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Anabela Mota Ribeiro

Manuel João Vieira

10.04.20

Isto não é uma entrevista a Manuel João Vieira, isto é uma entrevista aos heterónimos de Manuel João Vieira. O músico, o candidato presidencial, o artista plástico. Uma destas tardes, apareceram todos lá por casa (do Manuel João, em Campo de Ourique). Ele é muitos.

Nada fica de fora. Sócrates e as escutas, Manuela Ferreira Leite por falar em leite. A pedofilia. Do que gostam os católicos. Educação sexual forçada na terceira idade. Palavras como “singelo” e móveis antropomórficos. Maio de 68 que afinal é Maio de 78.

Beckett não é chamado ao barulho. Apesar do absurdo. Mas Agnès Varda, sim, e Bocage.  

Há uma radiografia do país feita por Elvis Ramalho, Lello Minsk, Candidato Vieira e Orgasmo Carlos. Há uma biografia sumária do homem por detrás dos personagens, Manuel João. 

O que é fazer uma entrevista a um heterónimo? É seguir o fio. E provocar. Jogar no escuro.

Aqui e ali há pequenas incongruências (uma vez diz-se que Elvis Ramalho é o irmão mais novo dos irmãos Catita, outra que é Lello Minsk). E responde como um músico azeiteiro faria (“O papá catita era alguém muito severo”), ou um artista (Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial e irradiante”).

A entrevista foi feita à tarde, depois de Manuel João dormir a sesta. Estado: absolutamente sóbrio. Com queixas de uma ressaca da véspera. A casa é a casa de um artista.

Bem vindo ao admirável mundo de Manuel João Vieira!

 

… O que interessa realmente nas entrevistas é identificarmo-nos com aquele que é entrevistado; saber por exemplo que é uma pessoa normal como nós. Muitas entrevistas tendem a ser como aquelas que se fazem aos ciclistas quando chegam à meta, ou aos futebolistas, esperanças para o futuro. Existe uma organização implícita.

 

Um enunciado?

Sim. As respostas também fazem parte de um pacto, e as coisas funcionam segundo esse código, e se funcionarem assim são entrevistas sérias.

 

Sérias porque ninguém fica defraudado?

Sérias porque é aquilo que é suposto fazer-se. Tudo corre como num filme de Hollywood: há um princípio, um meio e um fim, que é feliz.

 

Quem vamos começar por entrevistar para furar o enunciado?

Tenho comigo o Orgasmo Carlos, um génio da arte contemporânea, segundo ele próprio. Tenho o Candidato Vieira, que está a fazer uma travessia no deserto. Tenho dois cantores, um que canta nos Ena Pá 2000 e noutras bandas, o Lello Minsk; e um cantor da canção portuguesa, o Elvis Ramalho.

 

Vamos começar pelo autor da frase: “Se há coisa que me faz mal é a água mineral”.

Isso foi uma tradução que fiz para uma canção que se cantava nos Irmãos Catita. Posso falar imediatamente como Elvis Ramalho… No fundo sou um amante da canção latina como as que havia antigamente. Em Portugal tivemos aquele acidente que foi o Salazarismo, mas havia muita canção latina, lembro-me disso. E também era muito latino o facto de nos agarrarmos às canções anglo-saxónicas. Os Conchas, o Concerto Académico, todos esses, pegavam em músicas, tanto italianas como inglesas. A única coisa que me distingue do meu irmão, Lello Minsk, é o facto de me interessar por canções ainda mais foleiras do que ele. Já não o vejo há uns anos. Para mim, o importante é o sentimento, e vivo numa espécie de museu do lixo sentimental, rodeado das minhas próprias fotografias.

 

Narcisista, portanto.

Sim. Tenho fotografias minhas dos anos 70, em que ainda não pintava o cabelo, com um bigodinho. A minha vida, ao contrário da do Lello Minsk, tem sido uma bebedeira mais de martinis. Ele prefere o bagaço e o whisky, bebidas mais duras. Somos pessoas bastante transparentes. Como irmão dele, acho que é uma pessoa sem qualquer tipo de substância. É volátil como espuma do mar. É diferente de mim. Sou uma pessoa com mais carácter, um bocado mais de consistência.

 

Você, Elvis Ramalho?

Sem dúvida. Pelo menos foi o que me disseram. Estou a escrever as minhas memórias, mas não me lembro de nada. Quando começar a lembrar-me de qualquer coisa vou escrever. E tenho outro problema: não sei se estou vivo ou se estou morto, e se estou a sonhar ou se estou acordado.

 

Tiveram pai e mãe?

O Lello lembra-se disso. Sou o irmão mais novo, não me lembro. Vivíamos no Algarve. Somos familiares dos tipos do atum. O Atum Catita era uma parte da família que se dedicava à indústria conserveira; fez algum dinheiro, mas nunca deu um chavo à parte pobre da família, que éramos nós. Emigrámos muito cedo para Lourenço Marques para fazer fortuna, e conseguimos ter um lugar modesto dentro do meio vagamente analfabeto e mundano de Lourenço Marques. Depois voltámos para cá como artistas coloniais, mas nunca chegámos a ter qualquer sucesso.

 

Quando é que nasceram?

Quem é que se lembra de quando nasceu?

 

Há os álbuns do bebé, que ajudam a situar.

O papá Catita era alguém muito severo. Quando éramos muito novos, quatro anos de idade, dividíamos uma sardinha de uma lata entre 10 irmãos, e quando alguém tirava um bocado a outro, espetávamos um garfo na mão! É preciso dizer que houve fome em Portugal – há muita gente que não se lembra disso. Cresci e nasci para a música. Para mim, o mundo da canção e da música é mais importante do que a realidade. Na realidade vivo quando estou em palco (isto também se diz neste tipo de entrevista). O sentimento de entrega aos meus fãs seria o sentimento que normalmente um casal, que vive num filme de publicidade, tem um pelo outro. Imagine-se uma família num filme de publicidade, um pai, uma mãe, os filhos…

 

Um pai sem barriga, uma mãe com um pernão…

A característica em comum é a de serem todos lindíssimos, e estão todos numa casa que parece um catálogo da Moviflor. Para isso prefiro a vida de palco, e gosto de imaginar que vivemos num mundo maravilhoso. Ontem vi um filme da Agnès Varda, um documentário dos anos 60 sobre aquela região de Cannes e Nice; o meu mundo é assim: vivo nos anos 60, quando as cores da moda eram o azul e o amarelo.

 

Ficou aí cristalizado, no sol e no mar.

Sem dúvida, fiquei. E tenho muita sorte de não ter ficado cristalizado na Idade Média, como muita gente que anda por aí. Nesse aspecto considero-me mais avançado. Tenho o problema de achar que os móveis me ameaçam, que são antropomórficos, agressivos e cruéis, e vivo rodeado de móveis… De resto, sou uma pessoa normal.

 

Porque é que essa pessoa só existe no palco, ou só se sente bem no palco?

Existo também fora do palco, em fotografias, sobretudo dos concertos. Se for a minha casa, ela está habitada por imensas fotografias, referências, os meus discos de ouro, o meu toucador, as perucas, os bigodes falsos… Só eu é que não estou lá. Mas o que é uma pessoa senão os vestígios que deixa neste mundo?

 

Pergunta profunda. Qual é a resposta?

Quem sou eu para responder. Sou fundamentalmente uma pessoa muito modesta, de origens muito humildes, e apenas quero entreter as pessoas.

 

Lorpa: é acusado disso?

Há quem me diga que sou simples. Nunca me interessei pela complexidade. Gosto de coisas singelas. Acho o mundo um sítio maravilhoso, as crianças são maravilhosas, as mulheres são maravilhosas, Portugal é um sítio maravilhoso. Tenho a sorte e o privilégio de viver num dos sítios mais bonitos do mundo. E permita-me que lhe diga que a menina é muito bonita.

 

Um palavrãozito, nas suas canções, existe?

Sabe o que é? Tenho pessoas que me escrevem as letras, e às vezes sou obrigado a cantar aquilo. Não quer dizer que simpatize com esse tipo de utilização da língua portuguesa, embora entenda que exista essa tradição, desde a poesia medieval galaico-portuguesa, passando pelo Barbosa du Bocage. 

 

Quem é que escreve as letras?

As letras são do meu irmão, Lello Minsk. Eu sou só um cantor romântico. Já lhe disse que a menina é muito bonita? O Lello Mickey, acho-o repugnante!, é uma pessoa sem sentido moral, um bêbedo convulsivo. Tudo o que de mau aconteceu ao mundo, a partir de Maio de 1978, é de certa maneira encarnado nesse… Chama-lhe pessoa; não sei se é uma pessoa.

 

Antes de falarmos do Lello Minsk…

Ele é Minsk, mas às vezes gosta que lhe chamem Lello Mickey.

 

A idade mental dele não é a do Rato Mickey, ou é?

Não sei se o Rato Mickey tem uma idade mental. A idade mental do Rato Mickey é a idade mental de quem lê o Rato Mickey. E preferia não falar do meu irmão, se não se importa.

 

Têm uma relação assim tão atribulada? Temos aqui um Caim e um Abel?

Vivo num mundo maravilhoso e não me interessam as pessoas que vivem fora desse mundo. Pus uma cruz em cima delas. Ou as pessoas são maravilhosas e está tudo bem, ou se não são maravilhosas, com licença, tenho mais que fazer. Já tenho uma certa idade, já tive os meus sarilhos e neste momento gosto de cantar em bailes de debutantes e coisas assim.

 

Nunca fica com vontade de espreitar por baixo das saias das meninas?

Com certeza que também já fui jovem, e para dizer a verdade a beleza da mulher portuguesa é uma coisa que não pára de me confundir.

 

E uma trafulhice, nunca lhe passou pela cabeça?

Essas pessoas que pensam em trafulhices deviam emigrar para outros países. Acredito que as pessoas de bem devem entender-se e que o povo português é essencialmente gente trabalhadora e honesta.

 

Não reagiu quando o provoquei, querendo saber se estes dois irmãos tiveram uma contenda séria. Se se odeiam como Abel e Caim.

É um exemplo bíblico muito limitado, mas é um símbolo daquilo que existe de pior no ser humano, que é a luta fratricida. Quase todas as lutas são fratricidas, menos aquelas que não o são. Nunca entrei pela via da guerra. Sou diplomático a resolver as questões. O meu irmão: não falo com ele nem hei-de lutar com ele; quando muito contrato um tipo para lhe dar uma tareia.

 

Assim não suja as mãos.

Não, lavo as mãos, mesmo, como Pôncio. Ele é mais novo. Quando éramos novos talvez eu lhe tenha dado carolos a mais e arrependo-me de o ter feito. Mas agora é um pouco tarde. Ele nunca ultrapassou o facto de a mamã gostar mais de mim. Sempre foi um rebelde e eu sempre fui o atinado.

 

Você nunca ultrapassou o facto de ele se divertir mais.

Não sei se ele se diverte mais. Para começar acho que ele se droga e devia fazer uma desintoxicação.

 

Que tipo de substâncias tóxicas é que ele ingere?

Sei lá!, droga.

 

Mas drogas há muitas. Até as mães tomam drogas em forma de comprimidos para dormir e calmantes.

Parece que sim, ouvi dizer. Tínhamos na nossa família uma senhora que tomava comprimidos, mas eram receitados pelo médico.

 

Cante-me uma música que seja a preferida do Elvis Ramalho.

Uma original? ”Portugal, terra maravilhosa” [canta], “Portugal, terra maravilhosa, terra do bagaço e da sardinha, de Guimarães, de Vila Viçosa, do Patilhas e do Ventoinha. Portugal, terra de cães vadios, terra de meus pais e meus avós, courela de primos e de tios, de marrecos e de Bijagós”.

 

É um bocado palerma, desculpe-me o insulto.

É, mas sabe que a palermice é muito saudável e põe as pessoas mais alegres. O grande defeito do mundo contemporâneo é que as pessoas são demasiado sérias, demasiado negras. Essa negritude, não no sentido africanista do termo, é como a anedota do sonho que tem um pontinho vermelho do lado esquerdo. Conhece?

 

Qual é a canção mais odiosa do seu irmão, Lello Minsk?

São todas más. Oh, meu Deus, prefiro nem cantar. Há uma que detesto que se chama “Canção conjugal”.

 

Como é?

Já não me lembro. E há outra: “Ó cona, a quanto obrigas”, que acho lamentável. Manifesta uma revolta da parte dele, talvez tenha tido falta de carinho. Ele nunca foi um bebé muito bonito, sabe? Ao contrário da minha pessoa. Não é para me gabar, mas ganhei o concurso de Bebé Nestlé, em 1952.

 

A canção.

“Ó cona, a quanto obrigas, fazes sangue às raparigas” – veja lá. E depois tem um refrão: “Cona, tu és a nossa mãe, cona, de ti a vida vem, estrela peregrina, perfumada e purpurina, amas analfabeto e doutor, patrão, tropa ou ardina, tu és a nossa sina, ó fértil divindade do amor”. Um disparate total, um tarado.

 

A dita, nunca o obrigou a nada? Como é que lhe chama?

Nunca a trato pelo nome. Acredito que a mulher portuguesa, aquilo que traz de mais secreto e mais belo em si, não é susceptível de ser expresso com uma palavra. Essa palavra é de ouro e morre na boca de quem a pronuncia.

 

Você andou na escola, e teve boas notas a português.

Estive num orfanato.

 

Num orfanato? O que é que aconteceu aos seus pais?

Ai não lhe disse? Morreram muito novos. A minha mãe morreu com 15 anos.

 

E teve-o com 13?

Começou a ter filhos com 11. Desconfio que alguns dos meus irmãos são meios-irmãos, senão não era possível haver tantos. Olhe, não sei, prefiro não pensar nisso. Quando começo a ver que as coisas são um bocado complicadas, prefiro não pensar.

 

Quem é que está a pedalar na bosta há 26 anos?

O meu irmão. Ele é que fez um concerto com esse nome. Devido ao tipo de vida que leva também não vai demorar muito tempo a bater a bota. Tem menos dez anos do que eu e parece dez anos mais velho.

 

Tem um bocadinho de inveja do seu irmão, não?

Nada, nada, zero, tenho pena.

 

Imagine que isto era uma daquelas peças de teatro foleiras, em que estamos a falar de uma pessoa e ela bate à porta… Essa pessoa é o Lello Minsk.

Posso ir à casa de banho e chamo-o, ele está ali na sala de espera. (De qualquer maneira tenho mesmo de ir à casa de banho). Não se importa?

 

[Levanta-se e sai]

 

O Lello faz-se acompanhar da stripper Nelita Bate-me Uma, da Domadora de Sardinhas Menstruadas, da Barracuda Transmontana. É verdade?

Não sei onde é que foi buscar essa informação, mas há aí uma confusão qualquer, é tudo completamente falso. Como diz Bibi, não deve ser a minha pessoa.

 

Quem é Bibi?

Bibi é um homem que está preso no escândalo da Casa Pia. A primeira coisa que ouvi o homem dizer na televisão foi isso; gostei dessa frase. Toco com os Ena Pá 2000. Sim, temos de vez em quando algumas raparigas, dançarinas exóticas, que se envolvem no nosso número. Temos um número bastante interessante, sexo, drogas e rock and roll.

 

Vamos hierarquizar: do que é que gosta mais?

Nem só de drogas vive o homem! Há também o sexo e o rock and roll. É indiferente, é conforme. Também gosto de comer, tipo feijoada e chili com carne, e grandes costeletas de vaca.

 

Abrimos esta caixa?

Qual caixa? Não vivo dentro de caixas.

 

Lello Minsk, também chamado de Lello Marmelo. Marmelo é por causa da marmelada?

Eu, Lello, gosto de dar a mim próprio vários nomes, porquê? Porque me chateia ter só um. É só isso, mais nada. Marmelo é apenas porque rima com Lello.

 

Pensei que fosse o gosto pela marmelada.

Não gosto especialmente de marmelada, também gosto de geleia.

 

Não estou a falar dessa, claro.

