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Anabela Mota Ribeiro

Vinicius de Moraes (p/ filha Suzana)

14.01.22

Produziu frases tão extraordinárias quanto: "Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido” ou "Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval”. E outras, menos amorosas: "O uísque é o melhor amigo do homem, ele é o cachorro engarrafado” ou “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. São boutades que constam das enciclopédicas, múltiplas, e que condizem com as histórias de trazer por casa. Histórias como esta: “Inteiramente bêbado, Tom Jobim se vira para Vinícius de Moraes: "Chega uma hora em que as mulheres quebram as garrafas de uísque. A minha quebrou duas ontem, na pia. Mas não adianta. A gente vai e compra outras."

Ambas definem Vinícius de Moares como um personagem excessivo, vibrante, em permanente estado de exaltação. Segundo Carlos Drummond de Andrade, «Vinícius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural».

Viveu intensamente, desdobrou-se em papéis vários. Foi diplomata, bolseiro em Oxford, crítico de cinema e aluno de Orson Welles, conhecedor profundo de jazz americano, amigo de Ava Gardner (quando foram apresentados, ela terá dito: «Sou extremamente bonita, mas moralmente cheiro mal!»). E foi, sobretudo, poeta iluminado: «De manhã escureço/ de dia tardo/ de tarde anoiteço/ de noite ardo»; e mentor da Bossa Nova, com António Carlos Jobim e João Gilberto. Foi ele que escreveu: «Olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça...», imortalizando certa garota de Ipanema que ele e o amigo Tom viam passar quanto tomavam cerveja.

Vinícius de Moraes foi um amante da vida. Casou nove vezes. Teve cinco filhos.  Oriundo de uma família tradicional carioca, teve uma existência errante. Cidadão do mundo, passeou-se e viveu entre a Europa e a América do norte e do sul. Publicou prolixamente; em Portugal, entre os livros disponíveis, consta uma antologia da sua obra poética, editada pela D.Quixote, e revista pelo próprio.

A discografia é extensa; são memoráveis as suas gravações com Edu Lobo, Chico Buarque, Toquinho e, especialmente, Tom Jobim. Consta que nasceu numa noite de temporal, em 1913, num bairro do Rio de Janeiro. Morreu há 25 anos.

Sabia que «Tristeza não tem fim, felicidade sim».

Susana Moraes é a sua filha mais velha, nascida do primeiro casamento. É cineasta, vive no Rio de Janeiro, tem 65 anos. Traça de Vinícius, figura da cultura brasileira e do mundo, um retrato fervilhante. Mas quando o recupera enquanto pai, sente a falta da sua companhia. Chamava-lhe «Darling». É co-produtora do documentário “Vinícius de Moraes - Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores", que estreia em Outubro, no Brasil. 

 

Paixão é a palavra exacta para uma primeira aproximação a Vinícius de Moraes?

Paixão é a palavra chave. Sendo que a paixão, em Vinícius, tomava a forma de busca e de transformação. Ele estava sempre atrás, não só nas relações amorosas, mas um pouco em tudo o que fez na vida. No filme de Miguel Faria, que eu co-produzi, o Edu Lobo fala uma coisa bem interessante: quando Vinícius se empenhava numa coisa e aquela coisa estava na crista da onda, ele passava adiante. Edu falava particularmente da participação dele na Bossa Nova e em como isso se desenvolveu numa pós-Bossa Nova _ na parceria dele com Baden [Powel] e na composição dos afro-sambas, que são completamente diferentes do trabalho que tinha feito no começo da Bossa Nova.

 

Onda radica essa insatisfação permanente, de que essa busca desenfreada é expressão?

Esse traço na personalidade dele é resultado de muitas coisas. Em Vinícius houve desde cedo a ambição de fazer coisas, e uma coragem, existencial e como artista, de ir rompendo... E isso mudou muito pela vida fora. Ele começou um poeta místico, influenciado pela formação católica, depois virou um homem de esquerda e passou fazendo o contrário do que tinha feito até então. Transformou-se num poeta do quotidiano, do amor.

 

Quais foram as revoluções que rasgaram caminhos? O que é desencadou cada mudança? Os encontros com pessoas?

Vinícius era uma pessoa extremamente permeável e com muita vontade de entender o que estava a acontecer no momento. Sempre se interessou pelos novos discursos, pelas novas coisas que estavam acontecendo.

 

Esse interesse pelo novo e pela juventude, pelo que é palpitante e contraria o que vem de trás, era sintomático de uma instabilidade ou mesmo imaturidade?

