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Anabela Mota Ribeiro

Berlim, cidade dos anjos

27.04.20

Começo por Potsdamer Platz. É um aglomerado de edifícios cuja arquitectura fere por ser tão exuberante. Não há vestígios do tempo (recente) em que esta era uma terra de ninguém. Nem do outro, mais longínquo, em que era uma das praças mais animadas da Europa, com os primeiros semáforos, automóveis e eléctricos. No cruzamento de linhas há hoje um pedaço do Muro, com inscrições nas duas faces – uma referência que serve a curiosidade dos turistas que querem saber onde acabava a Berlim Ocidental e começava a Oriental. Ver o muro de um lado e do outro, circundá-lo, parece o mais simples dos caminhos; e contudo, é o resumo de uma impossibilidade que se desfez.

Quando Wim Wenders filmou «As Asas do Desejo», o mundo terminava no Muro. Em 1987, dois anos antes do desmoronamento de um tempo, o realizador não podia prever a reunificação das duas Alemanhas e, sobretudo, que a topografia que o filme registava estava na iminência de desaparecer. Uma das cenas mais tocantes do filme é, justamente, quando um velho, narrador da História, vagueia por um imenso descampado, onde não existe nada, senão a sua memória do que ali se passava. Ele procura: «Não consigo encontrar a Potsdamer Platz, isto não pode ser Postdamer Platz». “Isto” é a terra devastada que percorre, ao mesmo tempo que lembra que ali, no centro fervilhante da Potsdamer Platz, ficava o Café Josty, onde à tarde se conversava e observava o público, e se fumava o tabaco comprado numa tabacaria de renome. «Não desisto enquanto não encontrar Potsdamer Platz».

Chego à Potsdamer Platz à hora de almoço. Talvez seja excessivo dizer que me parece um olho de vidro incrustado num lugar onde antes se via de verdade. Mas a Potsdamer é mesmo uma cidade de vidro que tem no centro o complexo Sony (a sede europeia é aqui), do outro lado da rua o edifício DaimlerChrysler, um centro comercial, um casino, a maior sala de espectáculos de Berlim, 17 salas de cinema e uma escultura de Jeff Koons dedicada a Marlene Dietrich (é uma flor azul fosforecente, como ela foi no cinema). O investimento que reconverteu a praça foi de 17 mil milhões de euros. Em nenhum outro lado se construiu tanto nos anos 90. Porque é que nada disto me espanta?

À hora do almoço, a Potsdamer está razoavelmente vazia. O Café Josty – outra incrustação, desta vez no interior na Praça Sony – tem uma esplanada pindérica e uma família a comemorar o facto de estar na esplanada do Café Josty, onde à tarde se conversava e fumava tabaco de renome.

Prefiro o café que fica no rés do chão do museu do cinema e que se chama Billy Wilder. A amostra não podia ser melhor: fotografias pelas paredes imortalizavam Charles Laughton e Marlene em «Testemunha de Acusação», Audrey Hepburn em «Sabrina», Shirley MacLaine, de meias verdes, em «Irma la Douce». Havia até um cocktail chamado «Sunset Boulevard». Mas a menina que me atendeu não tinha ideia sobre quem era Billy Wilder. Virei as costas ao “Willkommen, willkommen” da Potsdamer Platz e segui para o Monumento ao Holocausto, muito perto dali.

 

Se à época existisse, Wim Wenders teria escolhido este espaço para o encontro e desencontro de pessoas de carne e osso. É um labirinto ondulante, composto por 2700 blocos de pedra, que assinalou os 60 anos do fim da Guerra. Não há neles qualquer referência aos milhões de judeus que morreram naqueles anos – vozes discordantes criticam o facto de ser um memorial demasiado abstracto... Nem há nesta sequência uma ideia de pedras tumulares. O arquictecto americano que o criou gosta de pensar nele como espaço intregrante da vida dos berlinenses. Peter Eisenman preferia que fosse usado para encurtar caminho, por exemplo, mais do que “uma experiência sagrada”.

A minha primeira experiência foi arrepiante. Era quase escuro quando mergulhei no labirinto. À superfície vê-se uma sucessão de pedras desiguais, mas não se percebe que há um afundamento a seguir. Não se percebe que se cai no abismo (no horror de que somos capazes?). Podemos seguir o caminho que quisermos e fazêmo-lo com segurança, porque não temos dúvida de encontrar a saída, de nos salvarmos a qualquer instante. O que tornou a minha passagem sagrada foi o som de um violino que distingui ao fundo, e que me fez procurar por entre as pedras o ponto exacto de onde ele vinha. Era um som tristíssimo, que chamava e contagiava. Quando o encontrei, vi um jovem, parado, com uma criança que teria dois anos nas suas costas. A criança olhava para o céu de chumbo e o som era cada vez mais pungente. A perfeição daquele momento levou-me novamente ao filme de Wenders, à perseguição da inocência. Quase estraguei tudo quando lhe perguntei se o podia gratificar. Mas ele era apenas um rapaz americano, judeu, que prestava tributo à sua gente, e que, findo o prazer da música, enfiou o violino na caixa e partiu.

No dia seguinte, dia claro, voltei a mergulhar no Memorial. Devia escrever “atravessar” em vez de “mergulhar”, porque usei-o como atalho para chegar ao outro lado da praça.

Esta experiência, (corriqueira, mas sensorial), estaria vedada aos anjos de «As Asas do Desejo». Recupero um diálogo maravilhoso entre Damiel e Cassiel num descapotável que está para venda. «Mas às vezes farto-me desta existência de espírito. Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à terra. Sentir o agora, jogar cartas, ser cumprimentado, nem que fosse com um aceno, chegar a casa cansado, ter febre, ficar com os dedos sujos de ler o jornal. Supor em vez de saber sempre tudo. Comer borrego assado e beber vinho, sentir os pés descalços. Poder dizer “ah, oh”». Estes anjos querem experimentar o espanto, provar o sabor do café quente, sentir o vento frio na cara.

 

Há vinte anos, o realizador alemão Wim Wenders vestiu os seus anjos de sobretudo e pôs-lhes o olhar nostálgico de quem perde o caminho e se quer achar. A Berlim que então filmou já quase não existe. Persistem os fragmentos da vida de todos os dias: a discussão conjugal, a família árabe com crianças no banco de trás, aquele que no metro se preocupa com questões prosaicas, “Como vou pagar, com a pensão pequena que tenho...?”, aquele que se ocupa de questões existenciais, “Porque estou vivo?”. Ou aquele que se esvai em sangue, depois de um acidente, e enumera o que deixa por fazer ou aquilo por que vale a pena viver: “O cruzeiro do sul, Stromboli, as casas antigas de Charlottenburg, Albert Camus, a luz da manhã, nadar na cascata, os olhos da criança, o saltitar, os nervos das folhas, o ondular da erva, a paz do domingo, andar de bicicleta sem mãos, a bela desconhecida, o meu pai, a minha mãe...». Há uma parte de «As Asas do Desejo» que ficará para sempre, por mais que a cidade seja reconfigurada. Aquela que diz respeito à procura, à densidade que é própria do humano.

Todo o filme se passa na Berlim ocidental, erguida sobre os escombros da Guerra. Todos estamos ainda incrédulos_ como foi possível? A banalidade do mal doi. Se o povo alemão não fosse tão perseverante, tão organizado e tão rico não seria possível reconstruir a cidade em 60 anos, e agora, depois da queda do Muro, em 18 anos. Há nos mercados de rua vestígios dessa passagem do tempo e da abertura ao leste: candeeiros da Bauhaus a 70 euros, casacos de vison a 900 euros, mobiliário “vintage” em óptimo estado, talheres em prata, mapas antigos, medalhas e distinções militares (abundantes). Pergunto pelas obras de Marx e Engels e o alfarrabista diz que desapareceram. Deitaram-nas fora! Deixaram de as querer, de as procurar, de qualquer associação com esse tempo e o que isso produziu.

 

Não é só pelo desconhecido que a parte leste é a mais extraordinária de Berlim. Lá se conserva um tempo, austero, apesar de todos os sintomas da mudança. São muito visíveis os buracos das balas, as fachadas reconstruídas. Vem à memória a imagem do filme de Wenders quando uma mulher sacode o edredon na casa esventrada...Em Berlim, as pedras têm vida. Também há no lado ocidental avenidas praticamente refeitas. O tamanho da destruição percebe-se em coisas tão simples quanto: em dez casas, oito foram feitas de novo. E há a catedral a que os berlinenses chamam “dente furado”, a Kaiser-Wilhem, bombardeada em 43 e mantida tal qual. Mas na Berlim Oriental o tempo fechou-se sobre si e o mundo fechou-se em torno da ideia soviética de mundo.

Hoje, a zona oriental está transformada num centro nevrálgico, onde se instalam cadeias internacionais e artistas. É um novo mundo do qual se tem vontade de fazer parte. A par de Londres e Nova Iorque, Berlim é um ponto essencial no panorama da arte contemporânea. Noé Sendas, Filipa César, Rui Calçada Bastos, Nuno Cera, Gabriela Albergaria ou Adriana Molder são alguns dos portugueses que vivem em Berlim. Há um claro investimento do governo alemão na revitalização de Berlim como centro cultural europeu. E o custo de vida, ajuda. Um apartamento no centro de Berlim Oriental, com um quarto e uma sala custa cerca de 500 euros. Já não há existem os cabarés dos longínquos anos 20, cheios de fumo e luz difusa, embora tenha reaberto um dos mais famosos, com meninas vestidas a la Josephine Baker, para turista ver. Mas há o PergamonMuseum, com o colossal altar da cidade grega de Pérgamo, e as portas da antiga cidade de Babilónia – só para mencionar os “highlights”. Também há, num outro museu, o busto de Nefertiti, de uma elegância e beleza raras, que por si só justifica uma visita a Berlim. 

 

Passeio na Unter den Linden. Marlene cantou «Enquanto as tílias continuarem a florir na Unter den Linden, Berlim será sempre Berlim». A avenida, com tílias no corredor central, conduz à Porta de Brandemburgo – zona de fronteira onde a multidão celebrou a queda do Muro. Do outro lado, o Reichstag, (sede do Parlamento), é talvez o edifício mais visitado de Berlim. A renovação da cúpula, obra caleidoscópica de Norman Foster, atrai milhares de visitantes que esperam estoicamente, mesmo em dias de chuva miudinha, para subir uma rampa espelhada e ver uma boa parte de Berlim.

De um lado e do outro da Linden, há museus onde apetece passar o dia, a ópera nacional, jogadores de vermelhinha, vendedores ambulantes de gorros de pelo, bicicletas e bancas de salsichas.

A Linden está para a Berlim Oriental como a Kurfürstendamm está para a Berlim Ocidental: amplas avenidas, modelo glamoroso importado de Paris, intensa vida comercial e empresarial. Peço ao taxista que me deixe na Walter Benjamin Platz – a obra do filósofo alemão foi uma das influências de Wenders na criação d’ «As Asas do Desejo» -, e é aí que começo a andar pela Ku’damm.

Termino com um dos mais belos espaços da cidade, infelizmente vedado aos não-sócios: a biblioteca estatal de Berlim (Staatsbibliothek), um projecto de Scharoun que dialoga com a Philarmonie, do outro lado do passeio. (Deixaram-me entrar quando me apresentei como jornalista e expliquei estar a refazer o circuito do filme). São edifícios de cortar a respiração, integrados no Kulturforum, um complexo que inclui, também, museus como a Gemäldegalerie (colecção soberba, com Ticiano, Vermeer, Caravaggio...) ou a Neue Nationalgalerie, desenhada por Mies van der Rohe.

No filme de Wenders, uma longa sequência dá a conhecer esta biblioteca. Tenho alguma dificuldade em descrevê-la... Talvez me aproxime se disser que o espaço me pareceu, como n’“As asas...”, metáfora do tempo babélico que vivemos, de palavras cujo significado mais íntimo se esqueceu ou não se chega a compreender. E, ao mesmo tempo, da potencialidade absoluta contida nas palavras, da memória como núcleo da identidade, repartida por mil pessoas e mil livros.

Os diferentes espaços da biblioteca estavam ocupados por sócios. Depreendi que fossem, em grande parte, alunos de doutoramento, que anotavam, escreviam no portátil, “scannavam”, fotocopiavam. No filme, há 20 anos, ainda não se usavam os computadores, e todos estão recolhidos na leitura, no pensamento. Por entre os leitores, reconhecemos os anjos, que velam por eles. E no andar de cima, como eu previra, a partir do filme, estão os globos onde o narrador da História procura quem o queira ouvir. Li algures que o seu nome é Homero. Invoca a Musa, esclarece que os seus ouvintes são agora leitores. Era ele que ao princípio procurava Potsdamer Platz.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2006

 

 

Sicília (c/ livro de Goethe)

27.04.20

Numa segunda feira de manhã, a primeira de Abril, Goethe estava em frente a Palermo. Tinha deixado Weimar havia muito e a sua viagem a Itália aproximava-se do fim. Era outro homem, este que chegava à Sicília, de tal modo que não foi reconhecido por um cavaleiro de Malta que lhe perguntou pelo jovem impulsivo, cujo nome não recordava, mas que era o autor do Werther... Goethe respondeu-lhe: «A pessoa por quem tendes a amabilidade de vos interessar sou eu próprio!». Muita coisa deve ter mudado, espantou-se o outro... «Certamente. Entre Weimar e Palermo passei por grandes mudanças».

Dois anos antes da Revolução Francesa, animado por um interesse enciclopédico, o génio alemão percorria a Itália. «A viagem pode comparar-se a uma maçã madura que cai da árvore: a queda da árvore significa, como esta viagem, uma libertação e o início de novo ciclo». Eu vivia com uma frase de Goethe, transformada em linha condutora da minha vida: «O alvo da viagem é viajar». Mas nos dois últimos anos propus-me visitar a Itália seguindo as suas anotações e cartografia. Talvez procurasse, como ele, esse instante arrebatador em que nos dissolvemos para nos voltarmos a achar.  

Cheguei a Palermo num sábado de manhã, vinda de Paris onde estava há mais de uma semana. Só percebi que o facto era relevante quando regressei a Paris e tudo me pareceu subitamente civilizado e limpo. Provavelmente o efeito não seria tão espectacular se voasse de Lisboa. Estava um calor de Agosto; absurdo, quero dizer. Que se entranha imediatamente no corpo e constitui um cheiro de que ficamos impregnados. Era um cheiro a suor, a vida vivida, a Verão, que persistiu dia após dia.

A cidade que se anunciava aos pés dos montes escarpados, despertou em mim o mesmo sentimento que Nápoles, um ano atrás, e que Goethe descrevia desta maneira: «Quando quero escrever palavras só me vêm imagens aos olhos. (...), e faltam-me os orgãos próprios para dar expressão a tudo isto».

Há um feitiço que nos faz aderir instantaneamente a esta terra. Suja, pobre, sanguínea. Talvez seja a síntese improvável de culturas (grega, romana, bizantina, sarracena, normanda, espanhola); o magnetismo da terra  imortalizada pelo cinema_ sentimos que fazemos parte de um filme de Visconti, que somos colegas de trapaça de Totó, que era napolitano, mas que encaixa no estereótipo siciliano. Talvez sejam as pessoas; a sua pele curtida pelo sol, a camiseta esburacada, o vinco das calças, o nariz adunco, a brilhantina que puxa o cabelo. O meu personagem favorito, antecipo desde já, é aquele que me recebe num modestíssimo hotel, em Messina, lá mais para o fim da semana: cabelo armado num balão de algodão doce, anel no mindinho e no anelar, casaca cinzenta debruada a ouro, botões redondos, a reluzir. Um aprumo de outros tempos. A surpresa foi imensa quando lhe vi a boca esburacada, os lábios presos por um dente em cima, um dente em baixo. Fellini tê-lo-ia aproveitado, e aos neons que, por trás, anunciavam o nome do hotel.

Na chegada à Sicília, Goethe sublinha a “fertilidade luxuriante”, enternece-se com “a pureza dos contornos”, “a harmonia do céu, do mar e da terra”, elege o “Monte Pellegrino como a mais bela das pequenas montanhas do mundo”. Deixara Nápoles havia poucos dias e escapara dos suplícios do enjoo, (e, já agora, de uma tempestade que quase deitava tudo a perder), no interior do navio. Daí a dias, recuperei a passagem em que ele falava de ter curado o enjoo com pão e vinho, imobilizado numa posição horizontal. Eu estava em Vulcano, entre barcos, e o vinho Malvasia, um vinho licoroso originário da ilha de Salina, combinava com brioches e o pôr do sol. Era uma perfeição de cartão postal, celebrada com vinho da casa.

Goethe teria gostado de Vulcano, e sobretudo de Stromboli, a mais distante das ilhas Eólicas. Da sua aspereza vulcânica, das casas brancas e pequenas, dos sardões que se escapam das pedras quentes e atravessam o caminho. Mas acredito que Stromboli lhe interessasse pouco, mesmo sendo um geólogo apaixonado. A resposta é simples: depois de visitar o “monte ígneo” que é o Etna, que figura na Odisseia como uma coluna que segura o céu, qualquer vulcão se assemelha a um vulcãozinho.

Se é certo que Goethe não conhecia Stromboli filmado por Rossellini, os percursos íngremes, as ruas “íngrides”, eu não podia recusar sentar-me na soleira da porta da casa em que viveram. «In questa casa...», atesta uma placa de mármore, em letra de namorados. Ingrid Bergman e Roberto Rossellini viveram ali na Primavera de 49, durante a rodagem do filme. Doravante, sempre que vir a Bergman no cinema, pensarei no dia em que tomei pequeno almoço num café com vista para o mar, porque ele se chamava «Ritrovo Ingrid».

Conto sumariamente a história a Mauro, ou Marco, o estudante de geologia que me mostra as diferentes camadas de lava do Etna, explica porque o rio de lava é tão preciso e não transborda (porque as extremidades arrefecem rapidamente, e desse modo fazem uma barreira que impede que a torrente de fogo extravase), faz-me percorrer o rebordo de diferentes crateras. Mauro, ou Marco, nunca viu o filme em que Ingrid sente a terra a tremer, mas sabe da viagem a Itália de Goethe e interessa-lhe saber porque é que o alemão considerava esta “a rainha das ilhas”. É um siciliano orgulhoso. Tento recordar a definição precisa, mas não a encontro. Poderia ter respondido isto: «Quanto a Homero, foi como se me caísse uma venda dos olhos. As descrições parecem-nos poéticas e afinal são extremamente naturais, embora criadas com uma pureza e uma autenticidade que nos assusta». Goethe diz também que com a Sicília a Odisseia tornou-se para ele palavra viva.

Esta impressão persiste, passados mais de 250 anos. É um pouco infantil, mas senti uma aceleração no peito quando vi uma placa a apontar para a Riviera dos Ciclopes, e idealizei a cena: criaturas medonhas empurrando pedras para impedir que Ulisses aportasse naquela encosta. (Li algures que os ciclopes dormiam dentro das bocas do Etna...). Foi uma emoção perceber a correspondência entre as palavras milenares de Homero e aquilo que se desenrolava ante os meus olhos. E imaginar Goethe a subir de mula, e a sentar-se para, em segurança,  poder ver toda a área. «O vento soprava de leste, varrendo toda a esplêndida região que se estendia a meus pés, até ao mar. Vi a olho nu toda a costa, de Messina a Siracusa, com as suas reentrâncias e baías». Hoje não se vê senão Catânia, rente ao mar e aos pés do vulcão, e em dias claros avista-se Taormina. Mas Siracusa, a 60 km a sul de Catânia, e Messina, sensivelmente à mesma distância, a norte, já não se alcançam.

A autora do guia Lonely Planet aconselha a organizar a viagem em torno de uma ideia. Conselho avisado. É tão extraordinária a oferta que é fácil dispersarmo-nos ou repetir percursos óbvios. Goethe abordou a Sicília com a mesma paixão com que percorreu toda a Itália. João Barrento, autor da tradução que sigo, condensou do seguinte modo os princípios que orientam o escritor alemão: «a abertura dos sentidos (do olhar em especial), a distância integradora (daí o hábito de subir às torres) e o diálogo com as coisas (particularmente a natureza, o que explica o lugar dominante da observação de fenómenos geológicos, mineralógicos e botânicos). (...) Por outro lado, o presente é a grande via de acesso e o ponto de chegada para toda a reflexão sobre a arte, a história e a natureza».

No essencial, refiz os passos de Goethe: Palermo, Catânia, Taormina, Messina. Sacrifiquei Agrigento e o vale dos Templos, de que Goethe falou com máximo prazer. «As uvas de mesa crescem em latadas apoiadas em pilares altos. Em Março plantam as melancias, que estão maduras em Junho. Crescem por todo o lado nas ruínas do Templo de Júpiter, sem ponta de humidade». Posso dizer que não quis decepcionar-me, que não cri que fosse possível encontrar um cenário igual... Melancias a crescer no Templo de Júpiter? Mas a verdade é que tenho ainda fresco o desconforto de ter visitado Pompeia a torrar ao sol, e não me apetecia engrossar as filas de visitantes que admiram o vale, o vale, o imperdível vale... Por último, o Toni insistiu comigo: que encurtasse caminho e não perdesse Siracusa.

O Toni, segundo a mãe, minha senhoria em Palermo, é arquitecto e trabalha na câmara: é político. Será vereador? Toni combina uns calções justos com uns ténis da Prada, usa um brinco na orelha e uma barbicha que cofia enquanto faz uns ares de sedutor. Um cromo de qualquer caderneta siciliana. Por acaso não fala uma palavra de inglês, e comunica através da mãe, que fala francês por ter trabalhado na Bélgica, a fazer bolinhas de açúcar para bolos de aniversário. Desdenha de Taormina, (como é possível?, Toooni?), põe as mãos no fogo por Siracusa (faz bem; Goethe não visitou a cidade, que Cícero dizia rivalizar com Atenas: afiançavam-lhe que perdera a sua glória e interesse. Foi uma pena não ter ido).

A conversa passa-se ao pequeno almoço, entre os ovos e o mangericão. Uma coisa muito fina, isto de comer ovos ao pequeno almoço. O bom siciliano come uma granita de café, com panna, e brioche. A granita come-se, aliás, o dia todo. Gelo moído, com o sumo e a polpa de limão, ou framboesa, ou café. No topo, uma camada de natas. O brioche, mergulha no copo e rapa o fundo. É um pão molhado em pouco mais que gelo, sim. Também há quem meta no pão uma bola de gelado! Mas isto são invenções de tempos abonados.

Quando o escritor alemão visitou a ilha, o que encontrava em abundância era aquilo que a terra dava. «Os frutos e legumes são deliciosos, em especial a alface, tenra e saborosa como um leite; entende-se a razão por que os Antigos lhe chamaram lactuca. O azeite, o vinho, é tudo muito bom, e poderia ser muito melhor se se desse mais atenção ao modo de preparar os alimentos. Os peixes são dos melhores, muito delicados.  Tivemos também boa carne de vaca, ainda que as pessoas a não apreciem muito».

Abundam as descrições sobre os campos e o modo como são semeados. Goethe chega mesmo a desconsiderar «o desastrado do guia» que lhe «estragava com a sua erudição» o prazer do que se via no vale, «sempre a contar como Aníbal travou aqui uma batalha». Mais adiante, fala da surpresa do outro, que não contava que um homem das letras pudesse desprezar a memória clássica. Talvez não seja tão surpreendente: se é verdade que atravessa o livro a ideia de reconstituir momentos clássicos através das ruínas, é mais forte a ideia de que a viagem convoca um renascimento interior.

Ocorre-me novamente a noção de viagem como sinónimo de descoberta no teatro grego de Taormina. Num gesto excessivo, procuro a vibração das pedras no contacto com os pés, recupero pedaços de tragédias que ali foram representadas, escrevo postais em diferentes pontos do anfiteatro, meço a imponência do Etna. É mesmo a «mais incrível obra da natureza e da arte». No palco preparavam uma versão de “Il Gattopardo”, a obra de Lampedusa que Visconti adaptou ao cinema. É uma obra sobre o fim de um tempo, que concentra, como a Sicília, a decadência e o desejo num mesmo plano. A explosão da vida e a inevitabilidade da morte. Arrisco que tenha sido essa pulsão, presente em cada instante, que tenha feito desta viagem um lugar de descoberta e reconhecimento para mim. Como para Goethe: «Sempre pensei que ia aprender aqui muita coisa; mas que teria de recuar tanto, que teria de desaprender e reaprender tanta coisa, isso nunca pensei». Pode ser que Goethe tenha procurado o caminho para casa. Como Ulisses, o mais mítico dos heróis. Como cada um de nós, errantes.