Sou muito estúpido. Minsk era o grito do amor em Campo de Ourique, em 1977 ou 1979. Era o grito que se dava quando se via uma tipa muita boa. E é difícil. O Minsk tem de ser gritado a 50 oitavas acima do Ré de porco, que é bastante grave como sabe.

[exemplifica] É um grito mais de leitão. Porque é que não me faz perguntas simples?

 

Do que é que quer falar?

Sinto-me bem com a minha vida, gosto daquilo que faço. De resto não tenho grande coisa a dizer. Sou uma pessoa bastante vazia.

 

As pessoas pensam que é um malcriadão, um bebedolas que diz palavrões.

Sou apenas um personagem grosseiro, obsceno, algo aviltante. Tenho orgulho em ser um bruto “cervejudo”. Bebo cerveja, bebo tudo. Criámos os Ena Pá 2000 de uma maneira muito esquisita. A Virgem Maria apareceu a todos os membros, não me lembro quando, a dizer que tínhamos de formar um grupo de rock. Acordámos ao mesmo tempo, como se tivéssemos estado num transe hipnótico profundo, dirigimo-nos para a frente da Igreja do Santo Condestável, aqui em Campo de Ourique, com as guitarras, e começámos a fazer música.

 

De adoração à Nossa Senhora, de agradecimento pelo chamamento?

De adoração, não. Esta não é a principal profissão de Nossa Senhora. Ela tem a profissão de ser Nossa Senhora. Mas além disso também é uma pessoa que gosta de música, e como tal “interviu”.

 

“Interviu”? Você dá mostras de ler Camilo Pessanha e diz “interviu”?

“Interview” é uma revista muito boa. Não sei se ainda existe. Intervir, “interviu”?

 

Interveio.

Interveio-se, pronto, é isso mesmo.

 

Nossa Senhora interveio.

Interveio-se. “Interviu-se”.

 

Os católicos, nunca lhe cospem em cima, nunca lhe atiram pedras por dizer essas coisas sobre Nossa Senhora?

Sim e não. Falo sempre da Nossa Senhora com algum respeito. O que os surfistas chamam “respect”. Os católicos são normalmente as pessoas mais obscenas e que mais simpatizam com este tipo de linguagem.

 

Às escondidas.

Sim, às escondidas ou quando bebem um copo. Existem dois tipos de pessoas: as que existem de dia e as que existem à noite. As que existem à noite são o contrário das que existem de dia. Vamos lá ver se explico isto. Há um filme do Chaplin em que há um bêbedo milionário que ajuda o Charlot; bebem copos e divertem-se à grande, mas no outro dia de manhã, quando está sóbrio, não o reconhece. As pessoas são assim. E também não se reconhecem a si próprias quando estão bêbedas. Inclusivamente há conflitos interiores dentro das pessoas. Nós estamos a tentar espremer isso tudo como se fosse uma almôndega. A nossa sociedade precisa de nós.

 

“Nós”, Ena Pá 2000?

Sim, sim, falo em nome do grupo, até porque os outros estão fechados num armário e normalmente só se abre esse armário quando há um concerto.

 

Estão fechados na caixa?

Sim, uma caixa muito grande em forma de armário. Mas é um armário com televisão, com várias coisas interessantes lá dentro.

 

É o maestro desse grupo?

Tento organizar aquilo, mas nem sempre consigo.

 

Você é sempre quem manda?

Não sei. Lá por organizar não quer dizer que mande. Por exemplo, temos um Primeiro-Ministro, não é? Ele tenta organizar, mas será que é ele que manda?

 

Quem é que manda?

Segundo o Jerónimo de Sousa, é o poder económico. Se perguntar a outros políticos, dirão outra coisa qualquer.

 

O João Pereira Coutinho, o colunista, também diz que manda quem tiver o livro de cheques.

É a mesma coisa, nisso estão todos de acordo.

 

Sendo que o João Pereira Coutinho é de direita, e o camarada Jerónimo…

É de direita também. São todos de direita. Ou são todos republicanos, ainda não percebi.

 

Eu ainda não percebi se os Irmãos Catita se dão bem com os Ena Pá 2000.

Nós já mandámos esses todos para o hospital. Quem está nos Irmãos Catita é o Elvis. Tenho agora um grupo chamado 4444, de rock sinfónico.

 

Já convidaram o José Cid e o Tozé Brito para o grupo?

Não, foleirada não queremos, obrigado. Somos um grupo dos anos 70, mas não somos foleiros. O José Cid fez umas coisas boas quando fez rock sinfónico, mas depois começou a fazer música comercial, e o Tozé Brito também.

 

O José Cid é melhor do que o Elton John.

Ai é, porquê?

 

Porque o José Cid o disse. E porque eu acho que toda a gente é melhor do que o Elton John.

Se você o diz, quem sou eu? Preferia não falar de colegas, embora colegas sejam as putas. Somos todos umas putas, a verdade é essa.

 

Quando precisa, vai às putas? Tem uma mulher, várias mulheres? Como é que resolve essa parte?

Todos nós, portugueses, vamos às putas de vez em quando. Por alguma razão elas existem. É mais uma daquelas coisas que tentamos pôr debaixo da cama mas que aparecem, sobretudo com uns copitos. E é uma maneira fácil de resolver os problemas conjugais. É mais barato, moralmente, arranjar uma prostituta do que uma amante. Uma amante tem direitos. Ao passo que uma profissional…

 

Dá menos trabalho, custa menos dinheiro?

De maneira que as profissionais existem para alguma coisa e infelizmente não são dignificadas como deviam ser. Acho que também devia haver Mães profissionais, assim como há prostitutas. Há uma agência na Alemanha que tem pessoas que fazem de conta que são Mães para homens de negócios. Prostitutas sentimentais, não sexuais. São amas-de-leite, no fundo.

 

Só que em vez de dar leite, dão sentimentos.

Também podem dar leite, mas é mais caro.

 

Viu esta notícia nesse jornal?

Sim, fui eu que a fiz. Tenho um pequeno fanzine, feito em fotocópias. Chama-se “O escarro ilustrado”. A minha ideia é que vivemos num país livre e temos que experimentar até que ponto é que é livre.

 

Nunca apanhou pela frente Manuela Ferreira Leite, que diz que a liberdade de expressão está ameaçada neste país?

Portanto, continuamos a falar em leite... Ela tem razão, ou então não tem, ou tem mais ou menos. Isto é, não compreendo porque razão algum governante, neste tipo de estado democrático em que vivemos, se há-de chatear minimamente com qualquer afirmação, por mais irresponsável e atrasada mental que seja, da parte da imprensa ou da televisão.

 

Tem políticos na audiência dos seus concertos. Eles abordam-no? Outros políticos que não o Candidato Vieira.

Não directamente. Mas já fiz algumas campanhas para o “Dr.” António Guterres, tocámos em alguns comícios do partido socialista, aqui há 10 anos. Também já toquei para o Dr. Alberto João Jardim. Tenho imenso respeito pelo Candidato Vieira. Sei que representa interesses obscuros, mas quem é que não representa interesses obscuros? No fundo, será que a menina não representa os seus interesses obscuros de vez em quando? Se não representa talvez devesse representar. O que é que nós representamos? O que é representar?

 

Não tem filhos, Lello?

Tive oito, mas morreram todos.

 

Que pena. Morreram de quê?

Foram atropelados por um camião escolar. Eram gémeos. É verdade, sémen dos meus testículos. Adeus. Por outro lado fiquei aliviado, era uma certa carga que tinha. Oito gémeos, mesmo com amas-de-leite, é complicado. E a mãe morreu com eles, também estava a atravessar a rua.

 

Ficou livre?

Fiquei livre de quê? O que é a liberdade? O que é a liberdade, diria o meu irmão, sem repressão? Nada. O que é a repressão sem liberdade? Nada.

 

Isso já é palavreado do Candidato Vieira. Aprendeu com ele?

Antes de mais nada, Anabela, gostaria de lhe desejar uma boa tarde e dizer que gosto muito de si e respeito muito o seu trabalho. Não sou um homem, sou um político, sou uma máquina de fazer propaganda, e sou sobretudo uma pessoa que acredita.

 

Acredita em quê?

Acredito em si, Anabela, assim como acredito em todos os portugueses e portuguesas. Acredito que vocês são capazes de fazer deste país um país melhor. Vocês, com a minha ajuda, com a minha modesta contribuição.

 

Conte-me o que é que o faz ter tanta confiança em si e achar que as pessoas podem votar em si.

Porque vivemos num país livre, em primeiro lugar. Dois, porque sou o melhor candidato. Três, porque os portugueses têm uma confiança muito grande em mim. Sabem do que sou capaz, sabem que neste momento sou a única alternativa à política tradicional. Sabem que tanto em Portugal como ao nível da política internacional vivemos num estado de absurdo, e apenas um discurso mais absurdo, ou aparentemente absurdo, poderá salvar a nação. Tudo pela nação, nada contra a nação, eu sou a nação, eu sou Portugal. A minha vocação é dar às pessoas o que elas querem. Sou um servidor público, não quero nada para mim.

 

O que acaba de dizer é o maior pacote de lugares comuns que ouvi nos últimos tempos.

Fico muito agradecido. Não sei se leu o meu programa. O meu programa é muito simples, tem 320 pontos essenciais, e cada um desses pontos tem 10 pontos acessórios, o que multiplica por 10 as possibilidades. Tem este livro? Vou-lhe dar este livro? Cada português devia ter um livro destes em sua casa.

 

Estava mais magro na capa do livro Vieira, Só Desisto Se For Eleito.

É Photoshop. O dente a mais também é Photoshop.

 

“Quero uma democracia toda aberta”?

É a chamada inclusão.

 

“A sua vida vai mudar este livro. Dedico este livro a todos os portugueses de alma e coração e a todas as portuguesas aquele abraço”.

No fundo sou também um ser humano, também tenho sentimentos.

 

O que é isto na página 36, “Pamela, a secretária traidora”?

Ela é capaz de me ter traído. Este livro tem um pouco de tudo. Esta é a parte mais importante, são as ideias. Essas, são umas crónicas que escrevi para uns jornais de Economia. Isto é o meu “Visionário programa político e social para um Portugal de sonho”.

 

Aquele onde Elvis Ramalho acha que vive.

“A arte em Portugal deve estar sempre 20 anos atrasada” – é uma máxima. “O burro deve ser um animal sagrado para o português, como o Burro de Barcelos”. Tive várias ideias originais, biotecnologias, história, futebol, sexo.

 

O que é que o Candidato Vieira tem a dizer sobre o sexo?

Temos uma educação sexual forçada para a terceira idade.

 

Porquê, acha que é preciso?

O sexo visa o prazer e o prazer é soberano. Temos uma conferência na universidade do Pico que vai falar sobre isso. Vamos promover as variedades de sexo regional. Cada localidade portuguesa, assim como tem o seu traje folclórico, também tem o seu estilo sexual. Temos o “ Broche ó da Guarda”, “Broche à Nacional nº 1”, “Minete à transmontana”, “Sexo com leitões”, na Bairrada, “Sexo castiço”, “Sexo em coro alentejano”. Se calhar vamos abolir as provas orais, este ano.

 

Essas coisas ocorrem-lhe quando está sob o efeito do ópio?

Só bebo água do Luso. Quer um copo de água? Neste momento o que me está a custar é não me candidatar às próximas presidenciais. Não vejo que estejam reunidas as condições e a minha fé na democracia está a vacilar. Não sei se um levantamento militar, um pronunciamento militar, não seria mais favorável à nossa saúde económica, e mesmo à nossa saúde sexual.

 

Não me diga que tenho um protofascista à minha frente… 

Digamos que todos os meios são legítimos para alcançar o poder. Se a democracia está de tal forma viciada e não podemos atingir o poder pela via democrática, devemos tentar outras formas. Devemos levar a bom cabo as nossas ambições.

 

Quais são as suas ambições?

Quero ser presidente absoluto de Portugal. Vou só beber um bocado de água.

 

Tem preocupação em relação às conversas que tem ao telemóvel? Acha que um dia as suas conversas mais íntimas podem aparecer transcritas nos jornais?

Já foram. O facto é que estou sob escuta. As pessoas utilizam aquilo que ouvem nas minhas conversas telefónicas para as atribuir a outros políticos, que me copiam sem qualquer tipo de pudor. Estou a ser roubado e vou falar com a SPA para saber se as escutas telefónicas também podem ser objecto de protecção.

 

Relate uma conversa que tenha sido apropriada por algum político.

Todas. Principalmente algumas. Tudo aquilo que neste momento tem vindo a lume sobre o Primeiro-Ministro, sei que não é sobre ele, porque as escutas foram feitas à minha pessoa e apropriadas pelo Primeiro-Ministro e pelas pessoas que rodeiam o Primeiro-Ministro. Mesmo o caso do Freeport não envolve o Primeiro-Ministro, envolve-me a mim. Eu é que sou a pessoa corrupta! Aliás, fiz tudo: corrompi-me a mim próprio, paguei-me a mim próprio. As pessoas precisam de movimentações. Os deslizes judiciários, ilegais, estão a ser utilizados para distrair o povo.

 

Distrair de quê?

Da realidade. A realidade é que só há uma força neste momento que pode melhorar as condições de vida neste país, que é o Vieira e o “Vieirismo” puro e duro. Tenho ideias muito boas para Portugal. Por exemplo, mudar o nome da capital para “Vieirópolis”. O Santana queria fazer o mesmo com “Santanópolis”, ou quase o fez, na Figueira da Foz.

 

Gosta de fazer campanhas eleitorais, não desiste. Porque é que faz isso?

O meu sangue bombeia a uma maior velocidade quando estou na estrada, em comício, é verdade.

 

Isso é porque é adorado.

Não gosto de dizer isto, mas sou idolatrado pelas multidões. Gostaria aqui de dizer também: as eleições nunca foram legítimas (ninguém sabe isto), e os resultados, a percentagem ridícula que me deram, é manifestamente falsa. Fui roubado!

 

Quantas pessoas oficialmente votaram em si?

Oficialmente, nenhuma. Mas sei de fonte segura que dois milhões de portugueses votaram em mim.

 

Se não votaram, gostariam de votar.

Aí está. Porque não um sistema de voto mais simples para os portugueses? Um sistema de voto em que basta uma pessoa pensar para que o voto… O voto pela internet tem de ser imediatamente utilizado. Temos de acabar com os formalismos legais, com toda a papelada que é necessária para legitimar um candidato. 7500 assinaturas é ridículo, porque pressupõe que existe um aparelho, um secretariado. Essa burocracia está ao serviço dos partidos, nitidamente. O homem das salsichas Nobre conseguiu-o, com certeza.

 

O homem das salsichas Nobre?

O senhor António Nobre é um exemplo.

 

É Fernando.

Esse mesmo, o Manuel Nobre. Acho muito bem que o Nóbrega tenha conseguido. As pessoas têm de compreender que chegaram ao fim de um ciclo, ao fundo do poço, e que já não há água. Só eu lhes posso dar a chuva. Isto é um ano um bocado especial em termos de pluviosidade, os políticos nunca falam disto, mas está a chover muito.

 

Vi-o num programa de televisão a meter-se com um papagaio; pensou em matá-lo e fazer com ele um arrozinho de papagaio.

Isso é totalmente infundado e falso. É uma afirmação sem pés nem cabeça. Receitas brasileiras, não tenho nada a ver com isso. Com todo o respeito, não estamos a falar dos problemas reais do país. Os portugueses precisam de amor-próprio e de dinheiro. E de satisfação sexual e sentimental nas suas vidas. Isso tudo dá saúde, lá está. A alegria de viver dá saúde. Temos de descobrir os “Brasis”, mas esses “Brasis”, essas terras, estão dentro de nós próprios, e nós podemos encontrá-las. Somos uma nação riquíssima, somos conquistadores. Temos de começar por nos conquistar a nós próprios.

 

Por falar em Brasis, falemos do Orgasmo Carlos, que imagino que conheça.

Orgasmo Carlos é uma pessoa que tem evidentes afinidades com Portugal.

 

É afilhado do Roberto Carlos?

