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Anabela Mota Ribeiro

Ensaio sobre a Cegueira

22.05.22
Sábado, 21 Maio, em Paris: Noite da Literatura Europeia.
A convite do Camões, da sua directora Isabel Corte Real, falei do Ensaio sobre a Cegueira de Saramago.
Partilho convosco algumas notas da minha intervenção, feita em francês, nos 20 minutos de que dispunha.
 
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Livro dos Conselhos (epígrafe)
Publicado em 1995, quase a terminar o milénio: visão pessimista do fim do século. Distopia literária.
A viver em Lanzarote desde 1993. Livro foi já escrito entre os vulcões da ilha. Cor negra. Isolamento.
Deus, a relação com a religião, é um tema central na obra de Saramago. Neste livro, questiona as origens da nossa civilização ocidental. Na base, Saramago, encontrou a mentira, o dogma, a crueldade. Esse questionamento, iniciado no Evangelho segundo Jesus Cristo, é o que prossegue no Ensaio sobre a Cegueira.
 
Celebramos o centenário de Saramago.
Nasceu em 1922, morreu em 2010.
Prémio Nobel em 1998
“... que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”.
Depois do “Ensaio sobre a Cegueira”, disse que se pudesse ser recordado por alguma coisa no futuro, queria ser recordado como o criador do Cão das Lágrimas.
 
Este é o livro mais lido de Saramago e, depois de dois anos de pandemia, a sua escolha é inevitável. Como no romance, vivemos uma pandemia altamente contagiosa, que nos pôs em contacto com o medo, a doença, a mortalidade, com uma situação limite. E o que se revela nessas situações limite? E agora que saímos, perguntamos: como seguimos em frente?
No romance: pergunta-se porque cegámos?
Na nossa vida: a pandemia não foi uma alegoria, mas obrigou-nos a repensar o modo como vivemos. Os sentidos de ver e reparar.
 
Romance de ideias, com perguntas:
Apocalipse: uma inexplicável epidemia de cegueira branca, os olhos vêem um mar de leite.
- Epidemia é física e espiritual?
- Quem vê?, olhos ou cérebro?
“O médico sorriu sem querer. Os olhos não são mais do que umas lentes. É o cérebro quem realmente vê”.
- O que vemos realmente? Somos cegos que vêem, como se escreve no romance?
 
“Como quem vai por um caminho e encontra uma pedra, levanta-a para ver o que está debaixo: isso é o que faço”: ou seja, é preciso voltar as coisas para as ver de verdade — diz Saramago.
Questiona as fronteiras entre aparência e realidade, porque olhar para o invisível aumenta a compreensão do real, ajuda a ver a indignidade, a decomposição.
Precisamos olhar a realidade cara a cara.
No livro, há a intenção de estimular o espírito crítico, manter a inquietude.
“A palavra que mais gosto de dizer é não.” Não é a palavra transformadora, agente de mudança do status quo.
 
Compreendemos que, nas relações de domínio, e em situações limite: aparece o monstro que temos em nós, a crueldade, o egoísmo, a irracionalidade humana, a violência, a brutalidade, a desumanidade, aparece o “homem lobo do homem”, Homo Homini Lupus, expressão latina tornada célebre pelo filósofo inglês Thomas Hobbes.
Ou seja, neste livro de Saramago, como em todos, há uma dimensão ética e política. O humano é aquele que faz escolhas. Então, que escolhas fazemos?
 
Espaço e tempo não são concretos.
Personagens sem nome, e por isso universais. Humano e global.
A rapariga de óculos escuros. O velho da venda preta. O primeiro cego. O rapazinho estrábico. O cão das lágrimas.
A excepção: a mulher do médico.
 
Género: romance, ensaio.
Fábula, alegoria, analogia, parábola sobre os males contemporâneos, sobre o mundo capitalista.
 
Reparar: deter-se, olhar de outro modo, abandonar a ligeireza, recapacitar-se.
Epígrafe do Livro dos Conselhos. Ressonância bíblica.
 
A parábola dos cegos de Bruegel, o Velho. Século XVI, conduzidos também por um cego. “A prova definitiva de que Deus não existe é a queda dos cegos de Bruegel”.
 
 

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Catarina Furtado e Helena Furtado

10.05.22

A primeira coisa que surpreende é a Catarina Furtado ser sempre a Catarina Furtado. Com a mãe, numa tarde de sol, a recordar o tempo em que foi filha, mantém a fisionomia, a cadência do discurso, o riso que conhecemos da televisão. A gestualidade também é a mesma. A autenticidade é talvez uma maneira de compreender a razão por que, há mais de 20 anos, é uma das apresentadoras mais populares no país. Mas há um mundo anterior ao sorriso, que marca a atitude, e que está na relação entre mãe e filha, que importa identificar. Sem a Crinabel não seria possível compreender a Corações com Coroa... Sem a Helena não se compreenderia a Catarina.

Os bastidores da entrevista: o pedido é feito ao assessor de Catarina Furtado. Hora e local combinados em função da disponibilidade da apresentadora, que anda pelo país a gravar um programa para a RTP. Mãe e filha chegam em separado. São calorosas, cúmplices, entregam-se à conversa. Catarina traz uma blusa cor de mostarda de Nuno Baltazar, o criador de moda que a veste há anos, e que põe para as fotografias. Está maquilhada, penteada, está a Catarina Furtado. Sabe evidentemente como posar, domina as questões da imagens. Evidentemente. O trabalho dela passa por aqui. Tem 42 anos e é desde os 19 um sorriso que todos os portugueses conhecem.

Helena acabou de fazer 70. É fácil perceber como foi uma mulher bonita, o olhar profundo, a herança goesa. Mais do que tudo, fala embevecida da filha, das filhas, do marido. É uma mulher interessante, com um percurso social e familiar insólito. De certa maneira, parece encarnar a alegria que acompanha a filha.

Na entrevista concordaram, discordaram, interpelaram-se, surpreenderam-se.

Mais do que de televisão, falou-se da Catarina embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, da vocação solidária que sempre teve, do ambiente em que nasceu e que permite identificar os pontos nucleares do percurso, da estrutura. O que Vejo e Não Esqueço, o livro que convoca a experiência de Catarina em acções de solidariedade e voluntariado, a ser lançado amanhã, não estava sobre a mesa. Helena ainda não o tinha visto.

 

Ocorre-lhe alguma carta que a Catarina tenha escrito, daquelas cartas que as crianças escrevem à mãe?

Helena Furtado – Ocorre. Aquela que escreveste de Bruxelas.

Catarina Furtado – Dessa falo no livro.

Helena – Ainda não li o livro, não sei o que diz... Tenho a carta muito presente. Senti um orgulho por, com aquela idade, escrever uma carta com aquelas referências. Eu tinha um irmão que tinha umas possibilidades económicas muito maiores do que as nossas, e que levou a Catarina a passar férias com ele.

Catarina – Eu tinha 14 ou 15 anos.

Helena – E tudo era muito fácil. Comprava-se tudo. Os condomínios eram os melhores, as melhores habitações.

Catarina – Era mais das compras nas lojas que eu falava.

Helena – Falaste de tudo. O sítio onde estavam, que era maravilhoso. E depois dizias: “Agradeço a forma como me educaram, porque é uma maneira melhor.”

Catarina – “Porque assim não se dá valor ao que se compra”. Helena – Mesmo que se possa, a vida não deve ser assim tão fácil, dar às crianças tudo o que elas querem.

 

Lembra-se bem desta carta, tanto que a incluiu no livro.

Catarina – Não fui eu que me lembrei de a pôr no livro. Foi o meu pai.

Helena – O pai sentiu-me um bocado vaidoso. Sem ter estado a martelar, a Catarina e a Marta absorveram princípios que ele achava que eram os correctos. E eu também.

Catarina – Não tinha consciência que a tinha escrito. Fui recuperá-la no baú das coisas do meu pai. O meu pai guarda tudo.

Helena – O pai deu-lhes um dossier, a cada uma, no dia do pai, com tudo, tudo.

Catarina – Desde o primeiro desenho.

Helena – Aconselho os pais a fazerem isso, a guardarem tudo. Parece que não é nada, mas é muito importante para ver a evolução.

 

Quando olha para essas cartas e desenhos, quando olha para os seus anos de formação, o que é que aparece mais flagrantemente?

Catarina – O meu pai guardou todas as folhas da escola primária, onde aparecem os comentários sobre a aluna. A timidez, o ser atenta aos outros. No livro falo de um colega por quem a professora tinha um carinho especial, que vinha de um meio difícil. Ele desenhava super bem. (A professora também era especial. Assim como a minha mãe, como professora foi sempre especial.) Essa professora tinha a capacidade de olhar para ele e de lhe dar aquilo de que ele precisava, enquadrá-lo. Nunca mais o vi. E não é que o encontro na semana passada? “Nelson, passaram 30 e tal anos”. Ele disse: “Sabes o meu nome! Foste tão importante, tu e a professora.”

 

Vamos ao princípio, ao momento em que conheceu o pai da Catarina. A história começa aí.

Helena – Conheci o pai da Catarina só pela voz. Tinha tido um acidente a cavalo, estava numa clínica e ouvi uma voz. Viro-me para o José Nuno Martins e digo: “De quem é esta voz tão gira que apareceu agora?”. “É um puto que entrou para a rádio este ano. Vais ver que vai ser alguém”.