Provavelmente tem componentes disso. Há componentes disso em qualquer grande poeta. São sempre um pouco infantis e instáveis. Infantis no sentido de não quererem se estratificar, de estarem sempre querendo uma síntese maior, uma compreensão maior. Vinícius era muito ambicioso. Em relação a tudo. Por exemplo, ele teve uma relação longa com o cinema, foi crítico de cinema, foi amigo de cineastas.

 

O primeiro posto dele como diplomata foi em Los Angeles. Ele, que já tinha estado na Europa, em Oxford, a estudar, sentia a América do norte como o centro do mundo? Foi por isso que ele a escolheu?

Certamente que a paixão dele pelo cinema contribuiu para isso. Fora uma relação muito profunda que ele estabeleceu com a música negra americana. Na minha casa, quando eu era criança, só se ouvia jazz, ele era um conaisseur. Fomos várias vezes a New Orleans, porque ele queria ouvir fulano ou sicrano que ia tocar.

 

Mas de onde vem o interesse tão sério pela música negra num branco filho de brancos?

Na formação dele, a cultura negra brasileira foi importantíssima_ essa coisa do quintal, das empregadas, do cavaquinho e do samba. Era uma pequena classe média carioca, ligada à música popular. O lado da família da mãe eram uns boémios, meio malucos! Ele tinha um tio, Henriquinho, engraçadíssimo, que era delegado de polícia, e que foi expulso porque fazia roda de samba na cadeia com as prostitutas!

 

É extraordinário que um homem nascido numa família com essas características tenha enveredado pela diplomacia. Representa uma ascensão social notória. Ele procurava transcender-se socialmente?

Em Vinícius sempre tem um lado popular e um outro lado, que é o da família do pai, ligado à cultura erudita. A peça “Orfeu da Conceição” é a maior síntese disso. O pai era muito culto, poeta convencional, que nunca publicou mas que conhecia literatura francesa, latim, professor de violino... Essas duas vertentes caminham em paralelo.

 

Então, não é estranho que tenha sido também diplomata?

Ele foi ser diplomata depois que eu nasci. Quando voltou de Oxford com a minha mãe, era muito pobre. Ser diplomata era um costume no Brasil. Poetas como João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, eram diplomatas. Era bom para um escritor porque oferecia uma vida materialmente confortável, viajava e dava tempo para escrever. É claro que outras profissões seriam possíveis. Eu acho que há um desejo de ascensão social, sim. Ele casou com minha mãe, por exemplo, que era uma moça rica, de uma família “aristocrática” de S. Paulo.

 

Casou nove vezes.

É verdade.

 

Há uma conversa famosa entre ele e Tom Jobim. Jobim pergunta: «Quantas vezes você vai casar?», e ele respondeu: «As vezes que forem necessárias». Porque é que acha que ele casou tantas vezes?

Porque precisava da chama da paixão, do começo de um amor. Isso alimentava-o de alguma forma. Estou super-simplificando, mas a razão mais óbvia me parece essa.

 

O que é que o fazia desapaixonar-se? Possuir o objecto desejado, fosse ele qual fosse?

A paixão, como toda a gente sabe, tem um tempo dentro de uma relação amorosa, que pode desenvolver-se e virar outra coisa. Ele não tinha essa capacidade. Ele precisava daquele primeiro momento do amor.

 

Era muito seguro de si, do seu poder de sedução?

Tinha muita confiança nele mesmo e tinha um real prazer em relação às pessoas. Tinha uma paciência... Por exemplo: aluno que vinha entrevistá-lo e que ele recebia... Era muito democrático, e muito sedutor.

 

Sedutor como?

Porque, realmente, ele interessava-se, ele ouvia o que as pessoas tinham a dizer, e achava graça. E isso passa, as pessoas sentem isso. Ele tinha um jeito de ser muito simples, muito directo que desarmava as pessoas. Muito humor, também, muito engraçado.

 

Era um hedonista? É fácil olhar para ele como alguém que vivia plenamente a vida e não conseguia deixar de procurar o prazer, as várias formas do prazer.

Totalmente. Já com 50 e tantos anos ele ficou diabético, diabetes adquirida_ coisa característica de quem come errado, bebe demais, essas coisas. Soit disant, ele fazia regime. Mas, numa época em que morei com ele, descobri os óculos dentro da geladeira! Ele descia de noite, comia indisciplinadamente tudo o que não podia comer e esquecia os óculos dentro da geladeira!

 

Era absolutamente indomável...