Não tenho uma única fotografia destes dias maravilhosos_ não tenho, sequer, máquina fotográfica. Não sinto necessidade de registar em imagens isto que (incompletamente) traduzo em palavras. Goethe fazia-se acompanhar por amigos que ilustravam aquilo que via. Foram vários, em diferentes pontos da viagem; por alturas da Sicília, Kniep era aquele que fixava a paisagem. O facto de nunca ter procurado esses desenhos (se existem, e onde?) não é senão revelador do seguinte: já me basta o tesouro da descrição de Goethe e de sentir, como ele, que uma viagem pode interpelar a nossa vida. O que isso convoca dentro de nós, não tem imagem precisa.

 

 

Onde ficar

 

Grand Hotel e des Palmes, Palermo

Via Roma, 398; booking-despalmes@amthotels.it

Quartos sumptuosos, lustres admiráveis, escadaria de mármores. Um cenário de filmes que foi palco de intrigas e negócios. Acolheu a elite que chegava à Sicília. Um cinco estrelas ideal, nem que seja para ler umas páginas num canto do bar. O mais certo é ter vizinhos ingleses. Entre 100 e 200 euros.

 

Bed and Breakfast, Sicília

São cada vez mais populares em toda a ilha. Existem às dezenas em todas as cidades e disponibilizam fotografias na net. A decoração é quase sempre kitsh e duvidosa. Mas em época alta um quarto custa em média 50 euros por noite, o mesmo que um hotel de duas ou três estrelas. Como o nome indica, oferece cama e casa de banho. Muitos facilitam, ainda, o acesso à cozinha.  

 

Onde comer

 

Trattoria la Foglia, Siracusa

Via Capodieci 21; www.lafoglia.it

É um restaurante que lembra os almoços de domingo em casa da avó. As duas salas têm naperons a fazer de toalhas de mesa, fotografias da família proprietária e louça que parece comprada na rua, em feiras de antiguidades. A cozinha, evidentemente, é boa _ é impossível comer mal na Sicília. O pão é feito na casa e o peixe é muito fresco. O espada é por excelência o peixe da região. Cerca de 30 euros.

 

Antica Focacceria di San Francesco, Palermo

Piazza San Francesco d' Assisi, telefone 091 32 02 64

Um clássico da cidade cuja história remonta à Idade Média: era o restaurante onde se encontravam viandantes, peregrinos, gente humilde. Pão com rim fatiado é a principal atracção. Mas também pão com gelado. A esplanada cresce na Piazza São Francisco de Assis. Sugere-se um esparguete com pesto de pistachio, (molho muito popular na Sicília). Cerca de 25 euros.

 

Como ir

 

A Tap e a Ali Itália voam para a Sicília. A maior parte dos voos têm escala. A ilha tem dois aeroportos: o de Palermo é o principal, o de Catânia fica na costa leste. O comboio é ainda o de linha estreita. O que quer dizer que 200 km pela costa (entre Messina e Palermo) demoram mais de três horas e meia a percorrer, em cima de malas e com passageiros pelos corredores. O autocarro é o mais usado. Barato, constante, com o senão de quase sempre parar em todas as pequenas localidades (60 kms podem representar uma hora e um quarto). Táxi a preços proibitivos.  

 

Quando ir

 

Os meses mais temperados são os mais indicados_ entre Abril e Junho e Setembro e Outubro. Mas mesmo em Agosto, sob um calor abrasador, milhares de turistas e a inevitável inflação de preços, a Sicília é um destino extraordinário.

   

 

Publicado originalmente na revista NS do Diário de Notícias em 2006

 

 

 

Itália low-cost (Veneza, Florença e Bolonha)

26.04.20

A experiência de visitar Veneza tem qualquer coisa de A Rosa Púrpura do Cairo. Há um cenário de beleza idílica, com a espessura de um cartão-postal, e de repente ele ganha forma, profundidade, temperatura, e nós cabemos nele. No filme de Woody Allen, o impossível também acontece: Cecilia, a empregada de mesa que se refugia nos filmes da vida atroz que leva com o marido, recebe, do lado de cá do ecrã – do lado da vida –, o seu herói do cinema, qual príncipe sem cavalo branco, que a resgata para o plano da felicidade. Ela recebe-o como quem recebe um presente. E nós entramos em Veneza como quem entra num sonho.  

Entre este parágrafo e o filme de Woody Allen deve estar uma frase de Goethe: “Veneza deixa de ser para mim mais uma palavra apenas”, escrita quando o poeta alemão chegou a Veneza em Setembro de 1786. Depois de ter sublinhado esta frase, e de ter anotado “30 Agosto de 2013; a quarta vez em Veneza, creio”, pensei que “uma frase apenas” é uma folha de papel. Lisa, em branco, anódina. O que muda tudo é a vida que fica inscrita na folha, na frase, que salta do ecrã e nos leva para o paraíso da infância. Só aí é que acontecem as coisas fantásticas que acontecem nos filmes e em Veneza – como ver uma mulher com um ramo de flores no vaporetto e perceber que vai visitar um ente querido ao cemitério de San Michele, pequena ilha em frente a San Marco. Visitar um ente querido de barco?, um cemitério numa ilha?

O encanto de Veneza talvez esteja em transportar-nos para esse território onde tudo é possível. A cidade, ela mesma, parece impossível (perguntamo-nos: Veneza existe, deveras?). No filme de Woody Allen, Cecilia acaba mais ou menos como começou: a apanhar do marido, a ouvir do chefe, fascinada pelo cinema. Mas enquanto dura o mistério, enquanto, de facto, o herói a leva a jantar (não importa que o dinheiro que usa para pagar a conta seja falso), nada mais é preciso.

Era, portanto, a quarta vez que eu estava em Veneza, e estava fascinada como se fosse a primeira. De certa maneira, é sempre a primeira vez que se vai a Veneza por causa deste carácter exorbitante da cidade.

Um parêntesis para contar a minha efectiva primeira vez em Veneza: aterrei no dia 24 de Dezembro, frio de neve, cidade deserta. Percebi mais tarde que os dias 24 e 25 de Dezembro são os únicos dias do ano em que a cidade está vazia. Os enxames de turistas começam a chegar no dia 26. E como a população de Veneza se fica pelas 58 mil pessoas, eram pouquíssimos os que se encontravam no labirinto de ruas, atarefados a resolver compras de última hora. Diziam uns aos outros, como uma senha: auguri! Eram pessoas com um ar burguês (quem mais tem dinheiro para ter casa em Veneza?), ligeiramente envelhecido ou completamente envelhecido. Devem ter encontrado um modo de coabitar com os 13 milhões de turistas que invadem Veneza todos os anos. Pouco mais de um milhão por mês.

Nesse 24 de Dezembro a cidade estava silenciosa como nunca mais a encontrei. A acústica (tão particular em Veneza, por causa dos canais) permitia ouvir passos distantes, o rumor das águas, o deslizar de duas gôndolas. Comprei no mercado de Rialto iguarias para a ceia de Natal. Mais prosecco e panetone.

No dia de Natal havia o silêncio das manhãs de Natal (das casas onde não há crianças). Um silêncio que se prolonga pelo dia, quando as pessoas ficam mergulhadas no torpor que sucede aos grandes encontros. Foi no dia de Natal que percorri as ruas estreitas, transpus centenas de pontes, resisti à chuva de neve. Lembro-me de ter encontrado um café, um dos únicos abertos, e de ter tomado um expresso. Muito torrado e curto. Uma italiana é um café muito curto, não é? Pois então. Eu estava em Itália.

Ofereci-me de presente 20 minutos de gôndola. Um presente caro, mágico e triste. Triste porque sublinhou a impressão de que passeava por um cenário, como o de Morte em Veneza de Visconti. O gondoleiro estava, como eu, cheio de frio, e não cantou.

Mas Fábio, o gondoleiro desta quarta vez em Veneza, correspondia à imagem estereotipada do gondoleiro. Cantava O Sole Mio, apontava a casa de Marco Polo, a de Casanova, falava em português com sotaque do Brasil; é casado com uma brasileira, e esta “valência”, como se diz nos cursos de Gestão, tem sido muito útil para passear os milhares de brasileiros que, cheios de nota, aterram em Veneza. Eu não tinha muita nota, pelo contrário, e regateei o preço. Um passeio de 45 minutos, para quatro pessoas, custou 80 euros.

Talvez seja altura de dizer que o propósito desta viagem era adaptar a promessa de felicidade que Itália representa para mim ao orçamento low, mas mesmo low de que dispunha. E também é importante dizer que viajei com uma família que vive no norte, com uma criança de nove anos, e que todos os gastos, mas mesmo todos, foram objecto de discussão.

Estive quase a desistir da viagem quando choquei de frente com os preços dos voos. Veneza é capaz de ser a mais cara das cidades italianas (de todas as que visitei, é, sem dúvida), e o voo custava uma pequena fortuna. Mesmo comprando com um mês e meio de antecedência. Tive então a ideia de voar para Bolonha e fazer o resto da distância de comboio. Para terem uma ideia do quanto se poupou com esta manobra, passo a explicitar: numa companhia low cost, a partir do Porto, o bilhete para Bolonha andava pelos 140 euros (tudo incluído); na Tap, para Veneza, o preço era de 400 euros, também a partir do Porto. Acabei por voar na Tap, para Bolonha (opção muito acessível), a partir de Lisboa; e a família viajou com a RyanAir, do Porto.

Este impulso fez-me estender um mapa de Itália sobre a mesa e alargar horizontes. Se a opção era voar para Bolonha, talvez pudesse não me ficar por Veneza, que fica a uma hora e meia de comboio. Florença fica a meia hora de Bolonha (35 minutos, para ser exacta) e eu tinha muita vontade de ver o David de Miguel Ângelo, entre outras coisas.

Outro excurso para contar a primeira vez que fui a Florença. Eu era uma menina de 23 anos, fazia programas na televisão, o que me dava, facto novo, o conforto de não ter de esticar até ao fio o dinheiro do mês. Era um tempo em que se ganhava bem na televisão. Decidi ir sozinha para Florença. Não sei o que me passou pela cabeça para escolher Florença, e não Roma ou Veneza, para primeira cidade italiana. E sozinha, sim, porque gosto muito de viajar sozinha, do encontro a sós com uma cidade. É um diálogo íntimo como os diálogos íntimos que se têm com pessoas. Gosto de estabelecer um enredo e cumpri-lo com liberdade; é mais difícil consegui-lo quando temos de articular as nossas prioridades, ritmos e neuras com outras pessoas. Uma boa parte dos meus amigos não compreende o meu gosto de viajar sozinha. “E não tens pena de não partilhar o que estás a ver?” Não. Partilho de outra maneira, a posteriori, e depois de as coisas se sedimentarem em mim.

Nunca mais estive em Florença sozinha. Nem voltei a Siena, àquela magnífica praça onde me sentei e tive uma sensação de plenitude que ainda recordo. Achei que não precisava de mais nada para ser feliz. Olhava, sentada no chão, era tudo. Em Junho. Não tenho ideia do que comi (devo ter comido bem, porque só se come bem em Itália), mas não esqueço uma fachada amarela, da cor dos girassóis, que me apontaram como sendo a casa dos Médici. É a cor que não esqueço, mais do que a casa, porque tudo ficou guardado nessa tonalidade dourada e sonhadora.

Na viagem deste Verão, fim de Verão, não tive tempo para visitar Siena ou San Gimignano, a aldeia medieval que fica a dois passos de Florença. O dinheiro estava contado e o tempo também. Resumindo: a viagem durou de sexta à tarde a quarta. Apanhámos o comboio em Bolonha às seis da tarde. Assistimos ao cair da noite no vaporetto, ainda não eram oito da noite. Primeira imagem do que aquilo ia ser: águas azul indigo, reflexo pirilampo das luzes, casas terracota ou marmóreas nas margens.

Para a criança que estava comigo, além do deslumbramento de Veneza, havia a coincidência de num só dia andar de carro até ao aeroporto, de avião até Itália, de comboio até Veneza, de barco até ao centro de Veneza. Ela acrescentava, atenta: “E de táxi entre o aeroporto e a estação de comboio, em Bolonha. E de autocarro entre o avião e o aeroporto”. Os adultos não reparam nestas coisas. Mas uma criança olha para o que não foi ainda olhado, e essa foi uma das coisas mais extra-ordinárias de visitar Veneza com a Vitória. Ela transportou-me para o encantamento que é próprio da infância, sem reservas e sem medos, e que Veneza potencia por ser a tal cidade cenário de cartão.

Mas não é fácil ser criança em Veneza, vêem-se poucas crianças em Veneza, dou por mim a pensar que não vi nenhuma escola em Veneza – onde estão as crianças de Veneza? Não se vive em Veneza. Visita-se Veneza. Porém, e voltando ao meu ponto, todos somos crianças quando pomos o pé em Veneza. Não é preciso que esteja acqua alta, e que São Marco tenha água pelo joelho. O tempo estava glorioso.

Volto a Goethe. “A largura das vielas pode em muitos casos medir-se de braços estendidos, ou quase, e nas mais estreitas bate-se com os cotovelos nas paredes quando estendemos as mãos para os lados; há outras mais largas, aqui e ali também uma pracetazinha, mas em geral pode dizer-se que tudo é acanhado”. Desde a primeira viagem a Veneza que procuro estas vielas onde os meus cotovelos possam bater. Não as encontrei ainda. Mas desta vez encontrei uma onde os braços curtos da Vitória tocavam, sem dificuldade. Ficava perto da “nossa” casa, a dois passos da igreja e da ponte della Crocre, entre o Arsenale e São Marco. 

Era um piso térreo, construído à volta de um saguão, com um bom quarto de casal, casa de banho, cozinha, sala ampla (com sofá cama). Tinha também um pequeno jardim, impossível de usar por causa dos insectos. Bed and Breakfast, evidentemente, 200 euros por noite. Apesar de ser a parcela mais cara desta viagem, o preço não era absurdo se pensarmos que aí dormiam quatro pessoas. Se compararmos com os preços de Florença e Bolonha, era uma careza.

Em Florença o preço era 140, em Bolonha 109. Sempre para quatro pessoas, no centro da cidade, opções confortáveis. Encontrei-os no Booking.com. Só é preciso procurar com paciência e prestar atenção aos comentários que outros hóspedes fazem. Durmo frequentemente em B&B e posso dizer que estes eram melhores do que outros onde fiquei em Roma, em Paris ou em Madrid. E pela primeira vez os móveis não eram Ikea, ou desengonçados.

É fácil ser feliz em Itália. Tudo é superlativo em Itália. (“Boa noite é o que nós, gente do norte, dizemos sempre que nos separamos depois de escurecer; o italiano diz felicissima notte uma única vez, e no momento de nos trazerem a luz ao quarto, quando dia a noite se separam, e nessas circunstâncias a expressão tem um sentido completamente diferente”.)  Felicissima notte em vez de boa noite. Felicíssimo dia. Uma praça onde se encontram Neptuno, Hércules, David. As galerias Uffizi ao lado. Os tectos abobadados, pintados com esmero, no palazzo vecchio.  Ao dobrar da esquina, casas, igrejas, jardins, estátuas. Estupefacção permanente.

“Ali” morava Dante. O Dante (que estudei) e que começou um longuíssimo poema da seguinte forma: Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura. Todos nos encontrámos já numa selva escura, interrogando-nos sobre o caminho que fazemos, quando vamos a meio. Então “o meio” eram os 30 anos. Dante escolheu o poeta Virgílio para o acompanhar na viagem. Mas Dante, que amava muitíssimo os poetas, pôs Homero ou Horácio nos primeiros círculos do Inferno, e pôs um suicida, Catão, a guardar as portas do Purgatório. Porquê, que quer isto dizer? Porque é que os poetas não estão no Purgatório, ou mesmo no Paraíso?

Continuo a pensar nos enigmas de Dante, nos nossos enigmas – como não amar Dante? “Ali” é a ponte onde pela primeira vez Dante viu Beatriz.

Poderia visitar Florença apenas para seguir o seu rasto. E teria, a dois passos, o baptistério, com as portas do Paraíso esculpidas numa folha de ouro muito amarelo; a catedral de mármore verde e rosa, que naquele começo de Setembro tinha uma fila de centenas de pessoas para entrar. “Aqui” tudo é extático e de certo modo irreal. Mas muito diferente de Veneza. Em Veneza é o cenário que parece fictício e nos atrai. Em Florença estamos já dentro do labirinto e tropeçamos em tesouros, uns a seguir aos outros. Não queremos sair.

Dois tesouros: a biblioteca dos Médici (Biblioteca Medicea Laurenziana) e o David (Dávideee, chamam-lhe os florentinos) na Accademia (é melhor pagar quatro euros extra e marcar entrada na Accademia – ficam a ser 15 euros; de outro modo, perde-se uma manhã na fila. Porque é que é diferente da réplica que está na praça principal? Porque é o original, e porque, por sabermos disso, nos parece maior, e mais brilhante, e mais gracioso).

Não chegámos a estar dois dias completos em Florença. Eu gostaria de ter estado mais tempo, é claro; sobretudo quando se vai pela primeira vez, dois dias é pouco. Mas de repente pareceu-me que Veneza tinha sido há uma eternidade, e isso deu-me a noção de que a marca de Florença já se sobrepunha, e que tinha visto muitíssimo naquelas poucas horas. O tempo permitiria que as impressões se sedimentassem. Era terça-feira à tarde e era preciso apanhar o comboio de regresso a Bolonha.

Como já escrevi, a viagem tinha o dinheiro contado. Imaginem o meu horror quando percebi que comprei bilhetes de comboio de primeira classe e não de segunda! Os bilhetes já não eram propriamente baratos. Andavam pelos 25 euros (entre Bolonha e Florença) e os 40 euros (entre Veneza e Florença, duas horas de distância). Felizmente a Trenitalia estava com uma promoção para famílias e as crianças não pagavam (a CP não quer fazer o mesmo?). Em todo o caso, tanta poupança e de repente eram malbaratados uns 15 euros, em média, por bilhete. Disse entre dentes, danada: “Ao menos um prosecco, para afogar as mágoas”. Alguém ouviu as minhas preces. A CP oferece um café de termos e um biscoito. A Trenitalia oferece um prosecco e uns frutos secos. Faço daqui um brinde à Trinitalia!, e deixo um recado: a CP não quer fazer o mesmo?

Bolonha é uma cidade surpreendente. Era a única das três que não conhecia, e se não fosse este estratagema para poupar massas no bilhete de avião para Veneza, provavelmente não a visitaria. O que eu perderia... Foi em Bolonha que vi uma das homenagens mais tocantes de uma cidade aos seus heróis.

Está na praça principal. São três painéis com as fotografias e os nomes dos bolonheses que combateram na Segunda Guerra Mundial. Uma fotografia especifica: partigiani combatentes: 14425, dos quais mulheres: 2212. Partigiani mortos: 2059. Feridos: 945. Presos: 6543. Fuzilados por represálias: 2350. Mortos nos campos nazis: 829. O que é que revelam as fotografias: que eram pessoas como nós. Nem mais pobres, nem mais ricas, nem mais desesperadas, nem mais destemidas. Eram caras como as nossas, anónimas. E contudo, heróis. Que morreram a lutar. É muito inspirador, em tempos de crise, passar pela praça e ver aquelas fotografias. As circunstâncias são outras, bem entendido. Mas aquelas pessoas dão-nos ânimo para continuar, ajudam-nos a não baixar os braços. Grazie.    

Que mais há para ver em Bolonha? O museu arqueológico (é muito gabada a colecção de artefactos etruscos e egípcios, mas só tive tempo para ver a ala greco-romana). A biblioteca, o teatro anatómico onde se fazia dissecação de cadáveres. Um centro histórico onde se come genialmente. No Tamburini come-se salame, presunto de Parma, mortadela, carpaccio..., a dez euros a tábua; uma tábua dá, à vontade, para duas pessoas. Na taberna Il Sole só servem bebidas; é suposto que se comprem fatias de pizza e paninis nas lojas vizinhas e que se peça álcool ao balcão. Não é exactamente o sítio mais limpo do mundo, apesar de ter uma tabuleta que diz: é vietati sputare sul pavimento. Mas o ambiente é divertido, muito local a marimbar-se para o turista, e gostei mais desse prosecco, a dois euros a flute, do que daquele que bebi em Veneza ou Florença.

Goethe não gostou especialmente de Bolonha. Refere-se à cidade apenas em três entradas no seu livro-diário Viagem a Itália. O seu anseio era chegar a Roma. “O meu desejo é mais forte do que os meus pensamentos. Sinto-me irresistivelmente atraído para diante, e tenho dificuldade em me concentrar no momento presente”. Mas fala de pedras maravilhosas, que viu nos arredores da cidade, e de um sonho que tivera um ano antes e que lhe ocorreu nesses dias que passou em Bolonha. Sonho perturbador. Eu tive pena de não poder demorar-me no presente, naquele meu presente, que era Bolonha. Tenho de voltar. Quanto à pequena Vitória, depois de Veneza e Florença, Bolonha pareceu-lhe secundário. Ou então era só o cansaço. Nós, os adultos, esquecemo-nos de que uma criança, mesmo que seja muito curiosa e bem comportada, não tem pernas para andar de manhã à noite. E a única maneira de ver três cidades em seis dias (nem isso) é não parar. Parar? Parada estou eu agora.

 

 

Como chegar:

Viajar de comboio, em Itália, é uma bela experiência. É confortável, pontual, há espaço para as pernas. A informação horária que está no site é rigorosa: http://www.trenitalia.com

Mesmo que viaje em segunda classe e não tenha direito a prosecco, recomenda-se. Ao meu lado, numa das viagens estava um cão labrador. A passageira contava que o preço do bilhete do cão era carote, mas só num pequeno troço da viagem exigiram que pusesse açaimo.

É possível comprar bilhete em máquinas na estação ou em guichets próprios. Nestes últimos, as filas são exasperantes. Comprar na máquina é fácil. Pense duas vezes antes de alugar um carro. Caos absoluto na estrada, mesmo a auto-estrada para uma estrada nacional.

 

Onde comer:

Esta é a secção mais fácil de escrever. Come-se tão bem em Itália, e em especial em Bolonha, que o difícil é que corra mal. Veneza, sendo tão turística e cara, exige escolha mais cuidadosa. No nosso caso, acertámos no primeiro dia com o restaurante e repetimo-lo todos os dias. Não fiquem horrorizados os gourmets: o propósito da viagem não era gastar fortunas à mesa. O restaurante, muito perto de São Marco, é uma extensão de um restaurante napolitano (bom argumento para nos fazer decidir): www.rossopomodoro.com. O preço médio das refeições: 15 euros por pessoa. Uma garrafa de prosecco honesto custa 10 euros. 

Em Florença, a média de preços manteve-se mas a qualidade subiu significativamente. http://www.trattorialemossacce.it tem pratos geniais, num ambiente só aparentemente modesto. É relativamente acanhado, por isso é preciso reservar. Mergulhar o biscoito em vin santo, um vinho entre o aguardente e o licor, que é bom demais!, é obrigatório.

Bolonha tem como alcunha a grassa. Os bolonheses levam muito a sério a relação com a comida. Por mim, continuava à mesa do Tamburini, a pedir carnes frias e queijos da charcutaria contígua. Cada prato, abundante, custa 10 euros. O serviço é um desastre absoluto. Desorganização que choca, até, um português (que tem fama de ser desorganizado, mas que ao pé de um italiano é um alemão). A qualidade compensa a espera de 45 minutos por um copo. Espreite no site http://www.tamburini.com

 

Onde ficar:

Além do Booking.com, sugiro os seguintes sites para encontrar soluções económicas: http://www.luxrest-venice.com e http://residenzaariosto.it/

 

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013 

 

 

Foi muito bonita a festa, pá!

23.04.20

1.