Catarina – Vai ser alguém é uma expressão tão tola. A pessoa já é alguém.

Helena – Alguém na rádio.

 

Conhecia o José Nuno Martins e o meio da rádio porquê?

Helena – Porque andei na Rádio Universidade e o Zé Nuno também.

Catarina – A minha mãe, vinda da família tradicional, cheia de recursos, brasonada, saiu uma grande rebelde. Mas porque é que a mãe quis ir para a rádio?

Helena – Porque era giro.

 

Como é que era a sua família?

Helena – Era muito conservadora. Super católicos.

Catarina – Havia aulas de piano e Francês em casa.

Helena – A minha mãe foi uma das primeiras pessoas a tirar Belas Artes. E o meu pai também. Era suposto terem uma abertura. Os filhos podiam fazer a vida que quisessem, mas as filhas, não. Iam levar-nos à escola. Iam buscar-nos à escola.

Catarina – Esperavam que a mãe fizesse o quê, na vida?

Helena – Esperavam que tirasse o curso de Pintura. E quando chegasse a idade, casasse. Éramos sete irmãos, seis foram para Pintura e Escultura. Só o mais velho é que foi para Medicina.

 

A riqueza da família...

Helena – Era dos meus avôs, quer de uma parte quer da outra.

Catarina – A parte da minha avó vem de Goa. A parte do meu avô vem do norte.

 

Como é que foi a sua infância?

Helena – Foi muito feliz, cortada pela censura do meu pai. Vou mostrar-lhe esta fotografia...

Catarina – A minha mãe é esta. Esta é a piscina em casa dos meus avós. Uma beleza de Hollywood.

Helena – Vivíamos em Lisboa num prédio que o meu avô tinha comprado. Um andar para cada filho. Um jardim enorme por cada andar.

 

Porque é que a Helena ficou tão exterior a esse ambiente?

Helena – O pai [Joaquim Furtado] tem a mania que foi pela presença dele, mas não. Já antes de o conhecer andei em coisas irreverentes. Na Tarantela (um café) convivi com pessoas da Rádio Universidade, quando ainda frequentava a António Arroio. O Quim muito chateado porque tudo girava à minha volta.

 

Era especialmente bonita. Quando se vêem as fotografias desse tempo, é como se se estivesse a olhar para a Catarina.

Catarina – É mais a minha irmã.

Helena – Eu tinha noivo, para casar. Olhei para o Quim: “É giro. Pena ser tão novo.” Ele é três anos mais novo que eu.

Catarina – Ele está mais bonito agora do que antes.

 

O que é que foi tão atraente no Joaquim quando o conheceu? Além de ser bonito e novo.

Helena – Era a forma de ele ser.

 

Imagino que se distinguisse do seu noivo, conservador, com um perfil adequado à expectativa do seu pai.

Helena – A minha mãe já tinha ido escolher as alcatifas ao Rossio para a casa que íamos habitar [risos]. Era um chalé no Campo Grande.

Catarina – Depois foram para umas águas-furtadas de uma assoalhada, quase. Estou a brincar, mas o contraste...

Helena – Não me arrependo de nada.

 

O que é que sabe da história de amor dos seus pais?

Catarina – Sei mais pela minha mãe do que pelo meu pai. O meu pai não conta muito. O meu pai vem de um meio mais humilde. Isso deu-me os ingredientes complementares. Se tivesse só [o estilo de vida] de uma família tradicional como a da minha mãe, apesar de a minha mãe ser rebelde, tolerante... Há questões muito evidentes na sua educação que se mantêm.

 

Por exemplo.

Catarina – A nível religioso. A minha mãe só viveu dificuldades já casada com o meu pai – o que demonstra uma coragem muito grande. É uma das coisas que mais admiro na minha mãe. Isto são provas muito evidentes de que o amor salva. O amor reorganiza, abana e acrescenta. A minha mãe ficou acrescentada e o meu pai ficou acrescentado. Não só pelo que viveram, mas pelas vidas que trouxeram um ao outro. Têm raízes completamente diferentes. O meu pai tem muito mais medo de arriscar do que a minha mãe. E tem a ver com isso.

 

Há uma confiança de base em relação à vida quando se nasce bem – é isso?

Helena – Tenho uma posição muito positiva. Acho sempre que vamos ultrapassar [as dificuldades].

Catarina – Tenho a certeza de que este meu olhar atento aos outros tem a ver com estes dois pólos antagónicos.

 

A Catarina e a Marta cresceram sempre em contacto com esses dois mundos.

Catarina – Sempre.

 

De um modo geral, as pessoas têm pudor em falar de dinheiro e de como isso marca as suas expectativas e percursos. Em Portugal, o preconceito de classe era vincado quando casaram. Nos nossos dias, apesar dos passos dados, as pessoas continuam, de uma maneira geral, a casar com os do seu meio.

Catarina – E quem não o faz tem de atravessar [um deserto].

 

O pai do Joaquim era bombeiro.

Catarina – Mas o meu avô até sabia ler e escrever. A minha avó, não. Fruto das circunstâncias do tempo, da desigualdade com base no género, nunca aprendeu. E é das pessoas mais inteligentes que conheci até hoje. Com as características que tinha, se lhe tivessem sido dadas oportunidades, podia ter sido o quisesse. Isto é uma das coisas que me fazem mais confusão.

 

Imagino que a Helena tenha tido que lutar contra esse preconceito generalizado. Como é que foi?

Helena – No primeiros anos foi difícil. Não tanto para mim. Julgo que até mais para o meu marido.

Catarina – Comigo nunca falou de nada.

Helena – Falava. Contigo não, mas falava. Havia aquelas festas na casa da minha mãe...

Catarina – O meu pai também nunca se calava. Se se falava de Deus, o meu pai punha imensas questões. Se se falava de política, o meu pai punha imensas questões.

Helena – Eu dava-lhe muitos pontapés debaixo da mesa [risos]. Depois foi o maior amigo da minha mãe. Engraçado. A minha mãe adorava-o. A minha mãe passou meses em minha casa e ele sempre muito preocupado com o bem-estar dela.

 

Por mais irreverente que fosse, para olhar e se apaixonar desta maneira, o Joaquim tinha que ter qualquer coisa especial. Que é que era? Há pouco foi sumária na descrição.

Helena – Coisas que as pessoas não sabem muito bem dizer. Tinha um olhar. Era sedutor. E era uma pessoa com uns princípios claros e definidos que me encantaram.

Catarina – Não foi o sentido de humor?

Helena – Muito, também. E a poesia. Ele nunca publicou, mas tem cadernos de poesia.

Catarina – Agora tenho que ser eu a roubar aquilo lá em casa. Esta carta que o pai lhe escreveu ontem [pelos 70 anos de Helena], foi poesia?

Helena – Foi. Vamos fazer 44 anos de casados.

Catarina – Isso é maravilhoso. Está a ver? Tem que se portar melhor, a mãe porta-se muito mal.

 

Quando é que a Catarina começou com isto de a repreender?

Catarina – Sou a conservadora lá de casa.

Helena – É desde sempre. Não me deixava fumar. Tomava sempre a parte do pai.

Catarina – Não é verdade, não tomo sempre a parte do pai.

 

A Catarina é muito maternal, o que se exprime de diferentes maneiras, também nesta do tomar conta. Sendo mais disciplinadora ou mais terna.

Catarina – A minha mãe diz que sou muito autoritária.

Helena – Pode ser, um bocadinho [risos]. Mas tenho a noção completíssima que é por julgar que é o meu bem.

Catarina – Por julgar não: por ter a certeza. [risos]

Helena – Temos assim alguns arrufos. Sei que o faz pelo meu bem-estar, mas às tantas penso: “Tenho 70 anos!”.

Catarina – Há diferenças em nós. E há muitas coisas que nos unem. Até escolhas. O exemplo que a minha mãe teve com o meu pai é o exemplo que tenho com o meu marido.

 

No fundo, é um replicar da história de amor com que cresceu.

Catarina – Sim, e inconscientemente. Temos em comum a tolerância e o combate à discriminação. Se há coisa que os quatro temos é uma alergia à injustiça.

Helena – Desde criança, com a minha mãe, desagradava-me a maneira como ela tratava as empregadas. “Criadas”, na altura. Despedia-as por nada, não se importando com a relação que tínhamos com elas. Eram mais que mães para mim.

Catarina – O meu pai é um humanista por natureza. E um feminista. E o João [Reis, marido de Catarina] também.

A coisa que mais nos diferencia, e que justifica esta tendência para o autoritarismo (às vezes sou até manipuladora) é a minha mãe não ter força de vontade nenhuma.

 

Para quê?

Helena – Para as dietas [risos].

Catarina – Não é só para as dietas. É para tomar conta de si. São as coisas que lhe fazem mal à saúde – e a minha mãe está-se nas tintas. Os comprimidos não são tomados até ao fim. É preciso fazer exercício e não faz.

 

Porque é que desistiu de tomar conta de si?

Helena – Não desisti. Até fiz duas operações. Tenho dor de cabeça diária. Não há dia nenhum em que não acorde cheia de dores de cabeça. Mas não desisti. De vez em quando tenho umas fases... Apetece-me um doce, pronto. Gosto de comer bem.