Indomável, ah, indomável... Nada, a não ser a vontade dele, o segurava. Tanto que, (tem essa história), quando saía dos casamentos, saía com a escova de dentes. Deixava tudo, não queria nem saber. E quando casava de novo, montava outra casa.

 

Com o mesmo empenho?

O mesmo empenho.

 

A acreditar: desta vez é que vai ser?

Bom, não sei se com o passar dos casamentos ele acreditava assim tanto... Mas, que eu tivesse visto, nunca teve uma posição céptica em relação ao amor.

 

Imagino que não ligasse qualquer importância às convenções sociais...

Realmente, ele mudou padrões de comportamento. Em relação à mulher, o discurso era revolucionário_ não tem outra palavra_ para a época. Que as mulheres largassem os maridos que elas achassem chatos, que fossem em busca do seu próprio prazer e existência... Falava essas coisas, e eu acho que é uma das razões porque as mulheres adoravam tanto ele.

 

Dava-se com homens e com mulheres?

Dizia que gostava muito mais da companhia de mulher do que de homem, que as percepções e as conversas das mulheres lhe interessavam muito mais do que as dos homens_ se bem que tivesse muitos amigos homens.

 

Quando acedemos ao site oficial de Vinícius, assistimos ao desdobrar de um biombo, que é um modo, também, de apresentar as suas múltiplas facetas. Ele era uma figura poliédrica, tinha sucessivas faces. Não podemos concentrar-nos apenas numa face?

Não pode mesmo. Tem uma essência, claro...

 

E qual é? O que é dominante?

A essência é essa necessidade de mudança, de estar em busca. No filme, Miguel Faria pergunta a Chico Buarque se ele achava que Vinícius era feliz. Chico diz assim: «Ele estava sempre à procura da felicidade». Mas quando você está à procura, já está compreendido que a felicidade não está ali onde você está. Ela está sempre um pouquinho adiante, um pouquinho para o lado. Essa angústia..., de sempre estar a ver ali adiante... Isso é o mais essencial em Vinícius, em todos os sentidos: na vida amorosa, na vida profissional, na relação dele com o mundo.

 

Então, a sua resposta coincidiria com a do Chico Buarque?

Ah, sim. Chico conhecia ele bem, e ele conhecia Chico desde pequenininho. Pai de Chico, Sérgio Buarque de Hollanda, era muito amigo dele.

 

Depois, há esse lado incrível. Ele deu-se com pessoas do mundo inteiro, ao longo de décadas. Sérgio Burque de Hollanda, Ava Gardner, Orson Welles, Carmen Miranda, Pablo Neruda. E dava-se indiscriminadamente?

Bem indiscriminadamente, sim. Interessava-se por uma gama extensa de pessoas. Não se dava só com intelectuais.

 

Do que é que ele gostava mais nas pessoas? O que é que lhe provocava enamoramento?

Ele era muito sensível à integridade_ da pessoa ser ela mesma_, e dava muito valor à generosidade.

 

A imagem que tem dele, enquanto pai, é coincidente com o retrato deste Vinícius contado na terceita pessoa?

Para mim, não era bem assim. Durante a minha infância e adolescência, Vinícius não era muito conhecido. Passou a ser conhecido e uma pessoa tão pública depois que foi trabalhar com Tom Jobim e a Bossa Nova. Antes disso, era um poeta e diplomata, conhecido de um grupo relativamente pequeno de gente.

 

Via-o como?

Quando fomos morar nos Estados Unidos, as pessoas perguntavam o que é que o meu pai fazia; e das vezes em que disse: “poeta”, aquilo causava um estranhamento. Poeta? Passei a omitir esse facto e a dizer que ele era diplomata. Eu adorava-o. Éramos muitos próximos. Tínhamos uma relação constante. Sinto falta da companhia dele.

 

Quando pensa nele, recupera-o nos momentos de intimidade?

Sim, penso no pai. E agora, muito mais velha, fiquei um pouco com a responsabilidade de cuidar das coisas dele_ eu nem queria, aliás, mas não tinha outro jeito. Então, passei a pensar nele como uma pessoa dentro da cultura brasileira e do mundo.

 

Foi aí que se habituou a falar dele na terceira pessoa? É que não se refere a ele como «o meu pai».

Habituei-me a falar dele assim, como uma pessoa que está olhando de fora. Na verdade, eu chamava ele de “darling”. Minha mãe chamava ele de darling, até por influência da estadia na Inglaterra. Eu não saberia dizer “papai”. Nunca chamei ele de “papai”. 