Não, é filho do Roberto e do Erasmo Carlos. É um artista contemporâneo dos PALOP. Tanto é um artista africano, como português, como macaense. É um artista cuja obra universal exprime a sua profunda lusitanidade. E é um homem que tendo feito exposições nos principais museus e galerias da Terra e Marte, escolheu Portugal para viver – o que é, para nós portugueses, muito lisonjeiro.

 

Como é que ele agora se junta à conversa?

Ó Orgasmo, podias fazer o favor de cá chegar?

 

E nisto…

Em primeiro lugar queria pedir desculpa por estar atrasado. Estou a ser seguido na rua. Não é só o Candidato Vieira. Há pessoas que me querem liquidar – pelo menos duas. Existe uma máfia na Art World que quer acabar comigo, talvez por ser o maior artista vivo da actualidade. Vivo, por enquanto. Não sei se saio daqui e sou morto em dois ou três minutos. Estão a apertar o cerco. Ainda bem que estou a falar consigo, porque pode ser a minha última conversa. Não sei se viu as minhas exposições.

 

Não vi as suas exposições. Mas vi as exposições de pessoas que julgo que aprecia, o Manuel João Vieira, o Pedro Proença, o Fernando Brito, o Xana.

Não tem nada a ver. São artistas portugueses da década de 80. Faz parte, marcou uma época, mas estão ultrapassadas. Hoje em dia existem coisas mais importantes. Não digo que a arte deva ser pedagógica, embora a minha arte seja, e seja de certa maneira “explicadista”. A minha obra não se limita ao “explicadismo”. Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial e irradiante. Os raios de comunicação que partem desse sol central, que é a arte de Orgasmo Carlos, espalham-se um pouco em todas as direcções. Não como os tentáculos de um polvo, mas como os raios de um sol que contagia e inebria.

 

Como um orgasmo.

Um orgasmo é um momento.

 

Mas irradia.

Sem dúvida, é uma explosão. E vai tocar em vários pontos importantes. Já ouviu falar no orgasmo permanente? Gostava de ouvir falar? A noção de orgasmo permanente está na base das obras do Orgasmo Carlos; isto é, de mim próprio. E peço imensa desculpa, não consigo deixar de falar de mim próprio na terceira pessoa. Ajuda-me, porque não caibo em mim próprio. Recomendaria aos jovens artistas que olhassem para lá do seu mundo. Hoje em dia qualquer pessoa que pendura um cordel num armazém é um artista plástico. A vanguarda chegou a um extremo, chegou à fronteira do deserto. A vanguarda nunca acaba e a arte nunca deixa, como Saturno, de devorar os seus próprios filhos, e produzir nova arte. O canibalismo é arte, assim como o excremento é arte.

 

Gilbert & George fazem arte com o seu excremento.

Sim, e com algumas tecnologias um pouco mais modernas. O excremento é uma metáfora do corpo humano e do funcionamento do mundo da arte e da transmissão do conhecimento simbólico. Quando falo em irradiação, falo a todos os níveis. Quando, a partir do século XIX, se substituiu a religião oficial pela arte e pela literatura, (estamos a falar de uma elite), houve qualquer coisa que fracassou. Ainda existe um grande vazio na vida das pessoas a partir do momento em que Deus deixa de existir. Não é possível preencher esse vazio com obras de arte de nenhum artista, a não ser com as obras do Orgasmo Carlos. Não por ele ser um artista particularmente xamanista.

 

Particularmente o quê?

“Xamanistíco”. Ele é um xamã lusófono.

 

Xamã com “x”?

Com “sch”.

 

O que é um “schamã”?

É diferente de xamã com “x”. Eu diria mesmo que Orgasmo Carlos, em vez de “sch”, ou com “x”, será um “chamã”. Mesmo tipo “chamon”, porque é português e porque é lusófono. Toda a gente sabe que devemos ir às nossas raízes, porque são elas que nos permitem ser simultaneamente originais…

 

Estou um pouco embrulhada.

…e transcendermos essa originalidade e sermos universais.

 

Tem um discípulo que é um urso.

O Ricardo Rocha. É um jovem talentoso que encontrei nas montanhas, perto da Serra da Estrela. Estava preso a uma árvore e vivia mais ou menos de subterfúgios, pedia esmola. Eu estava a precisar de qualquer coisa de novo. Fui a Basel e não tinha nada. Não tinha um trabalho com profundidade suficiente e que ao mesmo tempo influenciasse as pessoas. Esse urso salvou uma parte da minha carreira. Nas nossas performances eu tocava realejo e o urso recitava de cor todos os textos de Marx. Isso tornou-se uma obra lendária no mundo da arte conceptual. Foi a partir daí que consegui reorganizar a minha carreira. Antes disso pintava velhos pescadores com cachimbo e mulheres nuas com vasos de flores.

 

Na parte das mulheres nuas com vasos de flores, m bocadinho como o Boticcelli?

Não, não, era mesmo muito mau aquilo que fazia.

 

O urso já participou naquela filmagem que fizeram no cemitério, em que havia uma stripper no lugar do morto? (Isto aconteceu.)

Esse filme é importante. Fala-nos da ressurreição, da morte, da vida e do amor. O script é simples: o herói vai ao cemitério colocar uma flor na campa dos pais, os pais ressuscitam, começam imediatamente a fazer amor, ele vai atrás deles, com o urso – aliás, o urso estava à espera na carrinha funerária. Os mortos vão para a carrinha funerária e vão circulando pela cidade de Lisboa enquanto fazem amor, no lugar do morto. Por acaso, o camião deita imenso fumo e essa parte é engraçada. (Depois vamos até à Gulbenkian, a uma exposição de arte moderna.

 

Não vos reconheceram e prenderam-vos.

Não, simplesmente ficaram inanes, e nós continuámos a desempenhar o nosso papel e a nossa performance até ao fim, e saímos sem qualquer problema). Foi um filme relativamente barato.

 

Concorreram ao subsídio?

Isso está viciado. Preferimos fazer as coisas por nós próprios, sem contar com ninguém. Conto com os fundos da Orgasmo Carlos Foundation, ou se quiser, da Colecção Orgasmo Carlos Foundation.

 

O Orgasmos Carlos é um pintor que se considera o maior do mundo, mas é também a cara de uma cooperativa de pessoas?

Não sei do que está a falar. O Orgasmo Carlos tem, é certo, como os anões do Pai Natal, ajudantes. Hoje em dia é raro o artista, o criador de obras de arte contemporânea, que utilize a sua mão nas suas obras; utilizam-se assistentes. O artista é uma espécie de general que fala com os coronéis e os tenentes para desencadear as operações militares.

 

O Orgasmo Carlos alguma vez fez alguma coisa com o urso?

Fez várias performances, e além disso há a história de vida do Orgasmo Carlos. A história, estamos a trabalhar nisso, os meus escritores estão a escrever. Tem uma estrutura parecida com “Assim falava Zaratustra”. Só que tem homens e ursos.

 

Não há relações bestiais?

Quase nenhuma. Mas o urso é pedófilo e de vez em quando anda com um ursinho de peluche mais pequeno que ele. O urso tem dois metros, anda com um ursinho para aí com 50 centímetros. Além de que ele é castanho-escuro e o outro é cinzento claro, quase azul. Eles viviam comigo numa vivenda no Algarve e cansei-me de ver aquilo à minha frente. “Meu amigo, se é para isso que estás aqui, se é esse o teu tipo de vida…”. Dei-lhe tudo, ensinei-lhe tudo, e ele começou a dar entrevistas e a falar da sua obra como se não tivesse havido qualquer influência da minha pessoa no seu trabalho.

 

Que relação existe entre estas pessoas com quem tenho vindo a falar e o Manuel João Vieira?

Nada. São exercícios de matemática, de xadrez, de álgebra, exercícios de natação.

 

Eles aparecem ao longo do dia do Manuel João Vieira, quando está a fazer uma torrada ou quando vai à fisioterapia?

Um dia é um holocausto, uma torrada é uma torrada. Eles desaparecem, aparecem. Às vezes tenho baratas em casa, não as tenho visto ultimamente. As baratas, as formigas, aparecem e desaparecem; essas pessoas também.

 

Os seus vizinhos, quando o encontram na rua, estão à espera de encontrar o Manuel João Vieira?

Não tenho vizinhos, vivo num hospital psiquiátrico há 20 anos. Estou a tentar sair daqui.

 

Agora estou a falar com quem?

Não sei.

 

Se quiser falar com o Manuel João Vieira, posso?

Olá Anabela, sou eu, está boa? Não tenho assim grande coisa para dizer, sou uma pessoa normal, vivo aqui neste sítio.

 

É verdade que não tem grande graça enquanto Manuel João Vieira?

É, lamento.

 

Dados biográficos do Manuel João Vieira.

Nasci em 1962, frequentei o Liceu Pedro Nunes e a Escola de Belas Artes, e outros sítios. Sou sócio minoritário de um espaço nocturno [Maxime]. A única coisa que gosto mesmo de fazer é pintar, desenhar. Sou um tipo de Campo de Ourique como outro qualquer, estou cá há 44 anos. Gosto de beber uns copos ao fim-de-semana, como toda a gente, e toco ao mesmo tempo. Como uns amigos que se encontram numa garagem para ensaiar. A única diferença é que gosto de ensaiar ao vivo porque sempre ganho algum, é mais prático.

 

Nas Belas Artes encontrou um grupo de amigos e formaram os Homeostéticos. Seria outro se não tivesse encontrado aquelas pessoas?

Talvez esse seja um ponto de viragem. Na verdade queria fazer banda desenhada, e estive a trabalhar nisso até entrar nas Belas Artes. O meu pai, sendo pintor [João Vieira], encorajou-me e tentou explicar-me as vantagens da arte com “A” grande. Mas eu estava obstinado em relação à banda desenhada. Depois houve uma transição entre a banda desenhada e a pintura, que aconteceu naturalmente e com a influência desse grupo. Foi bastante interessante, mas já foi há muito tempo.

 

Quando se vê o documentário do Bruno de Almeida sobre os Homeostéticos, o que se percebe é que se divertiram à grande.

Sim, mas tínhamos idade para isso. Uma pessoa pode divertir-se em qualquer idade. O Pai Natal também se diverte, o Pai Natal tem umas amiguinhas…

 

Publicado originalmente no Público. 

Herman Enciclopédia

10.04.20

Gud evenaing. Ou, se preferirem, boa noite.

O espectáculo vai começar. O elenco: Lauro Dérnio, Artista Bastos, Super Tia, Mike e Melga, Felisberto Desgraçado.

Mais este:

- “Eu sou uma pessoa que pensa no depressa”.

O senhor Engenheiro do riso alarve e estilo brejeiro: “Parece que temos um pedaço de francesinha na boca…, eheheh”.

O protagonista: Diácono Remédios.

Ei-lo.

- “Ó meus amigos-s-s.”

Censor, moralista, filho de uma mãe “repugnante e hedionda”: a Dra. Rute Remédios. A sexóloga que aparecia semanalmente na televisão para falar de “sexo puro e duro como todos nós gostamos, ceeeerto?”.

O Diácono Remédios foi o verdadeiro artista de um programa recheado de personagens luminosos, esdrúxulos, reveladores do que éramos então: um Portugal ocupado com a Expo-98, em transição. O Diácono instalou-se no imaginário colectivo como alter-ego de uma moral careta, salazarenta, falsamente puritana. Representava um bafio que afinal ainda existia.

Era um tempo em que Portugal repetia, como se fosse uma senha: “Onde é que tu estavas no 25 de Abril?”. Ou “Let’s look at the trailer”. Ou: “Este homem não é do norte, carago!”. Para além do omnipresente: “Não havia nexexidade-e-e”. Era um tempo em que Herman José estava no pico da forma. Herman Enciclopédia, a obra da maturidade, estreou em 1997.

“Acho que é, de longe, o que de melhor se fez em Portugal em matéria de humor. A obra mais iconoclasta, a mais escandalosa, às vezes quase pornográfica. Como dizia o Alexandre O’Neill, somos o país do diminutivo e do respeitinho é que é preciso; este é um humor que escapa a esse respeitinho. O programa é uma espécie de contra-ataque à censura dos anos do cavaquismo. Contra uma moralidade vigente, com cheiro a naftalina. Que estourou assim que Cavaco saiu do poder. No período Guterres, nitidamente, as bolas de naftalina diminuíram de tamanho. O programa transpira isso. Uma maior liberdade. Reflecte uma direcção da RTP menos sensível à censura. À censura íntima, àquela que se faz antes de os programas serem delineados”, diz Clara ferreira Alves, uma das primeiras opinion maker a escrever sobre o Herman Enciclopédia.

António Guterres, então primeiro-ministro, era fã da série.

“Sempre que tinha oportunidade, não perdia. Era para mim, não apenas um entretenimento, mas um tranquilizante. Era um modo de esquecer por um momento as preocupações, as tensões. Não me recordo de ter adoptado nenhuma das expressões do programa de forma regular. Não como uso: “É a vida”, que é uma das minhas expressões favoritas. Mas com grande probabilidade tê-las-ei usado. O impacto do programa e dos personagens foi extremamente forte”.

Guterres, o católico. Alguma relação com o puritanismo do Diácono? “Nenhuma – responde Herman. “Guterres é um espírito maior, e a sua fé serve as suas convicções, não é para ser usada como arma de arremesso. É uma pessoa de bem, e o mais democrata dos primeiros-ministros. Isso mesmo reflecte-se na amplitude da paleta crítica que usámos”.

Nuno Artur Silva quis que o Diácono se chamasse Reverendo. O director das Produções Fictícias, a empresa de argumentistas que escreveu o programa, e que esteve na concepção do personagem com o próprio Herman, José de Pina e Miguel Viterbo, considera que o programa foi “um bom momento, um bom encontro”.

“O programa surge numa época de abertura depois de um fechamento que coincide com o cavaquismo. O Herman Enciclopédia beneficiou de total liberdade depois da tentativa de censura do sketch da “Última Ceia” no programa anterior [Parabéns]. Surge na ressaca desse episódio, com algumas sequelas, com quebra de contratos publicitários, por, supostamente, o Herman ter hostilizado a Igreja Católica. A Igreja não é o único alvo, o programa dispara em muitas direcções. Critica os modelos de jornalismo; estava a despontar o estilo: “Põe a manchete primeiro e faz as perguntas depois”.

A Igreja não era o único alvo. Mas basta rever alguns dos episódios, no DVD que foi lançado recentemente, para perceber que o tirocínio é constante.

Alguns exemplos, em separadores inócuos, entre sketches e personagens. Uma manchete anuncia: “Claudia Schiffer é um homem. Para mim foi uma grande desilusão, diz o Papa João Paulo II”. Como consequência: “Basta de brincadeiras com sua santidade”, pede em título o Infelizmente. “Ex-Papa apanhado nas malhas do doping. O actual Papa: não comento”. Outro exemplo: o Papa passeia no Papa-móvel e antes dele, há elefantes mecânicos a copular.

Porquê esta fixação na Igreja? Herman esclarece que “na altura, estávamos convencidos de que um dos problemas maiores da sociedade portuguesa seria a pressão obsessiva da Igreja Católica sobre o poder político. Já em 1988 – apesar de ninguém mo ter confirmado – consta que o final do programa Humor de Perdição teria tido mão pseudo-divina. Estava no entanto longe de imaginar que, dez anos mais tarde, teria a prova de que os mais perigosos garrotes da liberdade de expressão desta espécie de democracia residem dentro das togas e não das batinas”.

Joaquim Vieira, o director de programas da RTP que aprovou, com o director-geral Joaquim Furtado, a série, nunca teve dúvidas acerca da aposta no programa, apesar do seu carácter subversivo. “Nunca considerei o Herman Enciclopédia uma aposta errada, porque achei que este era o tipo de programa que correspondia melhor ao enorme talento do Herman. A questão do suposto radicalismo nunca me preocupou, pois só assim se poderia construir um programa de humor saudável. Não tenho ideia de ter havido alguma pressão. Penso que depois de termos resistido a uma outra pressão de meios católicos, quanto a um sketch sobre a "Última Ceia", se terá chegado à conclusão de que não valia a pena”.