Catarina – Todas as pessoas da minha família materna são pessoas grandes. Têm o culto da mesa.

Helena – Está no ADN, também.

Catarina – No meu felizmente, não está.

Helena – É sorte.

 

A Helena começou a engordar com que idade? Tinha a idade da Catarina?

Helena – Não, muito depois.

Catarina – Não foi nada, mãe. Foi antes.

Helena – Amor, a tua idade foi a minha melhor idade. Até aos 50 foi a minha melhor idade.

Catarina – Ontem encontrei uma professora minha do ballet. Foi uma emoção. De repente vejo a minha filha, com nove anos, no Conservatório onde andei toda a vida, com a mesma professora. “Catarina, estás na melhor idade de todas. A partir dos 50 tudo cai.”

Helena – Ainda ontem o pai disse isso. Dos 40 aos 50, sentia-me bem, bonita. Isto é um disparate! [riso]

 

Há uma fotografia do Facebook da Helena e da Catarina em que se percebe como era. Bonita e elegante.

Helena – Nessa fotografia, a Catarina tem seis. Eu tinha 32 anos. A marta nasceu em 1977.

Catarina – Nessa fotografia vê-se bem que o João Maria [filho] sou eu.

Helena – Também dizem que é a Beatriz [filha].

 

Começou a desenvolver esse sentido maternal muito cedo. Quando é que quis ter filhos?

Catarina – Sempre achei que ia ter filhos.

Helena – Todos os meus sobrinhos têm uma adoração por ela, todos.

Catarina – E eu tenho uma coisa muito especial por todos eles. Alguns até são mais velhos do que eu. Os filhos: não sei, desde sempre. Se estivermos a analisar, deep, deep, deep, esta vocação foi muito potenciada pelo facto de a minha mãe ter enxaquecas desde sempre. Não me lembro da minha mãe sem enxaquecas. A minha mãe passava muito tempo na cama e nós não podíamos fazer barulho. A partir do momento em que a minha irmã nasce, comecei a tomar conta dela. Mas aquilo para mim era natural. Não foi uma coisa que os meus pais me tivessem dito para fazer.

Helena – A Marta só vestia, só calçava o que a Catarina lhe dizia. “Tu não sabes, a Catarina é que sabe.”

Catarina – Sempre quis ter imensos filhos. Mas nunca pensei na questão do casamento.

Helena – O casamento pela igreja foi mais por mim, tenho a impressão. Por mim e pelos avós.

Catarina – Acho que não. Se tivesse que repetir, repetia tudo. Tirava os paparazzi e a avioneta a sobrevoar!

 

Na sua carreira, nos vários programas que foi fazendo, assumiu muitas vezes a atitude daquela que toma conta. Toma conta dos candidatos que vão prestar provas.

Catarina – Sim. Vou tendo afilhados, pessoas que tenho debaixo da minha asa. Os miúdos da culinária, os da dança..., tomo conta. Mesmo ao longe.

Helena – Vai sendo madrinha.

 

E de quem é afilhada? Quem são as pessoas a quem se entrega para que tomem conta de si?

Catarina – Não tenho muito jeito para que tomem conta de mim, tenho mais jeito para tomar conta. Pessoas de quem gosto e que tomem conta, mesmo que eu não precise e que faça a pessoa acreditar que está a tomar conta? O Diogo Infante. Era um sonho que tinha desde sempre, ter um irmão mais velho. Adoptei-o.

 

Quando baixa a guarda, quem é que toma conta de si? A sua mãe, o seu pai?

Helena – Eu, um bocadinho, em certos aspectos.

Catarina – Acho que são os meus filhos – sem perceberem que são eles. Quando estou em momentos mais frágeis, ou de maior instabilidade, são eles. Não há nada mais arrebatador do que o amor que sinto pelos meus filhos. Ali está tudo certo.

Normalmente, não preciso muito de desabafar, falar. Pergunto imenso, mas há um momento em que decido, mesmo contra todas os conselhos que me dão.

 

Os filhos é que são a passagem da menina para a mulher?

Catarina – [pequena pausa] Não.

Helena – Eu acho que sim.

Catarina – Acha?

Helena – O teu comportamento mudou. Passou tudo a ser em função dos filhos, tudo.

Catarina – Há 15 anos que sou embaixadora das Nações Unidas. As minhas duas gravidezes coincidiram com algumas viagens. Na primeira viagem que fiz [para a gravação do programa] “Príncipes do Nada” ainda não tinha feito os três meses de gravidez. Fui sem ninguém saber, a não ser o meu médico e o João. Muito francamente, penso que são as vivências a que tenho assistido ao longo destes anos que me fizeram, em tudo, mulher. A entender as mulheres. Mulher a entender-me a mim. Mulher a defender as mulheres. Muito mais do que ser mãe.

 

O que é que a Helena nota de diferente no comportamento da sua filha?

Catarina – Eu sei. Passei a arriscar menos.

Helena – Era muito aventureira e deixou de ser tanto.

Catarina – Por eles. Por pensar que se me acontecer alguma coisa… Nas viagens, na forma de viver. Apesar de não ser muito radical, era destemida.

 

Isso surpreende. Tem a imagem da menina bem comportada. Onde é que está esse lado destemido, aventureiro?

Catarina – Toda a gente diz isso. Ser bem comportada é uma coisa que foi mudando. Tinha muito mais pudor em dizer o que pensava. Sempre numa perspectiva de que havia alguém que podia não concordar e ficar ferido. Hoje não me incomoda nada dizer o que penso.

Helena – Mudaste muito desde o primeiro “Príncipes do Nada”. Ela vinha completamente transtornada.

 

De repente tinha encontrado a vida em cru, depois de anos vividos sob o estrelato. Contraste absoluto.

Catarina – Tinha consciência desse mundo. Apesar de viver no estrelato – cá para fora –, dentro de minha casa sempre se falou de desigualdade. O meu pai, jornalista, sempre trouxe o mundo real. O impacto resulta de ver com os meus olhos. O verdadeiro impacto resulta de estar tempo com as pessoas, e não passar por elas [de raspão]. E sentir que todos nós, em cada uma das nossas funções, podemos fazer muito mais do que fazemos. Isso deixou-me, nos primeiros tempos, quase paralisada.

 

Com a sensação de que tinha estado a desperdiçar tempo para trás?

Catarina – Sim. E a pensar que tem de haver uma fórmula de isto ficar mais equilibrado. Foi tudo muito inquietante. O maior impacto de todos – isso sim, mudou-me radicalmente – foi ver mortes evitáveis. Fazia o paralelismo constantemente.

Helena – Como ela tinha tido as crianças e os partos foram tão assistidos...

Catarina – Aí dá uma revolta. E todas as vezes que vou, volto muito revoltada.

Helena – Ela ficou com uma criança nas mãos [cuja] mãe morreu. Também julgo que a tua sensibilidade partiu um bocado da Crinabel.

 

Ainda não falámos da Crinabel, uma escola de ensino especial, onde a Helena trabalhou anos e de que foi fundadora.

Helena – Eu era professora do ensino oficial, mas escolhi ir dar aulas para a Crinabel. As minhas filhas foram para lá muito cedo. A Marta tinha três meses.

 

Dava aulas de Desenho?

Helena – De EVT, Educação Visual e Tecnológica. Depois criei um atelier de Artes Plásticas. Fizeram coisas maravilhosas, os alunos. Nos meses de férias, em que era preciso ir para a praia, e como tinha o problema das enxaquecas, a Catarina começou a ajudar-me a fazer o meu papel. Tinha para aí uns nove anos. “A mãe vai, fica à sombra”. E ela entretinha os miúdos, que gostavam muito mais de brincar com ela do que comigo, evidente. Ela conseguia jogar, brincar, levá-los à água. Havia lá um miúdo que andava sempre com um rádio. Naquele dia não pôde levar o rádio e ouviu um casal que estava a ouvir rádio. Chegou-se para lá para ir buscar o rádio. Tinha a mania de cumprimentar todas as pessoas, todos muito simpáticos... Mas a senhora disse para a Catarina: “Tire-me isto daqui!”.

 

Começa o livro por este episódio. A Catarina conta que cuspiu à senhora por esta se referir ao menino como “isso” e pedir que lho tirasse dali.

Helena – Foi de tal maneira que [aquele casal] foi pedir à capitania para nos obrigar a ir para outro sítio.

 

Fale da importância que a Crinabel teve para si. Foi uma primeira forma de lidar com o diferente.

Catarina – Com a discriminação.

 

Eram sobretudo meninos com Trissomia 21?

Helena – E com autismo e problemas cerebrais.

Catarina – Havia também crianças com dificuldades de aprendizagem.

 

Sentia-se afortunada porque as suas filhas não tinham nenhum daqueles problemas?

Helena – Eu sentia-me muito agradecida, todas as noites. É muito duro para os pais. Íamos de propósito fazer uma semana fora com eles para que os pais tivessem uns dias [de descanso].

Catarina – Eu não me sentia afortunada porque não tinha essa consciência. Quando fazia o voluntariado, com esta idade, não sentia diferença. Para mim era muito estranho alguém estar a apontar. Só sabia que eram alunos da minha mãe. OK, não eram exactamente iguais a mim, mas nunca os vi como menores ou diminuídos. Nunca. O que sentia pairar no ar, porque a minha mãe devia falar sobre isso, era a ideia de que os pais iam morrer.