 

Publicado originalmente na revista Elle

50 anos de Bossa Nova

14.01.22

Dezembro de 1966. Chamam ao telefone o senhor Jobim. Não foi bem assim. No Veloso ele era “Seu Tom” e não se apregoavam frases de cafés lisboetas. O negócio era outro. E Arménio, o dono do boteco de esquina, conhecia-o de outros carnavais, de muitas rodas de chope. Ia dizer “Senhor António Carlos Jobim, estão lhe chamando ao telefone?” É verdade que Frank Sinatra estava do outro lado do fio. O maior cantor do mundo. Mesmo assim. Seu Arménio anunciou apenas: ligação dos Estados Unidos. Tem um gringo aí querendo falar. Foi então que Frank, Frankie, the voice, anunciou a boa nova:

- “Quero fazer um disco com você e saber se você gosta da ideia”.

Sinatra não falava português, mas Tom falava inglês. A resposta terá sido:

- “It’s an honor, I’d love to”.

Imaginemos um dia esplendoroso, como só podem ser os dias de Dezembro no Rio de Janeiro. Seu Tom estava de regresso ao Brasil e tomava chope pela tarde. Não é possível dizer cerveja, porque dizer chope já introduz toda outra coisa. O Verão a estourar, Tom prestes a fazer 40 anos, a Bossa Nova como um acontecimento de um passado longínquo, e Sinatra a acenar it’s now or never.

É provável que Tom ficasse para a história, e não apenas para os compêndios musicais, sem este encontro com Sua Eminência. “The Girl from Ipanema” tinha merecido 40 versões só no primeiro ano de vida. Nat King Cole tinha cantado no Copacabana Palace com Sylvinha Telles, a maior cantora do movimento. Miles Davis tinha assistido à apresentação formal da Bossa no Carnegie Hall. A Bossa não era mais Nova. Tinha sido dada como extinta no Brasil. Mas no resto do mundo, estava apenas a despontar. Num esplendoroso dia de Dezembro, Tom Jobim sabia que não era trote quando lhe disseram que Frank Sinatra queria falar. Talvez um génio saiba mesmo que é um génio.

Tudo começara muito antes. No Rio. Ou talvez em Juazeiro, terra recôndita da Baía, onde nasceu o homem que, mais do que Tom Jobim ou Vinícius de Moraes, revolucionaria a história da música brasileira. Os especialistas da Bossa Nova são os primeiros a prestar vassalagem ao génio de Jobim, a equipará-lo a Cole Porter ou aos irmãos Gershwin. É consensual que “Eu sei que vou te amar” é um hino do tamanho de “Everytime we say goodbye”. Mas o que mudou radicalmente o que até então se fazia foi a batida do violão de João Gilberto, em Juazeiro. A batida sincopada da Bossa Nova – como anos mais tarde diria Aloysio de Oliveira, em síntese.

Ruy Castro, biógrafo da Bossa Nova, começa o seu livro pelo altifalante pendurado num poste da Rua Apolo, em Juazeiro. A música era “Naná”, de Orlando Silva. Orlando Silva era quem João Gilberto queria ser. Como é que cantava Orlando Silva? Como cantavam os cantores da rádio desse tempo. Voz de veludo, cabelo lustroso, um punhal junto ao peito. Antes de João cantar do jeito manso que o mundo lhe conhece, por exemplo, quando cantava com o grupo vocal “Os Garotos da Lua”, ele cantava do jeito de Orlando Silva. Algumas fitas manhosas desse período atestam isso mesmo.

O altifalante, segundo Castro, passava de tudo um pouco; mas o tudo que passava era bom pra cacete. Tommy Dorsey (para os que estão muito fora, talvez dizer que Sinatra era o crooner da sua orquestra…), Duke Ellington, Charles Trenet, Carmen Miranda, Dorival Caymmi. Selecção irrepreensível, eclética. Os moços juntavam-se debaixo da árvore para tocar violão.

Ficaria bem no postal dizer que Joãozinho tocava violão e cantava às moças. Seria tão idílico quanto dizer: “Champanhe, mulheres e música, aqui vou eu” – que, segundo Ruy Castro, foi o seu grito de guerra quando rumou a Salvador. Mas não se lhe conheceu uma namorada na sua terra natal. Dir-se-ia que tocava e cantava para si próprio. Pelo prazer de tocar e cantar. O que não faz dele um monge. Antes de casar com Astrud, e depois com Miúcha, e depois com, e depois com, e agora com (de quem tem uma filhinha de três anos), João namorou com Sylvinha Telles, Marisa, e seguramente com outras mocinhas.

