fase das marcas, porque fui para a escola secundária do Restelo. Quem não tinha um cavalo, um crocodilo no peito... A minha mãe ainda me comprou duas ou três coisas. Depois mandou-me ir trabalhar. Quando comecei a fazer teatro (é uma coisa que me faz comichão nos dentes no meio do teatro…, só andarem com cores escuras), só vestia preto e calças de bombazina castanhas. Parte de ser artista era aquilo que se vestia.

 

Quem é que foram sendo os seus modelos?  

O Herman. Esteve 30 anos a fazer do bom e do melhor. Ao fim de 30 anos é normal entrar em velocidade cruzeiro, com picos de genialidade, como sempre terá. Os Monty Python; vi uma reposição, era tão estranho que adorei. O Seinfeld, o Ricky Gervais, uma série de stand up comedistas. Tinha fetiche por alguns actores. Fui ver o Miguel Borges numa peça dos Artistas Unidos, Primeiro Amor, seis vezes.

 

Texto de Beckett. A peça era sublime. É compreensível que tenha ido seis vezes.

Seis vezes. Tive a sorte de, desde muito cedo, estar perto de pessoas que admirava muito. O António Feio, o Miguel Guillerme, o Herman, a Maria [Rueff], o Nuno Lopes, o Ricardo [Araújo Pereira], o Zé Diogo Quintela.

 

As pessoas acham que são dois galos para o mesmo poleiro. Dá-se realmente bem com o RAP?

Sim. Falamos sempre quando se escreve qualquer coisa sobre isso. A última era muito boa: eu vestido de Pepsi e ele de Coca-Cola. As pessoas precisam de criar rivalidade. A paz nunca vendeu.

 

O que é que o faz perder a cabeça? O que é que o faz ter vontade de pegar no bastão? Parece, estranhamente, muito racional.  

Está muito surpreendida comigo enquanto pessoa, não está? Ficou desapontada? Há pessoas que me abordam na rua com a falsa intimidade que a televisão provoca. As pessoas acham que no dia a dia estou em personagem! O que eu faço em palco, especialmente em espectáculos ao vivo, é o que eu gostaria de ser. Tanto no à vontade como na rapidez. Não sou aquilo na vida. Mas gostava. Também gostava de ser aquilo. No último espectáculo, no S. Jorge, estava em cima do palco a pensar como gostaria de ser aquela pessoa. Na vida não temos 800 pessoas a olhar para nós, acomodamo-nos mais.

O que é que me irrita? A falta de educação. Sem ser essas coisas? Mas isso tira-me do sério. Se tocassem na minha família, [perdia a cabeça].

 

Não acredito que não tenha ouvido sobre a sua irmã “a gaja é boa”.

Ah, mas sobre isso já me ri. Até ouvi pior. Depende da forma como é dito. Se é dito para ofender, à pedreiro, é uma coisa. Se é dito de igual para igual, no meu tipo de humor, é outra.

 

 

Publicada originalmente na Revista Pública, em Julho de 2011

 

Júlio Machado Vaz

05.04.20

Por fim, pergunto o  que é que o pode fazer viver com leveza. E ele responde coisas arrancadas à vida de todos os dias, tesouros banais: «Cantelães ao entardecer, a família reunida, um sorriso de mulher depois do amor. Mas em geral, viver é para mim um gozo lento, feito de tropeços. Habituei-me a isso, deixou de ser um drama. Drama seria parar».

Júlio Machado Vaz tem uma pacificada urgência de viver. Psiquiatra, comunicador, pai, filho, deitou-se literalmente no divã no livro «O Tempo dos Espelhos», experiência autobiográfica que o revela enquanto homem. Ei-lo, a céu aberto.

 

Há um tom "amarcordiano" no seu livro «O tempo dos espelhos». Todas as infâncias se parecem?

Não, não creio. Mas sou capaz de (quase) concordar no que às fantasias adultas acerca delas diz respeito. Com frequência suavizamos cores, recordações, feridas..., idealizamos, enfim! Os que podem, claro. Há infâncias tão agudas que não permitem o aparar de arestas.

 

Há um momento em que se percebe que se é mortal. A morte está, também, nos livros do Roth que lê, no Beatle Harrison que idolatrou, na família que parte mas que fica no coração. A hipocondria "esconde uma tristeza solitária". Como ultrapassar o medo?
Tem razão, o medo não desaparece, enfrenta-se. Neste caso, os anos trouxeram, como digo no livro, a pacificação pela mudança de acento tónico - do medo de morrer passei ao medo relacionado com o processo de morte. Essa mudança fez-me valorizar ainda mais a vida, que saboreio hoje como nunca o fiz no passado. Também porque o afunilar do caminho me "obrigou" a rever prioridades, exigências, caprichos. Compreendo hoje melhor uma frase do Eugénio de Andrade, solta em conversa banal: "Agora tenho tempo para os amigos, a música e os livros, o resto varro-o sem remorsos".

 

A psicanálise desencadeia, inevitavelmente, uma viagem interior, e um (ir)reconhecimento no espelho. Por que é que fazer análise mudou a sua vida? Por que é que ser psiquiatra mudou a sua vida?

A análise transformou uma comodista "vítima das agruras da vida" num homem responsável pelo seu destino, pese embora as limitações que a todos tolhem algumas opções. A psiquiatria foi uma escola de vida inigualável, pela extraordinária paleta de afectos e comportamentos que pôs sob os meus olhos. Trinta anos depois, as pessoas continuam a fascinar-me pelo sol e sombra que me depositam no colo. Na minha profissão existe o cansaço mas não a rotina.

 

O que é que, no seu mapa afectivo, reconhece como casa? A sua casa em Cantelães, lugar de chegada, é assumida como um "reinventar das origens". Mas no livro fala abundantemente dos seus lugares. A memória é o lugar que tudo acolhe...