 

E que aqueles meninos iam ficar desamparados?

Catarina – A Trissomia 21, agora não tanto, estava muito associado a mães mais velhas. Havia uma nuvem negra e pensava: “Coitadinhos, vão ficar sem os pais”.

 

Quais eram os seus medos de infância?

Catarina – Só tinha um medo: morrer. Ainda é o mesmo, ainda não o resolvi.

Helena – Muito, muito.

Falava nisso?

Catarina – Sim, tinha pânico de morrer. Não me imaginava a morrer de nenhuma forma concreta, nem de doenças. Mas imaginava que um dia isto acaba. É a frase que me tem perseguido.

Helena – O pai dela também tem isto. Eu não.

Catarina – O medo intensificou-se. Porque tenho os filhos. Um dia não vou ver mais os meus filhos? E os meus pais? Fico sem chão. Viro a menina não-mulher. Uma criança autêntica. Não consigo resolver isto. Ninguém dá uma resposta.

 

Voltemos lá atrás. Muito rapidamente, a Catarina transformou-se no fenómeno que todos conhecemos. Temeu por ela, que o estrelado a desestabilizasse demasiado?

Helena – Não. Tinha tanta confiança nela, na força dela. Só fiquei muito triste quando decidiu ir para Londres.

 

Era uma miúda de 19 anos apontada como “a namoradinha do país”. Uma pessoa está ainda a formar-se, é muito fácil perder o pé.

Catarina – Sim, vemos tantos exemplos.

 

Há um processo de passagem do tempo que é feito à vista de todos. Pode ser cruel. É seguramente difícil de gerir.

Catarina – É violento.

Helena – Nunca tive medo. Ela não procurou a glória.

Catarina – Glória: que palavra antiga e bonita. Não sou nada ambiciosa, é verdade.

Helena – Não queria nada dar nas vistas.

Catarina – É curioso, ninguém acredita nisso [risos].

Helena – Mas eu sei que é assim. Fomos uma vez para a casa da minha irmã, para uma praia deserta, entre rochas: “Pronto, aqui estás segura, aqui estás bem”. Ela tinha essa preocupação, não queria que as pessoas se metessem.

Catarina – Não é que se metessem, com isso não tenho problema nenhum.

Helena – Tu falas com as pessoas. Se forem velhotes e criancinhas, estás na maior.

Catarina – Se for a minha geração, tenho menos paciência.

 

“E se não gostarem de mim amanhã? E se não tiver audiências e perder a graça?” Teve este fantasma? Uma parte do sucesso tem que ver com a juventude, com a graciosidade.

Catarina – Tem. Mas até nisso as coisas têm sido harmoniosas. Não tenho hoje a audiência que tinha há uns tempos.

Helena – Também por conta do trabalho que fazes.

Catarina – Há coisas que são opções minhas, outras não. Tenho tido o privilégio de poder fazer escolhas. A passagem da SIC para a RTP ainda vem no apogeu de formatos como o “Dança Comigo”, que foi top de audiências. Na RTP, baixaram as audiências, não só as minhas. Sei que é uma coisa com a qual tenho que lidar todos os dias. Vou lidando porque encontrei um caminho onde me sinto completamente feliz, que é este meu lado [solidário]. Não sei se consigo sobreviver dele. Por enquanto tenho conseguido conciliá-lo [com outros formatos e projectos]. O facto de saber muito bem o que quero, onde me sinto bem, dá-me essa tranquilidade.

 

Como é que se fez tão segura de si, tão a saber o que quer?

Catarina – Não sei. Há aqui uma coisa importante. Não quero um império Catarina Furtado. Nunca quis. A descentralização é o segredo para a minha tranquilidade. Não vivo mesmo a pensar em mim. Preocupo-me com o meu projecto profissional, sou muito obstinada, muito trabalhadora.

 

Toda a gente diz que chega sempre a horas, é dedicada, profissionalíssima. Não se permite não ser assim?

Catarina – Nem o permito aos que trabalham comigo. Sou muito exigente comigo e sou muito exigente com os outros. Só assim alguém pode dar passos seguros em qualquer profissão. Mas as coisas não estão no meu umbigo. Não é o meu umbigo que dita os meus passos.

Helena – Sempre deste passos com os outros. Isto leva a que não tenhas preocupações excessivas contigo própria.

Catarina – Não foi premeditado. Foi natural ter criado a [associação] Corações com Coroa. Não seria nada natural construir um emprego à volta da minha imagem. Não me sentiria realizada. Isso sim, trar-me-ia muitas inseguranças.

Helena – A segurança dela é inata.

Catarina – Mãe, não é verdade. Em criança não era nada segura. Era tímida, e a timidez passa por uma certa insegurança.

Helena – Eras tímida até certa altura.

Catarina – Até entrar no Conservatório. Mais do que segura, adoro andar cá. Adoro pessoas, adoro lidar com pessoas. Gosto muito de viver, gosto muito de rir. Sempre fui assim.

Helena – Nesse aspecto, sais a mim.

 

Então, sai mais a si ou ao Joaquim?

Helena – Vou ser muito franca. O rigor, a disciplina, algum pessimismo: sai ao pai. O rir, a alegria, é mais eu.

Catarina – Sou uma boa mistura.

 

Ele vai divertir-se se ler isto?

Catarina – Vai censurar. O meu pai sempre afirmou o que pensava, mesmo que isso significasse um despedimento logo a seguir. O não ter medo, vem dele. Isto deu-me um mundo enorme.

 

Querem dizer uma última palavra? Uma palavra para a sua mãe.

Catarina – Luz.

 

Uma palavra para a sua filha.

Helena – Tudo.

Catarina – Oh, querida.

Helena – É mesmo.

 

Publicada originalmente no Público em 2015

 

 

 

 

 

Yvette Kapferer

09.05.22

Yvette Kapferer viveu uma vida aventurosa de que se lembra bem. Nasceu numa família judia, abastada, em Paris. Foi campeã de golfe francesa. Entre 1940 e 1945 trabalhou na Escócia, numa base militar. Servia sanduíches, limpava o chão, sentia-se útil. Permitiu-se chorar quando viu E Tudo o Vento Levou, numa ida a Londres, durante a guerra. Antes disso, passou brevemente por Portugal, em 1940. O seu visto, muito provavelmente, foi passado por Aristides Sousa Mendes em Baiona.

Nasceu no dia 19 de Agosto de 1917, em Paris. Viveu cinco anos a pensar que, nesse dia, ou no seguinte, ou no outro depois desse, “seria eu ou outra pessoa a morrer”. Era a Segunda Guerra mundial, na Escócia. Casou com um inglês (em 1937), um holandês (em 1947) e um dinamarquês (em 1956). Teve dois filhos, Phillip e Sandra, do primeiro e do segundo marido, respectivamente. Deu-se com as famílias reais europeias. Teve um restaurante chamado Três Porquinhos, em Cascais.

Não era a primeira vez que estava em Portugal quando em 1940 escapou por Lisboa, então o último porto livre da Europa. Vivera aqui com o marido, uns meses apenas. Ao contrário de milhares de judeus, a sua intenção era voltar à Escócia, para servir durante a guerra. Foi uma refugiada sem medo.

Findo o conflito, regressou a França. Viveu novamente em Portugal entre 56 e 68. Em França entre 68 e 76 (onde teve um château-hotel). Na Califórnia, entre 77 e 89. Desde então, vive em Portugal.

Sandra van Heel, a filha, assistiu e participou eventualmente na entrevista. Nasceu em Paris em 1948. Nesse tempo, os pais eram amigos do rei da Bélgica, Leopoldo, e da mulher, Liliane de Rethy. “Jogavam golfe juntos, faziam férias juntos. Era suposto Liliane ser a minha madrinha – eu chamo-me Sandra Liliane. O meu quarto de criança foi todo pago pela corte belga!”

Quando Yvette Kapferer fez 90 anos, Sandra fez um discurso no qual disse que a mãe tinha sido uma péssima mãe, mas que era uma amiga maravilhosa.

É também uma maravilhosa contadora de histórias.  

 

 

Que significado tem, para si, a palavra perigo?

Creio que estive em perigo na guerra, todos os dias. Conduzia uma cantina móvel, servia os pilotos noite e dia. Levantava-me às sete da manha, ia ao padeiro buscar comida, e no aeroporto de Drem [North Berwick, Escócia] fazia cerca de mil sanduíches. Servia em dez sítios diferentes, onde estavam os pilotos e os mecânicos, e depois ia a outro aeródromo chamado East Fortune. Chamavam-lhe Misfortune [Infortúnio], porque muitos aviões se tinham despenhado ali... Mas o perigo nunca me preocupou.

 

Como é que se pode ignorar o perigo em toda essa rotina?

Eu sabia que eles iriam despenhar-se. Seria eu ou outra pessoa a morrer. Trabalhava em dois aeródromos, podia tirar dois dias de licença, se quisesse. Costumava ir num comboio, de Edimburgo para Londres, que era bombardeado e metralhado pelos alemães, todas as vezes. Não me importava. Ninguém se importava.

 

Soa mágico, e simultaneamente aterrador. Como é que as pessoas conseguiam seguir a sua vida?