A pedido da PÚBLICA, Joaquim Vieira reviu alguns episódios do Herman Enciclopédia. Com esta distância, não hesita em identificá-lo como “expressão de uma época de expansão, tranquilidade e bem-estar da sociedade portuguesa, com muitas referências ao consumo, a projectos públicos e a prazeres de uma forma geral. Se fosse hoje, haveria diferentes preocupações, embora me pareça que não mudámos assim muito no que respeita à cultura de massas. Veja-se as caricaturas feitas aos programas de TV: parecem antecipar o que veio depois. Não acho o programa nada político, mas a ligação aos anos do guterrismo pode ter a ver com uma certa visão despreocupada da vida. Caminhávamos alegremente para o abismo (do défice) e nenhum de nós tinha consciência disso”.

Sobre que é o programa, afinal?

“O tema dominante eram os costumes, e não a política”, pensa Clara Ferreira Alves. “Aliás, o Herman e as Produções Fictícias nunca foram muito para a política. Mas há uma grande sátira social. O que ali se critica é um modo de ser português. Um modo mais estreitinho dá lugar a um modo às vezes boçal, à boa maneira de Bordalo Pinheiro, e outras vezes mais refinado. O sexo era um grande tabu. O episódio dos “Óscares da pornografia”, ainda hoje, não tenho a certeza de que pudesse ser feito com a liberdade com que foi. Teve a sua importância que a RTP tivesse na sua direcção o Joaquim Vieira e o Joaquim Furtado. Dois jornalistas, duas pessoas que gostam de liberdade. E que chegaram a ser ferozmente satirizados no Herman Enciclopédia”.

Herman sublinha também este aspecto: “Era o serviço público ao serviço da inteligência, com dois “inteligentes” ao leme da direcção de programas. Lembro que o programa sucumbia nas audiências em confronto com a efervescente SIC de Emídio Rangel”.

As audiências do Herman Enciclopédia começaram por ser tímidas. Foram precisas semanas para que o programa se transformasse no fenómeno que continua a ser passados 13 anos sobre a sua exibição. Os portugueses pareciam não se rever nos personagens histriónicos de Herman&Companhia. Ninguém dizia nas ruas: “Grandes fitas, Greites faites”, numa glosa a Lauro Dérnio. Ou “Qual é a senha?”. Ou “Você “num” se desgrace!”

Nos jornais e nos cafés discutia-se o tema da regionalização; na televisão, numas caves infectas da muy distinta cidade do Porto, discutia-se em reuniões clandestinas o Pintismo Narcisismo.

Pinto da Costa era (e é) Presidente do Futebol Clube do Porto, Narciso Miranda, “rosto do poder local”, ascendia a Secretário de Estado, Fernando Gomes, presidente da Câmara do Porto e ministro socialista, servia de base para a composição do Senhor Engenheiro de Herman. Embora nunca se tenha ouvido da boca de Gomes: “Graande sticada”.

“É um mister!”, dizia dele um dos assessores-acólitos. Uma expressão que ficou, para Clara Ferreira Alves, indissociável daquele grupo. Herman, revendo, diz-se “positivamente espantado com a jactância da rubrica dos Homens do Norte”.

Nuno Artur Silva tem no “Partido do Norte” um dos momentos preferidos do Herman Enciclopédia. “É uma ideia colectiva, depois escrita pelo Rui Cardoso Martins e pelo José de Pina. Sempre imaginámos que deveria ser representado à Yes, Minister. Ou seja, com contenção. O Herman fez exactamente o contrário. Representou à Irmãos Marx, completamente em delírio, quase à desenho-animado. O que começou por nos parecer terrível acabou por ter um resultado brilhante. Tem imensa graça a maneira como se movimentam e a opção por aquela direcção de actores. É raro ter no mesmo sketch o Herman, o José Pedro Gomes, o Miguel Guilherme, a Maria Rueff, a Lídia Franco. Um grupo de actores em estado de graça”.

As reuniões do PNRN (Partido Nacional da Região Norte) representavam o momento mais colado à realidade política de um programa que não era eminentemente político. Mas Guterres não se revia no conteúdo do sketch. “Aconteceu-me várias vezes fazerem humor sobre mim, e sempre encarei isso com grande naturalidade. Quem quiser estar, não apenas na política, mas em qualquer função que implique exposição pública, tem de encarar isso com naturalidade. O que é importante dizer é que, apesar da irreverência do Herman, ele nunca foi ofensivo. O humor do Herman sobre as mais diversas personalidades da vida portuguesa, merecia, na minha opinião, ser encarado com grande fair play”.

Entre o “não ofensivo” de Guterres e o “quase pornográfico” de Clara Ferreira Alves, vale a pena rever algumas das cenas e expressões usadas para compreender o que estava em causa.

Pelo Herman Enciclopédia apareciam personagens como a Teresa Trucla, no programa Vibratório. Logo censurada pelo Diácono Remédios:

- “Um vibrador? E de tamanho familiar! Valha-me Deus!”

O Artista Bastos repetia a frase:

- “Lá vinha ele com o seu castor debaixo do braço…”,

como uma espécie de intróito ao famoso:

- “Onde é que tu estavas no 25 de Abril?”

Havia convidados que não entravam no monólogo secreto do Artista Bastos e eram zurzidos com pérolas deste quilate:

- “Eu acho que eras umas besta, há que dizê-lo com frontalidade” ou

- “Vou-te partir o trombil, há que dizê-lo com frontalidade” 

ou,

- “Vai levar na peida, vai fazer broches a cavalos”,

que os “pis” sobrepostos mal disfarçavam, como era intenção manifesta da equipa.  

Herman Enciclopédia satirizava o novo-riquismo nas “Aventuras da Super-Tia” e da sua amiga Robinha (um magistral Joaquim Monchique). “Uma super-tia llena de possidonite, de nome Batata, epítome de uma high society que vive na tesura e que mantém as aparências. Obviamente usa malas Louis Vuitton.

- “O tio Babas diz que a última moda em Paris é um Picasso no canto da parede e um Pollock no rodapé”.

Repete palavras como:

- “Caturreira!”

Num estilo afectado, exala boa educação quando se dirige à empregada:

- Ó não sei quantas (nunca sei o nome da criadagem)…

Acha que “os jipes na cidade não podiam estar mais na moda!” Fazem sentir “aquela coisa da ligação à terra”.

Os assuntos eram os de um Portugal próspero, em vésperas da Expo-98 e das grandes obras de construção. O Senhor engenheiro falava, cobiçoso, do “contratozinho”.

- “Le boilá!”

Ao mesmo tempo que frequentava casas de alterne, e deixava implícita a ligação entre política – corrupção – prostituição.

- “Tou-me a sentir comichoso. Bou até Amarante…”

(o incêndio no bar Mea Culpa tinha sido nesse ano).

Decisão que merecia o aplauso do personagem interpretado por José Pedro Gomes:

- “Este homem é um senhor!”

Neste mosaico da sociedade portuguesa, coexistia a micro-realidade de Alfama, onde se faziam campeonatos de lerpa, os homens vestiam fatos de treino fluorescentes e onde se cantava o fado, claro.

“Ai Mãezinha, não te apagues” era uma novela burlesca que tinha em Felisberto Desgraçado o personagem central. O seu sonho era levar a mãezinha aos Estados “Onidos”.

- “Corre-me tão mal a vida! É esta maldita caspa, é o cancro da próstata da Felismina, e a mãezinha que não volta... Menzinha volta por favor! Mãezinha não tapagues!”

Era o tempo das boys band, constituídas por rapazes espadaúdos, “repescados da valeta e das obras”. Da televisão “em movimentos”, feita de planos oblíquos – uma hiperbolização do já de si frenético Big Show SIC. A música que se ouvia era de Abrunhosa, Prince, Cesária Évora. No Herman Enciclopédia promoviam-se encontros improváveis. Entre Madonna e Carlos do Carmo, Amália e Bob Dylan a cantar um malhão-malhão.

A música também era a dos Fried Potato Suicide – deixa para nova aparição do Diácono Remédios:

- “Batatas fritas a cometerem suicídio? O suicídio é um pecado, mesmo para as batatas fritas.”

Nem o hino nacional foi poupado. A Dra. Rute Remédios, nas consultas de sexologia, considerava-o uma boa base musical para o sexo. Porquê? Porque daí se pensa em militares… Pelo contrário, os Madredeus eram desaconselhados.

- “Com isto é impossível ter uma erecção capaz! Madredeus, Manoel de Oliveira, meio litro de leite morno, bolachinha de água e sal, e obtenha uma embalagem de Xanax!”

De onde é que saía tudo isto?

Herman e Nuno Artur Silva explicam o modo de fazer do Herman Enciclopédia.

“Tínhamos reuniões de ideias todas as semanas, brainstorming à volta da mesa. Passavam-se as ideias para o Herman, que contribuía com algumas sugestões. Por exemplo, deu-nos uma frase da mãe: “Ó filho, és um bom artista, não tinhas necessidade de fazer aquilo”, e pediu-nos: “Façam alguma coisa com isto”. Daí resultou o “Não havia necessidade” do Diácono. A ideia era depois trabalhada por dois guionistas. Trabalhavam em liberdade total dentro daquela regra que o Herman estabeleceu comigo quando começámos a trabalhar: “Escreve o que te apetece, eu uso como me apetece, e não vamos perder muito tempo com explicações”. Esta regra manteve-se com a equipa toda e funcionou muito bem. No Herman Enciclopédia, de uma maneira geral, respeitou muito o texto. Eu próprio fazia a ligação com o Herman e os actores”.

Herman José recorda que o ritmo de feitura do programa era sempre alucinante, mas que o processo de apropriação dos textos e composição dos personagens era variável. “Eu diria, que atrás de cada boneco está alguém. Há os óbvios, como o Lauro António ou o Baptista Bastos, mas em todos os outros estão a vizinha, o motorista, a vendedora de jornais, a prima, o sócio, o polícia, etc... Havia textos que tinham tratamento copy/paste. Eram respeitados na íntegra e reproduzidos tal e qual. Havia outros que tinham tratamento bovino. Mastigava-os, engolia, e eram finalmente regurgitados depois de devidamente tratados. Outros não chegavam sequer a entrar na digestão – eram modificados e compactados no papel, em longas horas de trabalho (como aconteceu com alguns episódios dos “Homens do Norte”). Imagino que nessa altura jovens autores me tenham rogado algumas pragas. Mas foi por uma boa causa – espero eu”.

O ambiente era “muito solidário, distendido, divertido, mas penosamente profissional. Gravar mais de 50 minutos de ficção científica com aquela variedade de personagens e cenários foi uma tarefa ciclópica. Havia muito pouco espaço para brincadeira”.

O Herman Enciclopédia constituía uma das grandes apostas do canal. Numa fase inicial, as gravações, foram acompanhadas de perto pela direcção. “A única questão que se colocou de início teve a ver com valores de produção que quanto a nós, (eu e o Joaquim Furtado), não estavam a ser devidamente concretizados, o que tinha menos a ver com conteúdo e mais com imagem”.

Em todos, exista a ideia de se estar a fazer um grande momento de televisão, que perduraria. “Era uma equipa de argumentistas em boa forma e um Herman de regresso, depois de uma das suas mortes anunciadas. O programa é uma amostra da incrível paleta de cores que o Herman tem na composição de personagens”, sintetiza Nuno Artur Silva.

Era, como disse Carlos Pinto Coelho, himself, numa aparição no Herman Enciclopédia, um programa de “audiências modestas, mas um fenómeno planetário”.

Talvez fosse excessivo falar em fenómeno planetário, antes da vulgarização da internet como suporte privilegiado de conteúdos media. A geração youtube ainda não tinha nascido. Mas no Portugal de então, o programa era um espaço de convívio. (Convaive, para Lauro Dérnio.)

O que é que o fez resistir? O que é que faz que estejamos a falar sobre ele, 13 anos depois da sua exibição (e assumindo que a edição em DVD não o justifica completamente)?

“O que resiste melhor ao tempo é o Herman José”, pensa o antigo primeiro-ministro António Guterres. “Na maior parte dos casos, os programas de humor ficam tão terrivelmente datados que perdem a graça. São apenas expressão de um tempo. O que é mais interessante no Herman Enciclopédia é sentir que (exceptuando histórias mais específicas), o humor não perdeu a sua oportunidade. É uma qualidade rara”. E faz o paralelo com um clássico da história do humor. “Continuamos a ver Yes, Minister e continuamos a rir. Mesmo que o programa tenha a ver com a política do seu tempo. Porque é um humor de grande qualidade. É o que acontece com o Herman. A qualidade não é datada”.

Herman, o verdadeiro artista, elenca os momentos do programa que, na sua opinião, melhor resistem à erosão do tempo. “A actualidade do Diácono Remédios, o non-sense groucho-marxiano da novela “Ai Mãezinha, Não te Apagues”. Também me encanta o talento dos actores. A série resiste bem, apesar de ser pontualmente atraiçoada pelo timing menos frenético de alguns sketches, e pela própria duração de cada episódio, o dobro daquilo que é praticado hoje em dia”.

Na opinião de Joaquim Vieira, resiste porque há nele “um registo de humor burlesco e anárquico, demolidor das convenções, que é intemporal e muito bem compreendido pelos jovens”.

A geração Gato Fedorento, (denominada sumariamente assim para definir um tempo e um modo de consumir conteúdos de humor), não assistiu à emissão do Herman Enciclopédia no canal 1 da RTP. Mas Herman pensa “que são eles os grandes catalisadores do estatuto de culto que o programa tem vindo a ganhar”.

Vão ao youtube e percebam do que estamos a falar.

Clara Ferreira Alves reviu recentemente o programa com dois adolescentes. “Adoraram!, mesmo que não saibam quem é o Lauro António. A personagem criada é naturalmente cómica. Essa é que é a marca do grande humor e da genialidade do Herman: transformar uma situação particular numa situação universal, que todo o mundo percebe, em qualquer lugar. Transformou uma pessoa num tipo imortal. Isso, o Herman faz. O Eça de Queirós também fazia”.

É verdade que há expressões, como essa, que continuam a usar-se. Mesmo que a sua origem seja desconhecida. “Eu é que sou o presidente da junta” é outro exemplo, que se aplica de forma exemplar a contextos de poder.

Herman ouviu recentemente “Onde é que estavas no 25 de Abril?” na Assembleia da República, numa interpelação de um deputado ao Governo.

Mas o seu personagem preferido, “pela sua importância histórica e capacidade de sobrevida, é o Diácono Remédios. Infelizmente mais actual do que nunca”.

Para Joaquim Vieira, “o provedor Diácono Remédios diz muito sobre os preconceitos da nossa sociedade. Ainda há gente que parece hoje em dia querer imitá-lo, mas à séria… A minha preocupação tem sido não usar a expressão “Não havia necessidade”. Não é agradável ser comparado a um Diácono Remédios.”

Clara Ferreira Alves também escolhe o Diácono como o grande personagem da série. “O “Não havia necessidade” fez esse grande milagre, que fazem alguns versos de grandes poetas: entrou na língua portuguesa”. E continua a usar “Lets look at the trailer”.

Nuno Artur Silva tem uma predilecção pelo Artista Bastos, escrito por Eduardo Madeira e Henrique Dias, pelo Herman Geographic, em cuja criação participou, e que foi escrito por João Quadros.

Depois, veio o declínio.

“Se o Herman tivesse nascido nos Estados Unidos, sobretudo na Califórnia, seria uma estrela absoluta. Em Portugal, é difícil agradar. Há sempre um desejo de matar alguém em Portugal, e o Herman foi um desses casos bem sucedidos. Havia um desejo compulsivo, a partir de certa altura, de não achar graça e de dizer que o Herman estava acabado”.

Como é que Herman se revê?

“Com ternura e inveja. Ternura por me sentir, aqui e ali, relativamente imaturo; e inveja porque aquela pele de 43 anos imprime muito melhor do que a actual. Toda a perda é dolorosa. A perda de uma certa inocência e quixotismo. A perda de dezenas de amigos cuja saúde não resistiu à passagem do tempo. A perda de uma inconsciente felicidade de quem se sente praticamente imortal e centro do mundo. A perda da visão total que me permitia ler o teleponto a metros de distância sem qualquer ajuda”.