Salgueiro Maia exigiu ser sepultado em campa rasa e sem honras de Estado. Maia comandou a coluna de tanques que saiu de Santarém e que teve a delicadeza, o civismo, o sonho de parar num semáforo antes de derrubar a mais longa ditadura da Europa. Primeira imagem do 25 de Abril: a cara de menino de Salgueiro Maia. Primeiro gesto da dimensão do irreal: respeitar o vermelho, olhos postos no verde, numa noite ainda escura.

Poderia Salgueiro Maia adivinhar que passados 22 anos sobre a sua morte, e rentes aos 40 anos desse dia inaugural, falaríamos da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão? Porque foi tão explícita e veemente a decisão no seu testamento? Campa rasa e sem honras de Estado. Como quem quer deixar o Estado de fora disto. Ele que comandou no terreno uma operação genial para mudar o Estado e torná-lo, de novo, parte disto. E, sobretudo, a campa rasa, sem os arrebiques e salamaleques que também acompanham a morte, algumas mortes.

Uma campa de pessoa do povo. Maia tinha orgulho em ser povo. Foi por ele, povo, que disse as famosas palavras: “Como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos.”

Correram os anos. Maia recusou cargos e honrarias, o Estado recusou pensão à sua família. Estudou Ciências Políticas. Desiludiu-se com o outro estado a que chegámos, depois de tudo se ter levantado de uma folha branca, e ainda tão longe deste estado a que chegámos.

Mas os estados não podem senão mudar, e levar-nos na enxurrada da desilusão.

Não é crível que tenha lamentado por um momento os passos daquele dia longo em que era capitão. Nas fotografias parece um rapaz de uma sensatez de aço, elegante como um cavaleiro.

Maia é o povo, o povo que está no coração da História e que é herói. Qual é o lugar dos heróis? E qual é a sua, a nossa, a definição de herói?

Agora o povo está zangado. Com o péssimo que isto está, com o que fica por punir, com o que apanha no ar e não consta nas estatísticas. Zangado e com uma granada no lugar do peito que se chama injustiça. Qual foi o estado a que chegámos? Foi mesmo bonita a festa, pá?*

 

* Foi Bonita a Festa, Pá – de Tanto Mar, tema composto por Chico Buarque para a revolução dos cravos (primeira versão em 1975, segunda em 78).

 

2.

Vejamos as fotografias. A euforia que faz levitar é a do primeiro de Maio, dissipadas as dúvidas. Numa semana, o mundo parecia edificado em certezas.

Uma semana. O tempo que mediou o noivado e o casamento. Todos assistiram à festa. Uma gaivota voava, voava. Um milhão de pessoas na Alameda. Só não estavam os fascistas. Também já tinha diminuído drasticamente o número de fascistas. Porque no dia seguinte todos tinham sido opositores a Salazar, todos tinham sido perseguidos ou presos. A efabulação (de que Adelino Gomes fala numa entrevista com Alfredo Cunha ao PÚBLICO) tinha começado e era transversal. A memória colectiva, inevitavelmente reconstruída, tinha incorporado distorções, inexactidões. Mas eram boas memórias. E aquilo foi uma festa.

Agora lemos o que dizem Os Rapazes dos Tanques sobre o que está pior, e lemos sobre o abismo entre a classe política e o povo. A classe política dos últimos vinte anos. Lemos sobre “a cambada que nos está a dirigir”, “o descrédito da classe política”, “os governos que deram cabo disto, e o caraças”, a “a classe política mais ordinária da Europa”, “uma classe política sem nível e sem sentido de Estado”. Não só isto, mas constantemente isto. Não só isto porque, apesar disto, isto é melhor do que o que havia. Globalmente de acordo em relação a isto. Comprova-o uma sondagem do Instituto de Ciências Sociais (ICS). 58% dos inquiridos consideram o 25 de Abril mais positivo do que negativo. Da esquerda à direita.

Diz o então cabo apontador Vítor Ribeiro Costa no livro de Adelino Gomes e Alfredo Cunha: “O 25 de Abril não trouxe nada de pior. Para a maioria das pessoas, o pior que temos hoje é melhor do que tivemos com Salazar e Marcelo”.

Quando é que começou a aparecer o ponto de interrogação e, repetindo os versos de Chico Buarque, se procurou o restinho de alecrim, a semente esquecida nalgum canto do jardim?

 

3. 

- Quando é que o senhor começou a trabalhar?

- Aos 12 anos.

- Os seus filhos, quando é que começaram a trabalhar?

- Depois da faculdade, fez tudo a faculdade.

- E diz que antigamente é que era melhor?

Irene Flunser Pimentel (1950) travou esta conversa com um taxista, recentemente, em Lisboa. O discurso saudosista do antigamente é uma praga com que a historiadora (de esquerda) lida amiúde. “É verdade que hoje podem ir para a faculdade e ficar desempregados ou ter que emigrar. Mas é outra situação.”

Quão outra situação? Números. Em 1974, estavam inscritos no ensino superior 50 mil alunos, 7% daqueles que estavam em idade de o fazer. Tem-se noção da explosão quando comparamos com os dados de 94. Número de inscritos: 270 mil, 30% dos que tinham entre 18 e 22 anos. (Fonte: A Situação Social em Portugal, 1960-95, organização de António Barreto) Em 2000, eram 350 mil inscritos, 53% dos que tinham entre 18 e 22 anos.

Há um cifra que diz respeito à totalidade da população e que esmaga. Em 1981, quase metade da população com mais de 30 anos não tinha a quarta classe, e 28% não sabiam ler nem escrever. Já a revolução tinha sido e o caminho começado. E no bilhete de identidade carimbava-se “não sabe assinar”. E atestava-se que aquela pessoa era aquela pessoa pela impressão digital. Quase sempre um dedo grosso, pesado. Mão de quem trabalha. Do povo.

Não é novidade para ninguém quem é que ia à escola, quem é que prosseguia a escola, quem é que chegava à universidade. E por isso o 25 de Abril representa a ruptura com o “fatal como o destino”, permite “sair da cepa torta”.

Maria de Lurdes Rodrigues (1956), ex-ministra da Educação (2005/2009) e autora e coordenadora, entre outros títulos, de Políticas Públicas em Portugal (2012, com Pedro Adão e Silva): “O insucesso escolar, como conceito, não existia. A confirmação do acesso à escola como um direito de todos propicia a ascensão social. Numa sociedade estratificada como a portuguesa, onde as pessoas terminavam no ponto onde tinham começado, o conhecimento começou a contar como factor de mobilidade social.”

O taxista que transportava Irene Flunser Pimental falava com orgulho e zanga. Orgulho no esforço que fez para que os seus filhos conseguissem. Orgulho no que os filhos conseguiram. Talvez tenha esquecido o que o Estado fez para que os filhos tenham conseguido.

A educação, o acesso universal à educação, faz parte daquilo a que Tony Judt chamou a “banalidade do bem”, explica Irene Flunser Pimentel. A expressão de Judt é uma forma não poética, mas concreta de falar do Estado Social, conquista da Europa que se ergueu sobre as ruínas da Segunda Guerra e que em Portugal se cimentou no pós-revolução.

O Estado Social é a jóia que ninguém quer empenhar, quanto mais perder. É o anel que resta quando, a alguns, não resta a certeza de haver dedo. E é o anel que os mais jovens se habituaram a ter como uma espécie de sexto dedo.

Houve mesmo um tempo em que os nossos pais, os nossos avós não iam à escola ou começavam a trabalhar depois da quarta classe, a alombar madeira, pedra, por meia dúzia de escudos? Isto com dez, 14 anos. Parece um tempo tão longínquo como o tempo dos reis de Portugal.

O cientista político Pedro Magalhães (1970) contou aos filhos que o seu pai fazia cinco quilómetros a pé, todos os dias, para ir à escola. No profundo Trás-os-Montes. Cinco quilómetros, sob o sol, a chuva, o frio que se entranha nos ossos. “A sério?, mesmo com neve?” Miúdos incrédulos. Zero de atitude prosélita, zero do sermão “e têm muita sorte por não terem as mesmas dificuldades”. Foi só uma história espantosa para um coração esperançado (como deve ser o das crianças de dez anos). Em duas gerações, andou-se isto.

O Estado Social é o que podemos apontar quando nos perguntamos pelo que correu bem. Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio defenderam-no numa conferência na Gulbenkian sobre os 40 anos do 25 de Abril. No mesmo dia, na celebração organizada pelo Expresso, SIC e ICS, uma sondagem indicava que o povo – o povo-Salgueiro Maia que percebe muito bem o estado a que vamos chegando – considera que estamos melhor na assistência médica, na educação (70%) e na segurança social (46%). Melhor agora do que no antigo regime.

“A educação e a saúde foram as grandes conquistas da democracia. Não tem grande importância que o Estado Social esteja falido. Está em toda a parte”, afirma André Gonçalves Pereira (1936), advogado e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros (1981/83). “É melhor ter um Estado Social falido do que não ter Estado Social nenhum, obviamente”.

O programa estava no essencial escrito numa canção de Sérgio Godinho de 1972. “A paz, o pão, educação, saúde, habitação”. Arranque a seco, grito no refrão: “Só há liberdade a sério quando houver...”. O programa estava no texto (1942) de William Beveridge que serviu de matriz à criação do Estado Social na Europa. O economista apontou os núcleos: ensino, protecção na doença, protecção na velhice, protecção no desemprego e habitação.

Com isto fazia-se O Portugal Futuro do poema de Ruy Belo “aonde o puro pássaro é possível/ e sobre o leito negro do asfalto da estrada/as profundas crianças desenharão a giz (...) Mas desenhem elas o que desenharem/ é essa a forma do meu país/ e chamem elas o que lhe chamarem/ Portugal será e lá serei feliz”.

O poema de 1972 de Ruy Belo desenha uma ideia de felicidade, adivinha a cara que as pessoas vão ter em Abril de 74, a confiança ilimitada no futuro, o sorriso. Está tudo nas fotografias daquele tempo. Era uma vez um país.

 

4.

Toca a fazer. A partir daquele “dia inicial inteiro e limpo/onde emergimos da noite e do silêncio”, versos-síntese de Sophia de Mello Breyner, toca a fazer. Até porque “Quem não faz, não vive, apenas dura”, disse outro português (Padre António Vieira).

E outro disse “Quanto faças, supremamente faz” (Fernando Pessoa). Toca a fazer. Supremamente. Mas como se faz um país livre?, como se concretizam projectos díspares, contraditórios, o meu 25 de Abril e o teu 25 de Abril? Os caminhos do fazer dividem-nos.

Entretanto os soldados regressaram a casa. Não foi “nem mais um só soldado para as colónias” (frase do MRPP). Foi (acima de tudo) para acabar com esse estado de coisas – a guerra – que se fez esta revolução. O meu pai regressou a casa, o que não interessa senão para a minha história e a da minha família. Muitos pais regressaram a casa, o que interessa para as histórias de muitas famílias. O meu pai, que não tinha estado quando comecei a andar ou a falar, regressava. Os nossos pais, os da geração a que pertenço, nascida na década de 70, regressaram dos cus de judas marcados pela guerra. Muitos mais não chegaram a ir. No dia 25 de Abril acabou-se com a ditadura, acabou-se com a guerra. No dia 1 de Maio não se combatia. O meu pai contou-me que a 10 de Junho fizeram uma festa na messe em Angola, cantaram canções de Zeca Afonso. Regressou daí a cinco dias.

Entretanto os políticos e o povo gizaram no asfalto as grandes linhas do puro pássaro, respondendo ao momento.

 

5.

- Quais foram os momentos fracturantes destes 40 anos de democracia?

- As nacionalizações de 11 de Março de 75, as eleições para a Constituinte no dia 25 de Abril de 75, a chegada de meio milhão de retornados entre Abril e Novembro de 75, o 25 de Novembro de 75, a Constituição de 2 de Abril de 76, a revisão do Código Civil em 77, a extinção do Conselho da Revolução em 1982, a abertura do mercado bancário à iniciativa privada em 84, a entrada na CEE em 86, as privatizações a partir de 90, o Euro em circulação a 1 de Janeiro de 2002, a crise mundial de 2008.

As grandes fracturas que não têm data de ratificação: a criação do Estado Social, o desenvolvimento do país, o estatuto da mulher, a eclosão da classe média que solidifica a democracia.

A primeira de todas: o 25 de Abril, que permitiu liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres, direitos e garantias consagrados. Falar sem ter medo. Falar sem procurar escutas debaixo da mesa. Andar na rua sem procurar a sombra que vigia e delata. Poder espichar numa parede O Povo Unido Jamais Será Vencido. Ter voto na matéria, qualquer matéria.

Acreditar.

 

6.

As nacionalizações, pela historiadora (de direita, então feroz esquerdista) Maria de Fátima Bonifácio (1948). “Foi uma devastação da nossa economia. Custaram anos de atraso ao país. Não foi só a banca, e a banca foi um disparate. Nacionalizaram-se vãos de escada. Era jornalista. Cheguei a fazer a cobertura de uma tinturaria que tinha sido nacionalizada. A ideia de que no Alentejo se nacionalizaram grandes herdades abandonadas é falsa. Estabeleceu-se um método de calcular o valor das herdades através de uma pontuação que valorizava tudo o que era regadio, maquinaria, gado; e foram essas explorações, que estavam a ser bem exploradas, que foram nacionalizadas. O que não se nacionalizou foi o que estava ao abandono.”

Do outro lado: a terra a quem a trabalha, as fábricas a quem lá produz. Vamos corrigir o sofrimento e a injustiça. Socialismo aqui e já.

 

7.

As eleições, um ano depois da revolução. O cumprimento do D de Democracia. Filas intermináveis para votar. Afluência às urnas de 90%. Irene Flunser Pimentel: “É admirável que pessoas que estiveram tantos anos afastadas da política, debaixo de um regime ditatorial, votem em massa de forma entusiástica e organizada. Traduz uma aprendizagem da política muito repentina”.

Homens e mulheres. Agora também mulheres, quaisquer mulheres, e não apenas chefes de família e licenciadas. A emancipação começava. Mas do movimento tectónico que o 25 de Abril representou na vida da mulher fala-se mais à frente.

 

8.

“Então a metrópole afinal é isto” – escreveu Dulce Maria Cardoso no livro O Retorno.

Entre Abril e Novembro de 1975 chegaram 400 mil “retornados”, “a falar das coisas de lá, a minha casa isto a minha casa aquilo, deixei lá isto e aquilo, os tiros isto os morteiros aquilo”.

A grande equação desse tempo e do tempo futuro: e agora? Como se refaz a vida, como se lida com a perda? Uma mão à frente e outra atrás.

Descolonizar, o outro D, por André Gonçalves Pereira: “Muitas pessoas consideram que a descolonização foi o que correu pior. Não concordo inteiramente. A descolonização correu mal como não podia deixar de correr. Foi a descolonização possível, que começou com 15 anos de atraso”.

Quinze anos antes, a guerra.

Para muitos não era um retorno uma vez que nunca aqui, na metrópole, haviam estado. Era em todo o caso um exercício hercúleo para milhares de “desterrados”. É assim que Dulce Maria Cardoso lhes chama, é a eles que dedica o livro. “Três malas e vinte contos é tudo o que temos até resolvermos a vida. Resolver a vida é o que mais se ouve entre os retornados”.

Rui Pena Pires (1955), especialista em movimentos migratórios, chegou de Angola em Setembro de 75. Olha para o fenómeno com olhos de sociólogo. “Os retornados voltam ao seu ponto de origem, espalham-se pelo país. É o contrário do que acontece em França, com os pied noir a concentrarem-se em Marselha. A dispersão transforma o fenómeno num fenómeno nacional. Os retornados são em média mais qualificados, empreendedores. Houve um período em que um terço dos patrões (de indústria, comércio e serviços) em Trás-os-Montes eram retornados. Trazem diversidade religiosa (aparecem os primeiros grupos de muçulmanos). Quebram o grau de homogeneidade que havia (chegam mestiços). Constituem uma população maioritariamente de direita, furiosa com a descolonização. Mário Soares centraliza ódios.”

Ah, e os retornados aprenderam o que são frieiras e cieiro, lê-se em O Retorno. Trouxeram mini-saias, roupa descapotável, a liberalização dos costumes, a ideia de uma vida livre, com espaço a perder de vista, que tinham nas colónias. Uma certa forma de calor.

Integraram-se sem rupturas e convulsões sociais. Um êxito, também do novo poder local.

 

9.

O golpe militar contra-revolucionário de 25 de Novembro por Henrique Granadeiro (1943). “Foi o realinhar das coisas em conformidade com o projecto inicial. Havia um desvio que defraudava a generalidade das pessoas, que não queriam substituir uma ditadura por outra. A tentativa de implementação de uma sociedade socialista já tinha aspectos evidentes. Cartilhas, saneamento, violência.”

O que houve entre 25 de Abril de 74 e 25 de Novembro de 75? Num ano e meio fez-se a revolução, começou um novo calendário, e com ele a corrupção do sonho. As dificuldades típicas do momento em que a minha liberdade começa a ocupar o espaço da tua. As dificuldades típicas do momento em que a revolução é minha e faço com ela o que eu acho que deve ser feito. Eu e o meu grupo político. E toda a gente tinha um grupo político.

Ramalho Eanes foi o responsável pelo plano de operações do golpe, não deu espaço às pressões dos radicais. Rematou-se um Verão Quente. O PC saiu derrotado. Ideologicamente foi um marco.

Henrique Granadeiro foi chefe da Casa Civil de Eanes entre 1976/79. O seu discurso é o dos vencedores do 25 de Novembro.

O historiador Pacheco Pereira, que organizou na Assembleia da República uma exposição que comemora os 40 anos da democracia, considera que foi nesse período que nasceu a democracia. “Quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril. O PREC teve excessos e houve mortos e gente que mandou matar, mas a verdade é que foi naqueles anos turbulentos que nasceu a democracia portuguesa”, disse numa entrevista recente ao jornal i.

 

10. 

Constituição de 76. “É o primeiro instrumento organizador do que vamos ser”, sintetiza Maria Manuel Leitão Marques (1952), professora universitária e ex-Secretária de Estado da Modernização Administrativa (2007/11). “Tudo o resto é afinado a partir daí. Há coisas que são muito alteradas nas revisões constitucionais, mais na organização do poder político (sobretudo em 82) e da economia (em 89), menos nos direitos e deveres fundamentais.”

No princípio, nessa magna carta, estava escrito que devíamos caminhar para o socialismo. Que socialismo? Que caminhos? A questão não é despicienda, porque mexe com um entendimento do que a democracia deve ser. E porque, sustenta Pedro Magalhães, “a maioria das pessoas tende a associar – e intensamente – liberdade de expressão, liberdade de associação e eleições livres a justiça social, segurança e prosperidade económica.”

Esta era a promessa, reflectida na Constituição de 76.

Um equívoco, considera Maria de Fátima Bonifácio. “As pessoas habituaram-se a usar democracia e bem estar económico como sinónimos. No meu ponto de vista, democracia [corresponde] a liberdades, direitos, a um Estado de Direito, ao Serviço Nacional de Saúde (que é uma aquisição civilizacional, mesmo que não faça sentido eu pagar o mesmo que a minha empregada por uma radiografia). Mas a democracia não são os ténis da Nike. A democracia pode ser mais redistributiva ou menos, conforme o Governo for mais social democrata, menos social democrata. Em si mesma, não promove o crescimento e o desenvolvimento económico. A prova é que a Europa está em recessão há anos e promete continuar a arrastar os pés.”

Esta associação entre prosperidade, bem estar e liberdades cívicas não é exclusiva de Portugal. “É característica de democracias mais pobres e de democracias mais recentes” especifica Pedro Magalhães. “Os EUA, a Suécia, a Noruega dizem que democracia corresponde a liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres”.

Esta é uma das pistas para compreender a nossa zanga com a democracia. “As pessoas sentem que ainda não receberam dela o que estava prometido”, diz o cientista político. “As democracias nórdicas, que queremos ser há 40 anos, têm menos corrupção, melhor governo, são menos desiguais, têm nível de vida médio mais elevado. Têm o pacote completo.”

O pacote completo que o povo também quer. Não foi (também) para isso que se fez uma revolução, pá? Portanto porque é que não o temos, grita o povo. “Porque 40 anos é pouco tempo”, conclui Pedro Magalhães.

 

11.

A Revisão do Código Civil em 77 consagra a igualdade constitucional entre homem e mulher em toda a vida familiar.

Era o momento das mulheres. “Os homens ganharam liberdade política. As mulheres ganharam tudo. Ainda me lembro que a minha mãe tinha que pedir autorização ao meu pai quando queria passar férias comigo, em Berkeley. Ou quando quis comprar um carro. A minha mãe era uma alemã que cresceu nos anos 20, em Berlim. Imagine.” Alexandre Quintanilha (1945), cientista. Os pais viviam em Moçambique. Lá como cá, o homem tinha o direito de ver a correspondência da mulher. Um contraste absoluto com o ambiente da baía de São Francisco, onde Quintanilha trabalhava e vivia.

Veio a Portugal em 1979 com o então namorado hoje marido Richard Zimler.

Entretanto a célula da família mudou tanto que é possível escrever banalmente “o então namorado hoje marido”. Como se o casamento homossexual não fosse um tema fracturante (expressão que não se usava e agora se usa).

Entretanto também o sexo deixou de ser um tema fracturante. “Já não passa pela cabeça de ninguém criticar uma mulher por ter tido relações sexuais antes do casamento. Há uns anos, se a mulher não fosse virgem, tinha um nome”, nota Quintanilha.

O casal mudou-se para Portugal em 1990. Casaram em 2010 poucos meses depois da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas quando vieram juntos pela primeira vez encontraram um país “medieval”.

Não havia jornais estrangeiros, levava-se um dia para chegar a um lugar mais recôndito, esperava-se meses – ou anos – que instalassem o telefone em casa. E ficava-se à mercê das pessoas que se conhecia e que podiam aligeirar o processo. “Eu telefono ao senhor não sei quantos e ele trata disso – diziam-me. Ou éramos ignorados porque ninguém nos conhecia ou éramos tratados como príncipes porque trazíamos recomendação.”

Diagnóstico: arbitrariedade e ineficiência do sistema. Palavra de todos os dias: meter uma cunha. Cunha em modo soft.

Mais à frente, quando o dinheiro começou a ser a sério, meteram-se cunhas a sério. Algumas eram tão a sério que passaram a chamar-se corrupção. Mas isso é mais à frente.

As mulheres, para já. Uma das primeiras manifestações, logo depois do 25 de Abril, teve que ver com a proibição do divórcio dos que eram casados pela igreja – a esmagadora maioria.

Irene Flunser Pimentel: “Fez-se um comício. Pela primeira vez uma mulher foi oradora principal. A questão do divórcio tocou homens e mulheres. Muitos deles tinham amantes, filhos ilegítimos”.

Porque é que isso constituía um drama? Porque homens e mulheres separavam-se e continuavam casados com os antigos maridos e mulheres; porque viviam com outros e continuavam casados com os anteriores; porque tinham filhos das novas relações e não os podiam perfilhar. Numa linha: não era possível dissolver uma família e constituir outra.

Em 1975, o ministro da Justiça Salgado Zenha reviu a Concordata com a Santa Sé. Passou a ser possível o divórcio entre casados pela igreja.

Número de divórcios em 1965: 600. Em 1975, há 1500. Em 1977, há 7700.

A completa igualdade entre filhos e entre homem e mulher, que resulta da Constituição de 76, é incorporada no Código Civil de 77.

 

12.

A extinção do Conselho da Revolução em 82 e a criação do Tribunal Constitucional. Henrique Granadeiro: “Do ponto de vista simbólico, é um grande momento. Do ponto de vista prático, nem tanto. O general Eanes era presidente da República e chefe do Estado Maior das Forças Armadas, era o vértice do encontro do poder militar com o poder civil. Foi enviando a tropa para os quartéis e valorizando a política nas instituições. A extinção do Conselho da Revolução foi a morte natural de um processo que veio a ser conduzido por ele desde o primeiro momento, de forma discreta e sistemática.”

 

13.

Um não momento: o bloco central liderado por Mário Soares e Mota Pinto pede ajuda ao FMI em 83. Os portugueses habituam-se a ver Teresa Ter-Minassian na televisão. José Mário Branco compõe o disco FMI.