Eram fatalistas. Tem que se ser fatalista durante a guerra. Sabia que podia morrer a qualquer instante. Às seis da tarde sabíamos que os aviões alemães estavam a chegar, ouvíamos as sirenes. Depois andávamos pela rua, dançávamos nos night clubs, com os pilotos, que sabiam que iam morrer, e morriam, no dia seguinte, ou no dia depois desse. Bebíamos, fazíamos brindes, ríamos, íamos ao Hotel Ritz. Os ingleses eram incríveis. Nunca se dizia: “Vemo-nos amanhã”. Ninguém sabia se se veria no dia seguinte. Provavelmente não.

 

Alguma vez esteve numa situação de perigo agudo?

Um night club muito famoso em Londres, o Cafe De Paris, foi atingido directamente. Eu estava com o meu marido, ele estava de licença antes de ir para o Egipto três anos. Tínhamos feito uma reserva e no último minuto ele disse que tinha alterado a reserva, que íamos a um restaurante italiano muito bom, na mesma praça, em Leicester Square. Por volta das oito começaram os bombardeamentos. No restaurante tudo abanava, os candeeiros, as louças. A polícia entrou a pedir ajuda. No Cafe De Paris tinham morrido todos.

 

Se não tivesse essa atitude fatalista, teria medo o tempo todo, é isso?

Sim. Amei cada minuto no aeródromo, as rondas a servir chá durante a noite, cheia de frio, com as mãos geladas. Odiava cada dia ou hora que estava longe dali.

 

Se entendo correctamente, estar numa situação tão intensa como aquela que descreve é como tocar a vida com as mãos.

Não sei. Para mim cada dia era outro dia, qualquer coisa iria acontecer. No dia 8 de Maio de 1945, estava de licença em Londres e queria ver o filme E Tudo o Vento Levou. Acho que chorei. Depois saí e toda a gente na rua tinha bandeiras. “A guerra acabou!” Eu só disse: “Merda!”

 

Como assim?

Porque, para mim, era o fim de um trabalho. Não iam precisar mais de mim. O que é que eu ia fazer? Teria que voltar para Paris, para junto dos meus pais e irmãos? Foi o que fiz, dois meses depois. Mas tinha muitas saudades do meu trabalho. Então, trabalhei na messe dos British Officers, servindo soldados britânicos, na Rue du Faubourg Saint-Honoré, durante seis meses.

 

A sua família era muito rica. Presumo que nunca tenha tido um trabalho, a oportunidade de ser útil aos outros. Sentia-se útil, durante a guerra, mais do que na sua vida anterior?

Muito mais. Eu andava às volta com os carros, as cantinas móveis, e trabalhava no barracão da cantina. Tinha que limpar o chão, tinha que fazer todo o trabalho sujo.

Mas houve uma coisa que me tornou muito dura. É que quando morria um marido ou um namorado de uma das raparigas que trabalhavam comigo mandavam-me a mim dar a notícia. Levava dois copos e um pouco de sherry e bebíamos por eles.

 

Permitiu-se chorar no E Tudo o Vento Levou....

Exactamente. Estava irritada porque a Scarlett [O’Hara] não disse  ao Rhett Butler que o amava. Creio que foi a última vez que chorei. [Para a filha, que está presente] Nunca me viste chorar, pois não?

 

A sua filha nunca a viu chorar. Porque é que nunca chora?

Passa-me por cima. Não vou a funerais, só fui ao dos meus pais. Para mim, as pessoas não estão mortas. Acredito que as vou encontrar novamente, noutro sítio. Porquê acreditar na morte? É estúpido. Vou fazer 96 anos. Se pensar que daqui a um mês não vou estar cá, é bem aborrecido. Mais vale viver.

 

Não compreendo porque é que nesse filme, nesse momento específico, se permitiu chorar.

Devo ter pensado em todas as aventuras amorosas que tive durante a guerra. Quando me apaixonava por um piloto, sabia que, provavelmente, não o veria de novo. Não era permitido dizer adeus. Não era permitido amar. Não era permitido amar nada. Caso contrário, teria sido corrida do aeródromo. Nunca sabíamos quando partiriam. Depois apaixonávamo-nos por outro, vinham outros esquadrões.

 

Portanto não é uma pessoa pesada. Consegue aligeirar.

Sim. Mesmo quando morreu uma das minhas melhores amigas, a Solange, há três ou quatro anos... Ela era ginecologista e lutou durante a guerra. Eu disse: “Espero que tenha sido pacífico, que tenham estado ao lado dela.” É tudo. Quem sabe se um dia a encontro na rua...

 

(Sandra, a filha – E como se sentiria se eu morresse?

Yvette – Pensaria que tu e eu vivemos momentos maravilhosos.

Sandra – Não iria chorar?

Yvette – Não. Não consigo, Sandra. Só choro com cebolas!)

 

Na sua infância, chorava?

Creio que não. Os meus pais nunca nos bateram. Não tomavam conta de nós. Tínhamos amas. Na escola, eu era a melhor aluna. Não tinha motivo para chorar. Ah..., chorei quando joguei pela França pela primeira vez, contra a equipa americana de golfe.

 

O choro pode não ser a sua maneira de expressar sofrimento. Mas sofreu, com certeza.

Não acho que tenha sofrido.

 

(Sandra – Sim, mamã. Quando o Robert lhe foi infiel.

Yvette – Estava zangada. Mas não chorei. E não durou muito.)

 

Qual é a sua definição de medo e de coragem?

Conto uma história. Em Junho de 1940, em França tínhamos os alemães no encalço.

 

A entrada das tropas alemãs em Paris data de 14 de Junho de 1940.

Disseram-nos que todos os cidadãos britânicos, com passaporte, seriam levados para a Alemanha, e que todos os judeus seriam enviados para Auschwitz. Eu tinha passaporte britânico, mesmo sendo francesa, porque o meu primeiro marido, Francis Ricardo, era inglês. Casámos em 1937 e estávamos a viver em Inglaterra quando a guerra começou. Antes disso tínhamos vivido uns meses em Portugal. Ele era attaché [adido] na embaixada em Lisboa.

A família do meu marido estava na Escócia, ele estava no exército inglês. Em 1940 fui a França visitar a minha família. Com a ocupação de Paris, tive que deixar os meus pais, tentei escapar. Tinha o meu bebé, a ama, fui de carro até Espanha.

 

(Sandra – O passaporte da minha mãe tem um carimbo de 21 de Junho de 1940, do Consulado de Portugal em Baiona. É bem provável que o seu visto tenha sido passado por Aristides Sousa Mendes.

 

Depois de Bordéus, Sousa Mendes desloca-se para Baiona, que estava a cargo do cônsul José Faria Machado, com o apoio do vice-cônsul honorário, Vieira Braga. Eram dependentes do Consulado de Bordéus. E continua a passar vistos, de 20 a 23 de Junho. Dia 23 é demitido por Salazar.

Sandra – O sogro da minha tia, irmã da minha mãe, conhecia o cônsul em Baiona. Tentavam escapar juntas. Mas a mãe ficou no carro, não entrou no consulado.)

 

Em Espanha vendi o carro e segui de comboio até Lisboa, onde apanhei um navio para Inglaterra. A minha irmã seguiu para os Estados Unidos. Eu era uma refugiada. Mas medo, nunca tive. Era sempre: “Vai! Vai!” Tinha que ir, ir.

 

O que é que lhe dizia ao ouvido: “Vai! Vai!”?

Era na minha cabeça. “Vai!” Tenho gosto em ajudar. Tinha um restaurante, Os Três Porquinhos; entrava nas cozinhas, perguntava se podia ajudar a arranjar o peixe, o que fosse. Julgo que o que me fez ser assim foi a guerra, foi ter trabalhado naquelas cantinas, sem me preocupar comigo, ou com o meu filho.

 

Em criança, entrava na cozinha?

Não, não era permitido. Ao jantar havia uma criada e um criado, serviam os dois. Nunca podíamos falar à mesa. Até aos 14 anos comíamos nos nossos quartos com as amas. Quando comecei a ser uma boa jogadora de golfe, pude sentar-me à mesa.

Eu adorava os meus pais, mas se quisesse fazer uma pergunta sobre o meu trabalho, ou qualquer outra coisa, o meu pai responderia: “Tu devias saber.” A minha mãe vinha para a escola connosco. Sentava-se atrás de mim, com as agulhas de tricot. Eu não podia fazer isto, nem aquilo. Era muito rígida. E tinha aulas de piano todos os dias – odiava. Não podíamos dizer “não”. Está tudo escrito no meu diário. (Consegui ficar com os meus diários de 1931, 32, 33, 39).

 

Nunca se tornou rebelde?

Sim, no dia em que casei com o meu primeiro marido. Tinha 19 anos, conheci-o quando a França jogou contra a Inglaterra. Estivemos juntos seis dias. Depois ele seguiu-me até Paris, pediu-me em casamento e eu disse “sim”.

 

Assim?

Assim. E não tinha qualquer ideia sobre o aspecto de um homem. As estátuas de homens, que víamos em Versalhes, têm o zizi partido. Como eu não tinha irmãos e o meu pai não se mostrava, nunca soube como era um homem. Nos quadros, viam-se mais mulheres, nunca se viam homens.

 

Nunca falou sobre sexo com amigas ou com as suas irmãs?

Nem pensar.

 

O seu primeiro marido foi a personificação do príncipe que a salva (desse mundo rígido)?