O Herman Enciclopédia teve duas séries. Frequentemente, depois de terminado o programa, no decorrer da ficha técnica, aparecia, cereja no topo do bolo, o Diácono Remédios.

- “A minha mãe a portar-se como aquelas cadelas infiéis... Uns seios enormes, como as bossas de um camelo. Enquanto vários homens abanam os seus bacamartes-s-s”.

E abanando a mão sapuda e mole, exortava ao recolhimento:

- “Ide, ide para as vossas casas”.

 

ps: "Let's look at the trailer" foi criado por Nuno Markl

 

 

Publicado originalmente no Público em 2010. 

 

Ricardo Araújo Pereira

10.04.20

Quem é que ainda diz “eh pá” linha sim, linha não? E “gajo”, gajo para aqui, gajo para acolá? Quem é que diz que as suas filhas são o seu Jesus Cristo – mesmo assim, podia fazer troça se uma delas fosse coxa. Manquinha. E que chora lágrimas de sangue pelo seu Benfica? E que, sendo um palerma, conhece o Génesis? Quem é ele? «Eu faço um programa de televisão, escrevo textos de comédia e interpreto-os, não estou num concurso de popularidade». Mesmo assim, é muitíssimo popular. Ele é também o jovem bem sucedido, que mora numa casa com piscina, que tem um carro de alta cilindrada à porta, casamento religioso, duas filhas e uma estabilidade burguesa de que todos precisamos. Para a seguir subverter as regras.

Ricardo Araújo Pereira tem um registo inesperado. É um homem culto, criado em boas famílias (o pai é piloto, a mãe hospedeira), de educação esmerada. É de uma indubitável inteligência. Mas indubitável é uma daquelas palavras que ele usaria para fazer pouco de intelectuais de meia tijela. Digamos, então, de modo simples: ele é muito inteligente. E também: ele domina exemplarmente o português e conhece o significado íntimo das palavras. Acresce a isso um talento enorme para a representação.

Ele e os restantes Gatos põem o país a rir todos os domingos à noite. Ricardo diz assim a propósito do riso: «Quando uma pessoa se ri, pode não estar feliz, mas imita muito bem, parece mesmo que está, e pelo menos durante um centésimo de segundo está mesmo, não me lixem, está mesmo». Referia-se à avó. Foi a primeira pessoa que pôs a rir. Foi um acto de amor. Ela está naquilo que ele é hoje.

RAP 

Fotografia: Miguel Baltazar

 

Talvez começar por dizer que te conheço há muitos anos e que te entrevistei há três, quando estava a sair o primeiro DVD dos Gatos. Apanhei-te no começo da explosão; entretanto, foi uma deflagração absoluta!

Mudou muitíssima coisa. Estávamos a fazer um programa para um canal que tinha dez mil pessoas de audiência, de forma completamente amadora, tanto do ponto de vista da produção, como do nosso, que estávamos a fazê-lo nos intervalos do trabalho. Agora, estamos na estação pública, em horário nobre, a fazer um programa que tem um milhão e meio de espectadores e feito por uma produtora profissionalíssima. Em três anos isso aconteceu.

 

Podias prever isso?

Não, nunca. A gente farta-se de dizer isso. Sobretudo quando nos perguntam quais são os projectos para o futuro. É impossível estar a projectar quando há três anos seria ridículo ter feito estes planos.

 

Consegues perceber qual foi o elemento catalisador desta quase histeria que há à volta dos gatos? Têm um público tão transversal que vai dos miúdos de dez anos ao Jorge Coelho (julgo não cometer uma inconfidência se disser que ele é vosso fã...).

Não tenho nenhuma resposta para dar. Até porque aquilo que fazemos é aquilo que nos apetece. Quando saímos da SIC Radical tivemos propostas de vários canais. E a RTP foi provavelmente a única que disse: “Queremos contratar-vos para fazerem exactamente aquilo que estão a fazer”. Depois temos constatado, com muita felicidade, que isso agrada a algumas pessoas. Não escondo que é engraçado famílias virem ter connosco e dizerem: “É o único programa que vemos todos juntos”.

 

Esse tipo de unanimidade agrada-te? O Chico Buarque, a dada altura, não gostava de ser um artista consensual.

Eh, pá, isso é um artista, atenção. Eu tenho a certeza de que não somos unânimes. Estávamos a falar do efeito catalisador. Há um efeito que tem a ver connosco, porque outros produtos do canal não têm a mesma projecção. E há um efeito catalisador que tem a ver com as pessoas, que é o facto de porem aquilo na internet, de passarem uns para os outros. Esse fenómeno potenciou e continua a potenciar [a difusão do Gato Fedorento].

 

São razões exógenas ao fenómeno, mas fundamentais para o explicar.

São. Recebemos imensos e-mails a dizer: “No emprego, a primeira coisa que faço segunda-feira de manhã é falar com os meus amigos sobre o programa da véspera, e vamos ao Youtube e já lá estão os sketches do dia anterior”. É uma coisa divertida e que pode explicar a falta de produtividade do povo português: as pessoas estão entretidas a ver a internet em vez de trabalhar. Enquanto for para nos ver a nós, é simpático!

 

Têm uma máquina de promoção que trata disso? Quem é que disponibiliza os sketches no Youtube?

Há televisões nos Estados Unidos que põem, elas próprias, bocados de programas no Youtube para potenciar o marketing viral – aquela coisa que os gajos do marketing inventaram. A RTP não faz isso. São legiões de adolescentes, cheios de borbulhas, que no domingo de madrugada põem aquilo no Youtube. Enquanto isso pontenciar o nosso trabalho e a nossa exposição pública, adoramos essa gente. Quando percebermos que é uma forma de pirataria que nos prejudica as vendas, gostaríamos que fossem encarcerados.

 

Achas mesmo que não há unanimidade neste momento?

Um largo consenso, admito. É difícil haver um tipo com uma exposição pública continuada e um trabalho com repercurssão pública que não tenha um largo consenso.

 

É mais fácil ser polémico do que consensual. Estou a pensar em pessoas como o Vasco Pulido Valente ou o Pacheco Pereira.

Gosto dos dois. Toda a gente, não, mas um largo consenso de pessoas respeita-os, mesmo não concordando com eles. Aquilo é um negócio: se não encontrassem essa repercussão nas pessoas, não haveria procura para aquilo que escrevem.

 

Vou usar um palavrão para dizer qual é a minha impressão: vives numa espécie de ubiquidade permanente. Como se tu fosses este que é bem educado, que até banca o humilde, que quase pede desculpa por ter lido o Nietzsche – na entrevista à Judite de Sousa citaste o Nietzsche e o Freud; e fosses, ao mesmo tempo, aquele que toda a gente espera que sejas, ou seja, o Gato Fedorento, o elemento central daquele colectivo.

Eu não o elemento central daquele colectivo. Aquele colectivo é mesmo um colectivo. O Herman, (estávamos numa entrevista com a Maria João Avillez), fez uma pergunta que diz tudo: vocês ganham todos o mesmo? Claro que ganhamos todos o mesmo. É revelador da importância que todos temos no grupo.

 

No outro dia, eu perguntava a uma pessoa que vos conhece se vocês nunca se pegam... Porque um ocupa demasiado espaço, ou tem excessivo protagonismo. Nem em privado?

Nem em privado. Mas fartamo-nos de nos pegar: “Que estupidez, não faças isso assim, vamos fazer de outra maneira, eu não concordo nada com isto”. Pegamo-nos imenso até com coisas do dia-a-dia, como embirrar com a...

 

Com a namorada de não sei quem?

Exacto. Se esta vontade da imprensa escolher um líder tivesse recaído sobre um deles, se calhar eu levava isso a mal. Eles não levam nada a mal.

 

Por que é que levavas isso a mal? É o teu ego?

Pois, não ia achar graça. Tenho a sorte de eles serem óptimas pessoas e estarem-se borrifando para o assunto.

 

Portanto, é um acordo tácito: tu não és o líder, mas há uma figura que aparece, que está no pico da fama, e essa és tu.

Pois, mas não há nenhuma objecção a isso. É uma escolha da comunicação social e da imprensa, não nossa. Quando se trata de “vem cá o Gato Fedorento” e vou só eu, costumamos recusar. Se é “quero falar com o Ricardo”, à vontade. Estou a falar como o Jardel, já viste?  

 

A falar de ti na terceira pessoa! Já vais fazendo um desdobramento entre o personagem público Ricardo Araújo Pereira e o teu núcleo essencial?

Foi tudo muitíssimo rápido e eu não sabia, nenhum de nós sabia, como é que se lidava com a exposição pública. Receio que a falta de experiência me tenha empurrado para uma situação em que não tenho uma máscara pública. Quer dizer, tenho a máscara que toda a gente tem: em privado, em casa...

 

Damos arrotos.

Sim, é isso. E publicamente não o fazemos. Mas não tenho tido nenhum pudor em mascarar aquilo que penso. Isso tem-me trazido alguns dissabores, paradoxalmente. Às vezes as pessoas levam a mal que eu manifeste posições políticas.

 

Perdeste um pedaço da unanimidade quando fizeste campanha pelo Sim no referendo ao aborto?

Não faço ideia. O meu pai achou que sim. Do ponto de vista cívico não tenho feito nada, mas o problema do aborto era uma questão que me interessava e na qual gostaria de participar.

 

Os pais preocupam-se sempre com essas coisas. É por não gostarem que não gostem de nós.

Sim, mas não sei se isso deve nortear a minha conduta. Eu faço um programa de televisão, escrevo textos de comédia e interpreto-os, não estou num concurso de popularidade. Vale a pena ser pardo do ponto de vista político, ou outro, só para manter a afeição de pessoas que não toleram que eu pense de forma diferente?

 

Não estás para isso...

Acho que não faz sentido nenhum.

 

A tua participação cívica na campanha do aborto é uma réstia da tua militância comunista?

A militância comunista foi péssima.

 

É já uma coisa mitificada?

Sei que é. Há muitas coisas mitificadas entretanto. Uma coisa que ao princípio me fazia confusão, agora vai fazendo menos, é o facto de todas as semanas aparecer qualquer coisa na imprensa, que não é verdade, sobre mim. Coisas tão simples como: o JL fez 25 anos, e eu trabalhei lá...

 

Foi o teu primeiro trabalho, não foi?

Sim, assim que saí da Faculdade fui para lá. O JL fazia 25 anos e eu mandei um cesto, daqueles que se compram na internet, com flores, chocolates, uma garrafa de champanhe, com um cartão, para os meus camaradas de redacção.

 

“Os meus camaradas”?

Todos os jornalistas dizem camaradas, não me lixes!

 

Ah, é verdade, tudo menos “colegas”, porque colegas são as p....

Exacto. Um jornal descobriu que tinha mandado o cesto e publicou que eu gostava muito de champanhe! Podia ter posto que gostava muito de cestos, ou de fruta, ou de flores. As notícias vão para os arquivos e os jornalistas sempre que fazem uma coisa sobre mim, lêem aquilo e perguntam-me: “Gosta de champanhe?”. Neste momento, eu, que bebo champanhe como as pessoas bebem champanhe, nos aniversários, sou um gajo que gosta de champanhe francês!

 

Devassas à tua vida privada?

Imensas, pá, imensas coisas. No outro havia um fotógrafo a 20 metros do meu portão, dentro do carro, e outro para aí a 50, dentro de outro.

 

As tuas filhas e a tua mulher já começam a sentir uma afectação por serem as filhas e a mulher de?

Há uma tentativa de as dar a conhecer. Recusámos sempre, mas há coisas que não podemos evitar. Por exemplo, no aeroporto ou na rua.

 

Para as miúdas, no colégio, com os amiguinhos, o pai é aquele que aparece na televisão?

A minha filha mais velha percebe que os amigos e os educadores dizem: “Tu és a filha do Gato Fedorento”, mas ela ainda não percebe que isso, do ponto de vista social, é diferente do que acontece com os pais dos outros meninos.

 

Posso dizer que esta entrevista foi adiada porque nessa noite estavas a cuidar das tuas filhas?

Podes, à vontade.

 

Quando li a mensagem que me enviaste, pensei que as pessoas olham para ti como um ícone. E um ícone não tem filhos, nem tem noites mal dormidas porque as filhas estão com gripe.

Sem estar a expor a minha família, a minha mulher, as minhas filhas, nunca deixei de dizer que era casado e tinha filhos.

 

É certo que não tentaste esconder, mas as pessoas não querem ver essa parte. Porque corresponde a uma dimensão corriqueira.

É isso. É aquela coisa da pessoal fútil, casado e tributável... Uma coisa que o Pessoa diz: “Queriam-me fútil, casado e tributável”. Já sou as três coisas.

 

Tínhamos lá para trás a ubiquidade. Não é por acaso que agora trago a ubiquidade. Estás sempre entre estes dois desempenhos?

Acho curioso que digas “entre esses dois desempenhos”.

 

Refiro-me ao desempenho social e ao familiar.

Mas quando me dizes que são dois... Aquilo que tu dizes é bem observado. Há uma estratégia que é constante e que ao fim de um tempo começa a tornar-se aborrecida. Uma estratégia de auto-depreciação que fazemos enquanto grupo e individualmente também. É uma estratégia excelente de auto-defesa, para baixar as expectativas das pessoas...

 

Também para fazer um certo género... Cria-se uma ideia de: “Ai, sou palerma, ninguém me pode levar a sério”.

Tem esse lado positivo. Se tu te insultares a ti própria primeiro, os outros depois têm mais dificuldade em fazê-lo. Agora, quando tu dizes “bancar o humilde”... A imprensa está a tentar arranjar uma guerra entre nós e o Herman, acham que pode ser interessante do ponto de vista mediático; e se calhar é. Mas não há guerra nenhuma, nem nunca há-de haver.

 

Começaram por trabalhar com ele, na escrita dos textos, enquanto elementos das Produções Fictícias.

Trabalhámos com o Herman imenso tempo, tivemos esse privilégio, ele sempre nos tratou bem, não há razão nenhuma para andarmos armados em parvos a dizer: “Vamos à guerra das audiências”.

 

Pelos vistos, não precisam.

Não se trata disso, os programas são diferentes, o horário é diferente, os canais são diferentes. E não seriam as audiências a determinar se um programa é melhor do que outro ou não é. Dou sempre o exemplo do futebol: “Não vamos fazer concorrência ao Herman, só porque estamos a jogar à mesma hora. O Birgmingham não faz concorrência ao Chelsea”.

 

O Benfica e o Sporting?

Não, não, o Benfica e o Sporting é outra coisa.

 

“Lavo a boca para pronunciar a palavra Benfica?”, não é o que se diz em futebolês?

Houve gente que me censurou: “É falsa modéstia”. Comparar o maior humorista português de sempre, com a maior equipa do mundo, e quatro gajos que começaram há três anos, e há um ano tinham um produção amadora, é inaceitável. Esquisito acharem que é falsa modéstia. Para mim é uma coisa rigorosa.

 

Lamentas que as audiências do Herman neste novo programa sejam tão baixas? Sinceramente. É como se fosse uma injustiça?

Primeiro, não sei se são assim tão baixas. Segundo, não vejo justiça nem injustiça nas audiências. Não vejo que as audiências sejam prémio de qualidade, de competência. As audiências não significam nada a não ser “há muita gente a ver” ou “há pouca gente a ver”. Se calhar vai haver pouquíssima gente a ver o programa do António Barreto e tenho a certeza de que vai ser um belíssimo programa. Vai ter seguramente menos audiência que o nosso e vai ser seguramente melhor do que o nosso. O Herman tem 30 anos de carreira, duvido que esteja preocupado com a percentagem do share.


Pode estar preocupado com uma coisa, essa sim, significativa, que é envelhecer.

Mas isso não tem nada a ver com as audiências.

 

Envelhecer pessoalmente e envelhecer artisticamente. Estar desfasado destes novos tempos em que segunda-feira de manhã aparecem no Youtube as coisas mais engraçadas da véspera.

Essa é uma pergunta insidiosa.

 

Não é.