Um não momento porque somos essencialmente os mesmos depois dessa passagem ou da passagem de 77. Ao contrário do que acontece com a presença da Troika desde Abril de 2011.

Então tínhamos moeda própria, inflação e desvalorização. E a Europa era um oásis próximo. José Medeiros Ferreira, sonhador da pertença à Europa e ao mundo, havia feito o pedido de adesão quando era ministro dos Negócios Estrangeiros (1976/78). Esse sim, um momento.

 

14.

Outros gráficos. Taxa de mortalidade infantil: 55 por mil nados-vivos em 1970. Oito por mil em 1994. Três por mil em 2008. A média da UE é superior a quatro por mil.

Número de pensionistas: em 1960 são 56 mil, em 1976 é um milhão. Pensão de sobrevivência: em 1960 são sete mil beneficiários, em 1976 são 125 mil. (Fonte: Eurostat e Pordata)

Em 1980, Cavaco Silva, na pasta das Finanças do Governo Sá Carneiro, faz um alargamento do regime não contributivo. Mulheres que foram domésticas toda a vida, agricultores e outros que nunca tinham contribuído passam a ter protecção social.

 

15.

Nick Racich (1952) chegou a Portugal há 30 anos, quando foram concedidas as primeiras licenças à banca privada. Banqueiro, vice-presidente do banco BIG, estudou na prestigiada Wharton School depois de abandonar um doutoramento em Dom Quixote de la Mancha de Cervantes. Um percurso banal num país como os Estados Unidos, improvável para não dizer impossível num país como Portugal.

Este americano de Filadélfia, trabalhava em Nova Iorque e tudo o que sabia de Portugal era que Lisboa era um jóia. Claro que sabia onde ficava Portugal, mas no banco onde trabalhava, em 1980, “em termos de organização, Portugal e Espanha faziam parte da América Latina. Em todos os bancos americanos era assim. Por causa da língua. Só em 86, quando integraram a Comunidade Económica Europeia, começaram a estar arrumados de outra maneira”.

Nick Racich falava espanhol por causa do cavaleiro da triste figura. Hoje fala um português sem mácula. Tem dupla nacionalidade e diz pá.

“O primeiro sector a ser aberto à iniciativa privada foi o bancário. Foi uma medida inteligente porque a banca é um motor da economia. Não havia mercado monetário, mercado cambial, bolsa, não havia produtos financeiros. Em poucos anos chegámos a ter 17 bancos estrangeiros. Começou a pensar-se na privatização de sectores chave da economia.”

A cerveja não é um sector chave, mas foi com a Unicer em 1989 que começaram as privatizações. Verdadeiramente só em Abril de 1990, com a lei das mesmas, começaram a ser levadas a cabo.

Outra palavra começava a ser usada: empreendedorismo. Com um significado que não coincide com o de um americano: “Empreendedorismo é pegar em capital – nosso, privado – e começar com esse capital, e não esperar patrocínios, dinheiro do Estado ou dívida bancária”.

Mas isto é um americano a falar, com uma aprendizagem diferente da nossa, que vive num país-continente onde é possível recomeçar no dia seguinte, várias vezes. A escala permite-o.  

Em Portugal, a democracia tinha pouco mais de dez anos. E o dinheiro da CEE estava a chegar. O país parecia de mangas arregaçadas, com condições para cumprir o D de desenvolvimento.

 

16.

Bem, não exactamente de mangas arregaçadas.

O que ficou no imaginário colectivo: betão, rotundas, infra-estruturas ruinosas. Recursos malbaratados, fraude com os dinheiros do Fundo Social Europeu e do PEDIP. Uma certa trafulhice e o início do folguedo.

É uma visão injusta, porque parcelar, dos anos que começavam com a adesão de Portugal à CEE. Essa foi a década da emergência da classe média, do alargamento do Sistema Nacional de Saúde, da estabilidade democrática. Mais do que tudo: essa foi a década em que deixámos de ser a choldra e passámos a fazer parte de um clube selecto. Ruy Belo, que parecia saber tudo, e antes do tempo, escreveu no poema Sexta-Feira Sol Dourado: “Agora é que vamos ser felizes (...) Portugal fica em frente.”

O Portugal triste fotografado por Victor Palla, a preto e branco, o português pobre encarnado por Belarmino no filme de Fernando Lopes (1964) pareciam de outro século. Tinham passado apenas 20 anos.

Nenhuma das pessoas ouvidas pelo PÚBLICO para a elaboração deste texto deixou de referir a entrada na CEE como momento chave de 40 anos de democracia.

O fiscalista e professor universitário João Taborda da Gama (1977) chamou-lhe “o mecenas do nosso 25 de Abril. Quer dizer, a Europa permitiu-nos ter o dinheiro para efectivar o 25 de Abril”.

 

17.

Quando é que começámos a ter um Estado gordo? Maria Manuel Leitão Marques: “Eu não sei se temos um Estado gordo. A questão é a de saber que Estado podemos sustentar e onde devemos concentrar a despesa. Mas no final dos anos 80, algumas das reformas nas carreiras da função pública efectuadas por Cavaco Silva, designadamente com a criação de promoções automáticas por tempo de serviço, aumentaram significativamente a despesa com funcionários. Mesmo que a intenção fosse boa, o resultado foi desastroso em termos de progressões não assentes em critérios de mérito e tornou o peso dos salários na administração pública muito elevado.”

Miguel Cadilhe, então ministro das Finanças, discordou e saiu do executivo.

A imagem não era a da grande porca de Bordalo Pinheiro, que serve para a expressão “mamar na teta do Estado”. Essa veio (voltou) mais tarde. A imagem era a de um Estado tentacular que dominava toda a economia (ainda que de 1990 a 95 o sector público tenha sido fortemente diminuído com as privatizações). A imagem era a de um Estado onde cabiam as clientelas políticas, a ineficiência, o manga de alpaca. O Estado dos tachos.

Contudo, as prestações sociais ainda estavam aquém da média europeia. O Estado Social era recente e insuficiente. Continuou necessariamente a crescer, na educação, na saúde, nas pensões. António Guterres fez da educação a sua paixão. Em 2002 Durão Barroso disse que o país estava de tanga.

A resolução do problema não se fez com uma diminuição da despesa nem com reformas estruturais dirigidas ao crescimento, mas com uma reforma da máquina fiscal. Cobraram-se impostos, muitas vezes devidos há anos e anos.

João Taborda da Gama: “É verdade que havia um sentimento de grande impunidade e de corrupção na administração fiscal. O momento marcante foi quando Paulo Macedo assumiu o lugar de Director Geral dos Impostos (2004/2007). Hoje esse sentimento de impunidade não existe.”

A confusão entre despesa com o Estado Social (pensões, educação, saúde) e peso da máquina administrativa é um preconceito antigo. No ano em que Portugal pediu ajuda financeira e a palavra de ordem era cortar nas gorduras do Estado, o nível de despesa pública no PIB era de 48,9%. A média da União a 27 era 49,1% e da Zona Euro 49, 4%. (Fonte: Eurostat). Grande parte da despesa pública estava concentrada em pagamentos de pensões e funcionalismo público – a fatia era de 65, 70%.

Segundo o livro de Emanuel dos Santos, Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental, em 2011, 47% da despesa pública consistia em redistribuição de recursos que o Estado operava de uns cidadãos para outros, incluindo pensões e outras prestações sociais. As despesas de funcionamento da administração pública (salários mais consumos intermédios) representavam 39% dos gastos totais. Mas como abrangiam a produção de serviços como a educação, a saúde ou a segurança, o custo da máquina burocrática do Estado central ficava-se pelos 15,5% da despesa pública ou 7,2% do PIB. 

 

18.

Uma confusão: despesa pública com o Estado Social e custo da máquina administrativa. Outra confusão: dívida interna e dívida externa. Outra confusão ainda: dívida e crescimento. Para Nick Racich, o problema não é o que devemos, o problema é o que não crescemos. “O endividamento externo português em 83/84 era qualquer coisa como 16 mil milhões de dólares. Em 2011 era 20 vezes superior. E o PIB apenas duplicou. Ou seja, o país produziu o dobro mas pediu emprestado 20 vezes mais.”

O que é que o país fez com o dinheiro que foi buscar? Entre 1998 e 2010, o investimento produtivo feito pelo sector financeiro baixou 20%, o financiamento ao consumo privado aumentou 19%. (Fonte: artigo de opinião de João Pinto e Castro no Jornal de Negócios a partir do livro de Emanuel dos Santos Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental).

“É um país extremamente endividado. Não mais do que os outros. A diferença está em que alguns conseguem dar a volta rapidamente. Portugal, não”, diz Nick Racich.

De novo gritamos, zangados com o nosso malfadado destino: porque é que não conseguimos dar a volta? Porque é que voltamos a ouvir Júlio César dizer que este é um povo que nem se governa nem se deixa governar? (É a elite ou o povo que não se governa nem se deixa governar?) Porque é que lemos Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871) de Antero de Quental e o texto nos faz sentido?

“É uma democracia muito nova”, continua o banqueiro. “40 anos é muito pouco. São duas gerações. Ainda temos muitas pessoas vivas que viveram o antes. E antes de décadas de ditadura estão séculos de monarquia, de paternalismo.”

João Constâncio (1971), professor universitário, autor, entre outros, do livro Nietzsche e o Enigma do Mundo, chama igualmente a atenção para este ponto. “Em 40 anos não se substitui a população de um país. A cabeça das pessoas não mudou o suficiente, apesar das transformações económicas e sociais. Em 40 anos não se transforma uma população em grande medida analfabeta numa população instruída.”

Pensemos nisto: quantos dos que estavam vivos em 1974, com uma identidade, um passado, uma raiz fizeram a transição para o Portugal democrático. Quantos dos que eram impreparados, iletrados aprenderam a viver num país novo. E pensemos nos que nasceram depois de 74 e nos filhos desses. Dir-se-ia filhos de um outro país. Contudo, os nossos pais ainda são aqueles.  

 

19.

Problema central: porque não crescemos? A resposta de Henrique Granadeiro: “Existe uma correlação directa entre instabilidade política e desenvolvimento económico. Tivemos 25 governos em 40 anos [seis governos provisórios e 19 governos constitucionais]. Com este vai e vem de governos é impossível gerar políticas de longo prazo. A primeira preocupação do governo seguinte é rectificar o [que considera] disparates do governo anterior. Isso introduz uma precariedade cujo resultado está à vista.”

Segundo dados do Eurostat, os ciclos políticos mais longos e com maior taxa de crescimento correspondem aos X, XI e XII governos (1985/95, governos de Cavaco Silva) com uma taxa de crescimento do PIB de 4,2%. Os XIII e XIV governos (1995/2002, governos de António Guterres) tiveram uma taxa de crescimento de 3%.

Na opinião do presidente da PT, “o sistema constitucional permite, e em certa medida encoraja, a existência de governos minoritários. Um exemplo: o presidente da República empossou um governo minoritário em plena crise mundial (2009). Foi um erro político de Cavaco, que o nomeou, e um erro político de Sócrates, que aceitou.”

O povo volta a perguntar: porque é que não crescemos, porque é que não damos a volta?

Ouçamos de novo as vozes dos Rapazes dos Tanques, das manifestações, dos que agora emigram. Ouçamos a zanga com a classe política, com essa elite. Com a elite que não dá a volta, que não nos faz dar a volta, que não nos deixa dar a volta. Uma elite pequena, pouco capitalizada e dependente do Estado.

O advogado Vasco Vieira de Almeida disse numa entrevista ao Jornal de Negócios (2012): “Em Portugal pertencer a uma elite nunca representou, como devia, uma fonte extra de obrigações, antes uma atribuição anormal de privilégios. O povo foi sempre melhor do que as elites”.

 

20.

Antes do leite derramado, há a Expo 98 e o orgulho numa obra com aquela dimensão, aquela beleza. Não é pouco porque um povo precisa de pão e circo.

Antes ainda privatiza-se a produção de informação. Aparecem as rádios e as televisões privadas. Não muda só a forma de comunicar. Muda, o que é fundamental, a forma de comunicar política e consequentemente a forma de fazer política.

Mudam os protagonistas. O povo aparece na televisão, a sua biografia importa. O povo vê e comenta o povo na televisão, a elite vê o povo na televisão e comenta o Big Brother de Orwell.

Nos anos 90 o mundo era tão estável que a geração nascida na década de 70, ou pouco antes, não sabia o que era o contrário de liberdade.

João Constâncio era um miúdo quando o pai, Vítor Constâncio, foi secretário-geral do Partido Socialista (1986/89). Acompanhava-os nos comícios, no fervilhar da política. Depois fechou-se a estudar. Grego antigo, alemão, Platão. “A minha geração foi a primeira que pôde viver acomodada no tipo de democracia ocidental que resultou do 25 de Abril. A política era uma questão que estava resolvida. Alguém já tinha feito o que era preciso fazer. Mais do que isso: a política tinha-se tornado uma questão burocrática. Não havia nada de heróico nem de decisivo nela. Como costumo dizer, não vivi os anos 90. Como se o mundo não existisse para mim. Eu podia estar alienado, para usar uma linguagem marxista, nas minhas preocupações existenciais.”

O poeta e cirurgião plástico João Luís Barreto Guimarães, nascido em 1967, diz o mesmo num dos poemas do livro Você Está Aqui: “Ninguém da nossa geração esteve na revolução; outros, antes de nós, fizeram as nossas guerras. Quando chegámos aos dias já a guerra havia sido (...) Para nós sobejou outra sorte de batalhas: levantar cada manhã o peso imenso das pálpebras, correr por um lugar na trincheira do balcão”.

O poema traduz um lamento, o individualismo, uma vida por vezes autómata. “Agora luta-se por o ter a casa, o ter o carro, o ter o telemóvel. Coisas concretas destituídas de idealismo”, diz Barreto Guimarães.

Algumas palavras caíram em desuso. Idealismo, por exemplo.

 

21.

Adeus escudo, willkommen Euro. As novas notas apareceram há 12 anos.

A vida subiu de preço. No supermercado e na bomba de gasolina, nos restaurantes e nos centros comerciais. Só uma coisa embarateceu, e muito: o preço do dinheiro. As taxas de juro eram tão baixas que só não tinha casa própria quem não quisesse (dizia-se). E já agora férias na República Dominicana (a crédito). E um segundo carro para a família (ainda a crédito). A banca, de motor da economia, passou a motor do consumo.

Foi o momento em que palavras como spread se começaram a usar todos os dias. E os bancos se sobre-endividaram (além do estabelecido nas regras de Basileia) a curto para emprestar a longo prazo.

O endividamento dos bancos portugueses no estrangeiro passou de 49% do PIB em 1999 para 96% em 2007.

Até que o Lehman Brothers tombou e a torneira estancou.

 

22.

Fomos nós que vivemos acima das nossas possibilidades? João Constâncio rejeita o que considera ser um discurso punitivo que se impôs depois da queda do gigante americano e em especial depois do pedido de resgate do Estado português. “Um discurso que faz as pessoas sentirem que desde a entrada na CEE até 2011 andaram a viver de uma herança de uma tia rica. E que têm de voltar a ser pobres porque Portugal é um país pobre.”

Do outro lado: os povos do sul são preguiçosos, desorganizados, perdulários. Há quem pense que, além destes atributos, são ignaros.

As crianças introduziram no seu léxico uma palavra nova: austeridade. E aprenderam, à força de ouvir os pais, os avós, a televisão, que o futuro podia não ser radioso. Que o mais provável é que não seja radioso.

Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se e empunharam cartazes onde se lia: queremos o nosso futuro de volta. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos. Reformados que se transformaram no esteio de milhares de famílias (apesar das pensões cortadas para metade). A classe média que vive no fio (por causa dos cortes para metade). Desempregados. Gerações à rasca. Não estavam as centenas de milhares que nos últimos anos tiveram que emigrar.

João Luís Barreto Guimarães especializou-se em reconstrução mamária de mulheres que tiveram cancro da mama. No hospital, no consultório, assiste a uma degradação rápida da jóia indiscutível que é o SNS, ao empobrecimento do povo. “É preciso saber ler os sinais. As pessoas andam tristes, estão a engordar, a envelhecer, têm sapatos cambados, roupa puída, semblantes zangados. Os doentes dizem: ‘Tenho diabetes, hipertensão arterial e insuficiência cardíaca. Deste três, qual é o menos grave? Porque só tenho dinheiro para comprar medicamentos para dois.’ A vida inteira trabalharam, confiando que o Estado era pessoa de bem e que um dia, quando precisassem da reforma, iam tê-la. O Estado pura e simplesmente está-lhes a falhar. Estica a corda sem introduzir o factor sentimental na regra económica.”

 

23.

- Onde é que falhámos?, o que é que correu mal?

- André Gonçalves Pereira: “Nada correu especialmente mal. A sociedade é o que é. Temos um regime aristocrático medíocre, em que o papel das famílias dominantes é desempenhado pelos partidos políticos. A nova aristocracia são os partidos políticos. É uma aristocracia de posição, não de ideias nem de nascimento.”

- Rui Pena Pires: “O que é que falhou no 25 de Abril? Nada. Nos últimos 40 anos, o que falhou mais foi o facto de continuarmos a ser o país mais desigual da Europa (agora menos do que a Bulgária e a Roménia – não é grande consolo).

- João Luís Barreto Guimarães: “Abril realizou-se? A resposta é não. Não se cumpriram os objectivos da revolução. A sociedade não cresceu como um todo. Aumenta o fosso entre os mais pobres e aqueles que enriquecem na proximidade do poder. Tenho a maior desconfiança da classe política. O pote vai voltar a encher? Temo que o regabofe volte.”

- Maria Manuel Leitão Marques: “Foi-se avançando com as maiorias políticas existentes. Seria bom que tivéssemos tido governos de maioria? Não os tivemos. Porque as pessoas não votaram assim nem obrigaram a que houvesse um pacto entre os principais partidos. Mas devíamos ter tido mais coragem e mais visão para em 1986 fazer reformas dolorosas. Por exemplo, de reestruturação empresarial (e não alimentar com fundos europeus empresas cuja competitividade era duvidosa, e que caíram agora como tordos). Isso tem custos. Há clientelas políticas que se perdem.”

- Irene Flunser Pimentel: “Correu-nos mal a Europa, como correu mal a outros países. Não foi a nossa inserção no projecto europeu. Foi o projecto europeu. Não fizemos uma união política europeia. Fomos pela via do dinheiro, e aconteceu o que aconteceu.”

- João Constâncio: “Até 2010, a evolução do país foi muito positiva. O que correu mal foi a resposta da Europa à crise das dívidas soberanas, que afectou em particular certos países da Zona Euro, entre eles Portugal. As coisas podiam ter tomado outro caminho. Um caminho que reconhecesse a assimetria que há desde início entre a periferia e o centro. As principais decisões foram tomadas segundo o princípio “cada um por si”.

- Alexandre Quintanilha: “Grande falhanço: é capaz de ser a justiça. Como se vê. Portugal continua a ser muito individualista e tem dificuldade na interdisciplinaridade. Pomos pessoas da Filosofia a falar com um cientista e há sempre um arrogante que faz troça, que acha que o outro não sabe o que está a dizer. Educação: é mentira que a escola pública seja má. Há de tudo, claro. Mas em todas as turmas que passaram por mim havia pessoas excepcionais.”

- Maria de Fátima Bonifácio: “A democratização do ensino foi calamitosa. Dizer que é a geração mais bem preparada de sempre dá-me vontade de rir. Fui professora universitária de 1980 a 2008. As pessoas podem ter diplomas que atestam a sua escolaridade, mas o nível de ignorância é assustador. Se houver 15% de alunos excelentes, é fantástico.”

- Nick Racich: “A confiança na justiça está abalada. Nos EUA, os Madoff vão para a prisão por 150 anos. Em Portugal, o povo tem a noção de que ao tubarão não acontece nada. Que o tubarão se safa. Os políticos estão a subestimar a importância da confiança na vida das pessoas. O sentimento de injustiça cria zanga, desapontamento.”

- Maria de Lurdes Rodrigues: “As ambições e expectativas vão sendo actualizadas, reajustadas. Todos os estudos apontam para ter sido o sector da justiça aquele em que a mudança falhou.”

- Pedro Magalhães: “É normal o cepticismo em relação à política, é saudável. Onde não vejo tanta saúde é na desconfiança em relação à justiça. Confiam na justiça 28% dos inquiridos. Na Dinamarca, confiam 84%. (Dados de 2010.) Isto é muito grave e preocupante. Tenho de confiar na justiça para resolver os problemas que tenho na relação com os outros, com o Estado. Se não confio na justiça, o que é que sobra? Na sondagem que se apresentou na Gulbenkian, 77% acham que estamos pior agora do que no antigo regime no que diz respeito à corrupção; 81% acham que estamos pior na criminalidade e na segurança.”

- João Taborda da Gama: “O 25 de Abril chega tarde. Se tivéssemos tido uma revolução dez, quinze anos antes tínhamos tido um desenvolvimento mais sustentado. Foi tudo feito muito à pressa porque teve de ser tudo feito muito à pressa. Por causa da Europa (que era o nosso quadro institucional e geoestratégico). Isso vê-se, por exemplo, no desastre urbanístico de Portugal. A marquise é o símbolo desse desenvolvimento.

Outros pés de barros: como povo, como comunidade, não fomos exigentes com o investimento público, as rendas excessivas, as instituições.”

- Henrique Granadeiro: “A classe média, conquista de Abril, está a sair pela porta dos fundos. O ar do tempo é claramente de fim de regime. As pessoas não têm confiança no Governo nem esperam grande coisa da oposição, e não olham para o presidente da República como defensor das instituições. Estamos a viver num puro sistema tecnocrático. Um sistema onde as decisões são tomadas mas onde não há política. Faz-me lembrar a frase que um anarquista mexicano pôs num mural: ‘Basta de realizações, dêem-nos promessas’. As pessoas precisam de um discurso político portador de alguma esperança. E mesmo de alguma ilusão.”

 

24.

Ainda que continuemos a ser Fátima, Fado e Futebol, não somos da mesma maneira Fátima, Fado e Futebol. O Fado é Património Imaterial da Humanidade, Camané, Carminho e Mariza enchem plateias no mundo todo. José Mourinho foi o melhor treinador do mundo, Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo. Fátima continua cheia, com uma basílica nova, mas o peso da religião é outro.

João Taborda da Gama foi discípulo de Saldanha Sanches, consultor de Cavaco Silva na presidência, tem cinco filhos. Não recebeu dos pais, Jaime Gama e Alda Taborda, uma educação religiosa. Converteu-se ao catolicismo na universidade. “Hoje a religião é um fenómeno mais reflexivo e menos ritualístico. Há uma queda dos níveis de participação religiosa, há uma secularização da sociedade, como em toda a europa. Mas aqueles que têm uma vivência religiosa têm-na de uma forma menos automática. É uma religião mais vivida, mais espiritual.”

E agora também temos Manoel de Oliveira, Paula Rego, Saramago, Siza projectados no mundo todo, cientistas entre os melhores do mundo. Em muitas disciplinas estamos entre os melhores do mundo.

João Constâncio: “Quando comecei a dar aulas, em 96, fazia o doutoramento quem era professor universitário. Tudo isso mudou imenso. A universidade produz uma elite, que é pequena, mas que apesar de tudo é muito maior do que era, e que tem uma dimensão internacional, está inserida em redes internacionais de investigação.”

 

25.                                                                                                      

O 25 de Abril foi a invenção do dia claro, para glosar o título de Almada Negreiros. Há muito que se perdeu a capacidade de sonhar, o impulso vital da juventude. O povo voltou a cantar Grândola Vila Morena. Lídia Jorge escreve em Os Memoráveis, livro-olhar sobre o 25 de Abril, que precisamos de uma nova canção. Escreve também: “Acha, então, que a mente humana está definitivamente formatada para se esquecer do bem? Para se esquecer dos momentos em que o anjo da alegria passa pelo mundo?”.

É isso. Passou por nós o anjo da alegria. Apesar de tudo, foi muito bonita a festa, pá. Resta saber como vamos cumprir o Portugal que falta.