Sim. Eu não o amava assim tanto... Quando foi para longe durante a guerra e conheci todos aquele pilotos simpáticos... Um dos meus primeiros amantes foi um piloto, obviamente. E quando o meu marido regressou, três anos depois, não quis voltar para ele. Foi aí que iniciámos o processo de divórcio.

 

Trabalhando nas cantinas durante a guerra, estranhamente, compreendeu o significado de liberdade? Finalmente era livre para viver a sua vida.

Exacto. Descobri o sexo também.

 

Que papel teve o sexo na sua vida?

Sexo? Eu adoro sexo! [risos]

 

Quem foi o amor da sua vida?

Essa é uma pergunta muito complicada. Não foi o meu [primeiro] marido. Todos gostavam dele, tudo muito bem, mas amor, não. [Para Sandra] O teu pai [segundo marido]... Em 1945, acabada de regressar a Paris, fui com uma amiga a um apartamento onde se lia a sina. Aquela mulher, que não me conhecia de lado nenhum, disse: “Ah, é divorciada e vai conhecer um homem alto e louro. Provavelmente, casa-se com ele.” No ano seguinte fui jogar à Holanda. A primeira pessoa que vi foi um homem alto e louro. Pensei: “Se calhar era este que estava na sina.” Jogámos golfe, dois ou três dias, e uns dias depois propôs-me casamento.

 

(Sandra – Disse-me que houve um homem que amou realmente.

Yvette – Foi o Olivier Massard. Era um piloto francês. Esteve um mês doente, apaixonámo-nos. Depois partiu. Eu tinha certeza de que ele ia morrer, mas dois anos depois regressou ao aeródromo. Tinha sido feito prisioneiro de guerra.)

 

Imagine um amor como o que Rhett e Scarlett tiveram...

Isso acho que não tive.

 

Como é que a sua família lidava com a sua vida amorosa?

Uma vez, quando estava casada com o pai da Sandra, fui jogar ao Luxemburgo. Um americano deu-me boleia para casa. Mas em vez de me levar para casa, levou-me para um sítio na costa. Estava lá alojado o namorado da minha irmã mais velha, que me viu, e que lhe contou que eu estava a passar a noite com um americano. Ela ficou horrorizada e contou aos meus pais, que também ficaram horrorizados. A minha mãe ligou ao pai da Sandra, que se estava nas tintas (ele estava com uma amiga belga...).

Quando voltei para Paris, dois dias depois, o meu pai veio ao meu quarto. Disse-me que se eu voltasse a fazer aquilo nunca mais entraria naquela casa.

 

Tinha vergonha?

Sim, vergonha. Se eu saísse com amigos, mesmo depois de me ter divorciado do pai da Sandra, e se voltasse a casa à uma da manhã, o meu pai esperava numa cadeira no cimo da escada. (Depois do divórcio vivi uns anos com eles.)

 

(Sandra – Talvez o meu avô gostasse mais de ti... Ou talvez fosse mais possessivo.)

 

O seu terceiro casamento foi com um dinamarquês.

Tinha-o visto três vezes, na Dinamarca. Seguia-me para todo o lado. Ficou três horas à minha porta, até eu fazer as malas e ir com ele para a Dinamarca. Ele teria ficado toda a noite. (O que é que tu terias feito, Sandra?

 

Sandra – Depende do dinamarquês! [risos])

 

Depois da Sandra não pude ter mais filhos. Porque é que me casei com todos estes homens? Porque eu não podia continuar com os meus pais e não tinha dinheiro.

 

Houve períodos com menos dinheiro na sua vida, mas, no fundo, houve sempre dinheiro. Que relação tem com o dinheiro?

Durante a guerra, estava com o meu filho e a ama numa pensão horrorosa. Fiquei lá cinco anos. Não tinha dinheiro, vivíamos no sótão sem aquecimento, excepto quando estávamos doentes. Eu não pagava nada, eram os meus sogros que pagavam. A minha sogra era riquíssima. Pagavam a pensão e a ama e eu era voluntária no YMCA [Young Men’s Christian Association].

[Em 1940], quando fugi de França, o meu pai tinha-me dado, a mim e à minha irmã, um envelope, fechado. Quando cheguei à Escócia pu-lo num banco, no Barclay’s, e esqueci-me completamente. Depois de ter casado novamente, com o pai da Sandra, (o teu pai não tinha dinheiro nenhum, vivíamos com muito pouco), o meu pai deu-me um carro e perguntou-me pelo envelope. Ainda estava no banco! Eram acções e valiam algo como 15 milhões de francos antigos no total, cinco milhões para cada irmã.

 

Sandra – Poderia ter vivido muito bem durante a guerra! Para a mamã, o dinheiro não tem importância. Ela ainda vive como se...)

 

Agora já não resta quase nenhum! Eu conto os anos. Penso: “Se tiver mais dois anos, tudo bem.” Tenho mais cuidado. Em vez de ir a restaurantes caros vou a outros onde pago sete euros por refeição. E sabem que eu tive o Três Porquinhos, sabem quem eu sou...

 

Qual é a história do Três Porquinhos?

(Sandra – Quando a mamã veio viver para Portugal com o marido dinamarquês abriram uma charcutaria e um restaurante francês. Os meus avós acharam estranho... A família é judia, portanto ter um restaurante chamado Os Três Porquinhos... [risos])

Eu vendia na loja! Trabalhava, servia, comprava as coisas. Comprei a maquinaria, tudo caríssimo. Costumava entregar no hotel Ritz, e ia de colar de pérolas. Mas não funcionou. Os portugueses ricos, na época, tinham todos cozinheiros, não precisavam de nada. Depois comecei um negócio de frango, uma vez mais com ajuda dos meus amigos chefs franceses. Aqui nunca se tinha visto frango no espeto.

 

Para as pessoas do seu meio, trabalhar durante a guerra era um acto de resistência e coragem. Trabalhar num restaurante ou numa charcutaria, em Portugal, era declassée?

Eu costumava jogar golfe com os Espírito Santo. Quando abri a charcutaria, nenhum deles vinha à minha loja. Achavam que era abaixo [da sua condição social]. Até que o Conde de Barcelona, o rei [Juan de Bourbon, pai do actual rei Juan Carlos], veio ao meu restaurante. Eu jogava golfe duas vezes por semana com ele. Vinha comer omelettes com a condessa, com as filhas, vinham todos. O Rei de Itália só ia se eu estivesse lá. Depois disso, todos os meus amigos snobs passaram a aparecer.

 

Os seus pais alguma vez a visitaram em Portugal, no restaurante?

Uma vez, sim. O meu pai morreu em 1964, a minha mãe em 66, eu abri o restaurante em 1958.

 

O que sentiu quando morreram?

Lembro-me muito bem do dia, 17 de Março de 1964. Estava a jogar golfe no campeonato português, estava no décimo nono buraco; apareceu a correr a secretária do Golfe do Estoril que me disse: “Tem aqui um bilhete, tem um táxi à sua espera. O seu pai acabou de morrer”. Nem acabei o jogo. Em 1966, quando morreu a minha mãe, aconteceu exactamente a mesma coisa.

 

Isso é uma descrição de como aconteceu. Eu pergunto-lhe o que sentiu.

Os meus sentimentos... Cheguei a Paris e estive com o meu pai, sozinha, no quarto. Queria falar com ele... A minha mãe, quando a vi no caixão, disse: “Não quero ver mais ninguém assim. É a última vez.”

 

Desculpe dizer isto a uma senhora que passou os 90, mas às vezes parece fazer uma recusa infantil da morte.

Não faz mal, pode dizer. O meu pai era lindo. Não o queria ver assim, morto, no caixão. E no dia em que eu for, não quero que chorem por mim. Quero que bebam champagne por mim. Como com um piloto.

 

Gostava de saber mais sobre a sua infância e a sua família. Pode fazer-me um retrato?

O meu pai nasceu em Paris, em 1872. A minha mãe nasceu em 1885. O meu pai era muito inteligente e quando tinha 20 anos começou a trabalhar na companhia de petróleo [Royal Dutch] Shell; era presidente do conselho de administração da Shell francesa. Continuou lá até aos 85 anos.

 

(Sandra – Pensei que ele e o tio Henri Kapferer tinham encontrado petróleo em Sumatra.

 

Isso foi o tio Henry, não foi o meu pai.) O meu tio, irmão do meu pai, e um ano mais velho que ele, encontrou um [poço] em Sumatra. Era sobrinho do [magnata do petróleo] Deutsch de la Meurthe, fundou a Air France e ajudou Santos Dumont a construir um pequeno avião.

 

Deutsch de la Meurthe patrocinou a aviação no começo do século XX. Instituiu um importante prémio, que foi ganho por Santos Dumont. Foi esse montante que lhe permitiu construir os primeiros balões dirigíveis com motor a gasolina. Santos Dumont era brasileiro. Um dos aeroportos do Rio de Janeiro chama-se Santos Dumont.

Era um grande amigo nosso. Ensinou-me a esquiar. Dumont costumava aterrar um pequeno avião nos Campos Elísios, em Paris, sair e ir ao restaurante.

 

Como se estacionasse um carro.

Sim. Santos Dumont pediu ao Cartier, que conhecia pessoalmente, para lhe fazer um relógio com uma correia, [para o pulso], porque quando conduzia tinha que usar as duas mãos e não podia olhar para as horas no relógio de bolso.