Em relação ao Herman, só tenho coisas boas para dizer. Não creio que esteja desfasado da realidade, antes pelo contrário. Sei que tem esse problema com o envelhecimento, como toda a gente. É uma coisa horrorosa, a aproximação da morte assusta qualquer ser humano, e não só os seres humanos de origem alemã. Nós só sabemos o que é um humorista por causa do Herman. O Herman é vítima de si próprio.

 

Como assim?

A Judite de Sousa perguntou-me sobre a imparcialidade do humorista: essa questão só se põe em Portugal porque o Herman nunca manifestou posições políticas, nem de clubes de futebol. E tem todo o direito de não as manifestar. O Herman é vítima de si próprio por ser o paradigma, as pessoas esperam dele muitíssimo mais do que parece ser aceitável. A própria memória dele está a assombrá-lo.

 

Chega de Herman. A não ser para perguntar se os Gatos podem ser apenas um epifenómeno. Isto vem a propósito da longevidade da carreira do Herman. Há três anos tu irrelevavas o vosso sucesso, achavas tudo aquilo improvável.

Neste momento particular não é um epifenómeno. Mas nada nos garante que daqui a cinco anos não tenha sido afinal. Sabemos que daqui a 50 anos as pessoas vão saber quem era o Herman José, assim como hoje em dia sabemos quem é o Vasco Santana, o António Silva. Mas não fazemos ideia se daqui a 50 anos as pessoas se vão lembrar de nós. Quando cheguei às Produções Fictícias, estava a acabar de acontecer um fenónemo humorístico na SIC, protagonizado por uma pessoa que dava autógrafos na rua, era considerado pelas revistas e jornais o novo Herman; hoje em dia ninguém sabe quem é. Acontece muito.

 

Isso ainda vos pode acontecer?

Acredito que o nosso trabalho tem sido um pouco mais consistente, até porque tem sido mais duradouro. Mas nada impede que daqui a cinco anos já não seja nada. As nossas ambições não passam exclusivamente pela televisão. Para já, é quase garantido que em 2008 não estejamos a fazer nada, saiamos da televisão. Depois, é possível que façamos mais dois, três, cinco anos de televisão e arrumemos as botas completamente – há essa hipótese.

 

Continuas a sonhar escrever como o Mário de Carvalho?

Quando disse que queria ser escritor e jogador do Benfica tinha seis anos, depois percebi que não tinha talento nem para uma coisa nem para a outra.

 

O que é que te custou mais?

Foi sem dúvida jogar à bola.

 

Para o resto, pelos vistos, tens talento.

Não se trata disso. Uma pessoa que escreve um grande livro não levanta o Estádio da Luz, se marca um golo, levanta. É uma questão de prioridade.

 

Mas como Gato, também levantas o Estádio da Luz.

Isso foi a melhor coisa da carreira até agora. O Benfica convidou-nos para fazer uns sketchs no Estádio da Luz e os nosso consócios estavam ali. Sinto aquela gente como da minha família, ter a família a rir daquilo que estou a fazer...


Explica-me melhor essa comoção de ter as 65 mil pessoas da família ali... Estranho, é como se estivesses a fazer um número cómico dizendo isso.

Percebo que as pessoas achem graça e achem que é rídiculo. Estou a falar a sério.

 

Por que é que isto te toca? Por que é que é comovente?

Há pessoas que conseguem ser primárias e irracionais na política, na religião, com imenso sucesso. Eu resolvi guardar a irracionalidade e o primarismo todo para o clubismo, para o Benfica. E atenção que a palavra primária também tem um lado bonito, um lado de primeiras coisas. Não choro com nada na vida a não ser com o Benfica – isso é uma coisa ridícula.

 

A sério?

Choro, choro, choro.

 

Não choras com mais nada? Era a outra coisa que me impressionava.

Não. É mesmo uma coisa irracional, de um domínio extraordinariamente primitivo. Lembro-me de ir ao Benfica com o meu primo António, foi ele que me meteu o bicho. Eu tinha para aí seis anos e o meu primo tinha tiques esquisitos, tremia todo, coçava o colarinho, coçava a nuca, cuspia e fumava. E lembro-me de olhar para ele e pensar: “É isto que quero para mim, é isto mesmo”.

 

O transe.

É aquele. Percebo que é absurdo uma pessoa sofrer da maneira que eu sofro, com o coração a bater nas costas, porque onze milionários dão pontapés num objecto esférico cheio de ar, vestidos com camisolas cuja cor me agrada. É aquela história do Herberto Hélder, “se eu quisesse enlouquecia”... Se eu quisesse “desenlouquecia”, sabia fazer o caminho ao contrário.

 

Impunhas a racionalidade. Serias capaz?

Só que não quero! Gosto imenso daquele sofrimento. A proximidade que sinto das pessoas que estão no estádio..., aquele é o público que realmente me interessa. Sei que na televisão, se faço uma coisa sobre o Marcelo, há pessoas que vão ficar desagradadas. Mas, eh pá, são ossos do ofício. Agora, pensar que qualquer coisa que eu faça no Estádio da Luz vai desagradar aquela gente, isso sim, transtorna-me.

 

Tenho uma pergunta algo delicada, e é só pela intuição...

Força.

 

Passaste a vibrar ainda mais com o Benfica depois da morte da tua avó?

Não, não. Por que é que achaste que essas coisas estavam associadas?

 

Tenho a impressão que a pessoa que mais amavas e de quem eras mais íntimo era a tua avó. E ela, pela sua simplicidade, personificava também esse lado familiar e espontâneo do Benfica. Ocorreu-me que podias transferir um pouco para a família indiferenciada que é a massa benfiquista aquilo que vinha dali e que foi um dos sustentáculos da tua vida.

Não passa nenhum dia sem eu me lembrar da minha avó. No outro dia estava a constatar isso. Isso não tem nada a ver com o Benfica, às vezes até tem a ver com o meu trabalho. Aprendi a valorizar mais aquela herança. As pessoas perguntam-nos quais são as nossas influências.

 

E quais são?

Há sempre influências de dois tipos: as técnicas, (o Woody Allen, o Herman, o Seinfeld, o The Office), e aquilo que nos fez ser aquilo que somos. Ela fez de mim aquilo que eu sou, mesmo sem querer. A maneira como se relacionava comigo e como achei que me devia relacionar com ela, fez de mim aquilo que sou. Isto tudo que me acontece também é ela.

 

Consegues explicar melhor o que é que ela te fez? Que milagre foi esse?

Não é bem um milagre, as pessoas são feitas dessa massa. Aquela tábua rasa que são ao princípio e depois leva várias marteladas... Ela tinha tido uma vida bastante madrasta. Qualquer outra pessoa que fica viúva com 30 anos provavelmente passados cinco, dez, um, volta a casar e refaz a vida. Para ela, ficar viúva com 30 anos significava a vida terminar quando estava a começar. Para as mulheres do Alto Minho significa vestir-se de preto até ao final da vida.

 

Tinha um daqueles corações com as fotografias roxas dentro? São de ouro e usam-se presos ao peito.

Tinha, tinha. E portanto, ela tinha uma má relação com a vida. Lembro-me sempre dela com o sobrolho franzido.

 

Engraçado, imaginava-a mais suave, mais ternurenta.

Mas isso era. Não sei se o General Ramalho Eanes é ternurento, mas é certo que aparece sempre com um ar sisudo. Aquilo é uma noção trágica da existência, um fatalismo incrível.

 

A tua avó dizia asneiras? No Minho dizem-se muito. Estou a pensar de onde é que vem o teu lado asneirento...

Se estivesse fora de si, dizia. Eu conseguia colocá-la fora de si, tinha algum talento para isso. Também não era difícil.

 

Quando fazes o campónio pensas nas descrições dela?

Penso. O Professor Lindley Cintra dividiu muito bem os sotaques: do Pombal para cima troca-se os “bês pelos vês”, nesta zona fala-se “assim”, na outra já os “esses” são mais molhados. A minha família, que é toda do Alto Minho, borrifou-se no Lindley Cintra! Uns falam com os “esses” mais molhados, outros não falam de todo. Eu, quando é preciso fazer um desses, basta pensar: “Hoje vou fazer o tio Manuel”, “Este vai ser o Aniceto”.

 

Tens no teu armário uma galeria desses personagens.

Sim, pá. É a aldeia da minha avó, basicamente. E mesmo da família.

 

Não é abusivo dizer que, de certo modo, és humorista por causa da tua avó?

Por causa da minha avó. A primeira pessoa que tive vontade de fazer rir foi ela. Havia em mim um fascínio imenso em relação às pessoas que conseguiam fazer isso a outro. Quando uma pessoa se ri, pode não estar feliz, mas imita muito bem, parece mesmo que está, e pelo menos durante um centésimo de segundo está mesmo, não me lixem, está mesmo. Uma das razões pelas quais há um preconceito, até religioso, em relação ao riso, à dimensão física do riso...

 

É pela descompostura, porque se desmancham?

De facto, durante uns segundos, o corpo está abandonado a uma outra coisa. Não se conseguir controlar o corpo é logo péssimo. Também o facto de uma pessoa conseguir interagir com a outra fisicamente, sem lhe tocar, causa uns engulhos grandes.

 

Gostava de recuperar uma pergunta que fiz há três anos: o que é que é sagrado? A avó é sagrada, as filhas são sagradas, a mãe é sagrada?

Exacto.

 

Ou seja, com o quê é que não se faz humor? Nem toda a impiedade é consentida. Isso estraga uma vida.

Uma coisa é perguntares-me o que é que é sagrado, outra coisa é perguntares-me com o que é que se faz humor. Toda a gente tem os seus sagrados, para umas pessoas é Jesus Cristo, para mim são as minhas filhas. Isso significa que não se pode fazer humor com Jesus Cristo ou com as minhas filhas? Eu acho que não.

 

Vamos imaginar que a tua filha tinha... estou aqui a imaginar uma coisa horrível... Vamos imaginar que era manquinha, que coxeava... Provavelmente nunca mais ias fazer o número do manquinho.

Não diria que isso é assim. Faço pouco das minhas filhas todos os dias. Uma das coisas de que elas mais gostam é quando as imito.

 

Isso é porque são perfeitinhas. Imagina que ela era mesmo manquinha...

Não sei se não podia ser sublimada através do riso. E não sei se não seria bom para ela se defender disso, justamente. Toda a gente tem o seu manquejar, mesmo que não esteja à vista de todos. A maneira de dominar e de conseguir superá-los, os meus, sempre foi através do riso e do humor. É um mecanismo de defesa como qualquer outro.

 

Raramente fazes humor com o sexo, que é um tema fácil. Ainda por cima, fizeste toda a escolaridade com freiras, frades, jesuítas, a universidade na Católica. A repressão sexual associada aos religiosos, é disso que estou a falar.

Ao princípio estavas a dizer que vou à Judite de Sousa e sou aquilo que as pessoas estão à espera que eu seja, mas que também sou outra coisa.

 

Tu és mais culto, mais humilde, mais controlado do que o que as pessoas estariam à espera.

Admito que haja uma parte que se surpreenda por o palerma que vê na televisão a fazer aquelas figuras ridículas saber...

 

Quem é o Nietzsche, e que o tenha lido.

Pois, ou quais são os momentos do Génesis em que há riso e a forma como foram sendo interpretados. Não faço nenhum esforço para ser de uma maneira ou de outra. Sou o palerma que quando a câmara está apagada diz imensos palavrões, faz piadas do mais básico e escatológico e também gosta de saber o que é que o Nietzsche pensa. Um tipo pode ser um palhaço e um idiota e gostar de ler livros. Não é surpreendente. As pessoas são mais do que uma coisa. Provavelmente o público está à espera que se seja só uma coisa.

 

O vosso humor não recorre a palavrões.

É um acordo tácito, nem sequer chegámos a discuti-lo. É relativamente fácil o humor com palavrões.

 

Na minha entrevista anterior dizias “puta cara”. Dizias que aquilo que incomodava as pessoas, quando fizeste o anúncio do “Eles falam, falam, falam...”, não era teres sido puta, era teres sido uma “puta cara”. Teres ganho uma pipa de massa.

Uma parte das pessoas fica sempre incomodada com isso.

 

Agora és uma puta cara, cara, cara.

[risos] Agora ninguém me chateia por causa disso.

 

Estás no pico da onda. O sketch do Marcelo é inesquecível. Já te encontraste com ele?

Não, não. Aqueles foram os minutos mais perigosos de sempre da minha carreira. Nunca recebi tantas ameaças.

 

Mas tu recebes ameaças?!

Ora aí está. Por carta, por mail. A mim, à minha família, às miúdas, informações sobre o colégio onde andavam. Uma coisa bastante assustadora. Esse momento do aborto fez-me reconsiderar o sítio onde vivemos.

 

Eu estava centrada na tal unanimidade dos Gatos, não tinha ideia que pudesse ter havido uma reacção tão visceral.

Se eu fizer uma bomba, se assaltar um banco, se matar alguém, admito que as pessoas me ameacem matar a mim. Agora, fazer uma rábula humorística de dois minutos e ameaçarem-me da mesma coisa?

 

Foi um assassinato político... Estava a pensar se devia dizer isto, mas é o sentimento colectivo. Aquela rábula foi mortal para o Professor Marcelo.

É possível que tenha sido atendido como isso.

 

As freiras e os frades, os religiosos e o sexo. Acho que era a ponta que tinha ficado solta lá atrás. Para terminarmos, a “punchline” do sexo funciona sempre bem.

O sexo é como a sogra, é um tema humorístico clássico. Se não for abordado de uma forma especialmente sofisticada, faz dele um tema pouco interessante.

 

Casaste pela Igreja. O Tolentino de Mendonça foi o padre do teu casamento.

Sim, num casamento misto. Como é que hei-de dizer? Não é a Igreja do César das Neves [aquela em que me revejo]. É na Igreja do Padre Tolentino. Há uma figura do direito canónico que prevê que um tipo que não é baptizado, como é o meu caso, ou que tenha outra religião, case com uma católica.

 

E acabamos nisto?

Só se disseer uma coisa bombástica para terminar. Vamos tentar fazer cair o governo! O que é que achas? Por acaso, eu gostava. Se tivesse um leque de recursos mais vasto, se conseguisse imitar, por exemplo, o Sócrates, que é muito difícil...

 

Tu treinas?

Treino imenso.

 

Vamos ao exemplo que toda a gente conhece: o Marcelo. Demoraste muito tempo a chegar lá?

Imenso. Treino em casa. Vejo imensos vídeos, vejo o vídeo sem som para ver os gestos, oiço o vídeo sem imagem para ouvir a melodia. “Assim que se apanha, é uma segunda natureza” [isto é dito no registo de Marcelo], mas primeiro que consiga apanhar, é uma chatice.

 

Disseste que podes ser inseguro? Vou testar a tua insegurança: posso dizer que não acho piada nenhum às crónicas que escreves para a Visão? Talvez sinta a falta da tua interpretação. Ao contrário do que dizes, tens imensos recursos enquanto actor.

Aquilo já dura há dois anos, e continuo à luta com a crónica. O Miguel Esteves Cardoso no outro dia dizia que uma pessoa faz uma crónica boa, depois é merda, merda, merda, merda, depois vem outra boa, e depois é outra merda, merda, merda, merda. Eu estou quase sempre na merda.

 

O que é que falha?

É uma coisa que não consigo compreender. Às vezes, até o sentido da responsabilidade me cerceia os movimentos. Lembro-me de estar a escrever para o blogue e ficar satisfeito com os textos... O problema principal é o tempo. Nunca tenho tempo para escrever tão bem quanto gostaria.

 

O que quero é saber se te custa muito admitir que não sabes fazer uma coisa. Ou vais tentando, tentando.

Sim, custa-me. E vou tentando. Não admito que não consigo fazer, eu hei-de conseguir. Estou a ser absolutamente sincero. Nas peças da escola eu era o pior gajo que ali estava, a minha família ria-se à gargalhada com a minha falta de jeito. A minha tia Lurdes ainda hoje fala nisso, “péssimo, péssimo”.