 

  

Publicado originalmente no Público no dia 25 de Abril de 2014 

 

 

Manuel João Vieira

10.04.20

Isto não é uma entrevista a Manuel João Vieira, isto é uma entrevista aos heterónimos de Manuel João Vieira. O músico, o candidato presidencial, o artista plástico. Uma destas tardes, apareceram todos lá por casa (do Manuel João, em Campo de Ourique). Ele é muitos.

Nada fica de fora. Sócrates e as escutas, Manuela Ferreira Leite por falar em leite. A pedofilia. Do que gostam os católicos. Educação sexual forçada na terceira idade. Palavras como “singelo” e móveis antropomórficos. Maio de 68 que afinal é Maio de 78.

Beckett não é chamado ao barulho. Apesar do absurdo. Mas Agnès Varda, sim, e Bocage.  

Há uma radiografia do país feita por Elvis Ramalho, Lello Minsk, Candidato Vieira e Orgasmo Carlos. Há uma biografia sumária do homem por detrás dos personagens, Manuel João. 

O que é fazer uma entrevista a um heterónimo? É seguir o fio. E provocar. Jogar no escuro.

Aqui e ali há pequenas incongruências (uma vez diz-se que Elvis Ramalho é o irmão mais novo dos irmãos Catita, outra que é Lello Minsk). E responde como um músico azeiteiro faria (“O papá catita era alguém muito severo”), ou um artista (Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial e irradiante”).

A entrevista foi feita à tarde, depois de Manuel João dormir a sesta. Estado: absolutamente sóbrio. Com queixas de uma ressaca da véspera. A casa é a casa de um artista.

Bem vindo ao admirável mundo de Manuel João Vieira!

 

… O que interessa realmente nas entrevistas é identificarmo-nos com aquele que é entrevistado; saber por exemplo que é uma pessoa normal como nós. Muitas entrevistas tendem a ser como aquelas que se fazem aos ciclistas quando chegam à meta, ou aos futebolistas, esperanças para o futuro. Existe uma organização implícita.

 

Um enunciado?

Sim. As respostas também fazem parte de um pacto, e as coisas funcionam segundo esse código, e se funcionarem assim são entrevistas sérias.

 

Sérias porque ninguém fica defraudado?

Sérias porque é aquilo que é suposto fazer-se. Tudo corre como num filme de Hollywood: há um princípio, um meio e um fim, que é feliz.

 

Quem vamos começar por entrevistar para furar o enunciado?

Tenho comigo o Orgasmo Carlos, um génio da arte contemporânea, segundo ele próprio. Tenho o Candidato Vieira, que está a fazer uma travessia no deserto. Tenho dois cantores, um que canta nos Ena Pá 2000 e noutras bandas, o Lello Minsk; e um cantor da canção portuguesa, o Elvis Ramalho.

 

Vamos começar pelo autor da frase: “Se há coisa que me faz mal é a água mineral”.

Isso foi uma tradução que fiz para uma canção que se cantava nos Irmãos Catita. Posso falar imediatamente como Elvis Ramalho… No fundo sou um amante da canção latina como as que havia antigamente. Em Portugal tivemos aquele acidente que foi o Salazarismo, mas havia muita canção latina, lembro-me disso. E também era muito latino o facto de nos agarrarmos às canções anglo-saxónicas. Os Conchas, o Concerto Académico, todos esses, pegavam em músicas, tanto italianas como inglesas. A única coisa que me distingue do meu irmão, Lello Minsk, é o facto de me interessar por canções ainda mais foleiras do que ele. Já não o vejo há uns anos. Para mim, o importante é o sentimento, e vivo numa espécie de museu do lixo sentimental, rodeado das minhas próprias fotografias.

 

Narcisista, portanto.

Sim. Tenho fotografias minhas dos anos 70, em que ainda não pintava o cabelo, com um bigodinho. A minha vida, ao contrário da do Lello Minsk, tem sido uma bebedeira mais de martinis. Ele prefere o bagaço e o whisky, bebidas mais duras. Somos pessoas bastante transparentes. Como irmão dele, acho que é uma pessoa sem qualquer tipo de substância. É volátil como espuma do mar. É diferente de mim. Sou uma pessoa com mais carácter, um bocado mais de consistência.

 

Você, Elvis Ramalho?

Sem dúvida. Pelo menos foi o que me disseram. Estou a escrever as minhas memórias, mas não me lembro de nada. Quando começar a lembrar-me de qualquer coisa vou escrever. E tenho outro problema: não sei se estou vivo ou se estou morto, e se estou a sonhar ou se estou acordado.

 

Tiveram pai e mãe?

O Lello lembra-se disso. Sou o irmão mais novo, não me lembro. Vivíamos no Algarve. Somos familiares dos tipos do atum. O Atum Catita era uma parte da família que se dedicava à indústria conserveira; fez algum dinheiro, mas nunca deu um chavo à parte pobre da família, que éramos nós. Emigrámos muito cedo para Lourenço Marques para fazer fortuna, e conseguimos ter um lugar modesto dentro do meio vagamente analfabeto e mundano de Lourenço Marques. Depois voltámos para cá como artistas coloniais, mas nunca chegámos a ter qualquer sucesso.

 

Quando é que nasceram?

Quem é que se lembra de quando nasceu?

 

Há os álbuns do bebé, que ajudam a situar.

O papá Catita era alguém muito severo. Quando éramos muito novos, quatro anos de idade, dividíamos uma sardinha de uma lata entre 10 irmãos, e quando alguém tirava um bocado a outro, espetávamos um garfo na mão! É preciso dizer que houve fome em Portugal – há muita gente que não se lembra disso. Cresci e nasci para a música. Para mim, o mundo da canção e da música é mais importante do que a realidade. Na realidade vivo quando estou em palco (isto também se diz neste tipo de entrevista). O sentimento de entrega aos meus fãs seria o sentimento que normalmente um casal, que vive num filme de publicidade, tem um pelo outro. Imagine-se uma família num filme de publicidade, um pai, uma mãe, os filhos…

 

Um pai sem barriga, uma mãe com um pernão…

A característica em comum é a de serem todos lindíssimos, e estão todos numa casa que parece um catálogo da Moviflor. Para isso prefiro a vida de palco, e gosto de imaginar que vivemos num mundo maravilhoso. Ontem vi um filme da Agnès Varda, um documentário dos anos 60 sobre aquela região de Cannes e Nice; o meu mundo é assim: vivo nos anos 60, quando as cores da moda eram o azul e o amarelo.

 

Ficou aí cristalizado, no sol e no mar.

Sem dúvida, fiquei. E tenho muita sorte de não ter ficado cristalizado na Idade Média, como muita gente que anda por aí. Nesse aspecto considero-me mais avançado. Tenho o problema de achar que os móveis me ameaçam, que são antropomórficos, agressivos e cruéis, e vivo rodeado de móveis… De resto, sou uma pessoa normal.

 

Porque é que essa pessoa só existe no palco, ou só se sente bem no palco?

Existo também fora do palco, em fotografias, sobretudo dos concertos. Se for a minha casa, ela está habitada por imensas fotografias, referências, os meus discos de ouro, o meu toucador, as perucas, os bigodes falsos… Só eu é que não estou lá. Mas o que é uma pessoa senão os vestígios que deixa neste mundo?

 

Pergunta profunda. Qual é a resposta?

Quem sou eu para responder. Sou fundamentalmente uma pessoa muito modesta, de origens muito humildes, e apenas quero entreter as pessoas.

 

Lorpa: é acusado disso?

Há quem me diga que sou simples. Nunca me interessei pela complexidade. Gosto de coisas singelas. Acho o mundo um sítio maravilhoso, as crianças são maravilhosas, as mulheres são maravilhosas, Portugal é um sítio maravilhoso. Tenho a sorte e o privilégio de viver num dos sítios mais bonitos do mundo. E permita-me que lhe diga que a menina é muito bonita.

 

Um palavrãozito, nas suas canções, existe?

Sabe o que é? Tenho pessoas que me escrevem as letras, e às vezes sou obrigado a cantar aquilo. Não quer dizer que simpatize com esse tipo de utilização da língua portuguesa, embora entenda que exista essa tradição, desde a poesia medieval galaico-portuguesa, passando pelo Barbosa du Bocage. 

 

Quem é que escreve as letras?

As letras são do meu irmão, Lello Minsk. Eu sou só um cantor romântico. Já lhe disse que a menina é muito bonita? O Lello Mickey, acho-o repugnante!, é uma pessoa sem sentido moral, um bêbedo convulsivo. Tudo o que de mau aconteceu ao mundo, a partir de Maio de 1978, é de certa maneira encarnado nesse… Chama-lhe pessoa; não sei se é uma pessoa.

 

Antes de falarmos do Lello Minsk…

Ele é Minsk, mas às vezes gosta que lhe chamem Lello Mickey.

 

A idade mental dele não é a do Rato Mickey, ou é?

Não sei se o Rato Mickey tem uma idade mental. A idade mental do Rato Mickey é a idade mental de quem lê o Rato Mickey. E preferia não falar do meu irmão, se não se importa.

 

Têm uma relação assim tão atribulada? Temos aqui um Caim e um Abel?

Vivo num mundo maravilhoso e não me interessam as pessoas que vivem fora desse mundo. Pus uma cruz em cima delas. Ou as pessoas são maravilhosas e está tudo bem, ou se não são maravilhosas, com licença, tenho mais que fazer. Já tenho uma certa idade, já tive os meus sarilhos e neste momento gosto de cantar em bailes de debutantes e coisas assim.

 

Nunca fica com vontade de espreitar por baixo das saias das meninas?

Com certeza que também já fui jovem, e para dizer a verdade a beleza da mulher portuguesa é uma coisa que não pára de me confundir.

 

E uma trafulhice, nunca lhe passou pela cabeça?

Essas pessoas que pensam em trafulhices deviam emigrar para outros países. Acredito que as pessoas de bem devem entender-se e que o povo português é essencialmente gente trabalhadora e honesta.

 

Não reagiu quando o provoquei, querendo saber se estes dois irmãos tiveram uma contenda séria. Se se odeiam como Abel e Caim.

É um exemplo bíblico muito limitado, mas é um símbolo daquilo que existe de pior no ser humano, que é a luta fratricida. Quase todas as lutas são fratricidas, menos aquelas que não o são. Nunca entrei pela via da guerra. Sou diplomático a resolver as questões. O meu irmão: não falo com ele nem hei-de lutar com ele; quando muito contrato um tipo para lhe dar uma tareia.

 

Assim não suja as mãos.

Não, lavo as mãos, mesmo, como Pôncio. Ele é mais novo. Quando éramos novos talvez eu lhe tenha dado carolos a mais e arrependo-me de o ter feito. Mas agora é um pouco tarde. Ele nunca ultrapassou o facto de a mamã gostar mais de mim. Sempre foi um rebelde e eu sempre fui o atinado.

 

Você nunca ultrapassou o facto de ele se divertir mais.

Não sei se ele se diverte mais. Para começar acho que ele se droga e devia fazer uma desintoxicação.

 

Que tipo de substâncias tóxicas é que ele ingere?

Sei lá!, droga.

 

Mas drogas há muitas. Até as mães tomam drogas em forma de comprimidos para dormir e calmantes.

Parece que sim, ouvi dizer. Tínhamos na nossa família uma senhora que tomava comprimidos, mas eram receitados pelo médico.

 

Cante-me uma música que seja a preferida do Elvis Ramalho.

Uma original? ”Portugal, terra maravilhosa” [canta], “Portugal, terra maravilhosa, terra do bagaço e da sardinha, de Guimarães, de Vila Viçosa, do Patilhas e do Ventoinha. Portugal, terra de cães vadios, terra de meus pais e meus avós, courela de primos e de tios, de marrecos e de Bijagós”.

 

É um bocado palerma, desculpe-me o insulto.

É, mas sabe que a palermice é muito saudável e põe as pessoas mais alegres. O grande defeito do mundo contemporâneo é que as pessoas são demasiado sérias, demasiado negras. Essa negritude, não no sentido africanista do termo, é como a anedota do sonho que tem um pontinho vermelho do lado esquerdo. Conhece?

 

Qual é a canção mais odiosa do seu irmão, Lello Minsk?

São todas más. Oh, meu Deus, prefiro nem cantar. Há uma que detesto que se chama “Canção conjugal”.

 

Como é?

Já não me lembro. E há outra: “Ó cona, a quanto obrigas”, que acho lamentável. Manifesta uma revolta da parte dele, talvez tenha tido falta de carinho. Ele nunca foi um bebé muito bonito, sabe? Ao contrário da minha pessoa. Não é para me gabar, mas ganhei o concurso de Bebé Nestlé, em 1952.

 

A canção.

“Ó cona, a quanto obrigas, fazes sangue às raparigas” – veja lá. E depois tem um refrão: “Cona, tu és a nossa mãe, cona, de ti a vida vem, estrela peregrina, perfumada e purpurina, amas analfabeto e doutor, patrão, tropa ou ardina, tu és a nossa sina, ó fértil divindade do amor”. Um disparate total, um tarado.

 

A dita, nunca o obrigou a nada? Como é que lhe chama?

Nunca a trato pelo nome. Acredito que a mulher portuguesa, aquilo que traz de mais secreto e mais belo em si, não é susceptível de ser expresso com uma palavra. Essa palavra é de ouro e morre na boca de quem a pronuncia.

 

Você andou na escola, e teve boas notas a português.

Estive num orfanato.

 

Num orfanato? O que é que aconteceu aos seus pais?

Ai não lhe disse? Morreram muito novos. A minha mãe morreu com 15 anos.

 

E teve-o com 13?

Começou a ter filhos com 11. Desconfio que alguns dos meus irmãos são meios-irmãos, senão não era possível haver tantos. Olhe, não sei, prefiro não pensar nisso. Quando começo a ver que as coisas são um bocado complicadas, prefiro não pensar.

 

Quem é que está a pedalar na bosta há 26 anos?

O meu irmão. Ele é que fez um concerto com esse nome. Devido ao tipo de vida que leva também não vai demorar muito tempo a bater a bota. Tem menos dez anos do que eu e parece dez anos mais velho.

 

Tem um bocadinho de inveja do seu irmão, não?

Nada, nada, zero, tenho pena.

 

Imagine que isto era uma daquelas peças de teatro foleiras, em que estamos a falar de uma pessoa e ela bate à porta… Essa pessoa é o Lello Minsk.

Posso ir à casa de banho e chamo-o, ele está ali na sala de espera. (De qualquer maneira tenho mesmo de ir à casa de banho). Não se importa?

 

[Levanta-se e sai]

 

O Lello faz-se acompanhar da stripper Nelita Bate-me Uma, da Domadora de Sardinhas Menstruadas, da Barracuda Transmontana. É verdade?

Não sei onde é que foi buscar essa informação, mas há aí uma confusão qualquer, é tudo completamente falso. Como diz Bibi, não deve ser a minha pessoa.

 

Quem é Bibi?

Bibi é um homem que está preso no escândalo da Casa Pia. A primeira coisa que ouvi o homem dizer na televisão foi isso; gostei dessa frase. Toco com os Ena Pá 2000. Sim, temos de vez em quando algumas raparigas, dançarinas exóticas, que se envolvem no nosso número. Temos um número bastante interessante, sexo, drogas e rock and roll.

 

Vamos hierarquizar: do que é que gosta mais?

Nem só de drogas vive o homem! Há também o sexo e o rock and roll. É indiferente, é conforme. Também gosto de comer, tipo feijoada e chili com carne, e grandes costeletas de vaca.

 

Abrimos esta caixa?

Qual caixa? Não vivo dentro de caixas.

 

Lello Minsk, também chamado de Lello Marmelo. Marmelo é por causa da marmelada?

Eu, Lello, gosto de dar a mim próprio vários nomes, porquê? Porque me chateia ter só um. É só isso, mais nada. Marmelo é apenas porque rima com Lello.

 

Pensei que fosse o gosto pela marmelada.

Não gosto especialmente de marmelada, também gosto de geleia.

 

Não estou a falar dessa, claro.

Sou muito estúpido. Minsk era o grito do amor em Campo de Ourique, em 1977 ou 1979. Era o grito que se dava quando se via uma tipa muita boa. E é difícil. O Minsk tem de ser gritado a 50 oitavas acima do Ré de porco, que é bastante grave como sabe.

[exemplifica] É um grito mais de leitão. Porque é que não me faz perguntas simples?

 

Do que é que quer falar?

Sinto-me bem com a minha vida, gosto daquilo que faço. De resto não tenho grande coisa a dizer. Sou uma pessoa bastante vazia.

 

As pessoas pensam que é um malcriadão, um bebedolas que diz palavrões.

Sou apenas um personagem grosseiro, obsceno, algo aviltante. Tenho orgulho em ser um bruto “cervejudo”. Bebo cerveja, bebo tudo. Criámos os Ena Pá 2000 de uma maneira muito esquisita. A Virgem Maria apareceu a todos os membros, não me lembro quando, a dizer que tínhamos de formar um grupo de rock. Acordámos ao mesmo tempo, como se tivéssemos estado num transe hipnótico profundo, dirigimo-nos para a frente da Igreja do Santo Condestável, aqui em Campo de Ourique, com as guitarras, e começámos a fazer música.

 

De adoração à Nossa Senhora, de agradecimento pelo chamamento?

De adoração, não. Esta não é a principal profissão de Nossa Senhora. Ela tem a profissão de ser Nossa Senhora. Mas além disso também é uma pessoa que gosta de música, e como tal “interviu”.

 

“Interviu”? Você dá mostras de ler Camilo Pessanha e diz “interviu”?

“Interview” é uma revista muito boa. Não sei se ainda existe. Intervir, “interviu”?

 

Interveio.

Interveio-se, pronto, é isso mesmo.

 

Nossa Senhora interveio.

Interveio-se. “Interviu-se”.

 

Os católicos, nunca lhe cospem em cima, nunca lhe atiram pedras por dizer essas coisas sobre Nossa Senhora?

Sim e não. Falo sempre da Nossa Senhora com algum respeito. O que os surfistas chamam “respect”. Os católicos são normalmente as pessoas mais obscenas e que mais simpatizam com este tipo de linguagem.

 

Às escondidas.

Sim, às escondidas ou quando bebem um copo. Existem dois tipos de pessoas: as que existem de dia e as que existem à noite. As que existem à noite são o contrário das que existem de dia. Vamos lá ver se explico isto. Há um filme do Chaplin em que há um bêbedo milionário que ajuda o Charlot; bebem copos e divertem-se à grande, mas no outro dia de manhã, quando está sóbrio, não o reconhece. As pessoas são assim. E também não se reconhecem a si próprias quando estão bêbedas. Inclusivamente há conflitos interiores dentro das pessoas. Nós estamos a tentar espremer isso tudo como se fosse uma almôndega. A nossa sociedade precisa de nós.

 

“Nós”, Ena Pá 2000?

Sim, sim, falo em nome do grupo, até porque os outros estão fechados num armário e normalmente só se abre esse armário quando há um concerto.

 

Estão fechados na caixa?

Sim, uma caixa muito grande em forma de armário. Mas é um armário com televisão, com várias coisas interessantes lá dentro.

 

É o maestro desse grupo?

Tento organizar aquilo, mas nem sempre consigo.

 

Você é sempre quem manda?

Não sei. Lá por organizar não quer dizer que mande. Por exemplo, temos um Primeiro-Ministro, não é? Ele tenta organizar, mas será que é ele que manda?

 

Quem é que manda?

Segundo o Jerónimo de Sousa, é o poder económico. Se perguntar a outros políticos, dirão outra coisa qualquer.

 

O João Pereira Coutinho, o colunista, também diz que manda quem tiver o livro de cheques.

É a mesma coisa, nisso estão todos de acordo.

 

Sendo que o João Pereira Coutinho é de direita, e o camarada Jerónimo…

É de direita também. São todos de direita. Ou são todos republicanos, ainda não percebi.

 

Eu ainda não percebi se os Irmãos Catita se dão bem com os Ena Pá 2000.

Nós já mandámos esses todos para o hospital. Quem está nos Irmãos Catita é o Elvis. Tenho agora um grupo chamado 4444, de rock sinfónico.

 

Já convidaram o José Cid e o Tozé Brito para o grupo?

Não, foleirada não queremos, obrigado. Somos um grupo dos anos 70, mas não somos foleiros. O José Cid fez umas coisas boas quando fez rock sinfónico, mas depois começou a fazer música comercial, e o Tozé Brito também.

 

O José Cid é melhor do que o Elton John.

Ai é, porquê?

 

Porque o José Cid o disse. E porque eu acho que toda a gente é melhor do que o Elton John.

Se você o diz, quem sou eu? Preferia não falar de colegas, embora colegas sejam as putas. Somos todos umas putas, a verdade é essa.

 

Quando precisa, vai às putas? Tem uma mulher, várias mulheres? Como é que resolve essa parte?

Todos nós, portugueses, vamos às putas de vez em quando. Por alguma razão elas existem. É mais uma daquelas coisas que tentamos pôr debaixo da cama mas que aparecem, sobretudo com uns copitos. E é uma maneira fácil de resolver os problemas conjugais. É mais barato, moralmente, arranjar uma prostituta do que uma amante. Uma amante tem direitos. Ao passo que uma profissional…

 

Dá menos trabalho, custa menos dinheiro?

De maneira que as profissionais existem para alguma coisa e infelizmente não são dignificadas como deviam ser. Acho que também devia haver Mães profissionais, assim como há prostitutas. Há uma agência na Alemanha que tem pessoas que fazem de conta que são Mães para homens de negócios. Prostitutas sentimentais, não sexuais. São amas-de-leite, no fundo.

 

Só que em vez de dar leite, dão sentimentos.

Também podem dar leite, mas é mais caro.

 

Viu esta notícia nesse jornal?

Sim, fui eu que a fiz. Tenho um pequeno fanzine, feito em fotocópias. Chama-se “O escarro ilustrado”. A minha ideia é que vivemos num país livre e temos que experimentar até que ponto é que é livre.

 

Nunca apanhou pela frente Manuela Ferreira Leite, que diz que a liberdade de expressão está ameaçada neste país?

Portanto, continuamos a falar em leite... Ela tem razão, ou então não tem, ou tem mais ou menos. Isto é, não compreendo porque razão algum governante, neste tipo de estado democrático em que vivemos, se há-de chatear minimamente com qualquer afirmação, por mais irresponsável e atrasada mental que seja, da parte da imprensa ou da televisão.

 

Tem políticos na audiência dos seus concertos. Eles abordam-no? Outros políticos que não o Candidato Vieira.

Não directamente. Mas já fiz algumas campanhas para o “Dr.” António Guterres, tocámos em alguns comícios do partido socialista, aqui há 10 anos. Também já toquei para o Dr. Alberto João Jardim. Tenho imenso respeito pelo Candidato Vieira. Sei que representa interesses obscuros, mas quem é que não representa interesses obscuros? No fundo, será que a menina não representa os seus interesses obscuros de vez em quando? Se não representa talvez devesse representar. O que é que nós representamos? O que é representar?

 

Não tem filhos, Lello?

Tive oito, mas morreram todos.

 

Que pena. Morreram de quê?

Foram atropelados por um camião escolar. Eram gémeos. É verdade, sémen dos meus testículos. Adeus. Por outro lado fiquei aliviado, era uma certa carga que tinha. Oito gémeos, mesmo com amas-de-leite, é complicado. E a mãe morreu com eles, também estava a atravessar a rua.

 

Ficou livre?

Fiquei livre de quê? O que é a liberdade? O que é a liberdade, diria o meu irmão, sem repressão? Nada. O que é a repressão sem liberdade? Nada.

 

Isso já é palavreado do Candidato Vieira. Aprendeu com ele?

Antes de mais nada, Anabela, gostaria de lhe desejar uma boa tarde e dizer que gosto muito de si e respeito muito o seu trabalho. Não sou um homem, sou um político, sou uma máquina de fazer propaganda, e sou sobretudo uma pessoa que acredita.

 

Acredita em quê?

Acredito em si, Anabela, assim como acredito em todos os portugueses e portuguesas. Acredito que vocês são capazes de fazer deste país um país melhor. Vocês, com a minha ajuda, com a minha modesta contribuição.

 

Conte-me o que é que o faz ter tanta confiança em si e achar que as pessoas podem votar em si.