Era um sedutor de modos elegantes. Seduzia uma plateia com duas frases e uma canção, conquistava o pessoal dos hotéis e restaurantes ao fim do segundo pedido. (Consta que, durante os anos em que viveu em hotéis, quer dizer, muitos, e até há muito pouco, fazia das faxineiras, arrumadeiras e garçons os seus convidados de primeira fila nos raríssimos shows em que se apresentava).

Enquanto isso. Em 1949 e nos anos seguintes, ouvia-se Dick Farney. Nas boites, não nos puteiros – expressão insubstituível usada por Ruy Castro para definir os lugares em que Jobim se atirava ao piano. Dick Farney era o Sinatra brasileiro. Farney fez uma incursão nos Estados Unidos e dava-se com Stan Kenton, o director de orquestra venerado pelos meninos que cruzavam Copacabana e Ipanema. Mas também com Mel Tormé, Anita O’Day, e Sinatra, him self. “Aí eu disse ao Frank…”. Dick Farney era, além de cantor excepcional – para os que não tiveram ainda o prazer de um encontro, aconselha-se uma corrida imediata a uma loja online e subsequente encomenda – um grande pianista de jazz. Todo o universo, como facilmente se percebe, era o do jazz americano. Mais ou menos puro, mais ou menos duro. Mais para menos puro e duro.

Dick Farney não podia ser deixado fora da história da Bossa Nova porque ele era idolatrado pelos músicos que a fizeram. Pianistas como Johnny Alf (ainda vivo, também cantor, compôs “Eu e a Brisa”) ou João Donato (vivíssimo, com carreira pujante no Japão, autor do eterno “A Rã”/”The Frog”) seguiam-no com a um astro. No caso de Donato, apelidado de Judas Escariotes pelos outros meninos, seguia Dick Farney como seguia Lúcio Alves.

Ou se era de um ou se era do outro. Donato era dos dois. Depois de desfeitos os clubes de fãs que promoviam a rivalidade, também João Gilberto. Mas não foi por outra razão senão estar na Baía enquanto os garotinhos do Rio se entretinham com estas disputas. Acontece que João Gilberto tinha bom gosto musical e não podia prescindir de nenhum dos dois. Quando o seu primeiro disco foi gravado, quase dez anos depois do pico da rivalidade Farney-Alves, ele procurou Lúcio. Insegurança? Não. Este é um daqueles casos em que o génio sabe desde o começo que é um génio. Era, simplesmente, o desejo de receber a aprovação e o afago no pêlo do seu ídolo.

Porque é que ainda não se falou, senão de relance, da “Garota de Ipanema”? Um facto para arrumar desde já a questão: até que Vinícius e Tom celebrassem a beleza de Helô Pinheiro, de corpo dourado do sol de Ipanema, muitas canções foram escritas. Tom e Vinícius formaram a dupla mais celebrada, mas bota no pacote Carlinhos Lyra, Newton Mendonça, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal. Maysa e Nara ficam para mais tarde, quando se tratar da cisão da Bossa Nova e quisermos saber porquê – cherchez la femme, como sempre.

Para os que estão perdidos na genealogia, para quem a Bossa Nova é uma musiquinha gostosa, que combina com o fim de tarde, um drink ou um elevador, aqui ficam alguns factos históricos: A Bossa Nova surgiu há 50 anos. O Brasil celebra a efeméride com o mesmo empenho que usa para assinalar a chegada da Côrte. Compilações distribuídas pelos jornais aos domingos, palestras em cada auditório, concertos irrepetíveis (como o de Caetano Veloso e Roberto Carlos, esta sexta feira, numa evocação de Tom Jobim).

Se estiver na situação do pai de Nara Leão, “Onde é que está a bossa? E o que essas músicas têm de diferente?”, a resposta pode ser arrancada das páginas de O Cruzeiro, a revista que vendia 700 000 exemplares e que estava interessado em saber como tudo tinha começado. O jornalista e compositor (e namorado de Nara, e flatmate de João Gilberto e mais tarde marido de Elis Regina) Ronaldo Bôscoli respondeu assim: “Filosoficamente, Bossa Nova era um estado de espírito”. A cantora Alayde Costa foi mais precisa: “Eu acho que Bossa Nova é toda a música em que entram bemóis e sustenidos”. A melhor é a do poeta Schmidt: “A Bossa Nova é o reencontro do Homem de hoje com o Homem eterno”. Se continua na situação do pai da Nara – o que é compreensível – talvez ir à etimologia da Bossa. Ruy Castro escreve no seu livro “Chega de Saudade”: “A palavra “bossa” estava longe de ser nova: era usada pelos músicos desde tempos perdidos, para definir alguém que cantasse ou tocasse diferente. (…) A origem da expressão nunca ficou esclarecida de todo e gastou-se mais papel e tinta com esse assunto do que ele merecia”.