 

Quem te viu e quem te vê. Ao mesmo tempo, a insegurança é uma arma poderosa, porque é altamente estimulante.

Exactamente. Conheces a fábula do mocho e do leão?

 

Conta.

O mocho diz: “Pst, ó leão, eu vou sair agora de casa, estão lá as minhas crias, são bebezinhos tão bonitos e fofinhos, pedia-te que não lhes fizesses mal”, “à vontade, estás a pedir-me, por amor de Deus...”. E o mocho chega a casa e está tudo estraçalhado, “então, pá, tinha-te pedido...”, “disseste que eram bonitos!, eu comi uns que eram absolutamente horríveis”. O mocho acha sempre que os seus filhinhos são lindos. Tenho sempre esse pânico, de achar que estou a ser mocho em relação a uma rábula que acabei de fazer. O texto, controlo mais ou menos, sei ver que isto tem graça ou não tem. Uma imitação do ponto de vista da performance, tenho sempre muita dificuldade em saber se aquilo está bem ou está mal.

 

Pronto, está visto que a conversa não tem fim. Ficamos por aqui.

Ok.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009

 

Bruno Nogueira

10.04.20

Tudo começou com um bastão, no Teatro S. Luiz. Se ele é capaz de se atacar com violência? Sim. Quantas vezes usa a palavra risível? Muitas. Como é que um rapaz que nem 30 anos tem é um dos maiores fenómenos da televisão portuguesa dos últimos anos? É o que vamos ver.

Bruno Nogueira nasceu em 1982. Um defeito? “Achar que todas as pessoas têm que pensar que tudo é risível como eu penso. Estar à vontade de mais. Ser teimoso. Ter muito pouca paciência para a burrice; não me refiro a pessoas que não sabem de política ou de história, mas a pessoas que fazem questão de complicar o dia a dia.”

Tem o descomplicómetro habitualmente ligado. Dizer que faz um humor corrosivo é pouco. É respeitador dos colegas (do estilo de dizer os nomes dos argumentistas que com ele habitualmente trabalham, e de sublinhar que provém do viveiro Produções Fictícias). Era possível entrevistar o Bruno Nogueira e o seu alter-ego Bruno Nogueira. Em qual é que ficamos?

  

Estamos no salão de Inverno do Teatro S. Luiz onde (mais a sério) apareceu. Aparecia com um bastão e dizia…

… “o meu nome é Bruno Nogueira e isso é uma coisa que me irrita.” Estávamos a começar o projecto Manobras de Diversão. Eu – se calhar tinha uma raiva contida que não percebia bem – começava sempre os meus textos assim.

 

Agora não usa o bastão, mas o seu humor tem uma violência indisfarçável. Não estamos tão distantes de alguns sinais que emergiam nesse Bruno de 18 anos.

A ideia do bastão terá sido minha. Era uma personagem que interrompia o espectáculo para expor as suas ideias mais controversas. No espectáculo funcionava. Na vida é mais perigoso.

 

No espectáculo continua a funcionar. N’Os Contemporâneos faz um arraso à Floribela-Luciana Abreu, que depois convida e recupera n’ O Último a Sair. É um exemplo do seu tipo de humor: violento, com nomes (o que é raro em Portugal), nada camuflado.

A Luciana, como o Roberto [Leal], como eu próprio, tem um lado muito risível. Havia nela coisas de tal forma expostas que servem o humor.

 

No youtube está o sketch no qual faz de Luciana, em África, à procura de uma criança descalça e faminta para adoptar.

Era um modo de levar até ao limite a ideia que se tem da Luciana. N’O Último a Sair, a Luciana, o Roberto são inteligentes o suficiente para usar isso em proveito próprio. O Roberto não precisava disto para nada, tinha a carreira mais do que feita. Aceitou porque percebeu que podia desmanchar a imagem preconcebida e cliché que tinha. Certinha, composta, o fato branco, Deus. O Roberto não deixa de ser isso, mas é outra coisa também – mais negro e divertido É um gesto de inteligência. Não sei se o teria.

 

Uma constante no seu trabalho, que tem n’O Último a Sair a sua máxima expressão: uma colagem entre a pessoa que é e a sua persona pública. Espreitamos pelo buraco da fechadura e aproximam-se a ficção e a realidade. Não sabemos onde está a barreira que as delimita.

Este paralelo entre a ficção e a realidade é o que me dá mais prazer fazer. Há um lado muito grande de improviso em que as pessoas estão a fazer delas próprias. Sempre conscientes de que aquilo é uma personagem. A linha entre a realidade e a ficção é tão ténue que é bom quando o espectador não percebe onde é que ela começa e acaba. Nós sabemos. Há coisas que digo que são apenas para servir o humor. Mas jamais serei capaz de fazer humor com uma coisa que é antagónica àquela que eu penso.

 

Se fosse um personagem como outro qualquer, e não o mentor do projecto O Último a Sair, como é faria o Bruno Nogueira?

Sempre trabalhei no campo de fazer de mim próprio. O achar que não há nenhum tema sagrado, que todas as coisas são passíveis de serem risíveis: a base da personagem seria essa.

 

Também nesta sala fez o seu primeiro espectáculo a solo. “Há imenso tempo que queria fazer um espectáculo no S. Luiz e ninguém me dava ouvidos. Comecei a namorar com a Maria Rueff e eis-me nesta sala, a fazer este espectáculo”. Porque é que diz estas coisas?

Seria estranho e delicado dizê-lo. Mas teria de ser eu a dizê-lo. Falando honestamente, acho que uma pequena percentagem de pessoas terá pensado isso, mas o objectivo era o humor. Não era uma boca. Como a Maria tinha notoriedade antes de eu ter começado, era uma realidade possível.

 

O público ainda não se tinha habituado a ouvi-lo dizer o pior sobre certas pessoas e às vezes sobre si próprio. Foi uma carreira planeada?, percebeu cedo que esse era o caminho?

Esse espectáculo, o Lado B e O Último a Sair foram planeados. Tudo o mais surgiu por acaso. A primeira vez que fiz stand up: no Chapitô, a mãe da Margarida Vilanova, que explorava o bar, queria fazer umas noites com leituras de textos. Fui lá fazer uma leitura em forma de stand up. Gostei da sensação, de ver como aquilo que eu dizia surtia efeito, provocava o riso. Tinha 16, 17. As Manobras: o Nuno Artur Silva tinha pedido a um colega meu textos, esse colega filmou-me a dizer esses textos. Textos sobre pacotes de abertura fácil. Não estavam à procura de actores, mas viram o vídeo e chamaram-me.

 

Ou seja, uma cassete que um amigo fez chegar ao Nuno Artur Silva fez com que fosse convidado para fazer as Manobras.

A partir daí, as coisas que foram surgindo foram sendo fruto umas das outras. A minha única regra, não só para trabalhar mas para a vida, foi só estar com pessoas em quem confio, acredito e com quem gosto de estar. E tenho de sentir que posso acrescentar alguma coisa.  

 

Mesmo não planeado, as marcas mais distintivas deste humorista já lá estavam. Como é que chegou a elas?

O meu pai tem o mesmo tipo de humor que eu tenho. Ou melhor, eu é que tenho o mesmo tipo de humor do meu pai.

 

Quando numa gala dos Globos de Ouro falou do Sr. do Bolo (Balsemão) e de puns, de quem falou foi da sua mãe, e não do seu pai.

Era como se fosse a minha mãe a dizer, mas não, [riso] era meu. O meu pai tem esse tipo de humor que não tem limites. A primeira vez que fui ao Levanta-te e Ri falei de nomes. Quando se falava de uma pessoa, dava-se sempre uma volta, arranjava-se um nome parecido. Não posso ser só bruto. Mas percebi que quando faço um discurso directo, quando chamo as coisas pelos nomes, [isso corresponde] à maneira como as pessoas pensam. Aquilo que dizem em casa, no carro, com a família, com os amigos, é trinta mil vezes pior do que alguma vez direi em palco. O pudor e os filtros que têm em público fazem com que sejam mais polidas.

 

Nesta altura da entrevista, quem está a ler, pode pensar que não tem sido senão polido.

Acha?

 

Muito cuidadoso, mais do que polido.

Se calhar. Inconscientemente. Estava a dizer que quando estamos em casa vemos uma notícia trágica e fazemos uma piada sobre o que se está a passar.

 

Já fez piadas sobre a morte de Angélico?

Não. Depende do bom gosto e do tempo. Está muito cru, ainda. Não há por onde pegar.

 

Quando foi a morte de Carlos Castro, no dia seguinte as anedotas eram às centenas. Isso tinha a ver com as pessoas em questão, com os contornos do crime? Simultaneamente estou a perguntar o que é que torna uma coisa imediatamente propensa à anedota.

Fiz um vídeo para agradecer os Monstros do [Fernando Alvim], disse uma piada: que tenho em relação ao Carlos Castro a mesma opinião que tenho acerca da aspirina: prefiro em pó. Depois disso veio um processo, da família. Há a ideia de beatificar uma pessoa depois que ela morre. Ou era um excelente actor ou uma excelente pessoa. Não ganho respeito a uma pessoa por ela ter morrido. Ponto. Não vale a pena estar a escarafunchar mais [a morte de Carlos Castro], mas é um tema tragicamente risível. Para mim e para milhões de pessoas. Não o dirão em público, certamente.

 

A partir do momento em que usa a palavra escarafunchar e o saca-rolhas foi uma das armas do crime…  

Para mim, todos os contornos são hilariantes. De a grande preocupação da família do Renato [Seabra] ser mostrar que ele não é gay, às correntes de apoio a um suposto assassino. A personagem [Castro], em vida, já era risível. O Angélico não era risível.

 

Foi no Levanta-te e Ri que se abriu ao público mainstream. Até aí estava no Curto-Circuito da SIC Radical, transformado em herói de malta nova. Voltando ao Angélico: o público que gostava de si podia ser coincidente com o público Morangos com Açúcar?

Há público que se cruza sempre. Há pessoas que gostarão de mim até eu falar de religião. Há pessoas que gostarão de mim até eu falar de gordos. Estamos sempre a ser avaliados. Estamos a ser avaliados à frase num espectáculo de stand up. N’O Último a Sair somos avaliados ao episódio. Pouco importa que o último tenha sido muito bom se o próximo for muito mau. A memória das pessoas fica no último. Essa pressão pode ser paralisante ou pode ser um motor.

 

A geração Morangos é conhecida pela preocupação com a imagem, o deslumbramento com a fama, a obsessão pelo sexo. No seu humor há um permanente ataque aos famosos. Eles parecem ser o seu alvo preferencial. Quando se inclui nessa categoria, pratica o género auto-depreciativo.

Em relação à geração Morangos: nada contra. Acho extraordinário se daí vierem mais talentos. Numa amostra tão grande, certamente não são todos canastrões. Há-de haver um ou outro que se salvará.

 

O Roberto Leal está a tomar conta de si. Essa seria uma resposta que ele poderia dar.

Acha? [riso] São caras com penteados estranhos (sou a pior pessoa para dizer isso), e mulheres com corpos já a aparecer. Passado um mês, todos dizem que não têm paciência para a fama, que os incomoda que os reconheçam na rua. Então não façam televisão! É um género.

 

Porque é que esse género o irrita tão particularmente, a ponto de sacar do bastão?

Porque são pessoas burras. Uma pessoa que não suporta ser reconhecida na rua não faz um trabalho visto por dois milhões de pessoas. Vai para um escritório, vai fazer teatro de rua, vai fazer o que quer que seja. Não é por serem figuras públicas que constituem um alvo; o que me faz comichão são aqueles que são famosos por serem famosos, como dizia o Sérgio Godinho. Porque aparecem. Porque não têm profissão. Porque são RP ou comentadores sociais. Não consigo conceber que ser comentador social seja uma profissão. A vizinha da minha mãe tem exactamente o mesmo trabalho. Só que não tem uma câmara à frente. Lado perverso: há público para isso. E a partir daí, fica-se desarmado. As pessoas querem ver os gordos a ser humilhados na televisão, pessoas a fazer figuras tristes numa tribo. Não consigo achar que muita gente a ver seja sinónimo de qualidade, ou que uma pessoa famosa que aparece na televisão tem mérito. Não tem mais mérito do que um sem-abrigo. 

 

Quis ser famoso?

Não. Quis fazer aquilo de que gostava, que era ser actor e fazer humor; e por acréscimo, e não me queixo disso, vem a fama.

 

Para estes que assistiam ao Bruno Nogueira no Curto-Circuito (esquecemo-nos que ainda não tem 30 anos…

Nem sei se vou lá chegar!, só faço anos em Janeiro.)

 

Para esses, era o “ganda maluco”. Deixou de ser o “ganda maluco” quando começou a fazer coisas nos canais generalistas e vocacionadas para um público mais abrangente?

A partir de certa altura, ser um “ganda maluco” deixa de ser um grande elogio para passar a ser meio-deprimente. Tive sempre a sorte tremenda de poder fazer na RTP aquilo em que acreditava. O Lado B não era um projecto para agradar a massas. N’Os Contemporâneos tentámos alargar mais o espectro. O Último a Sair tem o esqueleto de uma coisa generalista, de um Big Brother; mas o que se passa lá dentro é tal e qual o que eu gosto de fazer. Não facilitei. O João Quadros, o Frederico Pombares e eu escrevemos aquilo que achamos que tem piada. Posso dizer que até agora nunca ninguém tentou acalmar-nos.

 

Um projecto arrojado e com enorme violência de texto: Os Contemporâneos. Teria sido possível num canal que não o público? O seu humor é tão directo que tem consequências comerciais.

Num canal do Estado estou mais a salvo, por um lado; por outro lado estou mais sensível às críticas das pessoas do grande enigma que é o serviço público. (Ainda estou para tentar perceber, tal como o bom gosto, o [conceito de] serviço público). Provavelmente por ser na RTP tinha mais liberdade. Posso dizer que me ligaram uma vez de uma empresa e outra para a TSF [onde faço o Tubo de Ensaio]. Se eu podia repensar o texto que tinha escrito e no dia a seguir pedir desculpa... Eu disse que sim, à vontade, se pudesse dizer que tinha havido aquele telefonema.

 

Esses nomes é que nunca aparecem. Está muito dinheiro em jogo.

Estará? Mas posso dizer: ligaram-me da TV Cabo.

 

Todos nós já dissemos mal da TV Cabo.

Fiz um texto porque o serviço de apoio a clientes era mau. Paga, não consegue ver, está uns dias sem ver televisão, mas paga a factura integral; dizem que vão descontar, mas depois nunca descontam, e depois enganam-se outra vez, e depois… Às vezes, as pessoas põem-se um bocadinho a jeito. Têm de perceber que não há nada intocável, seja uma empresa, seja uma pessoa.

Há pouco tempo fui fazer uma gala da Liga Portuguesa de Futebol. Nunca na vida tinha visto tantas pessoas numa sala com tão pouca vontade de viver. De viver, de rir, de tudo. Reinava o medo! O medo do que se iria dizer a seguir.

 

O patrocinador zanga-se e corta – é isso?

É-me indiferente. As pessoas estavam era com medo que se falasse delas. Tanto que depois houve queixas sobre o tipo de humor. Uma coisa é estarem cem pessoas e serem três assim. Outra coisa é estarem cem pessoas e serem 95 assim, sem o mínimo espaço para rir.

 

Uma situação idêntica à de Ricky Gervais, quando apresentou os Globos de Ouro de 2011 e foi acusado de ter ido longe demais. Parece certo que não o convidam no próximo ano. Acha que o vão convidar para apresentar a gala da Liga Portuguesa de Futebol no próximo ano?

Se me convidarem para fazer o tipo de humor em que acredito, sim, se for para passar paninhos quentes em pessoas que não conheço de lado nenhum, não, não me interessa nada. O Ricky Gervais fez uma coisa inteligentíssima. Ali estavam 300 pessoas a assistir; em casa estavam milhões. Ele estava a fazer para casa. Em casa, adoraram. Disse as coisas que nós dizemos em casa. As pessoas que estavam na sala estão habituadas a que lhes passem a mão pelo pêlo. Mas não precisam. São famosas, têm dinheiro.