Porque vivemos num país livre, em primeiro lugar. Dois, porque sou o melhor candidato. Três, porque os portugueses têm uma confiança muito grande em mim. Sabem do que sou capaz, sabem que neste momento sou a única alternativa à política tradicional. Sabem que tanto em Portugal como ao nível da política internacional vivemos num estado de absurdo, e apenas um discurso mais absurdo, ou aparentemente absurdo, poderá salvar a nação. Tudo pela nação, nada contra a nação, eu sou a nação, eu sou Portugal. A minha vocação é dar às pessoas o que elas querem. Sou um servidor público, não quero nada para mim.

 

O que acaba de dizer é o maior pacote de lugares comuns que ouvi nos últimos tempos.

Fico muito agradecido. Não sei se leu o meu programa. O meu programa é muito simples, tem 320 pontos essenciais, e cada um desses pontos tem 10 pontos acessórios, o que multiplica por 10 as possibilidades. Tem este livro? Vou-lhe dar este livro? Cada português devia ter um livro destes em sua casa.

 

Estava mais magro na capa do livro Vieira, Só Desisto Se For Eleito.

É Photoshop. O dente a mais também é Photoshop.

 

“Quero uma democracia toda aberta”?

É a chamada inclusão.

 

“A sua vida vai mudar este livro. Dedico este livro a todos os portugueses de alma e coração e a todas as portuguesas aquele abraço”.

No fundo sou também um ser humano, também tenho sentimentos.

 

O que é isto na página 36, “Pamela, a secretária traidora”?

Ela é capaz de me ter traído. Este livro tem um pouco de tudo. Esta é a parte mais importante, são as ideias. Essas, são umas crónicas que escrevi para uns jornais de Economia. Isto é o meu “Visionário programa político e social para um Portugal de sonho”.

 

Aquele onde Elvis Ramalho acha que vive.

“A arte em Portugal deve estar sempre 20 anos atrasada” – é uma máxima. “O burro deve ser um animal sagrado para o português, como o Burro de Barcelos”. Tive várias ideias originais, biotecnologias, história, futebol, sexo.

 

O que é que o Candidato Vieira tem a dizer sobre o sexo?

Temos uma educação sexual forçada para a terceira idade.

 

Porquê, acha que é preciso?

O sexo visa o prazer e o prazer é soberano. Temos uma conferência na universidade do Pico que vai falar sobre isso. Vamos promover as variedades de sexo regional. Cada localidade portuguesa, assim como tem o seu traje folclórico, também tem o seu estilo sexual. Temos o “ Broche ó da Guarda”, “Broche à Nacional nº 1”, “Minete à transmontana”, “Sexo com leitões”, na Bairrada, “Sexo castiço”, “Sexo em coro alentejano”. Se calhar vamos abolir as provas orais, este ano.

 

Essas coisas ocorrem-lhe quando está sob o efeito do ópio?

Só bebo água do Luso. Quer um copo de água? Neste momento o que me está a custar é não me candidatar às próximas presidenciais. Não vejo que estejam reunidas as condições e a minha fé na democracia está a vacilar. Não sei se um levantamento militar, um pronunciamento militar, não seria mais favorável à nossa saúde económica, e mesmo à nossa saúde sexual.

 

Não me diga que tenho um protofascista à minha frente… 

Digamos que todos os meios são legítimos para alcançar o poder. Se a democracia está de tal forma viciada e não podemos atingir o poder pela via democrática, devemos tentar outras formas. Devemos levar a bom cabo as nossas ambições.

 

Quais são as suas ambições?

Quero ser presidente absoluto de Portugal. Vou só beber um bocado de água.

 

Tem preocupação em relação às conversas que tem ao telemóvel? Acha que um dia as suas conversas mais íntimas podem aparecer transcritas nos jornais?

Já foram. O facto é que estou sob escuta. As pessoas utilizam aquilo que ouvem nas minhas conversas telefónicas para as atribuir a outros políticos, que me copiam sem qualquer tipo de pudor. Estou a ser roubado e vou falar com a SPA para saber se as escutas telefónicas também podem ser objecto de protecção.

 

Relate uma conversa que tenha sido apropriada por algum político.

Todas. Principalmente algumas. Tudo aquilo que neste momento tem vindo a lume sobre o Primeiro-Ministro, sei que não é sobre ele, porque as escutas foram feitas à minha pessoa e apropriadas pelo Primeiro-Ministro e pelas pessoas que rodeiam o Primeiro-Ministro. Mesmo o caso do Freeport não envolve o Primeiro-Ministro, envolve-me a mim. Eu é que sou a pessoa corrupta! Aliás, fiz tudo: corrompi-me a mim próprio, paguei-me a mim próprio. As pessoas precisam de movimentações. Os deslizes judiciários, ilegais, estão a ser utilizados para distrair o povo.

 

Distrair de quê?

Da realidade. A realidade é que só há uma força neste momento que pode melhorar as condições de vida neste país, que é o Vieira e o “Vieirismo” puro e duro. Tenho ideias muito boas para Portugal. Por exemplo, mudar o nome da capital para “Vieirópolis”. O Santana queria fazer o mesmo com “Santanópolis”, ou quase o fez, na Figueira da Foz.

 

Gosta de fazer campanhas eleitorais, não desiste. Porque é que faz isso?

O meu sangue bombeia a uma maior velocidade quando estou na estrada, em comício, é verdade.

 

Isso é porque é adorado.

Não gosto de dizer isto, mas sou idolatrado pelas multidões. Gostaria aqui de dizer também: as eleições nunca foram legítimas (ninguém sabe isto), e os resultados, a percentagem ridícula que me deram, é manifestamente falsa. Fui roubado!

 

Quantas pessoas oficialmente votaram em si?

Oficialmente, nenhuma. Mas sei de fonte segura que dois milhões de portugueses votaram em mim.

 

Se não votaram, gostariam de votar.

Aí está. Porque não um sistema de voto mais simples para os portugueses? Um sistema de voto em que basta uma pessoa pensar para que o voto… O voto pela internet tem de ser imediatamente utilizado. Temos de acabar com os formalismos legais, com toda a papelada que é necessária para legitimar um candidato. 7500 assinaturas é ridículo, porque pressupõe que existe um aparelho, um secretariado. Essa burocracia está ao serviço dos partidos, nitidamente. O homem das salsichas Nobre conseguiu-o, com certeza.

 

O homem das salsichas Nobre?

O senhor António Nobre é um exemplo.

 

É Fernando.

Esse mesmo, o Manuel Nobre. Acho muito bem que o Nóbrega tenha conseguido. As pessoas têm de compreender que chegaram ao fim de um ciclo, ao fundo do poço, e que já não há água. Só eu lhes posso dar a chuva. Isto é um ano um bocado especial em termos de pluviosidade, os políticos nunca falam disto, mas está a chover muito.

 

Vi-o num programa de televisão a meter-se com um papagaio; pensou em matá-lo e fazer com ele um arrozinho de papagaio.

Isso é totalmente infundado e falso. É uma afirmação sem pés nem cabeça. Receitas brasileiras, não tenho nada a ver com isso. Com todo o respeito, não estamos a falar dos problemas reais do país. Os portugueses precisam de amor-próprio e de dinheiro. E de satisfação sexual e sentimental nas suas vidas. Isso tudo dá saúde, lá está. A alegria de viver dá saúde. Temos de descobrir os “Brasis”, mas esses “Brasis”, essas terras, estão dentro de nós próprios, e nós podemos encontrá-las. Somos uma nação riquíssima, somos conquistadores. Temos de começar por nos conquistar a nós próprios.

 

Por falar em Brasis, falemos do Orgasmo Carlos, que imagino que conheça.

Orgasmo Carlos é uma pessoa que tem evidentes afinidades com Portugal.

 

É afilhado do Roberto Carlos?

Não, é filho do Roberto e do Erasmo Carlos. É um artista contemporâneo dos PALOP. Tanto é um artista africano, como português, como macaense. É um artista cuja obra universal exprime a sua profunda lusitanidade. E é um homem que tendo feito exposições nos principais museus e galerias da Terra e Marte, escolheu Portugal para viver – o que é, para nós portugueses, muito lisonjeiro.

 

Como é que ele agora se junta à conversa?

Ó Orgasmo, podias fazer o favor de cá chegar?

 

E nisto…

Em primeiro lugar queria pedir desculpa por estar atrasado. Estou a ser seguido na rua. Não é só o Candidato Vieira. Há pessoas que me querem liquidar – pelo menos duas. Existe uma máfia na Art World que quer acabar comigo, talvez por ser o maior artista vivo da actualidade. Vivo, por enquanto. Não sei se saio daqui e sou morto em dois ou três minutos. Estão a apertar o cerco. Ainda bem que estou a falar consigo, porque pode ser a minha última conversa. Não sei se viu as minhas exposições.

 

Não vi as suas exposições. Mas vi as exposições de pessoas que julgo que aprecia, o Manuel João Vieira, o Pedro Proença, o Fernando Brito, o Xana.

Não tem nada a ver. São artistas portugueses da década de 80. Faz parte, marcou uma época, mas estão ultrapassadas. Hoje em dia existem coisas mais importantes. Não digo que a arte deva ser pedagógica, embora a minha arte seja, e seja de certa maneira “explicadista”. A minha obra não se limita ao “explicadismo”. Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial e irradiante. Os raios de comunicação que partem desse sol central, que é a arte de Orgasmo Carlos, espalham-se um pouco em todas as direcções. Não como os tentáculos de um polvo, mas como os raios de um sol que contagia e inebria.

 

Como um orgasmo.

Um orgasmo é um momento.

 

Mas irradia.

Sem dúvida, é uma explosão. E vai tocar em vários pontos importantes. Já ouviu falar no orgasmo permanente? Gostava de ouvir falar? A noção de orgasmo permanente está na base das obras do Orgasmo Carlos; isto é, de mim próprio. E peço imensa desculpa, não consigo deixar de falar de mim próprio na terceira pessoa. Ajuda-me, porque não caibo em mim próprio. Recomendaria aos jovens artistas que olhassem para lá do seu mundo. Hoje em dia qualquer pessoa que pendura um cordel num armazém é um artista plástico. A vanguarda chegou a um extremo, chegou à fronteira do deserto. A vanguarda nunca acaba e a arte nunca deixa, como Saturno, de devorar os seus próprios filhos, e produzir nova arte. O canibalismo é arte, assim como o excremento é arte.

 

Gilbert & George fazem arte com o seu excremento.

Sim, e com algumas tecnologias um pouco mais modernas. O excremento é uma metáfora do corpo humano e do funcionamento do mundo da arte e da transmissão do conhecimento simbólico. Quando falo em irradiação, falo a todos os níveis. Quando, a partir do século XIX, se substituiu a religião oficial pela arte e pela literatura, (estamos a falar de uma elite), houve qualquer coisa que fracassou. Ainda existe um grande vazio na vida das pessoas a partir do momento em que Deus deixa de existir. Não é possível preencher esse vazio com obras de arte de nenhum artista, a não ser com as obras do Orgasmo Carlos. Não por ele ser um artista particularmente xamanista.

 

Particularmente o quê?

“Xamanistíco”. Ele é um xamã lusófono.

 

Xamã com “x”?

Com “sch”.

 

O que é um “schamã”?

É diferente de xamã com “x”. Eu diria mesmo que Orgasmo Carlos, em vez de “sch”, ou com “x”, será um “chamã”. Mesmo tipo “chamon”, porque é português e porque é lusófono. Toda a gente sabe que devemos ir às nossas raízes, porque são elas que nos permitem ser simultaneamente originais…

 

Estou um pouco embrulhada.

…e transcendermos essa originalidade e sermos universais.

 

Tem um discípulo que é um urso.

O Ricardo Rocha. É um jovem talentoso que encontrei nas montanhas, perto da Serra da Estrela. Estava preso a uma árvore e vivia mais ou menos de subterfúgios, pedia esmola. Eu estava a precisar de qualquer coisa de novo. Fui a Basel e não tinha nada. Não tinha um trabalho com profundidade suficiente e que ao mesmo tempo influenciasse as pessoas. Esse urso salvou uma parte da minha carreira. Nas nossas performances eu tocava realejo e o urso recitava de cor todos os textos de Marx. Isso tornou-se uma obra lendária no mundo da arte conceptual. Foi a partir daí que consegui reorganizar a minha carreira. Antes disso pintava velhos pescadores com cachimbo e mulheres nuas com vasos de flores.

 

Na parte das mulheres nuas com vasos de flores, m bocadinho como o Boticcelli?

Não, não, era mesmo muito mau aquilo que fazia.

 

O urso já participou naquela filmagem que fizeram no cemitério, em que havia uma stripper no lugar do morto? (Isto aconteceu.)

Esse filme é importante. Fala-nos da ressurreição, da morte, da vida e do amor. O script é simples: o herói vai ao cemitério colocar uma flor na campa dos pais, os pais ressuscitam, começam imediatamente a fazer amor, ele vai atrás deles, com o urso – aliás, o urso estava à espera na carrinha funerária. Os mortos vão para a carrinha funerária e vão circulando pela cidade de Lisboa enquanto fazem amor, no lugar do morto. Por acaso, o camião deita imenso fumo e essa parte é engraçada. (Depois vamos até à Gulbenkian, a uma exposição de arte moderna.

 

Não vos reconheceram e prenderam-vos.

Não, simplesmente ficaram inanes, e nós continuámos a desempenhar o nosso papel e a nossa performance até ao fim, e saímos sem qualquer problema). Foi um filme relativamente barato.

 

Concorreram ao subsídio?

Isso está viciado. Preferimos fazer as coisas por nós próprios, sem contar com ninguém. Conto com os fundos da Orgasmo Carlos Foundation, ou se quiser, da Colecção Orgasmo Carlos Foundation.

 

O Orgasmos Carlos é um pintor que se considera o maior do mundo, mas é também a cara de uma cooperativa de pessoas?

Não sei do que está a falar. O Orgasmo Carlos tem, é certo, como os anões do Pai Natal, ajudantes. Hoje em dia é raro o artista, o criador de obras de arte contemporânea, que utilize a sua mão nas suas obras; utilizam-se assistentes. O artista é uma espécie de general que fala com os coronéis e os tenentes para desencadear as operações militares.

 

O Orgasmo Carlos alguma vez fez alguma coisa com o urso?

Fez várias performances, e além disso há a história de vida do Orgasmo Carlos. A história, estamos a trabalhar nisso, os meus escritores estão a escrever. Tem uma estrutura parecida com “Assim falava Zaratustra”. Só que tem homens e ursos.

 

Não há relações bestiais?

Quase nenhuma. Mas o urso é pedófilo e de vez em quando anda com um ursinho de peluche mais pequeno que ele. O urso tem dois metros, anda com um ursinho para aí com 50 centímetros. Além de que ele é castanho-escuro e o outro é cinzento claro, quase azul. Eles viviam comigo numa vivenda no Algarve e cansei-me de ver aquilo à minha frente. “Meu amigo, se é para isso que estás aqui, se é esse o teu tipo de vida…”. Dei-lhe tudo, ensinei-lhe tudo, e ele começou a dar entrevistas e a falar da sua obra como se não tivesse havido qualquer influência da minha pessoa no seu trabalho.

 

Que relação existe entre estas pessoas com quem tenho vindo a falar e o Manuel João Vieira?

Nada. São exercícios de matemática, de xadrez, de álgebra, exercícios de natação.

 

Eles aparecem ao longo do dia do Manuel João Vieira, quando está a fazer uma torrada ou quando vai à fisioterapia?

Um dia é um holocausto, uma torrada é uma torrada. Eles desaparecem, aparecem. Às vezes tenho baratas em casa, não as tenho visto ultimamente. As baratas, as formigas, aparecem e desaparecem; essas pessoas também.

 

Os seus vizinhos, quando o encontram na rua, estão à espera de encontrar o Manuel João Vieira?

Não tenho vizinhos, vivo num hospital psiquiátrico há 20 anos. Estou a tentar sair daqui.

 

Agora estou a falar com quem?

Não sei.

 

Se quiser falar com o Manuel João Vieira, posso?

Olá Anabela, sou eu, está boa? Não tenho assim grande coisa para dizer, sou uma pessoa normal, vivo aqui neste sítio.

 

É verdade que não tem grande graça enquanto Manuel João Vieira?

É, lamento.

 

Dados biográficos do Manuel João Vieira.

Nasci em 1962, frequentei o Liceu Pedro Nunes e a Escola de Belas Artes, e outros sítios. Sou sócio minoritário de um espaço nocturno [Maxime]. A única coisa que gosto mesmo de fazer é pintar, desenhar. Sou um tipo de Campo de Ourique como outro qualquer, estou cá há 44 anos. Gosto de beber uns copos ao fim-de-semana, como toda a gente, e toco ao mesmo tempo. Como uns amigos que se encontram numa garagem para ensaiar. A única diferença é que gosto de ensaiar ao vivo porque sempre ganho algum, é mais prático.

 

Nas Belas Artes encontrou um grupo de amigos e formaram os Homeostéticos. Seria outro se não tivesse encontrado aquelas pessoas?

Talvez esse seja um ponto de viragem. Na verdade queria fazer banda desenhada, e estive a trabalhar nisso até entrar nas Belas Artes. O meu pai, sendo pintor [João Vieira], encorajou-me e tentou explicar-me as vantagens da arte com “A” grande. Mas eu estava obstinado em relação à banda desenhada. Depois houve uma transição entre a banda desenhada e a pintura, que aconteceu naturalmente e com a influência desse grupo. Foi bastante interessante, mas já foi há muito tempo.

 

Quando se vê o documentário do Bruno de Almeida sobre os Homeostéticos, o que se percebe é que se divertiram à grande.

Sim, mas tínhamos idade para isso. Uma pessoa pode divertir-se em qualquer idade. O Pai Natal também se diverte, o Pai Natal tem umas amiguinhas…

 

Publicado originalmente no Público. 

Herman Enciclopédia

10.04.20

Gud evenaing. Ou, se preferirem, boa noite.

O espectáculo vai começar. O elenco: Lauro Dérnio, Artista Bastos, Super Tia, Mike e Melga, Felisberto Desgraçado.

Mais este:

- “Eu sou uma pessoa que pensa no depressa”.

O senhor Engenheiro do riso alarve e estilo brejeiro: “Parece que temos um pedaço de francesinha na boca…, eheheh”.

O protagonista: Diácono Remédios.

Ei-lo.

- “Ó meus amigos-s-s.”

Censor, moralista, filho de uma mãe “repugnante e hedionda”: a Dra. Rute Remédios. A sexóloga que aparecia semanalmente na televisão para falar de “sexo puro e duro como todos nós gostamos, ceeeerto?”.

O Diácono Remédios foi o verdadeiro artista de um programa recheado de personagens luminosos, esdrúxulos, reveladores do que éramos então: um Portugal ocupado com a Expo-98, em transição. O Diácono instalou-se no imaginário colectivo como alter-ego de uma moral careta, salazarenta, falsamente puritana. Representava um bafio que afinal ainda existia.

Era um tempo em que Portugal repetia, como se fosse uma senha: “Onde é que tu estavas no 25 de Abril?”. Ou “Let’s look at the trailer”. Ou: “Este homem não é do norte, carago!”. Para além do omnipresente: “Não havia nexexidade-e-e”. Era um tempo em que Herman José estava no pico da forma. Herman Enciclopédia, a obra da maturidade, estreou em 1997.

“Acho que é, de longe, o que de melhor se fez em Portugal em matéria de humor. A obra mais iconoclasta, a mais escandalosa, às vezes quase pornográfica. Como dizia o Alexandre O’Neill, somos o país do diminutivo e do respeitinho é que é preciso; este é um humor que escapa a esse respeitinho. O programa é uma espécie de contra-ataque à censura dos anos do cavaquismo. Contra uma moralidade vigente, com cheiro a naftalina. Que estourou assim que Cavaco saiu do poder. No período Guterres, nitidamente, as bolas de naftalina diminuíram de tamanho. O programa transpira isso. Uma maior liberdade. Reflecte uma direcção da RTP menos sensível à censura. À censura íntima, àquela que se faz antes de os programas serem delineados”, diz Clara ferreira Alves, uma das primeiras opinion maker a escrever sobre o Herman Enciclopédia.

António Guterres, então primeiro-ministro, era fã da série.

“Sempre que tinha oportunidade, não perdia. Era para mim, não apenas um entretenimento, mas um tranquilizante. Era um modo de esquecer por um momento as preocupações, as tensões. Não me recordo de ter adoptado nenhuma das expressões do programa de forma regular. Não como uso: “É a vida”, que é uma das minhas expressões favoritas. Mas com grande probabilidade tê-las-ei usado. O impacto do programa e dos personagens foi extremamente forte”.

Guterres, o católico. Alguma relação com o puritanismo do Diácono? “Nenhuma – responde Herman. “Guterres é um espírito maior, e a sua fé serve as suas convicções, não é para ser usada como arma de arremesso. É uma pessoa de bem, e o mais democrata dos primeiros-ministros. Isso mesmo reflecte-se na amplitude da paleta crítica que usámos”.

Nuno Artur Silva quis que o Diácono se chamasse Reverendo. O director das Produções Fictícias, a empresa de argumentistas que escreveu o programa, e que esteve na concepção do personagem com o próprio Herman, José de Pina e Miguel Viterbo, considera que o programa foi “um bom momento, um bom encontro”.

“O programa surge numa época de abertura depois de um fechamento que coincide com o cavaquismo. O Herman Enciclopédia beneficiou de total liberdade depois da tentativa de censura do sketch da “Última Ceia” no programa anterior [Parabéns]. Surge na ressaca desse episódio, com algumas sequelas, com quebra de contratos publicitários, por, supostamente, o Herman ter hostilizado a Igreja Católica. A Igreja não é o único alvo, o programa dispara em muitas direcções. Critica os modelos de jornalismo; estava a despontar o estilo: “Põe a manchete primeiro e faz as perguntas depois”.

A Igreja não era o único alvo. Mas basta rever alguns dos episódios, no DVD que foi lançado recentemente, para perceber que o tirocínio é constante.

Alguns exemplos, em separadores inócuos, entre sketches e personagens. Uma manchete anuncia: “Claudia Schiffer é um homem. Para mim foi uma grande desilusão, diz o Papa João Paulo II”. Como consequência: “Basta de brincadeiras com sua santidade”, pede em título o Infelizmente. “Ex-Papa apanhado nas malhas do doping. O actual Papa: não comento”. Outro exemplo: o Papa passeia no Papa-móvel e antes dele, há elefantes mecânicos a copular.

Porquê esta fixação na Igreja? Herman esclarece que “na altura, estávamos convencidos de que um dos problemas maiores da sociedade portuguesa seria a pressão obsessiva da Igreja Católica sobre o poder político. Já em 1988 – apesar de ninguém mo ter confirmado – consta que o final do programa Humor de Perdição teria tido mão pseudo-divina. Estava no entanto longe de imaginar que, dez anos mais tarde, teria a prova de que os mais perigosos garrotes da liberdade de expressão desta espécie de democracia residem dentro das togas e não das batinas”.

Joaquim Vieira, o director de programas da RTP que aprovou, com o director-geral Joaquim Furtado, a série, nunca teve dúvidas acerca da aposta no programa, apesar do seu carácter subversivo. “Nunca considerei o Herman Enciclopédia uma aposta errada, porque achei que este era o tipo de programa que correspondia melhor ao enorme talento do Herman. A questão do suposto radicalismo nunca me preocupou, pois só assim se poderia construir um programa de humor saudável. Não tenho ideia de ter havido alguma pressão. Penso que depois de termos resistido a uma outra pressão de meios católicos, quanto a um sketch sobre a "Última Ceia", se terá chegado à conclusão de que não valia a pena”.

A pedido da PÚBLICA, Joaquim Vieira reviu alguns episódios do Herman Enciclopédia. Com esta distância, não hesita em identificá-lo como “expressão de uma época de expansão, tranquilidade e bem-estar da sociedade portuguesa, com muitas referências ao consumo, a projectos públicos e a prazeres de uma forma geral. Se fosse hoje, haveria diferentes preocupações, embora me pareça que não mudámos assim muito no que respeita à cultura de massas. Veja-se as caricaturas feitas aos programas de TV: parecem antecipar o que veio depois. Não acho o programa nada político, mas a ligação aos anos do guterrismo pode ter a ver com uma certa visão despreocupada da vida. Caminhávamos alegremente para o abismo (do défice) e nenhum de nós tinha consciência disso”.