A Bossa Nova era, então, uma música nova. Uma reacção à música interpretada por Anísio Silva ou Sílvio Caldas. Os cantores de que as empregadas lá de casa gostavam. Os que exumavam a dor de corno numa canção. Os que lastimavam “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amorrrrrrr”. Tudo dito num tom gongórico, pré-apopléctico, vertido com lágrimas. Noir, roufenho, como numa rádio onda média. Acompanhava com copos de uísque e cigarros fumados em boquilha – piteira, como se diz no Brasil. A mulher, essa malvada, espalhava os seus encantos e os seus venenos à noite, alta noite.

Jobim podia tocar em bares e puteiros – tinha uma guerra com o “aluguel” e uma família para cuidar. Jobim podia até perguntar com genuíno interesse a Vinícius quando este lhe falou de uma colaboração: “Tem um dinheirinho nisso aí?”. Mas a noite era uma contingência.

No dicionário de figuras de Ipanema, Ruy Castro descreve-o do seguinte modo: “Ele foi o paradigma do bairro, moleque de praia, adepto de esportes, homem de enorme beleza física, aberto à natureza e à vida, sedento de livros e de conhecimento, bom de copo, inestancavelmente criativo e com um senso de humor ideal para a grande especialidade de Ipanema: conversa fiada”. António Carlos Jobim foi criado com a Lagoa Rodrigo de Freitas aos pés, nadava do Arpoador a Copacabana e voltava. O cheiro a maresia corria numa veia paralela, atravessava-lhe o corpo todo. A sua música não podia deixar de reflectir isso. Deslizava de Copacabana, sombria, nocturna, para o bairro de Ipanema, solar, salgado.

O encontro desse moleque com um homem do mundo, um diplomata que abominava a burocracia, um poeta formado em Oxford, mudou o curso deste rio. No mesmo dicionário, Castro resume o one man show Vinícius de Moraes: “Encarnou a coexistência entre o [Palácio do] Itamaraty e o [bar] Veloso, o uísque e o chope, o asfalto e o morro, a poesia e a letra de samba. A influência dessa dualidade sobre os jovens que conviveram com ele em Ipanema nos anos 50 e 60 foi tremenda”. Do folclore em torno de Vinícius são obrigatórias frases como: “O uísque é o melhor amigo do homem: é o cachorro engarrafado”. Ou os seus nove casamentos. Ou o facto de receber todo o mundo, conhecidos ou não, na banheira.

Esta bandalheira ainda não era permitida quando a Bossa Nova se anunciou. Vinícius era o poeta diplomata que outorgava ao movimento o prestígio do Itamaraty e de Oxford. Versos pueris como: “Pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca” não eram menos que a sua alta poesia, já escrita. Eram, pelo menos, um indicador: No more blues.

Na família Bossa Nova, Bôscoli, Menescal, Nara, Lyra, podem ser lidos como os primos muito chegados e muito novos. Falemos de grana para falar de Nara. Parece injusto que a associação comece por ser esta. Mas a verdade é que este ramo da família não teria sobrevivido se não fosse o apartamento gigante que Nara tinha na Avenida Atlântica. Uma sala de 90 m2, um pai advogado e beneplácito, uma irmã (Danuza) que aos 15 anos tinha Di Cavalcanti por melhor amigo. Millôr Fernandes ia lá jogar póquer uma vez por semana; e nessa altura os meninos pegavam no violão e iam fazer Bossa Nova para outro lado. Fora isso, a casa era um entra e sai permanente.

Tom e João não estavam sempre lá – tinham mais que fazer, nomeadamente ganhar a vida. João vivia encostado na casa deste e daquele, meses e meses, até que simpaticamente, ou nem tanto, lhe apontavam a porta da rua. Não tinha um vintém. A ponto de bater à porta do abastado Menescal e perguntar: “Você tem um violão aí? Podíamos tocar alguma coisa?”. A ponto de usar uma camisola de Bôscoli na fotografia de capa de “Chega de Saudade”. Vivia na absoluta penúria.