Construiu um zeppelin para atravessar o Atlântico e o meu tio foi com ele. Ali ao pé das escadas, encontra um quadro que um pintor francês pintou para o meu tio no seu aniversário: é um desenho desse famoso avião, que era dele e do Santos Dumont.

 

Dê-me mais detalhes. Como era o seu quarto? Como era a sua casa? Como era o seu dia-a-dia?

Era uma casa muito grande numa avenida grande, em frente à câmara municipal. Tinha quatro andares mais um quinto, para os cozinheiros, o porteiro, todo o pessoal. Tínhamos um jardim grande e uma outra casa no fundo do jardim e uma garagem. A casa de jantar era interessante. Havia frescos e telas pintadas por Maurice Denis. Durante a guerra a nossa casa foi ocupada por generais da Gestapo, e quando se foram embora, em 1944, levaram todos os quadros e enviaram-nos para Göring. Mas não levaram as pinturas de Maurice Denis porque acharam que estavam pintadas na parede [e que não eram transportáveis]. Depois da guerra, a família conseguiu reaver muitos quadros. Muitos deles tinham as iniciais do meu pai no verso da tela.  

 

A colecção de arte da família era importante.

Todas as salas, a escadaria, estavam cheias de quadros. Não havia um milímetro sem quadros. Eu e as minhas irmãs fomos pintadas por Maurice Denis, a família foi pintada por Édouard Vuillard. Recentemente houve uma exposição no Jewish Museum em Nova Iorque, e esses retratos da família constituíam alguns dos quadros mais importantes da exposição. Outra vez fomos ao Metropolitan [em Nova Iorque] e vimos quadros do Maurice Denis: “Este estava na nossa sala de jantar!”, disse à Sandra.

Depois subíamos as escadas e os quartos não eram muito simpáticos. Partilhava o quarto com a minha irmã mais velha. Tínhamos duas camas.

 

Numa casa tão grande, porquê?

É espantoso, mas era assim. Tínhamos uma casa de banho para três quartos. Lá em cima havia um grande estúdio onde a minha irmã viveu depois. Os nossos pais recebiam imenso. Não era permitido, mas sentávamo-nos no topo das escadas para ver as pessoas chegar. Refeições de sete pratos.

 

Parece a série de televisão Downton Abbey.

Sim, sim.

 

Sofreu quando soube que a sua casa tinha sido ocupada por generais alemães?

E com a bandeira da Gestapo no exterior. Eu não sabia. Só soube muito depois. Nem os meus pais sabiam.

 

(Sandra – Mas ninguém tentou dizer-lhes, ou a si. A mãe tinha uns amigos na Resistência; podiam tê-lo mencionado, que tinham visto uma bandeira da Gestapo à porta da sua casa.)

 

Não tínhamos autorização para dizer quem éramos durante os anos da guerra. E os pilotos, não sabíamos quem eram. Em 1945 quando voltei para casa dos meus pais, estava no jardim e de repente entrou um piloto. Não o tinha visto senão uma vez durante toda a guerra, pensei que estava morto. Ele tinha tentado encontrar-me para me agradecer todo o trabalho que tinha feito, juntamente com outros pilotos que estavam vivos. Chamávamos-lhe Pupi. O seu nome era Henri de Bordas [era um ás da aviação]. Morreu o ano passado. Vi-o todos os anos depois disso.

Mas tenho de lhe contar uma história muito importante. No dia 24 de Dezembro de 1942 disse que ia passar o Natal com um amigo meu. Era o irmão da Madame Citröen, dos carros.

 

Os Citröen eram amigos da sua família?

Sim. A Madame Citröen tinha um irmão 20 anos mais novo, Jacques. Sabia que ele estava em Londres, costumava ficar no apartamento dele se não ficasse com os pilotos em qualquer lado. Ele estava de roupas civis e eu disse-lhe: “Estou sempre de uniforme, a trabalhar noite e dia, e aí estás tu...”. Ele respondeu: “Vou levar-te a sair”. Pôs-me uma venda nos olhos. Apanhámos um táxi. Entrámos num restaurante (perguntei-me onde estaria). Uma passagem, degraus, ele abre uma porta, tira-me a venda. Toda a Resistência francesa estava lá. Quase desmaiei. Ele era o líder. Sabe quem foi Jean Moulin?

 

Sim, o herói da Resistência que foi morto por Klaus Barbie, o homem da Gestapo que ficou conhecido como “o terror de Lyon”.

Foi ele, Jacques Bingen, irmão de Madame Citröen, que substituiu Jean Moulin quando este morreu. Há uma rua em Paris com o nome de Bingen. Foi traído pelo assistente, belga, que estava com ele há um ano. Foi torturado pela Gestapo e conseguiu matar-se antes de falar, de revelar nomes [de outros membros da Resistência].

Nesse 24 de Dezembro, Bingen disse-me que uma coisa muito importante ia acontecer, e foi a noite em que o [François] Darlan foi morto, na Argélia.

 

General Darlan, primeiro-ministro francês, foi acusado de colaborar com a Alemanha nazi e foi morto pela Resistência em 24 Dezembro de 1942. Quanto à sua família, onde é que passou o período da guerra?

Quando fugi para a Grã-Bretanha em Junho de 1940, deixei em Paris os meus pais. Os alemães estavam a chegar muito depressa, no dia seguinte chegariam. Os meus pais foram primeiro para Périgueux, em Bordéus, onde estava o meu tio, e ficaram lá. Daí foram para Cannes, que não estava ocupada pelos alemães. Montecarlo também não estava ocupada. Em 1943 o meu pai teve uma amante russa – teve-a durante anos; a criada da amante tinha um namorado alemão. Foi através da criada que [a amante do meu pai] conseguiu uma lista de todos os judeus que estavam em Cannes e Montecarlo. Nessa lista viu o nome dos meus pais, e de imediato, nessa noite, saíram, com a minha irmã, para o centro de França.

 

Sandra – Depois da guerra, a minha avó teve que agradecer à amante [o facto de lhe ter salvo a vida, revelando que os nomes estavam na lista e fazendo-os fugir].

 

E eu também, eu também lhe agradeci. Ela era muito feia, devo dizer, e gorda. As minhas irmãs não quiseram vê-la. Mas ela salvou os meus pais.

 

Já contou que esteve em Lisboa, em Junho de 1940. Lisboa era o último porto livre da Europa e a maior parte dos que aqui conseguiam chegar queria seguir para a América. Apenas uma pequena percentagem desses refugiados ficou em Lisboa. A América não era uma hipótese para si, como foi para a sua irmã?

Eu queria voltar para a Escócia, não queria ir para a América. A minha irmã queria ir para a América, porque o sogro tinha casas em Nova Iorque. Embarquei num navio de tropas, no qual conseguiram colocar alguns refugiados. Levou uns cinco ou seis dias. As cabines eram horríveis, não tínhamos nada. Desembarcámos em Glasgow, tivemos de ser vistos por médicos. Eu disse que queria ir para Edimburgo, de onde tinha saído um mês antes. “Quero voltar para onde estava”. Em Edimburgo fui para um dos hotéis mais caros. Sem dinheiro. A única coisa que eu queria era caviar e champanhe [riso]. Precisava muito, depois de um mês a tentar fugir. E de um banho.

No dia seguinte fui para North Berwick, onde fiquei cinco anos. Um dia o oficial dos Serviços Secretos chamou-me e disse: “Mrs. Ricardo – que era o meu nome naquela altura – “descobrimos que não é uma espia. Sendo você francesa, com um passaporte que acabou de vir de Lisboa – onde havia tantos espiões durante a guerra –, pensámos que era uma espia”.

 

O nome de família do seu primeiro marido era Ricardo. Uma família de judeus sefarditas?

É um nome espanhol. Eram judeus, mas converteram-se ao catolicismo há séculos. O meu marido era bisneto do David Ricardo, o [famoso] economista.

 

Em nenhum momento mencionou, mesmo quando falou da sua família, a importância da religião. Ser judia influenciou toda a sua vida, as suas decisões?

A minha mãe era mais judia, o meu pai não se interessava. Tive de fazer a minha iniciação, toda vestida de branco, quando tinha 13 anos. Aprendi hebraico, mas já não sei nada. Não era religiosa, não rezava aos sábados. O pai da Sandra era da Igreja Reformista Holandesa, toda a família era. Protestantes. Casei também toda vestida de branco. O meu marido dinamarquês era luterano.

 

(Sandra – Há um filme sobre a vida de Alain Oulman, feito pelo filho há dois anos. Perguntam a dada altura: “Então, são uma família judia?”. E uma das irmãs responde: “Judia, mas não muito”. Com os meus avós era também assim.)

 

Fui a um casamento judeu em Genebra, há três anos, numa sexta-feira à noite. Estavam 60 pessoas no jantar. Por ser uma das mais velhas, deram-me o pão para partir. Eu não sabia o que fazer com ele... A minha vizinha, que não era judia, muito engraçada, disse: “Parta-o e distribua-o por toda a gente”.

Cada pessoa tinha um livro de orações, de um lado em hebraico, do outro em francês. Foi muito impressionante porque todos os homens se levantaram e cantaram, em hebraico.

 

Em suma, a religião não é uma dimensão essencial na sua vida.