Sobre que é o programa, afinal?

“O tema dominante eram os costumes, e não a política”, pensa Clara Ferreira Alves. “Aliás, o Herman e as Produções Fictícias nunca foram muito para a política. Mas há uma grande sátira social. O que ali se critica é um modo de ser português. Um modo mais estreitinho dá lugar a um modo às vezes boçal, à boa maneira de Bordalo Pinheiro, e outras vezes mais refinado. O sexo era um grande tabu. O episódio dos “Óscares da pornografia”, ainda hoje, não tenho a certeza de que pudesse ser feito com a liberdade com que foi. Teve a sua importância que a RTP tivesse na sua direcção o Joaquim Vieira e o Joaquim Furtado. Dois jornalistas, duas pessoas que gostam de liberdade. E que chegaram a ser ferozmente satirizados no Herman Enciclopédia”.

Herman sublinha também este aspecto: “Era o serviço público ao serviço da inteligência, com dois “inteligentes” ao leme da direcção de programas. Lembro que o programa sucumbia nas audiências em confronto com a efervescente SIC de Emídio Rangel”.

As audiências do Herman Enciclopédia começaram por ser tímidas. Foram precisas semanas para que o programa se transformasse no fenómeno que continua a ser passados 13 anos sobre a sua exibição. Os portugueses pareciam não se rever nos personagens histriónicos de Herman&Companhia. Ninguém dizia nas ruas: “Grandes fitas, Greites faites”, numa glosa a Lauro Dérnio. Ou “Qual é a senha?”. Ou “Você “num” se desgrace!”

Nos jornais e nos cafés discutia-se o tema da regionalização; na televisão, numas caves infectas da muy distinta cidade do Porto, discutia-se em reuniões clandestinas o Pintismo Narcisismo.

Pinto da Costa era (e é) Presidente do Futebol Clube do Porto, Narciso Miranda, “rosto do poder local”, ascendia a Secretário de Estado, Fernando Gomes, presidente da Câmara do Porto e ministro socialista, servia de base para a composição do Senhor Engenheiro de Herman. Embora nunca se tenha ouvido da boca de Gomes: “Graande sticada”.

“É um mister!”, dizia dele um dos assessores-acólitos. Uma expressão que ficou, para Clara Ferreira Alves, indissociável daquele grupo. Herman, revendo, diz-se “positivamente espantado com a jactância da rubrica dos Homens do Norte”.

Nuno Artur Silva tem no “Partido do Norte” um dos momentos preferidos do Herman Enciclopédia. “É uma ideia colectiva, depois escrita pelo Rui Cardoso Martins e pelo José de Pina. Sempre imaginámos que deveria ser representado à Yes, Minister. Ou seja, com contenção. O Herman fez exactamente o contrário. Representou à Irmãos Marx, completamente em delírio, quase à desenho-animado. O que começou por nos parecer terrível acabou por ter um resultado brilhante. Tem imensa graça a maneira como se movimentam e a opção por aquela direcção de actores. É raro ter no mesmo sketch o Herman, o José Pedro Gomes, o Miguel Guilherme, a Maria Rueff, a Lídia Franco. Um grupo de actores em estado de graça”.

As reuniões do PNRN (Partido Nacional da Região Norte) representavam o momento mais colado à realidade política de um programa que não era eminentemente político. Mas Guterres não se revia no conteúdo do sketch. “Aconteceu-me várias vezes fazerem humor sobre mim, e sempre encarei isso com grande naturalidade. Quem quiser estar, não apenas na política, mas em qualquer função que implique exposição pública, tem de encarar isso com naturalidade. O que é importante dizer é que, apesar da irreverência do Herman, ele nunca foi ofensivo. O humor do Herman sobre as mais diversas personalidades da vida portuguesa, merecia, na minha opinião, ser encarado com grande fair play”.

Entre o “não ofensivo” de Guterres e o “quase pornográfico” de Clara Ferreira Alves, vale a pena rever algumas das cenas e expressões usadas para compreender o que estava em causa.

Pelo Herman Enciclopédia apareciam personagens como a Teresa Trucla, no programa Vibratório. Logo censurada pelo Diácono Remédios:

- “Um vibrador? E de tamanho familiar! Valha-me Deus!”

O Artista Bastos repetia a frase:

- “Lá vinha ele com o seu castor debaixo do braço…”,

como uma espécie de intróito ao famoso:

- “Onde é que tu estavas no 25 de Abril?”

Havia convidados que não entravam no monólogo secreto do Artista Bastos e eram zurzidos com pérolas deste quilate:

- “Eu acho que eras umas besta, há que dizê-lo com frontalidade” ou

- “Vou-te partir o trombil, há que dizê-lo com frontalidade” 

ou,

- “Vai levar na peida, vai fazer broches a cavalos”,

que os “pis” sobrepostos mal disfarçavam, como era intenção manifesta da equipa.  

Herman Enciclopédia satirizava o novo-riquismo nas “Aventuras da Super-Tia” e da sua amiga Robinha (um magistral Joaquim Monchique). “Uma super-tia llena de possidonite, de nome Batata, epítome de uma high society que vive na tesura e que mantém as aparências. Obviamente usa malas Louis Vuitton.

- “O tio Babas diz que a última moda em Paris é um Picasso no canto da parede e um Pollock no rodapé”.

Repete palavras como:

- “Caturreira!”

Num estilo afectado, exala boa educação quando se dirige à empregada:

- Ó não sei quantas (nunca sei o nome da criadagem)…

Acha que “os jipes na cidade não podiam estar mais na moda!” Fazem sentir “aquela coisa da ligação à terra”.

Os assuntos eram os de um Portugal próspero, em vésperas da Expo-98 e das grandes obras de construção. O Senhor engenheiro falava, cobiçoso, do “contratozinho”.

- “Le boilá!”

Ao mesmo tempo que frequentava casas de alterne, e deixava implícita a ligação entre política – corrupção – prostituição.

- “Tou-me a sentir comichoso. Bou até Amarante…”

(o incêndio no bar Mea Culpa tinha sido nesse ano).

Decisão que merecia o aplauso do personagem interpretado por José Pedro Gomes:

- “Este homem é um senhor!”

Neste mosaico da sociedade portuguesa, coexistia a micro-realidade de Alfama, onde se faziam campeonatos de lerpa, os homens vestiam fatos de treino fluorescentes e onde se cantava o fado, claro.

“Ai Mãezinha, não te apagues” era uma novela burlesca que tinha em Felisberto Desgraçado o personagem central. O seu sonho era levar a mãezinha aos Estados “Onidos”.

- “Corre-me tão mal a vida! É esta maldita caspa, é o cancro da próstata da Felismina, e a mãezinha que não volta... Menzinha volta por favor! Mãezinha não tapagues!”

Era o tempo das boys band, constituídas por rapazes espadaúdos, “repescados da valeta e das obras”. Da televisão “em movimentos”, feita de planos oblíquos – uma hiperbolização do já de si frenético Big Show SIC. A música que se ouvia era de Abrunhosa, Prince, Cesária Évora. No Herman Enciclopédia promoviam-se encontros improváveis. Entre Madonna e Carlos do Carmo, Amália e Bob Dylan a cantar um malhão-malhão.

A música também era a dos Fried Potato Suicide – deixa para nova aparição do Diácono Remédios:

- “Batatas fritas a cometerem suicídio? O suicídio é um pecado, mesmo para as batatas fritas.”

Nem o hino nacional foi poupado. A Dra. Rute Remédios, nas consultas de sexologia, considerava-o uma boa base musical para o sexo. Porquê? Porque daí se pensa em militares… Pelo contrário, os Madredeus eram desaconselhados.

- “Com isto é impossível ter uma erecção capaz! Madredeus, Manoel de Oliveira, meio litro de leite morno, bolachinha de água e sal, e obtenha uma embalagem de Xanax!”

De onde é que saía tudo isto?

Herman e Nuno Artur Silva explicam o modo de fazer do Herman Enciclopédia.

“Tínhamos reuniões de ideias todas as semanas, brainstorming à volta da mesa. Passavam-se as ideias para o Herman, que contribuía com algumas sugestões. Por exemplo, deu-nos uma frase da mãe: “Ó filho, és um bom artista, não tinhas necessidade de fazer aquilo”, e pediu-nos: “Façam alguma coisa com isto”. Daí resultou o “Não havia necessidade” do Diácono. A ideia era depois trabalhada por dois guionistas. Trabalhavam em liberdade total dentro daquela regra que o Herman estabeleceu comigo quando começámos a trabalhar: “Escreve o que te apetece, eu uso como me apetece, e não vamos perder muito tempo com explicações”. Esta regra manteve-se com a equipa toda e funcionou muito bem. No Herman Enciclopédia, de uma maneira geral, respeitou muito o texto. Eu próprio fazia a ligação com o Herman e os actores”.

Herman José recorda que o ritmo de feitura do programa era sempre alucinante, mas que o processo de apropriação dos textos e composição dos personagens era variável. “Eu diria, que atrás de cada boneco está alguém. Há os óbvios, como o Lauro António ou o Baptista Bastos, mas em todos os outros estão a vizinha, o motorista, a vendedora de jornais, a prima, o sócio, o polícia, etc... Havia textos que tinham tratamento copy/paste. Eram respeitados na íntegra e reproduzidos tal e qual. Havia outros que tinham tratamento bovino. Mastigava-os, engolia, e eram finalmente regurgitados depois de devidamente tratados. Outros não chegavam sequer a entrar na digestão – eram modificados e compactados no papel, em longas horas de trabalho (como aconteceu com alguns episódios dos “Homens do Norte”). Imagino que nessa altura jovens autores me tenham rogado algumas pragas. Mas foi por uma boa causa – espero eu”.

O ambiente era “muito solidário, distendido, divertido, mas penosamente profissional. Gravar mais de 50 minutos de ficção científica com aquela variedade de personagens e cenários foi uma tarefa ciclópica. Havia muito pouco espaço para brincadeira”.

O Herman Enciclopédia constituía uma das grandes apostas do canal. Numa fase inicial, as gravações, foram acompanhadas de perto pela direcção. “A única questão que se colocou de início teve a ver com valores de produção que quanto a nós, (eu e o Joaquim Furtado), não estavam a ser devidamente concretizados, o que tinha menos a ver com conteúdo e mais com imagem”.

Em todos, exista a ideia de se estar a fazer um grande momento de televisão, que perduraria. “Era uma equipa de argumentistas em boa forma e um Herman de regresso, depois de uma das suas mortes anunciadas. O programa é uma amostra da incrível paleta de cores que o Herman tem na composição de personagens”, sintetiza Nuno Artur Silva.

Era, como disse Carlos Pinto Coelho, himself, numa aparição no Herman Enciclopédia, um programa de “audiências modestas, mas um fenómeno planetário”.

Talvez fosse excessivo falar em fenómeno planetário, antes da vulgarização da internet como suporte privilegiado de conteúdos media. A geração youtube ainda não tinha nascido. Mas no Portugal de então, o programa era um espaço de convívio. (Convaive, para Lauro Dérnio.)

O que é que o fez resistir? O que é que faz que estejamos a falar sobre ele, 13 anos depois da sua exibição (e assumindo que a edição em DVD não o justifica completamente)?

“O que resiste melhor ao tempo é o Herman José”, pensa o antigo primeiro-ministro António Guterres. “Na maior parte dos casos, os programas de humor ficam tão terrivelmente datados que perdem a graça. São apenas expressão de um tempo. O que é mais interessante no Herman Enciclopédia é sentir que (exceptuando histórias mais específicas), o humor não perdeu a sua oportunidade. É uma qualidade rara”. E faz o paralelo com um clássico da história do humor. “Continuamos a ver Yes, Minister e continuamos a rir. Mesmo que o programa tenha a ver com a política do seu tempo. Porque é um humor de grande qualidade. É o que acontece com o Herman. A qualidade não é datada”.

Herman, o verdadeiro artista, elenca os momentos do programa que, na sua opinião, melhor resistem à erosão do tempo. “A actualidade do Diácono Remédios, o non-sense groucho-marxiano da novela “Ai Mãezinha, Não te Apagues”. Também me encanta o talento dos actores. A série resiste bem, apesar de ser pontualmente atraiçoada pelo timing menos frenético de alguns sketches, e pela própria duração de cada episódio, o dobro daquilo que é praticado hoje em dia”.

Na opinião de Joaquim Vieira, resiste porque há nele “um registo de humor burlesco e anárquico, demolidor das convenções, que é intemporal e muito bem compreendido pelos jovens”.

A geração Gato Fedorento, (denominada sumariamente assim para definir um tempo e um modo de consumir conteúdos de humor), não assistiu à emissão do Herman Enciclopédia no canal 1 da RTP. Mas Herman pensa “que são eles os grandes catalisadores do estatuto de culto que o programa tem vindo a ganhar”.

Vão ao youtube e percebam do que estamos a falar.

Clara Ferreira Alves reviu recentemente o programa com dois adolescentes. “Adoraram!, mesmo que não saibam quem é o Lauro António. A personagem criada é naturalmente cómica. Essa é que é a marca do grande humor e da genialidade do Herman: transformar uma situação particular numa situação universal, que todo o mundo percebe, em qualquer lugar. Transformou uma pessoa num tipo imortal. Isso, o Herman faz. O Eça de Queirós também fazia”.

É verdade que há expressões, como essa, que continuam a usar-se. Mesmo que a sua origem seja desconhecida. “Eu é que sou o presidente da junta” é outro exemplo, que se aplica de forma exemplar a contextos de poder.

Herman ouviu recentemente “Onde é que estavas no 25 de Abril?” na Assembleia da República, numa interpelação de um deputado ao Governo.

Mas o seu personagem preferido, “pela sua importância histórica e capacidade de sobrevida, é o Diácono Remédios. Infelizmente mais actual do que nunca”.

Para Joaquim Vieira, “o provedor Diácono Remédios diz muito sobre os preconceitos da nossa sociedade. Ainda há gente que parece hoje em dia querer imitá-lo, mas à séria… A minha preocupação tem sido não usar a expressão “Não havia necessidade”. Não é agradável ser comparado a um Diácono Remédios.”

Clara Ferreira Alves também escolhe o Diácono como o grande personagem da série. “O “Não havia necessidade” fez esse grande milagre, que fazem alguns versos de grandes poetas: entrou na língua portuguesa”. E continua a usar “Lets look at the trailer”.

Nuno Artur Silva tem uma predilecção pelo Artista Bastos, escrito por Eduardo Madeira e Henrique Dias, pelo Herman Geographic, em cuja criação participou, e que foi escrito por João Quadros.

Depois, veio o declínio.

“Se o Herman tivesse nascido nos Estados Unidos, sobretudo na Califórnia, seria uma estrela absoluta. Em Portugal, é difícil agradar. Há sempre um desejo de matar alguém em Portugal, e o Herman foi um desses casos bem sucedidos. Havia um desejo compulsivo, a partir de certa altura, de não achar graça e de dizer que o Herman estava acabado”.

Como é que Herman se revê?

“Com ternura e inveja. Ternura por me sentir, aqui e ali, relativamente imaturo; e inveja porque aquela pele de 43 anos imprime muito melhor do que a actual. Toda a perda é dolorosa. A perda de uma certa inocência e quixotismo. A perda de dezenas de amigos cuja saúde não resistiu à passagem do tempo. A perda de uma inconsciente felicidade de quem se sente praticamente imortal e centro do mundo. A perda da visão total que me permitia ler o teleponto a metros de distância sem qualquer ajuda”.

O Herman Enciclopédia teve duas séries. Frequentemente, depois de terminado o programa, no decorrer da ficha técnica, aparecia, cereja no topo do bolo, o Diácono Remédios.

- “A minha mãe a portar-se como aquelas cadelas infiéis... Uns seios enormes, como as bossas de um camelo. Enquanto vários homens abanam os seus bacamartes-s-s”.

E abanando a mão sapuda e mole, exortava ao recolhimento:

- “Ide, ide para as vossas casas”.

 

ps: "Let's look at the trailer" foi criado por Nuno Markl

 

 

Publicado originalmente no Público em 2010. 

 

Ricardo Araújo Pereira

10.04.20

Quem é que ainda diz “eh pá” linha sim, linha não? E “gajo”, gajo para aqui, gajo para acolá? Quem é que diz que as suas filhas são o seu Jesus Cristo – mesmo assim, podia fazer troça se uma delas fosse coxa. Manquinha. E que chora lágrimas de sangue pelo seu Benfica? E que, sendo um palerma, conhece o Génesis? Quem é ele? «Eu faço um programa de televisão, escrevo textos de comédia e interpreto-os, não estou num concurso de popularidade». Mesmo assim, é muitíssimo popular. Ele é também o jovem bem sucedido, que mora numa casa com piscina, que tem um carro de alta cilindrada à porta, casamento religioso, duas filhas e uma estabilidade burguesa de que todos precisamos. Para a seguir subverter as regras.

Ricardo Araújo Pereira tem um registo inesperado. É um homem culto, criado em boas famílias (o pai é piloto, a mãe hospedeira), de educação esmerada. É de uma indubitável inteligência. Mas indubitável é uma daquelas palavras que ele usaria para fazer pouco de intelectuais de meia tijela. Digamos, então, de modo simples: ele é muito inteligente. E também: ele domina exemplarmente o português e conhece o significado íntimo das palavras. Acresce a isso um talento enorme para a representação.

Ele e os restantes Gatos põem o país a rir todos os domingos à noite. Ricardo diz assim a propósito do riso: «Quando uma pessoa se ri, pode não estar feliz, mas imita muito bem, parece mesmo que está, e pelo menos durante um centésimo de segundo está mesmo, não me lixem, está mesmo». Referia-se à avó. Foi a primeira pessoa que pôs a rir. Foi um acto de amor. Ela está naquilo que ele é hoje.

RAP 

Fotografia: Miguel Baltazar

 

Talvez começar por dizer que te conheço há muitos anos e que te entrevistei há três, quando estava a sair o primeiro DVD dos Gatos. Apanhei-te no começo da explosão; entretanto, foi uma deflagração absoluta!

Mudou muitíssima coisa. Estávamos a fazer um programa para um canal que tinha dez mil pessoas de audiência, de forma completamente amadora, tanto do ponto de vista da produção, como do nosso, que estávamos a fazê-lo nos intervalos do trabalho. Agora, estamos na estação pública, em horário nobre, a fazer um programa que tem um milhão e meio de espectadores e feito por uma produtora profissionalíssima. Em três anos isso aconteceu.

 

Podias prever isso?

Não, nunca. A gente farta-se de dizer isso. Sobretudo quando nos perguntam quais são os projectos para o futuro. É impossível estar a projectar quando há três anos seria ridículo ter feito estes planos.

 

Consegues perceber qual foi o elemento catalisador desta quase histeria que há à volta dos gatos? Têm um público tão transversal que vai dos miúdos de dez anos ao Jorge Coelho (julgo não cometer uma inconfidência se disser que ele é vosso fã...).

Não tenho nenhuma resposta para dar. Até porque aquilo que fazemos é aquilo que nos apetece. Quando saímos da SIC Radical tivemos propostas de vários canais. E a RTP foi provavelmente a única que disse: “Queremos contratar-vos para fazerem exactamente aquilo que estão a fazer”. Depois temos constatado, com muita felicidade, que isso agrada a algumas pessoas. Não escondo que é engraçado famílias virem ter connosco e dizerem: “É o único programa que vemos todos juntos”.

 

Esse tipo de unanimidade agrada-te? O Chico Buarque, a dada altura, não gostava de ser um artista consensual.

Eh, pá, isso é um artista, atenção. Eu tenho a certeza de que não somos unânimes. Estávamos a falar do efeito catalisador. Há um efeito que tem a ver connosco, porque outros produtos do canal não têm a mesma projecção. E há um efeito catalisador que tem a ver com as pessoas, que é o facto de porem aquilo na internet, de passarem uns para os outros. Esse fenómeno potenciou e continua a potenciar [a difusão do Gato Fedorento].

 

São razões exógenas ao fenómeno, mas fundamentais para o explicar.

São. Recebemos imensos e-mails a dizer: “No emprego, a primeira coisa que faço segunda-feira de manhã é falar com os meus amigos sobre o programa da véspera, e vamos ao Youtube e já lá estão os sketches do dia anterior”. É uma coisa divertida e que pode explicar a falta de produtividade do povo português: as pessoas estão entretidas a ver a internet em vez de trabalhar. Enquanto for para nos ver a nós, é simpático!

 

Têm uma máquina de promoção que trata disso? Quem é que disponibiliza os sketches no Youtube?

Há televisões nos Estados Unidos que põem, elas próprias, bocados de programas no Youtube para potenciar o marketing viral – aquela coisa que os gajos do marketing inventaram. A RTP não faz isso. São legiões de adolescentes, cheios de borbulhas, que no domingo de madrugada põem aquilo no Youtube. Enquanto isso pontenciar o nosso trabalho e a nossa exposição pública, adoramos essa gente. Quando percebermos que é uma forma de pirataria que nos prejudica as vendas, gostaríamos que fossem encarcerados.

 

Achas mesmo que não há unanimidade neste momento?

Um largo consenso, admito. É difícil haver um tipo com uma exposição pública continuada e um trabalho com repercurssão pública que não tenha um largo consenso.

 

É mais fácil ser polémico do que consensual. Estou a pensar em pessoas como o Vasco Pulido Valente ou o Pacheco Pereira.

Gosto dos dois. Toda a gente, não, mas um largo consenso de pessoas respeita-os, mesmo não concordando com eles. Aquilo é um negócio: se não encontrassem essa repercussão nas pessoas, não haveria procura para aquilo que escrevem.

 

Vou usar um palavrão para dizer qual é a minha impressão: vives numa espécie de ubiquidade permanente. Como se tu fosses este que é bem educado, que até banca o humilde, que quase pede desculpa por ter lido o Nietzsche – na entrevista à Judite de Sousa citaste o Nietzsche e o Freud; e fosses, ao mesmo tempo, aquele que toda a gente espera que sejas, ou seja, o Gato Fedorento, o elemento central daquele colectivo.

Eu não o elemento central daquele colectivo. Aquele colectivo é mesmo um colectivo. O Herman, (estávamos numa entrevista com a Maria João Avillez), fez uma pergunta que diz tudo: vocês ganham todos o mesmo? Claro que ganhamos todos o mesmo. É revelador da importância que todos temos no grupo.

 

No outro dia, eu perguntava a uma pessoa que vos conhece se vocês nunca se pegam... Porque um ocupa demasiado espaço, ou tem excessivo protagonismo. Nem em privado?

Nem em privado. Mas fartamo-nos de nos pegar: “Que estupidez, não faças isso assim, vamos fazer de outra maneira, eu não concordo nada com isto”. Pegamo-nos imenso até com coisas do dia-a-dia, como embirrar com a...

 

Com a namorada de não sei quem?

Exacto. Se esta vontade da imprensa escolher um líder tivesse recaído sobre um deles, se calhar eu levava isso a mal. Eles não levam nada a mal.

 

Por que é que levavas isso a mal? É o teu ego?

Pois, não ia achar graça. Tenho a sorte de eles serem óptimas pessoas e estarem-se borrifando para o assunto.

 

Portanto, é um acordo tácito: tu não és o líder, mas há uma figura que aparece, que está no pico da fama, e essa és tu.

Pois, mas não há nenhuma objecção a isso. É uma escolha da comunicação social e da imprensa, não nossa. Quando se trata de “vem cá o Gato Fedorento” e vou só eu, costumamos recusar. Se é “quero falar com o Ricardo”, à vontade. Estou a falar como o Jardel, já viste?  

 

A falar de ti na terceira pessoa! Já vais fazendo um desdobramento entre o personagem público Ricardo Araújo Pereira e o teu núcleo essencial?

Foi tudo muitíssimo rápido e eu não sabia, nenhum de nós sabia, como é que se lidava com a exposição pública. Receio que a falta de experiência me tenha empurrado para uma situação em que não tenho uma máscara pública. Quer dizer, tenho a máscara que toda a gente tem: em privado, em casa...

 

Damos arrotos.