Não ganhava a ninharia que os outros ganhavam porque não se dispunha a fazer figuras tristes – ainda fez algumas, apesar de tudo, como cantar fantasiado num programa de televisão. Diz-se que chegou a passar fome. As excentricidades de João são antigas, e não fazia nada que não faça hoje: levantava-se e ia embora quando faziam barulho na assistência, fumava maconha e esquecia-se das horas, exasperava orquestras e maestros por séries ininterruptas de gravação, e atrevia-se a dizer a Tom: “Puxa Tom, como você é burro”, porque Jobim não detectava o erro colossal (?) que aquele acorde continha.

Arrastava a fama de génio de ouvido absoluto. Tinha uma fala mansa. “A voz de João Gilberto era um instrumento (…). O homem cantava num andamento e tocava em outro. Na realidade não parecia cantar – dizia as palavras baixinho. (…) Para Menescal e Bôscoli, naquela noite, João Gilberto era a realidade encarnada do que até então, eles vinham procurando às cegas”. (“Chega de Saudade”). Tom pensou que João “deixara de ser o discípulo de Orlando Silva, com toques de Lúcio Alves. Cantava agora mais baixo, dando a nota exacta, sem vibrato, estilo Chet Baker, que era a coqueluche da época. Mas o que o impressionou foi o violão. Aquela batida era uma coisa nova”. O mundo inteirinho enchia-se de graça e ficava mais lindo por causa de João Gilberto. Muitos anos mais tarde, Caetano resumiria isto no verso: “Melhor do que o silêncio só João”.

Assistia-se a uma epifania. Mas pouco antes, o pai de João sentenciava a morte do género: “Isto não é música. Isto é nhém-nhém-nhém”. Talvez o abastado senhor Oliveira ainda tivesse esperança de ver o filho doutor, como vira todos os outros. Mas o altifalante de Juazeiro tocou mais alto.

“Canção de Amor Demais”, da “enluarada” Elizete Cardoso, materializou em vinil a novidade. A Bossa. Integralmente assinado por Tom e Vinícius, a álbum tinha como plus João Gilberto a tocar violão em duas faixas. Elizete era uma cantora da velha guarda, e o disco anunciava formalmente a mudança. Por causa do repertório. Elizete cantava à moda antiga, e um exercício eficaz para se perceber o que é a Bossa Nova e o que é o génio de João Gilberto é ouvir a versão que um e outro fizeram de “Chega de Saudade”. Três meses depois da diva, João gravou o seu 78rpm com “Chega de Saudade” de um lado e “Bim Bom” do outro. Pediu um microfone para o violão e outro para a voz – o que nunca tinha sido pedido. E fez uma novela em sucessivos capítulos da simples gravação das duas canções. Os jovens da Zona Sul, endinheirados e ensolarados, já conheciam “aquilo”, mas agora tinham um disco a partir do qual podiam tocar, tocar, tocar, até aprender.

Demorou até pegar. Mas transformou-se num fenómeno que não cabia na praia de Ipanema nem na de Copacabana. Dois meses depois, em Janeiro de 59, saiu o primeiro LP (long play, como se dizia, e é o que significa). O habilíssimo Tom Jobim, que além de bares e puteiros tinha um emprego fixo na editora Odeon, escreveu para a contra-capa de “Chega de Saudade” que João “em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. (…) João acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura. (…) P.S.: Caymmi também acha”. Ary Barroso, também. Cyro Monteiro, também.

O melhor da velha guarda “entendia” o que estava a acontecer. Lúcio Alves gravou um disco inteiro com composições desses garotos, Bôscoli/Menescal. A Elenco, editora dissidente da Odeon, do veterano Aloysio de Oliveira, lançava no mercado pérola sobre pérola. O grafismo era depurado, monocolor. Mas o que parece ser uma aposta arrojada resulta da escassez de dinheiro. Tudo em ebulição, portanto.

As canções eram tocadas por todos, compostas por Tom/Vinícius, Tom/Mendonça, Bôscoli/Menescal, e por Bonfá e Carlinhos Lyra. As canções eram cantadas por todos. Sylvia Telles (ao ouvi-la, é fácil perceber porque é que Marisa Monte a venera) gravou dois LP em quatro meses, com 24 canções. A safra era de cortar a respiração. “Samba de uma nota só”, “Dindi”, “Samba do Avião”, “A Felicidade”, “Desafinado”, “Insensatez” – por exemplo.

O disco da consolidação chamou-se “O Amor, o sorriso e a flor”. João Gilberto sugeriu a Jobim: “Tomzinho, essa coisa de “um cigarro e um violão”. Não devia ser assim. Cigarro é coisa ruim. Que tal se você mudasse para “um cantinho, um violão”?”. Ruy Castro explica as razões deste desconforto: “João tomara-se de tal horror pela maconha que passara a responsabilizá-la por todos os seus fracassos iniciais”. Ficou um cantinho e um violão (esse amor e uma canção, pra fazer feliz a quem se ama).