Não. Mas tenho primos que foram levados para Auschwitz e mortos lá. Uma das primas, quando voltou, tinha 25 quilos. Casou com um indivíduo que a salvou de morrer obrigando-a a comer relva da estrada quando trabalhavam nos carris.

 

Mais que tudo, o que é que a fez lutar em Inglaterra, fazer o seu trabalho?

Foi porque tinha que ser. Todos tinham de trabalhar, cumprir o seu dever. Até uma certa idade, tinha de se contribuir para o esforço da guerra. A ama do meu filho tinha 35 anos, eu tinha 20. Disse-lhe: “Eu é que vou fazer o trabalho de guerra. Você toma conta do bebé”. Eu não queria tomar conta de um bebé.

O meu primeiro trabalho foi trabalhar numa fábrica de tomate. Odiava tomate. Eles sabiam que pelo menos não os ia comer. Ninguém queria trabalhar lá porque cheirava muito mal, a enxofre, e as pessoas ficavam doentes.

 

Houve um período, durante a guerra, em que dormiu com quadros valiosos debaixo da cama. Quadros de pintores célebres, valiosos, da colecção da sua família.  

O que tinha debaixo da minha cama, durante a guerra: um [Raoul] Dufy, um [Odilon] Redon, coisas dos meus pais. Podiam ter sido bombardeados ou desaparecido, e por isso achei que o melhor era usar o dinheiro. Vendi o Dufy por uns trocos, infelizmente.

Quando o meu pai descobriu que eu não tinha dinheiro nenhum (ele estava em Cannes), mandou-me 400 libras. Era muito dinheiro naquele tempo. Pagavam-me uma libra por semana no YMCA... Gastei-o. E também o de todos os amigos que me emprestaram dinheiro. Com champanhe e outras coisas. Quando tinha um dia livre, ia a Londres divertir-me. Quando se sabe que se vai morrer, o que é que interessa [o dinheiro]?

 

Depois da guerra, mudou-se para Portugal. Em que circunstâncias veio?

Mudei-me em 1957. Casei em 1956, vim a Portugal na minha lua-de-mel, com o meu marido dinamarquês. Ele nunca tinha visitado Portugal. Na Dinamarca, durante o Inverno, nevava, estava frio. Eu não falava a língua. Vivíamos numa casa pequena, simpática, que comprei (ele não tinha dinheiro). Aqui, em Fevereiro, estava muito agradável, ensolarado. Ele disse: “ Se conseguires alugar ou vender a casa, podemos ir viver para Portugal”.

 

Por causa do tempo mudou de país?

(Sandra – Fico tão feliz por isso ter acontecido. Adoro Portugal.)

Vendi a casa ao consulado belga.

 

O golfe era uma grande paixão? Foi campeã de França.

Depois, talvez. Comecei a jogar golfe quando tinha sete anos, nas montanhas, no Verão. Está no meu livro de bebé: ganhei um relógio de ouro aos sete anos porque ganhei, fiz um bom resultado. Depois, como os meus pais sempre nos incentivaram a jogar ténis ou golfe, escolhi o golfe. Estava na equipa francesa quando ganhei o primeiro campeonato, em 1934. As francesas, ao contrário das inglesas, que iam muito mal vestidas, eram muito elegantes.

 

Como é que era a roupa?

Tínhamos calças muito justas. Jogámos na Escócia contra os ingleses (deve ter sido em 1955); elas ainda jogavam de saia, não consentiam calças às raparigas.

Em 1940, quando estava na Escócia, antes de ir para Paris, decidi comprar um novo conjunto de tacos a um famoso professor. Cheguei a Paris com eles e nunca esquecerei a cara dos meus pais: “Mas que raio vais fazer com isso?”, “Vou jogar golfe”. Em França não se jogava golfe durante a guerra, mas eu não sabia isso. Quando fugi da casa de Paris, os meus pais obrigaram-me a deixar os tacos de golfe lá. E também todos os meus vestidos de noite. No final, foram os alemães que os usaram.

 

No início da nossa conversa, antes de começarmos a gravar, disse-me que nunca beijava os seus filhos quando eram novos. Esse tipo de ternura não é o seu género. Com quem é que tem, hoje, uma relação íntima?

Julgo que com ninguém, além da Sandra. Mas provavelmente também não te conto tudo, conto? Agora não tenho vida sexual [risos].

 

(Sandra – Quando a mãe fez 90 anos, fiz um discurso. Expliquei a todas as pessoas – vieram de todo o lado para a ver –, que ela era uma péssima mãe. Na verdade não gostava de crianças. Devia preferir jogar golfe, tomar conta do cão, tudo menos crianças. Mas ambas tivemos muita sorte. A minha mãe esteve muito doente. Teve tuberculose aos 60 anos, passou um ano num sanatório em França, entre 1976 e 1977. Eu estava a passar por um divórcio. Calhou que eu tinha tempo e fui passar dez dias todos os meses com ela: tornámo-nos boas amigas. No final do discurso disse: “Pode não ser uma grande mãe, mas é uma amiga maravilhosa”. A mãe tem amizades muito profundas. Não é de abraços... Em vez do abraço dá atenção, lembra-se dos aniversários, liga.)

 

Quer dizer que muito depois da guerra voltou a sentir a morte a rondar...

E no Vietname cortaram-me uma parte da perna. Fizemos a viagem juntas. Quando saí da sala de operações às sete ou oito horas da manhã, a única coisa que dizia à Sandra era: “Vai buscar-me o patê, vai buscar-me o gelado”. Lembras-te? Todos os dias tinha que saber o que era a comida. E quando estava a fugir [em 1940] era a mesma coisa.

 

Pensar em comida numa situação extrema pode ser uma forma de fuga. Ou simplesmente uma expressão de vitalidade.

Adoro ir a restaurantes. Vou às tascas. [Para Sandra]: tu não gostas de ir. Sou tão bem tratada. Há empregados à minha volta, todos me conhecem. Não sou snobe, nunca fui. O meu restaurante era frequentado por reis. Recebia-os com um vestido, as minhas pérolas. Não tinha dinheiro [risos], mas tinha um maravilhoso [relógio] Cartier em diamantes.

 

Termino perguntando sobre a sua última refeição. O que é que gostaria de comer, se pudesse escolher?

Sei qual seria a sobremesa: pudim de sêmola. E um pregado com molho holandês. E um pouco de caviar para começar. E para beber Pimms #1. Quando estava na Escócia, a cada pub que íamos, a primeira coisa que pedíamos era Pimms #1.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

200 anos, 200 livros

05.05.22

ESAÚ E JACÓ

MACHADO DE ASSIS

“Todos os oráculos têm o falar dobrado, mas entendem-se.” Todos os países têm um falar inexplicável, um quê de Flora. Mas em Esaú e Jacó, os signos deste mistério que é o Brasil, conhecem alguma decifração.

Pedro e Paulo brigam desde o ventre. Como não brigar com o outro lado de si? Os gémeos são os apóstolos, Ulisses e Aquiles, Portugal e Brasil, Monarquia e República, a cabocla e o espírita, encarnam um infante absolutista, o outro liberal, são o passado e o futuro.

Os olhos de Machado de Assis estão na fractura e na transição, revelam as coisas que ainda não são e as coisas que já deixaram de ser. A vida nunca fica parada. A História também não.

 

TANTAS PALAVRAS

CHICO BUARQUE

Chico é um poeta dos maiores. Há anos que profetizo que um dia vai ao Nobel, bem antes de Bob Dylan, e agora difícil ou impossível por causa de Dylan.

Nas letras das suas canções, encontro as raízes do Brasil, uma genealogia sem fim, Noel Rosa, Vinicius, o subúrbio e a orla do mar, o futebol, a política, o samba da Mangueira, a erudição de, por exemplo, Leite Derramado, um gingado sincrético que só ele é capaz de fazer. Jobim resumiu bem: Chico é génio da raça.

Leio Tantas Palavras e desenrola-se um mapa. Ainda que não ouça a melodia, a voz de Chico, escuto uma sinfonia. O seu nome é Brasil.

 

VISTA CHINESA

TATIANA SALEM LEVY

Não se pode entender o Brasil sem o negro, sem o índio, sem a pobreza, sem o terreiro, sem a imigração, sem a violência sobre a mulher.

Vista Chinesa é um romance-soco, é o corpo da mulher transformado em campo de batalha. Batalha contínua, ancestral. Como se não fosse nada. No silêncio da carta que a protagonista escreve aos filhos, e que importante a noção de transmissão, escutamos um grito que esteve surdo, e que finalmente começa a ser audível. É corajoso, é urgente, é potente. Revela o medo, a lâmina afiada sobre a cabeça das mulheres, o sabor da jaca. E aponta para o futuro, a superação, a luz.

 

200 anos, 200 livros é um projecto que, no Bicentenário da Independência do Brasil, elabora uma lista de livros que ajudam a entender o Brasil. Fui convidada a integrar um conselho de 169 pessoas que amam e lêem o Brasil (obrigada) pelo José Manuel Diogo e pelo Sérgio Dávila (da Folha de São Paulo), indicando três livros. A coordenação científica do projecto, que permitiu chegar à lista agora divulgada pelo jornal brasileiro, é da historiadora Heloísa Starling. Estes são os três livros que indiquei. A lista final dos 200 está disponível no site da Folha.