Sim, é isso. E publicamente não o fazemos. Mas não tenho tido nenhum pudor em mascarar aquilo que penso. Isso tem-me trazido alguns dissabores, paradoxalmente. Às vezes as pessoas levam a mal que eu manifeste posições políticas.

 

Perdeste um pedaço da unanimidade quando fizeste campanha pelo Sim no referendo ao aborto?

Não faço ideia. O meu pai achou que sim. Do ponto de vista cívico não tenho feito nada, mas o problema do aborto era uma questão que me interessava e na qual gostaria de participar.

 

Os pais preocupam-se sempre com essas coisas. É por não gostarem que não gostem de nós.

Sim, mas não sei se isso deve nortear a minha conduta. Eu faço um programa de televisão, escrevo textos de comédia e interpreto-os, não estou num concurso de popularidade. Vale a pena ser pardo do ponto de vista político, ou outro, só para manter a afeição de pessoas que não toleram que eu pense de forma diferente?

 

Não estás para isso...

Acho que não faz sentido nenhum.

 

A tua participação cívica na campanha do aborto é uma réstia da tua militância comunista?

A militância comunista foi péssima.

 

É já uma coisa mitificada?

Sei que é. Há muitas coisas mitificadas entretanto. Uma coisa que ao princípio me fazia confusão, agora vai fazendo menos, é o facto de todas as semanas aparecer qualquer coisa na imprensa, que não é verdade, sobre mim. Coisas tão simples como: o JL fez 25 anos, e eu trabalhei lá...

 

Foi o teu primeiro trabalho, não foi?

Sim, assim que saí da Faculdade fui para lá. O JL fazia 25 anos e eu mandei um cesto, daqueles que se compram na internet, com flores, chocolates, uma garrafa de champanhe, com um cartão, para os meus camaradas de redacção.

 

“Os meus camaradas”?

Todos os jornalistas dizem camaradas, não me lixes!

 

Ah, é verdade, tudo menos “colegas”, porque colegas são as p....

Exacto. Um jornal descobriu que tinha mandado o cesto e publicou que eu gostava muito de champanhe! Podia ter posto que gostava muito de cestos, ou de fruta, ou de flores. As notícias vão para os arquivos e os jornalistas sempre que fazem uma coisa sobre mim, lêem aquilo e perguntam-me: “Gosta de champanhe?”. Neste momento, eu, que bebo champanhe como as pessoas bebem champanhe, nos aniversários, sou um gajo que gosta de champanhe francês!

 

Devassas à tua vida privada?

Imensas, pá, imensas coisas. No outro havia um fotógrafo a 20 metros do meu portão, dentro do carro, e outro para aí a 50, dentro de outro.

 

As tuas filhas e a tua mulher já começam a sentir uma afectação por serem as filhas e a mulher de?

Há uma tentativa de as dar a conhecer. Recusámos sempre, mas há coisas que não podemos evitar. Por exemplo, no aeroporto ou na rua.

 

Para as miúdas, no colégio, com os amiguinhos, o pai é aquele que aparece na televisão?

A minha filha mais velha percebe que os amigos e os educadores dizem: “Tu és a filha do Gato Fedorento”, mas ela ainda não percebe que isso, do ponto de vista social, é diferente do que acontece com os pais dos outros meninos.

 

Posso dizer que esta entrevista foi adiada porque nessa noite estavas a cuidar das tuas filhas?

Podes, à vontade.

 

Quando li a mensagem que me enviaste, pensei que as pessoas olham para ti como um ícone. E um ícone não tem filhos, nem tem noites mal dormidas porque as filhas estão com gripe.

Sem estar a expor a minha família, a minha mulher, as minhas filhas, nunca deixei de dizer que era casado e tinha filhos.

 

É certo que não tentaste esconder, mas as pessoas não querem ver essa parte. Porque corresponde a uma dimensão corriqueira.

É isso. É aquela coisa da pessoal fútil, casado e tributável... Uma coisa que o Pessoa diz: “Queriam-me fútil, casado e tributável”. Já sou as três coisas.

 

Tínhamos lá para trás a ubiquidade. Não é por acaso que agora trago a ubiquidade. Estás sempre entre estes dois desempenhos?

Acho curioso que digas “entre esses dois desempenhos”.

 

Refiro-me ao desempenho social e ao familiar.

Mas quando me dizes que são dois... Aquilo que tu dizes é bem observado. Há uma estratégia que é constante e que ao fim de um tempo começa a tornar-se aborrecida. Uma estratégia de auto-depreciação que fazemos enquanto grupo e individualmente também. É uma estratégia excelente de auto-defesa, para baixar as expectativas das pessoas...

 

Também para fazer um certo género... Cria-se uma ideia de: “Ai, sou palerma, ninguém me pode levar a sério”.

Tem esse lado positivo. Se tu te insultares a ti própria primeiro, os outros depois têm mais dificuldade em fazê-lo. Agora, quando tu dizes “bancar o humilde”... A imprensa está a tentar arranjar uma guerra entre nós e o Herman, acham que pode ser interessante do ponto de vista mediático; e se calhar é. Mas não há guerra nenhuma, nem nunca há-de haver.

 

Começaram por trabalhar com ele, na escrita dos textos, enquanto elementos das Produções Fictícias.

Trabalhámos com o Herman imenso tempo, tivemos esse privilégio, ele sempre nos tratou bem, não há razão nenhuma para andarmos armados em parvos a dizer: “Vamos à guerra das audiências”.

 

Pelos vistos, não precisam.

Não se trata disso, os programas são diferentes, o horário é diferente, os canais são diferentes. E não seriam as audiências a determinar se um programa é melhor do que outro ou não é. Dou sempre o exemplo do futebol: “Não vamos fazer concorrência ao Herman, só porque estamos a jogar à mesma hora. O Birgmingham não faz concorrência ao Chelsea”.

 

O Benfica e o Sporting?

Não, não, o Benfica e o Sporting é outra coisa.

 

“Lavo a boca para pronunciar a palavra Benfica?”, não é o que se diz em futebolês?

Houve gente que me censurou: “É falsa modéstia”. Comparar o maior humorista português de sempre, com a maior equipa do mundo, e quatro gajos que começaram há três anos, e há um ano tinham um produção amadora, é inaceitável. Esquisito acharem que é falsa modéstia. Para mim é uma coisa rigorosa.

 

Lamentas que as audiências do Herman neste novo programa sejam tão baixas? Sinceramente. É como se fosse uma injustiça?

Primeiro, não sei se são assim tão baixas. Segundo, não vejo justiça nem injustiça nas audiências. Não vejo que as audiências sejam prémio de qualidade, de competência. As audiências não significam nada a não ser “há muita gente a ver” ou “há pouca gente a ver”. Se calhar vai haver pouquíssima gente a ver o programa do António Barreto e tenho a certeza de que vai ser um belíssimo programa. Vai ter seguramente menos audiência que o nosso e vai ser seguramente melhor do que o nosso. O Herman tem 30 anos de carreira, duvido que esteja preocupado com a percentagem do share.


Pode estar preocupado com uma coisa, essa sim, significativa, que é envelhecer.

Mas isso não tem nada a ver com as audiências.

 

Envelhecer pessoalmente e envelhecer artisticamente. Estar desfasado destes novos tempos em que segunda-feira de manhã aparecem no Youtube as coisas mais engraçadas da véspera.

Essa é uma pergunta insidiosa.

 

Não é.

Em relação ao Herman, só tenho coisas boas para dizer. Não creio que esteja desfasado da realidade, antes pelo contrário. Sei que tem esse problema com o envelhecimento, como toda a gente. É uma coisa horrorosa, a aproximação da morte assusta qualquer ser humano, e não só os seres humanos de origem alemã. Nós só sabemos o que é um humorista por causa do Herman. O Herman é vítima de si próprio.

 

Como assim?

A Judite de Sousa perguntou-me sobre a imparcialidade do humorista: essa questão só se põe em Portugal porque o Herman nunca manifestou posições políticas, nem de clubes de futebol. E tem todo o direito de não as manifestar. O Herman é vítima de si próprio por ser o paradigma, as pessoas esperam dele muitíssimo mais do que parece ser aceitável. A própria memória dele está a assombrá-lo.

 

Chega de Herman. A não ser para perguntar se os Gatos podem ser apenas um epifenómeno. Isto vem a propósito da longevidade da carreira do Herman. Há três anos tu irrelevavas o vosso sucesso, achavas tudo aquilo improvável.

Neste momento particular não é um epifenómeno. Mas nada nos garante que daqui a cinco anos não tenha sido afinal. Sabemos que daqui a 50 anos as pessoas vão saber quem era o Herman José, assim como hoje em dia sabemos quem é o Vasco Santana, o António Silva. Mas não fazemos ideia se daqui a 50 anos as pessoas se vão lembrar de nós. Quando cheguei às Produções Fictícias, estava a acabar de acontecer um fenónemo humorístico na SIC, protagonizado por uma pessoa que dava autógrafos na rua, era considerado pelas revistas e jornais o novo Herman; hoje em dia ninguém sabe quem é. Acontece muito.

 

Isso ainda vos pode acontecer?

Acredito que o nosso trabalho tem sido um pouco mais consistente, até porque tem sido mais duradouro. Mas nada impede que daqui a cinco anos já não seja nada. As nossas ambições não passam exclusivamente pela televisão. Para já, é quase garantido que em 2008 não estejamos a fazer nada, saiamos da televisão. Depois, é possível que façamos mais dois, três, cinco anos de televisão e arrumemos as botas completamente – há essa hipótese.

 

Continuas a sonhar escrever como o Mário de Carvalho?

Quando disse que queria ser escritor e jogador do Benfica tinha seis anos, depois percebi que não tinha talento nem para uma coisa nem para a outra.

 

O que é que te custou mais?

Foi sem dúvida jogar à bola.

 

Para o resto, pelos vistos, tens talento.

Não se trata disso. Uma pessoa que escreve um grande livro não levanta o Estádio da Luz, se marca um golo, levanta. É uma questão de prioridade.

 

Mas como Gato, também levantas o Estádio da Luz.

Isso foi a melhor coisa da carreira até agora. O Benfica convidou-nos para fazer uns sketchs no Estádio da Luz e os nosso consócios estavam ali. Sinto aquela gente como da minha família, ter a família a rir daquilo que estou a fazer...


Explica-me melhor essa comoção de ter as 65 mil pessoas da família ali... Estranho, é como se estivesses a fazer um número cómico dizendo isso.

Percebo que as pessoas achem graça e achem que é rídiculo. Estou a falar a sério.

 

Por que é que isto te toca? Por que é que é comovente?

Há pessoas que conseguem ser primárias e irracionais na política, na religião, com imenso sucesso. Eu resolvi guardar a irracionalidade e o primarismo todo para o clubismo, para o Benfica. E atenção que a palavra primária também tem um lado bonito, um lado de primeiras coisas. Não choro com nada na vida a não ser com o Benfica – isso é uma coisa ridícula.

 

A sério?

Choro, choro, choro.

 

Não choras com mais nada? Era a outra coisa que me impressionava.

Não. É mesmo uma coisa irracional, de um domínio extraordinariamente primitivo. Lembro-me de ir ao Benfica com o meu primo António, foi ele que me meteu o bicho. Eu tinha para aí seis anos e o meu primo tinha tiques esquisitos, tremia todo, coçava o colarinho, coçava a nuca, cuspia e fumava. E lembro-me de olhar para ele e pensar: “É isto que quero para mim, é isto mesmo”.

 

O transe.

É aquele. Percebo que é absurdo uma pessoa sofrer da maneira que eu sofro, com o coração a bater nas costas, porque onze milionários dão pontapés num objecto esférico cheio de ar, vestidos com camisolas cuja cor me agrada. É aquela história do Herberto Hélder, “se eu quisesse enlouquecia”... Se eu quisesse “desenlouquecia”, sabia fazer o caminho ao contrário.

 

Impunhas a racionalidade. Serias capaz?

Só que não quero! Gosto imenso daquele sofrimento. A proximidade que sinto das pessoas que estão no estádio..., aquele é o público que realmente me interessa. Sei que na televisão, se faço uma coisa sobre o Marcelo, há pessoas que vão ficar desagradadas. Mas, eh pá, são ossos do ofício. Agora, pensar que qualquer coisa que eu faça no Estádio da Luz vai desagradar aquela gente, isso sim, transtorna-me.

 

Tenho uma pergunta algo delicada, e é só pela intuição...

Força.

 

Passaste a vibrar ainda mais com o Benfica depois da morte da tua avó?

Não, não. Por que é que achaste que essas coisas estavam associadas?

 

Tenho a impressão que a pessoa que mais amavas e de quem eras mais íntimo era a tua avó. E ela, pela sua simplicidade, personificava também esse lado familiar e espontâneo do Benfica. Ocorreu-me que podias transferir um pouco para a família indiferenciada que é a massa benfiquista aquilo que vinha dali e que foi um dos sustentáculos da tua vida.

Não passa nenhum dia sem eu me lembrar da minha avó. No outro dia estava a constatar isso. Isso não tem nada a ver com o Benfica, às vezes até tem a ver com o meu trabalho. Aprendi a valorizar mais aquela herança. As pessoas perguntam-nos quais são as nossas influências.

 

E quais são?

Há sempre influências de dois tipos: as técnicas, (o Woody Allen, o Herman, o Seinfeld, o The Office), e aquilo que nos fez ser aquilo que somos. Ela fez de mim aquilo que eu sou, mesmo sem querer. A maneira como se relacionava comigo e como achei que me devia relacionar com ela, fez de mim aquilo que sou. Isto tudo que me acontece também é ela.

 

Consegues explicar melhor o que é que ela te fez? Que milagre foi esse?

Não é bem um milagre, as pessoas são feitas dessa massa. Aquela tábua rasa que são ao princípio e depois leva várias marteladas... Ela tinha tido uma vida bastante madrasta. Qualquer outra pessoa que fica viúva com 30 anos provavelmente passados cinco, dez, um, volta a casar e refaz a vida. Para ela, ficar viúva com 30 anos significava a vida terminar quando estava a começar. Para as mulheres do Alto Minho significa vestir-se de preto até ao final da vida.

 

Tinha um daqueles corações com as fotografias roxas dentro? São de ouro e usam-se presos ao peito.

Tinha, tinha. E portanto, ela tinha uma má relação com a vida. Lembro-me sempre dela com o sobrolho franzido.

 

Engraçado, imaginava-a mais suave, mais ternurenta.

Mas isso era. Não sei se o General Ramalho Eanes é ternurento, mas é certo que aparece sempre com um ar sisudo. Aquilo é uma noção trágica da existência, um fatalismo incrível.

 

A tua avó dizia asneiras? No Minho dizem-se muito. Estou a pensar de onde é que vem o teu lado asneirento...

Se estivesse fora de si, dizia. Eu conseguia colocá-la fora de si, tinha algum talento para isso. Também não era difícil.

 

Quando fazes o campónio pensas nas descrições dela?

Penso. O Professor Lindley Cintra dividiu muito bem os sotaques: do Pombal para cima troca-se os “bês pelos vês”, nesta zona fala-se “assim”, na outra já os “esses” são mais molhados. A minha família, que é toda do Alto Minho, borrifou-se no Lindley Cintra! Uns falam com os “esses” mais molhados, outros não falam de todo. Eu, quando é preciso fazer um desses, basta pensar: “Hoje vou fazer o tio Manuel”, “Este vai ser o Aniceto”.

 

Tens no teu armário uma galeria desses personagens.

Sim, pá. É a aldeia da minha avó, basicamente. E mesmo da família.

 

Não é abusivo dizer que, de certo modo, és humorista por causa da tua avó?

Por causa da minha avó. A primeira pessoa que tive vontade de fazer rir foi ela. Havia em mim um fascínio imenso em relação às pessoas que conseguiam fazer isso a outro. Quando uma pessoa se ri, pode não estar feliz, mas imita muito bem, parece mesmo que está, e pelo menos durante um centésimo de segundo está mesmo, não me lixem, está mesmo. Uma das razões pelas quais há um preconceito, até religioso, em relação ao riso, à dimensão física do riso...

 

É pela descompostura, porque se desmancham?

De facto, durante uns segundos, o corpo está abandonado a uma outra coisa. Não se conseguir controlar o corpo é logo péssimo. Também o facto de uma pessoa conseguir interagir com a outra fisicamente, sem lhe tocar, causa uns engulhos grandes.

 

Gostava de recuperar uma pergunta que fiz há três anos: o que é que é sagrado? A avó é sagrada, as filhas são sagradas, a mãe é sagrada?

Exacto.

 

Ou seja, com o quê é que não se faz humor? Nem toda a impiedade é consentida. Isso estraga uma vida.

Uma coisa é perguntares-me o que é que é sagrado, outra coisa é perguntares-me com o que é que se faz humor. Toda a gente tem os seus sagrados, para umas pessoas é Jesus Cristo, para mim são as minhas filhas. Isso significa que não se pode fazer humor com Jesus Cristo ou com as minhas filhas? Eu acho que não.

 

Vamos imaginar que a tua filha tinha... estou aqui a imaginar uma coisa horrível... Vamos imaginar que era manquinha, que coxeava... Provavelmente nunca mais ias fazer o número do manquinho.

Não diria que isso é assim. Faço pouco das minhas filhas todos os dias. Uma das coisas de que elas mais gostam é quando as imito.

 

Isso é porque são perfeitinhas. Imagina que ela era mesmo manquinha...

Não sei se não podia ser sublimada através do riso. E não sei se não seria bom para ela se defender disso, justamente. Toda a gente tem o seu manquejar, mesmo que não esteja à vista de todos. A maneira de dominar e de conseguir superá-los, os meus, sempre foi através do riso e do humor. É um mecanismo de defesa como qualquer outro.

 

Raramente fazes humor com o sexo, que é um tema fácil. Ainda por cima, fizeste toda a escolaridade com freiras, frades, jesuítas, a universidade na Católica. A repressão sexual associada aos religiosos, é disso que estou a falar.

Ao princípio estavas a dizer que vou à Judite de Sousa e sou aquilo que as pessoas estão à espera que eu seja, mas que também sou outra coisa.

 

Tu és mais culto, mais humilde, mais controlado do que o que as pessoas estariam à espera.

Admito que haja uma parte que se surpreenda por o palerma que vê na televisão a fazer aquelas figuras ridículas saber...

 

Quem é o Nietzsche, e que o tenha lido.

Pois, ou quais são os momentos do Génesis em que há riso e a forma como foram sendo interpretados. Não faço nenhum esforço para ser de uma maneira ou de outra. Sou o palerma que quando a câmara está apagada diz imensos palavrões, faz piadas do mais básico e escatológico e também gosta de saber o que é que o Nietzsche pensa. Um tipo pode ser um palhaço e um idiota e gostar de ler livros. Não é surpreendente. As pessoas são mais do que uma coisa. Provavelmente o público está à espera que se seja só uma coisa.

 

O vosso humor não recorre a palavrões.

É um acordo tácito, nem sequer chegámos a discuti-lo. É relativamente fácil o humor com palavrões.

 

Na minha entrevista anterior dizias “puta cara”. Dizias que aquilo que incomodava as pessoas, quando fizeste o anúncio do “Eles falam, falam, falam...”, não era teres sido puta, era teres sido uma “puta cara”. Teres ganho uma pipa de massa.

Uma parte das pessoas fica sempre incomodada com isso.

 

Agora és uma puta cara, cara, cara.

[risos] Agora ninguém me chateia por causa disso.

 

Estás no pico da onda. O sketch do Marcelo é inesquecível. Já te encontraste com ele?

Não, não. Aqueles foram os minutos mais perigosos de sempre da minha carreira. Nunca recebi tantas ameaças.

 

Mas tu recebes ameaças?!

Ora aí está. Por carta, por mail. A mim, à minha família, às miúdas, informações sobre o colégio onde andavam. Uma coisa bastante assustadora. Esse momento do aborto fez-me reconsiderar o sítio onde vivemos.

 

Eu estava centrada na tal unanimidade dos Gatos, não tinha ideia que pudesse ter havido uma reacção tão visceral.

Se eu fizer uma bomba, se assaltar um banco, se matar alguém, admito que as pessoas me ameacem matar a mim. Agora, fazer uma rábula humorística de dois minutos e ameaçarem-me da mesma coisa?

 

Foi um assassinato político... Estava a pensar se devia dizer isto, mas é o sentimento colectivo. Aquela rábula foi mortal para o Professor Marcelo.

É possível que tenha sido atendido como isso.

 

As freiras e os frades, os religiosos e o sexo. Acho que era a ponta que tinha ficado solta lá atrás. Para terminarmos, a “punchline” do sexo funciona sempre bem.

O sexo é como a sogra, é um tema humorístico clássico. Se não for abordado de uma forma especialmente sofisticada, faz dele um tema pouco interessante.

 

Casaste pela Igreja. O Tolentino de Mendonça foi o padre do teu casamento.

Sim, num casamento misto. Como é que hei-de dizer? Não é a Igreja do César das Neves [aquela em que me revejo]. É na Igreja do Padre Tolentino. Há uma figura do direito canónico que prevê que um tipo que não é baptizado, como é o meu caso, ou que tenha outra religião, case com uma católica.

 

E acabamos nisto?

Só se disseer uma coisa bombástica para terminar. Vamos tentar fazer cair o governo! O que é que achas? Por acaso, eu gostava. Se tivesse um leque de recursos mais vasto, se conseguisse imitar, por exemplo, o Sócrates, que é muito difícil...

 

Tu treinas?

Treino imenso.

 

Vamos ao exemplo que toda a gente conhece: o Marcelo. Demoraste muito tempo a chegar lá?

Imenso. Treino em casa. Vejo imensos vídeos, vejo o vídeo sem som para ver os gestos, oiço o vídeo sem imagem para ouvir a melodia. “Assim que se apanha, é uma segunda natureza” [isto é dito no registo de Marcelo], mas primeiro que consiga apanhar, é uma chatice.

 

Disseste que podes ser inseguro? Vou testar a tua insegurança: posso dizer que não acho piada nenhum às crónicas que escreves para a Visão? Talvez sinta a falta da tua interpretação. Ao contrário do que dizes, tens imensos recursos enquanto actor.

Aquilo já dura há dois anos, e continuo à luta com a crónica. O Miguel Esteves Cardoso no outro dia dizia que uma pessoa faz uma crónica boa, depois é merda, merda, merda, merda, depois vem outra boa, e depois é outra merda, merda, merda, merda. Eu estou quase sempre na merda.

 

O que é que falha?

É uma coisa que não consigo compreender. Às vezes, até o sentido da responsabilidade me cerceia os movimentos. Lembro-me de estar a escrever para o blogue e ficar satisfeito com os textos... O problema principal é o tempo. Nunca tenho tempo para escrever tão bem quanto gostaria.

 

O que quero é saber se te custa muito admitir que não sabes fazer uma coisa. Ou vais tentando, tentando.

Sim, custa-me. E vou tentando. Não admito que não consigo fazer, eu hei-de conseguir. Estou a ser absolutamente sincero. Nas peças da escola eu era o pior gajo que ali estava, a minha família ria-se à gargalhada com a minha falta de jeito. A minha tia Lurdes ainda hoje fala nisso, “péssimo, péssimo”.

 

Quem te viu e quem te vê. Ao mesmo tempo, a insegurança é uma arma poderosa, porque é altamente estimulante.

Exactamente. Conheces a fábula do mocho e do leão?

 

Conta.

O mocho diz: “Pst, ó leão, eu vou sair agora de casa, estão lá as minhas crias, são bebezinhos tão bonitos e fofinhos, pedia-te que não lhes fizesses mal”, “à vontade, estás a pedir-me, por amor de Deus...”. E o mocho chega a casa e está tudo estraçalhado, “então, pá, tinha-te pedido...”, “disseste que eram bonitos!, eu comi uns que eram absolutamente horríveis”. O mocho acha sempre que os seus filhinhos são lindos. Tenho sempre esse pânico, de achar que estou a ser mocho em relação a uma rábula que acabei de fazer. O texto, controlo mais ou menos, sei ver que isto tem graça ou não tem. Uma imitação do ponto de vista da performance, tenho sempre muita dificuldade em saber se aquilo está bem ou está mal.

 

Pronto, está visto que a conversa não tem fim. Ficamos por aqui.

Ok.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009

 

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