 

Têm segredos. Esse é o busílis?

Têm segredos e pontos fracos que acham que ninguém vê. Há coisas que, mesmo sendo muito transparentes, não gostamos que toquem nelas.

 

Começa a olhar para onde, para fazer a desconstrução e ver o potencial cómico de uma pessoa?

Se for uma figura pública, são uma série de antecedentes que são risíveis. Quando fiz um sketch a brincar com o Jorge Jesus n’O Último a Sair, toda a gente sabia que o Jorge Jesus se ia espetar ao comprido no português. Cada pessoa será diferente, não há uma regra. O José Rodrigues dos Santos pisca o olho no fim.

 

Confesse que em casa lhe chama “orelhas”.

Orelhas. Já chamei? É provável. Mas ele fez uma operação, dá-me ideia que sim, preste lá atenção no Telejornal, tem as orelhas no sítio. Mas por acaso não chamo “orelhas”. Não me é hostil. Irrita-me o piscar de olho, pronto.

 

Convenhamos, “orelhas” é muito soft.

Bem, em casa não sou um estivador! [riso] Sendo o humor a minha profissão, não quer dizer que em casa esteja sempre a praticá-lo.

 

O Dinis Machado tem no livro Reduto Quase Final uma crónica com um título que se transformou numa divisa perante a vida: “Qual é o lado mais cómico disto?”. Subscreve-la?, está sempre à procura do lado mais cómico de uma situação?

Sim. O humorista deve ter a capacidade de ver tudo através de (acho que era o Raul Solnado que dizia isto) uma lupa que torne as coisas normais em coisas risíveis. Uma pessoa que olhe para uma cadeira e um extintor não percebe que haverá um potencial cómico nelas.

 

Numa cadeira?

Pode haver. Se se dedicar a isso, acredite que pode fazer um texto de humor sobre uma cadeira.

 

Nessa crónica, Dinis falava de coisas como tropeçar e partir o dente da frente, de ficar nessa linda figura.

O grande triunfo do Obama, não em termos políticos mas em termos carismáticos, é ser uma pessoa descontraída. Passa a imagem de quem não tem um lado cinzento, quadrado. O que torna risíveis muitos políticos é o facto de se levarem tão a sério, não saberem sair de certas perguntas e situações com que são confrontados. As pessoas já não têm paciência para este tipo de políticos.

 

Acha Passos Coelho um pitéu em termos humorísticos?

Um pitéu?, agora fiquei assustado…

 

Por ser composto, engomado.

Menos composto e menos engomado do que José Sócrates. Sócrates é um personagem muito fácil de caricaturar. Pela intransigência, pela falta de jogo de cintura. Passos: ainda é muito cedo. A classe política está sempre exposta a levar tareia.

 

Está a ser muito politicamente correcto. Não se acredita que olhando para os novos ministros não tenha esfregado as mãos de contente com um ou outro.

Não tenho necessidade nenhuma de ser politicamente correcto. Ainda não me inteirei da pasta [risos]. O caso Fernando Nobre é um caso risível.

 

Na tarde em que falamos, segunda-feira, renunciou ao seu cargo de deputado.

Foi? Devia ter sido há mais tempo. Tinha uma grande estima por ele. Quando passou a ser político, houve qualquer coisa que se desmanchou.

 

É verdade que os políticos não são um alvo constante.

Nem política, nem futebol, nem sexo.

 

Porque não? São temas inesgotáveis.

Política é um tema chato. Sexo é um tema fácil demais. Já sei que se for para uma sala no norte e fizer um texto em que digo mal do Benfica, está ganho. Mas não me interessa.

 

O verdadeiro artista é o que é exigente consigo?

Não estou a dizer que escolho temas melhores. Interessam-me outros. 

 

O verdadeiro artista é o que escolhe temas desafiantes, campos adversários?

Não pego nesses temas porque, enquanto espectador, não os acho risíveis.

 

Segundo a wikipedia, mede 1.94.

Cuidado com a wikipedia. Há uns tempos dizia que eu vivia com dois gatos. Não suporto gatos! Mas um metro e 94, está certo.

 

A tradição dos humoristas em Portugal era baixinhos e gordinhos. Solnado, Nicolau Breyner, Herman.

Fernando Mendes.

 

Os dois humoristas mais notados da sua geração são altos e magros. Onde quero chegar é à utilização do seu corpo como matéria para o humor. Não é exactamente o seu tipo de humor. Buster Keaton fazia-o mais. Mas conta sempre com o impacto físico que causa.

Não só isso, como uma série de situações em que me vejo envolvido e onde a minha altura constitui um problema. Desde andar de avião a estar numa cozinha de uma maneira normal. Mostrar o ridículo do tamanho destas pernas é um tema que domino. Também a magreza. Bato-me pelo tema: porque é que não se pode chamar gordo a um gordo?

 

No programa chamavam gorda a uma gorda.

Porque é que é de mau tom chamar a uma pessoa gorda?

Ser gordo não era sinal de formosura?

 

Mas agora que dizer que se pode ter ataques do coração.

E eu posso morrer de fraqueza! [riso]

 

Um dos gangsters d’Os Sopranos tinha uma mulher muito gorda, mas muito gorda. Estavam a jogar cartas e ficou danado porque fizeram troça do tamanho da mulher. Ficou ainda mais danado quando chegou a casa e viu que andava a matar homens, ou em vias disso, e que ela furava a dieta!

E comia! A desculpa tem sempre a ver com o metabolismo, com qualquer coisa assim. O mundo é feito para as pessoas emagrecerem. A seiva, os comprimidos…

 

Mas como é que sabe da seiva?

Porque sei! Porque é um assunto que me incomoda. Quem é gordo tem mais opções para resolver a sua gordura do que quem é magro. Todas as pessoas que se queixam do peso comem que nem uns animais. Também me vai perguntar se como mal? Não, como que nem um animal. O meu metabolismo é assim.

 

Quando era criança, como é que seduzia as pessoas à volta?, pela graça?

Sim. Era muito tímido. Seis, sete, oito, nove anos, era gordinho, tipo bolinha.

 

Era “o badocha” apontado pelos colegas da escola?

Era bochechinhas, mas não fazia pregas nos braços. De repente, aos 16, houve uma coisa estranha no meu corpo e cresci. Parei no um metro e 94. Mas sim, era com o humor [que seduzia as pessoas à volta]. É um cliché, todos os humoristas dizem isto. Era um cartão de visitas para angariar mais amigos, para me safar de situações. Eu era aquele que provocava um amigo, que fizesse coisas parvas, que o punham de castigo. Do tipo: ver quem é que consegui dar com mais força um pontapé numa mesa onde estava um aquário. Ficaram cerca de 40 peixes espalhados pela sala, a morrer. [tosse seca] Era a minha forma de interagir. Não sabia fazer de outra maneira. Tenho dificuldade em ter uma conversa sem recorrer ao humor. Escudo-me. Dá-me a impressão de tornar a conversa mais interessante.

 

Conversa interessante?

Como dizer? Era como se eu fosse mulher e me viessem falar de roupa ou sapatos. Teria de recorrer a outra coisa para não ensandecer. São temas que não me interessam. Mas não é de bom tom terminar a conversa e dizer: “Essa conversa não interessa naaaada. Mas a ninguém, no mundo. Muito menos a mim. Portanto vou-me embora. Quando houver um tema interessante voltamos a falar.”

 

Só seria anti-social fazer isso. Mas não insano.

Tenho um bocado disto. Toda a vida vivi e trabalhei com pessoas mais velhas. Para os temas de que falavam as pessoas da minha idade, não tinha paciência.

 

Se as pessoas estão à espera do Bruno Nogueira, dá-lhes o Bruno Nogueira? Confesso que estava à espera que fosse mais o personagem, que tem muita graça e mete a punch line nos momentos certos.

Tem duas pessoas que pode entrevistar: pode entrevistar-me a mim ou a ideia que têm de mim. A ideia que têm de mim corresponde a isso. Isto sou eu sem pensar na ideia que têm de mim. Se me entrevistasse durante as gravações d’O Último a Sair, em que estava a fazer de mim, provavelmente seria outro tipo de discurso. Seria mais interessante? Se calhar. Mas não seria uma entrevista a mim.

 

Aquele que é, tanto quanto se vê, não quer ser apenas o humorista…

A atirar ao intelectual. [riso]   

 

Não por acaso, quando faz uma peça com a Cornucópia interpreta textos de Aristófanes. Com muito palavrão e tal. Mas Aristófanes. E sob a direcção de Luís Miguel Cintra.

Disse “intelectual” a brincar. Gosto como espectador, mas não era uma coisa que andasse desalmado para fazer.

 

Não precisa da caução dos intelectuais, da Cornucópia?

Não. Fico muito contente se vier, mas não me move. Assim como eles não precisam da caução da comédia para nada.

 

Em todo o caso, raras vezes um público tão jovem lotou o S. Luiz para ver Aristófanes. Evidentemente, era também um público que ia ver o Bruno Nogueira. 

Muitas pessoas iam para ver uma coisa e acabaram a ver outra. Não era uma coisa que ambicionasse. Claro que ter o Luís Miguel Cintra a encenar é um grande privilégio, aprende-se imenso, acrescentou-me muito enquanto actor. Mas foi pela experiência que fiz. Se o convite não tivesse nenhum, não faria.

 

Foi um actor dramático, e aplaudido, numa peça encenada por Beatriz Batarda, Azul Longe nas Colinas. Interessa-lhe não ser apenas o humorista?, quer ser o actor completo?

Interessava-me experimentar. Foi um convite. Jamais teria a iniciativa de fazer uma coisa dramática. À partida, não é por fazer uma peça dramática que se prova alguma coisa a alguém. Prova-se que se consegue fazer aquilo, mais nada. O risco é em grande parte da Beatriz. O papel mais sensível da peça é feito por uma pessoa que tem o carimbo da comédia. Ser no Nacional [Dona Maria] ganha outro peso. Mas ter conseguido extrair de mim aquilo é mérito dela. Fico orgulhoso de o ter feito.

 

Tem uma mãe como a do Herman que assiste na primeira fila e diz: “És um bom artista, não tinhas necessidade”? A sua mãe pergunta-lhe porque é tão violento?

A minha mãe e as vizinhas gostam muito d’O Último a Sair. É um barómetro para perceber coisas. Às vezes tem medo que me aconteça alguma coisa. Que alguém se passe e me dê com um barrote na cabeça. Tudo pode acontecer. Sei lá. Na gala da TV 7Dias, como estava um ambiente estranho, agradeci o prémio a uma pessoa que já tinha falecido, mas que ia ficar muito feliz por eu estar ali, que era a minha mãe. Fiz aquilo só pelo gozo de perceber a reacção das pessoas. [riso] Ficou um gelo na sala. Um silêncio de cinco segundos. Depois disse: “Estava a brincar, era só para aliviar o ambiente”.

 

Terão pensado: nem a mãezinha poupa.

Sim, sim. A minha mãe adorou!, fartou-se de rir. Contei-lhe, podiam ligar-lhe. Tenho muita sorte, não me lembro de uma única vez me terem censurado. O núcleo duro sou eu, o meu pai, a minha mãe e a minha irmã. Entre nós não há qualquer espécie de pudor.

O meu pai tem 69 anos. Plantou recentemente um jacarandá. Que demora uns certos anos a dar flor… Disse-lhe que era arriscado plantar um jacarandá aos 69 anos à espera de ver as flores… Seria o mesmo que o Manoel de Oliveira pôr um aparelho nos dentes. Já não faz sentido. Tudo bem, mas que faça primeiro o testamento. Digo isto obviamente a brincar.

 

O testamento? Deve ter mais dinheiro do que o seu pai. Ganhou montes de massa. Está rico?

Estou bem. Não estou rico. Ser rico é outra coisa. Ser rico é olhar para uma casa e comprá-la. Ser rico é o Ronaldo. Apetece-lhe uma casa para os seus pais, e nem olha [para o preço]. A extravagância que fazemos – ir a um supermercado, comprar uns iogurtes e não olhar para o preço – é o que ele faz com carros.   

 

O seu pai tem também dinheiro? Situe socialmente a sua família.

Uma família de classe média. O meu pai trabalhou durante muito tempo numa empresa que representava a Philips em Portugal, a minha mãe trabalhava na Gás Portugal. A minha irmã ficou a trabalhar onde o meu pai trabalhava e foi modelo durante muito tempo. Não tem 1.94. São os três muito, muito bonitos. Fui o único a degenerar na família.

 

Diz isso a sério?, sentiu-se o patinho feio?

Não, estava só a fazer género. Mas houve uma fase complicada em que o meu pai me levava a um barbeiro que me cortava o cabelo à Beatriz Costa. Era uma taça na cabeça e era gordinho e não escolhia as minhas roupas. [diz num tom gozão] Vejo fotografias e percebo alguma coisa da minha exclusão pelo ar que tinha. Um ar de demente, de pató, um nerd. Depois passei por uma fase bimba em que usei champô de camomila porque queria ficar louro. Devo ter usado demais e fiquei com o cabelo cor de laranja.

 

Já estamos na personagem Bruno Nogueira.

Não, não, é verdade. Foi uma fase muito estúpida em que pensei que o estilo estava ligado à cor de cabelo. Depois passei pela fase das marcas, porque fui para a escola secundária do Restelo. Quem não tinha um cavalo, um crocodilo no peito... A minha mãe ainda me comprou duas ou três coisas. Depois mandou-me ir trabalhar. Quando comecei a fazer teatro (é uma coisa que me faz comichão nos dentes no meio do teatro…, só andarem com cores escuras), só vestia preto e calças de bombazina castanhas. Parte de ser artista era aquilo que se vestia.

 

Quem é que foram sendo os seus modelos?  

O Herman. Esteve 30 anos a fazer do bom e do melhor. Ao fim de 30 anos é normal entrar em velocidade cruzeiro, com picos de genialidade, como sempre terá. Os Monty Python; vi uma reposição, era tão estranho que adorei. O Seinfeld, o Ricky Gervais, uma série de stand up comedistas. Tinha fetiche por alguns actores. Fui ver o Miguel Borges numa peça dos Artistas Unidos, Primeiro Amor, seis vezes.

 

Texto de Beckett. A peça era sublime. É compreensível que tenha ido seis vezes.

Seis vezes. Tive a sorte de, desde muito cedo, estar perto de pessoas que admirava muito. O António Feio, o Miguel Guillerme, o Herman, a Maria [Rueff], o Nuno Lopes, o Ricardo [Araújo Pereira], o Zé Diogo Quintela.

 

As pessoas acham que são dois galos para o mesmo poleiro. Dá-se realmente bem com o RAP?

Sim. Falamos sempre quando se escreve qualquer coisa sobre isso. A última era muito boa: eu vestido de Pepsi e ele de Coca-Cola. As pessoas precisam de criar rivalidade. A paz nunca vendeu.

 

O que é que o faz perder a cabeça? O que é que o faz ter vontade de pegar no bastão? Parece, estranhamente, muito racional.  

Está muito surpreendida comigo enquanto pessoa, não está? Ficou desapontada? Há pessoas que me abordam na rua com a falsa intimidade que a televisão provoca. As pessoas acham que no dia a dia estou em personagem! O que eu faço em palco, especialmente em espectáculos ao vivo, é o que eu gostaria de ser. Tanto no à vontade como na rapidez. Não sou aquilo na vida. Mas gostava. Também gostava de ser aquilo. No último espectáculo, no S. Jorge, estava em cima do palco a pensar como gostaria de ser aquela pessoa. Na vida não temos 800 pessoas a olhar para nós, acomodamo-nos mais.

O que é que me irrita? A falta de educação. Sem ser essas coisas? Mas isso tira-me do sério. Se tocassem na minha família, [perdia a cabeça].

 

Não acredito que não tenha ouvido sobre a sua irmã “a gaja é boa”.

Ah, mas sobre isso já me ri. Até ouvi pior. Depende da forma como é dito. Se é dito para ofender, à pedreiro, é uma coisa. Se é dito de igual para igual, no meu tipo de humor, é outra.

 

 

Publicada originalmente na Revista Pública, em Julho de 2011