Cantelães é "a" casa. Pelo que significa de chegada após um trajecto de vida e de trampolim para o que dela resta. E pelo privilégio de ter sido desenhada por meu filho mais velho, que melhor garantia poderia ter de que a lenda familiar continua a tecer-se? Mas outros lugares permanecem enroscados na memória, como este apartamento em que escrevo ou a casa de Anselmo Braamcamp. Como cantava Lennon e eu citei em «Muros»: "There are places I'll remember, all my life..., but I love you more".

 

As novas configurações da família, com a chegada e a partida de novos elementos, são um desafio. Fala de ser uma argamassa que une gerações...

Os netos foram e são uma festa indescritível. Mas, correndo o risco de escandalizar alguns, o "núcleo duro" da minha vida afectiva continua a ser preenchido por meus filhos. Porque vivemos a trio tanta coisa durante tanto tempo que será impossível experimentar algo de semelhante. Sei-o com a mesma certeza que me faz dizer que nunca a nível profissional me voltarei a aproximar do supremo gozo de fazer «O Sexo dos Anjos». Há geografias afectivas únicas, que não temem comparação, assim fomos - e somos! - eu, o Guilherme e o João.

 

Define-se como um "sub-depressivo". É fácil olhar para si, desde sempre, como sendo um melancólico, outonal, ventoso, nado e criado entre as brumas do Porto. Esse berço moldou-o?, e de que modo? 

O Porto é assim - esplendorosamente cinzento, pudera eu dizer o mesmo! O afecto sub-depressivo nunca me impediu de apreciar o milagre de estar vivo ou de  rir de mim próprio, condição sine qua non do humor, característica indispensável para suportar este mundo avesso à transcendência em que vivemos. Acresce que conheci a depressão "por dentro" e saí de novo para céu aberto. Que importa se não comungo de risos fáceis e por isso - para mim - menos preciosos? Os amigos não se queixam, os amores não falharam por isso, a profissão não sofreu, bem pelo contrário! É quanto basta.

 

O que escreve agora no seu diário, nem que seja sob a forma de blog, é substancialmente diferente do que escreveu nas páginas do seu diário que ofereceu a Eugénio de Andrade? Ou seja, é um homem diferente? O que o fez assim?

Sou um homem mais pacificado, logo, mais aberto por menos paranóico. Fez-me assim a vida vivida, com as respectivas nódoas negras e "medalhas". Quando escrevo textos pessoais no blog sei que alguns entenderão e outros rumarão a outras paragens por não lhes interessar. Há muito que abandonei a nostalgia de agradar a todos. Bem assim como a de gostar de todos... No fundo, já não preciso da aprovação alheia para me sentir alguém, não aspiro a reconhecimento público, embora o aceite com gratidão. Faço o meu caminho com os outros, apesar dos outros e não para os outros.

 

O seu pai perguntava se o seu querido filho não se deixava arrastar pelo prazer da frase... E fala disso como um epitáfio que lhe assentaria. Mais do que escrever um romance, quis fazer da sua vida um romance?

Nunca por uma ambição estética. Neruda confessou que viveu e isso resume tudo. Poderia ter eu vivido mais? De uma forma menos sofrida? Mais cedo? Seguramente. Mas não é tempo de lamentos, e sim de viver o que resta o melhor possível. A minha vida não foi nem será um romance apaixonante para os outros, de tão banal. Mas continuará a ser vivida apaixonadamente, como merece.

 

Este livro-introspecção é de um inesperado despudor, inclusive físico. Falar de entranhas, exames à próstata, minudências da higiéne, revela que superou o nojo?

O físico nunca me inspirou nojo, não partilho o horror judaico-cristão pelo corpo e seus caprichos ou meros rituais. Quando me vejo ao espelho não traço uma linha imaginária entre Espírito e Carne, "vejo-os" entrelaçados. O pudor que reduziu a metade «O Tempo dos Espelhos» foi relacionado com os outros e o seu direito a uma privacidade que procurei salvaguardar religiosamente. Tarefa difícil num livro autobiográfico. Não existimos numa campânula de vácuo afectivo e corporal. A minha própria exposição não me preocupou. Aceito que alguns a considerem até exibicionista, escrevi tão fundo quanto sentia necessário e ponto final.

 

É "o grande comunicador que ama cada vez mais o silêncio, que ama as crianças em pequenas doses". Paradoxalmente, parece haver de si para si um biombo. Pode ainda perder-se? Derrubar paredes, abrir comportas...

Posso perder-me, mas não através do meu estatuto de comunicador. Esse está cada vez mais delimitado e reduzido, pode viajar frenético mas nos carris que lhe imponho. A perder-me, será - com muito gosto! - nas suas margens, no leito do outro, que verdadeiramente sou eu e não uma imagem no ecrã ou uma voz na rádio.

 

Sabe que "descrever-se como fracassado é um exagero histérico". Diz que acalentou sonhos faraónicos no passado. Decretou falência porque, afinal, a vida foi outra e não aquela que idealizou. Proponho um exercício: mais que tudo, como falarão de si as pessoas quando partir? Consegue antecipar, ou tem pavor disso, ou não lhe interessa?

Cada vez me interessa a memória de menos gente. Mas a dessa..., apavora-me! Quero ser recordado como um bom pai, um bom amigo, um bom professor. No amor, ao menos!, como um filho da puta bem intencionado. Quando essas pessoas morrerem, aceito viver ainda um bocadinho no imaginário das que as terão ouvido, depois será o nada. Como para quase todos, afinal, o génio não existe por aí ao Deus dará e um nome na esquina de uma rua não garante doce recordação ou juvenil curiosidade.

 

 

Publicado originalmente na revista LA Mag em 2006