O que lhes aconteceu a seguir? Antes do grande cisma, uma nota sobre Helô, que inspirou “Garota de Ipanema”. Ao contrário do que se diz, não foi no bar Veloso, mais tarde denominado de Garota de Ipanema, que a música foi escrita. O que é facto é que Tom e Vinícius viam ali passar aquela garota, que coisa mais linda mais cheia de graça. Mas foi nas suas casas, e em separado, que criaram a celebérrima canção. Estava-se em 1962, e só anos mais tarde Helô soube que o seu balançado parecia um poema. Era filha de um general e tinha um noivo ciumento. Ia ao Veloso comprar cigarros para a mãe. Teve um destino de dona de casa, uma vida sem ponto de exclamação. Só quando os dias se amarguraram como um bolero dos anos 50, conheceu a libertação; e então pousou nua para a Playboy, cumprindo com décadas de atraso o sonho de muitos amantes da Bossa Nova. Hoje aparece na Caras a festejar o aniversário, estereotipada e loura, com sorriso postiço e corpo enxuto.

Quando Stan Getz, Astrud e João gravaram um disco para a Verve, e com ele bateram a beatlemania, ninguém poderia acreditar que poucos anos antes João Gilberto batia à porta de um desconhecido a perguntar se havia ali um violão. Ninguém apostaria que Astrud ficaria nos Estados Unidos até hoje a fazer carreira no circuito jazzístico. Em 1962 a Bossa estava moribunda, exaurida. Era um troço auto-fágico. Basicamente, já não se podiam aturar uns aos outros. As brigas tinham um aspecto raivoso e diluviano (como diria Nelson Rodrigues). Os namorados e as namoradas eram trocados de uns braços para outros. O dinheiro era incerto. O alcoolismo grassava em todas as frentes. Existia um excesso consanguinidade. E como é sabido, há um momento em que todas as famílias começam a apodrecer.

O concerto no Carneggie Hall deu o toque de debandada, e depois dele o núcleo duro da Bossa Nova “exilou-se” entre Manhattan e a Califórnia. Mas no seio da “turminha” a cisão aconteceu antes e, como seria de esperar, por um assunto de saias.

Primeiro, uma cantora extraordinária de nome Maysa anunciou no aeroporto, perante jornalistas, que ia casar com Bôscoli. Depois Nara rompeu com Bôscoli e decidiu não cantar os temas que ele tinha composto para ela. Por fim, ou se estava com Nara ou se estava com Bôscoli. Sequência: Nara reaproximou-se de Carlinhos Lyra, que já tinha rompido com Bôscoli, e fez uma abordagem à música do morro e à canção de protesto. Renegou tão enfaticamente o seu passado e a turminha que acabou zurzida de cima a baixo. O disco que punha o último tijolo no movimento e na relação foi “Opinião de Nara”. Continha sambas, marchas de Carnaval, canções de protesto. “Chega de Bossa Nova, chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro que tem muito mais a dizer. (…) Se estou me desligando da Bossa Nova? A Bossa Nova me dá sono” (Nara em entrevista, citada no livro do Ruy Castro). Foi acusada de ingratidão. Mas a pobre menina rica, sentia no ar o fim de um tempo. Esboroava-se a rêverie dos anos Kubitschek, o progresso estancava.

Longo sono. Um sono de Bela Adormecida.

Foram precisas décadas até que a Bossa Nova fosse reabilitada no Brasil. No circuito internacional, de modo irregular, sempre se ouviu e praticou. Em especial pelos parentes próximos do jazz. Moacyr Santos, o maestro que compôs obras primas como “Coisas”, fez toda a sua carreira nos Estados Unidos. Sérgio Mendes também. Para já não falar de Tom e João que viveram pelo menos 20 anos fora. Vinícius acabou expulso do Itamaraty – “expulsem esse vagabundo”, dizia o telegrama, corre a lenda. Por mau comportamento. Má imagem. Alcoolismo entre outros pecados – para dizer depressa.

Morreu antes de Tom.

Tom morreu antes de João.

João celebra esta noite os 50 anos da Bossa Nova no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Pensará nos outros dois antes de entrar em palco? Sentirá falta daquele longo e interminável dia das suas vidas? Um dia que durou alguns anos.

 

Publicado originalmente no Público em 2008